Inclusão escolar e social na Itália: A contribuição das associações de pessoas com deficiência Página web: http://epaa.asu.edu/ojs/ Artigo recebido: 18/1/2019 Facebook: /EPAAA Revisões recebidas: 8/4/2019 Twitter: @epaa_aape Aceito: 9/4/2019 DOSSIÊ Políticas Públicas em Educação Especial em Tempos de Ditadura arquivos analíticos de políticas educativas Revista acadêmica, avaliada por pares, independente, de acesso aberto, e multilíngüe Arizona State University Volume 27 Número 65 3 de junho de 2019 ISSN 1068-2341 Inclusão Escolar e Social na Itália: A Contribuição das Associações de Pessoas com Deficiência Antonello Mura Università degli Studi di Cagliari Italia Citação: Mura, A. (2019). Inclusão escolar e social na Itália: A contribuição das associações de pessoas com deficiência. Arquivos Analíticos de Políticas Educativas, 27(65). http://dx.doi.org/10.14507/epaa.27.4449 Resumo: O artigo apresenta uma reflexão sobre as dimensões histórica e sociológica que marcaram o surgimento das associações de pessoas com deficiência na Itália. Por meio de uma retomada histórica, buscou-se definir o contexto no qual se estruturaram as primeiras iniciativas com características de associações, dirigindo a atenção às suas dimensões sociais e éticas. Foram consideradas suas singularidades como integrantes de eventos político -culturais que definiram a perspectiva italiana de inclusão escolar e social das pessoas com deficiência, nos an os 1970. Pode-se perceber como tais associações marcaram a reorganização dos serviços dirigidos às pessoas com deficiência, no sentido de sua afirmação como sujeitos promotores de cidadania e da ampliação dos processos de inovação para toda a sociedade. Palavras-chave: educação especial; pessoa com deficiência; inclusão escolar; inclusão social; cidadania School and social inclusion in Italy: The contribution of associations for disabled people http://epaa.asu.edu/ojs/ http://dx.doi.org/10.14507/epaa.27.4449 Inclusão Escolar e social na Itália: a contribuição das associações de pessoas com deficiências 2 Abstract: The paper reflects on the historical and sociological dimensions that marked the emergence of disabled people associations in Italy. Through a historical analysis, we sought to define the context in which the first initiatives with association features were structured, directing the attention to their social and ethical dimensions. Their singularities were considered as integral parts of political-cultural events that influenced Italian perspectives on the schooling and social inclusion of disabled people in the 1970s. This analysis shows these associations have led to the reorganization of the services directed to disabled people, in the sense of affirm ing citizenship-promoter subjects and expanding innovative processes for the whole of society. Keywords: special education; disabled person; school inclusion; inclusion social; citizenship Inclusión escolar y social en Italia: La contribución de las asociaciones de personas con deficiencia Resumen: El artículo presenta una reflexión sobre las dimensiones históricas y sociológicas que marcaron el surgimiento de las asociaciones de personas con discapacidad en Italia. Por medio de una reanudación histórica, se buscó definir el contexto en el cual se estructuraron las primeras iniciativas con características de asociaciones, dirigiendo la atención a sus dimensione s sociales y éticas. Se consideraron sus singularidades como integrantes de eventos político - culturales que definieron la perspectiva italiana de inclusión escolar y social de las personas con discapacidad en los años 1970. Se puede percibir cómo tales aso ciaciones marcaron la reorganización de los servicios dirigidos a las personas con discapacidad, en el sentido de su afirmación como sujetos promotores de ciudadanía y de la ampliación de los procesos de innovación para toda la sociedad. Palabras-clave: educación especial; persona con discapacidad; inclusión escolar; inclusión social; ciudadanía Introdução Levar em consideração a contribuição que as associações das pessoas com deficiência e dos seus familiares têm oferecido para o desenvolvimento do processo inclusivo significa transcender esse processo para entrar em uma dimensão sócio-política, cultural e ética mais ampla. De fato, os vínculos e ligações espontâneas e voluntárias dão origem a estruturas de rede compartilhadas capazes de apoiar indivíduos e sociedades em relação aos perigos de despersonalização (Dahrendorf, 2003). Na Itália, no entanto, a contribuição das associações assumiu um caráter ainda mais significativo, uma vez que foi fundamental para a evolução dos processos de modernização institucional e para a melhoria das condições existenciais e de cidadania de toda a sociedade italiana. Não obstante, a abrangência de tal contribuição ficou por muito tempo às margens do interesse científico e da pesquisa, mesmo que um grande número de publicações de caráter histórico, jurídico, político, econômico e sociológico tenha tratado o fenômeno do associacionismo em sua dimensão não específica. Esse mal-entendido, que as pesquisas pedagógicas mais recentes têm suprido (Mura, 2004, 2006a, 2006b, 2007, 2008, 2009, 2014; Salis, 2007a, 2007b; Selis & Stocchino, 2008; Tatulli, 2007a, 2007b; Zurru, 2005, 2006, 2007, 2008), deve ser considerado dentre as atitudes de desinteresse, de marginalização e de desatenção social, pelas quais, por um longo tempo, observou- se a existência das pessoas com deficiência e as necessidades das suas famílias. Trata-se de uma carência que atualmente não é mais justificável, nem em relação à deficiência nem em relação às associações, se considerarmos o papel precursor que estas últimas exercitaram na Itália, desde o seu surgimento, em trazer para a atenção social, política, formativa e ética questões inerentes ao reconhecimento dos direitos humanos fundamentais e correlacionados à necessidade da plena realização da pessoa com deficiência. Trata-se de antecipação a respeito de Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 27, No. 65 3 temas ético-jurídicos que, apesar do reconhecimento oficial na recente Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (UN, 2006), continuam, de fato, a enfrentar barreiras de realização e violações em cada parte do mundo. Para caracterizar ainda mais a situação italiana em relação à quase totalidade dos contextos internacionais, é também necessário especificar um aspecto relativo à composição das associações. Na Itália, de fato, diferentemente de muitos outros países, os interesses dos cuidadores não se diferenciam claramente dos interesses dos principais interessados – por este motivo estabelecidos de maneira conjunta por pessoas com deficiência, seus familiares e voluntários. O fenômeno associativo não pode ser lido, portanto, mediante uma distinção clara entre associações de pessoas com deficiência e associações de familiares de pessoas com deficiência. A análise desse tipo de fenômeno histórico pode também ser de grande importância para compreendermos que as políticas públicas e as iniciativas técnicas não são eventos circunscritos a determinados contextos. Ao considerarmos as mudanças institucionais na Itália, podemos observar que, contemporaneamente, havia a emergência de novas configurações em outros países. No entanto, o potencial associativo pode estar fundado em princípios democráticos, quando as sociedades possibilitam esse tipo de organização, ou assumem outras configurações em contextos autoritários, como aqueles frequentes em diferentes países nas décadas de 1970 e 1980. A análise compartilhada da política em diferentes contextos nos auxilia na compreensão relativa às singularidades desses contextos sociais e desses fenômenos associativos. Entre Reivindicações e Conquistas: Os Primeiros Pontos Se se pretende refazer e contextualizar o surgimento dos primeiros comitês históricos que se ocuparam de deficiência sensorial, é necessário retornar a mais de um século atrás, para evidenciar que o primeiro destes surgiu no final de 1800. Mas é somente nos primeiros vinte anos do século XX que o fenômeno associacionista assume uma caracterização polimórfica e afeta os diferentes setores da vida comunitária, com evidentes repercussões nos âmbitos político, cultural, econômico e social – tanto que se pode afirmar que o mutualismo associativo se torna um dos principais instrumentos pelos quais as identidades sociais são redefinidas, passando das tradicionais formas de integração natural (relações familiares, parentais e de pequenas comunidades) para novas e mais amplas dimensões de identidade social (Ridolfi, 1998). É assim que, no rastro do que estava acontecendo para a constituição de associações de auto-mútuo-ajuda e cooperativistas da classe trabalhadora – que viam a possibilidade de obter bens e serviços e de ver reconhecidos os direitos às condições mais favoráveis –, se presencia a formação das primeiras associações constituídas de pessoas com deficiência e de seus familiares. Tudo isso em um contexto sociocultural no qual ter uma deficiência ou um déficit significava fazer parte de uma “humanidade indigna” que, privada de qualquer reconhecimento jurídico, poderia ser tolerada somente pelos sentimentos piedosos e caridosos de filantropia. É nesse cenário que, nas primeiras duas décadas do século XX, se constituem algumas associações extremamente importantes para a história da emancipação das pessoas interessadas por deficiências e da integração delas. Nesse sentido, se recorda a constituição da Associação Nacional de Mutilados e Inválidos da Guerra (1917), da União Italiana dos Cegos (1920), da Federação Italiana das Associações de Surdos-mudos (1922), posteriormente denominada Organização Nacional Surdo-mudo (1942) e da Associação Nacional dos Mutilados e Inválidos do Trabalho (1943). A ação deles, que nascia de interesses legais para tutelar as condições de invalidez física causada por patologias congênitas ou adquiridas, foi fundamental, já que, por um lado, denunciava publicamente a injustiça de uma sociedade que de forma prejudicial individuava na pessoa com deficiência um “sujeito ausente”, inútil para si mesmo e para a comunidade e, por outro lado, Inclusão Escolar e social na Itália: a contribuição das associações de pessoas com deficiências 4 reivindicava o reconhecimento provisões assistenciais mínimas para aqueles sujeitos que, por sua dedicação ao trabalho ou por amor à pátria, tinham sofrido mutilações insanáveis. Já nas fases iniciais, a intervenção associativa, mediante pressões políticas e propostas concretas, levou a conquistas extremamente importantes. O primeiro resultado significativo foi em 1923 quando, por meio da ação exercitada pela União Italiana dos Cegos e da Federação Italiana das Associações de surdos-mudos, a reforma educacional realizada pelo Ministro da Educação Pública, Giovanni Gentile, reconhece o direito à educação e instrução na escola pública para cegos e surdos. Conjuntamente, trabalha-se a transformação de muitos Institutos para cegos e surdos em escolas reconhecidas pelo Estado, incluindo também entre estes os laboratórios profissionais anexados aos Institutos de Reeducação. Desta forma, inicia-se o caminho de reconhecimento da pessoa com deficiência, que de “objeto” de assistência caritativa se torna “sujeito” de educação e de formação. Sempre seguidas de pressões associativas, outra conquista cultural, política e ética-civil de grande importância para aqueles com deficiência sensorial e para toda a sociedade foi alcançada, em 1938, com a abolição do Art. 340 do Código Civil, que até aquele momento declarava que os surdos e cegos eram inabilitados por lei até atingirem a maioridade, impedindo de iure e de facto toda autonomia possível. Outros resultados socialmente relevantes foram alcançados também, do ponto de vista econômico-jurídico, mediante o reconhecimento institucional de intervenções em favor das pessoas com deficiência por motivos de trabalho e dos veteranos de guerra. Ao mesmo tempo, as associações delineiam seus programas e realizam as primeiras iniciativas para garantir a possibilidade de seus inscritos estudarem, de aprenderem um ofício, de organizarem um sistema mútuo, de formarem uma família e de participarem da vida coletiva. Um exemplo interessante nesta direção é representado pelos eventos de Antonio Magarotto, fundador da Organização Nacional dos “surdos-mudos” (1942). Para demonstrar que as crianças “surdas- mudas”, como eram definidas naquela época, também poderiam aprender uma profissão e, através do trabalho, participar com dignidade da vida social, ele não hesita em vender seu próprio patrimônio hereditário e, envolvendo ativamente a sua família, usa a casa em que mora como um laboratório, criando assim a primeira escola de arte gráfica italiana para “surdos-mudos” (ENS, 2004). Alguns anos mais tarde, no âmbito institucional e civil, as associações conseguem outras importantes conquistas. As instâncias reivindicativas e o compromisso ético-civil conduzidos por suas primeiras intervenções são bem-vindos e valorizados pela Constituição da República Italiana (1948) que, pela primeira vez na história, reconhece os direitos fundamentais a favor também das pessoas com deficiência (equidade, educação, manutenção e assistência social, formação profissional, cuidados de saúde). No entanto, as esperanças abertas pelo ditame constitucional não refletem de forma imediata na cotidianidade das condições de vida de milhões de pessoas com deficiência, pois se chocam com um tecido comunitário e um contexto político-social culturalmente ainda imaturo para garantir a eles o respeito aos direitos previstos. Portanto, a ausência quase total de intervenções por parte das organizações públicas, mais uma vez, faz surgir a força dos cidadãos. As novas associações constituídas atendem diretamente as necessidades dos próprios familiares e de quem vive em condição de deficiência, ampliando a esfera da ação associativa dos déficits sensoriais, incluindo aqueles motores e psíquicos, até abranger cada forma de invalidez. Emblemático, nesse sentido, é o episódio da senhora Teresa Serra, uma mãe que, não se resignando a aceitar as condições existenciais de seu filho, leva-o à Inglaterra. Orientada pelas palavras do médico inglês que examinou o filho, ao despedir-se, lhe disse: "volte a Roma e procure fazer o que fizeram os pais ingleses e de outros países. Lembre-se, de todo modo, que se não fossem os pais, nós, médicos, teríamos continuado a considerar as pessoas com paralisia cerebral como incuráveis." (D’Amato, 2004). A jovem mãe, uma vez em Roma, após obter uma lista de famílias Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 27, No. 65 5 com problemas semelhantes aos seus, unindo-se a um grupo de pais, em 1954 faz surgir a Associação Italiana de Assistência a Pessoas com Paralisia (AIAS). Observando os próprios filhos ignorados por todas as instituições, a associação é autofinanciada e, depois de haver três salas disponíveis da Cruz Vermelha, organiza os primeiros tratamentos fisioterápicos; no mesmo ano da constituição associativa, obtém-se a promulgação da Lei nº 218, sobre a assistência e tratamento das crianças discineticamente pobres (D’Amato, 2004). Rapidamente, o exemplo daqueles pais torna-se modelo de referência para tantos outros que, nas diversas regiões italianas, viviam situações análogas dada a absoluta ausência de políticas por parte dos organismos públicos e o total desinteresse médico com relação a tais temas. É por essa razão que, na reconstrução da história das seções AIAS, as quais gradualmente vão se tornando realidade em todo território nacional, encontramos histórias não muito diferentes daquela romana. Na Calábria, Alfonso e Nina D'Amato, pais de dois filhos com paralisia cerebral, depois de diversas consultas com especialistas na Itália e no exterior, não aceitam a ideia então difusa de separar-se de seus filhos para interná-los em um instituto e, com o auxílio de voluntários e de outros pais com as mesmas dificuldades, fundam em Cosenza (1962) a primeira seção AIAS, em uma região em que o problema era completamente desconhecido da opinião pública, como também dos organismos institucionais e da classe médica. No Vêneto, a senhora Santi Palmieri Lupo depois de, do mesmo modo, peregrinar por especialistas italianos e estrangeiros, não se resigna a deixar sua pequena filha portadora de hidrocefalia em um centro hospitalar, tanto que aprende ela mesma os primeiros rudimentos de cinesioterapia e, encorajada também pelas palavras do Professor Milani Comparetti, torna a Vicenza onde, com o auxílio do marido, encontra outros trinta casais pais de crianças com paralisia cerebral, com os quais funda em 1968 a primeira seção vêneta da AIAS. Naturalmente, precisou enfrentar numerosas dificuldades, instruir-se por meio de poucas revistas estrangeiras que então se ocupavam da paralisia cerebral espástica, encontrar uma terapeuta a qual, primeiramente, hospedou em sua casa. No Abruzzo, em 1970, um professor, Sante Ventresca, pai de uma menina de três anos marcada por sinais de um grave sofrimento neonatal, escreve a um jornal local e denuncia o fato de que naquela região nada é realizado para prover cuidados com as pessoas com deficiência. Depois de apenas um dia, lhe respondeu um outro pai declarando que ele também encontra as mesmas ausências e experimenta os mesmos problemas a respeito das exigências do próprio filho. Encontrados no curso de dois anos outros trinta pais, em 1972, superando muitas dificuldades, também no Abruzzo houve a fundação da primeira seção da AIAS (Mura, 2009). No entanto, não é possível percorrer as centenas de histórias individuais que são testemunhos ativos do protagonismo dos pais, que assumem em primeira pessoa iniciativas que instaram a consciência coletiva e pública para o problema da paralisia cerebral e, em geral, da deficiência. Nesse âmbito, pode-se apenas realçar como esses pais, por meio da escolha associativa, deram lugar a um fenômeno social que transpôs as singularidades das suas histórias pessoais e contribuiu, de modo substancial, para o início de processos emancipatórios de caráter sócio-político, cultural e ético. Uma experiência similar àquela da AIAS refere-se a um outro grupo composto de dez pais de crianças portadoras de déficit intelectual, os quais, sempre guiados por uma mãe, senhora Maria Luisa Menegotto, em 1958, constituíram, em Roma a Associação Nacional das Famílias de Pessoas com Distúrbios Psíquicos (ANFFAS). Sabe-se que naquela época as pessoas com deficiência intelectual viviam quase sempre segregadas em casa ou nos institutos reeducativos, em um estado de total desinteresse institucional. O déficit intelectual, na verdade, até mais do que as demais condições de deficiência, gerou um clima de guetização e de piedade. As famílias eram deixadas sozinhas e às vezes até mesmo culpadas, seja pela convicção pública, seja pela literatura científica a respeito das Inclusão Escolar e social na Itália: a contribuição das associações de pessoas com deficiências 6 condições dos próprios filhos (Farber, 1959, 1960). Também neste caso, porém, as famílias que desejavam a possível recuperação humana e social dos seus familiares, além da confiança nas suas possibilidades, se lançaram em primeira pessoa na gestão de atividades laboratoriais simples. Começaram, portanto, a proclamar suas solicitações e, através de um fervoroso trabalho de propaganda, conseguiram influenciar as decisões políticas e governamentais. Em 1959, as primeiras reflexões e propostas políticas da associação foram expressas em um memorandum entregue às máximas autoridades do governo, indicando ações precisas a serem acionadas para a melhoria das condições existenciais das pessoas com deficiência. Particularmente, solicitava-se a possibilidade de: educá-los através do estabelecimento e da frequência de turmas em salas especiais; atribuir a responsabilidade para a prefeitura e para as províncias as despesas para os menores com deficiência intelectual; criar centros de trabalho industrial e agrícola; e instituir benefícios de aposentadoria e seguro para as crianças com déficits que ficaram órfãs (Covino, 1999). As propostas do memorandum requeriam atos políticos que se colocavam como uma verdadeira e real ruptura em relação às políticas do passado, se pensarmos que nos primeiros anos da década de 1960 um jornalista do Messaggero, denunciando a estridente contradição existente entre os princípios constitucionais e o conhecimento científico, de um lado, e a real condição dos jovens com deficiência intelectual, de outro, escreveu: “O Estado italiano considera os deficientes mentais como sujeitos de se manter à margem e de quem se deve defender com base em normas legislativas que remontam ao início do século, inspiradas no conceito equivocado de periculosidade social dos doentes e da necessidade de mantê-los em afastamento coativo” (Covino, 1999, p. 3). Uma realidade, portanto, difícil de modificar, mas o grupo de pais insiste e, gradualmente, mediante contatos com outros genitores de outras cidades, faz surgir outras seções ANFFAS (entre as primeiras Florença, Cagliari, Nápoles, Rímini, Gênova, Trento). Em 1964, ano em que a associação obtém o reconhecimento jurídico, as seções já são 19, e os sócios, 5000. Um grupo que ao longo de seus já 60 anos de atividade era destinado a crescer e dar vida a uma organização complexa que, atualmente, é capilar ente difusa no território nacional (www.anffas.net). Do mesmo modo do que ocorreu com a associação AIAS, já se trata de uma história longa em que se encontram protagonistas experiências originais, particulares, como aquela de Rosina Zandano, à qual o pediatra (1957), para comunicar que o filho nascerá com Síndrome de Down, usando a linguagem de então, fala de “mongolismo”, explicando dessa forma: “seu filho caminhará com dificuldade, não será adulto e morrerá ainda em idade de desenvolvimento”. Não foi, também, mais encorajador um outro pediatra famoso, a quem, a senhora se dirigiu três meses depois, diante de alguns episódios febris muito intensos por parte de seu filho: “Veja, a senhora é uma mulher inteligente, não tenha afeição por ele porque o perderá. Na próxima crise, sequer me chame, deixe-o ir. Por outro lado, vocês têm outra filha, bela e inteligente” (Godio, 1999, p. 12). Palavras terríveis que, em seu cinismo, soam como um veredito, mas a senhora Zandano e seu marido não se rendem e, depois de idas e vindas entre os melhores especialistas italianos e estrangeiros e os mais renomados institutos psicopedagógicos, fixam residência em Vercelli e em 1970 fundam uma seção ANFFAS. Assim, em lugares diferentes, dedicam-se sem reservas à associação, envolvendo e mobilizando outros pais, dando vida a serviços de animação, de formação e de trabalho, sensibilizando administradores e assistentes sociais reticentes, organizando palestras nacionais e internacionais, ativando centros especializados. O que poderia emergir por meio de um maior aprofundamento da experiência citada, como das outras centenas de histórias que mereceriam ser reconstruídas, levaria sempre à intencionalidade educativa e formativa que move os pais, os quais, fazendo surgir as seções da ANFFAS, contribuíram para promover e desenvolver no País inteiro a cultura da integração e da inclusão social. Isso ocorreu concretamente mediante a idealização, a ativação e a gestão dos serviços (educativos, reabilitativos, sanitários, culturais, lúdicos, esportivos, residenciais assistidos), o http://www.anffas.net/ Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 27, No. 65 7 chamamento ao debate político, a proposta de dispositivos normativos, a denúncia de situações críticas, as ações demonstrativas, a promoção da pesquisa e da divulgação científica, a colaboração com entes e organismos públicos e privados, a formação profissional dos jovens, a formação e atualização dos profissionais, a promoção e a guarda dos direitos humanos, para citar apenas alguns dos âmbitos de intervenção e de atividades realizadas (Mura, 2007, 2009). Não foram apenas famílias, mas diretamente duas pessoas com deficiência, Alvidio Lambrilli e Franco Quaranta, que constituíram, em Taranto, no ano de 1956, a primeira seção da Associação Nacional dos Mutilados e Inválidos Civis (ANMIC). Ambos apoiados por uma boa educação e por uma condição econômica confortável (pouco comum aos inválidos), depois de uma reunião casual deram vida a um projeto que naquele tempo parecia extremamente complexo e improvável em seus resultados: ajudar os demais “inválidos” civis (espásticos, poliomelíticos, cardiopatas, amputados etc.) a terem reconhecidos seus direitos de proteção constitucional, ainda completamente ignorados. A ideia que guiou os dois fundadores foi, portanto, aquela de ativar a recuperação moral dos “inválidos”, solicitando o compromisso direto do Estado, e também de setores privados, na construção de centros de reeducação físico-motora e centros profissionais de iniciação ao trabalho, onde as pessoas com deficiência poderiam se qualificar ou requalificar-se de acordo com as atitudes e as capacidades de trabalho residual. Em pouco tempo, à custa de um grave compromisso pessoal, que também privou os dois dos próprios recursos econômicos, com ações simbólicas de grande impacto, como as três grandes manifestações realizadas em Roma com mais de um milhão de pessoas com deficiência provenientes de toda Itália – denominadas “Marchas da dor” (1961, 1964, 1968) –, a ideia deles se difundiu. Em menos de dez anos foram instituídas, em cada região do país, seções provinciais de referência, ampliando os objetivos iniciais até requerer a ativação e a atuação dos principais responsáveis estatais em matéria de segurança social. Em menos de uma década foram instituídas, em cada região do país, seções regionais de referência, ampliando os objetivos iniciais até solicitar a ativação e atuação das principais responsabilidades estatais em matéria de segurança social. Também relevante, quando se evoca o surgimento das principais associações italianas, é a constituição da Lega del Filo d'Oro (www.legadelfilodoro.it), uma associação que nasce em 1964 por vontade e obra de Sabina Santilli, uma jovem mulher que ficara surdocega com a idade de sete anos, em consequências de uma meningite. Graças à sua extraordinária determinação e ao apoio constante de seus familiares soube reagir a uma situação, abrindo um brecha de esperança a todos os surdocegos italianos. Na Itália, de fato, antes de Santilli aqueles que viviam a condição de surdo- cegueira estavam destinados a viver no mais absoluto isolamento, originado, mais do que do déficit sensorial, da total falta de confiança no que se referia à sua educabilidade. Sabina Santilli, por intermédio de um extraordinário percurso de estudo e de aprendizado - integrado pelo latim e por línguas estrangeiras -, de interesses e de relações, desmente essa perspectiva. Uma vez adulta, encontra um emprego, mantendo-se ativa a favor daqueles que, como ela, viviam uma condição similar. Não obstante já em 1948, lendo em Braile algumas revistas estrangeiras, tivesse tido a ideia de constituir uma associação, apenas em 1964 faz nascer seu projeto, estabelecendo sua sede na casa paterna em Osimo. Apoiada por toda sua família, irmãs e sobrinhos, já no primeiro ano de existência da associação, consegue organizar uma primeira estadia nas montanhas para um grupo de surdocegos, com o objetivo de facilitar a saída deles do isolamento em que vivam quotidianamente. Em 1967, a associação, além das saídas em férias e da difusão sempre maior do jornal associativo, abre a primeira escola especial e experimental para crianças surdocegas na Itália. Também nesse caso foi determinante o apoio familiar. As experiências não foram, obviamente, simples, e Santilli precisou resolver inúmeros problemas, o primeiro entre todos foi a formação dos professores. Isso a fez viajar pela Europa para buscar documentação e pesquisar as melhores soluções do ponto de vista didático-metodológico (Santilli, 2003). Inclusão Escolar e social na Itália: a contribuição das associações de pessoas com deficiências 8 As breves referências efetuadas são, provavelmente, suficientes para evidenciar como já no primeiro trabalho associativo estava presente um compromisso direto na gestão de iniciativas e de serviços e também significativas ações de advocacia e de propostas políticas face às instituições, mas também de sensibilização em relação às opiniões pública e de caráter reivindicativo, apoiado por ações simbólicas de grande impacto, como as já citadas “Marchas da Dor”. Tudo isso dá origem a um amplo debate político e cultural a respeito da deficiência que no final dos anos 1960 atinge as instituições nos diferentes setores da educação, da assistência social, do trabalho e da saúde. Por um lado, se evidencia o papel agora estabelecido de serviço, de proteção e de representação desenvolvido pelas associações; por outro lado, emerge concretamente a ideia de que a pessoa com deficiência não seja “ser humano ausente”, mas um possível cidadão que, como qualquer outro, reivindica o direito à identidade, à formação, ao trabalho e à autonomia para poder ser protagonista da própria existência. A Deficiência entre Aspirações e Direitos: A Contribuição das Dassociações para o Desenvolvimento das Políticas do Bem-estar Movidas pela intencionalidade educacional, as associações, inicialmente compostas em sua maioria por familiares, trabalharam, portanto, para que sua existência e atuação não se limitassem apenas ao tratamento médico, à piedade da aceitação ou somente ao amor familiar, mas para que se abrissem à plena realização dos potenciais da pessoa, na máxima integração relacional, cultural e trabalhista. É com tais convicções que, a partir dos anos 1970, a contribuição das associações se tornou cada vez mais visível e consistente. Elas se difundiram de forma capilar em todo país, se desenvolvendo com características de intervenção diferentes também em relação ao número de inscritos (pequenas, médias e grandes dimensões), se constituíram e se estruturaram em relação às específicas categorias diagnósticas, assumindo tais categorias como critério de referência (Síndrome de Down, autismo, cegos, surdos, déficits motores etc.) ou simplesmente em relação à ideia de que a pessoa em situação de deficiência, independentemente do tipo de déficit, deve ter a possibilidade de se autodeterminar da mesma forma que outra pessoa. Tornam-se, portanto, realidades cada vez mais complexas, e suas ações são apoiadas por voluntários e em muitos casos por pessoal interno qualificado (educadores, psicólogos, assistentes sociais, advogados); se enriquecem de ulteriores conotações, desenvolvendo nos diferentes setores do tratamento educacional, de saúde e social uma intensa atividade promocional e de valorização da pessoa, visando principalmente a conquista da plena integração cultural e social. Obviamente, trata-se de um processo longo, durante o qual as associações, não sem tensões e conflitos, ampliaram de forma progressiva o seu campo de ação, desenvolvendo internamente recursos humanos e profissionais que, associados a competências organizativas, foram e são até hoje determinantes na difusão da cultura da inclusão social. Em razão das suas finalidades, as associações na verdade agiram (e agem) diretamente na ativação e gestão de atividades e de serviços educacionais, sociais e de saúde que abrangem um espectro de temas e de problemas que não podem ser totalmente referidos aqui. A ampla gama dos setores de intervenção (família, escola, saúde, trabalho, tempo livre etc.) e o leque muito mais extenso e articulado das atividades realizadas (assistência domiciliar, intervenções de reabilitação, laboratórios de aprendizagem, recuperação escolar, iniciativas de orientação, inserimento trabalhista, iniciação esportiva, atividades de divulgação cientifica etc.) nunca cederam a qualquer improvisação; como evidenciado em trabalhos anteriores (Mura, 2004), referimo-nos, portanto, a competências projetuais e a específicas metodologias didáticas e avaliativas articuladas, que garantem a relevância pedagógico-formativa das ações em tomadas. Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 27, No. 65 9 A experiência educacional que progressivamente amadurecia dentro das associações, no lado público, se refletiu numa intensa atividade promocional e reivindicativa pelos direitos, que concorria ao lançamento de algumas medidas legislativas importantíssimas. Estas últimas não só contribuíram para a transformação do comportamento social e da consciência pública e institucional a respeito dos direitos e das possibilidades de realização da pessoa em situação de deficiência, mas consentiram também na superação de todas as formas de bem-estar social residual (apenas categorias protegidas) em favor de um modelo de bem-estar institucional baseado no princípio de universalização e equidade – e, assim, capaz de corresponder às necessidades culturais e de segurança social e de saúde de todos os cidadãos. Entre os resultados mais significativos, podemos nos lembrar da Lei nº 118/1971, que deve ser considerada em todos os aspectos a resposta institucional às instâncias promovidas pela ANMIC, através as “Marchas da Dor”, e às instâncias de eliminação das barreiras arquitetônicas, já avançadas pela AIAS, pela Associação Nacional Mutilados e Inválidos do Trabalho (AMNIL) e pela Federação Internacional dos Mutilados, Inválidos do Trabalho e Civil (FIMITC), por ocasião do Congresso Internacional de Stresa, em 1965 (ANMIL, 1965). Pela primeira vez, por meio da lei a condição do inválido civil é definida, as providências sanitárias e econômicas são regularizadas, e se propõe a possibilidade concreta de eliminação das barreiras arquitetônicas. Não menos significativa e revolucionária em termos de resultados é a Lei nº 517/1977, que, além de modificar substancialmente a estrutura organizativa e metodológica da escola, fecha as salas diferenciais e as classes especiais instituídas pela Reforma Gentile e dá início ao processo de integrazione escolar de todos os alunos com deficiência na escola regular. Também neste caso pode-se observar que as primeiras experimentações de integração de tais alunos nas classes comuns das escolas públicas foram desenvolvidas já nos primeiros anos 1970, mediante a vontade das famílias inscritas na AIAS, nas cidades de Cosenza, Bari e Florença, e foram mesmo tais experiências que serviram como pioneiras e fortaleceram as decisões institucionais. Mesmo de forma sintética, nesta sede pode-se evidenciar como também outras importantíssimas medidas legais surgiram diretamente das solicitações associativas ou foram por estas orientadas. São efetivas testemunhas a Lei nº 833/1978, com a qual o Estado institui o Serviço Sanitário Nacional, garantindo o direito fundamental à saúde dos cidadãos em respeito à dignidade pessoal e a perfeita igualdade entre as pessoas (Zurru, 2006), a Lei nº 18/1980, que prevê o pagamento de um subsídio de acompanhamento para pessoas com deficiência grave – ou ainda, na década de 1990, a Lei nº 104/1992 (Lei Quadro para a Assistência e Integração Social da Pessoa Handicap), a Lei nº 162/1998, concernente às medidas de apoio em favor de pessoas com deficiência grave, a Lei nº 68/1999 relacionada à inclusão no trabalho das pessoas com deficiência, e a Lei nº 328/2000, que compromete cidadãos (família, associações) e as instituições na realização do sistema integrado de intervenções e serviços sociais. Como dito anteriormente, se tratou de um percurso e de um processo longo, ainda não concluído, no curso do qual o papel associativo foi contemporaneamente articulado entre reivindicações e proteção dos direitos humanos, sociais e civis, conscientização das instituições e da opinião pública, ativação e gestão de serviços (educacional, social, reabilitação, saúde, profissionalizante, cultural, esportivo) e de estruturas residenciais, promoção e disseminação da pesquisa científica e tecnológica, ativação e manutenção das relações com órgãos privados, institucionais e políticos a nível local, nacional e internacional. Com a estruturação de semelhante contribuição, resulta cada vez mais clara, a nível político e social, a ideia de que as famílias e as associações de voluntários não podem ser consideradas simplesmente como destinatários de serviços. Essas, em vez disso, tornam-se interlocutores ativos nos processos de planejamento e na construção do sistema integrado de intervenções territoriais educacionais e sócio-sanitárias geridas pelas Autoridades Locais. As colaborações com as instituições tornaram-se cada vez mais crescentes nos anos de 1980, quando as políticas de bem-estar social Inclusão Escolar e social na Itália: a contribuição das associações de pessoas com deficiências 10 atravessaram importantes dificuldades ligadas aos cortes de recursos econômicos e à burocratização dos serviços – assim, os decisores políticos convidam os sujeitos do setor social privado (voluntários, associações, cooperativas sociais) a colaborarem com o setor púbico. É a partir dessa onda histórico-cultural que, no que concerne às políticas de integração, as associações têm meios de solicitar e acompanhar o processo de municipalização do welfare e de ampliação dos apoios que se desenvolve a partir da segunda metade daquela década. Facilitando o processo de transição entre os dois sistemas (nacional-local), tais associações jamais renunciaram ao papel de desempenhar a função crítico-política, requerendo decisões normativas e intervenções concretas que envolvessem o inteiro ecossistema dos serviços de apoio às necessidades educativas escolares, sociais, territoriais e sanitárias, sem jamais renunciar, mesmo nas situações mais complexas, a ver respeitado o direito à integração e à plena realização dos potenciais da pessoa. Por meio da estipulação de protocolos de intenções, convenções e acordos de programa, mostraram e colocaram à disposição da comunidade e das instituições um repertório de competências e de projetos originais e inovadores relativos às ações de integração e de serviços à pessoa com deficiência que as instituições públicas, na sua dimensão local, não possuíam verdadeiramente. Trata- se de uma expertise cultural que, visando à redução da incidência da deficiência e à integração da pessoa com deficiência, produziu um amadurecimento baseado em uma intenção formativa e solidária. Tais iniciativas produziram efeitos em termos de sensibilização da opinião pública e da ativação e autogestão dos serviços, das iniciativas de promoção e do desenvolvimento da pesquisa científica e da formação, em âmbito educativo, social, laboral e sanitário (Mura, 2009). Desta forma, as associações das pessoas com deficiência tiveram modo de projetar, sobre toda a comunidade, o patrimônio de experiência de cidadania ativa e solidária que amadureceram ao longo do tempo. A crise econômica do Estado se torna em ocasião para as associações, fortalecids por suas experiências internas, se colocarem como coprodutores e corresponsáveis pela organização e gestão dos serviços públicos para as pessoas. Embora o cenário sociocultural e político seja novo, trata-se novamente de uma dinâmica histórica na qual as associações desempenham um papel propulsor e inovador que vai além da simples prestação de serviços e as coloca, em todos os aspectos, também como sujeitos orientadores das políticas institucionais. Tudo isso, em um momento complexo de transição que vê o sistema de bem-estar social, meticulosamente estruturado, transformar-se no atual sistema de sociedade de bem-estar ou bem-estar misto, como ainda é definido de forma incerta (Mura, 2007). Trata-se de atividades e mudanças ainda em curso, nas quais o ativismo associativo evidenciou a capacidade de se organizar de maneira multiforme e, mobilizando recursos humanos, técnicos e financeiros, soube gerar empoderamento para a pessoa com deficiência. Ao fazer isso, as associações estruturaram novas modalidades organizacionais internas (marcadas pela presença de profissionais), externas (através da constituição de redes associativas nacionais e transnacionais) e de relação/participação política, amadurecendo plenamente os poderes das organizações de cidadania ativa, ou seja, de informar sobre as violações dos direitos, de produzir mudanças de mentalidade, de convocar as instituições para o correto funcionamento, de promover e legitimar iniciativas e ações, de colaborar com sujeitos e instituições (Moro, 2005). O escopo cultural da ação associativa, fortemente orientada e nutrida pela sensibilidade dos pais, foi, portanto, expresso como um modelo relacional amplo e de solidariedade. É evidente, consequentemente, que ampliando o horizonte de intervenção para todos os âmbitos de desenvolvimento e idade dos sujeitos em situação de deficiência, as associações foram capazes de promover o desenvolvimento cultural e ético em torno delas. Nesse sentido, não é arriscado observar que elas também contribuíram com a realização de uma parte significativa da história cultural e social da educação, da integração e das políticas de bem-estar social do nosso país. Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 27, No. 65 11 Considerações Finais O percurso cultural e normativo por meio do qual a Itália passou a conceber a ideia da plena realização dos direitos humanos e da inclusão social das pessoas com deficiência indica claramente qual foi a contribuição das associações no enriquecimento da participação das pessoas com deficiência com os objetivos e oportunidades para a vida pública. Ao mesmo tempo, elas desempenharam um papel fundamental na promoção e na ativação de um sistema integrado de intervenções educacionais e sócio-sanitárias. Trata-se da consciência de que somente nos últimos anos essas associações encontraram respostas também em nível internacional, pela Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (UN, 2006), e que testemunham muito bem como a conduta ética das experiências de cidadania ativa do voluntariado associativo tem ido muito além do contexto privado que a gerou. Uma posição semelhante conferiu às associações um enorme poder também simbólico: os reconhecimentos obtidos as obrigam a se repensar como sujeitos sociais protagonistas e interlocutores de igual responsabilidade com outros atores públicos, já que se tornaram um componente importante do sistema de produção de serviços. Atualmente, isto comporta uma modificação interna organizacional, profissional e de gestão, que as orienta à institucionalização e à comercialização das práticas de tratamento educacional e sócio-sanitário. Deste ponto de vista, surge, no entanto, uma complexa série de questões e de nós críticos que são concernentes ao desenvolvimento futuro da missão destas organizações. Em que sentido o tratamento educacional e social, originalmente conjugado com a participação ativa dos mesmos sujeitos a quem é dirigido, pode ser “entregue” e “vendido” e, portanto, “objetivado” na performance, em vez de “interpretado” nas relações de um “projeto global de vida”? Como se pode conciliar o diálogo e o confronto que caracterizam a alma de muitas pequenas realidades associativas com as razões da concorrência no âmbito das difíceis ações dos serviços? Em que modo é possível, para as associações, manter a função “crítico política” e “emancipatória” na base das intenções associativas no momento em que são chamadas a participar das “mesas de governo” institucional? O acordo entre associações e órgãos públicos corre o risco de determinar uma relação de forças, caracterizada pela dependência econômica das primeiras em relação aos segundos. Em que modo é ainda possível garantir a capacidade inovadora e a autonomia projetual que tem caracterizado o nascimento e o trabalho de muitas associações? (Mura, 2014). Estas são apenas algumas questões abertas pelas atuais transformações e que se originam de um novo modo de conceber a participação política e social dos cidadãos para o bem-estar comum. A tendência à institucionalização, profissionalização e a empreendedorizar o trabalho associativo corre o risco de distorcer a matriz original da intenção associativa, antes mesmo de seu trabalho, e é acentuada pelo fato de que as intervenções normativas institucionais relativas à definição de um quadro orgânico para realização das políticas integradas de bem-estar estão longe de serem definidas. Assim sendo, trata-se de promover um amplo debate cultural e científico e verificar se as associações, na contingência atual, conseguem manter o seu papel propulsor como inovadoras, construtoras e vitalizadoras da vida democrática, promovendo a autodeterminação dos cidadãos e a proximidade cívica, ou, em vez disso, correm o risco de assumir o status de produtoras e prestadoras de serviços de bem-estar, adentrando o mais amplo leque das organizações de empreendedorismo social. Referências ANMIL. (1965). Gli invalidi e le barriere architettoniche. (ANMIL, Ed.). Roma: Eizioni ANMIL. Covino, A. (1999). Madre per sempre: Storia a puntate dell’ANFAS dal 1958 al 1998. La Rosa Blu, 2– 3. Inclusão Escolar e social na Itália: a contribuição das associações de pessoas com deficiências 12 D’Amato, A. (2004). 50° anniversario: I fili della memoria. Roma: AIAS. Dahrendorf, R. (2003). Auf der Suche einer neuen Ordnung. Vorlesungen zur Politik der Freiheit im 21. Jahrhundert. München: Verlag C.H. 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Professor de Educação Especial na Università degli Studi di Cagliari (IT), onde dirige o Curso de Especializaç ão para atividades de apoio a Inclusão. Autor de livros e artigos no campo da Educação Especial. Pesquisador dos processos de inclusão social de pessoas com deficiências em escolas com especial atenção a questões relacionadas a associações familiares, proc essos de orientação e formação de professores. Coordenador do Centro de atendimento universitário para educação e inclusão no ensino superior de profissionais da educação (CEDIAF) na mesma universidade . DOSSIÊ Políticas Públicas em Educação Especial em Tempos de Ditadura arquivos analíticos de políticas educativas Volume 27 Número 65 3 de junho de 2019 ISSN 1068-2341 O Copyright e retido pelo/a o autor/a (ou primeiro co-autor) que outorga o direito da primeira publicação à revista Arquivos Analíticos de Políticas Educativas. Más informação da licença de Creative Commons encontram-se em http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.5. Qualquer outro uso deve ser aprovado em conjunto pelo/s autor/es e por AAPE/EPAA. AAPE/EPAA é publicada por Mary Lou Fulton Institute Teachers College da Arizona State University . Os textos publicados em AAPE são indexados por CIRC (Clasificación Integrada de Revistas Científicas, Espanha) DIALNET (Espanha),Directory of Open Access Journals, Education Full Text (H.W. Wilson), EBSCO Education Research Complete, ERIC, PubMed, QUALIS A1 (Brasil), Redalyc, SCImago Journal Rank; SCOPUS, SOCOLAR (China). 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Fischman (Arizona State University) Kaizo Iwakami Beltrao, (Brazilian School of Public and Private Management - EBAPE/FGV, Brazil), Geovana Mendonça Lunardi Mendes (Universidade do Estado de Santa Catarina), Gilberto José Miranda, (Universidade Federal de Uberlândia, Brazil), Marcia Pletsch, Sandra Regina Sales (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro) Almerindo Afonso Universidade do Minho Portugal Alexandre Fernandez Vaz Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil José Augusto Pacheco Universidade do Minho, Portugal Rosanna Maria Barros Sá Universidade do Algarve Portugal Regina Célia Linhares Hostins Universidade do Vale do Itajaí, Brasil Jane Paiva Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil Maria Helena Bonilla Universidade Federal da Bahia Brasil Alfredo Macedo Gomes Universidade Federal de Pernambuco Brasil Paulo Alberto Santos Vieira Universidade do Estado de Mato Grosso, Brasil Rosa Maria Bueno Fischer Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil Jefferson Mainardes Universidade Estadual de Ponta Grossa, Brasil Fabiany de Cássia Tavares Silva Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Brasil Alice Casimiro Lopes Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil Jader Janer Moreira Lopes Universidade Federal Fluminense e Universidade Federal de Juiz de Fora, Brasil António Teodoro Universidade Lusófona Portugal Suzana Feldens Schwertner Centro Universitário Univates Brasil Debora Nunes Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Brasil Lílian do Valle Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil Flávia Miller Naethe Motta Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Brasil Alda Junqueira Marin Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Brasil Alfredo Veiga-Neto Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil Dalila Andrade Oliveira Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 27, No. 65 15 archivos analíticos de políticas educativas consejo editorial Editor Consultor: Gustavo E. Fischman (Arizona State University) Editores Asociados: Armando Alcántara Santuario (Universidad Nacional Autónoma de México), Angelica Buendia, (Metropolitan Autonomous University), Alejandra Falabella (Universidad Alberto Hurtado, Chile), Antonio Luzon, (Universidad de Granada), José Luis Ramírez, (Universidad de Sonora), Paula Razquin (Universidad de San Andrés), Maria Alejandra Tejada-Gómez (Pontificia Universidad Javeriana, Colombia) Claudio Almonacid Universidad Metropolitana de Ciencias de la Educación, Chile Ana María García de Fanelli Centro de Estudios de Estado y Sociedad (CEDES) CONICET, Argentina Miriam Rodríguez Vargas Universidad Autónoma de Tamaulipas, México Miguel Ángel Arias Ortega Universidad Autónoma de la Ciudad de México Juan Carlos González Faraco Universidad de Huelva, España José Gregorio Rodríguez Universidad Nacional de Colombia, Colombia Xavier Besalú Costa Universitat de Girona, España María Clemente Linuesa Universidad de Salamanca, España Mario Rueda Beltrán Instituto de Investigaciones sobre la Universidad y la Educación, UNAM, México Xavier Bonal Sarro Universidad Autónoma de Barcelona, España Jaume Martínez Bonafé Universitat de València, España José Luis San Fabián Maroto Universidad de Oviedo, España Antonio Bolívar Boitia Universidad de Granada, España Alejandro Márquez Jiménez Instituto de Investigaciones sobre la Universidad y la Educación, UNAM, México Jurjo Torres Santomé, Universidad de la Coruña, España José Joaquín Brunner Universidad Diego Portales, Chile María Guadalupe Olivier Tellez, Universidad Pedagógica Nacional, México Yengny Marisol Silva Laya Universidad Iberoamericana, México Damián Canales Sánchez Instituto Nacional para la Evaluación de la Educación, México Miguel Pereyra Universidad de Granada, España Ernesto Treviño Ronzón Universidad Veracruzana, México Gabriela de la Cruz Flores Universidad Nacional Autónoma de México Mónica Pini Universidad Nacional de San Martín, Argentina Ernesto Treviño Villarreal Universidad Diego Portales Santiago, Chile Marco Antonio Delgado Fuentes Universidad Iberoamericana, México Omar Orlando Pulido Chaves Instituto para la Investigación Educativa y el Desarrollo Pedagógico (IDEP) Antoni Verger Planells Universidad Autónoma de Barcelona, España Inés Dussel, DIE-CINVESTAV, México José Ignacio Rivas Flores Universidad de Málaga, España Catalina Wainerman Universidad de San Andrés, Argentina Pedro Flores Crespo Universidad Iberoamericana, México Juan Carlos Yáñez Velazco Universidad de Colima, México javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/816') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/819') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/820') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/4276') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/1609') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/825') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/797') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/823') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/798') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/555') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/814') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/2703') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/801') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/826') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/802') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/3264') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/804') Inclusão Escolar e social na Itália: a contribuição das associações de pessoas com deficiências 16 education policy analysis archives editorial board Lead Editor: Audrey Amrein-Beardsley (Arizona State University) Editor Consultor: Gustavo E. Fischman (Arizona State University) Associate Editors: David Carlson, Lauren Harris, Eugene Judson, Mirka Koro-Ljungberg, Scott Marley, Molly Ott, Iveta Silova (Arizona State University) Cristina Alfaro San Diego State University Amy Garrett Dikkers University of North Carolina, Wilmington Gloria M. Rodriguez University of California, Davis Gary Anderson New York University Gene V Glass Arizona State University R. Anthony Rolle University of Houston Michael W. Apple University of Wisconsin, Madison Ronald Glass University of California, Santa Cruz A. G. Rud Washington State University Jeff Bale University of Toronto, Canada Jacob P. K. Gross University of Louisville Patricia Sánchez University of University of Texas, San Antonio Aaron Bevanot SUNY Albany Eric M. Haas WestEd Janelle Scott University of California, Berkeley David C. 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Lochmiller Indiana University Tina Trujillo University of California, Berkeley Chad d'Entremont Rennie Center for Education Research & Policy Christopher Lubienski Indiana University Federico R. Waitoller University of Illinois, Chicago John Diamond University of Wisconsin, Madison Sarah Lubienski Indiana University Larisa Warhol University of Connecticut Matthew Di Carlo Albert Shanker Institute William J. Mathis University of Colorado, Boulder John Weathers University of Colorado, Colorado Springs Sherman Dorn Arizona State University Michele S. Moses University of Colorado, Boulder Kevin Welner University of Colorado, Boulder Michael J. Dumas University of California, Berkeley Julianne Moss Deakin University, Australia Terrence G. 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