www.scielo.br/eq Volume 35, número 2, 2010 45Ecl. Quím., São Paulo, 35 - 2: 45 - 49, 2010 Artigo/Article Comparação de téCniCaS analítiCaS para a extração de potáSSio de amoStraS de teCido Vegetal Com água e SoluçõeS áCidaS ConCentrada e diluída Alberto C. C. Bernardi1, Sílvia Harumi Oka2 e Gilberto B. de Souza1 1 Embrapa Pecuária Sudeste, Caixa Postal 339, 13560-970 − São Carlos, SP. E-mail: alberto@cppse.embrapa.br. 2 Química – UFSCar, São Carlos, SP. resumo: O aprimoramento dos métodos analíticos faz com que a busca por novas tecnologias rápidas, exatas e de custo reduzido estejam constantemente sendo revistas e avaliadas. O obje- tivo deste trabalho foi comparar três formas de extração de K (decomposição nítro-perclórica, extração com água e extração com solução diluída de HCl) de amostras da parte aérea de capim-tanzânia (Panicum maximum cv. Tanzânia) e de alfafa (Medicago sativa cv. Crioula). Os métodos de extração de K de amostras de tecido vegetal de capim-tanzânia e alfafa com solução ácida diluída ou com água apresentaram-se equivalentes ao método tradicional da decomposição nítro-perclórica e podem substituí-lo. palavras-chave: decomposição nitro-perclórica, HCL 1 mol L-1, extração com água. introdução No metabolismo vegetal, o potássio (K) atua na regulação do potencial osmótico celular e é muito importante no balanço das cargas ne- gativas dos ácidos orgânicos dentro das células e no balanço dos ânions absorvidos pelas raízes. Este macronutriente é também ativador de várias enzimas e portanto requerido em numerosos pro- cessos metabólicos. O potássio é absorvido pelas plantas na forma catiônica (K+) e mantém-se nesta forma; ele não é metabolizado e forma complexos instáveis com ligações fracas [1]. Dessa forma, a quantidade da fração solúvel desse nutriente apro- xima-se da fração total e pode ser um indicativo adequado do estado nutricional da cultura. A análise química quantitativa de tecidos ve- getais é um dos métodos utilizados para avaliar o estado nutricional das plantas, pois constitui uma medida direta da disponibilidade de nutrientes no solo, uma vez que os resultados correspondem à quantidade de nutrientes absorvida pelas plantas. Dessa forma, o teor de nutrientes nos tecidos ve- getais reflete sua real disponibilidade no solo, por- que existe relação direta entre o fornecimento de um nutriente pelo solo ou por um fertilizante e sua concentração na folha, e há relação também dire- ta entre essa concentração e a produção da cul- tura. Tal técnica pode estar sujeita a limitações, tais como: épocas de amostragem, interpretação, contaminação da amostra, e deficiências e exces- sos de nutrientes. Apesar disso, é uma das melho- res ferramentas disponíveis para avaliar o estado nutricional de plantas e para orientar programas de adubação, em associação com os resultados da análise de solo [2]. Para a determinação dos teores de K nas plan- tas, normalmente é necessária a transformação da matriz orgânica (amostra de tecidos vegetais) em uma forma inorgânica simples. O ácido nítrico é freqüen- Ecl. Quím., São Paulo, 35 - 2: 45 - 49, 201046 Artigo Article temente usado nesse processo de decomposição devido sua manipulação simples, fácil purificação e eficiência na oxidação dos compostos orgânicos presentes na amostras biológicas [3]. Assim, o método tradicional utilizado para a decomposição do material vegetal é a via úmida. Me- diante aplicação de uma solução concentrada de áci- dos oxidantes (nítro-perclórica − HNO3 + HCLO4 −, na proporção de 4:1, v.v-1), a matéria orgânica da amostra é totalmente oxidada. Os elementos a serem determinados são solubilizados em meio ácido, em formas inorgânicas simples e adequadas para análise [4]. No entanto, o constante aprimoramento dos métodos analíticos para tecidos vegetais faz com que a busca por novas técnicas de análise rápidas, exatas, de custo reduzido e baixo impacto ambien- tal sejam constantemente revistas e avaliadas. Por isso, nos últimos anos, pesquisas e trabalhos têm avançado significativamente nessa área, sendo que os procedimentos atualmente atendem a uma gama maior de elementos, as técnicas de determinação ganharam em agilidade e confiabilidade e também tornaram-se mais rápidas e precisas [5]. O método empregado, depende dos objetivos do estudo, dos elementos ou compostos a serem analisados e, in- clusive, das potencialidades do laboratório [6], da simplicidade, do custo e da segurança operacional [7]. Dessa forma, existem métodos alternati- vos, que consistem na extração de K com água [8, 9, 10] ou com solução ácida diluída, como o HCl na concentração de 1,0 mol.L-1 [5, 7]. Nesses métodos, apesar de não haver decomposição com- pleta da matéria orgânica, o K e outros elementos são solubilizados; além disso, verifica-se alta cor- relação com outros métodos em que a decomposi- ção da matéria orgânica é total [11]. No entanto, a literatura ainda é relativamente escassa com tra- balhos sobre análise de elementos químicos sem o uso de digestão. O objetivo deste trabalho foi comparar três formas de extração de K (decomposição nítro-per- clórica, extração com água e extração com solu- ção diluída de HCl) de amostras da parte aérea de capim-tanzânia (Panicum maximum cv. Tanzânia) e de alfafa (Medicago sativa cv. Crioula). material & métodos Foram utilizadas 300 amostras da parte aérea de plantas de alfafa e 101 amostras da parte aérea de plantas de capim-tanzânia, oriundas de experimentos com aplicação de doses de potássio. As amostras fo- ram secadas em estufa de circulação forçada de ar, a 65oC, moídas em moinho de facas de aço inoxi- dável do tipo Wiley, passadas em peneira de 1 mm e armazenadas em frascos plásticos. Os procedimentos analíticos adotados foram baseados em Nogueira et al. [4] e Miyazawa et al. [7]. O extrato de K da decomposição nítro-perclórica foi obtido mediante adição de 6 mL da mistura de HNO3 + HCLO4 na relação de 4:1 (v.v-1) a 500 mg (± 0,1 mg) de material seco. A extração com água constou do de aquecimento por 30 min em banho- maria a 80ºC de 500 mg (± 0,1 mg) de amostra em 25 mL de água ultrapura, seguida de agitação por 20min e filtragem. O extrato da solução ácida dilu- ída foi obtido da adição de 25 mL de HCl na con- centração de 1,0 mol.L-1 a 500 mg (± 0,1 mg) de matéria seca, seguida de aquecimento por 30min em banho-maria a 80ºC, com posterior agitação por 20min e filtragem em papel-filtro quantitativo de filtração rápida. Em todos os extratos a determi- nação do K ocorreu por fotometria de chama. Para o estudo de concordância entre os mé- todos da decomposição nítro-perclórica, com água e com solução diluída de HCl utilizou-se a técnica de análise de correlação, o gráfico de dispersão e o ajuste de modelo por meio de regressão linear simples. resultados & discussão A Figura 1 representa a comparação das três formas de extração de K de amostras de tecido vegetal da alfafa, pelos métodos da decomposição nítro-perclórica, e da extração com água e com solução extratora de HCl na concentração de 1,0 mol.L-1. A Figura 1C mostra a correlação linear positiva e significativa entre o métodos com água e com HCl no intervalo de confiança de 95% (t = 1,68). Quando comparados os dois métodos alter- nativos (HCl e água) com a decomposição nítro- perclórica obteve-se correlações lineares positivas Ecl. Quím., São Paulo, 35 - 2: 45 - 49, 2010 47 Artigo Article com intervalos de confiança de 95% (t = −2,81 e t = −4,01, respectivamente; Figuras 2A e 2B). 10 1 2 Figura 1. Comparação de três formas de extração de K (nítro-perclórica  NO3:ClO4, 3 água  H2O e HCl na concentração de 1,0 mol.L-1  HCl) de amostras da parte aérea 4 de alfafa. (n = 300). 5 6 y = 0,789x + 4,6386 R2 = 0,553 10 20 30 40 50 10 20 30 40 50 K_H2O (g kg-1) K _N O 3: C lO 4 (g k g- 1) B y = 0,778x + 4,0955 R2 = 0,5702 10 20 30 40 50 10 20 30 40 50 K_HCl (g kg-1) K _N O 3: C lO 4 (g k g- 1) A y = 0,9749x + 1,9287 R2 = 0,9038 10 20 30 40 50 10 20 30 40 50 K_HCl (g kg-1) K _H 2O (g k g-1 ) C figura 1. Comparação de três formas de extração de K (nítro-perclórica − NO3:ClO4, água − H2O e HCl na concentração de 1,0 mol.L-1 − HCl) de amostras da parte aérea de alfafa. (n = 300). A Figura 2 representa a comparação de três formas de extração de K de amostras da parte aé- rea do capim-tanzânia, pelos métodos da decom- posição nítro-perclórica, e da extração com água e com solução extratora diluída de HCl. Os re- sultados seguiram a mesma tendência observada com a alfafa. Na comparação entre os métodos de extração com água e com solução diluída de HCl e a decomposição nítro-perclórica (Figuras 2A e 2B), não houve diferença estatística significativa, obtendo-se correlações lineares com intervalos de confiança de 95% (t = 1,064 e t = 0,389, res- pectivamente). A melhor correlação foi obtida na comparação dos dois métodos alternativos (água e HCl − Figura 1C), da qual resultou correlação linear positiva e com diferença estatística não sig- nificativa, no intervalo de confiança de 95% (t = 1,501). 11 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 Figura 2. Comparação de três formas de extração de K (nítro-perclórica  NO3:ClO4, 24 água  H2O e HCl na concentração de 1,0 mol.L-1  HCl) de amostras da parte aérea 25 de capim-tanzânia. (n = 101). 26 27 y = 0,9754x + 0,3218 R2 = 0,627 10 15 20 25 30 35 40 45 10 15 20 25 30 35 40 45 K_H2O (g kg-1) K _N O 3: C lO 4 (g k g- 1) y = 0,9103x + 2,4163 R2 = 0,604 10 15 20 25 30 35 40 45 10 15 20 25 30 35 40 45 K_HCl (g kg-1) K _N O 3: C lO 4 (g k g- 1) y = 0,9986x - 0,1998 R2 = 0,901 10 15 20 25 30 35 40 45 10 15 20 25 30 35 40 45 K_H2O (g kg-1) K _H C l ( g kg -1 ) figura 2. Comparação de três formas de extração de K (nítro-perclórica − NO3:ClO4, água − H2O e HCl na concentração de 1,0 mol.L-1 − HCl) de amostras da parte aérea de capim-tanzânia. (n = 101). Ecl. Quím., São Paulo, 35 - 2: 45 - 49, 201048 Artigo Article Estes resultados confirmam a alta mobi- lidade nos tecidos do K, uma vez que o cátion não participar de compostos orgânicos estáveis, acumulando-se no suco vacuolar, o que o torna facilmente lixiviável e de fácil translocação den- tro da planta [1]. Heinrichs & Malavolta [9] e Reissmann et al. [10], utilizando a água quente, também haviam demonstrado que é possível ex- trair quantidades substanciais de K de amostras de tecidos foliares de erva-mate (Ilex paraguariensis St. Hil). E Radomski & Winiewski [8] observaram uma alta correção entre os teores solúveis e totais de K (91%) extraídos de folhas de espinheira-san- ta (Maytenus ilicifolia (Schrad.) Planch). Os resultados indicaram também que a ex- tração sem digestão com HCl mostrou-se eficiente pela rapidez, simplicidade e elevado grau de so- lubilização. Carneiro et al [5] havia comparado a digestão nitro-perclórica e a extração em HCl 1mol L-1 obtendo altas solubilizações e correla- ções entre os métodos foram significativas para os elementos K, Mg e Al. Provavelmente, a menor linearidade entre o método padrão (nítro-perclórico) e os métodos alternativos, nas amostras de ambas as espécies, ocorreu em virtude da formação do perclorato de potássio (KClO4). Apesar de os percloratos de metais serem prontamente solúveis em água, o KClO4 é uma exceção e apresenta baixa solubili- dade. Esse fator pode ter contribuído para a baixa recuperação deste elemento e assim influenciado a correlação com os procedimentos de extração em água e em solução de HCl [12, 13], uma vez que recuperação do K nos métodos com H2O e HCl foram melhores do que a com digestão nitro-per- clórica. Apesar de o método da decomposição por via úmida com a mistura ácida nítro-perclórica ser o mais utilizado na dissolução de tecidos vege- tais e de solubilizar quase totalmente a amostra, ele apresenta algumas limitações, como a emissão de vapores tóxicos, a necessidade de utilização de equipamentos especiais (capelas de gases e blo- cos digestores) e de reagentes de difícil aquisição (controlados pelo Ministério do Exército, pela Po- lícia Civil e pela Polícia Federal), além do perigo de explosão pelo emprego do ácido perclórico na forma oxidada e a quente. Já o método com so- lução de HCl diluído apresenta as vantagens de gerar menos poluição do ambiente (pela menor geração de gases e de vapores tóxicos ou corrosi- vos), de não requerer equipamentos específicos e de ser um método simples, rápido, de baixo custo e de fácil adaptação para análises de rotina. Po- rém, ele possui como limitação a extração parcial de alguns elementos, p. ex., Al, Fe e S [11]. Os resultados indicaram que o método de extração de K de amostras de tecido vegetal de capim-tanzânia e de alfafa com água quente pode ser utilizado, com a vantagem de ser uma extração que não gera resíduos tóxicos ao ambiente. Conclusões Os métodos de extração de K de amostras de tecido vegetal de capim-tanzânia e alfafa com solução ácida diluída ou eventualmente com água apresentaram-se equivalentes ao método tradi- cional da decomposição nítro-perclórica e podem substituí-lo. agradecimentos Ao International Potash Institute - IPI pelo apoio financeiro na execução deste trabalho. Ecl. Quím., São Paulo, 35 - 2: 45 - 49, 2010 49 Artigo Article abstract: The improvement of analytical methods makes the search for new technologies fast, accurate and low cost are constantly being reviewed and evaluated. The main objective of this research was to compare three forms of extraction of potassium (nitro-perchloric decomposi- tion, extraction with water and extraction with diluted solution of HCl) of plant tissues samples of Tanzania grass (Panicum maximum cv. Tanzania) and alfalfa (Medicago sativa cv. Crioula). The methods of K extraction of Tanzania grass and alfalfa plant tissue samples in acid solution or diluted with water were equivalent to the traditional method of nitro-perchloric decomposi- tion and can replace it. Keywords: nitro-perchloric decomposition, HCl 1 mol L-1, water extraction, referências H. Marschner, Mineral nutrition of higher plants. Academic [1] Press, New york, 1995. 889 p. E. Malavolta, G. C. Vitti, S. A. Oliveira, Avaliação do [2] estado nutricional das plantas: princípios e aplicações. Potafos, Piracicaba: 2. ed. 1997. M. Wϋrfels, E. Jackwerth, M. Stoeppler, Anal. Chim. Acta [3] 226(1) (1989) 1. A. R. A. Nogueira, A. O. Matos, C. A. F. S. Carmo, D. J. 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