TOWARDS AN OBJECTIVE EVALUATION OF TEACHER PERFORMANCE Página web: http://epaa.asu.edu/ojs/ Artigo recebido: 12/4/2017 Facebook: /EPAAA Revisões recebidas: 2/11/2017 Twitter: @epaa_aape Aceito: 5/11/2017 arquivos analíticos de políticas educativas Revista acadêmica, avaliada por pares, independente, de acesso aberto, e multilíngüe Arizona State University Volume 26 Número 4 15 de janeiro de 2018 ISSN 1068-2341 É Possível Falar em “Potência Jovem? Desafios e Perspectivas para Pensar as Juventudes Contemporâneas Indira Granda Alviarez Venezuela & Fabiana de Amorim Marcello Universidade Federal do Rio Grande do Sul Brasil Citação: Granda, I., & Marcello, F. de A. (2018). É possível falar em “potência jovem”? Desafios e perspectivas para pensar as juventudes contemporâneas. Arquivos Analíticos de Políticas Educativas, 26(4). http://dx.doi.org/10.14507/epaa.26.3003 Resumo: Neste texto, nosso objetivo é discutir o conceito de “potência jovem” fora do registro essencial, humanista e vinculado à ação que nos propõe a representação do sujeito jovem protagonista – quase um modelo hegemônico nas ações voltadas para a juventude no Brasil. Buscamos pensar que outros sentidos de potência jovem poderiam nos ser oferecidos por outras experiências juvenis na contemporaneidade. Para tanto, estabelecemos um debate acerca do conceito central do texto – o conceito de potência – partindo das discussões desenvolvidas por Giorgio Agamben. Metodologicamente, o trabalho orientou-se por uma proposta de inspiração etnográfica, com ênfase numa ideia de “presença participante”, desenvolvida entre os meses julho a novembro de 2015 no Sábado Cultural: Circuito de Cultura e Arte, uma experiência juvenil pautada pela organização de encontros culturais em diferentes pontos da periferia cidade de Porto Alegre (RS), Brasil. Selecionamos alguns elementos das práticas do Sábado Cultural a fim de mostrar como os encontros promovidos nesse espaço nos permitiram tecer premissas sobre os jovens e suas múltiplas http://epaa.asu.edu/ojs/ http://dx.doi.org/10.14507/epaa.26.3003 É possível falar em potência jovem? Desafios e perspectivas para pensar as juventudes contemporâneas 2 formas de experienciar suas juventudes e sobre o modo como isso está vinculado a um outro tipo de “potência jovem” no contemporâneo. Palavras-chave: juventude; potência; potência jovem; protagonismo juvenil Is it possible to talk about “young potentiality?” Challenges and perspectives for thinking about contemporary youths Abstract: The aim of this text is to discuss the concept of “young potentiality” outside the essential and humanist record, which is bound to the action proposed by the representation of the young protagonist individual – almost a hegemonic model in youth-directed actions in Brazil. We seek to think that other senses of young potentiality could be offered by other youth experiences in contemporary times. To this end, we have established a debate about the central concept of the text – the one of potentiality – starting from the discussions developed by Giorgio Agamben. Methodologically, the study was oriented to a proposal of ethnographic inspiration, emphasizing on an idea of “participant presence,” developed from July to November of 2015 in Sábado Cultural: Circuito de Cultura e Arte [Cultural Saturday: Culture and Art Circuit], a youthful experience marked by cultural meetings at different points on the outskirts of Porto Alegre, state of Rio Grande do Sul, Brazil. We have selected a few elements of Sábado Cultural practices to show how the meetings promoted in this space enabled us to make assumptions about young people and their multiple forms of experiencing their youth and how this is currently linked to another type of “young potentiality.” Keywords: youth, potentiality, young potentiality, youth leadership ¿Es posible hablar de “potencia joven”? Desafíos y perspectivas para pensar en las juventudes contemporáneas Resumen: En este texto, nuestro objetivo es discutir el concepto de “potencia joven” fuera del registro esencial, humanista y vinculado a la acción que nos propone la representación del sujeto joven protagonista – casi un modelo hegemónico en las acciones dirigidas a la juventud en Brasil. Más especificamente, buscamos pensar que otros sentidos de potencia joven podrían circular en otras experiencias juveniles en la contemporaneidad. Para ello, establecemos un debate acerca del concepto central del texto – el concepto de potencia – partiendo de las discusiones desarrolladas por Giorgio Agamben. Metodológicamente, el trabajo se orientó por una propuesta de inspiración etnográfica, con énfasis en una idea de “presencia participante”, desarrollada entre los meses de julio a noviembre de 2015 en Sábado Cultural: Circuito de Cultura y Arte, una experiencia juvenil caracterizada por la organización de encuentros culturales en diferentes puntos de la periferia de la ciudad de Porto Alegre (RS), Brasil. Seleccionamos algunos elementos de las prácticas de Sábado Cultural a fin de mostrar como los encuentros promovidos en ese espacio nos permitieron tejer premisas sobre los jóvenes y sus múltiples formas de experimentar sus juventudes y sobre el modo como eso está vinculado a otro tipo de “potencia joven” en la contemporaneidad. Palabras-clave: juventud; potencia; potencia joven; protagonismo juvenil Introdução O Protagonismo Juvenil, enquanto modalidade de ação educativa, é a criação de espaços e condições capazes de possibilitar aos jovens envolver-se em atividades direcionadas à solução de problemas reais, atuando como fonte de iniciativa, liberdade e compromisso. [...] A energia, a generosidade, a força empreendedora e o potencial Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 26, No. 4 3 criativo dos jovens (grifo nosso), é uma imensa riqueza, um imenso patrimônio que o Brasil ainda não aprendeu a utilizar da maneira devida. (Costa, 2000, p. 12) A Fundação Odebrecht foi criada em 1965, mas foi em 1988 que elegeu o jovem como foco de sua contribuição [...]. Este trabalho propiciou ao jovem reconhecer o seu potencial (grifo nosso), e aprender a conviver em grupo de forma sinérgica, realizando- se pelo trabalho, acessando e interagindo com novas informações. (Fundação Odebrecht, s.d.) Nosso objetivo é extrair de dentro desses jovens seus potenciais (grifo nosso) criativos, mostrando que o território em que vivem é um lugar onde existem coisas, e não o lugar onde não há nada e de onde eles têm que ir embora para conseguir algo. (Faustini, 2012, para. 4) Iniciamos este texto a partir de uma precisa, porém emblemática, seleção de “coisas ditas” sobre o “potencial juvenil” enunciadas por diferentes vozes e que emergem em contextos e proposições irredutíveis entre si. Nossa escolha não é aleatória e gostaríamos, como forma de situar a problemática mais ampla deste texto, de percorrer brevemente cada uma delas: Antonio Carlos Gomes da Costa, autor de uma das citações da acima, é um dos ícones do “protagonismo juvenil” no Brasil. Pedagogo de formação, ele foi idealizador de inúmeros projetos implementados por fundações empresariais e divulgador de modelos e propostas representativas no âmbito das agências das Nações Unidas, no Brasil. Em 1996, Antonio Carlos Gomes da Costa, elaborou um texto paradigmático intitulado “Protagonismo juvenil: adolescência, educação e participação democrática”, em que a imagem dos “jovens-problema” se encontrava decisivamente substituída pela ideia de que os jovens, antes, “são parte da solução”. Como descreve o Instituto Ayrton Senna,1 onde atuou como consultor por mais de 15 anos, trata-se de “uma perspectiva de empoderamento (grifos nossos), que prevê um caminho de desenvolvimento humano, orientado por uma sequência de processos e ações para criar oportunidades educativas para a participação efetiva dos jovens” (Instituto Ayrton Senna, 2016). Da mesma forma, ao assumir como uma de suas áreas de atuação o jovem (por meio de um projeto que recebe o nome de “Potência Juvenil”), a Fundação Odebrecht, financiada por um dos maiores conglomerados brasileiros ligado aos ramos de construção civil e energia,2 concentra esforços no estabelecimento de ações sociais alinhadas a uma lógica específica, nesse caso,“baseada nos princípios, conceitos e critérios da Tecnologia Empresarial Odebrecht (TEO), com foco na educação e no trabalho”. (Fundação Odebrecht, S.d.) 1 O Instituto Ayrton Senna é uma Organização Não-Governamental (ONG) brasileira criada em 1994, tendo como presidente desde então Viviane Senna, irmã do mundialmente conhecido piloto de Fórmula 1 que dá nome à ONG, falecido também em 1994. A ONG, uma das maiores do país, concentra suas ações exclusivamente na esfera educativa. De acordo com o Relatório Anual da ONG de 2015, o Instituto Ayrton Senna atua hoje em 19 estados brasileiros, 700 municípios e atende cerca de 1,8 milhão de crianças e jovens, bem como participa da formação de cerca de 65.000 educadores. (http://www.institutoayrtonsenna.org.br). 2 Odebrecht S. A., como assinalado, é uma empresa de capital fechado que desenvolve negócios e operações em diversas partes do mundo nas áreas de construção e engenharia, químicos e petroquímicos, energia, saneamento, entre outros. Em 2014, apresentou lucro líquido de 493,5 bilhões de reais e, em 2015, de 195,8 bilhões de reais. A queda de 30% nos lucros da empresa deve-se, em grande parte, ao fato de, atualmente, a Odebrecht ter seu nome vinculado a grandes esquemas de corrupção no Brasil (goo.gl/uMj4n2). É possível falar em potência jovem? Desafios e perspectivas para pensar as juventudes contemporâneas 4 Já a “Agência Redes para a Juventude” é um projeto criado em 2011, para atuar em “comunidades pacificadas” do Rio de Janeiro.3 A iniciativa oferece a 300 jovens, de 15 a 29 anos, oficinas artísticas e oficinas de formação e mobilização criativa. Além da possibilidade de estudar, cabe ao aluno, ao final do curso, desenvolver o projeto de uma atividade ou produto. Os melhores projetos de cada comunidade recebem uma verba de R$ 10 mil para seu desenvolvimento e implantação. Aparentemente distinto dos demais, o objetivo da iniciativa “não é o empreendedorismo”, mas, antes, como enuncia seu idealizador – o cineasta Marcus Faustini –, é fazer da Agência “um lugar de criadores”, entendendo que “o papel da arte não pode ser só levar oficinas ou espetáculos, porque isso reitera a ideia de que ali não é o lugar da criação, de que eles são carentes de cultura, quando, na verdade, eles têm potência” (grifos nossos) (Faustini, 2012, para. 4). Como se observa, em comum, essas iniciativas operam sobre uma chamada “potência jovem” – expressão que, por certo, também é recorrentemente enunciada em tantos outros materiais, como em textos de organizações internacionais que buscam orientar políticas públicas do setor e em programas sociais de organizações não governamentais direcionados a segmentos juvenis. Além disso, percebemos que a expressão está igualmente presente em materiais midiáticos sobre “jovens empreendedores”, em revistas, periódicos, blogs de educação, que insistentemente convidam a que sejam promovidos o “potencial” e o “talento” de jovens estudantes. Também não é raro encontrarmos o termo “potência” em falas cotidianas de pessoas inseridas em pesquisas ou projetos juvenis, aqui para nomear algo que elas devem reconhecer e realizar no jovem. Disso destacamos uma marca decisiva: a expressão “potência jovem”, nessas variadas e difusas produções, geralmente remete a uma certa capacidade inata que habitaria a interioridade de um indivíduo (jovem), a qual, a partir de um ato autoconsciente, poderia ser desenvolvida e, consequentemente, provocar efeitos de bem-estar social. Pode-se dizer ainda mais: a “potência” seria tida como algo que anuncia um ato desejado, que dá conta da existência de um sujeito ativo, cuja intervenção cumpriria o papel de uma espécie de “despertar”. Ao mesmo tempo, o termo, assim compreendido, convida ao estabelecimento de um princípio ou mesmo a uma metodologia de trabalho cuja ênfase na atividade deslocaria o jovem de uma posição considerada passiva para uma posição de participação ativa (Souza, 2009). Com efeito, tal como aqui entendemos, o pressuposto de uma “potência jovem” sustenta aquilo que Souza (2009) chama de um “discurso do protagonismo juvenil”, no qual conduzir-se com protagonismo prescreve uma nova forma de participação política dominada pelo aprendizado do humanismo e da racionalidade do privado (Souza, 2009). Isto é, diz respeito a uma participação vinculada a valores sociais e humanos preconcebidos, nos quais as mudanças parecem estar ao alcance de qualquer um e o fazer se situa na ordem do “concreto” e do “previsível”: “numa palavra, 3 Uma “comunidade pacificada” corresponde àquela atendida por uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), como parte de um Programa criado no final de 2008 pela Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro. De acordo com os dados da Prefeitura, “o Programa engloba parcerias entre os governos – municipal, estadual e federal – e diferentes atores da sociedade civil organizada e tem como objetivo a retomada permanente de comunidades dominadas pelo tráfico, assim como a garantia da proximidade do Estado com a população” (goo.gl/3dZGXa). Ao todo hoje existem na cidade do Rio de Janeiro 38 UPPs, distribuídas em pontos específicos do município. Para além das inúmeras discussões possíveis sobre o tema – o que não é objetivo deste texto –, importa destacar, pelo menos, dois aspectos: um deles relativos aos inúmeros registros de violência nas ocupações militares, bem como aos diagnósticos de que, com o Programa das UPPs, menos do que propriamente criar a “pacificação” de certas áreas como dado último e isolado, “a política […] provocou a ‘migração de criminosos’ para outras regiões” (Miagusko, 2016, p. 1). O segundo diz respeito à criação, por meio dessa ação, de uma “nova ordem policial coercitiva”, segundo a qual a “militarização do social” acaba por confrontar-se “com a construção de uma esfera pública ampliada por meio da expansão da cidadania aos moradores destes territórios e sua integração à cidade” (Fleury, 2012, p. 206). Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 26, No. 4 5 tal modelo valoriza o ativismo privado – seja ele do indivíduo, da empresa ou da ONG – como meio de provocar a ‘mudança’” (Souza, 2009, p. 17). Com efeito, temos a constatação segundo a qual não estaria em questão a presença dos jovens como atores capazes da elaboração de agendas conflitivas para superar contradições relacionadas com a sonegação de direitos e com as estruturas de desigualdade, mas, na qualidade de “protagonistas”, eles são reconhecidos como sujeitos de soluções e contribuições, portadores de uma potencialidade para o desenvolvimento e, por isso, alvo possível e celebrado por investimentos massivos. Obviamente que aqui não negamos a importância de inúmeras políticas e ações desenvolvidas nos mais distintos âmbitos por/com/pelos jovens. Nosso interesse, ao contrário, é somarmo-nos às considerações já realizadas por outros pesquisadores acerca dos sentidos controversos do chamado “protagonismo juvenil” (Sposito & Carrano, 2003; Tommasi, 2014; Tommasi & Velazco, 2016) – ainda que nossa ênfase esteja orientada, notadamente, sobre o sentido que a expressão “potência jovem” carrega ou que, de outro modo, poderia carregar. Para isso, dialogamos com algumas contribuições filosóficas da obra do pensador italiano Giorgio Agamben (1993, 2006, 2007a, 2008, 2012), mais propriamente a partir de suas proposições sobre o conceito de potência. De imediato, podemos dizer que, para o autor, a potência, acima de tudo, não é definida pelo ato, pelo fazer ou pela atividade, mas, antes, pelo que chama de inoperosidade. Há, portanto, uma associação direta da potência com a noção de passividade: dimensão entendida não como uma falta ou um defeito, mas como possibilidade de não obrar, ou melhor, como possibilidade de suspensão do agir – algo que vai em direção distinta daquela da atividade inata que hegemonicamente o termo “potência” assume. Assim, neste texto, nosso objetivo é discutir três questões orientadoras: quais caminhos possíveis para pensar, no campo dos estudos de juventude, outros modos de ser da potência jovem? Como operar com esse conceito fora do registro essencial, humanista, utilitário e vinculado à ação que nos propõe a representação do sujeito jovem protagonista – quase um modelo hegemônico nas ações voltadas para a juventude no Brasil? Por fim, que outros sentidos de potência jovem poderiam nos ser oferecidos por outras experiências juvenis na contemporaneidade? Para pensar essas questões, acompanhamos uma experiência juvenil pautada pela organização e realização de encontros culturais em diferentes pontos da periferia da zona leste de Porto Alegre (RS), capital do estado do Rio Grande do Sul (RS), Brasil, chamada Sábado Cultural: Circuito de Cultura e Arte. De modo mais preciso, metodologicamente, o trabalho orientou-se por uma proposta de inspiração etnográfica, com ênfase numa ideia de “presença participante” (Dayrell, 2001), desenvolvida no Sábado Cultural: Circuito de Cultura e Arte, em edições realizadas entre os meses julho a novembro de 2015, em dois bairros da cidade de Porto Alegre (Partenon e Coronel Aparício Borges). Além disso, também nesse período, foram realizadas entrevistas com jovens organizadores da produção dos encontros, bem como com líderes comunitários e produtores culturais deles participantes (grafiteiros e rappers). Ao nos aproximarmos dessas ações e desses sujeitos, nossa intenção foi a de pensar, junto a eles, outros modos de ser da potência, nesse caso, convergentes com possibilidades de inscrição (juvenil) no social para além dos imperativos de empreendedorismo que cada vez mais pautam nossas práticas e modos de ser na atualidade. Assim, este artigo está organizado da seguinte forma: inicialmente, apresentamos mais detalhadamente a metodologia de pesquisa, buscando explicitar os modos pelos quais os dados foram produzidos, bem como a escolha por um tipo de escrita e de análise foi efetivada. Em seguida, estabelecemos um debate acerca do conceito central do texto – o conceito de potência –, partindo das discussões desenvolvidas por Giorgio Agamben, bem como de alguns de seus comentadores, buscando já então estabelecer algumas relações entre suas produções sobre o conceito e o campo dos estudos sobre juventude, de maneira mais ampla. Por fim, selecionamos É possível falar em potência jovem? Desafios e perspectivas para pensar as juventudes contemporâneas 6 alguns elementos das práticas do Sábado Cultural – um ligado às entrevistas com os organizadores da iniciativa e outro relativo ao acompanhamento de uma das atividades propostas – a fim de mostrar de que maneira os encontros promovidos nesse e por esse espaço nos permitiram tecer algumas premissas não apenas sobre os jovens e suas múltiplas formas de experienciar suas juventudes, como, sobretudo, o modo como isso está vinculado a um outro tipo de “potência jovem” no contemporâneo. Os Caminhos da Pesquisa Antes de passarmos para o debate sobre o conceito de potência, é imprescindível que façamos algumas considerações acerca da metodologia da pesquisa. Mais precisamente, interessa-nos apresentar os caminhos pelos quais chegamos aos dados, à sua produção e à sua sistematização. O Sábado Cultural: Circuito de Cultura e Arte é uma iniciativa de produção autogestionada, que organiza encontros comunitários por meio das artes urbanas. Ele se realiza desde novembro de 2014 nos bairros Partenon, Coronel Aparício Borges e São José (Morro da Cruz), na Região Partenon,4 zona leste de Porto Alegre. Às vésperas do mês de março de 2015, conhecemos o Sábado Cultural: Circuito de Cultura e Arte, depois de vários meses de visitas e participação em atividades de expressão cultural juvenil em Porto Alegre. Considerando o interesse central da pesquisa e o rol de atividades que passávamos, aos poucos, a inventariar, a escolha se deu pelo Sábado Cultural, uma vez que essa iniciativa concentrava fatores, para nós, decisivos, quais sejam: as atividades eram protagonizadas por moradores das próprias comunidades, bem como sustentavam ações de intervenção no espaço público enfocando a participação de jovens desses territórios; além disso, ainda que a iniciativa estivesse prestes a comemorar seu primeiro aniversário em novembro do 2015, seus organizadores estavam já há cinco anos se dedicando à produção de espaços comunitários de encontro juvenil no Bairro Partenon, realizando manifestações diversas (e que envolviam música, dança, cinema na rua, festas de carnaval ou outras de tradição popular). O Sábado Cultural é desenvolvido por jovens moradores ou ex-moradores do Bairro Partenon. Esses jovens, por sua vez, dinamizam uma rede mais ampla de jovens de distintas zonas de Porto Alegre, geralmente vinculados a práticas artísticas como dança de rua, rap, grafite, produção audiovisual e trabalho de animação sócio-cultural em periferias urbanas. Como o próprio nome sugere, o Sábado Cultural ocorre aos sábados, geralmente, uma vez por mês e de forma itinerante, em espaços públicos (como ruas, praças, quadras, terrenos abertos) ou em instituições educativas. Em grande medida, as condições físicas desses espaços são bastante precárias e revelam uma ausência prolongada de investimentos por parte de autoridades governamentais para sua manutenção. Desde novembro de 2014 até final do ano 2015 foram realizadas nove edições do Sábado Cultural, abrangendo uma área de aproximadamente cinco quilômetros do território da zona geográfica da Região Partenon, em Porto Alegre (RS). Pode-se dizer que, quando o Sábado Cultural acontece, efetua-se outro tipo de investimento ligado à vida desses espaços: contribuições artísticas, atenções entre pares, acolhimentos entre diferentes – e isso no tempo banal e singelo de uma manhã e uma tarde sabatinas, porém suficiente para ali se reunirem pessoas em torno de uma cena artística desenvolvida especialmente por jovens e 4 A Região Partenon é composta pelos bairros Coronel Aparício Borges, Partenon, Santo Antônio, Vila São José e Vila João Pessoa. A Região tem 118.923 habitantes, representando 8,44% da população do município de Porto Alegre. Com área de 14,57 km², representa 3,06% da área total do município, sendo sua densidade demográfica de 8.162,18 habitantes por km². A taxa de analfabetismo é de 2,9% e o rendimento médio dos responsáveis por domicílio é de 3,58 salários mínimos (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2011). Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 26, No. 4 7 que concentra apresentações de música rap, produção de grafites, demonstrações e oficinas de dança urbana, projeções de filme na rua. O Sábado Cultural é frequentado, em grande medida, por moradores do bairro: homens e mulheres adultos, crianças, jovens, membros de organizações de base ou sociais (ONGs) que atuam nesse território, bem como, às vezes, grupos religiosos. Além dessa dimensão física do espaço, no Sábado Cultural: Circuito de Cultura e Arte emerge outra, virtual. Trata-se do grupo de mensagens de texto trocadas pelo celular e que reúne a rede na qual se planejam as atividades que irão se realizar presencialmente nas comunidades. Esse outro espaço, não menos concreto, serve para a troca de informações; serve também para repassar convites, pedidos e lembretes, para dar saudações, notícias pessoais ou de interesse comum, ou seja, questões nem sempre ligadas exclusivamente à produção do Sábado Cultural, mas diretamente vinculadas a um tipo de produção de coletivo. Outra característica do funcionamento do grupo virtual é que, constantemente, novas pessoas vão sendo incorporadas, e ali conhecendo as edições realizadas e eventuais participações. Isso supõe a existência de um coletivo altamente dinâmico e heterogêneo e, por essa razão, difícil de caracterizar, visto que os participantes dessa rede são de idades, ocupações, trajetórias variadas, bem como são variados os motivos e as condições de participação de cada um dos membros. Ainda assim, na rede mais ampla que compõe o Sábado Cultural, existem suas lideranças, que são também os fundadores e organizadores principais – pessoas que, no processo de construção metodológica, tornaram-se informantes privilegiados: Jaqueline, de 28 anos, estudante de pedagogia e por vários anos diretora de uma escola comunitária de Educação Infantil no Loteamento São Guilherme (Bairro São José, Região Partenon) e também cantora de rap ativista da cultura hip hop e direitos das mulheres; Moura, de 33 anos, produtor musical e de dança urbana, por muito tempo educador social em projetos sociais no Morro da Cruz (Bairro São José, Região Partenon); e Geovane, de 26 anos, irmão de Jaqueline, que exerce trabalhos como grafiteiro. Compor a metodologia no interior de um espaço tão heterogêneo e pouco fixo significou, acima de tudo, o empreendimento na realização de uma pesquisa bibliográfico-metodológica em busca de autores e experiências que pudessem nos auxiliar a construir as ferramentas relativas à produção dos dados. Para tanto, alguns trabalhos mostraram-se fundamentais na escolha pela realização de uma pesquisa de inspiração etnográfica – pautada pelo acompanhamento das atividades do Sábado Cultural, bem como da comunidade em que ele se efetiva –, sobretudo aqueles que se voltavam, de igual maneira, às experiências juvenis. Nesse sentido, salientamos a pesquisa de Dayrell (2001) sobre os processos de socialização vivenciados por jovens de periferias de Belo Horizonte, em sua inserção em grupos de música rap e funk. Dentre suas estratégias, o autor destaca a prática de uma “presença participante” (estar junto dos jovens no seu cotidiano) em ensaios e apresentações musicais, no acompanhamento a festas, eventos ligados ao estilo ou, simplesmente, “estando junto” com seus integrantes nos momentos de lazer. O próprio autor assim explica sua estratégia: “não fiz o recurso antropológico da observação participante, uma vez que não se constituiu uma imersão na realidade dos jovens, mas é nela inspirada, principalmente no que diz respeito à postura do pesquisador no campo” (Dayrell, 2001, p. 33). No percurso de traçar caminhos, elegemos como alvo de nosso olhar as redes de relações que o Sábado Cultural favorece – fossem elas alimentadas pelos sujeitos no cotidiano, fossem aquelas transitórias, às vezes marcadas, por exemplo, pela presença em apenas uma edição do Sábado. Tornamos nossas as proposições de Carrano (1999) e suas opções metodologicas: “os sujeitos sim, e não os espaços deveriam ser o objeto central de minhas preocupações” – o que lhe permitia priorizar “a teia viva de relacionamentos humanos” (grifos nossos) (Carrano, 1999, p. 12). Outra questão importante que merece destaque diz respeito à escolha pelo trabalho com juventudes e práticas juvenis que se encontram fora dos espaços institucionalizados – ou, mais do que isso, juventudes que, no senso comum, se enquadrariam, muitas vezes, como “fora da lei” ou É possível falar em potência jovem? Desafios e perspectivas para pensar as juventudes contemporâneas 8 mesmo “perigosas”. Ao analisar a cultura Xarpi (ou de “pixação”) como produção estética juvenil, Gustavo Coelho, ao compor a metodologia de sua pesquisa, baseou-se no que chamou de “conversa-filosofia”: uma proposta que reúne “a volatilidade (grifos nossos) do encontro e da conversa como ponto chave de atuação” (Coelho, 2015, p. 33), no caso, com jovens na ação de “pixação” e a crença de que a extrema atenção e abertura a se deixar afetar pela força dos ditos dos pixadores se fizeram elementos centrais no processo de produção dos dados. Assumir as estratégias de uma “presença participante” (que privilegia o olhar atento às “teias vivas de relacionamentos” que se tecem ali mesmo, na “volatilidade” dos encontros no espaço difuso do Sábado Cultural), bem como de uma troca sustentada num tipo particular de conversa, se configuraram como elementos fundantes de toda a prática metodológica aqui assumida. Levando em conta as importantes estratégias sugeridas por esses trabalhos e pesquisadores, indicamos, de modo preciso, o modo como o campo e o corpus de análise da pesquisa foram constituídos. Como já referido, de julho a novembro de 2015 acompanhamos quatro edições do Sábado Cultural: Circuito de Cultura e Arte. Esses encontros foram realizados em pequenas ruas e quadras esportivas localizadas nos Bairros Partenon e Coronel Aparício Borges, na zona leste de Porto Alegre (RS). A única exceção foi uma edição ocorrida numa escola da rede pública, a Escola Estadual Paulo da Gama, também no bairro Coronel Aparício Borges. As observações foram traduzidas num diário de campo digital, em grande parte elaborado após cada uma das atividades vivenciadas. Essa opção se deu considerando ser o Sábado Cultural um evento marcadamente festivo. Além disso, muitas vezes, o ambiente aberto e a proximidade da noite deixavam o ambiente escuro, dificultando a escrita. A solução encontrada foi a de fazer vídeos curtos e fotografias com auxílio de um telefone celular – o que favoreceu, em muito, a lembrança de algumas situações e mesmo a percepção de detalhes que, no momento, não eram identificados. Os vídeos, em si, não compõem o corpus, mas foram materiais importantes na construção do diário de campo digital. Além disso, algumas imagens, extraídas de um acervo de cerca de 120 fotografias, são apresentadas nas análises e acabaram por ser tomadas graças à riqueza de informações visuais que traziam – sobretudo considerando o universo artístico e plástico que envolvia as atividades. Ao longo deste período, foi necessário retornar àquelas comunidades em busca de informações sobre os que lá moravam. Tinha-se como propósito realizar conversas mais aprofundadas com os jovens produtores culturais e/ou moradores do lugar, bem como fazer algumas observações sobre o bairro em dias “comuns”, nos quais não haveria o Sábado Cultural. Quanto às conversas, elas foram realizadas com os produtores culturais e lideranças do Sábado Cultural e com seis jovens artistas participantes das atividades. Paralelamente, muitos diálogos foram realizados nas vivências e no acompanhamento direto com os participantes (muitos deles moradores da região) nas celebrações sabatinas no período mencionado (e que não se constituem necessariamente como entrevistas em seu sentido formal, mas como conversas informais, por meio das quais valiosas informações puderam ser compartilhadas, como sugerem as proposições metodológicas de Coelho [2015], aqui mencionadas). Ao detalharmos os aspectos metodológicos, nosso intuito foi mostrar os caminhos trilhados pela pesquisa assumindo a particularidade do campo. É por meio deles que damos ênfase num tipo olhar, bem como, especialmente, de escrita daquilo que foi experienciado: um tipo de escrita, tanto quanto possível, carregada pela presença, pela palavra e pela vida que pulsa no cotidiano da experiência que buscamos analisar. Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 26, No. 4 9 O Conceito de Potência em Giorgio Agamben Para dar conta dos objetivos deste texto, faz-se fundamental o debate sobre o conceito de potência – em especial, no diálogo com algumas discussões que vêm sendo realizadas no campo dos estudos da juventude em seus modos de compreender os jovens no contexto de nossa sociedade ocidental. Para tanto, como já anunciado, partimos da produção teórica do italiano Giorgio Agamben, filósofo que, há décadas, vem se ocupando do conceito de potência – ou, para sermos mais precisas, da problemática aristotélica da potência. De início, e como princípio inarredável da discussão do autor, pode-se afirmar que a potência é entendida por Agamben como um dado ontológico do humano. Para o autor, o ser humano é um ser de potência – mas ser que é, antes de tudo, possibilidade, haja vista que não se apresenta como natureza fixa e imutável nem sujeito à realização de uma essência ou ao cumprimento de uma tarefa histórica garantida de antemão. Enquanto potência, então, o sujeito se produz como emergência, como composição ou, extensivamente, como topos – nesse caso, realizado no horizonte do comum, na relação com o outro. Ou seja, diz respeito a algo inapreensível, que não é definido por nenhuma operação própria e que nenhuma identidade ou vocação podem esgotar (Agamben, 1993). Entende-se, nessa perspectiva, e já na contramão das noções, no limite, celebratórias do sujeito-potência, que, por mais que a potência seja tomada como dado ontológico do humano, ela não corresponde a uma faculdade individual ou a alguma construção identitária, nem é atada a uma vontade ou neccesidade: “àquilo que queres ou deves [ser]” (Agamben, 2008, p. 25). Tal perspectiva encontra efeitos diretos nas discussões sobre juventude, sobretudo aquelas mais tradicionais que a caracterizam como “categoria social” e, como tal, sustentam que os limites de ser jovem (ou não) são definidos mediante o que cada sociedade entende ser características e traços específicos dos jovens – limites, aliás, muitas vezes envolvidos em imperativos univesalizantes e, por isso, excludentes. Particularmente para os jovens das classes populares – como aqueles que participam das dinâmicas do Sábado Cultural, por exemplo –, o acesso a determinados signos juvenis “característicos” de sua condição se dá mediante uma série de arranjos sociais que esses sujeitos (re)inventam a fim de superar as dificuldades estruturais que os circundam: como afirma Amaral (2015), os jovens tendem ali, antes, a resistir, a produzir formas de expressão, de visibilidade, modos originais de ser, pelos quais reconhecer-se enquanto sujeitos “jovens” está além daquilo do que se espera ser ou do que é preciso ser. Por certo, os princípios arraigados no pressuposto do que se espera ou se deve [ser] encontra suas bases no que Agambem chama de “toda uma tradição ética” que, no âmbito dos estudos da subjetividade, tentou contornar o problema da potência privilegiando imperativos que atribuem ordem ou direcionalidade ao caos indiferenciado da potência: “a nossa tradição ética procurou várias vezes dar a volta ao problema da potência reduzindo-o aos termos da vontade e da necessidade: não aquilo que podes, mas aquilo que queres ou deves é o seu tema dominante” [grifos nossos] (Agamben, 2008, p. 25). Com efeito, Agamben vê aí uma ilusão moral, que prescreve, de um lado, a supremacia do ser sobre o não ser e, de outro, a supremacia do ato sobre a potência. Trata-se de uma ilusão moral porque a equivalência entre o ser e o ato se sustenta na obra e no obrar para dizer do sujeito (ou seja, o sujeito só é na exata medida em que efetivamente faz); ao passo que aquela ligada ao não ser e à potência trazidas pelo autor implicam, antes, uma relação com a ausência e um trabalho de suspensão da ação – ou seja, implicam a dimensão de inoperosidade, tão cara ao conceito aqui em discussão (Agamben, 2007a, 2012). É possível falar em potência jovem? Desafios e perspectivas para pensar as juventudes contemporâneas 10 Resulta disso um entendimento decisivo: na leitura de Agamben não se trata de pensar o que leva o sujeito à passagem da potência ao ato ou àquilo que o leva de uma suposta imobilidade ao movimento – critérios mais recorrentes em relação aos quais muitas das proposições cotidianas sobre jovens “potentes” são organizadas, estruturadas e avaliadas. Trata-se, sim, da possibilidade de manter-se na potência (portanto, de não ser), “uma vez que é não só à medida do que cada um pode fazer, mas também e antes de mais nada a capacidade de se manter em relação com a sua possibilidade de não o fazer, o que define o estatuto de sua ação” (Agamben, 2010, p. 58). Em relação a isso, podemos destacar o quanto os jovens, especialmente de classes populares – e no interior de uma lógica distante daquela que mantém a ação em suspenso –, são hoje, cada vez mais, convocados à ação, em muito associada a um tipo específico de inscrição: aquele do “trabalho voluntário” e à realização de projetos comunitários orientados para efetivamente “resolver” algum problema por meio da “intervenção social”, prática nas quais a “solidariedade” ou o “ser útil aos outros” funcionam como axiomas. Para Regina Magalhães de Souza (2009), em consonância com os pressupostos que buscamos desenvolver, também aqui há a crença na atividade como forma de os jovens instalarem-se no espaço público e a ocuparem assim, aparentemente, um lugar político. No entanto, baseada em Hannah Arendt, a autora alerta o quanto tais ações são, antes, a própria anulação da política, já que implicadas com a ordem do “calculável”, do “concreto” e do “linear” próprios do fazer: “o fazer, determinado pelas categorias de meios e fins, é radicalmente diferente da ação política”, que “embora tenha um começo definido, jamais tem um fim previsível” […] Do modo contrário, a ação política sempre [é] imprevisível e dependente dos outros homens (Souza, 2009, p. 17). É disto, pois, que falamos: do quanto a atividade e o fazer, por si só, não garantem o exercício de uma prática efetivamente implicada, mas, antes, considerando sua vinculação com lógicas ligadas à previsibilidade e à produtividade, por vezes, inviabilizam o próprio exercício do político (de acordo com Arendt) e, no caso de nossa discussão, a potência (de acordo com Agamben). Mas o que seria, então, a não-ação, entendida como possibilidade de “manter-se na potência” – ou, em uma palavra, a inoperosidade? Para Agamben, a figura emblemática da possibilidade de “manter-se na potência” é tomada a partir da literatura: Bartlebly, no personagem de Herman Melville, o escriturário que, como resposta a toda e qualquer demanda que lhe era feita, respondia, invariavelmente: “preferiria não fazê-lo” (Melville, 1986, p. 32). “Preferia não fazê-lo” emerge, então, como uma inarredável reivindicação do nada como potência pura e absoluta, como uma “figura extrema do nada do qual procede qualquer criação” (Agamben, 2008, p. 25). Em Bartleby, e na interpretação de Agamben sobre a fórmula “preferiria não fazê-lo”, percebe-se a tensão entre a chamada potência ordenada (comprometida com a organização do caos da potência) e a potência absoluta. O escriturário melvilliano, mantendo-se a meio caminho entre a afirmação e a negação, entre a aceitação e a recusa, entre o poder e o abandonar, lembra a Agamben o pathos próprio aos céticos antigos, que se expressa pela suspensão sugerida pelo “nem isso nem aquilo” (Peixoto, 2015, p. 78). O que se destaca aqui não é uma simples indiferença, mas a experiência mesma de uma possibilidade aberta – ou, em outras palavras, de uma potência. Com Bartleby, portanto, trata-se de habitar um “não ainda” a partir de uma potência absoluta, da ocupação de uma “impotente possibilidade” que já não serve para assegurar a primazia do ser sobre o não ser. Antes disso, com seu ceticismo, o personagem afirma uma potência que não habita o modo de ser em ato e nem o nada: habita concomitantemente um e outro e, nessa condição, pode chegar a ser ou fazer (Agamben, 2008; Peixoto, 2015). É por essa razão que a dimensão pura ou passiva da potência – também nomeada potência de não, e a que mais interessa à filosofia de Giorgio Agamben –, permite entender os modos de ser sujeito na qualidade de obra aberta, pois suspendida do ato de “dever e querer ser” e, como tal, como possibilidade de receber qualquer ser. Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 26, No. 4 11 Ao trazer tais discussões e, com elas, perspectivar com Agamben o sujeito como potência, entendemos que pensar os jovens como potência implica, já de início, não reduzi-los àquilo que podem nos termos da vontade e da necessidade (em termos, portanto, de uma potência ordenada), muito menos nos termos de uma individualidade. Uma vez deslocadas daquilo que deles se espera antecipadamente e de tudo o que, quanto a eles, é preciso ser, tais premissas podem sugerir possibilidades de discussão que recusem as fórmulas já conhecidas e previsíveis acerca dos sujeitos em questão (e que se aproximam das assertivas com as quais abrimos este texto). Para melhor esclarecermos estes aspectos, é preciso situar que o deslocamento fundamental realizado por Agamben quanto ao conceito de potência encontra suas bases em um movimento de pensamento que é, antes de mais nada, filosófico e histórico. Mais precisamente, ao realizar uma “arqueologia da potência”, Agamben retoma as teses aristotélicas – porém o faz com base nos comentários da obra do estagirita no Islã clássico entre os séculos IX e XII. Agamben, portanto, afasta-se das leituras ocidentais de Aristóteles, abordando a recepção dos tratados aristotélicos a partir de comentadores árabes, sobretudo, Averróis5 (ainda que não apenas dele). Enquanto para Aristóteles o que define o ser em ato do homem é justamente a racionalidade ou o pensamento (proposição que privilegiaria o modo de ser humano pela obra ou operosidade), para Averróis, por outro lado, a vida segundo logos é compartilhada com outras categorias de seres vivos. Para o filósofo medieval, o que caracteriza especificamente o logos humano é o fato de ele não estar sempre em ato, mas existir, em primeiro lugar e em geral, só em potência (Averroe ̈s, Libera, & Hanania, 2005). Entendemos, assim, que a tese proposta por Averróis era a de que o pensamento corresponde a uma potência outra, não inata aos homens. Para o averroísmo, o pensamento não pertence ao homem constitutivamente: “não existe em nós desde o princípio na sua perfeição última e em ato, a sua existência em nós é apenas potencial” (Pinto, 2015, p. 77). Se para nós é evidente que todo saber e todo pensamento, como formas de potência, têm a espessura de uma consciência individual, o averroísmo funda-se sobre uma pressuposição, no limite, oposta: o pensamento não existiria enquanto posse de alguém, podendo indicar, antes, uma descontinuidade; ele é possibilidade-potência de ser e de não ser, realizada como contingência apenas e tão-somente na relação com outros e, por isso, independente de um indivíduo. Com isso, se desejássemos utilizar a linguagem averroísta e rever as coisas ditas sobre o potêncial juvenil em alguns discursos contemporâneos, talvez ficássemos insatisfeitos, pois o esforço envolvido em reconhecer, desenvolver e extrair uma pretensa potência que habita o jovem não teria sentido no pensamento filosófico de Averróis, nem na atualização que faz Agamben deste. Ao mesmo tempo, isso não significa “que o homem não seja nem deva ser alguma coisa, que ele seja simplesmente entregue ao nada e possa, portanto, decidir ser ou não ser à sua vontade, atribuir a si ou não atribuir este ou aquele destino” (Agamben, 1993, p. 38). De modo mais amplo, o que está em questão é a sua própria natureza, que se apresenta, como já dito, como obra aberta, ou seja, como: “algo que não é uma essência, não é propriamente uma coisa: é o simples fato da sua própria existência como possibilidade ou potência” [grifos do autor] (Agamben, 1993, p. 38). Em Introdução a Giorgio Agamben: uma arqueologia da potência, Edgardo Castro (2012) afirma que o autor italiano aponta que o único modo coerente de entender a inoperosidade seria pensá-la como um modo de existência genérica da potência, que não se esgota em um trânsito da potência ao ato. Para compreender o que entende-se por inoperosidade e, com isso, necessariamente por “potência de não”, é preciso remeter às duas concepções de potência presentes em Aristóteles, identificadas como “potência genérica” e “potência específica” (Agamben, 2006). Se trazemos aqui essa operação de 5 Averróis ou Abu-L-WalidIbnRushd, nascido em Córdoba em 1126, foi um filósofo, médico e jurista muçulmano andaluz. Considerado como o maior filósofo aristotélico do século XII, foi tido como “o último pensador da Espanha muçulmana” (Averroës, Libera, & Hanania, 2005). É possível falar em potência jovem? Desafios e perspectivas para pensar as juventudes contemporâneas 12 diferenciação é porque ela oferece bases decisivas para a construção deste conceito (inoperosidade), tão caro à nossa análise e aos modos como olhamos as práticas juvenis que se efetivam no espaço do Sábado Cultural. Aristóteles, segundo Agamben, distingue uma potência genérica – aquela segundo a qual dizemos, por exemplo, que uma criança tem o potencial para a ciência, ou que é um arquiteto ou um médico “em potência” – da potência que compete a quem já tem a exis correspondente àquele saber ou àquela habilidade específicos (Agamben, 2006, p. 15). Sobre isso, exis (de echo, ter) é o nome que Aristóteles dá ao hábito ou à faculdade que é “tida”, mas cujo estado tem a forma de uma privação (steresis); ou seja, a exis como forma de uma privação implica compreender que o arquiteto tem a potência de construir mesmo quando não está construindo, ou que o médico tem a potência de sua prática mesmo quando não a exerce. Dizendo de outro modo, enquanto a criança é potente no sentido de que deverá sofrer uma alteração por meio do aprendizado, aquele que já possui uma técnica, ao contrário, não deve sofrer uma alteração, já que é potente a partir de uma exis, possível mesmo quando não colocada em ato ou quando atua. Ou seja, a potência aqui toma um sentido particular, vinculado à possibilidade do não-exercício de uma faculdade já incorporada. Ou, mais do que isso, “há uma forma, uma presença daquilo que não é em ato e essa presença privativa é a potência” (Agamben, 2006, pp. 16-17). Nessa perspectiva, dizer que a potência se define verdadeiramente pela ordem da privação, ou seja, pela possibilidade do seu não exercício, vincula-se ao fato de que, na própria falta (steresis), o hábito situa-se fora do binarismo entre potência e ato: a potência age mesmo quando não atua; seu ato é, pois, uma suspensão. Segundo Pinto (2015), Agamben concentra seu empenho especulativo sobre o conceito de privação visando extrair a possibilidade de se pensar o sujeito de uma falta: uma forma-de-vida que se constitui a partir de um não atuar (steresis) enquanto paradigma de toda ação (Pinto, 2015). Assim, se nossa análise estiver correta, o sujeito de uma falta é o sujeito da inoperosidade, ou daquela potência que nomeia uma exis liberta da tutela do ergon (obra, tarefa ou vocação específica), não apenas no sentido de que pode permitir-se não passar ao ato, senão, sobretudo, no sentido de que excede tanto a potência quanto a obra (Agamben, 2012). Assim, não se pode entender essa falta, no sentido de Agamben, como algo negativo; como carência, pobreza ou vulnerabilidade, mas como uma disponibilidade, como um espaço que se abre toda vez que uma atividade faz-se inoperante e anula, com isso, seu comprometimento finalístico dado de antemão. Como exemplo, teríamos, nas palavras do filósofo: escrever um poema que escapa a função comunicativa da linguagem; ou falar ou dar um beijo, alterando, assim, a função da boca, que serve em primeiro lugar para comer [tradução nossa] (Agamben, 2007a). Não por acaso, talvez seja no domínio da arte (e das práticas artísticas, de maneira mais ampla) que a potência da inoperosidade possa emergir de maneira decisiva: nela (nelas), de fato, noções como “utilidade” e “eficácia” pouco fazem sentido, já que é nela (são nelas) que os objetos são, em grande medida, esvaziados de suas funções imediatas em prol das potencialidades da “inutilidade”. E, talvez, mais importante, o próprio sujeito é esvaziado ou privado das funções de sobrevivência e reprodução para uma convocação a um “não atuar”, sendo lançado a uma zona habitável de indeterminação (Agamben, 2007a; 2012). Agamben afirma que é necessário entender o termo de inoperosidade como se existisse o verbo ativo inoperar. Inoperar, portanto, nomeia o gesto inverso a operar (Agamben, 2012) – algo que pode ser entendido como um não-obrar, des-obrar, desativar. Como exemplo, Agamben apresenta os dias festivos como espaços emblemáticos de inoperosidade: nos dias festivos, ele explica, come-se, mas não para se alimentar; caminha-se, mas não para chegar a algum lugar (apenas passeia-se); fala-se, mas não para dar ou pedir informação (apenas se conversa); trocam-se objetos, mas não para Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 26, No. 4 13 comercializar (apenas pelo ato de oferecer presentes). O banquete, o passeio, a conversa e o presente seriam, pois, formas de inoperosidade. Talvez nossa dificuldade de compreensão da inoperosidade se deva ao fato de que hoje vivemos em uma sociedade cada vez mais despojada de seu caráter inoperoso: o passeio tende se a transformar em esporte, o banquete em jantar de negócios, a conversa em diálogo “construtivo”. Ao mesmo tempo, multiplicam-se os especialistas dispostos a nos assessorar sobre como aproveitar nosso tempo livre, de como fazer mais eficazes e “produtivos” nossos mínimos gestos cotidianos (Lopez, 2015, p. 157). Como se pode perceber, o problema da potência de inoperosidade em Agamben (2007a; 2012) nos leva a repensar o estatuto da ação e principalmente do agir – ou seja, as bases fundantes de parte da lógica da “potência” tal como expressa nos materiais referenciados no início deste texto. Como assinala Pinto (2015, p. 89), “paradoxalmente parece que o agir em Agamben não é resultado de uma ação”. A filosofia da inoperosidade proposta pelo filósofo italiano convida-nos a pensar algo bastante distinto e, talvez, por isso mesmo provocador: ali onde não se age é onde mais se pode agir. Sábado Cultural: Ou o que Pode a Potência [O Sábado Cultural] não tem um calendário fixo, um itinerário fixo. Simplesmente as pessoas vêm. Elas falam: “ah, vamos a fazê-lo aqui na rua, e são eles que nos acolhem (Jaqueline, entrevista 24 de setembro de 2015) Um olhar rápido sobre o Sábado Cultural: Circuito de Cultura e Arte pela fala de Jaqueline provavelmente nos faria interpretá-la inferindo ali a ausência de algumas estratégias básicas de planejamento das ações, já que a produção dos encontros, como visto, não está orientada segundo datas estabelecidas e não se conhecem, antecipadamente, os locais onde se realizarão. O Sábado Cultural tanto pode ocorrer uma vez ao mês, como pode ocorrer várias vezes nesse tempo ou pode ainda nem mesmo ocorrer. Mais do que responder a uma ideia de planejamento ou de trabalho seguros e certos, como afirma Jaqueline, os jovens do Sábado Cultural parecem se mobilizar por um... “simplesmente as pessoas vêm”. No caso do Sábado Cultural, “as pessoas que vêm” são jovens ou adultos moradores de alguns dos bairros da região do Partenon, zona leste de Porto Alegre, ou que têm alguma atividade social arraigada nessa área geográfica (como, por exemplo, professores de escolas públicas) que “se prontificam” a fazer o encontro acontecer. Como se observa na imagem abaixo, sujeitos de diferentes idades e gêneros ocupam a cena do Sábado (Figura 1), e é essa uma das características da iniciativa. Entre os frequentadores e os jovens que organizam o Sábado Cultural existe, às vezes, algum vínculo familiar ou de amizade; outras vezes, são pessoas que apenas se conhecem por um laço de vizinhança. Cada um deles – jovens produtores e aqueles que vão ao Sábado Cultural – tem uma tarefa a cumprir na realização do encontro (mesmo que essa tarefa varie de edição em edição), e para a qual mobilizam-se, sobretudo, pelas redes sociais, que envolvem amigos, vizinhos, crianças e jovens que atuam com expressões artísticas urbanas, como o rap, a dança de rua e o grafite. Considerando esse cenário, pode-se dizer que a temporalidade que se exprime na espera das pessoas que vêm, de imediato, não parece se inscrever na perspectiva daquilo que se possa antecipar, projetar ou prescrever – talvez porque ela não implique um tempo a partir do qual se possam ter expectativas garantidas. Ao invés disso, a relação que vem sugere um vínculo temporal atravessado pela contingência, no qual as possibilidades de que algo aconteça ou não aconteça se instauram no mesmo espaço e tempo. Ou, como escreve Giorgio Agamben, “alguma coisa cujo oposto poderia ter acontecido no exato momento em que ela advém” (Agamben, 2008, p. 36). O contingente é tomado aqui como figura que pouco tem a ver com um tempo de certezas: não se sabe e não se É possível falar em potência jovem? Desafios e perspectivas para pensar as juventudes contemporâneas 14 espera porque as atividades não se colocam como compromissos, nem como obrigações. Diante disso, pode-se agir de um modo, pode-se agir de outro ou pode-se não agir de modo algum: O Sábado Cultural tem uma proposta de não ter uma grade fechada, e isso já mobiliza as pessoas. Porque, assim, [jovens artistas urbanos] somos muitos segregados e separados o tempo todo. Te dizem o que tu vais vestir, qual horário vai estar no evento. Quem vai estar e quem não vai estar. Então, como a gente tem essa proposta de ter uma grade aberta, quem quiser espontaneamente, vai lá e toca. Isso é o que ativa as pessoas: tu não és obrigado, não tem compromisso, mas ao mesmo tempo é um espaço aberto para tu mostrar teu trabalho (Jaqueline, entrevista 24 de setembro de 2015) Afirmar que o Sábado Cultural não depende da vontade, do saber ou do poder dos jovens organizadores não significa, para eles, desistir do exercício da organização ou da autonomia no contexto da iniciativa. Diante do tempo incerto, do tempo da contingência, os jovens do Sábado Cultural praticam uma escolha e uma acolhida: uma escolha porque eles optam por esperar pelo outro, por se entregar a um não saber relativo a quem e quando “vem” para que, então, o encontro possa acontecer – em suma, optam pela indeterminação inerente à celebração sabatina; uma acolhida diante uma figura desconhecida ou um “aberto” – que, como vimos, pode ser uma pessoa ou mesmo uma proposta –, sem exigir compromissos e sem confundir-se com inatividade ou passividade, mas, talvez de modo mais preciso, com uma primeira dimensão de inoperosidade. Se optamos por pensar algumas práticas juvenis no Sábado Cultural a partir do conceito de inoperosidade faz sentido discutir, afinal, qual “obra” humana torna inoperantes os jovens do Sábado Cultural. Se entendemos que ela está radicada na interrupção a uma forma prescrita de agir como protagonistas no espaço público, para dar conta dessa hipótese, selecionamos para discutir neste texto a edição de agosto de 2015 do Sábado Cultural. Nessa edição, a ação cultural pretendia realizar a pintura de uma parte de um dos muros externos do Presídio Central de Porto Alegre – um muro de concreto, sólido e retangular, de aproximadamente 12 metros de altura e 150 metros de largura, que separa a estrutura prisional de uma área residencial de modestas casas familiares localizadas na rua Tenente Camargo, uma das ruas do bairro Coronel Aparício Borges. No meio de uma intensa atividade de rua são grafitados centenas de metros de um antigo e imponente muro cinza. Trata-se do muro externo do Presídio Central de Porto Alegre. No lugar, estão presentes mais de trinta grafiteiros, além de crianças, homens e mulheres que moram no bairro vizinho ao presídio. Hoje, realizou-se a sétima edição do Sábado Cultural: Circuito de Cultura e Arte, tendo como objetivo “dar vida e arte aos muros do Central” (Diário de Campo, 15 de agosto de 2015)6 6 Esta foi uma expressão constante nessa edição do Sábado Cultural e diz respeito a dar vida e arte (metáfora de “dar cor”) ao muro externo do Presídio Central de Porto Alegre. Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 26, No. 4 15 Figura 1. Muro externo do Presidio Central de Porto Alegre (RS-Brasil). Rua Tenente Camargo. Data: 15 de agosto, 2015. Fonte: Acervo próprio das autoras. Figura 2. Limpeza das adjacências ao muro externo do Presídio Central de Porto Alegre (RS-Brasil). Rua Tenente Camargo. Data: Agosto, 2015. Fonte: Arquivo de organizadores do Sábado Cultural. Neste bairro, não apenas se situa o presídio da cidade de Porto Alegre, mas também a Academia de Polícia Militar, o Regimento Bento Gonçalves e outras dependências da Brigada Militar do Estado. Qualquer pedestre que se desloca pela zona pode perceber as marcas visuais que, de diferentes formas, exibem ostensivamente a presença dessas instituições no espaço (anúncios impressos na via pública, símbolos/desenhos/gravuras no asfalto da rua, bonecos de tamanho real, É possível falar em potência jovem? Desafios e perspectivas para pensar as juventudes contemporâneas 16 simulando policiais em treinamento na calçada, além da presença de prédios de uma arquitetura de grande porte). Convém acrescentar, ainda sobre o presídio, que ele é a maior penitenciária do estado do Rio Grande do Sul e foi construído no final da década de 50, então nas margens da cidade. No ano de 2008, a instituição foi avaliada como a de piores condições humanitárias no país, em razão da superlotação e da precária conservação de seus prédios.7 Contudo, em uma das imagens que trazemos (Figura 2) é possível ver que, entre o muro externo do presídio e a área de moradia do bairro, acontece algo mais do que a mera distância física: a estrutura não separa apenas o espaço entre a instituição carcerária e a comunidade, mas, por suas altas e largas dimensões, ela realiza um enorme bloqueio de uma parte do horizonte visual dos moradores do lugar – bloqueio que impõe uma cena cinzenta de ponta a ponta. Além disso, nos ângulos do muro erguem-se largas torres em forma de guaritas. Por meio delas, em alguns momentos, é possível ver funcionários da Brigada Militar em tarefas de sentinela – o que faz deduzir que dali é possível exercerem alguma vigilância em ambos os espaços que o muro cinde. Do outro lado, a rua Tenente Camargo, onde se realizou o Sábado Cultural daquela edição, é uma rua estreita, pavimentada e de via dupla, mas por onde não podem circular simultaneamente mais de dois veículos em sentidos contrários. Naquele dia, já pela manhã, a rua foi fechada pelos vizinhos com barreiras improvisadas para que nenhum carro interferisse o passeio dos pedestres, bem como a realização das atividades. Progressivamente, durante as horas seguintes, o espaço foi sendo povoado de grafiteiros – pelo menos, vinte ou trinta, que apareciam na maioria das vezes em pequenos grupos de dois ou três. A idade deles variava entre 15 e 30 anos, isso sem contar alguns personagens que, depois ficou claro, serem grafiteiros reconhecidos, com projeção nacional e internacional. A ação no presídio havia sido divulgada dias antes pelos organizadores do Sábado Cultural por meio de cartazes e vídeos na internet, como um “encontro de integração onde os muros do [Presídio] Central vão ganhar vida!!!”. Além disso, o convite foi encaminhado no grupo de mensagens do aplicativo de conversas pelo celular, que, como já referido, reúne mais de cinquenta pessoas – entre elas produtores culturais, apresentadores, rappers, grafiteiros e alguns moradores das vilas onde têm acontecido as ações sabatinas. Como todos os Sábado Cultural, esse realizou-se a partir de uma parceria: um representante da Associação Comunitária Vila São Miguel aproximou-se de Geovane – um dos organizadores – pedindo a colaboração na realização de uma “ação de educação ambiental” na comunidade, com o propósito de evitar a continuidade do descarte de lixo e a queima de resíduos no espaço. Pontualmente, a proposta dos moradores foi a de pintar uma parte do muro externo com mensagens destinadas ao cuidado coletivo do ambiente local – isso porque os arredores externos do muro vinham sendo usados, já há algum tempo, para o descarte de lixo e para a queima de resíduos. No entanto, numa conversa que tivemos com Geovane, ele confessou que eles (jovens produtores de Sábado Cultural) já tinham vontade de pintar a larga parede do Presídio, mas que, por ser delicada a mediação com as autoridades do Presídio, não havia sido possível até então a realização desse desejo. Para a proposta do Sábado, a mediação foi realizada diretamente pelos membros da Associação Comunitária, ficando combinado que, enquanto o coletivo do Sábado Cultural convidaria a rede de artistas e se responsabilizaria pela programação artística, os vizinhos tinham a tarefa de procurar as licenças com as autoridades da instituição carcerária e colaborar com as tintas. Contudo, este último acordo não foi cumprido: por diferentes razões, sobretudo ligadas a 7 Os dados sobre essa avaliação podem ser encontrados no documento “Representação: violação dos direitos humanos no Presídio Central de Porto Alegre”, organizado por vários órgãos públicos do Estado (Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul, 2013). Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 26, No. 4 17 um problema de comunicação, os membros responsáveis pela Associação Comunitária não conseguiram fornecer as tintas. Assim, naquele dia, Jaqueline, Moura e Geovane, iam aos poucos informando que não dispunham das tintas prometidas. Mesmo com isso, não se percebeu reação negativa por parte dos grafiteiros; ao contrário, boa parte deles aceitara ficar e participar da atividade, inclusive porque já traziam suas próprias tintas. Os grafiteiros presentes vinham de várias cidades da região metropolitana de Porto Alegre, como Guaíba, Cachoeirinha, Novo Hamburgo e Alvorada, além de dois outros bairros da cidade (Restinga e Centro). Quanto a esse aspecto, Jaqueline chegou a afirmar que a possibilidade de junção, de “a gente estar junto”, mesmo morando longe e em lugares tão diferentes geograficamente é, em sua opinião, uma das características do Sábado Cultural: E outra coisa muito legal é que além dos grafiteiros, também vêm os artistas da parte do rap, vem gente da região metropolitana toda para participar do Sábado Cultural. Isso é fundamental, a gente conversa, alguém busca quando (algum convidado) se perde, tem toda uma logística (de atenção), para orientá-los na chegada ao lugar, a gente estar junto.... Dizemos: ‘eles vêm de longe, acolhe eles bem na tua casa’ (Jaqueline, entrevista 24 de setembro de 2015) Trazemos esse elemento, pois ele indica um elemento importante: o Sábado Cultural funciona como um território subjetivo de vínculos, afetos e partilhas; um espaço que se abre no meio de outro território geográfico, o prisional, carregado de controle social e precariedades materiais. Ambos os territórios são reais, eles se atravessam entre si, se interpenetram. Ao mesmo tempo em que são planos de visibilidade, de panoptismo e vigilância para as sentinelas do presídio, naquele dia, eles se tornam também territórios possíveis de ver e ser visto pela experiência com a arte urbana – uma sutileza que talvez possa ser observada com a ajuda de uma composição de imagens (Figura 3): se à esquerda temos a fotografia que mostra o início do processo (marcado pelo olhar do policial), à direita, há algo que, com o avançar do dia, e metaforicamente, é substituído por uma espécie de clarão, dando a ver também os grafites que agora encontram seus limites mais definidos. É possível falar em potência jovem? Desafios e perspectivas para pensar as juventudes contemporâneas 18 Figura 3. Muro externo do Presídio Central. Porto Alegre (RS-Brasil). Data: 15 de agosto, 2015. Fonte: Acervo próprio das autoras. Percebe-se que a iniciativa se efetivou como um espaço de conexão entre diferentes jovens que moram em zonas distantes entre si, alimentando uma rede de parcerias entre seus componentes a partir da junção, da conversa, da atenção, da acolhida e da partilha em um lugar que não era literalmente o “seu”, o próprio: que não era, portanto, o conhecido. Quando falamos de um lugar não conhecido não nos referimos (apenas) a um espaço de tipo físico (o bairro, a rua, o morro, a vila onde se chega pela primeira vez); ele também diz respeito, por exemplo, ao próprio ato de se deparar frente ao muro e não saber, de antemão, o que vai ser pintado: “eu não sei como é que vai sair, eu simplesmente vou fazendo, vão vindo as ideias e vou colocando” (Trone, grafiteiro. Conversa. Diário de campo, 15 de agosto de 2015). Ou seja, é desconhecido porque é o lugar onde alguém, talvez, esteja pela primeira vez, das mais distintas formas: “tenta, pega um pincel e vamos fazer uma arte” (Trampo, grafiteiro, a um menino. Diário de campo, 15 de agosto de 2015). Em outras palavras, o não-saber emerge como uma espécie de vibração nas mais distintas práticas e se assume, na relação com o outro, como pressuposto básico dos modos de ser e constituir encontros, como aquele, sincronizado, entre o menino e do grafiteiro. (Figura 4) Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 26, No. 4 19 Figura 4. Muro externo do Presidio Central de Porto Alegre (RS-Brasil). Rua Tenente Camargo. Data: 15 de agosto, 2015. Fonte: Acervo próprio das autoras. Depois de oito horas de atividade, os grafiteiros haviam pintado a maior parte da estrutura. Foram realizadas aproximadamente cerca de vinte peças ao longo desta grande “tela” (o muro cinza), sendo a maioria delas produzida coletivamente entre duas ou três pessoas. Ali podiam ser percebidas diferenças de estilo, de tamanho, de domínio da técnica de grafite, de criação conceitual. Ao final, no entanto, um dos grafiteiros agregou a cada uma delas uma pequena marca semelhante, como gesto de unificação da produção artística. Terminada a atividade, Jaqueline e Moura fizeram uma mensagem de agradecimento como parte do encerramento do dia. Da esquina da rua, ao lado das caixas de som que projetaram música o dia todo, e com microfone em mãos, lembravam e agradeciam publicamente às muitas pessoas que colaboraram na realização daquela edição do Sábado Cultural. Ao tomar o microfone, Moura iniciou sua mensagem com um: “Olha só!”, levando a todos olhar a estrutura agora colorida. Disse também, antes da conclusão da grafitagem praticamente total da parede, que algo ali se revelava: “os grafiteiros ficaram grandes para o muro” (Diário de campo, 15 de agosto de 2015). “Os grafiteiros ficaram grandes para o muro”: pode-se dizer que a metáfora expressa, de algum modo, o que ocorreu naquela edição sabatina – mais precisamente, e tal como os limites de um muro agora suspensos (“os grafiteiros ficaram grandes para o muro”), talvez, se possa dizer que há um “algo mais” relativo à perspectiva de um olhar que parecia estar ali em jogo: produziu-se uma certa “reorganização da visibilidade” – o muro, que era evidentemente grande, forte e imponente, ficou menor diante do que não o era expressivamente. Logo, aquilo que o olho percebia pequeno ou não percebia, ganhou valor na dimensão da visão, agigantando-se no processo da coloração. Referimo- nos à figura dos grafiteiros e de todos ali envolvidos direta ou indiretamente com os grafites. Assistimos com Moura – espectador como nós – à criação de uma palavra (metafórica) que possibilita um desdobramento importante considerando nossa discussão: a criação de outro panorama visual a partir da relação com um muro carregado de grafites (Figura 5). Mais especificamente, parece que a obra que ele vê e que convida a todos a verem também é uma obra humana, para além de algo meramente pictórico. Singularmente, nessa obra de humanos, não há protagonistas privilegiados: nem o grafiteiro mais experiente, nem o mais novo. Parece que o É possível falar em potência jovem? Desafios e perspectivas para pensar as juventudes contemporâneas 20 privilegio é dado a uma grandeza que não é de um sujeito, mas de qualquer um que se configura nessa situação e que emerge como pura contingência. A expressão qualquer parece pejorativa, contudo, o termo concentra, como já referido, um modo ser potente: genérico e, ao mesmo tempo, singular, visto que a singularidade do sujeito é dada justamente pela possibilidade ou potência de se chegar a ser qualquer um, pelo exercício de poder não se deixar determinar pelas formas de subjetivação que lhe são atribuídas, fixadas, limitadas. Mais precisamente, o ser-qualquer significa um ser que “é tomado independentemente de suas propriedades particulares que o incluiriam em um determinado conjunto ou classe” (Agamben, 1993, p. 12). Assim, não se trata de um indivíduo identificado por esta ou aquela qualidade, que, por sua vez, lhe pertenceria de modo exclusivo: “significa, pelo contrário, ser qualquer um, a saber, um ser tal que é indiferente e genericamente cada uma de suas qualidades, que adere a elas sem deixar que nenhuma delas o identifique” (Agamben, 2007b, p. 47). Nessa perspectiva, a “qualqueridade” coloca-nos numa tensão entre o que é único (singularidade), o que é próprio (particularidade) e o que é de todos (universalidade). A categoria (“qualqueridade”), tal como aqui a entendemos, rompe com um princípio de identidade que procura estabelecer limites claros e precisos àquilo que (supostamente) somos – geralmente, na forma de predicados particulares ou metanarrativas universais que personalizam e substancializam o ser especial. Fala-se, antes, de “um ser – um rosto, um gesto, um acontecimento – que, não se assemelhando a nenhum, se assemelha a todos os outros” (Agamben, 2007b, p. 48). Para Agamben (2007b), na singularidade do qualquer, o ser não é determinado por propriedades que denotam uma classe de identidade, pertencimento, inclusão ou representação (como negro, francês, e certamente jovem), senão pelo encontro com outro-qualquer. No muro podem ser observadas, pelo menos, vinte peças de grafites únicas, realizadas por mais de trinta sujeitos, com estilos e domínio da técnica irredutíveis entre si. Contudo, na obra-grafite-muro produzida no Sábado Cultural, que é também única, se processa, ao mesmo tempo, um sentido complementar à particularidade (o que é próprio de cada um) em direção a uma qualqueridade convergente com a criação de todos, com aquilo que os singulariza no registro da ação coletiva. Isso ocorre porque a obra-muro não pode ser entendida sem aquilo que resulta ou deriva da junção dos cada um, os quais, na contingência, organizam ou configuram um fenômeno resultante daquilo “que fazemos juntos” – independente de quem é um e quem é o outro. Figura 5. Muro externo do Presidio Central de Porto Alegre (RS-Brasil). Rua Tenente Camargo. Data: 15 de agosto, 2015. Fonte: Acervo próprio das autoras. Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 26, No. 4 21 Não se trata de mero altruísmo, mas, antes, de algo investido de um caráter político da construção do coletivo, que excede as individualidades, que excede a dimensão de um produto, de um resultado e mesmo algo que poderia esperar-se de antemão – sobretudo em termos de “potência”. Trata-se de algo que vimos insistindo até aqui: o fato de a potência não poder ser resumida a algo inerente ao sujeito ou à atividade, mas, antes, àquilo que o ultrapassa; de a potência não poder ser limitada àquilo que se pode antecipar, prever, muito menos ser medida em relação àquilo que, como produto, a ela caberia realizar. No lugar disso, a aposta na qualqueridade parece trazer premissas fundamentais para delinear os espaços indecidíveis nos quais se torna possível pensar uma outra ontologia da potência, que se desloca do sujeito-essência em direção a um entre. Carlos Skliar (2012) explica algo semelhante, que se passa no contexto escolar e que, cremos, coincide com o sentido que aqui queremos expor. Skliar afirma: Não se trata tanto de pensar quem é o aluno, quem é o professor, quais são as suas características, quais são as suas especificidades. Mas, sim, o que fazemos juntos, o que seria possível fazer juntos. E isso é independente de quem é um e quem é o outro. Fazer alguma coisa junto já é alteridade; já é a terceira coisa. E não é nem você nem eu. (Skliar, 2012, p. 318) Dizendo de outro modo, e considerando os objetivos deste texto, não se trata tanto de pensar quem é o jovem, quais são as suas características, quais são as suas especificidades; mas, sim, o que os jovens fazem juntos, o que lhes seria possível fazer juntos – não somente entre si, mas também com outros. “Fazer alguma coisa junto”, naquilo que buscamos mostrar, implica, pelos motivos que destacamos (contigência, não-sabido, não antecipável), uma experiência de alteridade – a “terceira coisa” de que nos fala Skliar (2012). Ou seja, é daquilo que, entre os jovens, seria possível “fazer juntos” que emerge a potência jovem: uma potência outra, que não se confunde com o “algo” que se faz, mas que diz respeito a uma “terceira coisa”, nos termos de Skliar (2012), a algo dinamizado com o desconhecido, entre desconhecidos; algo que se inscreve às margens de um potencial (individual) ou de um potencial imediato do outro (também individual). Se podemos dizer que a potência jovem se inscreve na terceira coisa, criada além sujeitos ou vontades individuais, é porque, entendemos, só há criação entre qualqueridades, ou, mais do que isso, porque só se chega a ser qualquer (um) no espaço do encontro. Foi justamente da disponibilidade ao encontro que resultou a produção de algo que ainda não existia e que é irrepetível. Como se observa, a partir da descrição mais ampla sobre esta edição do Sábado e de tudo o que a envolveu, certamente os termos “protagonismo” e “protagonista” não são os mais apropriados para resumi-los. Nos ditos, nas imagens dos jovens do Sábado Cultural trata-se, pois, de um tipo de potência que não tem como foco os sujeitos em si mesmos, muito menos um lugar privilegiado que lhes seria garantido de antemão. No Sábado, há o privilégio dos vínculos, dos encontros, dos acontecimentos, os quais, por sua vez, emergem como terceira coisa, a um só tempo, criada e inesperada. O que adquire protagonismo, então, é aquilo que o conjunto dos “qualquer um” podem ser e fazer juntos no acolhimento e na singularidade; em uma palavra, na experiência comum. É isto, pois, a inoperosidade: algo que está além e aquém da obra, que não se relaciona com produção, realização imediata ou linear de algo, mas cujo vértice se localiza na fragmentação, na suspensão: numa operação na qual o como substitui, e decididamente, o quê. Conclusões Buscando retomar, de modo objetivo, as questões que nortearam este trabalho e, consequentemente, nosso olhar teórico-metodológico para os dados produzidos a partir das É possível falar em potência jovem? Desafios e perspectivas para pensar as juventudes contemporâneas 22 experiências vivenciadas com a iniciativa do Sábado Cultural: Circuito de Cultura e Arte, podemos dizer que, no que se refere aos caminhos possíveis para pensar, dentro do campo dos estudos de juventude, outros modos de ser da potência jovem, os pressupostos de Agamben nos permitiram encontrar, pelo menos, dois caminhos investigativos decisivos: um, primeiro, relativo a uma recusa ao domínio das identidades (e dos predicados supostamente a elas ligados) e, com isso, a uma consequente abertura a olhar para o que se produzia, em ato, nos encontros promovidos pelas edições do Sábado Cultural, entendendo que, acima de tudo, interessava-nos, a partir dali, descrever as composições em suas contengências e efemeridades, bem como as disposições que, para além dos jovens (ainda que por eles efetivadas), os inscrevia numa posição relacional (singular e coletiva) e na potência que emerge justamente disso. Com efeito, em nossa discussão, a intenção não foi assinalar aqui ou ali onde estava, efetivamente, “a” potência. Menos do que a compreendemos como algo estático, visível de modo circunscrito e imediato, um primeiro caminho investigativo esteve comprometido, então, em caracterizar – pelo debate daquilo que mobilizava os encontros (“simplesmente as pessoas vêm”) e da pintura do muro do Presídio Central –, gestos acidentais, dinâmicas e arranjos entre sujeitos, espaços e tempos e apostar que é dali que irrompe, a cada vez, um tipo de potência jovem. O segundo caminho investigativo diz respeito a algo que foi sendo construído no momento mesmo de realização da pesquisa. Nesse caso, isso diz respeito ao fato de que, do ponto de vista da potência tal como buscamos discutir, entendemos, é impossível construir sentidos à distância (tanto dos sujeitos e das práticas que se fazem alvo da investigação, como de nossos próprios modos de ser pesquisadoras). A atividade etnográfica, como inspiração metodológica escolhida, não é somente uma metodologia de produção de dados; mais do que isso, é uma forma de interação, de tentativa de estabelecer relações que coloquem o pensamento em situações limite. Ao longo da pesquisa, passamos também a perceber que o fato de estar junto aos jovens em suas ações foi/é, também ele, uma forma de potência: ir a campo sem estabelecer parâmetros rígidos e hipóteses e sem assumir certezas e planos definitivos, permitir-se à entrega a um não-saber e, talvez mais do que isso, a um dinâmico “ser” e “não ser” [pesquisadoras]. Outra questão a que nos propomos responder diz respeito a como operar com o conceito de potência fora do registro essencial, humanista, utilitário e vinculado à ação, tal como aquele que nos suscita a representação hegemônica do jovem protagonista. Como se pode observar, buscamos, nesta pesquisa, nos aproximar do conceito de potência não como um atributo ou uma propriedade de um sujeito, que, por sua vez, seriam tomados como medida para aquilo que ele (o sujeito) efetivamente faz (ou não faz e poderia fazer), como medida para o modo pelo qual age (ou não age e poderia agir). Diferentemente, entendemos a potência como qualidade diferencial que se manifesta na relação aberta do indefinido manter-se em potência, ou seja, como a possibilidade de ser e de não ser, o “umbral entre a subjetivação e a dessubjetivação” (Freitas, 2015, p. 422). O sujeito essencial aqui é, portanto, deposto, já que a potência não é algo a ser possuído, nem desenvolvido. Mais do que isso, ao estar comprometida com aquilo que é avesso à funcionalidade, à intencionalidade, tal perspectiva sobre o conceito de potência nos permite pensar a atuação jovem na cena pública liberada da lógica do cálculo, da produção e do resultado em direção, acima de tudo, a um ethos (Agamben, 1993) – somente compreendido, como dito, em ato contigente. Por fim, perguntamos: que outros sentidos de potência jovem poderiam nos ser oferecidos por outras experiências juvenis na contemporaneidade? Para responder a essa questão, é preciso considerar que o próprio termo “contemporâneo” não é, de modo algum, indiferente a Agamben. Antes disso, na já célebre aula inaugural “O que é o contemporâneo?” (Agamben, 2009), o autor argumenta que o termo “contemporâneo” diz respeito a um modo de olhar específico ao tempo que vivemos: um modo de olhar incomodado ou, pelo menos, de suspeição a tudo aquilo que, historicamente, nos constitui de modo tão radical – a ponto de, muitas vezes, sequer percebermos, Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 26, No. 4 23 tamanha naturalidade com qual assumimos nossas subjetividades. É ali, então, que o autor faz um convite (que se estende para além do público que então assistia àquela que seria uma aula): sejamos “contemporâneos” ao nosso tempo, bem como aos textos e autores que lemos e sobre os quais trabalhamos – o que significa assumir, em relação ao presente, uma distância ética: inscrever-se no tempo, porém recusando, incorformadamente, as formas de vida que ele nos impõe (Agamben, 2009). É este, pois, o sentido que damos à última questão, ou seja, àquilo que podemos produzir a partir do estranhamento das lógicas que sustentam nossas relações com os jovens; relações, por vezes, marcadas e repletas de nossas pretensões, de nossas expectativas, de nossa vontade a que eles correspondam (e realizem) às (as) categorias que, tão confortadamente, já previamente construímos. No caso deste trabalho, ao contrário, nossas problematizações estiveram comprometidas em caracterizar outros modos de os jovens se inscreverem no tempo presente, e em como isso pode sugerir, em consequência, a criação de outras relações com o próprio tempo-espaço em que vivemos. Falamos aqui, no decorrer da análise sobre o Sábado Cultural: Circuito de Cultura e Arte, de estados inoperantes, irredutíveis a lógicas que incontestemente hoje mais nos definem: lógicas econômicas pautadas pela eficiência e pelo produto em oposição um tempo que é aquele da espera e da abertura ao outro e às possibilidades de encontros; lógicas de saberes acumuláveis e tangíveis em oposição a modos de não-saber ancorados em indeterminações e descontinuidades; lógicas da imediatez das soluções e das certezas em oposição a práticas sem finalidades e sem pretensões salvacionistas ou altruístas – nem por isso menos comprometidas politicamente. Referências Agamben, G. (1993). A comunidade que vem. Lisboa: Editorial Presença. Agamben, G. (2006). A potência do pensamento. Revista Do Departamento De Psicologia. UFF, 18(1), 11-28. https://dx.doi.org/10.1590/S0104-80232006000100002 Agamben, G. (2007a) Arte, Inoperatividade, Política. Política, crítica do contemporâneo. 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Dilemas: Revista de Estudos de Conflito e Controle Social, 9(3), 531-556. https://revistas.ufrj.br/index.php/dilemas/article/view/7737/6968 Sobre as Autoras Indira Granda Alviarez indira.granda.alv@gmail.com Graduada em Psicologia Social pela Universidade Central de Venezuela (UCV) e mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente, realiza pesquisas sobre juventudes e práticas culturais contemporâneas como membro do Núcleo de Estudos sobre Mídia, Educação e Subjetividade (NEMES), da UFRGS. Fabiana de Amorim Marcello famarcello@gmail.com Mestre e doutora em Educação. Professora no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pesquisadora do CNPq. Membro do Núcleo de Estudos sobre Mídia, Educação e Subjetividade (NEMES) e do Grupo de Estudos sobre Infâncias (GEIN). Atualmente, realiza pesquisas sobre infância e imagem (cinema, artes visuais, mídia). arquivos analíticos de políticas educativas Volume 26 Número 4 15 de janeiro de 2018 ISSN 1068-2341 O Copyright e retido pelo/a o autor/a (ou primeiro co-autor) que outorga o direito da primeira publicação à revista Arquivos Analíticos de Políticas Educativas. Más informação da licença de Creative Commons encontram-se em http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.5. Qualquer outro uso deve ser aprovado em conjunto pelo/s autor/es e por AAPE/EPAA. AAPE/EPAA é publicada por Mary Lou Fulton Institute Teachers College da Arizona State University . Os textos publicados em AAPE são indexados por CIRC (Clasificación Integrada de Revistas Científicas, Espanha) DIALNET (Espanha),Directory of Open Access Journals, Education Full Text (H.W. Wilson), EBSCO Education Research Complete, ERIC, QUALIS A1 (Brasil), SCImago Journal Rank; SCOPUS, SOCOLAR (China). 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Fischman (Arizona State University) Editoras Associadas: Geovana Mendonça Lunardi Mendes (Universidade do Estado de Santa Catarina), Marcia Pletsch, Sandra Regina Sales (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro) Almerindo Afonso Universidade do Minho Portugal Alexandre Fernandez Vaz Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil José Augusto Pacheco Universidade do Minho, Portugal Rosanna Maria Barros Sá Universidade do Algarve Portugal Regina Célia Linhares Hostins Universidade do Vale do Itajaí, Brasil Jane Paiva Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil Maria Helena Bonilla Universidade Federal da Bahia Brasil Alfredo Macedo Gomes Universidade Federal de Pernambuco Brasil Paulo Alberto Santos Vieira Universidade do Estado de Mato Grosso, Brasil Rosa Maria Bueno Fischer Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil Jefferson Mainardes Universidade Estadual de Ponta Grossa, Brasil Fabiany de Cássia Tavares Silva Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Brasil Alice Casimiro Lopes Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil Jader Janer Moreira Lopes Universidade Federal Fluminense e Universidade Federal de Juiz de Fora, Brasil António Teodoro Universidade Lusófona Portugal Suzana Feldens Schwertner Centro Universitário Univates Brasil Debora Nunes Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Brasil Lílian do Valle Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil Flávia Miller Naethe Motta Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Brasil Alda Junqueira Marin Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Brasil Alfredo Veiga-Neto Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil Dalila Andrade Oliveira Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 26, No. 4 27 archivos analíticos de políticas educativas consejo editorial Editor Consultor: Gustavo E. Fischman (Arizona State University) Editores Asociados: Armando Alcántara Santuario (Universidad Nacional Autónoma de México), Jason Beech (Universidad de San Andrés), Angelica Buendia (Metropolitan Autonomous University), Ezequiel Gomez Caride (Pontificia Universidad Católica Argentina), Antonio Luzon (Universidad de Granada), José Luis Ramírez Romero (Universidad Autónoma de Sonora, México) Claudio Almonacid Universidad Metropolitana de Ciencias de la Educación, Chile Ana María García de Fanelli Centro de Estudios de Estado y Sociedad (CEDES) CONICET, Argentina Miriam Rodríguez Vargas Universidad Autónoma de Tamaulipas, México Miguel Ángel Arias Ortega Universidad Autónoma de la Ciudad de México Juan Carlos González Faraco Universidad de Huelva, España José Gregorio Rodríguez Universidad Nacional de Colombia, Colombia Xavier Besalú Costa Universitat de Girona, España María Clemente Linuesa Universidad de Salamanca, España Mario Rueda Beltrán Instituto de Investigaciones sobre la Universidad y la Educación, UNAM, México Xavier Bonal Sarro Universidad Autónoma de Barcelona, España Jaume Martínez Bonafé Universitat de València, España José Luis San Fabián Maroto Universidad de Oviedo, España Antonio Bolívar Boitia Universidad de Granada, España Alejandro Márquez Jiménez Instituto de Investigaciones sobre la Universidad y la Educación, UNAM, México Jurjo Torres Santomé, Universidad de la Coruña, España José Joaquín Brunner Universidad Diego Portales, Chile María Guadalupe Olivier Tellez, Universidad Pedagógica Nacional, México Yengny Marisol Silva Laya Universidad Iberoamericana, México Damián Canales Sánchez Instituto Nacional para la Evaluación de la Educación, México Miguel Pereyra Universidad de Granada, España Ernesto Treviño Ronzón Universidad Veracruzana, México Gabriela de la Cruz Flores Universidad Nacional Autónoma de México Mónica Pini Universidad Nacional de San Martín, Argentina Ernesto Treviño Villarreal Universidad Diego Portales Santiago, Chile Marco Antonio Delgado Fuentes Universidad Iberoamericana, México Omar Orlando Pulido Chaves Instituto para la Investigación Educativa y el Desarrollo Pedagógico (IDEP) Antoni Verger Planells Universidad Autónoma de Barcelona, España Inés Dussel, DIE-CINVESTAV, México Paula Razquin Universidad de San Andrés, Argentina Catalina Wainerman Universidad de San Andrés, Argentina Pedro Flores Crespo Universidad Iberoamericana, México José Ignacio Rivas Flores Universidad de Málaga, España Juan Carlos Yáñez Velazco Universidad de Colima, México javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/819') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/820') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/4276') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/1609') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/825') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/797') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/823') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/798') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/555') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/814') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/2703') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/801') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/826') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/802') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/816') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/3264') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/804') É possível falar em potência jovem? Desafios e perspectivas para pensar as juventudes contemporâneas 28 education policy analysis archives editorial board Lead Editor: Audrey Amrein-Beardsley (Arizona State University) Executive Editor: Gustavo E. Fischman (Arizona State University) Associate Editors: David Carlson, Lauren Harris, Eugene Judson, Mirka Koro-Ljungberg, Scott Marley, Iveta Silova, Maria Teresa Tatto (Arizona State University) Cristina Alfaro San Diego State University Gene V Glass Arizona State University Susan L. Robertson Bristol University, UK Gary Anderson New York University Ronald Glass University of California, Santa Cruz Gloria M. Rodriguez University of California, Davis Michael W. Apple University of Wisconsin, Madison Jacob P. K. Gross University of Louisville R. Anthony Rolle University of Houston Jeff Bale OISE, University of Toronto, Canada Eric M. Haas WestEd A. G. Rud Washington State University Aaron Bevanot SUNY Albany Julian Vasquez Heilig California State University, Sacramento Patricia Sánchez University of University of Texas, San Antonio David C. Berliner Arizona State University Kimberly Kappler Hewitt University of North Carolina Greensboro Janelle Scott University of California, Berkeley Henry Braun Boston College Aimee Howley Ohio University Jack Schneider College of the Holy Cross Casey Cobb University of Connecticut Steve Klees University of Maryland Noah Sobe Loyola University Arnold Danzig San Jose State University Jaekyung Lee SUNY Buffalo Nelly P. Stromquist University of Maryland Linda Darling-Hammond Stanford University Jessica Nina Lester Indiana University Benjamin Superfine University of Illinois, Chicago Elizabeth H. DeBray University of Georgia Amanda E. Lewis University of Illinois, Chicago Adai Tefera Virginia Commonwealth University Chad d'Entremont Rennie Center for Education Research & Policy Chad R. Lochmiller Indiana University Tina Trujillo University of California, Berkeley John Diamond University of Wisconsin, Madison Christopher Lubienski Indiana University Federico R. Waitoller University of Illinois, Chicago Matthew Di Carlo Albert Shanker Institute Sarah Lubienski Indiana University Larisa Warhol University of Connecticut Sherman Dorn Arizona State University William J. Mathis University of Colorado, Boulder John Weathers University of Colorado, Colorado Springs Michael J. Dumas University of California, Berkeley Michele S. Moses University of Colorado, Boulder Kevin Welner University of Colorado, Boulder Kathy Escamilla University of Colorado, Boulder Julianne Moss Deakin University, Australia Terrence G. Wiley Center for Applied Linguistics Melissa Lynn Freeman Adams State College Sharon Nichols University of Texas, San Antonio John Willinsky Stanford University Rachael Gabriel University of Connecticut Eric Parsons University of Missouri-Columbia Jennifer R. Wolgemuth University of South Florida Amy Garrett Dikkers University of North Carolina, Wilmington Amanda U. Potterton University of Kentucky Kyo Yamashiro Claremont Graduate University