EQ-vol30n01 - 01.pmd 7 Volume 30, número 1, 2005 www.scielo.br/eq Ecl. Quím., São Paulo, 30(1): 7-13, 2005 Determinação do mecanismo de destruição de células mediado por meso-tetramesitylporfirina, octaetilporfirina, octaetilporfirina de vanadil e luz visível J. N. Ribeiro* , R. A. Jorge Departamento de Físico-Química, Instituto de Química, UNICAMP, C.P. 6154, Barão Geraldo, CEP: 13083-970Campinas-SP, Brasil *e-mail: nariber@ig.com.br Resumo: A Terapia Fotodinâmica é um tratamento clínico empregado no combate a vários tipos de tumores. Nesta técnica, o paciente recebe uma certa dosagem de uma substância fotossensibilizadora que, por sua vez, acumula-se preferencialmente no tecido tumoral. Em seguida irradia-se luz visível, neste tecido, com a finalidade de se excitar o fotossensibilizador. Esta substância, excitada, pode trans- ferir elétrons e/ou energia para o oxigênio, no estado fundamental, gerando espécies reativas de oxigênio como o radical superóxido e oxigênio singlete. O primeiro é gerado no mecanismo tipo I, pela transferên- cia de elétrons, e o segundo no mecanismo tipo II, pela transferência de energia. Estas espécies reativas geram um estresse oxidativo, no tecido tumoral, levando as células cancerígenas à morte. Neste trabalho, foram avaliadas as propriedades fotossensibilizadoras de três porfirinas e constatou-se que as mesmas são capazes de destruir células, na presença de luz e oxigênio. Este evento foi mais pronunciado, na presença de água deuterada, e inibido por supressores de oxigênio singlete, indicando predominância do mecanismo tipo II. Palavras-chave: Terapia Fotodinâmica, porfirinas, espécies reativas de oxigênio. Introdução A Terapia Fotodinâmica (TFD) é um trata- mento clínico que requer oxigênio molecular, uma substância fotossensibilizadora (FTS) e luz visí- vel, para tratar diversos tipos de tumores. Nesta técnica, o paciente recebe uma certa dosagem do FTS que, depois de um certo tempo, se acumula preferencialmente no tecido tumoral. Em seguida irradia-se, este tecido, com luz visível, para excitar o FTS. O FTS, no estado singlete excitado, pode decair para o estado fundamental ou passar ao es- tado triplete excitado. Neste último, O FTS pode transferir energia e/ou elétrons para o oxigênio, no estado fundamental (3O2), e gerar espécies reativas de oxigênio (EROs). Estas EROs induzem uma seqüência de eventos oxidativos que resul- tam na morte das células cancerígenas por apoptose e/ou necrose [1]. A geração de EROs pode ocorrer através de dois mecanismos conhecidos como tipo I e tipo II. No mecanismo tipo I, o FTS transfere elétrons para o 3O2 gerando o radical superóxido (O2 · -) [2]. O O2 ·, por sua vez, pode reagir com o peróxido de hidrogênio (H2O2), presente no meio celular, e ge- rar o radical hidroxila (HO·), um potente agente oxidante [3]. No mecanismo tipo II, o FTS transfe- re energia para o 3O2 e gera uma espécie extrema- mente reativa, conhecida como oxigênio singlete (1O2) (Fig.1) [2]. 8 Ecl. Quím., São Paulo, 30(1): 7-13, 2005 Figura 1. Esquema de excitação do FTS com luz visí- vel. O FTS excitado transfere elétrons para o 3O2 ge- rando O2 · - (mecanismo tipo I) e/ou transfere energia, também para 3O2, gerando 1O2 (mecanismo tipo II). Atualmente o agente anticancerígeno fototerapêutico mais empregado para uso clínico é o PhotofrinÒ, cujo princípio ativo é uma mistura complexa de hematoporfirinas que, quando irradia- das, geram EROs que destroem o tecido tumoral. Este medicamento é utilizado para tratamento profilático de câncer de bexiga no Canadá, de pul- mão, trato digestivo e urinário na Holanda, França, Alemanha e Japão [4] e de esôfago e pulmão nos Estados Unidos [5,6]. Apesar de ser um medicamento bastante efi- ciente, o PhotofrinÒ apresenta alguns inconvenien- tes. Ele é tido como uma complexa mistura de hematoporfirinas das quais muitas não foram ainda identificadas, é pouco seletivo em relação ao tecido tumoral e seu baixo coeficiente de extinção molar revela que são necessárias altas dosagens para se obter uma resposta terapêutica satisfatória. Além disso, acumula-se em grande quantidade na pele fazendo com que o paciente tenha que ficar ao abri- go da luz natural por várias semanas após o trata- mento [1,2]. Os problemas encontrados com o PhotofrinÒ têm levado vários laboratórios a buscarem fotossensibilizadores alternativos e mais eficientes para uso em TFD. Neste estudo, foram avaliadas as propriedades fotossensibilizadoras de três substân- cias conhecidas como meso-tetramesitilporfirina (m- TMP), octaetilporfirina (OEP) e octaetilporfirina de vanadil (VOOEP). Para isso, foi verificada a capaci- dade, destas substâncias, de destruir células em pre- sença de luz e oxigênio, bem como o principal me- canismo (tipo I ou tipo II) envolvido neste proces- so. As células utilizadas, como modelo, foram célu- las vermelhas de sangue humano (eritrócitos). A fa- cilidade e o baixo custo dos procedimentos justifi- cam a utilização deste tipo de célula como modelo para se avaliar o potencial fototerapêutico de vári- as substâncias. Material e Métodos Material Os compostos m-TMP, OEP e VOOEP foram obtidos da Porphyrin Product, Inc. (Logan Utah, USA). O polioxietilenosorbitan monolaurato (Tween 20Ò), acetato de etila, L-histidina e manitol foram obtidos da Sigma Chemical Company (St. Louis, USA). A azida de sódio, cloreto de sódio, fosfato monohidrogeno de sódio e fosfato dihidrogeno de sódio foram obtidos da Merck (Darmstald, Alema- nha). A água deuterada (D2O) foi obtida da Aldrich Chemical Company, Inc. (Milwaukee, USA). O san- gue humano foi doado pelo Hemocentro do Hospi- tal das Clínicas da UNICAMP. A lâmpada de mercú- rio, utilizada para excitar m-TMP, OEP e VOOEP, foi da marca Philips Modelo HPLN 80W com filtro para bloqueio das emissões abaixo de 400 nm e acima de 600 nm. As leituras de absorbância de hemoglobina, para determinar a fotodestruição de eritrócitos, fo- ram realizadas em um espectrofotômetro UV/Vis da marca Hewlett Packard Modelo 8453. Utilizou-se, também, uma microcentrífuga Revan 14000D (Revan Instrumentos Científicos,), balança analíti- ca Mettler AE200, microbalança Perkin Elmer AD- 6, além de um banho se ultra-som Modelo 8890R- MT Cole-Parmer. Métodos Para verificar a fotodestruição de eritrócitos bem como o mecanismo predominante, neste pro- cesso, foram preparadas amostras contendo 0,7% (v/v) de eritrócitos, tampão fosfato salino (PBS: 0,15 M de NaCl, 1,9 µM NaH2PO4, 8,1 µM Na2HPO4, pH 7,4), Tween 20Ò 0,1% (m/v), acetato de etila 0,1% (v/v), 10 µM de m-TMP ou OEP ou VOOEP, além de 50% de D2O e diferentes concen- trações de manitol, azida e L-histidina. As amostras foram saturadas com oxigênio e irradiadas com lâm- pada de mercúrio (filtro de 400-600 nm) durante 60 minutos. A cada 10 minutos de irradiação uma 9Ecl. Quím., São Paulo, 30(1): 7-13, 2005 alíquota de 550 mL foi retirada da amostra e centrifugada a 2000 g e o sobrenadante, contendo hemoglobina, foi separado para a análise da fotodestruição. A quantificação da fotodestruição foi realizada através da leitura de absorbância, em 542 nm, da hemoglobina liberada, por eritrócitos destruídos, no meio de reação. Para o cálculo da porcentagem de fotodestruição (FD), das células, foi utilizada a seguinte equação: A542nm, FD = A542nm, amostra – A542nm, branco – A542nm, FTS (1) onde A542nm, FD é a absorbância da hemoglobina liberada por eritrócitos destruídos, A542nm, amostra é a absorbância total da amostra, A542nm, branco é a absorbância do branco e A542nm, FTS é a absorbância de m-TMP ou OEP ou VOOEP. O bran- co continha todos os componentes da amostra, com exceção dos FTS. A solução onde se obteve a absorbância dos FTS (A542nm, FTS) continha todos os componentes da amostra, com exceção dos eritrócitos. A concentração de eritrócitos destruídos foi obtida através da Lei de Lambert-Beer: A542nm, FD = e.b.c (2) onde: e = coeficiente de extinção molar da fotodestruição [(cm%)-1], b = caminho ótico (0,5 cm) e c = concentração de eritrócitos destruídos [% (v/v)]. O coeficiente de extinção molar da fotodestruição [(2,6 ± 0,2)/(cm.%)-1] foi obtido uti- lizando-se a Lei de Lambert-Beer, medindo-se a absorbância da hemoglobina de uma amostra con- tendo 0,7% (v/v) de eritrócitos em PBS pH 7,4, Tween 20Ò 0,1% (m/v), acetato de etila 0,1% (v/v) e m-TMP ou OEP ou VOOEP 10 µM. Esta amostra foi previamente submetida a um banho de ultra- som durante 10 minutos com o objetivo de se obter 100% dos eritrócitos destruídos. Determinando-se a concentração de eritrócitos destruídos, a partir da equação 2, foi possível determinar a porcentagem de fotodestruição através da equação 3: % de fotodestruição = (c x100)/0,7 (3) onde c = concentração de eritrócitos destruídos, nas amostras, dada em % e 0,7 = con- centração inicial de eritrócitos, antes da irradiação, dada em % (v/v). Resultados e Discussão Os resultados, deste trabalho, demonstraram que as três substâncias foram capazes de causar a destruição de eritrócitos, na presença de luz e oxigênio, sendo que, m-TMP e OEP foram conside- ravelmente mais eficientes do que VOOEP (Fig.2). Esta menor eficiência de VOOEP pode ser devida à formação de agregados por parte desta substância. Os agregados são caracterizados por interações entre as próprias moléculas do fotossensibilizador. A formação destas estruturas ocorre, geralmente, quando fotossensibilizadores hidrofóbicos estão presentes em meio aquoso. Tal evento diminui o tempo em que a substância fotossensibilizadora permanece no estado triplete excitado, acarretando diminuição na geração de EROs e conseqüentemen- te redução na porcentagem de fotodestruição de células [7,8]. Figura 2. Porcentagem de fotodestruição, de eritrócitos, em função do tempo de irradiação com luz visível, na presença de VOOEP ( ), OEP ( ) e m- TMP ( ). A fotodestruição de eritrócitos ocorre devi- da a fotoxidação de proteínas e fosfolipídios pre- sentes na membrana do eritrócito. Esta fotoxidação, ocasionada por EROs, resulta na formação de po- ros e no aumento da mobilidade dos fosfolipídios, o que provoca a ruptura da membrana e liberação de hemoglobina para o meio extracelular [9]. 10 Ecl. Quím., São Paulo, 30(1): 7-13, 2005 A Figura 3 demonstra que a adição de manitol, no meio de reação, provocou uma certa queda na porcentagem de fotodestruição, de eritrócitos, mediada pelas três porfirinas. Sendo o manitol, um supressor de HO·, pode-se deduzir que houve participação do O2 · - e, portanto, ocorrência do mecanismo tipo I. No entanto, deve-se ressaltar, que o HO· não é gerado somente no mecanismo tipo I. O 1O2, gerado no mecanismo tipo II, pode, também, provocar a geração de HO· através, por exemplo, da inibição da enzima catalase [10]. Esta enzima, presente nas células, é responsável pela conversão de H2O2 em H2O e O2. Este processo pro- tege as células dos efeitos deletérios ocasionados pelo H2O2 e impede a transformação desta espécie em HO· [11]. Figura 3. Efeito de diferentes concentrações de manitol na porcentagem de fotodestruição de eritrócitos ocasionada por m-TMP (A), OEP (B) e VOOEP (C). Uma forte evidência da participação do 1O2, neste trabalho, reside no fato de que a adição de D2O provocou aumento na porcentagem de fotodestruição celular, ocasionada pelas três porfirinas (Fig.4). O tem- po de vida do oxigênio singlete é profundamente in- fluenciado pela natureza do solvente [12-14]. Em água comum, por exemplo, é cerca de 4,0 ms, já em água deuterada, este tempo de vida situa-se em torno de 70 ms. Em geral, em solventes que não possuem ligações C-H e grupos hidroxila na sua estrutura, o tempo de vida do 1O2 tende a valores mais elevados. Por exem- plo, para o tetracloreto de carbono, o tempo de vida do 1O2 é de cerca de 30 ms, e em clorofórmio é de 250 ms [14]. Em sistemas biológicos, o oxigênio singlete apresenta tempos de vida extremamente baixos, inferi- ores a 0,04 ms, o que faz com que seu raio de ação seja extremamente reduzido [4,15,16]. Isto é muito impor- tante, em tratamentos com TFD, pois o 1O2 acaba agin- do somente na região do tecido tumoral, evitando a destruição desnecessária de tecido sadio, vizinho do tumor. A razão para certos grupos funcionais suprimi- rem o 1O2, encontra-se na possibilidade de transferên- cia de energia eletrônica do 1O2 para certos estados vibracionais associados às espécies supressoras. No caso de D2O, utilizado neste estudo, pode-se afirmar que como esta molécula possui uma energia vibracional menor do que a água comum, isso favore- ce um aumento de 10 vezes no tempo de vida do 1O2 em relação à H2O [17] e conseqüentemente aumenta a porcentagem de fotodestruição de eritrócitos. 11Ecl. Quím., São Paulo, 30(1): 7-13, 2005 Figura 4. Efeito de D2O 50% na porcentagem de fotodestruição de eritrócitos ocasionada por m-TMP (A), OEP (B) e VOOEP (C). Além do aumento, da porcentagem de fotodestruição, proporcionado por D2O, outro fato que reforçou a participação do 1O2, neste estudo, foi a diminuição, da fotodestruição, provocada por azida e L-histidina (Figuras 5 e 6) A azida transfere elétrons para o 1O2 regenerando o oxigênio no esta- do fundamental o que faz diminuir a quantidade de 1O2 no meio de reação. A L-histidina, por sua vez, diminui a quantidade de 1O2, reagindo com o mes- mo para formar endoperóxidos que se decompõem em uma mistura complexa de produtos [18]. Figura 5. Efeito de diferentes concentrações de azida de sódio na porcentagem de fotodestruição de eritrócitos ocasionada por m-TMP (A), OEP (B) e VOOEP (C). 12 Ecl. Quím., São Paulo, 30(1): 7-13, 2005 Figura 6. Efeito de diferentes concentrações de L-histidina na porcentagem de fotodestruição de eritrócitos ocasionada por m-TMP (A), OEP (B) e VOOEP (C). Conclusão Pode-se concluir, que tanto m-TMP quanto OEP e VOOEP foram capazes de causar a destrui- ção de eritrócitos na presença de luz e oxigênio. Este processo ocorreu, principalmente, via meca- nismo tipo II, ou seja, com participação do 1O2. Os resultados, deste trabalho, demonstram que as subs- tâncias, investigadas, possuem propriedades fotossensibilizantes e estimulam estudos, posterio- res, que visem a aplicação, das mesmas, em Terapia Fotodinâmica. Agradecimentos Os autores agradecem a CAPES e FAPESP pelo apoio financeiro e a Dilmara Lopes Vicentim, Michele Goulart e Heloisa Cristina Acosta, do Hemocentro do Hospital das Clínicas da UNICAMP, pela doação de sangue. Recebido em 03/05/2004 Aceito em 11/09/2004 13Ecl. Quím., São Paulo, 30(1): 7-13, 2005 J. N. Ribeiro, R. A. Jorge. Determination of the mechanism of destruction of cell mediated by meso- tetramesitylporphyrin, octaethylporphyrin, vanadyl octaethylporphyrin and visible light. Abstract: Photodynamic therapy is a clinical treatment that employs a combination of a photosensitizer, oxygen, and visible light for the therapy of cancer. This technique is characterized by the systemic administration of photosensitizer, which is preferentially retained by tumoral tissue. The subsequent irradiation, with visible light, cause excitation of the photosensitizer resulting in the production of reactive oxygen species such as superoxide radical and singlet oxygen. These reactive species generate a sequence of oxidative events resulting in cancer cell death. The superoxide is generated in the type I mechanism by electron transference from excited photosensitizer to ground-state oxygen. Singlet oxygen is generated in the type II mechanism by energy transference from excited photosensitizer to ground-state oxygen. In this study we investigated the photosensitizing properties of three porphyrins. The results allow for the conclusion that the three porphyrins caused the destruction of cells in the presence of light and oxygen. This event was increased by deuterium oxide and inhibited by singlet oxygen scavengers indicating the predominance of type II mechanism. Keywords: Photodynamic Therapy; porphyrins; reactive oxygen species. Referências [1]. I. A. MacDonald, T. J. Dougherty, J. Porphyr. Phtalocya. 5 (2001) 105. [2]. A. E. H. Machado, Quim. Nova. 23(2) (2000) 237. [3]. K. Keyer, J. A. Imlay, Proc. Natl. Acad. Sci. USA. 93 (1996) 13635. [4]. T. J. Dougherty, C. J. Gomer, B. W. Henderson, G. Jori, D. Kessel, M. Korbelik, J. Moan, Q. Peng, J. Nat. Cancer. Inst. 90 (1998) 889. [5]. Laser Medical Research Foundation. [http:// 209.41.253.5:80/pdt@lmrf]. Data de acesso: 10 de janeiro de 2004. [6]. National Cancer Institute. [http://cancernet.nci.nih.gov]. Data de acesso: 14 de janeiro de 2004. [7]. J. P. Daziano, S. Steenken, C. Chabannon, P. Mannoni, M. Chanon; M. 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