EQ09-AF Introdução Os hidrocarbonetos policíclicos aromáti- cos (HPAs) compreendem uma família de com- postos que possuem dois ou mais anéis aromáti- cos condensados. Estas substâncias, têm ampla distribuição e são encontradas como constitu- intes de misturas complexas em todos os com- partimentos ambientais[1, 2]. Os HPAs podem ser encontrados em plantas terrestres e aquáti- cas, solos, sedimentos, águas continentais e 69Ecl. Quím., São Paulo, 33(4): 69-78, 2008 www.scielo.br/eq www.ecletica.iq.unesp.br Volume 33, número 4, 2008 Desenvolvimento e aplicação de método GC-MS/MS para análise simultânea de 17 HPAs em material particulado atmosférico J. Cristale*, F. S. Silva, M. R. R. Marchi Departamento de Química Analítica, Instituto de Química, Universidade Estadual Paulista, Rua. Francisco Degni s/no – 14800-900, Araraquara, São Paulo, Brasil. *joycecristale@iq.unesp.br Resumo: Os hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs) estão associados ao aumento da incidên- cia de diversos tipos de cânceres no homem. Essas moléculas são formadas principalmente na queima incompleta de matéria orgânica, sendo encontradas em todos os compartimentos ambientais. Órgãos regulamentadores das áreas ambiental e de saúde ocupacional consideram 17 HPAs como contami- nantes atmosféricos prioritários. Este trabalho apresenta um método para análise simultânea destes HPAs utilizando-se a cromatografia a gás acoplada à espectrometria de massas operando no modo tan- dem (GC-MS/MS). Os limites de detecção e quantificação do método mostraram-se até 5 vezes infe- riores aos obtidos no método GC-MS (SCAN). O método mostrou-se seletivo para análise de HPAs em extratos de amostras de material particulado atmosférico. Uma análise comparativa de dois sistemas de solventes (diclorometano/metanol 4:1 v/v e hexano/acetona 1:1 v/v) para a extração de HPAs, uti- lizando amostras de material particulado atmosférico, revelou que ambas as misturas de solventes pos- suem poder de extração semelhante. Os resultados sugerem que é possível realizar extração de HPAs de material particulado atmosférico em ultra-som com a mistura hexano/acetona (1:1), que é menos tóxica em relação à mistura diclorometano/metanol (4:1), bastante utilizada nestas análises, sem per- das significativas na exatidão do método. Palavras chave: hidrocarbonetos policíclicos aromáticos; GC-MS/MS; material particulado atmosférico. marinhas e na atmosfera[3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11]. Dezesseis destes compostos estão incluídos como poluentes prioritários pela Agência Norte- americana de Proteção Ambiental – EPA[12], enquanto o Instituto Nacional de Saúde e Segurança Ocupacional, também dos EUA, – NIOSH[13] prioriza dezessete HPAs para inves- tigação. O composto adicional na lista NIOSH é o benzo[e]pireno. A Figura 1 apresenta as estru- turas dos 17 HPAs prioritários segundo o NIOSH. EQ09-AF 10/12/08 12:25 Page 69 Os HPAs são formados em processos de combustão incompleta a altas temperaturas, e deste modo, são essencialmente emitidos por todos os tipos de combustão. Quando a matéria orgânica é queimada, em geral é formada uma grande varie- dade de HPAs em diferentes níveis de concentração, e a complexidade das misturas de HPAs dependem das fontes emissoras [14]. Dentre suas inúmeras fontes, podem ser citadas as de origem natural, como por exemplo, os incêndios florestais que ocor- rem espontaneamente e as erupções vulcânicas; e as de origem antropogênica, tais como: processos de 70 Ecl. Quím., São Paulo, 33(4): 69-78, 2008 Figura 1. Estruturas dos HPAs considerados prioritários pelo NIOSH[13] (NATIONAL INSTITUTE OF OCCUPATIONAL SAFETY AND HEALTH) EQ09-AF 10/12/08 12:25 Page 70 combustão de material orgânico (particularmente a exaustão de motores a diesel ou a gasolina), queima de biomassa vegetal, exaustão de plantas de inciner- ação de rejeitos, fumaça de cigarro e processos industriais, por exemplo, a produção de alumínio e a gaseificação do coque [2]. Os níveis de concen- tração de HPAs no ar atmosférico têm sido ampla- mente estudados, sobretudo em ambientes urbanos, que têm como principal fonte dessas moléculas a queima de combustível fóssil em motores a diesel e a gasolina, as atividades industriais e a queima de biomassa [15, 16, 17, 18]. Dessa maneira, diante dos riscos potenciais que a exposição humana a HPAs pode causar, métodos de análise que sejam capazes de detectar concentrações bastante baixas dessas moléculas são necessários a fim de possibilitar o monitoramento delas em todos os compartimentos que possam estar presentes. As propriedades físicas e químicas das moléculas de HPAs permitem que elas sejam ana- lisadas tanto por cromatografia gasosa (GC)[4, 10, 19] quanto por cromatografia líquida de alta efi- ciência (HPLC)[16, 20, 21]. É importante ressaltar que na análise de traços são fundamentais métodos analíticos com baixos limites de detecção. O detector de espectrometria de massas tem sido muito utilizado na análise de HPAs em matrizes ambientais, por ser um detector que além de apre- sentar baixos limites de detecção, oferece infor- mação estrutural dos compostos. Uma ferramenta que alguns sistemas sofisticados de GC-MS oferecem é a análise no modo tandem (MS/MS). Nessa técnica, as moléculas de interesse sofrem fragmentação duas vezes. Primeiramente as moléculas são fragmen- tadas a 70 eV e então o sistema é capaz de isolar e refragmentar um fragmento selecionado (íon pai), gerando o espectro obtido do íon pai. Para escolha do íon pai deve ser realizada uma análise no modo GC-MS (SCAN), e a partir do espectro de massas da molécula de interesse, é seleciona- do o íon de maior intensidade para ser refrag- mentado. O equipamento utiliza uma ampla faixa de freqüência de onda para o isolamento do íon pai, que acontece em duas etapas: primeiramente são expulsos os íons de m/z menor que o íon pai e em seguida os de m/z maior que do íon pai[22]. A análise no modo tandem propicia maior sele- tividade e sensibilidade do sistema GC-MS. 71Ecl. Quím., São Paulo, 33(4): 69-78, 2008 Neste trabalho, foi desenvolvido método GC-MS/MS de análise de HPAs para aplicação a análise de material particulado atmosférico. Material e métodos Reagentes e equipamentos Os padrões de HPAs sólidos individuais (pureza > 98%) foram obtidos do laboratório Dr. EHRENSTORFER GMBH (Augsburg, Alema- nha): naftaleno (naf), acenaftileno (aceftl), acenafte- no (acft), fluoreno (fluo), fenantreno (fen), antra- ceno (ant), fluoranteno (flu), pireno (pir), ben- zo[a]antraceno (b[a]a), criseno (cri), benzo[e]ace- fenantrileno (b[e]ac), benzo[a]pireno (b[a]p), benzo[e]pireno (b[e]p), dibenzo[ah]antraceno (d[a,h]a), indeno(1,2,3-cd)pireno (ind); com exce- ção do benzo[k]fluoranteno (b[k]f) e ben- zo[g,h,i]perileno (b[ghi]p) que foram fornecidos pela SIGMA-ALDRICH BRASIL Ltda. O isooc- tano grau HPLC, utilizado na preparação das soluções, foi fornecido pela MALLINCKRODT CHEMICALS. As análises foram realizadas em um cro- matógrafo a gás acoplado a um detector de espec- trometria de massas, modelo GC 3800 MS Saturn 2000 com autosampler 8200, da marca VARIAN. Desenvolvimento de método GC-MS (SCAN) de análise de 17 HPAs Para o desenvolvimento do método cro- matográfico GC-MS (SCAN) foram utilizadas soluções mistas de 17 HPAs em isooctano, preparadas a partir das soluções padrão indivi- duais de cada HPA, cujas concentrações variaram de 1 a 0,001 µg mL-1. A solução mista de HPAs de concentração 1 µg mL-1 foi utilizada para otimização das condições cromatográficas. Diversas rampas de aquecimento foram uti- lizadas para encontrar as melhores condições de separação cromatográfica dos 17 compostos. As programações de temperatura utilizadas estão apresentadas na Tabela 1. O impacto eletrônico foi de 70 eV, e scan rate utilizado foi de 0,5 scan/seg. O gás de arraste utilizado foi hélio à uma pressão de 89 kPa e vazão de 1 mL min-1. O volume de injeção foi de 2 µL, utilizando split na razão 1/5. EQ09-AF 10/12/08 12:25 Page 71 72 Ecl. Quím., São Paulo, 33(4): 69-78, 2008 (diâmetro de 5 cm, Energética). As amostras foram coletadas na cidade de Araraquara. Outros detalhes da amostragem não são relevantes neste texto, uma vez que os filtros foram utilizados apenas para comparação entre os dois métodos de extração, que por sua vez foram aplicados em paralelo a cada amostra. Cada filtro foi cortado em duas partes iguais e cada parte foi submetida à extração com uma das misturas de solventes. A extração foi efetuada utilizando 3 porções de 10 mL de cada sistema de solvente em banho de ultra-som por 10 min. Após a eliminação do sol- vente de extração (usando um leve fluxo de N2), o resíduo foi redissolvido em 200 mL de isooc- tano e analisado por CG-MS/MS. Resultados e discussão Desenvolvimento de método GC-MS (SCAN) Diversas programações de temperatura (Tabela 1) foram testadas a fim de obter a melhor resolução possível na análise simultânea de 17 HPAs. A Figura 2 apresenta os cromatogramas obtidos em cada método utilizado. Pode ser observado em todos os cromatogramas que os Desenvolvimento de método GC-MS/MS de análise de 17 HPAs Os íons pai foram selecionados para cada HPA a partir do fragmentograma referente a cada pico obtido nas análises por GC-MS (SCAN). Foi realizado um estudo da influência da energia de excitação, utilizando as voltagens 25, 50 e 75 V no modo não-ressonante e 0,20, 0,50 2 0,75 V no modo ressonante. Uma vez desenvolvido o méto- do GC-MS/MS, foi construída uma curva analíti- ca a partir de soluções mistas contendo padrões de 17 HPAs. Análise de amostras de material particulado atmosférico Nessa etapa do trabalho, foi realizado um estudo preliminar da eficiência de extração de HPAs em material particulado atmosférico uti- lizando duas misturas de solventes, diclorometano e metanol na proporção volumétrica 4:1 (DCM/MeOH 4:1 v/v) e uma solução isovolumétrica de hexano e acetona. Para isso, foram utilizadas três amostras de material particulado atmosférico. O material particulado foi coletado utilizando um amostrador Handi-vol (Energética, Brasil) e filtro de fibra de vidro Table 1. Condições utilizadas no desenvolvimento do método GC-MS (SCAN). Método A Programa de temperatura: Injetor: 300 ºC por 40 min Forno: (1) 60 ºC por 2 min (2) 60 -180 a 15 ºC/min (3) 180 – 280 ºC a 5 ºC/min (4) 280 ºC por 10 min Método C Programa de temperatura: Injetor: 300 ºC por 40 min Forno: (1) 70 – 300 ºC a 10 ºC/min (2) 300 ºC por 16 min Método B Programa de temperatura: Injetor: 300 ºC por 30 min Forno: (1) 110 ºC por 1 min (2) 110 – 200 ºC a 10 ºC/min (3) 200 – 250 ºC a 7 ºC/min (4) 250 ºC por 17,86 min Método D Programa de temperatura: Injetor: 300 ºC por 42,25 min Forno: (1) 50 ºC por 1 min (2) 50 – 300 ºC a 8 ºC/min (3) 300 ºC por 10 min EQ09-AF 10/12/08 12:25 Page 72 últimos picos, referentes às moléculas de HPAs de maiores ponto de ebulição, são alargados e sobrepostos, perdendo resolução. Isso ocorre porque essas moléculas levam um tempo relati- vamente longo para eluir da coluna, favorecendo os equilíbrios entre a fase móvel e a fase esta- cionária, aumentando o tempo de saída entre a primeira e a última molécula de uma substância que elui do sistema cromatográfico, causando o alargamento do pico. Esse comportamento pode ser evitado aumentando as condições de tempera- tura do sistema, porém isso resultaria em pior resolução das moléculas de HPA de menores P.E., causando sobreposição de picos e/ou coeluição, conforme verificado em testes preliminares. Os Métodos A e D não permitem a iden- tificação do indeno[1,2,3-c]pireno, diben- 73Ecl. Quím., São Paulo, 33(4): 69-78, 2008 Figure 2. Cromatogramas referentes aos Métodos A, B, C e D, para análise simultânea de 17 HPAs. Está apresentado o trecho dos cromatogramas onde é possível a identificação de picos. zo[a,h]antraceno e benzo[g,h,i]perileno, pois os picos gerados por essas moléculas nesses méto- dos são tão alargados que não é possível distin- gui-los da linha de base. A análise dos fragmen- togramas originados do Método C revelaram que essas mesmas moléculas coeluem com benzo[e]pireno, conforme pode ser observado na Figura 2, onde é formado um ombro no lado di- reito do pico indicado pelo número 14 no cro- matograma referente ao Método C. O método que permitiu a melhor separação dos 17 HPAs foi o Método B, que foi selecionado para o desen- volvimento do método GC-MS/MS. Desenvolvimento de método GC-MS/MS As condições de temperatura do Método B foram utilizadas para desenvolvimento do método GC-MS/MS. Os fragmentogramas refe- rentes a cada HPA foram analisados para verifi- cação do íon de maior intensidade (íon base), que foi selecionado para ser refragmentado. A Tabela 2 apresenta o íon pai para cada HPA. No modo MS/MS de análise, os frag- mentos originados a partir do íon pai (íons fi- lhos) são formados a partir da colisão que induz a dissociação (CID – colision induced dissocia- tion). A distribuição de m/z dos íons resultantes do processo CID depende das características do íon pai e da quantidade de energia cinética translacional que será convertida em energia vibracional interna. A energia cinética transla- cional do íon pai pode ser aumentada utilizan- do-se dois modos de excitação: ressonante e não-ressonante. O modo não-ressonante (0 a 100V) é resultado da interação da espécie iôni- ca com um campo elétrico que aumenta a ener- Table 2. Íon pai correspondente a cada HPA. HPA Naftaleno Acenaftileno Acenafteno Fluoreno Fenantreno Antraceno Fluoranteno Pireno Benzo[a]antraceno m/z 128 152 153 165 178 178 202 202 228 HPA Criseno Benzo[e]acefenantrileno Benzo[k]fluoranteno Benzo[a]pireno Benzo[e]pireno Indeno[1,2,3-cd]pireno Dibenzo[a,h]antraceno Benzo[g,h,i]perileno m/z 228 253 253 251 251 276 278 276 EQ09-AF 10/12/08 12:25 Page 73 gia potencial do íon, aumentando sua energia translacional. Uma porção da energia cinética é convertida em energia translacional ao sofrer colisões no trap. No modo ressonante (0 a 1V) um campo elétrico oscilante aplicado é orienta- do ao longo do eixo axial do trap, dando origem a uma componente axial de movimento no íon que é ressonantemente excitada, causando aumento da energia interna do íon[22]. Dessa maneira, no desenvolvimento do método GC-MS/MS é necessário determinar a energia de excitação adequada para que ocorra a quebra do fragmento selecionado, e obter ganhos em limite de detecção da técnica. Para isso, foi realizado um estudo para determinar a melhor energia de excitação para as 17 moléculas de HPAs. Esse estudo foi realizado variando-se essa energia de excitação de 25, 50 e 75 V no modo não-ressonante e 0,2 , 0,5 , e 0,75 V no modo ressonante. A determinação da melhor energia de excitação foi realizada através da análise com- parativa da intensidade do sinal cromatográfico obtido referente a cada energia. O modo resso- nante mostrou-se inadequado para análise dos HPAs, pois foram observadas perdas significati- vas em detectabilidade em comparação ao modo não-ressonante, que originou picos até dez vezes mais intensos. A energia de excitação de 25 V no modo não-ressonante foi a que permitiu boa resposta para todas as moléculas em estudo, e por isso foi escolhida para o método GC-MS/MS. A alta estabilidade dos íons pai, devido sua estrutu- ra molecular, impossibilitou que sua fragmen- tação fosse significativa nas condições utilizadas. O íon filho é o próprio íon pai em todos os casos, obtendo-se um método cromatográfico mais sele- tivo que o GC-MS (SCAN). Após selecionar a energia de excitação de 25 V não-ressonante, foram realizados testes a fim de melhorar a resolução dos 3 últimos picos, aumentando-se a taxa de aquecimento a partir de 23 min. A nova rampa de aquecimento testada (Método E) foi: 100°C (1min)-100°C— 10oC/min—200oC(7oC/min)— 250oC (5,86 min)—250—20oC/min—300oC (4,5 min), Injetor: (300oC). A Figura 3 apresenta os cro- matogramas obtidos no modo MS/MS para o Método B e para o Método E. Pode ser observa- do que o Método E apresentou boa resolução 74 Ecl. Quím., São Paulo, 33(4): 69-78, 2008 Método B Método E 1 1 2 2 3 3 4 4 5 5 6 6 7 7 8 8 9 9 10 10 11 11 12 12 13 13 14 14 15 16 17 15 16 17 1- naf; 2- aceftl; 3- aceft; 4- fluo; 5- fen; 6- ant; 7-flu; 8- pir; 9- b[a]a; 10 - cri; 11- b[e]ac; 12- b[k]f; 13- b[a]p; 14 - b[e]p; 15- ind; 16- d[ah]a; 17 - b[ghi]p Abrevia ções descritas na se ção Reagentes e equipamentos. Figure 3. Cromatogramas obtidos na análise de simultânea de 17 HPAs no modo MS/MS, sob as condições de temperatura do Método B e do Método E. para os três últimos picos e em tempo mais reduzido que o Método B. O Método E foi o sele- cionado para construção da curva analítica. O método MS/MS permitiu ganhos em detectabili- dade em comparação ao método SCAN. O modo MS/MS oferece vantagens sobre o modo SCAN em relação a selectividade e detectabilidade. No modo MS/MS obtêm-se maior seletividade que o modo SCAN, pois per- manecem no trap apenas o fragmento (íon pai) selecionado para refragmentação, seguindo para o detector apenas os íons filho. Dessa maneira, o modo MS/MS é uma ferramenta muito útil na análise de matrizes complexas, que podem pos- suir outras moléculas que eluem no mesmo tempo de retenção do analito, que no modo SCAN chegariam juntamente com os analitos ao detector, podendo ocasionar erros na identifi- cação e quantificação do analito. Além disso, o modo MS/MS muitas vezes apresenta ganhos em detectabilidade em relação ao modo SCAN, de- vido a fatores como a obtenção de maior relação sinal/ruído e menor interferência de outros com- ponentes da amostra. O método MS/MS desen- volvido para análise de 17 HPAs apresentou limi- tes de detecção e de quantificação cerca de 5 vezes inferiores que os encontrados para as mes- mas moléculas analisadas no modo SCAN, nas mesmas condições cromatográficas. As curvas analíticas foram construídas a partir da injeção de 9 soluções padrão de 17 EQ09-AF 10/12/08 12:25 Page 74 HPAs, em concentrações que variaram de 1 a 0,001 µg mL-1. Cada ponto da curva analítica foi injetado cinco vezes. Os limites de detecção e de quantificação observados, coeficientes de corre- lação das curvas analíticas e o coeficiente de variação médio para cada HPA analisado encon- tram-se na Tabela 3. 75Ecl. Quím., São Paulo, 33(4): 69-78, 2008 Table 3. Limites de detecção (LD) e limites de quantificação (LQ) para 17 HPAs no sistema GC- MS/MS, em ng mL-1. HPA naf aceftl aceft fluo fen antr flu pir b[a]a cri b[e]ac b[k]f b[a]p b[e]p ind d[ah]a b[ghi]p L.D. 1,96 1,95 1,94 1,93 2,01 1,98 1,98 1,91 1,97 1,97 1,95 1,98 1,95 1,95 1,92 1,94 1,95 L.Q. 7,85 7,81 7,76 7,73 8,03 7,91 7,94 7,63 7,88 7,86 7,80 7,94 7,81 7,79 7,69 7,77 7,79 R2 0.9996 0.9999 0.9999 0.9998 0.9998 0.9998 0.9999 0.9999 0.9998 0.9999 0.9995 0.9995 0.9998 0.9994 0.9971 0.9954 0.99765 CV médio (%) 8 7 8 6 8 7 8 7 6 7 14 12 6 12 15 14 8 Abreviações descritas na seção Reagentes e equipa- mentos. Análise de amostras de material particulado atmosférico Os procedimentos de extração de HPAs em material particulado descritos na literatura envolvem, em geral, as seguintes etapas: 1-) extração com solventes (soxhlet, banho de ultra- som, extração assistida por microondas ou com solventes pressurizados -ASE); 2-) concentração do extrato (rota evaporador seguido de leve fluxo de nitrogênio); 3-) dissolução do extrato seco em solvente apropriado; 4-) análise[18, 20, 21, 23, 24]. Muitos trabalhos na literatura utilizam uma mistura de diclorometano e metanol na proporção volumétrica de quatro para um (DCM/MeOH (4:1 v/v)) como solvente de extração[21, 24, 25, 26, 27]. Em um estudo recente os autores obtiveram boa recuperação (67-98%) para doze HPAs em material particulado atmosférico utilizando extração assistida por microondas e uma mistura isovolumétrica de hexano e acetona[23]. Sob as mesmas condições, os resultados foram com- paráveis aos obtidos utilizando diclorometano como solvente extrator. Levando em consideração que o diclorometano é um dos solventes mais uti- lizados para extração de HPAs em material particu- lado atmosférico[20, 21, 24, 28], pelo trabalho de Karthikeyan et al. (2006)[23] sugere-se que a mis- tura HEX/ACT (1:1 v/v) é um possível candidato à substituição do diclorometano para extração em banho de ultrasson e Soxhlet. Dessa maneira, neste trabalho foi realizado um estudo preliminar para verificar se pode haver viabilidade de utilização da mistura de solventes HEX/ACT (1:1 v/v) em subs- tituição do solvente DCM/MeOH (4:1 v/v), uti- lizando banho de ultra-som, sem perdas significati- vas em extractibilidade. Os extratos referentes às metades dos fil- tros contendo material particulado atmosférico, extraídas com cada mistura de solventes, DCM/MeOH (4:1 v/v) e HEX/ACT (1:1 v/v), foram analisadas por GC-MS/MS. Na análise dos extratos foi possível quantificar os HPAs fenantreno, fluoranteno, pireno, criseno, benzo[e]acefenantrileno, benzo[a]pireno, benzo[e]pireno, indeno[1,2,3-cd]pireno, e benzo[ghi]perileno. A Figura 4 apresenta os cro- matogramas obtidos na análise de cada amostra, podendo ser observado que apesar de não ter sido efetuado nenhum clean-up dos extratos das Padrões de17HPAs DCM/MeOH(4:1 v/v) HEX/ACT (1:1 v/v) 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 15 17 5 7 8 10 11 13 14 15 17 5 7 8 10 11 13 14 Figure 4. Cromatogramas referentes à injeção de um padrão de 17 HPAs (1 µg mL-1) e de extratos de amostras de material particulado atmosférico extraí- dos com DCM/MeOH (4:1 v/v) e HEX/ACT (1:1 v/v) EQ09-AF 10/12/08 12:25 Page 75 amostras, para reduzir a quantidade de interfer- entes, foi possível a visualização clara dos picos referentes a cada HPA, demonstrando que o método GC-MS/MS foi seletivamente adequado para análise de amostras de HPAs em material particulado atmosférico. 76 Ecl. Quím., São Paulo, 33(4): 69-78, 2008 Figure 5. Concentrações médias de HPAs em extratos de amostras de material particulado atmosférico extraídas com DCM/MeOH (4:1 v/v) e com HEX/ACT (1:1 v/v). Abreviações descritas na seção Reagentes e equipamentos. A Tabela 4 apresenta as concentrações de HPAs obtidas em cada extrato e a Figura 5 apre- senta uma comparação da extractibilidade média de cada mistura de solvente para os HPAs pre- sentes na amostra. Observando os dados da Tabela 4 e da Figura 5, pode-se notar que a extractibilidade foi muito semelhante para ambas as misturas de solventes, o que sugere que é pos- sível utilizar a mistura de solvente HEX/ACT (1:1 v/v) em substituição à mistura DCM/MeOH (4:1 v/v) para extração de HPAs de material par- ticulado atmosférico. Conclusões Foi possível o desenvolvimento de méto- do GC-MS/MS para análise de 17 HPAs conside- rados como poluentes prioritários pelo NIOSH, obtendo-se ganhos de até 5 vezes em detectabili- dade em comparação com o método GC-MS (SCAN). As curvas analíticas apresentaram coe- Table 4. Concentrações (µg mL-1) de cada HPA nos extratos de filtros contendo material particulado atmos- férico. HPA naf aceftl aceft fluo fen antr flu pir b[a]a cri b[e]ac b[k]f b[a]p b[e]p ind d[ah]a b[ghi]p DCM/MeOH (4:1 v/v) n.d. n.d. n.d. n.d. n.q. n.d. 0,021±0,004 0,078±0,013 n.d. 0,042±0,020 0,134±0,062 n.d. 0,093±0,046 0,097±0,059 0,143±0,094 n.q. 0,207±0,097 HEX/ACT (1:1) n.d. n.d. n.d. n.d. n.q. n.d. 0,018±0,01 0,054±0,002 n.d. 0,037±0,014 0,111±0,037 n.d. 0,104±0,024 0,089±0,055 0,141±0,093 n.q. 0,202±0,087 DCM/MeOH (4:1 v/v) n.q. n.d. n.d. n.d. 0,010±0,006 n.d. 0,035±0,004 0,122±0,013 n.d. 0,046±0,020 0,127±0,062 n.d. 0,137±0,046 0,087±0,059 0,142±0,094 n.q. 0,227±0,097 HEX/ACT (1:1v/v) n.d. n.d. n.d. n.d. 0,007±0,002 n.d. 0,029±0,05 0,097±0,010 n.d. 0,047±0,018 0,127±0,043 n.d. 0,138±0,033 0,079±0,061 0,139±0,100 n.q. 0,214±0,100 DCM/MeOH (4:1v/v) n.q. n.d. n.d. n.d. 0,060±0,002 n.d. 0,080±0,005 0,286±0,013 n.d. 0,064±0,030 0,330±0,062 n.d. 0,452±0,034 0,265±0,058 0,318±0,117 n.q. 0,691±0,104 HEX/ACT (1:1v/v) n.d. n.d. n.d. n.d. 0,050±0,002 n.d. 0,070±0,009 0,235±0,029 n.d. 0,065±0,031 0,339±0,096 n.d. 0,456±0,045 0,279±0,075 0,319±0,122 n.q. 0,622±0,188 Amostra 1 (n=3) Amostra 2 (n=3) Amostra 3 (n=3) Abreviações descritas na seção Reagentes e equipamentos. n: número de injeções no sistema GC-MS/MS n.d.: não detectado, ou seja, abaixo do limite de detecção, apresentado na Tabela 3 n.q.: não quantificável, ou seja, detectável mas abaixo do limite de quantificação (Tabela 3) EQ09-AF 10/12/08 12:25 Page 76 ficiente de correlação > 0,99, o que concorda com as recomendações da ANVISA, quanto às exigên- cias de linearidade na validação de métodos analíticos. A repetitividade das áreas foi melhor que 15%, para todos os HPAs em todas as con- centrações. A análise de extratos de amostras de mate- rial particulado atmosférico mostrou-se seletiva para os HPAs extraídos dessas amostras. A com- paração entre as porcentagens de recuperação obtidas para cada metade de filtro extraídas com DCM/MeOH (4:1 v/v) e HEX/ACT (1:1 v/v) demonstra que é possível a utilização da mistura de solvente HEX/ACT (1:1 v/v) menos tóxica, em substituição à mistura DCM/MeOH (4:1 v/v), sem perdas significativas em extractibilidade. Recebido em 06 de junho de 2008 Aceito em 24 de outubro de 2008 77Ecl. Quím., São Paulo, 33(4): 69-78, 2008 J. Cristale, F. S. Silva, M. R. R. Marchi. Development and application of GC-MS/MS method for simultaneous analysis of 17 PAHs in airborne particulate matter. Abstract: Polycyclic aromatic hydrocarbons (PAHs) are associated with increased incidence of various types of cancers in humans. These molecules are formed mainly in the incomplete burning of organic mat- ter and can be found in all environmental compartments. North American regulatory agencies for envi- ronmental and occupational health areas consider 17 PAHs as air contaminants having priority. This work presents a method for simultaneous analysis of these PAHs using gas chromatography coupled to mass spectrometry, operating in tandem mode (GC-MS/MS). The limits of detection and quantification of this method were 5 times lower than that obtained with GC-MS (SCAN) method. The method was selective in analysis of PAHs from airborne particulate matter. A comparative analysis of two systems of solvents (dichloromethane/methanol (4:1 v / v) and hexane/acetone (1:1 v / v)) for PAHs extraction, using samples of airborne particulate matter, shows that both mixtures of solvents have similar extraction ability. The results pointed out that it is possible to extract PAHs from airborne particulate matter using a mixture hexa- ne/acetone (1:1), which is less toxic in than dichloromethane/methanol (4:1), usually used in these analy- ses, without significant losses in the accuracy of the method. Keywords: polycyclic aromatic hydrocarbons; GC-MS/MS; airborne particulate matter. Referências [1] WORLD HEALTH ORGANIZATION. Selected non-het- erociclic PAHs: International Programme on Chemical Safety. Geneva, 1998. (Environmental Criteria, 202). [2] A. D. Pereira Netto, J. C. Moreira, A. E. X. O. Dias, G. Arbilla, l. F. V. Ferreira, A. S. Oliveira, J. Barek, Quim. Nova 23(6) (2000) 765. [3] L. Nizzetto, L. Rohmann, R. Gioia, A. Jahnke, C. Temme, J. Dachs, P. Herckes, A. Di Guardo, K. Jones, Environ. Sci. Technol. 42(5) (2008) 1580. [4] Y. G. Zhu, S. Khan, L. Aijun, S. Zhang, Q. Hu, J, Hazard. Mater. 152 (2008) 506. [5] S. Tao, Y. H. Cui, F. L. Xu, B. G. Li, J. Cao, W. X. Liu, G. Schmitt, X. J. Wang, W. 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