Curricularização das Relações Étnico-raciais em uma Faculdade de Odontologia Página web: http://epaa.asu.edu/ojs/ Artigo recebido: 28/04/2019 Facebook: EPAAA Revisões recebidas: 20/06/2019 Twitter: @epaa_aape Aceito: 04/11/2019 arquivos analíticos de políticas educativas Revista acadêmica, avaliada por pares, independente, de acesso aberto, e multilíngue Arizona State University Volume 29 Número 7 25 de janiero de 2021 ISSN 1068-2341 Curricularização das Relações Étnico-raciais em uma Faculdade de Odontologia Fabricio de Medeiros Melo Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Alagoas & Jorge Luís de Souza Riscado Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Alagoas Brasil Citação: Melo, F. M., & Riscado, J. L. S. (2021). Curricularização das relações étnico-raciais em uma faculdade de odontologia. Arquivos Analíticos de Políticas Educativas, 29(7). https://doi.org/10.14507/epaa.29.4664 Resumo: O estudo objetivou verificar a presença da temática étnico-racial no Curso de Graduação em Odontologia, visando identificar abordagens sobre as Relações Étnico-Raciais e da Saúde da População Negra no Projeto Pedagógico e nos conteúdos da matriz curricular do curso. A Metodologia baseou-se num estudo documental, de caráter exploratório, qualitativo, sustentado pelas recomendações das Diretrizes Curriculares para as Relações Étnico-Raciais, Política de Saúde Integral da População Negra e Diretrizes Curriculares para o Curso de Odontologia. A pesquisa se limitou à análise crítica de documentos de um curso graduação em Odontologia em Alagoas. Os dados foram coletados entre fevereiro e abril de 2018, utilizando uma matriz instrumental a partir das categorias: Explicitação das Relações Étnico-Raciais e a Saúde da População Negra nos Fundamentos e Justificativas para a Formação do Cirurgião dentista; A Dimensão étnico-racial afro- http://epaa.asu.edu/ojs/ https://doi.org/10.14507/epaa.29.4664 Curricularização das Relações Étnico-raciais em uma Faculdade de Odontologia 2 brasileiro nos objetivos; Habilidades e Competências; Relações Étnico-Raciais na Organização e no conteúdo. Os dados foram analisados na perspectiva de análise de conteúdo. Existe um silenciamento acerca das relações Étnico-Raciais no Projeto Pedagógico nos fundamentos e justificativas, nos objetivos e competências para a formação e nas abordagens dos conteúdos. A instituição possui aspectos na organização do curso e matriz curricular que permitem integralizar essa temática transversalmente. Palavras-chave: Curriculo; Etnicidade; Saúde da População Negra; Odontologia Curriculum of ethnic-racial relations at a faculty of dentistry Abstract: The aim of this study was to verify the presence of ethnic-racial themes in the undergraduate course in dentistry, in order to identify approaches on ethnic-racial relations and health of the Black population in the pedagogical project and in the contents of the curricular matrix of the course. The methodology was based on a documentary study, exploratory and qualitative, supported by the recommendations of the Curricular Guidelines for Ethnic-Racial Relations, Black Population Comprehensive Health Policy and Curricular Guidelines for the Dentistry Course. The research was limited to the critical analysis of documents of an undergraduate course in dentistry in Alagoas. Data were collected between February and April 2018, using an instrumental matrix from the following categories: Explicit Ethnic-Racial Relations and Black Population Health in the Fundamentals and Justifications for the Training of the Dental Surgeon; The Afro-Brazilian ethno- racial dimension in the objectives; Skills and Skills; Ethnic-Racial Relations in Organization and Content. The data were analyzed from a content analysis perspective. There is a silencing of ethnic- racial relations in the pedagogical project in the fundamentals and justifications, in the objectives and competences for the formation and in the approaches of the contents. The institution has aspects in the organization of the course and curricular matrix that allow to integrate this theme transversally. Keywords: Curriculum; Ethnicity; Health of the Black Population; Dentistry Plan de estudios de relaciones étnico-raciales en una facultad de odontología Resumen: El estudio objetivó verificar la presencia de la temática étnico-racial en el Curso de Graduación en Odontología, buscando identificar enfoques sobre las Relaciones Étnico-Raciales y de la Salud de la Población Negra en el Proyecto Pedagógico y en los contenidos de la matriz curricular del curso. La Metodología se basó en un estudio documental, de carácter exploratorio, cualitativo, sustentado por las recomendaciones de las Directrices Curriculares para las Relaciones Étnico-Raciales, Política de Salud Integral de la Población Negra y Directrices Curriculares para el Curso de Odontología. La investigación se limitó al análisis crítico de documentos de un curso graduado en Odontología en Alagoas. Los datos fueron recolectados entre febrero y abril de 2018, utilizando una matriz instrumental a partir de las categorías: Explicación de las Relaciones Étnico- Raciales y la Salud de la Población Negra en los Fundamentos y Justificaciones para la Formación del Cirujano dentista; La dimensión étnico-racial afro-brasileño en los objetivos; Habilidades y Competencias; Relaciones Étnico-Raciales en la Organización y en el contenido. Los datos fueron analizados en la perspectiva de análisis de contenido. Hay un silenciamiento acerca de las relaciones Étnico-Raciales en el Proyecto Pedagógico en los fundamentos y justificaciones, en los objetivos y competencias para la formación y en los enfoques de los contenidos. La institución tiene aspectos en la organización del curso y matriz curricular que permiten integrar esta temática transversalmente. Palabras-clave: Curriculo; Etnicidad; Salud de la Población Negra; Odontología Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 29, No. 7 3 Introdução No século XX, as emergências da vinculação entre saúde e condições sociais de vida, tais como trabalho, moradia, educação e outros, levaram à instituição do conceito de saúde coletiva. No entanto, a construção de um conceito de saúde universalmente aceito e compreendido como “o estado do mais completo bem estar físico, mental e não apenas a ausência de doenças”, só se deu a partir da metade do século XX após a criação da Organização das Nações Unidas (ONU), o que possibilitou a instituição de saúde como um direito humano (Brasil, 2011). Pode-se atribuir a vinculação entre saúde e condições sociais de vida ao fato de que, a maioria das causas de doenças e desigualdades em saúde tem raízes, principalmente, em fatores como: condições em que a pessoa nasce, trajetórias familiares e individuais; desigualdades de raça, etnia, sexo e idade; local e condições de vida e moradia; condições de trabalho, emprego e renda; acesso à informação e aos bens e serviços potencialmente disponíveis (Brasil, 2011). Tem se observado nas últimas décadas uma diminuição dos índices de mortalidade na população em geral e aumento da expectativa de vida. Entretanto, a população negra ainda apresenta altas taxas de morbi-mortalidade em todas as faixas etárias, quando comparadas com a população em geral. Isso significa que as questões socioeconômicas, étnicas e gênero estão relacionadas às iniquidades em saúde (Brasil, 2011). Diversos estudos apontam iniquidades em saúde bucal associando-as à raça-etnia, com piores condições entre os indivíduos da raça negra. A chance mais elevada de cárie não tratada (Antunes et al., 2003; Gushi, 2002), a maior concentração de doença periodontal (Pereset al., 2007), a maior necessidade de prótese e dificuldade no acesso ao dentista (Brasil, 2004; Guiotoku, 2012) e a influência da raça como fator de decisão de tratamento (Cabral et al., 2005). A cor da pele e a origem ancestral, como variáveis de exposição, têm sido associadas à cárie não tratada (Reid et al., 2004) e doença periodontal (Bastos et al., 2011). Tais agravos, a depender de sua magnitude, podem levar à perda dentária. A influência da raça em relação à decisão clínica dos dentistas, a respeito de extração ou conservação de molares cariados determinou a menor chance de tratamento conservador entre negros (Cabral et al., 2005). A maior prevalência de perda dentária relacionada ao construto de discriminação em indivíduos com baixa condição sócio-econômica e, especialmente, em negros e pardos, admite três hipóteses: submissão dos indivíduos afetados a piores condições de qualidade de vida decorrente de privação e exclusão social; maior exposição a situações de estresse, relacionadas à frequência de episódios de discriminação, que poderiam aguçar a sensação de injustiça social; e a discriminação em âmbito institucional, que poderia comprometer o acesso e a qualidade dos serviços de odontologia (Gonçalves, 2011). No Brasil, as desigualdades entre negros e brancos estão presentes em diversos aspectos que integram o cotidiano, constituindo-se como elementos estruturantes da realidade social. No contexto atual, essas desigualdades traduziram-se em arranjos políticos e sociais que limitam as oportunidades e formas de expectativa de vida da população negra (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2013). Há um grande conjunto de artigos que discutem desigualdade entre raças no Brasil, no que se refere à renda (Bailey et al., 2013; Henriques, 2001; Silva, 1985 ), à saúde (Barata et al., 2007; Chor & Lima, 2005; Oliveira, 2002; Santos, 2011) ou a resultados educacionais (Henriques, 2001; Ribeiro, 2011). Percebe-se que esta desigualdade se manifesta também nas instituições educacionais através dos seus currículos, que concretizam as intencionalidades do processo educativo (Regis, 2012). No tocante à educação superior na área de saúde do Brasil, as variadas mudanças sociais têm impelido à reformulação nos currículos, no sentido de adequar a formação profissional às necessidades Curricularização das Relações Étnico-raciais em uma Faculdade de Odontologia 4 contemporâneas (Maia, 2014). É sobretudo, lançar um novo olhar, colocando-se numa perspectiva de dialogar com os diversos elementos da cultura, buscando perceber a interculturalidade existente no contexto brasileiro, capaz de provocar mudanças estruturais no campo da prática. Silva (2002) define o currículo como um ambiente no qual diferentes grupos tentam estabelecer sua hegemonia. Corroborando o argumento do autor, pode-se afirmar que o campo curricular opera como um potente meio de produção de discursos, criando verdades, interesses e conceitos, através dos quais torna suas orientações indelevelmente o currículo é um espaço constante de luta em torno da significação e da identidade e, por essa razão, tem se constituído um território cultural “sujeito à disputa e à interpretação naturais” e “necessárias” no contexto educacional. Em relação à saúde, há uma abordagem social capaz de redefinir criticamente a formação dos profissionais, apontando para a existência de sentidos e significados em formação na cultura, em particular, e na vida em sociedade, em geral (Luz, 2005) nos seus diferentes tipos de práticas, relacionando-as com os princípios do SUS, o que vem impulsionando mudanças propostas pelas Diretrizes de Curriculares Nacionais e por outras publicações. As Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) valorizaram a relevância social das ações de saúde e do próprio ensino, o que implicou, necessariamente, a construção de currículos que preparassem o profissional para trabalhar a partir das necessidades da população, num contexto de mudanças no perfil epidemiológico das doenças bucais, adotando um conceito mais ampliado de saúde e de novas práticas baseadas em evidências científicas (Morita & Haddad, 2008; Zilbovicius et al., 2011). As relações entre raça e saúde vêm sendo alvo de um campo de reflexões e de intervenção política denominada saúde da população negra. Nelas se inserem discussões sobre a forma de enfrentar o racismo à medida que parcelas significativas da sociedade reconhecem as desvantagens materiais e simbólicas sofridas pelos negros. Essas desvantagens tornam a variável raça um fator determinante de desigualdade social e de exposição social ao risco de adoecimento e morte (Maio et al., 2005). No que se refere especificamente à prática da Odontologia, apesar de os cuidados em saúde bucal serem amplamente objeto de reflexões e pesquisas, a literatura (Antunes et al., 2003) aponta que há escassez de questionamentos que problematizem os cuidados em saúde bucal a práticas discriminatórias, principalmente as de motivações raciais. Indícios de preconceito ou discriminação por parte do cirurgião-dentista foram encontrados por Cabral et al. (2005), que apontaram a raça do paciente como fator de decisão do cirurgião dentista em extrair ou preservar um dente, indicando que o negro é submetido a mais extrações dentárias (25,5% x 16,2%) que o branco, mesmo estando nas mesmas condições clínicas. Quando se consideram esses questionamentos no processo de formação profissional em Odontologia, fica evidente a ausência de discussão de questões etnicorraciais nos conteúdos e na matriz curricular. Cotta, Gomes, Maia, Magalhães, Marques & Siqueira-Batista (2007, p. 282) destacam a importância de discutir a formação de profissionais de saúde frente ao contexto de crescentes desigualdades sociais. Evidencia-se que há deficiências de conteúdos, de forma que possibilitem a ensinar-cuidar da saúde bucal e corroborem no enfrentamento do racismo na sociedade e das desigualdades raciais em Saúde. É relevante, sobretudo, pensar na formação de profissionais de saúde com a abertura do diálogo voltado para a reflexão crítica da realidade e, possivelmente, para a mudança de paradigmas no desenvolvimento de sua práxis de trabalho e social. Refletir a relação entre o currículo e as relações étnico-raciais pensando a sinergia e singularidade da saúde população negra dentro do contexto da educação em saúde, tendo em vista as determinações da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), é uma tentativa de combater a discriminação racial no campo da saúde a partir dos serviços e atendimentos Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 29, No. 7 5 oferecidos no Sistema Único de Saúde, bem como promover a equidade em saúde da população negra, entendendo como sendo negros e negras, os pretos e pardos, conforme nomenclatura instituída pelo censo do IBGE 2010 (Brasil, 2013). Nesse sentido, torna-se fundamental interrogar o campo do currículo e, consequentemente, o ensino na saúde, no trato político-pedagógico das relações étnico-raciais. Interessa-nos, ademais, refletir acerca da potencialidade de uma formação em que as diferentes matrizes curriculares que compõem a saúde, com suas epistemologias próprias, possam construir um diálogo mais proporcional e, portanto, de maior respeito e valorização da diferença cultural e dos saberes (Santana et al., 2012). Questionar o currículo e o ensino na saúde no trato com a diversidade étnico-racial justifica- se, uma vez que, é preciso entender o currículo como uma práxis a qual implica na compreensão de que diversos tipos de ações que interferem em sua configuração, adquirindo sentido em um contexto real (Macedo, 2009). Os indicadores de saúde para a população negra apontam que há uma lacuna da temática nos processos de formação para os cursos da área de saúde, mesmo havendo legislação que dispõem sobre a inclusão do estudo das Relações Étnico-raciais no ensino superior. Segundo Monteiro (2016), “os cursos da área de saúde pouco ou nada têm feito no sentido de considerar o tema em questão como conteúdo pertinente à formação dos novos profissionais. A inserção da temática étnico-racial afro e afro-brasileira, nos currículos em saúde é uma forma de atender as demandas emergentes e, se constitui em uma oportunidade de ampliação dos conhecimentos sobre a diversidade cultural da sociedade brasileira, sua história, bem como sua influência na cultura local e no processo saúde-doença (Oliveira, 2017). Mesmo em face dos avanços das políticas afirmativas para a população negra, ainda não há uma garantia de que estas políticas sejam reconhecidas e implementadas, sobretudo na formação dos profissionais de saúde. Em virtude deste cenário, esse estudo teve como objetivo verificar a presença da temática étnico-racial no Curso de Graduação em Odontologia. Percurso Metodológico Tipo de Pesquisa Trata-se de um estudo documental, de caráter exploratório, numa perspectiva qualitativa, com propósito de responder as seguintes questões: As Relações Étnico-Raciais estão contempladas nas dimensões política e pedagógica do PPC do curso de Odontologia da UFAL? Quais as potencialidades e desafios existentes para a inserção desta temática? A pesquisa em tela, se ateve à análise crítica do Projeto Pedagógico do Curso (PPC) de graduação em Odontologia da FOUFAL, tomando como referência os seguintes documentos: Diretrizes Curriculares para o Curso de Odontologia (BRASIL, 2002); Diretrizes Curriculares para Educação das Relações Étnicos-Raciais (BRASIL, 2004); e Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (BRASIL, 2007). Não foi necessário submeter à pesquisa ao Comitê de Ética em Pesquisa, uma vez que a presente pesquisa constitui-se em um estudo documental realizado a partir de dados disponíveis a acesso público e irrestrito. Para a análise do PPC, utilizou-se como referência uma adaptação da matriz instrumental de Oliveira (2017), na qual foram elaboradas categorias a partir da estrutura básica do PPC, e unidades de registro (UR) para cada categoria, a partir dos demais documentos analisados. Foram utilizadas três categorias: Categoria 1 - Explicitação das relações étnicos raciais e a saúde da população negra, nos fundamentos e justificativa para a formação do cirurgião dentista; Categoria 2 - Aspectos étnico- Curricularização das Relações Étnico-raciais em uma Faculdade de Odontologia 6 raciais afro-brasileiros nos objetivos, habilidades e competências e Categoria 3 - Relações étnico- raciais afro-brasileiras na organização e no conteúdo curricular. Instrumento de Coleta de Dados Para a construção dos dados, optamos por assumir e adaptar a matriz instrumental de Oliveira (2017), objetivando um norteamento para a obtenção das informações com categorias prévias, elegidas a partir do referencial teórico e descritas no quadro abaixo: Quadro 1 Categorias e subcategorias de análise Nota: Adaptado de Oliveira (2017) Às categorias 1 (Explicitação das Relações Étnico-Raciais e a Saúde da População Negra nos Fundamentos e Justificativas para a Formação do Cirurgião dentista) e 2 (Aspectos étnico-raciais afro-brasileiros nos objetivos do curso, Habilidades e Competências) atribuíram-se, com objetivo didático a dimensão política do PPC e à categoria 3 (Relações Étnico-Raciais na Organização e no conteúdo curricular) com o mesmo objetivo atribuiu-se a dimensão pedagógica do referido documento. Os dados foram coletados no período de fevereiro de 2018 a abril de 2018. Inicialmente foi realizado um levantamento nos documentos de referência - DCN para o Curso de Graduação em Odontologia, nas DCN para Educação das Relações Étnico-Raciais e na Política de Saúde da População Negra, e a partir da matriz instrumental de Oliveira (2017) analisaram-se artigos e parágrafos a fim de adaptar as unidades de registro elencadas pela autora para possibilitar a identificação dos aspectos relacionados à saúde da população negra em Odontologia. Em seguida, procedeu-se á análise da estrutura do PPC e da matriz curricular do curso de odontologia da UFAL, visando identificar em que áreas e conteúdos as relações étnico-raciais para a formação do cirurgião dentista, na perspectiva da saúde da população negra, estavam contempladas. Os dados foram tratados na perspectiva da análise de conteúdo utilizando os referenciais das relações étnico-raciais e a saúde da população negra, a fim de decifrar, em cada texto, o núcleo Categoria 1- Explicitação das Relações Étnico-Raciais e Saúde da População Negra nos Fundamentos e Justificativas para a Formação do Cirurgião dentista Elementos que expressam a abordagem do perfil epidemiológico, condições de vida, e realidade social da população negra Categoria 2 – Aspectos étnico-raciais afro-brasileiros nos objetivos do curso, Habilidades e Competências do Cirurgião dentista Elementos que indiquem os aspectos éticos/humanísticos considerando o viés racial para a formação em Odontologia Categoria 3 – Relações Étnico-Raciais afro-brasileiras na Organização e no conteúdo curricular Elementos que considerem o viés étnico racial nas abordagens de temas sobre da Saúde da População Negra no ensino de Odontologia Subcategorias Contextualização da Saúde da População Negra Humanização e Saúde da População Negra Política de Saúde da População Negra Nosologia da Saúde da População Negra Semiologia e atendimento da População Negra Farmacologia Perspectiva Saúde da População Negra Ética, Bioética e Espirituali- dade Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 29, No. 7 7 emergente que atendesse aspectos objetivos e subjetivos contidos no Projeto Político Pedagógico, nas dimensões política e pedagógica, buscando desvelar questões relacionadas à temática Saúde da População Negra - SPN durante a formação do cirurgião dentista. Resultos e Discussão Observando a instituição estudada, ela não explicita em seus inscritos e em suas propostas de implementação, os caminhos requeridos para a abordagem das Relações-Étnico Raciais Afro e Afro- brasileira, preconizados pelas Diretrizes Curriculares para Educação das Relações Étnico-Raciais (DCERER) e pela Política Nacional de Saúde Integral da População Negra. O PPC fundamenta-se basicamente nas Diretrizes Curriculares de Odontologia, que por sua vez também não trazem indicativos acerca dessa abordagem. Na categoria 1- Explicitação das Relações Étnico-Raciais e a Saúde da População Negra na Introdução/Justificativa para a Formação do cirurgião dentista - o PCC foi analisado em sua introdução e justificativa para a formação do cirurgião dentista, observando as abordagens quanto ao perfil epidemiológico, condições de vida, e realidade social da população negra. Na categoria 2 – Aspectos étnico-raciais afro-brasileiros nos objetivos, Habilidades e Competências – foram observados se os objetivos do curso, o perfil do egresso e o desenvolvimento de habilidades e competências apresentavam os elementos que valorizavam os aspectos éticos humanísticos considerando o viés racial para a formação do cirurgião dentista. Por fim, na categoria 3 – Relações Étnico-Raciais afro-brasileiras na Organização e no conteúdo curricular – procedeu-se à análise da organização e do conteúdo curricular para o curso de graduação em odontologia, observando as relações étnico-raciais e os temas sobre matriz africana e afro-brasileira no contexto da saúde da população negra. Com esse propósito, investigaram-se a ementa e os planos de atividades das 43 disciplinas ofertadas pelo curso. As subcategorias vinculadas a esta, emergiram dos documentos utilizados como referências fundamentais para o curso de graduação em odontologia, e os temas sobre a matriz afro e afro-brasileira no contexto da saúde da população negra. O PPC de odontologia da UFAL, versão 2007, disponível no site da FOUFAL está organizado em cinco capítulos, pautando-se nas Diretrizes Curriculares para o curso de odontologia instituídas em 2002 e, em legislações do SUS. Foi produzido de forma coletiva por um colegiado composto por representantes do corpo docente, técnicos administrativos e discentes, a partir das necessidades de adequar o curso às demandas emergentes e às mudanças e exigências legais para a formação do cirurgião dentista. A análise do conteúdo do PPC buscou identificar indícios de abordagens sobre a saúde da população negra na contextualização e nas intencionalidades, tanto na dimensão política - aqui representada pelos fundamentos, justificativas, objetivos, perfil do egresso, competências e habilidades -, quanto na dimensão pedagógica, representada pela matriz curricular, composta por: planos de ensino das disciplinas; objetivos de aprendizagens; conteúdos e cenários de prática. Foram incluídas também, quando se julgou necessário, em caráter complementar, informações presentes nas ementas das disciplinas, disponibilizadas através da coordenação do curso. Categorias, Subcategorias e Unidades de Registro Com base no levantamento de dados realizado a partir do PPC e das ementas das disciplinas do curso de odontologia estudado, e nas DCN de Odontologia não foi possível identificar a inserção do viés étnico-racial enquanto princípio organizativo e pedagógico capaz de operacionalizar o ensino Curricularização das Relações Étnico-raciais em uma Faculdade de Odontologia 8 em saúde, a partir do indicado nas DCERER, e na PNSIPN. A inobservância de tal viés étnico-racial nestes documentos compromete o entendimento de uma concepção de mundo na perspectiva histórico-cultural afro e afro-brasileira e no processo saúde doença da população negra. A análise realizada aponta que o PPC apresenta uma proposta de ensino ancorada nas DCN de Odontologia e nas políticas de saúde do SUS. Entretanto, não foi indicado explicitamente, nenhum referencial acerca das relações étnico-raciais, ou sobre a saúde da população negra. Percebe- se, entretanto, que das 43 disciplinas analisadas, 30 apresentam conteúdos que podem vir a integralizar as temáticas descritas nas unidades de registro das categorias elencadas. Há que se ressaltar, entretanto, que em face da presença desses conteúdos nas disciplinas e de uma tímida integralização das temáticas étnico-raciais, outra possibilidade se apresenta. A criação de uma disciplina eletiva que contemple esses temas surgiria, então como uma alternativa nesse cenário, uma vez coaduna-se com a proposta de ensino do PPC. Categoria 1 - Explicitação das Relações Étnico-raciais e Saúde da População Negra nos Fundamentos e Justificativas da Formação do Cirurgião Dentista Nessa categoria de análise do Projeto Pedagógico, buscam-se elementos textuais que tornem possível a visibilização do perfil epidemiológico, condições de vida e realidade social da população negra na apresentação da realidade e da relevância do debate sobre a temática étnico-racial durante a formação do futuro profissional de odontologia. É preciso destacar que os dados encontrados neste item do PPC pesquisado ressaltam apenas aspectos históricos sobre a fundação do curso, formação acadêmica dos docentes e sobre a infraestrutura atualmente disponível para a realização de suas atividades. O texto concentra-se exclusivamente na instituição e não faz nenhuma alusão à geografia local, à epidemiologia e aos dados sócio-demográficos populacionais, aos determinantes sociais e às necessidades de saúde. Também verifica-se que não é realizada nenhuma contextualização acerca das diferenças raciais e, dos impactos e necessidades de saúde da população negra. A ausência de contextualização vai de encontro ao que é proposto por Sousa Santos (2003) em sua crítica ao universalismo antidiferencialista. O autor aponta para o prejuízo da não incorporação da diversidade em documentos que garantem os direitos humanos numa perspectiva multicultural de modo a abarcar uma operação contra-hegemônica. Para o ensino superior, as DCN do Curso de Graduação em Odontologia (Brasil, 2002) parecem-nos também não propor de forma objetiva a inserção da temática racial na Atenção em Saúde. Para Soares Filho (2012), na conjuntura atual, a identificação das diferenças raciais no campo da saúde, é considerada importante, pois permite fazer distinção a respeito das iniquidades geradas no cerne do contexto brasileiro, e contribui para a orientação e formulação de políticas que atendam às necessidades particulares. Monteiro (2016) ressalta que, dentro do processo de reconhecimento dos determinantes sociais que constituem os desafios da Saúde Pública, é preciso considerar, dentre outras questões, a raça-etnia no enfrentamento das razões que determinam a produção e reprodução das desigualdades sociais na sociedade brasileira. Nos dados sobre o perfil epidemiológico da população brasileira, nos últimos anos, fica evidenciado que a população negra ainda se encontra em considerável situação de vulnerabilidade, com condições de saúde precárias, com índices elevados no que diz respeito às doenças crônicas e infecciosas (Brasil, 2013). As iniquidades em saúde bucal são consideradas como um dos temas de pesquisa prioritários pela Organização Mundial da Saúde (OMS; Petersen, 2003). Assim, essa realidade parece-nos Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 29, No. 7 9 apontar para a urgente necessidade de qualificação profissional com vistas a minimizar essas iniquidades. Nesse sentido, a demonstração das especificidades contextuais da população negra no PPC pode possibilitar a justificativa de ensino dessa temática na formação do cirurgião dentista, uma vez que o PPC representa um importante elemento no direcionamento de plano de ação da instituição para o alcance de políticas no intuito de oferecer uma formação coerente e efetiva, a qual deve demandar das emergências advindas dos contextos e das exigências legais (Gomes, 2016). Categoria 2 – Aspectos Étnico-raciais Afro-brasileiros nos Objetivos do Curso, Habilidades e Competências do Cirurgião Dentista Nesta categoria, o PPC de Odontologia não fez nenhuma referência direta a quais seriam os objetivos do curso. A partir do item “Perfil” infere-se que o curso objetiva a formação de um profissional generalista, humanista, com visão crítica e reflexiva para atuar em todos os níveis de atenção à saúde, com base no rigor técnico e científico. A competência exigida na formação do profissional da saúde se relaciona com o cuidado com o outro, que deverá permitir a esse profissional mobilizar na sua prática conhecimentos e atitudes que permitam responder de forma satisfatória as demandas e necessidades dos indivíduos e da coletividade (Dos Santos, 2011). Esse processo, entretanto, demanda que sejam definidas competências relacionadas com o perfil de profissional que se deseja formar, a partir dos contextos políticos e sócio-culturais nos quais atuará. A fim de que as competências sejam adquiridas, é necessário que elas estejam objetivamente definidas, descritas e disponibilizadas a todos os envolvidos no processo educacional (Dos Santos, 2011). Da mesma forma, é também necessário evidenciar claramente os objetivos educacionais voltados à questão racial no PPC do curso, para que haja coerência com os pressupostos que fundamentam a formação e a legislação vigente. O PPC em análise menciona, entre as competências descritas, a concepção de educação que tem a práxis como referencial, a partir de uma proposta de formação crítico-reflexiva do egresso, demonstrando o compromisso da instituição em desenvolver, não apenas competências técnicas, mas a construção de uma sociedade mais justa e comprometida com o sistema de saúde baseados nos princípios éticos e humanos. Esta concepção está presente nas habilidades e competências específicas, quando afirma: Respeitar os princípios éticos e legais inerentes ao exercício profissional. Exercer sua profissão de forma articulada ao contexto social, entendendo-a como uma forma de participação e contribuição social; Identificar em pacientes e em grupos populacionais as doenças e distúrbios buco- maxilo-faciais e realizar procedimentos adequados para suas investigações, prevenção, tratamento e controle; Participar em educação continuada relativa a saúde bucal e doenças como um componente da obrigação profissional e manter espírito crítico, mas aberto a novas informações. Ao orientar as competências para que estejam subsidiadas por elementos que valorizem os aspectos éticos e bioéticos, fica destacado o cuidado para que o PPC seja coerente com os valores preconizados pela instituição, em construir uma sociedade mais justa e comprometida com os princípios do SUS. Curricularização das Relações Étnico-raciais em uma Faculdade de Odontologia 10 O PPC, entretanto, não apresenta, nas habilidades e competências gerais e específicas, referências explícitas quanto à preparação de profissionais para atender a questão da “diferença”, além de não mencionar os aspectos étnico-raciais e suas singularidades relacionadas aos afro- brasileiros. As informações descritas no documento pesquisado apontam para uma latente e explícita intenção institucional em garantir uma formação do cirurgião dentista voltada ao suprimento de demandas individuais e coletivas. Entretanto, no contexto da sociedade brasileira, esse processo de construção da cidadania requer a necessidade de reflexão crítica sobre o modo como tem se processado as relações étnico-raciais, cada vez mais permeadas pela exclusão da população negra, gerando a pobreza e os desequilíbrios nas condições de saúde desse segmento populacional. Os dados do IBGE (Brasil, 2013) sobre a saúde no Brasil apontam que as condições de saúde do negro são consideradas ruins, demonstrando que os cuidados à saúde dessa população ainda se encontram precários. Essa realidade evidencia sobremaneira a necessidade de desenvolver competências e habilidades que contemplem a dimensão étnico-racial na formação dos profissionais de saúde, dentre os quais o cirurgião dentista. Para Camelo e Angerami (2013), a possibilidade de solução das maiores questões de saúde encontra-se nos recursos humanos, pois através de sua influência na atenção e na terapêutica prestadas aos indivíduos e coletividade, podem ser capazes de interferir positivamente na modificação das condições de vida e de saúde da população. A partir da análise dessa categoria, pode-se admitir que a instituição objetiva instrumentalizar o aluno para o desenvolvimento de competências que contemplem as dimensões técnica e ética, sem deixar de lado o caráter coletivo das práticas da odontologia. Entretanto, ainda não estão presentes no texto do PPC elementos que abordem a dimensão étnico-racial. Esta dimensão não está explícita ou descrita objetivamente em nenhuma dessas outras competências elencadas para instrumentalização dos discentes. Categoria 3 – Relações Étnico-raciais Afro-brasileiras na Organização e no Conteúdo Curricular A Resolução CNE/CP 01/2004 em seu artigo 5º prevê, para as relações étnico-raciais, que os conteúdos abordados devem colaborar para a correção de posturas e atitudes que implicam desrespeito e discriminação. Assim, os temas abordados sobre o processo saúde-doença da população negra e formação em saúde devem servir para a reflexão e esclarecimento de relações, condutas, estilo de vida, trabalho e valores culturais. De acordo com a PNSIPN, a discussão sobre a temática é também uma forma de educar para que “desconstruam estigmas e preconceitos, fortaleçam uma identidade negra positiva e contribuam para a redução das vulnerabilidades”. A forma como se organiza o currículo explicita a dinâmica do curso, no que se refere aos conteúdos das disciplinas, à articulação entre eles e às atividades a serem desenvolvidas a fim de proporcionar uma formação adequada. Seguindo o que preconizam as DCN, os conteúdos essenciais para os Cursos de Graduação em Odontologia devem: Art. 6º (...) estar relacionados com todo o processo saúde-doença do cidadão, da família e da comunidade, integrado à realidade epidemiológica e profissional. Os conteúdos devem contemplar: II – (...) conteúdos referentes às diversas dimensões da relação indivíduo/sociedade, contribuindo para a compreensão dos determinantes sociais, culturais, comportamentais, psicológicos, ecológicos, éticos e legais, nos níveis individual e coletivo, do processo saúde-doença. Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 29, No. 7 11 A operacionalização dessa dinâmica formativa, proposta para os conteúdos a serem inseridos na matriz curricular dificulta o comprometimento das instituições formadoras com um ensino baseado no respeito às diferenças étnicas e, com a PNSIPN, uma vez que não faz menção ao termo étnico-racial dentre os determinantes do processo saúde-doença. Para verificar a presença dessa temática, foram analisados os programas e as ementas das 43 disciplinas presentes na matriz curricular do curso de odontologia em estudo. Visando auxiliar a análise, 7 subcategorias foram utilizadas, agrupando 23 unidades de registro, elegidas a partir dos documentos que serviram de base para esse estudo (DCERER e PNSIPN), de acordo com a matriz instrumental de Oliveira (2017), a saber: História das populações afro e afro-brasileiras; Cultura; Condições de vida; Epidemiologia; Postura Crítica e reflexiva frente a crenças, atitudes e valores discriminatórios e preconceituosos; Cuidado centrado na pessoa, família ou comunidade ou população livre de estereótipos; Racismo e seus efeitos pessoais, interpessoais e institucional; Alteridade e a relação cirurgião-dentista-paciente; Legislação, Conferências e Conselhos; Planejamento e Gestão; Atenção: estratégias, programas e práticas de promoção de saúde; Condições Genéticas: anemia falciforme, Hipertensão arterial, Diabetes Melitus; Situações adquiridas pelas condições de vida desfavoráveis: cárie, doença periodontal, DST/AIDS; Doenças agravadas pelas condições de acesso: Hipertensão arterial, diabetes melitus e cânceres; Condições fisiológicas que sofrem interferências ambientais e evoluem para doenças: crescimento, gravidez e envelhecimento; Peculiaridade na comunicação – inclusão do quesito cor na perspectiva da identificação étnico-racial; Percepção da concepção de saúde-doença na cosmo visão mítica e religiosa afro-brasileira; Avaliação genética; Avaliação das condições sócio-econômicas; Resposta medicamentosa; Remédios populares; A cosmovisão Africana na perspectiva do cuidado. Subcategoria 1 - Contextualização da Saúde da População Negra. Nesta primeira subcategoria incluímos as unidades de registros ligadas à história das populações afro e afro - brasileira, bem como a cultura, determinantes sociais, condições de vida e epidemiologia na perspectiva da problematização sobre a identidade brasileira influenciada pelos arquétipos afro e afro-brasileiro. O termo história das populações afro e afro-brasileira não foi identificado, especificamente em nenhuma disciplina, entretanto, nas disciplinas Saúde Coletiva 1,2,3 e 4 foram encontrados registros indicativos da interface entre o campo da Saúde e o das Ciências Sociais no que se refere à historicidade do processo saúde-doença e sua construção coletiva, apontando para possíveis abordagens das unidades de registro desta categoria. Analisar, criticamente, as teorias explicativas do processo saúde-doença, revestindo- as de historicidade. (Objetivos – Saúde Coletiva 1) Conhecer e interpretar o objetivo da Epidemiologia segundo teorias da multicausalidade e da determinação social da doença. (Objetivos – Saúde Coletiva 2) Subcategoria - Humanização e a Saúde da População Negra. As unidades de registros elencadas para esta subcategoria referem -se à postura crítica e reflexiva frente às crenças, atitudes, valores discriminatórios e preconceituosos, cuidado centrado na pessoa, família ou comunidade, população livre de estereótipos, racismo e seus efeitos pessoais, interpessoais e institucionais, alteridade e a relação cirurgião dentista-paciente e bioética. Na análise dos documentos foram identificadas quatro disciplinas que abordam questões relacionadas a essas unidades de registros elencadas, sendo duas obrigatórias – Psicologia Aplicada à Saúde e Deontologia e Odontologia legal, e duas eletivas: Bioética e Aleitamento materno. Curricularização das Relações Étnico-raciais em uma Faculdade de Odontologia 12 Contribuir para conhecimento sobre processos psicossociais (...) visando facilitar as relações entre o cirurgião-dentista e seus clientes (Objetivos de Psicologia Aplicada à Odontologia). Promover a prática segura no exercício profissional odontológico segundo os princípios ético-legais (Objetivos de Deontologia e Odontologia legal) Não se encontra explicitada nos textos referência uma abordagem acerca das diferenças étnico-raciais e suas implicações nas relações pessoais, coletivas e institucional, o nos leva a buscar nas entrelinhas a possibilidade de inserção desta unidade de registro. Subcategoria 3 - Política de Saúde da População Negra. De forma direta, a proposta desta subcategoria foi identificar a definição e compreensão da Política de Saúde da População Negra, suas razões e emergência, bem como as especificidades da saúde, compreensão e visão críticas antirracistas quanto aos fatores desencadeadores e determinantes do racismo na atenção à saúde. Seguindo nessa direção, têm-se razões também para buscar compreender o impacto do racismo nos processos de planejamento e, de gestão em saúde, bem como o histórico do protagonismo negro nas lutas políticas e sociais, nos conselhos e conferências de saúde. Desta forma, as unidades de análise utilizadas foram: legislação, conferências e conselhos, planejamento e gestão, atenção - estratégias, programas e práticas. As disciplinas Gestão Pública e Privada em odontologia, Saúde Coletiva 1, 2, 3 e 4 apresentaram descrições acerca da discussão sobre políticas de saúde pública no Brasil, bem como os elementos ligados a planejamento, gestão dos serviços de saúde e as ações de promoção, proteção e recuperação de saúde. Conhecer a realidade da política nacional de saúde bucal e o modelo de assistência proposto (Objetivo da disciplina de Gestão Pública e privada em Odontologia). Compreender (...) o papel do estado na implementação das políticas de saúde no Brasil (Objetivo da disciplina de Saúde Coletiva 1). Avaliação dos Programas e Serviços de saúde Coletiva existentes (Ementa da disciplina de Saúde Coletiva 2). Discutir questões essenciais relacionadas às políticas e práticas de saúde no Brasil .(Objetivo da disciplina de Saúde Coletiva 3). Capacitar para o uso de ferramentas da epidemiologia e do planejamento estratégico para as intervenções visando a prevenção de problemas de saúde bucal, a promoção e a proteção da saúde bucal da população (Objetivo da disciplina de Saúde Coletiva 4). Não foi possível identificar no ementário das referidas disciplinas, elementos que apontassem para uma intersecção entre os conteúdos abordados e a questão étnico-racial da população negra. Subcategoria 4 - Nosologia da saúde da população negra. Nesta subcategoria as unidades de registro relacionam-se a doenças e condições genéticas, as doenças adquiridas pelas condições de vida desfavoráveis, as doenças agravadas pelas condições de acesso e condições fisiológicas que sofrem interferências ambientais e evoluem para doenças. As unidades de registros elencadas apareceram em sua maioria vinculadas aos conteúdos das disciplinas: Genética, Estomatologia 1 e 2, Cariologia e Periodontia. Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 29, No. 7 13 Avaliar situações de risco aumentado de ocorrência e recorrência para patologias genéticas (Objetivos da disciplina de Genética). Enfatizar o papel social do aluno, como sujeito modificador do meio (Objetivo das disciplinas de Estomatologia 1 e 2). Nesta disciplina serão abordados (..) os aspectos biológicos e sociais da cárie dental de forma a possibilitar aos alunos uma compreensão do racional que envolve o aparecimento, desenvolvimento, epidemiologia e o controle da doença cárie (Ementa de Cariologia). Classificação e etiopatogenia das enfermidades periodontais (Ementa de Periodontia). Na descrição das ementas e planos das disciplinas apresenta-se um predomínio do enfoque objetivo relacionada à observação das causas e origens das doenças, incidência e prevalência dessas, bem como na descrição do quadro clínico e fisiopatológico, sem menção explícita que considere a especificidade da saúde da população negra. Subcategoria 5 - Semiologia e o Atendimento População Negra. Para esta subcategoria, as unidades de registro buscaram elementos que considerem a peculiaridade na comunicação, a inclusão do quesito raça-cor na perspectiva da identificação étnico-racial e a percepção da concepção de saúde-doença na cosmo visão mítica e religiosa afrobrasileira, avaliação genética e avaliação das condições sócio-econômica. A partir da análise dos documentos, foi possível observar que as disciplinas Saúde Coletiva 1 e Saúde e Sociedade apresentam aspectos específicos e relacionados a questões sociais das populações, porém não citam fatores estritamente condicionados as populações afro-brasileiras: Analisar, criticamente, as teorias explicativas do processo saúde-doença, revestindo- as de historicidade (Objetivo da disciplina Saúde coletiva 1). Concepções sócio-históricas sobre saúde (Ementa da disciplina Saúde e Sociedade). Cultura e saúde (Ementa da disciplina Saúde e Sociedade). No que se refere à dimensão étnico-racial, não foi identificada menção acerca da singularidade e das diferenças, para distinguir as específicidades nos processos de diagnósticos e prognósticos de doenças e agravos à SPN. Subcategoria 6 - Farmacologia na Perspectiva da Saúde da População Negra. As unidades de registros dessa subcategoria se relacionaram aos seguintes en foques: resposta medicamentosa, políticas farmacêuticas e remédios populares. Na disciplina de Farmacologia foram encontrados como objetivos ensinar os fundamentos da farmacologia como ciência, dando ao aluno suporte para aplicações futuras na vida profissional. Embora apareça também como objetivo específico o despertar da consciência crítica a respeito dos medicamentos, visando que o aluno selecione o fármaco respeitando as características individuais de cada paciente, não é feita nenhuma referência direta a recorte étnico-racial. Os princípios diretamente relacionados às consequências biológicas da resposta medicamentosa quanto aos protocolos terapêuticos e processos de distribuição pela rede SUS de medicamento, os quais se relacionam com as políticas de atenção farmacêutica à saúde ligadas a diversidade parecem ser ignoradas. No que diz respeito aos medicamentos populares de matriz africana também não foram identificados nas ementas e planos dos conteúdos das disciplinas analisadas. Curricularização das Relações Étnico-raciais em uma Faculdade de Odontologia 14 Subcategoria 7 - Ética, Bioética e Espiritualidade. Essa subcategoria refere-se à presença de indícios da cosmovisão africana na perspectiva do cuidado em saúde. Os conteúdos de ética e bioética, presentes, na matriz curricular do curso estudado foram encontrados transversalizados nas disciplinas de Bioética e Deontologia e Odontologia legal, com indicações relacionadas a duas dimensões: a dimensão relacional que parte da necessidade de perceber os conflitos que decorrem da relação com as pessoas e a dimensão regulamentadora da prática profissional. Não foi observada referência a unidade de registro elencada nesta subcategoria. As Relações Étnico-Raciais e o Currículo da Instituição Em 2004, de forma pioneira no nordeste, a UFAL instituiu o sistema de cotas para a população negra, egressa de escolas públicas, destinado a preencher 20% das vagas nos diversos cursos de graduação. O sistema de cotas passou, assim, a fazer parte da implantação do Programa de Políticas de Ações Afirmativas para Afrodescendentes no Ensino Superior, atendendo aos clamores do movimento negro (Riscado, 2007). O Programa de Ações Afirmativas (PAAF) da UFAL é composto por um conjunto de ações articuladas, objetivando contribuir com a ruptura das desigualdades sócio-raciais. Este programa tem o firme propósito de propiciar ações que viabilizem o acesso e a permanência da população negra na UFAL, estruturando-se em quatro subprogramas, a saber: 1- Políticas de cotas; 2- Políticas de acesso e permanência; 3- Políticas curriculares e de formação de professores e 4- Políticas de produção de conhecimento. Assim, a UFAL com a implantação do PAAF, objetiva comprometer-se significantemente com a perspectiva de eliminação do preconceito racial (Riscado, 2007). Percebe-se, entretanto, que mesmo em face dessas políticas e da inclusão, no PAAF, de políticas curriculares e de formação de professores, o currículo de odontologia ainda não foi impactado satisfatoriamente por este subprograma, não tendo refletidas em suas disciplinas os pressupostos necessários para abordagem das questões étnico-raciais, estando estas questões ainda relegadas a segundo plano, não tratadas na parte constitutiva da relação com os conhecimentos. Tal resultado está de acordo com os encontrados por Passos, Rodrigues e Da Cruz (2012), em seu estudo sobre o impacto das ações afirmativas sobre o ensino superior brasileiro. Ao analisar os projetos pedagógicos de duas instituições públicas de ensino, as autoras, reconheceram nas universidades analisadas, mudanças normativas no que tangia à incorporação dos temas relativos à educação das relações étnico-raciais, porém, sinalizam para a necessária consolidação dessa mudança no campo curricular através da produção de conhecimento. Diante da análise das 43 disciplinas do curso de odontologia da UFAL, observou-se que trinta apresentam conteúdos capazes de integralizar as temáticas descritas nas unidades de registro. Entre as 23 unidades de registro elencadas, 21 foram identificadas nos documentos analisados. A maior parte delas relaciona-se à nosologia das doenças consideradas prevalentes na população negra, porém nenhuma das disciplinas trouxe as temáticas raciais explicitamente em seus conteúdos. É importante destacar que a saúde da população negra não deve ser limitada à questão genética, e que os agravos que acometem essa população envolvem uma complexa gama de fatores, revestidos de historicidade. O SUS, em sua macroestrutura, é o principal cenário na composição curricular dos cursos na área da saúde, pois a ele cabe ordenar a formação de recursos humanos na área da saúde, cumprindo assim com seu papel indutor da mudança, tanto no campo das práticas como no campo da formação profissional. No entanto, nestes espaços as relações se dão em meio a um contexto de conflito de poder, às quais reconfiguram-se constantemente, visto seu caráter dinâmico do ponto de vista do conhecimento e da cultura, a partir das necessidades sociais a serem atendidas (Maia, 2014). Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 29, No. 7 15 Segundo Lopes e Macedo (2011), as propostas e práticas curriculares tornam concreta uma política curricular, definida por ela e vice-versa, através de uma seleção de saberes, visões de mundo, habilidades, valores, símbolos e significados que instituem formas de seleção e organização dos conteúdos a serem ensinados. Assim sendo, a política curricular não está restrita ao que encontra-se estabelecido nos documentos que a normatizam ou constituem a sua base legal, mas inclui também todos os processos do planejamento para a execução, vivenciados e reconstruídos pelos múltiplos sujeitos e espaços envolvidos no processo de ensino-aprendizagem. Esta não restrição configura-se em uma limitação para este trabalho, que desde já, aponta para novas investigações nesses processos de ensino-aprendizagem e no que se refere à pesquisa e extensão. Os resultados apontados neste estudo corroboram os encontrados por Oliveira (2017), que se debruçou sobre o currículo de Medicina da mesma instituição, buscando abordagens étnico- raciais. A autora evidenciou que a instituição possuía aspectos na organização do curso e na matriz curricular que permitiam integralizar essa temática em todos os seus eixos formativos de maneira transversal. O projeto pedagógico do curso de Odontologia da UFAL ainda reflete em sua organização acadêmica do ensinar-cuidar da saúde bucal subsídios de informações epidemiológicas e baseia-se também nas situações de vulnerabilidades em saúde, sem levar em conta, porém, as desigualdades raciais e o tratamento diferenciado relegado às questões de saúde do povo negro. No que se refere ao estudo dessas desigualdades raciais, embora ainda não exista uma relação linear entre elas e as repercussões na prática pedagógica, autores como Nilma Lino Gomes (2012) já propõem uma “descolonização dos currículos”, numa proposta de mudança epistemológica de pensamento na prática pedagógica. Para Gomes (2012), realizar um processo de descolonização dos currículos está intrinsecamente ligado a compreender o processo de silenciamento e segregação de determinadas questões vinculadas à experiência de determinados grupos. O questionamento acerca das diretrizes curriculares que norteiam as práticas expressas no currículo também deve abranger os princípios epistemológicos nos quais essas diretrizes encontram-se ancoradas. No Brasil, a raça faz parte de um construto sócio-cultural e ideológico que compromete as relações e que é usado para hierarquizar as pessoas e justificar tratamento diferenciado (Volochko & Vidal, 2010). Torna-se necessário problematizar tais realidades nos diversos campos do saber, inclusive na formação em saúde, pois muitos conteúdos são vistos do ponto de vista biológico, que traz questões raciais que em várias ocasiões são usadas para justificar problemas e necessidades de saúde inerentes à população negra. Conclusão Os currículos em saúde, enquanto caminhos a serem percorridos durante a formação profissional, desvelam intencionalidades, relações de poder e manutenção de paradigmas, que por vezes não refletem as demandas sociais sobre as quais as instituições necessitam intervir. Este poderoso instrumento tem a capacidade de fazer frente às emergentes demandas que se revelam nas práticas de saúde, constituindo uma área de pesquisa fundamental para o estudo das temáticas étnico-raciais e sua influência no processo saúde-doença. O PPC do curso de odontologia estudado apresentou um grave silenciamento acerca da realidade da Saúde da População Negra, na estrutura, organização e nas intencionalidades descritas no documento e nos conteúdos abordados nas disciplinas. A ausência de dados epidemiológicos fazendo esse recorte étnico-racial é apenas um dos indícios que apontam a ineficácia deste currículo Curricularização das Relações Étnico-raciais em uma Faculdade de Odontologia 16 em cumprir efetivamente a sua primordial função de diálogo com a realidade na qual a instituição encontra-se inserida. Ainda que seja possível encontrar algumas referências pontuais sobre doenças prevalentes na população negra, não há evidências explícitas sobre discussões que considerem o viés racial ou sobre as diversas iniquidades em saúde que ainda permeiam a assistência odontológica à PN. Em contrapartida, pudemos observar que a instituição apresenta espaços de possível inserção das relações étnico-raciais, ainda que de forma transversal, tendo em vista sua organização curricular ser fundamentada em paradigmas que permitem aproximações com as Relações Étnico- Racias. Ainda há um importante viés tecnicista na descrição das habilidades e competências esperadas para o futuro cirurgião dentista, entretanto, a referência à educação permanente e à necessidade de reconhecer suas limitações e estar adaptado e flexível face às mudanças nos animam a uma possibilidade real de inserção da temática étnico-racial. Entretanto, para que isto seja possível são necessárias adequações e ajustes na organização de sua matriz curricular, bem como nas ementas e planos das disciplinas, a fim de que haja uma efetiva integralização dessa temática em todos os eixos formativos do curso, sem que para isso seja preciso recorrer às entrelinhas do PPC. As análises desta pesquisa se ativeram a documentos que competem ao ensino, o que nos leva a questionar se esses preocupantes dados que evidenciam uma invisibilidade da questão étnico- racial também se repetem na pesquisa e extensão. A análise das proposições e ações ligadas à pesquisa e à extensão pode nortear futuras pesquisas nessa área, sendo capaz de revelar uma realidade distinta da que foi encontrada neste estudo. Outro aspecto a ser considerado é que, sendo a prática docente revestida de um caráter dinâmico, e o currículo uma ferramenta em constante construção, o que documentos como o PPC anunciam como políticas e práticas pretendidas pode não refletir fielmente o que é efetivamente colocado em prática em salas de aula e demais ambientes de ensino-aprendizagem. Isto implica em limitações para esse estudo, todavia ao mesmo tempo abre espaço para outras pesquisas que se debrucem sobre os atores envolvidos na construção e efetivação prática do currículo. Embora diversos estudos apontem as graves iniquidades em saúde bucal, a literatura específica sobre as relações étnico-raciais no currículo de odontologia ainda tem se demonstrado tímida, o que limitou as discussões dos resultados, evidenciando, porém, que a invisibilidade para a temática étnico-racial encontrada nesse estudo não é exclusiva da instituição estudada. Essa realidade, todavia, pode revestir este estudo de pioneirismo e maior relevância. Referências Antunes, J. F. L., Pegoretti, T., Andrade, F. P., Junquera, S. R.,Frazão, P., & Narvai, P. C. (2003). Ethnic disparities in the prevalence of dental caries and restorative dental treatment in Brazilian children. International Dental Journal, 53(1), 7-12. Bailey, S. R., Lovemen, M., & Muniz, J. O. (2013). Measures of ‘race’ and the analysis of racial inequality in Brazil. Social Science Research, 42(1), 106-119. Barata, R. B., De Almeida, M. F., Mont er o, C . V. , & D a S ilva, Z . P . (2007). 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Sobre os Autores Fabricio de Medeiros Melo Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Alagoas fabricio_de_medeiros_ft@hotmail.com http://orcid.org/0000-0002-0304-1233 Jorge Luís de Souza Riscado Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Alagoas jorgeluisriscado@hotmail.com http://orcid.org/0000-0002-7015-0798 arquivos analíticos de políticas educativas Volume 29 Número 7 25 de janeiro 2021 ISSN 1068-2341 Este artigo pode ser copiado, exibido, distribuido e adaptado, desde que o(s) autor(es) e Arquivos Analíticos de Políticas Educativas sejam creditados e a autoría original atribuídos, as alterações sejam identificadas e a mesma licença CC se aplique à obra derivada. Mais detalhes sobre a licença Creative Commons podem ser encontrados em https://creativecommons.org/licenses/by- sa/4.0/. Arquivos Analíticos de Políticas Educativas é publicado pela Mary Lou Fulton Teachers College, Arizona State University. Os artigos que aparecem na AAPE são indexados em CIRC (Clasificación Integrada de Revistas Científicas, España) DIALNET (España), Directory of Open Access Journals, EBSCO Education Research Complete, ERIC, Education Full Text (H.W. Wilson), PubMed, QUALIS A1 (Brazil), Redalyc, SCImago Journal Rank, SCOPUS, SOCOLAR (China). Para erros e sugestões, entre em contato com Fischman@asu.edu EPAA Facebook (https://www.facebook.com/EPAAAAPE) Twitter feed @epaa_aape. http://orcid.org/0000-0002-0304-1233 mailto:jorgeluisriscado@hotmail.com http://orcid.org/0000-0002-7015-0798 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/ https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/ http://www.doaj.org/ http://www.doaj.org/ https://www.facebook.com/EPAAAAPE Curricularização das Relações Étnico-raciais em uma Faculdade de Odontologia 20 arquivos analíticos de políticas educativas conselho editorial Editor Consultor: Gustavo E. Fischman (Arizona State University) Editoras Coordenadores: Marcia Pletsch, Sandra Regina Sales (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro) Editores Associadas: Andréa Barbosa Gouveia (Universidade Federal do Paraná), Kaizo Iwakami Beltrao, (EBAPE/FGVl), Sheizi Calheira de Freitas (Federal University of Bahia), Maria Margarida Machado, (Federal University of Goiás / Universidade Federal de Goiás), Gilberto José Miranda (Universidade Federal de Uberlândia) Almerindo Afonso Universidade do Minho Portugal Alexandre Fernandez Vaz Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil José Augusto Pacheco Universidade do Minho, Portugal Rosanna Maria Barros Sá Universidade do Algarve Portugal Regina Célia Linhares Hostins Universidade do Vale do Itajaí, Brasil Jane Paiva Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil Maria Helena Bonilla Universidade Federal da Bahia Brasil Alfredo Macedo Gomes Universidade Federal de Pernambuco Brasil Paulo Alberto Santos Vieira Universidade do Estado de Mato Grosso, Brasil Rosa Maria Bueno Fischer Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil Jefferson Mainardes Universidade Estadual de Ponta Grossa, Brasil Fabiany de Cássia Tavares Silva Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Brasil Alice Casimiro Lopes Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil Jader Janer Moreira Lopes Universidade Federal Fluminense e Universidade Federal de Juiz de Fora, Brasil António Teodoro Universidade Lusófona Portugal Suzana Feldens Schwertner Centro Universitário Univates Brasil Debora Nunes Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Brasil Lílian do Valle Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil Geovana Mendonça Lunardi Mendes Universidade do Estado de Santa Catarina Alda Junqueira Marin Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Brasil Alfredo Veiga-Neto Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil Flávia Miller Naethe Motta Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Brasil Dalila Andrade Oliveira Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 29, No. 7 21 archivos analíticos de políticas educativas consejo editorial Editor Consultor: Gustavo E. Fischman (Arizona State University) Coordinador (Español / Latinoamérica): Ignacio Barrenechea (Universidad de San Andrés), Ezequiel Gomez Caride (Universidad de San Andres/ Pontificia Universidad Católica Argentina) Editor Coordinador (Español / Norteamérica): Armando Alcántara Santuario (Universidad Nacional Autónoma de México) Editor Coordinador (Español / España): Antonio Luzon (Universidad de Granada) Editores Asociados: Jason Beech ( Monash University), Angelica Buendia, (Metropolitan Autonomous University), Alejandra Falabella (Universidad Alberto Hurtado, Chile), Carolina Guzmán-Valenzuela (Universidade de Chile), Cesar Lorenzo Rodriguez Uribe (Universidad Marista de Guadalajara), María Teresa Martín Palomo (University of Almería), María Fernández Mellizo-Soto (Universidad Complutense de Madrid), Tiburcio Moreno (Autonomous Metropolitan University-Cuajimalpa Unit), José Luis Ramírez (Universidad de Sonora), Axel Rivas (Universidad de San Andrés), Maria Veronica Santelices (Pontificia Universidad Católica de Chile) Claudio Almonacid Universidad Metropolitana de Ciencias de la Educación, Chile Ana María García de Fanelli Centro de Estudios de Estado y Sociedad (CEDES) CONICET, Argentina Miriam Rodríguez Vargas Universidad Autónoma de Tamaulipas, México Miguel Ángel Arias Ortega Universidad Autónoma de la Ciudad de México Juan Carlos González Faraco Universidad de Huelva, España José Gregorio Rodríguez Universidad Nacional de Colombia, Colombia Xavier Besalú Costa Universitat de Girona, España María Clemente Linuesa Universidad de Salamanca, España Mario Rueda Beltrán Instituto de Investigaciones sobre la Universidad y la Educación, UNAM, México Xavier Bonal Sarro Universidad Autónoma de Barcelona, España Jaume Martínez Bonafé Universitat de València, España José Luis San Fabián Maroto Universidad de Oviedo, España Antonio Bolívar Boitia Universidad de Granada, España Alejandro Márquez Jiménez Instituto de Investigaciones sobre la Universidad y la Educación, UNAM, México Jurjo Torres Santomé, Universidad de la Coruña, España José Joaquín Brunner Universidad Diego Portales, Chile María Guadalupe Olivier Tellez, Universidad Pedagógica Nacional, México Yengny Marisol Silva Laya Universidad Iberoamericana, México Damián Canales Sánchez Instituto Nacional para la Evaluación de la Educación, México Miguel Pereyra Universidad de Granada, España Ernesto Treviño Ronzón Universidad Veracruzana, México Gabriela de la Cruz Flores Universidad Nacional Autónoma de México Mónica Pini Universidad Nacional de San Martín, Argentina Ernesto Treviño Villarreal Universidad Diego Portales Santiago, Chile Marco Antonio Delgado Fuentes Universidad Iberoamericana, México Omar Orlando Pulido Chaves Instituto para la Investigación Educativa y el Desarrollo Pedagógico (IDEP) Antoni Verger Planells Universidad Autónoma de Barcelona, España Inés Dussel, DIE-CINVESTAV, México José Ignacio Rivas Flores Universidad de Málaga, España Catalina Wainerman Universidad de San Andrés, Argentina Pedro Flores Crespo Universidad Iberoamericana, México Juan Carlos Yáñez Velazco Universidad de Colima, México javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/819') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/820') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/4276') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/1609') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/825') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/797') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/823') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/798') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/555') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/814') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/2703') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/801') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/826') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/802') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/3264') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/804') Curricularização das Relações Étnico-raciais em uma Faculdade de Odontologia 22 education policy analisis archives editorial board Lead Editor: Audrey Amrein-Beardsley (Arizona State University) Editor Consultor: Gustavo E. Fischman (Arizona State University) Associate Editors: Melanie Bertrand, David Carlson, Lauren Harris, Danah Henriksen, Eugene Judson, Mirka Koro-Ljungberg, Daniel Liou, Scott Marley, Molly Ott, Iveta Silova (Arizona State University) Madelaine Adelman Arizona State University Amy Garrett Dikkers University of North Carolina, Wilmington Gloria M. Rodriguez University of California, Davis Cristina Alfaro San Diego State University Gene V Glass Arizona State University R. Anthony Rolle University of Houston Gary Anderson New York University Ronald Glass University of California, Santa Cruz A. G. Rud Washington State University Michael W. Apple University of Wisconsin, Madison Jacob P. K. Gross University of Louisville Patricia Sánchez University of Texas, San Antonio Jeff Bale University of Toronto, Canada Eric M. Haas WestEd Janelle Scott University of California, Berkeley Aaron Benavot SUNY Albany Julian Vasquez Heilig California State University, Sacramento Jack Schneider University of Massachusetts Lowell David C. Berliner Arizona State University Henry Braun Boston College Kimberly Kappler Hewitt University of North Carolina Greensboro Noah Sobe Loyola University Casey Cobb University of Connecticut Aimee Howley Ohio University Nelly P. Stromquist University of Maryland Arnold Danzig San Jose State University Steve Klees University of Maryland Jaekyung Lee SUNY Buffalo Benjamin Superfine University of Illinois, Chicago Linda Darling-Hammond Stanford University Jessica Nina Lester Indiana University Adai Tefera Virginia Commonwealth University Elizabeth H. DeBray University of Georgia Amanda E. Lewis University of Illinois, Chicago A. Chris Torres Michigan State University David E. DeMatthews University of Texas at Austin Chad R. Lochmiller Indiana University Tina Trujillo University of California, Berkeley Chad d'Entremont Rennie Center for Education Research & Policy Christopher Lubienski Indiana University Federico R. Waitoller University of Illinois, Chicago John Diamond University of Wisconsin, Madison Sarah Lubienski Indiana University Larisa Warhol University of Connecticut Matthew Di Carlo Albert Shanker Institute William J. Mathis University of Colorado, Boulder John Weathers University of Colorado, Colorado Springs Sherman Dorn Arizona State University Michele S. Moses University of Colorado, Boulder Kevin Welner University of Colorado, Boulder Michael J. Dumas University of California, Berkeley Julianne Moss Deakin University, Australia Terrence G. Wiley Center for Applied Linguistics Kathy Escamilla University of Colorado, Boulder Sharon Nichols University of Texas, San Antonio John Willinsky Stanford University Yariv Feniger Ben-Gurion University of the Negev Eric Parsons University of Missouri-Columbia Jennifer R. Wolgemuth University of South Florida Melissa Lynn Freeman Adams State College Amanda U. Potterton University of Kentucky Kyo Yamashiro Claremont Graduate University Rachael Gabriel University of Connecticut Susan L. Robertson Bristol University Miri Yemini Tel Aviv University, Israel