A representação dos povos indígenas contemporâneos nos livros didáticos Página web: http://epaa.asu.edu/ojs/ Artigo recebido: 30/5/2019 Facebook: /EPAAA Revisões recebidas: 2/3/2020 Twitter: @epaa_aape Aceito: 2/3/2020 Dossiê Especial Educação e Povos Indígenas: Identidades em Construção e Reconstrução arquivos analíticos de políticas educativas Revista acadêmica, avaliada por pares, independente, de acesso aberto, e multilíngue Arizona State University Volume 28 Número 75 4 de maio de 2020 ISSN 1068-2341 A Representação dos Povos Indígenas Contemporâneos nos Livros Didáticos Luana Barth Gomes Denise Regina Quaresma da Silva & Cledes Antonio Casagrande Universidade La Salle/Canoas Brasil Citação: Gomes, L. B., Silva, D. R. Q., & Casagrande, C. A. (2020). A representação dos povos indígenas contemporâneos nos livros didáticos. Arquivos Analíticos de Políticas Educativas, 28(75). https://doi.org/10.14507/epaa.28.4754 Este artigo faz parte do dossiê especial, Educação e Povos Indígenas - Identidades em Construção e Reconstrução, editado por Juliane Angnes e Kaizo Iwakami Beltrao. Resumo: Este artigo apresenta dados de uma pesquisa que objetiva refletir sobre o modo como os povos indígenas são representados imageticamente nos livros didáticos atuais. Trata-se de um estudo de caráter qualitativo com ênfase exploratória, baseado na análise documental, no estudo de imagens e dados coletados em manuais educativos brasileiros. A análise e a interpretação dos dados embasam-se na hermenêutica filosófica. A investigação evidenciou que embora haja avanços nas políticas públicas que visibilizam o indígena na sociedade brasileira, ainda há muito a ser melhorado http://epaa.asu.edu/ojs/ https://doi.org/10.14507/epaa.28.4754 A representação dos povos indígenas contemporâneos nos livros didáticos 2 na retratação dos ameríndios nos livros didáticos, visando a constituição de sua identidade na contemporaneidade livre de estereótipos, invisibilidades e eurocentrismos existentes na sociedade e reiterado nos livros didáticos. A imagem dos povos indígenas advém de ideias distorcidas que desde crianças aprendemos na escola, a seu respeito. Essa projeção estereotipada permanece por não se ter contato com materiais que retratem esses povos de forma correta, mas também por concepções prévias equivocadas de quem produz esses artefatos culturais. Palavras-chave: povos indígenas; livros didáticos; imagem do indígena; indígena na escola Representations of indigenous people in contemporary textb ooks Abstract: This paper presents data from a research on how indigenous people are visually represented in contemporary textbooks. It is a qualitative study with exploratory emphases, based on documental analysis, in the study of images and data collected from Brazilian educational handbooks. The data analysis and interpretation are based on the hermeneutical philosophical tradition. The investigation highlighted that although there are signs of progress in the public policies that make indigenous people visible in our society, there is much improvement needed regarding the visual representation of Amerindians in textbooks, particularly the construction of this identity in the contemporary world that is free from stereotypes, invisibility, and Eurocentrism that exists in society and is reaffirmed in textbooks. The image of indigenous people come from the twisted ideas that we learn when we are in school. This stereotypical projection remains once we are not in touch with materials that portrait these people in the correct way, but also because of the previous mistaken conceptions that people who produce these cultural artifacts have. Keywords: Indigenous people; textbooks; portrait of indigenous people; indigenous people in school La representación de los pueblos indígenas contemporáneos en los libros de textos Resumen: Este artículo presenta datos de una investigación que objetiva reflexionar sobre el modo en que los pueblos indígenas son representados en los libros de texto actuales. Se trata de un estudio de carácter cualitativo con énfasis exploratorio, basado en el análisis documental, en el estudio de imágenes y datos recogidos en manuales educativos brasileños. El análisis y la interpretación de los datos se basan en la hermenéutica filosófica. La investigación evidenció que aunque hay avances en las políticas públicas que visibilizan al indígena en la sociedad brasileña, aún queda mucho por mejorar en la retractación de los amerindios en los libros didácticos, visando la constitución de su identidad en la contemporaneidad libre de estereotipos, invisibilidades y eurocentrismos existentes en la sociedad y reiterado en los libros didácticos. La imagen de los pueblos indígenas viene de ideas distorsionadas que desde niños aprendemos en la escuela, a su respecto. Esta proyección estereotipada permanece por no tener contacto con materiales que retraten a esos pueblos de forma correcta, sino también por concepciones previas equivocadas de quien produce esos artefactos culturales. Palabras-clave: pueblos indígenas; libros didácticos; imagen del indígena; indígena en la escuela Introdução O presente artigo, oriundo de uma pesquisa em desenvolvimento, apresenta dados parciais de uma investigação que tem por objetivo refletir acerca do modo como os povos indígenas são representados imageticamente em alguns dos livros didáticos atuais utilizados em escolas brasileiras. Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 28, No. 75 Dossiê Especial 3 A motivação para essa pesquisa decore da constatação de que, embora os ameríndios1 dividam o mesmo espaço que o restante da população na sociedade brasileira, infelizmente nem sempre são percebidos, sendo por vezes quase que sujeitos invisíveis na sociedade. Ademais, pode-se dizer que há um certo “esquecimento” histórico que explica esta desvalorização e uma ausência do reconhecimento da autoria acadêmica deles no Brasil (Reichert, 2018). Os livros didáticos são elementos importantes que se fazem presentes nas escolas de Ensino Fundamental e Médio em todo o Brasil. Esse significativo instrumento, muitas vezes, é a principal fonte de estudo e de busca por informações em sala de aula. Para verificar a imagem do ameríndio que circula nessas obras, foi realizada uma análise acerca das diversas imagens e elementos textuais dos povos indígenas, abordadas em livros didáticos de diferentes disciplinas escolares, como Língua Portuguesa, Robótica Educacional e Inteligência Emocional, objetivando observar de que forma a identidade indígena se constitui e nos impregna por meio desse artefato cultural. Foi realizado, também, um levantamento da legislação vigente, buscando ressaltar a implementação de ações e políticas públicas que incluíram a temática indígena nos currículos escolares e nos livros didáticos, a fim de que os estudantes tivessem acesso à história e a cultura dos povos indígenas do Brasil. Com esse estudo, foi possível perceber que, embora haja avanços nas políticas públicas que visibilizam o indígena na nossa sociedade, há ainda muito o que melhorar na retratação do ameríndio nos livros didáticos, visando a constituição de sua identidade na contemporaneidade, livre de estereótipos, invisibilidades e eurocentrismos2. Metodologia Este estudo é de natureza qualitativa, com objetivos exploratórios, incluindo análise documental, análise de imagens e revisão de literatura. Conforme Chizotti (2003, p. 221) “O termo qualitativo implica uma partilha densa com pessoas, fatos e locais que constituem objetos de pesquisa, para extrair desse convívio os significados visíveis e latentes que somente são perceptíveis a uma atenção sensível [...].” Essa forma de pesquisa permite a análise com enfoque na observação, na reflexão e na interpretação dos pesquisadores acerca dos dados obtidos. Uma pesquisa de natureza qualitativa com objetivos exploratórios almeja, de acordo com Gil (2002), proporcionar maior familiaridade com o problema, com vistas a torná-lo mais explícito ou a constituir hipóteses. Pode-se dizer que estas pesquisas têm como objetivo principal o aprimoramento de ideias ou a descoberta de intuições. Elegemos a pesquisa qualitativa com ênfase exploratória, pois relaciona-se com a análise documental envolvendo imagens. Outro fator que motiva a eleição dessa metodologia é o fato de ser uma abordagem flexível, que permite a criação e a inovação por parte dos pesquisadores que conduzem a pesquisa. 1 Termo empregado para referir-se aos povos indígenas como pertencentes a América, como aquele que aqui se encontrava, que se faz presente atualmente e que, apesar de não possuir mais os recursos naturais que tinha antigamente, busca outras formas de sobrevivência. 2 Conforme Araújo (2012), a visão eurocentrista não corresponde às necessidades e interesses dos grupos menos favorecidos, racializados e excluídos. Concepção essa, que além de deficiente, seletiva e excludente, ignora em seu currículo a diversidade étnica e cultural do povo brasileiro. Além disso, oculta e se cala diante de conflitos e tensões. A representação dos povos indígenas contemporâneos nos livros didáticos 4 Para a realização do estudo aqui relatado, foram selecionados três livros didáticos utilizados em uma escola privada de Porto Alegre e direcionados ao público do quinto ano do Ensino Fundamental. Esses livros, disponíveis no mercado editorial brasileiro e empregados também em outras escolas, foram eleitos por apresentarem imagens de indígenas ilustrando narrativas, enquanto personagens de uma história ou como mera figuração em meio à natureza. Na análise dos livros, utilizou-se a abordagem da análise documental e do estudo de imagens. De acordo com Bauer e Gaskell (2002, p. 138): [...] estes registros não estão isentos de problemas, ou acima de manipulação, e eles não são nada mais que representações, ou traços, de um complexo maior de ações passadas. Devido ao fato de os acontecimentos do mundo real serem tridimensionais e os meios visuais serem apenas bidimensionais, eles são, inevitavelmente, simplificações em escala secundária, dependente, reduzida das realidades que lhes deram origem. As imagens não são isentas de julgamentos, nem são meramente inocentes, elas traduzem os conceitos que o ilustrador e o autor querem transmitir associados ao texto. As ilustrações selecionadas para compor esse artigo foram eleitas visando observar a forma como o indígena está sendo representado contemporaneamente nos livros didáticos. Apesar da legislação vigente, ainda se observa a representação estereotipada (indígena utilizando tanga, em contato com a natureza, em uma representação de modo de vida selvagem), genérica (não caracteriza particularidades de povos, mas os generaliza) e eurocêntrica (ignora a diversidade étnica e cultural, a medida em que retrata de forma ampla mais de 240 povos diferentes). Após serem escolhidas as ilustrações, os aspectos citados foram analisados e trabalhados à luz da perspectiva da hermenêutica filosófica. Em relação à análise documental, Pimentel (2001) afirma que estudos baseados em documentos como material primordial, sejam revisões bibliográficas, sejam pesquisas historiográficas, extraem deles toda a análise, organizando-os e interpretando-os segundo os objetivos da investigação proposta. Por se tratar de uma pesquisa qualitativa, baseada na análise documental e de imagens contidas em materiais didáticos, será dada ênfase ao trabalho hermenêutico. Por isso, a análise dos dados se dará na perspectiva da hermenêutica filosófica proposta por Gadamer (2005, 2006), buscando, numa atitude de abertura e de diálogo frente aos principais elementos que emergiram no decorrer da pesquisa, interpretar, estabelecer sentidos e compreender a situação, o contexto e as intencionalidades a partir dos quais a representação dos povos ameríndios é tematizada em alguns livros didáticos atuais no Brasil. O procedimento hermenêutico interpretativo permite-nos assumir um movimento circular reconstrutivo do leitor com o texto, as imagens e o seu contexto. De acordo com Gadamer (2005, p. 358): Em princípio, quem quer compreender um texto deve estar disposto a deixar que este lhe diga alguma coisa. Por isso, uma consciência formada hermeneuticamente deve, desde o princípio, mostrar-se receptiva à alteridade do texto. Mas essa receptividade não pressupõe nem uma “neutralidade” com relação à coisa nem tampouco um anulamento de si mesma; implica antes uma destacada apropriação das opiniões prévias e preconceitos pessoais. O que importa é dar-se conta dos próprios pressupostos, a fim de que o próprio texto possa apresentar-se em sua alteridade, podendo assim confrontar sua verdade com as opiniões prévias pessoais. Consideramos que a abordagem hermenêutica é adequada ao estudo em questão porque respeita a situação concreta e as particularidades dos objetos, fatos e situações retratadas, interpretando-os em busca de sentidos possíveis. Por isso, pode-se afirmar, consoante a Hermann (2002), que o problema Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 28, No. 75 Dossiê Especial 5 fundamental da hermenêutica é a busca de sentido e a interpretação. Sendo assim, a interpretação ultrapassa o texto escrito e se refere a uma manifestação vital que afeta as relações dos homens entre si em um mundo comum. Interpretamos a partir de nossa visão de mundo, de nossa historicidade. Nosso olhar não é isento de pré-conceitos, já que falamos desde o lugar no qual estamos inseridos. As relações que estabelecemos, os pensamentos que formulamos, resultam da nossa constituição enquanto pessoas, dentro de um contexto histórico e cultural. Conforme Stein (1996), a interpretação implica, necessariamente, a compreensão. Ou seja, o fato principal da interpretação hermenêutica é que nós não termos o acesso aos objetos em si mesmos, ou ao significado unívoco e descontextualizado do conceito. Nosso acesso ao conceito dá- se pela via dos significados num contexto, ou em um mundo histórico determinado, numa cultura determinada. O que somos, a forma como pensamos, tudo advém do nosso ser e estar no mundo, da nossa história, dos objetos e das pessoas com os quais nos relacionamos. O Que a Legislação Diz sobre a Temática Indígena na Escola? Para entendermos a historicidade da educação escolar indígena no Brasil, recorremos a Bergamaschi e Medeiros (2010), que apontam o quanto o percurso desta instituição escola situam-se posições diversas, que as autoras categorizam em dois grupos principais, a “escola para índios” e as “escolas indígenas”. Por “escola para índios”, as autoras compreendem os processos escolares empreendidos entre indígenas nesses séculos de conquista, apontando com o conceito para o papel ocupado pela escola nesse momento, que também foi o de invadir e conquistar, “portadora de um projeto educativo para a formação de cristãos e súditos da Coroa portuguesa e, posteriormente, de cidadãos portadores de uma identidade nacional” (Bergamaschi e Medeiros, 2010, p. 56). A “escola indígena” é aquela construída em decorrência de políticas públicas em educação e processos concretos de colocar a escola a serviço dos interesses e necessidades dos povos indígenas, especialmente através do protagonismo dos professores indígenas (Bergamaschi, 2010, p. 161). Em relação a legislação, esta tem avançado a passos largos, buscando a inclusão da temática indígena no currículo da Educação Básica, visando dar visibilidade aos povos ameríndios em relação à população. A exemplo disso, o Brasil se tornou signatário em 2003 da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). O artigo 31 defende que: Deverão ser adotadas medidas de caráter educativo em todos os setores da comunidade nacional e especialmente naqueles que estejam em contato mais direto com os povos interessados, com o objetivo de se eliminar os preconceitos que poderiam ter com relação a esses povos. Para esse fim, deverão ser realizados esforços para assegurar que os livros de História e demais materiais didáticos ofereçam uma descrição equitativa, exata e instrutiva das sociedades e culturas dos povos interessados. Desde 2003 já havia uma preocupação em retratar com equidade os povos constituintes da nação brasileira, a fim de superar preconceitos e avançar em direção a uma sociedade mais justa e igualitária. Entrou em vigor em 2008 a Lei 11.645 (Brasil, 2008), que instituiu a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena nos estabelecimentos de Ensino Fundamental e Médio. Essa lei altera o artigo 26 da Lei de Diretrizes e Bases, Lei 9.394 (Brasil, 1996), criando como adendo a Lei 26-A (com a mesma redação). Os parágrafos a seguir, definem em que áreas devem ocorrer as mudanças e como: A representação dos povos indígenas contemporâneos nos livros didáticos 6 § 1o O conteúdo programático a que se refere este artigo incluirá diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira, a partir desses dois grupos étnicos, tais como o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura negra e indígena brasileira e o negro e o índio na formação da sociedade nacional, resgatando as suas contribuições nas áreas social, econômica e política, pertinentes à história do Brasil. § 2o Os conteúdos referentes à história e cultura afro-brasileira e dos povos indígenas brasileiros serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de educação artística e de literatura e história brasileiras. A Lei 11.645 (Brasil, 2008) foi um avanço conquistado pelos movimentos indígenas, visando maior visibilidade e reconhecimento de suas histórias e culturas, proporcionando ao povo brasileiro o direito de conhecerem sua ancestralidade. Em 2013 foi criado o Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação das Relações Etnicorraciais e para o Ensino de História e Cultura Afrobrasileira e Africana (Brasil, 2013), que se propôs a divulgar e produzir conhecimentos, visando a formação do educando voltada a posturas e valores que reconheçam seu pertencimento étnico- racial. No documento estão listadas diretrizes e metas, além de outras informações, que orientam as escolas quanto a inclusão da temática nos currículos. Entre as ações educativas de combate ao racismo e a discriminações presentes no Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação das Relações Étnico-raciais e para o Ensino de História e Cultura Afrobrasileira e Africana (Brasil, 2013, p. 99), cita-se: Edição de livros e de materiais didáticos, para diferentes níveis e modalidades de ensino, que atendam ao disposto neste parecer, em cumprimento ao disposto no Art. 26A da LDB, e, para tanto, abordem a pluralidade cultural e a diversidade étnico- racial da nação brasileira, corrijam distorções e equívocos em obras já publicadas sobre a história, a cultura, a identidade dos afrodescendentes, sob o incentivo e supervisão dos programas de difusão de livros educacionais do MEC – Programa Nacional do Livro Didático e Programa Nacional de Bibliotecas Escolares (PNBE). Após estas orientações, percebe-se que as temáticas indígena e afrobrasileira foram incluídas nos livros didáticos. Porém, permaneceu o caráter folclórico, estereotipado, que associa esses povos ao passado e não os abordando na contemporaneidade. Outro documento importante é o Parecer CNE/CEB – 14/2015 (Brasil, 2015, p. 6) que aponta os seguintes problemas relacionados à representação dos povos indígenas no imaginário social brasileiro: • reificação da imagem do indígena como um ser do passado e em função do colonizador; • apresentação dos povos indígenas pela negação de traços culturais (sem escrita, sem governo, sem tecnologias); • omissão, redução e simplificação do papel indígena na história brasileira; • adoção de uma visão e noção de índio genérico, ignorando a diversidade que sempre existiu entre esses povos; • generalização de traços culturais de um povo para todos os povos indígenas; • simplificação, pelo uso da dicotomia entre índios puros, vivendo na Amazônia versus índios já contaminados pela civilização, onde a aculturação é um caminho sem volta; Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 28, No. 75 Dossiê Especial 7 • prática recorrente em evidenciar apenas características pitorescas e folclóricas no trato da imagem dos povos indígenas; • ocultação da existência real e concreta de povos indígenas particulares, na referência “aos índios ” em geral; • ênfase no “empobrecimento ” material dos estilos e modos de vida dos povos indígenas. Embora a Lei 11.645 (Brasil, 2008) tenha sido implementada há dez anos, é possível notar, até mesmo pela demora em se homologar o parecer, que poucos avanços foram alcançados na área e que ainda assim, nessas poucas conquistas, ainda há reprodução da imagem do índio genérico, estereotipado, invisível, eurocêntrico. Tal visão empobrece a riqueza das 305 etnias indígenas presentes em nosso país, a pluralidade de línguas, culturas, religiões, entre outros. O Parecer CNE/CEB – 14/2015 (Brasil, 2015, p. 8) afirma que: A inclusão da temática da história e da cultura indígenas nos currículos objetiva promover a formação de cidadãos atuantes e conscientes do caráter pluriétnico da sociedade brasileira, contribuindo para o fortalecimento de relações interétnicas positivas entre os diferentes grupos étnicos e raciais e a convivência democrática, marcada por conhecimento mútuo, aceitação de diferenças e diálogo entre as culturas. Efetivamente, o acolhimento da diferença cultural pela escola contribui decisivamente para a construção de um pacto social mais democrático, igualitário e fraterno, promovendo a tolerância como sinônimo de respeito, aceitação e apreço pela riqueza e diversidade das culturas humanas. Portanto, a intenção principal do Parecer CNE/CEB – 14/2015 (Brasil) era reconhecer e fortalecer a nossa ancestralidade ameríndia, por meio do ensino apropriado da história e da cultura indígena. Para tanto, este direcionou os conteúdos, saberes, competências, atitudes e valores que necessitam ser abordados no currículo escolar. O Indígena nos Livros Didáticos: O Presente Invisibilizado Após a breve explanação das leis que instituem a obrigatoriedade da inclusão da temática indígena nos currículos da Educação Básica, serão abordados alguns dos meios de como esse assunto tem entrado em pauta nos colégios a partir dos exemplares de manuais escolares. Os livros didáticos abordam diferentes assuntos, contextualizando-os aos alunos por meio de imagens, textos e atividades. Esse material tão presente em nas salas de aula, auxilia na formação dos educandos e os auxilia a formar suas primeiras impressões de mundo. De acordo com Telles (1996) convém observar que, sendo os manuais veículos de difusão de valores culturais dos grupos dominantes e, possuindo o caráter de autoridade de serem obra escrita e obras que se referem à cultura, eles inibem as manifestações próprias de vários grupos sociais envolvidos no processo educativo. Os estudantes acabam constituindo seu olhar a partir dos pontos de vida que lhe são apresentados ao longo de sua trajetória escolar, reproduzindo as informações que lhe são transmitidas. Para a realização desse estudo, foram selecionados três livros didáticos utilizados atualmente em escolas dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental. Tais materiais trazem diferentes versões de imagens a respeito dos povos indígenas, formando distintas constituições de identidades ameríndias. De acordo com Jovino (2014) olhar as imagens separadas ou em conjunto, como texto, como objeto A representação dos povos indígenas contemporâneos nos livros didáticos 8 de significação e comunicação, como algo que é dado a ver e como arte pode ser um exercício de entender o que está sendo dado a ver e o que não está. A imagem pode até parecer uma mera ilustração, mas está dotada de significados profundos que podem reforçar estereótipos, exaltar uma determinada cultura ou até invisibilizar determinados povos. O livro de Língua Portuguesa da coleção “Faça!” (Azevedo, Botosso & Almeida, 2016) apresenta a imagem do indígena vinculada aos fenômenos da natureza. Aqui, o ameríndio aparece retratado com tanga, cabelo liso com corte reto, vivendo em uma oca, utilizando arco e flecha. Figura 1: Indígena na natureza (Azevedo, Botosso & Almeida, 2016, pp. 184-185). A figura acompanha a narrativa do povo Ikolen que retrata a “Queda do Céu”. É interessante ressaltar a importância das vozes dos povos originários aparecem em livros didáticos, como nessa coleção. Conforme Bonin (2008, p. 315), Ao que parece, um dos efeitos de práticas é a produção de índios posicionados no passado, descritos de maneira homogênea e fixa, que ocupam um lugar subordinado em narrativas escolares. Um índio genérico que serve de referência para pensar os distintos sujeitos indígenas que vivem no Brasil [...] É necessário maior cuidado com as ilustrações que acompanham os textos nos manuais escolares, pois, as imagens podem passar uma noção, muitas vezes equivocada, da representação de ameríndio que está tentando ser transmitida ao leitor. De acordo com Heidegger (2009, p. 211), “A interpretação de algo como algo funda-se, essencialmente, numa posição prévia, visão prévia e concepção prévia. A interpretação nunca é apreensão de um dado preliminar, isenta de pressuposições.” Muitas vezes as imagens são escolhidas intencionalmente, buscando reforçar algum ponto de vista que pré existe na cultura. Nesse caso, reforça a ideia de que o indígena vive preso ao passado e ligado permanentemente à natureza. Aqui aparece reproduzida a visão do ameríndio selvagem e ameaçador. Em outras representações pode evidenciar-se também como canibal (esta é uma das visões mais antigas de índio). Vive em ocas, utiliza arco e flecha. Oliveira (2008) afirma que os livros didáticos tendem a universalizar associações do tipo: índios que usam arco e flecha, moram em ocas, Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 28, No. 75 Dossiê Especial 9 furam o corpo para colocar objetos “estranhos” como ossos e pedaços de madeira considerados enfeites, andam nus (ou seminus), enfim, são diferentes e ... assustadores. A imagem apresentada reforça nos não indígenas o medo do diferente, dessa maneira o indígena é visto com estranheza e como uma ameaça, tanto “às nossas terras” quanto à nossa integridade física. Outro livro analisado faz parte da coleção Lego Zoom de Signorelli (2014), voltada para a robótica educacional. Na montagem “Robô Arbóreo”, aparece uma imagem que liga os indígenas à natureza, em que estes aparecem pintados e um deles está adornado com penas. Ambos estão vestidos com calça e aparecem se segurando em um galho, assim como fazem os bichos-preguiças que dividem a ilustração com eles. Figura 2: Robô Arbóreo (Signorelli, 2014, p. 7) Essa imagem acaba reforçando o estereótipo do ameríndio como o bom selvagem, que é puro, convive harmoniosamente com o meio ambiente, é bondoso e romântico. O mesmo aparece nas obras “O Guarani” e “Iracema” de José de Alencar. Segundo Oliveira (2008, p. 32), o índio “[...] é representado como dotado de um tipo de conhecimento que parece constituí-lo como uma extensão da natureza, como uma espécie ‘natural’ quase em extinção.” Quando abordamos os indígenas a partir dessa ótica, desconsideramos o fato que de nem todos os integrantes desses povos vivem em meio a natureza. Boa parte integra a população das cidades, vive da renda obtida da venda do artesanato e das apresentações culturais (canto, dança), estuda em escolas e universidades em meio aos não indígenas. Já em “As armadilhas da mente” de Cury (2016, p.18), no sexto livro da coleção da Escola da Inteligência, aparece uma nova personagem, chamada Erê. A menina está vestida com uma regata com estampa étnica, uma calça, botas, utiliza brincos de penas, possui cabelo preto, liso e olhos puxados, lembrando traços da cultura ameríndia. Apesar de seus traços e características lembrarem um indígena, há um detalhe importante a ser ressaltado que é o branqueamento, já que a menina possui a mesma cor de pele do que a maior parte dos integrantes que compõe a história. Erê aparece solitária e aprisionada em outra dimensão devido ao orgulho, ao egoísmo e à arrogância, pois acreditava ser melhor que todos e por isso era merecedora de permanecer nesse lugar. Com ajuda dos amigos, consegue sair da posição de isolamento. A representação dos povos indígenas contemporâneos nos livros didáticos 10 Figura 3: Erê (Cury, 2016, p. 101 e 106, respectivamente) A forma como Erê foi apresentada, lembra os povos isolados em florestas, que estão sem contato com os não indígenas e com o mundo envolvente. Embora não estivesse em uma floresta, as demais condições estavam reproduzidas na situação. Também é passada ao leitor a ideia de que os não indígenas a “salvaram” da situação que estava vivendo. Pensando nas imagens aqui apresentadas, percebe-se um “esforço” que há em manter os indígenas atrelados a uma visão ligada ao passado e que reforça os estereótipos. De acordo com Gadamer (2006, pp. 18-19, grifo do autor), a consciência histórica assume [...] uma posição reflexiva com relação a tudo que lhe é transmitido pela tradição. A consciência histórica já não escuta beatificamente a voz que lhe chega do passado, mas, ao refletir sobre a mesma, recoloca-a no contexto em que ela se originou, a fim de ver o significado e o valor relativos que lhe são próprios. Esse comportamento reflexivo diante da tradição chama-se interpretação. [...] Falamos de interpretação quando o significado de um texto não é compreendido de imediato. Uma interpretação torna-se então necessária. Em outros termos, torna-se necessária uma reflexão explícita sobre as condições que levam o texto a ter esse ou aquele significado. A partir das ilustrações e dos livros didáticos analisados, pode-se perceber que a imagem do índio que ainda é reproduzida na escola é, geralmente, a do bom selvagem que se pinta, caça, realiza rituais, vive em ocas, cuida da natureza, entre outras coisas, ou do ameríndio selvagem e ameaçador. Também há tendência na reprodução da figura do ameríndio vinculada ao passado, dando uma ideia de descontinuidade na existência dos povos indígenas ou passando a visão de que os que se encontram na cidade não são mais índios, essa invisibilidade se deve ao fato de não os reconhecem por estarem idealizando uma certa visão a respeito destes. Considerações Finais A imagem dos povos indígenas advém de ideias distorcidas que desde crianças aprendemos na escola, a seu respeito. Essa projeção estereotipada permanece por não se ter contato com materiais que retratem esses povos de forma correta, mas também por concepções prévias equivocadas de quem produz esses artefatos culturais. Conforme Gadamer (2005), a questão portanto não está em Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 28, No. 75 Dossiê Especial 11 assegurar-se frente à tradição que faz ouvir sua voz a partir do texto, mas, ao contrário, trata-se de manter afastado tudo que possa impedir alguém de compreendê-la a partir da própria coisa em questão. São os preconceitos não percebidos os que, com seu domínio, nos tornam surdos para a coisa de que nos fala a tradição. Ao falar sobre a história do conceito do preconceito, Gadamer (2005, p. 360) afirma: “Em si mesmo, “preconceito” (Vorulteil) [grifo do autor] quer dizer um juízo (Urteil) [grifo do autor] que se forma antes do exame definitivo de todos os momentos determinantes segundo a coisa em questão.” Ou seja, é um julgamento prévio, emitido ou feito sem considerar elementos próprios da história, da cultura e do modo de ser dos povos em questão. Uma opinião a respeito de outra cultura só pode ser formada caso sejam conhecidos pelo menos alguns elementos respeito dessa. O que se percebe é o oposto, visto que “recebe-se” um julgamento fechado, seja por meio da escola, dos livros didáticos ou dos meios de comunicação em massa. A visão dos povos ameríndios acaba sendo formada a partir do olhar do outro, seja ele historiador, repórter, escritor... Sendo assim, é indispensável que haja um aprofundamento a respeito da temática indígena para que esta não seja tratada de forma superficial, sendo lembrada somente 19 ou 22 de abril. Afinal de contas, trata-se de uma parte importante da história brasileira, que normalmente é esquecida ou omitida, e deve ser trabalhada como conteúdo indispensável nos anos iniciais. Oliveira (2008, p. 38) fala sobre o [...] esforço que empreendemos na escola para modificar a vida dos “outros”: é com um currículo urbano, branco, machista, heterossexual e cristão que ensinamos colonos/as, negros/as, índios/as, homossexuais, pobres, etc. Tal situação sugere, também, que o modo de viver de índios e índias e de vários outros grupos sociais pode, ao menos, ampliar as possibilidades de discussão sobre o modo de vida “civilizado”. Embora perceba-se também que as leis e as práticas escolares estejam mudando quanto a questão indígena na escola, constata-se a importância da Lei 11.645 (Brasil, 2008), sendo que se observa que temos somente o início de uma longa caminhada na educação. É importante que os educadores tenham consciência de que só os livros didáticos não são suficientes, que é necessário buscar novas formas de lidar com o tema, criando alternativas para superar a imagem genérica, eurocêntrica e estereotipada criada para retratar os povos ameríndios. 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Denise Regina Quaresma da Silva Universidade La Salle/Canoas Universidade Feevale/Novo Hamburgo denise.silva@unilasalle.edu.br http://orcid.org/0000-0002-3697-8284 Professora do Programa de PPG em Educação da Universidade La Salle/Canoas. Professora do PPG em Diversidade Cultural e Inclusão Social da Universidade Feevale/Novo Hamburgo. Cledes Antonio Casagrande Universidade La Salle/Canoas cledes.casagrande@unilasalle.edu.br http://orcid.org/0000-0003-1499-1661 Doutor em Educação pela PUCRS. Professor do PPG em Educação da Universidade La Salle. Sobre o Editores Juliane Sachser Angnes Universidade Estadual do Centro-Oeste do Paraná (UNICENTRO) Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE UNICENTRO) Programa de Pós-Graduação em Administração (PPGADM UNICENTRO) julianeangnes@gmail.com https://orcid.org/0000-0002-4887-7042 Graduação em Secretariado Executivo Bilíngue e em Letras - Português/Inglês pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Especialista em Linguística Aplicada e Mestre em Letras - Linguagem e Sociedade também pela UNIOESTE. Doutora em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), linha de Cognição, Desenvolvimento Humano e Aprendizagem. Realizou estágio pós-doutoral no Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Estadual de Maringá (UEM) no Grupo de Pesquisas em Estudos Organizacionais. É professora da Universidade Estadual do Centro-Oeste https://biblioteca.feevale.br/Vinculo2/000013/00001339.pdf http://orcid.org/0000-0002-3598-1772 http://orcid.org/0000-0002-3697-8284 http://orcid.org/0000-0003-1499-1661 mailto:julianeangnes@gmail.com https://urldefense.proofpoint.com/v2/url?u=https-3A__orcid.org_0000-2D0002-2D4887-2D7042&d=DwMFaQ&c=l45AxH-kUV29SRQusp9vYR0n1GycN4_2jInuKy6zbqQ&r=LjMqjl4R-2qm1usoNnGI1mF7F_j_WN6lRbuxHej1Xg8&m=QJhTA6TjAonzMKJYP6hPRBkTX6hIAyREjpQcDdkhyMQ&s=ck5MLolMmMSKRJOD8B_ByweD9lSzSjDTB3bELd-Uhrk&e= A representação dos povos indígenas contemporâneos nos livros didáticos 14 (UNICENTRO) vinculada ao Departamento de Secretariado Executivo e ao s Programas de Pós-Graduação em Administração (Mestrado Profissional) e Pós-Graduação em Educação (Mestrado e Doutorado). Tem experiência na docência e pesquisa nas áreas de Educação e Administração, atuando principalmente nas seguintes áreas temáticas: educação escolar indígena; comunicação organizacional; redes solidárias; economia do bem -estar social; gestão escolar; planejamento e organização de eventos; cerimonial e protocolo; etiqueta social e comportamental; redação técnica oficial e empresarial; responsabilidade social; pesquisa qualitativa em Ciências Sociais Aplicadas. Kaizô Iwakami Beltrão EBAPE FGV - - Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas Kaizo.beltrao@fgv.br http://orcid.org/0000-0002-3590-8057 Graduação em Engenharia Mecânica pelo Instituto Tecnológico de Aero náutica (1974), mestrado em Matemática Aplicada pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada (1977) e doutorado em Estatística pelo Departamento de Estatística da Princeton University (1981). Atualmente é Pesquisador/Professor da EBAPE/FGV-RJ e responsável técnico pelos relatórios técnicos do ENADE junto ao INEP através da Fundação Cesgranrio. Tem experiência na área de População e Políticas Públicas, com ênfase em Previdência Social e Educação, atuando principalmente nos seguintes temas: bases de dados par a políticas públicas, avaliações educacionais, diferenciais por sexo/raça, condições de saúde, demografia (modelagem estatística) e mortalidade. mailto:Kaizo.beltrao@fgv.br https://urldefense.proofpoint.com/v2/url?u=http-3A__orcid.org_0000-2D0002-2D3590-2D8057&d=DwMFaQ&c=l45AxH-kUV29SRQusp9vYR0n1GycN4_2jInuKy6zbqQ&r=LjMqjl4R-2qm1usoNnGI1mF7F_j_WN6lRbuxHej1Xg8&m=QJhTA6TjAonzMKJYP6hPRBkTX6hIAyREjpQcDdkhyMQ&s=fJ8Wn8IPBi9gKKPgQSHPkvrRblNB558B6BzLQJO4YsI&e= Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 28, No. 75 Dossiê Especial 15 Dossiê Especial Educação e Povos Indígenas: Identidades em Construção e Reconstrução arquivos analíticos de políticas educativas Volume 28 Número 75 4 de maio 2020 ISSN 1068-2341 Los/as lectores/as pueden copiar, mostrar, distribuir, y adaptar este articulo, siempre y cuando se de crédito y atribución al autor/es y a Archivos Analíticos de Políticas Educativas, los cambios se identifican y la misma licencia se aplica al trabajo derivada. Más detalles de la licencia de Creative Commons se encuentran en https://creativecommons.org/licenses/by- sa/2.0/. Cualquier otro uso debe ser aprobado en conjunto por el autor/es, o AAPE/EPAA. La sección en español para Sud América de AAPE/EPAA es publicada por el Mary Lou Fulton Teachers College, Arizona State University y la Universidad de San Andrés de Argentina. Los artículos que aparecen en AAPE son indexados en CIRC (Clasificación Integrada de Revistas Científicas, España) DIALNET (España), Directory of Open Access Journals, EBSCO Education Research Complete, ERIC, Education Full Text (H.W. Wilson), PubMed, QUALIS A1 (Brazil), Redalyc, SCImago Journal Rank, SCOPUS, SOCOLAR (China). Por errores y sugerencias contacte a Fischman@asu.edu Síganos en EPAA’s Facebook comunidad at https://www.facebook.com/EPAAAAPE y en Twitter feed @epaa_aape. https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0/ https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0/ http://www.doaj.org/ https://www.facebook.com/EPAAAAPE A representação dos povos indígenas contemporâneos nos livros didáticos 16 arquivos analíticos de políticas educativas conselho editorial Editor Consultor: Gustavo E. Fischman (Arizona State University) Editoras Associadas: Andréa Barbosa Gouveia (Universidade Federal do Paraná), Kaizo Iwakami Beltrao, (Brazilian School of Public and Private Management - EBAPE/FGVl), Sheizi Calheira de Freitas (Federal University of Bahia), Maria Margarida Machado, (Federal University of Goiás / Universidade Federal de Goiás), Gilberto José Miranda, (Universidade Federal de Uberlândia, Brazil), Marcia Pletsch (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro), Maria Lúcia Rodrigues Muller (Universidade Federal de Mato Grosso e Science), Sandra Regina Sales (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro) Almerindo Afonso Universidade do Minho Portugal Alexandre Fernandez Vaz Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil José Augusto Pacheco Universidade do Minho, Portugal Rosanna Maria Barros Sá Universidade do Algarve Portugal Regina Célia Linhares Hostins Universidade do Vale do Itajaí, Brasil Jane Paiva Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil Maria Helena Bonilla Universidade Federal da Bahia Brasil Alfredo Macedo Gomes Universidade Federal de Pernambuco Brasil Paulo Alberto Santos Vieira Universidade do Estado de Mato Grosso, Brasil Rosa Maria Bueno Fischer Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil Jefferson Mainardes Universidade Estadual de Ponta Grossa, Brasil Fabiany de Cássia Tavares Silva Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Brasil Alice Casimiro Lopes Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil Jader Janer Moreira Lopes Universidade Federal Fluminense e Universidade Federal de Juiz de Fora, Brasil António Teodoro Universidade Lusófona Portugal Suzana Feldens Schwertner Centro Universitário Univates Brasil Debora Nunes Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Brasil Lílian do Valle Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil Geovana Mendonça Lunardi Mendes Universidade do Estado de Santa Catarina Alda Junqueira Marin Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Brasil Alfredo Veiga-Neto Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil Flávia Miller Naethe Motta Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Brasil Dalila Andrade Oliveira Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 28, No. 75 Dossiê Especial 17 archivos analíticos de políticas educativas consejo editorial Editor Consultor: Gustavo E. Fischman (Arizona State University) Editores Asociados: Felicitas Acosta (Universidad Nacional de General Sarmiento), Armando Alcántara Santuario (Universidad Nacional Autónoma de México), Ignacio Barrenechea, Jason Beech ( Universidad de San Andrés), Angelica Buendia, (Metropolitan Autonomous University), Alejandra Falabella (Universidad Alberto Hurtado, Chile), Carmuca Gómez-Bueno (Universidad de Granada), Veronica Gottau (Universidad Torcuato Di Tella), Carolina Guzmán-Valenzuela (Universidade de Chile), Antonia Lozano-Díaz (University of Almería), Antonio Luzon, (Universidad de Granada), María Teresa Martín Palomo (University of Almería), María Fernández Mellizo- Soto (Universidad Complutense de Madrid), Tiburcio Moreno (Autonomous Metropolitan University-Cuajimalpa Unit), José Luis Ramírez, (Universidad de Sonora), Axel Rivas (Universidad de San Andrés), César Lorenzo Rodríguez Uribe (Universidad Marista de Guadalajara), Maria Veronica Santelices (Pontificia Universidad Católica de Chile) Claudio Almonacid Universidad Metropolitana de Ciencias de la Educación, Chile Ana María García de Fanelli Centro de Estudios de Estado y Sociedad (CEDES) CONICET, Argentina Miriam Rodríguez Vargas Universidad Autónoma de Tamaulipas, México Miguel Ángel Arias Ortega Universidad Autónoma de la Ciudad de México Juan Carlos González Faraco Universidad de Huelva, España José Gregorio Rodríguez Universidad Nacional de Colombia, Colombia Xavier Besalú Costa Universitat de Girona, España María Clemente Linuesa Universidad de Salamanca, España Mario Rueda Beltrán Instituto de Investigaciones sobre la Universidad y la Educación, UNAM, México Xavier Bonal Sarro Universidad Autónoma de Barcelona, España Jaume Martínez Bonafé Universitat de València, España José Luis San Fabián Maroto Universidad de Oviedo, España Antonio Bolívar Boitia Universidad de Granada, España Alejandro Márquez Jiménez Instituto de Investigaciones sobre la Universidad y la Educación, UNAM, México Jurjo Torres Santomé, Universidad de la Coruña, España José Joaquín Brunner Universidad Diego Portales, Chile María Guadalupe Olivier Tellez, Universidad Pedagógica Nacional, México Yengny Marisol Silva Laya Universidad Iberoamericana, México Damián Canales Sánchez Instituto Nacional para la Evaluación de la Educación, México Miguel Pereyra Universidad de Granada, España Ernesto Treviño Ronzón Universidad Veracruzana, México Gabriela de la Cruz Flores Universidad Nacional Autónoma de México Mónica Pini Universidad Nacional de San Martín, Argentina Ernesto Treviño Villarreal Universidad Diego Portales Santiago, Chile Marco Antonio Delgado Fuentes Universidad Iberoamericana, México Omar Orlando Pulido Chaves Instituto para la Investigación Educativa y el Desarrollo Pedagógico (IDEP) Antoni Verger Planells Universidad Autónoma de Barcelona, España Inés Dussel, DIE-CINVESTAV, México José Ignacio Rivas Flores Universidad de Málaga, España Catalina Wainerman Universidad de San Andrés, Argentina Pedro Flores Crespo Universidad Iberoamericana, México Juan Carlos Yáñez Velazco Universidad de Colima, México javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/819') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/820') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/4276') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/1609') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/825') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/797') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/823') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/798') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/555') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/814') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/2703') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/801') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/826') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/802') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/3264') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/804') A representação dos povos indígenas contemporâneos nos livros didáticos 18 education policy analysis archives editorial board Lead Editor: Audrey Amrein-Beardsley (Arizona State University) Editor Consultor: Gustavo E. Fischman (Arizona State University) Associate Editors: Melanie Bertrand, David Carlson, Lauren Harris, Eugene Judson, Mirka Koro-Ljungberg, Daniel Liou, Scott Marley, Molly Ott, Iveta Silova (Arizona State University) Cristina Alfaro San Diego State University Amy Garrett Dikkers University of North Carolina, Wilmington Gloria M. Rodriguez University of California, Davis Gary Anderson New York University Gene V Glass Arizona State University R. Anthony Rolle University of Houston Michael W. Apple University of Wisconsin, Madison Ronald Glass University of California, Santa Cruz A. G. Rud Washington State University Jeff Bale University of Toronto, Canada Jacob P. K. Gross University of Louisville Patricia Sánchez University of University of Texas, San Antonio Aaron Bevenot SUNY Albany Eric M. Haas WestEd Janelle Scott University of California, Berkeley David C. 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