Assédio Moral na Pós-Graduação: As Consequências Vivenciadas por Docentes e Discentes de uma Universidade Estadual Brasileira Página web: http://epaa.asu.edu/ojs/ Artigo recebido: 27/6/2019 Facebook: /EPAAA Revisões recebidas: 2/9/2019 Twitter: @epaa_aape Aceito: 7/11/2019 Dossiê Especial O Trabalho no Ensino Superior arquivos analíticos de políticas educativas Revista acadêmica, avaliada por pares, independente, de acesso aberto, e multilíngüe Arizona State University Volume 28 Número 11 20 de janeiro de 2020 ISSN 1068-2341 Assédio Moral na Pós-Graduação: As Consequências Vivenciadas por Docentes e Discentes de uma Universidade Estadual Brasileira Thiago Soares Nunes & Eliana Marcia Martins Fittipaldi Torga Centro Universitário Una Brasil Citação: Nunes, T. S., & Torga, E. M. M. F. (2020). Assédio moral na pós-graduação: As consequências vivenciadas por docentes e discentes de uma Universidade Estadual brasileira. Arquivos Analíticos de Políticas Educativas, 28(11). https://doi.org/10.14507/epaa.28.4883 Este artigo faz parte do dossiê especial, O trabalho na educação superior, editada por Deise Mancebo, Kátia Maria Teixeira Santorum, Denise Bessa Léda, e Carla Vaz dos Santos Ribeiro. Resumo: A Pós-Graduação apresenta um contexto fértil para a ocorrência de assédio moral, pois tem, nas suas práticas, cobranças e pressões intensas, busca frequente pelo produtivismo, alta competitividade e vaidade. Por isso, as consequências desse ambiente exigente podem ser ainda mais severas, afetando a saúde, o trabalho, os estudos e a vida privada do profissional. Diante do que foi exposto, este artigo tem como objetivo identificar as consequências proporcionadas pelo assédio moral em discentes e docentes vinculados aos Programas de Pós-Graduação stricto sensu em uma Universidade Estadual Brasileira. A pesquisa foi caracterizada como abordagem mista, descritiva e estudo de caso. Os dados foram coletados por questionário on-line (126 respostas) e entrevistas (7), sendo estes tratados pela técnica de análise de conteúdo. Constatou -se que as consequências http://epaa.asu.edu/ojs/ https://doi.org/10.14507/epaa.28.4883 Assédio Moral na Pós-Graduação 2 envolveram a saúde psíquica (raiva, ansiedade, baixa autoestima, depressão); saúde física (alopecia, aumento de peso, tremedeira); relacional/afetivo (afastamento/perda de ami gos, crises conjugais); e trabalho/estudo (desilusão com o meio acadêmico, aumento da carga de trabalho, vontade de desistir da pós-graduação). A partir do que foi constatado nesta pesquisa, acredita-se que o tema merece atenção devido ao seu caráter destr uidor, e, além disso, sugere-se, ainda, a construção de medidas efetivas de prevenção e de combate ao assédio moral. Palavras-chave: Assédio moral; Consequências; Pós-Graduação; Universidade Workplace bullying in postgraduate courses: The consequences experienced by teachers and students of a Brazilian state university Abstract: Postgraduate courses provide a fertile ground for the occurrence of workplace bullying, since both teachers and students are usually overwhelmed by stressful demands and pressure, constant seek for productivism, high competitiveness, and vanity. Therefore, the consequences of this demanding environment can be even more severe, affecting health, work, studies and the private life of the professional. Thus, this article aims to identi fy the consequences of workplace bullying in students and teachers from stricto sensu postgraduate courses in a Brazilian state university. This research was a descriptive case study, and used a mixed approach. Data was collected through an online question naire (126 answers) and follow- up interviews (7), which were analyzed through content analysis technique. As a result, it was possible to perceive that there were consequences to mental health (anger, anxiety, low self - esteem, depression), physical health (loss of hair, weight gain, trembling), relational/affective (withdrawal/loss of friends, marital conflict), and work/study (disappointment with academia, increased workload, willingness to drop out of the postgraduate course). The findings indicate that the topic should be further investigated due to its destructive nature. Furthermore, the study suggests the elaboration of effective actions to prevent and combat workplace bullying . Keywords: Workplace bullying; Consequences; Postgraduate courses; University Acoso moral en el postgrado: Las consecuencias experimentadas por docentes y discentes de una Universidad Estatal Brasileña Resumen: El Postgrado presenta un contexto fértil para la ocurrencia de acoso moral, pues tiene en sus prácticas intensas demandas y presiones, búsqueda frecuente de productividad, alta competitividad y vanidad. Por lo tanto, las consecuencias de este ambiente exigente pueden ser aún más graves y afectar la salud, el trabajo, los estudios y la vida privada del profesional. A la vista de lo que se encontró, este artículo tiene como objetivo identificar las consecuencias proporcionadas por el acoso moral en discentes y docentes vinculados a los Programas de Postgrado stricto sensu en una Universidad Estatal Brasileña. La investigación se caracterizó mediante un enfoque mixto, descriptivo y estudio de caso. Los datos fueron recolectados a través de cuestionario online (126 respuestas) y entrevistas (7), siendo estos, tratados por la técnica de análisis de contenido. Se encontró que las consecuencias involucran la salud psíquica (rabia, ansiedad, baja autoestima, depresión); salud física (caída del cabello, aumento de peso, temblor); relacional/afectivo (retraimiento/pérdida de amigos, crisis matrimoniales); y trabajo/estudio (desilusión con el medio académico, mayor carga de trabajo, voluntad de abandonar la escuela de postgrado). Por lo que se encontró en esta investigación, se cree que el tema merece atención debido a su carácter destructivo y, además, se sugiere la creación de medidas efectivas para prevenir y combatir el acoso moral. Palabras-clave: Acoso moral; Consecuencias; Postgrado; Universidad Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 28, No. 11 Dossiê Especial 3 Introdução A relação do indivíduo com o seu trabalho e com a sua organização pode fazer eclodir sentimentos e emoções que devem ser gerenciados para que não comprometam o equilíbrio psíquico do trabalhador (Dejours, 2015). Aspectos importantes da história e das condições de vida passam a fazer parte do contexto laboral, por exemplo, as relações estabelecidas em ambiente de trabalho. O trabalho nunca é neutro em relação à vida dos indivíduos, pois pode gerar sentimentos de prazer ou de desprazer, favorecendo a saúde ou a doença. Para Rates e Leda (2018, p. 39), “o trabalho adquire sentido, redimensionando o dia a dia, permitindo autorrealização nas esferas simbólica, social e afetiva ao trabalhador”. O sofrimento é inerente à atividade laboral (Lancman & Sznelman, 2011). A forma e as condições em que o trabalho é realizado podem acarretar sofrimento e provocar doenças no trabalhador (Merlo, Bottega, & Perez, 2014). Opera-se, então, uma articulação entre a personalidade do sujeito-trabalhador nas atividades, nas relações e no contexto laboral em que o sujeito está inserido. Essa articulação se expressa entre a sua subjetividade e o real do trabalho, que pode estar em desacordo com os desejos, as aspirações e a singularidade desse sujeito, levando-o ao sofrimento psíquico. O descompasso entre expectativas e realidade que está sendo experienciada e representada pelo indivíduo provoca sentimentos de sofrimento. Concomitantemente, podem surgir experiências exitosas que tragam sentimento de prazer e de satisfação. O balanceamento dinâmico dessas emoções depende da manutenção da saúde psíquica do sujeito-trabalhador, o que aponta para a relevância desse mecanismo psíquico (Maissiat, Lautert, Pai, & Tavares, 2015). Entre as temáticas de prazer e de sofrimento no trabalho, o assédio moral tem causado impacto, gerando aumento das produções científicas e de pesquisas, além de gerar repercussão na mídia nos últimos anos. O contexto de precarização e de intensificação do trabalho, a alta competitividade e a recusa de diferenças são elementos que podem influenciar na ocorrência do assédio moral. A temática compreende condutas abusivas, frequentes e duradouras, que têm por objetivo humilhar, constranger e denegrir um ou mais indivíduos, podendo afetar sua saúde, as condições e o desempenho do trabalho e a vida privada (Hirigoyen, 2006). O ambiente da Pós-Graduação tem se tornado alvo de pesquisas em relação à temática, pois apresenta situações que podem caracterizar o assédio exatamente como ocorrem em outras organizações. Nunes (2018) relata que 72,2% dos docentes e discentes vinculados à pós-graduação de uma Universidade Estadual afirmam que a cultura presente na pós-graduação pode contribuir para a ocorrência do assédio. Essa cultura possui algumas características que podem ser identificadas, como: certeza da impunidade; questões grupais (grupos dominantes); cobranças e pressões; exigência de produtividade; competitividade e vaidade. Observa-se que traços dessa cultura estão presentes em muitas organizações, públicas ou privadas, de ensino ou de outros setores. É importante ressaltar que a pós-graduação já traz pressões e cobranças de trabalho bastante pertinentes, logo, as consequências para aqueles que estão inseridos neste ambiente se agravam exponencialmente. Assim sendo, percebe-se que o docente e o discente de pós-graduação estão expostos ao adoecimento no contexto laboral. Para o docente de pós-graduação, a relação do trabalho e da saúde é permeada por fatores que podem repercutir na identidade e na condição docente, já que a intensificação do seu trabalho e a precarização nas relações de emprego são consideráveis (Trindade & Bonito, 2011). As exigências por geração de conhecimentos, formação profissional de qualidade e produção de novas tecnologias (Coutinho, 2011; Fernandes, 1996; Mancebo & Rocha, 2002), produção de artigos científicos, elaboração de relatórios e pareceres técnicos, tarefas administrativas e atividades de gestão são cada vez maiores e se consolidam como tarefas adicionais aos profissionais docentes. A atividade de docência e de pesquisa se refere a um Assédio Moral na Pós-Graduação 4 processo intelectual, investigativo e criativo, que não se encaixa na lógica produtivista (Garcia, Oliveira, & Barros, 2008). Com isso, a saúde física e psíquica do docente pode ficar prejudicada em detrimento da produtividade acadêmica, que, cada vez, exige mais horas de dedicação para que se obtenha os resultados esperados. As condições de trabalho e as pressões vivenciadas pelos docentes na pós-graduação podem interferir diretamente na formação de futuros profissionais ou pesquisadores, atores relevantes para a academia e para a sociedade. Pesquisas demonstram que a ausência de condições organizacionais adequadas, a precarização do trabalho (Coutinho, 2011; Fernandes, 1996), a cobrança por publicações de excelência, a exigência discente intraclasse e extraclasse podem dilapidar a saúde do docente, levando-o ao adoecimento devido à forte pressão e comprometendo a docência e a pesquisa. Diante dessa contextualização, esta pesquisa tem por objetivo identificar as consequências trazidas pelo assédio moral em discentes e docentes vinculados aos Programas de Pós-Graduação stricto sensu em uma Universidade Estadual Brasileira. A relevância desta pesquisa está reforçada pelas iniciativas de estudo a respeito de assédio moral na pós-graduação, com foco no caráter destruidor do tema e suas consequências para o indivíduo com relação à sua identidade e dignidade. É importante observar que não existe um debate aprofundado sobre os temas como violência, assédio, gênero, discriminação e outros de igual gravidade nas práticas e culturas nefastas da pós- graduação. Logo, ao trazer esse tema à tona pretende-se mostrar a importância de que pró-reitores, coordenadores, docentes, discentes, colegiados, associações de pós-graduação e demais atores o conheçam para que comecem a tratar o assédio moral no trabalho com atenção, dessa forma, quando essas práticas surgirem, não serão naturalizadas ou banalizadas. Fundamentação Teórica O assédio moral no trabalho é considerado temática complexa e dinâmica (Einarsen, Hoel, Zapf, & Cooper, 2011), que se apresenta como um fenômeno debatido de forma volumosa nas mais diversas áreas da academia, da sociedade e das mídias (Nielsen & Einarsen, 2018; Nunes, 2016). Embora a discussão seja intensa, seu entendimento (conceito, características, consequências) ainda carece de maiores explanações (Nunes, Tolfo, & Espinosa, 2018). Para os autores, parte da população e também parte dos pesquisadores têm a compreensão errada do fenômeno, o que acaba prejudicando a sua identificação e banalizando sua ocorrência. Dessa forma, a médio e longo prazo, práticas que poderiam ser consideradas assédio moral são naturalizadas. No Brasil, existem diversos pesquisadores, militantes e autores que têm trabalhado com a temática do Norte ao Sul do país. Foram considerados os trabalhos de Roberto Heloani e Margarida Barreto como os mais representativos, tanto no aspecto conceitual quanto na questão prática em relação à violência. Dessa forma, apresenta-se como conceito de assédio moral, segundo Heloani e Barreto (2018, p. 53), o seguinte: Assédio moral é uma conduta abusiva, intencional, frequente e repetida, que ocorre no meio ambiente laboral, cuja causalidade se relaciona com as formas de organizar o trabalho e a cultura organizacional, que visa humilhar e desqualificar um indivíduo ou um grupo, degradando as suas condições de trabalho, atingindo a sua dignidade e colocando em risco a sua integridade pessoal e profissional. A definição dos autores apresenta aspectos importantes para a compreensão da violência, entre os aspectos apresentados, é possível destacar: o elemento distintivo para definir o que é e o que não é assédio moral, a frequência e a repetição. Ou seja, o assédio moral não é um ato isolado, mas sim as práticas hostis frequentes e duradouras – estando mais relacionadas com o tempo de meses e anos Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 28, No. 11 Dossiê Especial 5 do que com dias e semanas (Einarsen et al., 2011; Heloani & Barreto, 2018; Hirigoyen, 2006; Nunes et al., 2018). Embora determinados atos isolados podem ser considerados violentos, trazendo danos ao alvo, nem sempre eles podem ser considerados assédio, portanto, esse é um ponto de consenso entre os autores que pesquisam a temática. Para Heloani e Barreto (2015), a “matriz” dos atos hostis está sustentada no autoritarismo (abuso de poder), nas ameaças, nas mentiras, na manipulação do medo, na cooptação e nas várias formas de corrupção. Acrescenta-se a essa lista a recusa em aceitar as diferenças, que podem ser aspectos de gênero, idade, origem, sexualidade, posicionamento político/ideológico e demais aspectos (Hirigoyen, 2006). Tais ações e comportamentos podem ser perpetrados tanto por superiores hierárquicos como por colegas e subordinados. Entre as situações de assédio moral, Heloani e Barreto (2015) apresentam categorizações atuais que norteiam a realidade latino-americana, como estas ações: a) de assédio para reduzir as possibilidades de a vítima se comunicar adequadamente com outros, inclusive com o próprio autor da violência; b) de assédio para evitar que a vítima tenha a possibilidade de manter contatos sociais; c) de assédio com o intuito de desprestigiar ou de impedir o trabalhador de manter sua reputação pessoal ou profissional; d) de assédio moral mediante o descrédito profissional; e) de assédio moral que afetam a saúde física/psíquica da vítima. Vivenciar essas situações pode gerar consequências terríveis, principalmente para aquele que é alvo, na sua saúde física e psíquica, no trabalho e na vida privada, além de causar problemas para a própria organização, conforme mostrado na Tabela 1 a seguir. Tabela 1 Assédio moral: Consequências e efeitos Saúde Física Saúde Psíquica Trabalho / Organização Aumento da pressão arterial Alteração no sono Absenteísmo Consumo excessivo de álcool, tabaco e outras drogas Dificuldade de se concentrar Afastamento do trabalho Diminuição de energia Ideação suicida Aposentadoria prematura Distúrbios digestivos Insegurança Descontentamento com o trabalho Dores de cabeça Irritabilidade Erros e acidentes Dores generalizadas e esporádicas Manifestações depressivas Mudança de setor Enjoos Medo Perda de habilidade Falta de apetite Motivação comprometida Queda na qualidade do trabalho Falta de ar Paranoia Redução da produtividade Palpitações Raiva Redução de desempenho Tensões musculares Sensação de inutilidade Sem vontade de ir trabalhar Transtornos de estresse pós- traumático Vontade/ação de pedir demissão Vontade de chorar por tudo Vontade de ficar só Vontade de vingar-se Nota: Adaptado de Hoel, Sparks e Cooper (2001, tradução nossa), Keashly e Jagatic (2003, tradução nossa) e Barreto (2006). Assédio Moral na Pós-Graduação 6 O assédio moral é considerado violência sutil, ou seja, quem passa por isso, muitas vezes, não percebe de imediato, da mesma forma ocorre com as consequências proporcionadas pela violência, pois o indivíduo só percebe os efeitos dessa violência quando eles já estão intensos e muitas vezes, já é tarde para amenizá-los (Einarsen et al., 2011; Nunes & Tolfo, 2012). Todavia, embora a violência possa ser sutil, invisível, as consequências podem ser devastadoras e repercutir para a vida inteira do alvo e daqueles que os cercam (Pellegrini, 2016). No que tange ao ambiente desta pesquisa, a Pós-Graduação stricto sensu, os fatores elencados de sofrimento laboral podem afetar diretamente o bem-estar, a saúde e a qualidade de vida dos docentes e discentes, quando não são ressignificados por eles. Elementos estressantes gerados continuamente causam sofrimento e acabam por minar a resistência do indivíduo, expondo-o ao desgaste. Esse estado pode gerar angústia, insatisfação e tensão e aumentar o absenteísmo (Lima & Lima-Filho, 2009; Marquese & Moreno, 2009), principalmente para aqueles desencadeados por distúrbios psíquicos (Gasparini, Barreto, & Assunção, 2005). Nos cursos stricto sensu há indivíduos desempenhando diversas atividades que incluem pesquisa, docência, tarefas administrativas, organização de eventos científicos, escrita de relatórios, artigos acadêmicos entre outras atividades que lhes são (im)postas. As pesquisas sobre o significado do trabalho contextualizam o pós-graduando como trabalhador, inclusive no que diz respeito ao recebimento monetário, que é proporcionado pelas agências de fomento e pesquisa por meio das bolsas de pesquisa que possibilitam a dedicação exclusiva dos discentes às atividades da pós- graduação (De Souza, Cavalcanti, & Cavalcante, 2018). O estudante da pós-graduação trabalha como um funcionário para os docentes que estão expostos a todos os elementos estressores já elencados neste estudo, apesar de não ser reconhecido formalmente como tal. Por sua vez, o discente está exposto aos mesmos elementos estressores em uma relação dúbia, que já é, por si só, um fator estressor que pode desafiar a sua saúde mental. Todos esses elementos estressores identificados na vida acadêmica do estudante da pós-graduação têm potencial gerador de estresse com consequências negativas à saúde mental, comprometendo a qualidade de vida desse sujeito. De Souza et al. (2018) realizaram um estudo sobre a Síndrome de Burnout em discentes da pós-graduação de uma Universidade Pública Brasileira, eles constataram que a dimensão da exaustão emocional foi a mais acometida no contexto pesquisado. Todos eles demonstraram sentimentos negativos em detrimento dos positivos, principalmente relacionados ao cansaço e ao estresse, o que sugere o alto nível da presença dessa dimensão, já que a sobrecarga de trabalho é uma das variáveis mais apontadas como predisponentes ao Burnout (Codo, 2006; Lautert, 1995; Meneghini, Paz, & Lautert, 2011). Cesar, Sousa, Ribeiro e Oliveira (2018) apontam que os elementos estressores elencados pelos discentes podem ser segmentados nas seguintes categorias: a) características individuais: dificuldades financeiras, insegurança quanto ao futuro, ser mulher, poucas horas de sono, emoções negativas e ansiedade; b) atividades acadêmicas: o uso intenso de habilidades cognitivas culminam em significante estresse para obter desempenho suficiente em atividades de avaliação, cumprimento dos prazos de finalização de atividades, elaboração da dissertação e pressão para executar as atividades acadêmicas; c) relacionamentos interpessoais: conflitos no contexto acadêmico com outros estudantes e orientadores, falta de tempo para dedicar-se a familiares e amigos culminando em conflitos pessoais. Método A pesquisa caracteriza-se como mista incorporada, que, segundo Creswell e Clark (2013), compreende a coleta e análise de dados qualitativos ou quantitativos dentro de um projeto Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 28, No. 11 Dossiê Especial 7 quantitativo ou qualitativo. Portanto, a perspectiva quantitativa apresenta dados gerais sobre as consequências identificadas pelos participantes, complementadas pela abordagem qualitativa para compreender significados, sentimentos, comportamentos dos participantes em uma perspectiva mais profunda e subjetiva (Minayo, 1994). Por sua vez, classifica-se também como descritiva e estudo de caso, pois descreve as consequências proporcionadas pelas vivências de situações de assédio moral apresentadas pelos participantes da pesquisa, descobrindo-se, assim, os efeitos que essa violência pode proporcionar. O lócus desta pesquisa foi uma Universidade Estadual brasileira, que, até 2017, apresentava aproximadamente 600 servidores docentes (dados oficiais da instituição não apresentaram o quantitativo de docentes vinculados aos Programas de Pós-Graduação) e 2.312 discentes (mestrado e doutorado). Não foi definida uma amostra para a pesquisa, uma vez que os pesquisadores entraram em contato com todos os Programas de Pós-Graduação (PPG) para divulgação da pesquisa, além do envio de e-mails para discentes e docentes que divulgaram seus contatos nas páginas dos PPGs. Foram enviados 50 e-mails para as secretarias dos PPGs e 1.112 e-mails para os discentes e docentes. Por fim, foram computadas 126 respostas do questionário por completo, no entanto, o tema foco deste artigo (consequências do assédio moral) foi apresentado por apenas 44 respondentes que se identificaram como vítimas de assédio moral. A coleta dos dados ocorreu por meio de duas formas: questionário on-line (abertas e fechadas) para se ter uma visão mais abrangente do fenômeno pesquisado e entrevistas individuais com roteiro semiestruturado para complementar e exemplificar com mais detalhes as experiências dos participantes. Portanto, a estrutura de ambos os instrumentos foi composta de: termo de consentimento livre e esclarecido; dados sociodemográficos; assédio moral no trabalho – tendo como base as pesquisas de Nunes (2016). As entrevistas aconteceram paralelamente à aplicação do questionário mediante a disponibilização do participante dentro do próprio instrumento on-line, no qual o pesquisado poderia deixar seus dados (e-mail e/ou telefone) para posterior contato. Dessa forma, ocorreram análises das respostas dos participantes com o intuito de observar se poderiam apresentar mais informações sobre o fenômeno estudado. Dos 20 participantes que se disponibilizaram, 15 foram selecionados e apenas sete retornaram o contato e foram entrevistados. Nas entrevistas, os aspectos pertinentes ao fenômeno de estudo foram aprofundados. Em relação à técnica de análise de dados, utilizou-se a análise de conteúdo desenvolvida por Bardin (2016), que se caracteriza pela: pré-análise (organização do material, transcrição e demais); exploração do material (desenvolvimento de categorias); e pelo tratamento dos resultados, inferência e interpretação (análise reflexiva e crítica dos resultados). Dessa forma, a partir da literatura do tema (Freitas, Heloani, & Barreto, 2008; Hirigoyen, 2006; Nunes, 2016; Nunes & Tolfo, 2012), os dados foram categorizados em consequências na: saúde (física e/ou psíquica); relacional/afetivo; trabalho/estudo. Ademais, a pesquisa foi enviada e aprovada pelo Comitê Permanente de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da instituição pesquisada. Logo, o respeito às normativas sobre o manejo correto dos conteúdos de dimensões da vida humana foi praticado conforme prevê a Resolução n. 466, de 12 de dezembro de 2012, do Conselho Nacional de Saúde (Brasil, 2012). Por fim, para garantir a proteção e o anonimato dos participantes, os respondentes do questionário on-line foram identificados com a letra “Q” seguida pelos respectivos número (1 a 36: docente; 37 a 126: discentes de mestrado ou doutorado) e os entrevistados com a letra “E” (1 e 4: docentes; 2, 3, 5 a 7: discentes de mestrado ou doutorado). Assédio Moral na Pós-Graduação 8 Análise e Interpretação dos Dados Inicialmente, é fundamental descrever o público pesquisado: discentes e docentes vinculados aos PPGs da universidade analisada. Conforme apresentado anteriormente, dos 126 respondentes do questionário on-line, cerca de 44 participantes se identificaram como vítimas de assédio moral. Portanto, esta seção apresentará as informações sobre esse público. Tabela 2 Descrição dos participantes (questionário on-line e entrevistas) Dados do Questionário (44) Freq. % Sexo: Feminino 29 65,9 Idade: 25 a 35 anos 26 59,1 Estado Civil: Casado(a)/União Estável 22 50 Vínculo com a Pós-Graduação: Docente 11 25 Vínculo com a Pós-Graduação: Discente de Mestrado 14 31,8 Vínculo com a Pós-Graduação: Discente de Doutorado 19 43,2 Centro de Vínculo: Ciências Sociais Aplicadas 14 31,8 Tempo de trabalho na Universidade (Docentes): mais de 25 anos 4 36,4 Tempo de trabalho na Pós-Graduação (Docentes): de 1 a 5 anos 6 54,5 Cargo de Direção na Pós-Graduação (Docentes): Não 7 70 Tempo que cursa Pós-Graduação (Discentes): de 2,5 anos a 3 anos 8 24,2 Bolsista (Discente): Sim 21 63,6 Obrigado a cumprir carga horária semanal (Discente): Não 19 57,6 Dados das Entrevistas (7) Freq. % Sexo: Feminino 5 Vínculo com a Pós-Graduação: Discente de Doutorado 3 Vínculo com a Pós-Graduação: Discente de Mestrado 2 Vínculo com a Pós-Graduação: Docente 2 Tempo na Pós-Graduação: de 1,5 a 2 anos 2 Bolsista: Sim 3 Nota: Dados primários. A caracterização dos participantes possibilita a compreensão do público respondente, foco desta pesquisa, e das consequências proporcionadas pelo assédio moral. Portanto, a partir dessa breve descrição, serão apresentadas as análises e as interpretações dos dados obtidos no questionário on-line e nas entrevistas. A Contextualização do Assédio Moral Esta subseção contextualiza algumas situações de assédio moral identificadas na pesquisa por meio das respostas dos docentes e discentes no questionário on-line e também nas entrevistadas realizadas. Julga-se importante discorrer sobre esses elementos para compreender o aspecto interpessoal, organizacional e cultural presente na pós-graduação que pode favorecer o assédio moral. Dessa forma, é possível relacionar o assédio moral vivenciado pelos participantes e as consequências que interferiram na saúde de cada um (física e/ou psíquica), na vida pessoal e laboral e nas relações de trabalho. Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 28, No. 11 Dossiê Especial 9 Na pesquisa, foram identificadas situações de assédio moral, em maior número, relacionadas ao trabalho, que consistem em: perseguições relacionadas às atividades e ao desempenho do alvo e ações/comportamentos que dificultam as condições de trabalho; assédio pessoal, que implica hostilidades, humilhações e constrangimentos dirigidos a situações ou características particulares do alvo, além de isolamento e exclusão dos grupos sociais; e assédio por intimidações físicas ou sexual, que compreendem agressões verbal, física e/ou sexual. Situações relacionados ao trabalho, como ter opiniões e pontos de vista ignorados, são comuns em qualquer organização. No âmbito da pós-graduação, os relatos apresentados pelos participantes se referem principalmente ao posicionamento político e ideológico, ou seja, dependendo da linha ideológica que o indivíduo segue, algumas hostilidades podem aparecer. No relato de discentes, esse elemento influenciou diversas práticas hostis, uma delas vindo do professor da disciplina que inseria sua ideologia como algo incontestável dentro de sala de aula. “A gente começou a falar o que ele queria ouvir e ler, já que ele não aceitava ou ironizava frequentemente a nossa opinião. Era uma questão de ideologia, política. Ele nunca deixou claro o posicionamento dele, mas dava para ver” (E7). Percebe-se nesse relato uma gestão assediosa por parte do docente contra os discentes que, conforme afirma Nunes (2016), pode levar até outros colegas a agirem com desprezo com aqueles que pensam diferente como uma forma de fazer parte do grupo do agressor ou por medo de serem as próximas vítimas. Ignorar o outro, ainda mais em um ambiente plural e de debate, é promover sentimento de insegurança e de medo, exposição negativa do outro, e levar a crer perante o grupo que aquele que é contra a ideologia “dominante” (do docente no caso) está fadado a sofrer punições (Hirigoyen, 2006; Nunes, 2016). A relação entre o docente e seus pares, muitas vezes, ocorre de forma cordial quando favorece a ambos. Estar como docente na Pós-Graduação é um status que coloca automaticamente aqueles dentro desse sistema em destaque. A vaidade nesse meio é alta e envolve indivíduos que se consideram melhores do que os outros e desejam ser destaque, ter seus egos inflados, podendo também menosprezar os outros e seus trabalhos como forma de se engrandecer (Nunes, 2016). Segundo um dos participantes, “A vaidade é cotidiana na pós-graduação. Se manifesta quando um docente passa o tempo todo criticando os colegas, quando ele acredita que os seus artigos têm mais qualidade do que os trabalhos dos demais e passa a desqualificar os outros” (Q1). Nesse interim, para Silva, Heloani e Piolli (2012, p. 381), “o individualismo é incitado pela regulação avaliativa punitiva, e, às vezes, sutil, manipulatória da vaidade e instauradora de competitividade mórbida”. Um dos males da nossa sociedade, o preconceito, também é identificado dentro da pós- graduação, por exemplo, a origem e a religião, conforme relatos: “Maioria dos alunos do Programa são de fora, Nordeste e Norte. E eles acabam se sentindo constrangidos com ‘brincadeiras’ feitas por outros alunos frequentemente” (E6); “Ele ficava fazendo muito julgamento pessoal, falava ‘você fala muito como crente’ e criticava isso, porque eu não devia usar esse linguajar... Sempre achava uma maneira de me hostilizar. E eu com medo, eu ia nas reuniões com medo” (E5). A recusa da diferença de uma característica da vítima pode ser um dos gatilhos para comportamentos e práticas de assédio moral (Hirigoyen, 2006; Tolfo, Silva, & Krawulski, 2015). Outro elemento recorrente é a exposição do(s) discente(s) sobre seus posicionamentos dentro de sala de aula, não no sentido de ideologia ou político já mencionado, mas a humilhação e a diminuição do indivíduo perante o coletivo. Segundo a participante, “Dei minha opinião em uma atividade na aula ... e o professor agiu de uma forma muito irônica. Para mim, foi muito constrangedor. Hoje eu vejo que foi um aprendizado... E isso se repetiu por outras aulas, ele fica fazendo piadas e a turma toda ri... eu me sinto humilhada” (E7). Diversas situações de assédio moral tiveram ocorrência (frequente e duradoura) acima de 30% dos participantes, entre elas: a) foi obrigado a realizar um trabalho acima/abaixo do seu nível Assédio Moral na Pós-Graduação 10 de competência; alguém reteve informações que podem afetar o seu desempenho; b) foi atribuído mais trabalho a você do que a outro colega; c) foi solicitado a realizar tarefas despropositadas ou com um prazo impossível de ser cumprido; d) foi ignorado, excluído ou “colocado na geladeira”; e) foi humilhado ou ridicularizado em relação ao seu trabalho; e) espalharam boatos ou rumores sobre você. Por sua vez, duas situações ficaram acima dos 40% de frequência, a saber: a) suas opiniões e pontos de vista foram ignorados; e b) foi exposto a uma carga de trabalho excessiva. Os relatos anteriores são situações recorrentes na pós-graduação em qualquer instituição brasileira e até internacional. Pode-se compreender, portanto, que tais práticas e comportamentos fazem parte do modus operandi desse meio, os quais são perpetrados, incorporados e naturalizados pelos docentes e discentes (Nunes & Mello Neto, 2018). Ou seja, é algo inserido na própria cultura da pós-graduação. A dinâmica organizacional acadêmica reproduz a estrutura da sociedade brasileira que é autoritária, oligárquica, hierárquica e vertical, tecida por desigualdades profundas (Chauí, 2016), o que resulta em exclusões sociais, políticas e culturais. Na academia, há reprodução de posicionamentos políticos e ideológicos da sociedade em cada área de conhecimento, que visa a manter e a fortalecer o mainstream. A passagem para pertencer a tão seleto grupo social é alcançada com a capacidade de o docente/discente reproduzir o discurso vigente e, tal intento, pode ser alcançado com a restrição e a punição ao pensamento crítico. Nesse contexto organizacional, o assédio moral é a estratégia utilizada para restringir a liberdade do livre pensar e a elaboração de pesquisas que visem à evolução teórica que possa explicar os fatos sociais estudados sob novas perspectivas. Nesse sentido, observou-se também que 90,9% dos alvos de assédio moral não realizaram a denúncia, formal ou informal (apenas verbais), no ambiente universitário ou externo (justiça). Os principais motivos são os mesmos daqueles em pesquisas similares: porque não adianta denunciar; medo em sofrer algum prejuízo se denunciasse; criar um clima desagradável no ambiente laboral; e exposição da vítima perante o grupo e organização. Segundo um dos participantes, “Há a sensação de que pouco será feito. Medo de a pessoa que receber a denúncia usá-la contra mim ou criar uma situação prejudicial a mim. Não há um setor ou grupo que de fato faça frente, proteja ou ampare em situações assim” (P115). O consenso entre os participantes da pesquisa é o de que existe um protecionismo presente dependendo quem for o agressor, além da falta de amparo institucional. Quando o agressor é um docente e hostiliza um discente, o desequilíbrio de poder nessa relação é alto, e a proteção em geral recai no docente. Por sua vez, quando o assédio é entre docentes, a punição ou a proteção depende de qual grupo os envolvidos fazem parte. A sociedade brasileira é marcada por diversos traços culturais críticos, entre eles estão o corporativismo, a lealdade às pessoas, o paternalismo e a impunidade, que garantem o funcionamento desse sistema (Alcadipani & Crubellate, 2003). Nesse sentido, as Universidades também incorporam, naturalizam e expandem esses traços culturais, os quais são elementos que podem favorecer a ocorrência do assédio moral e outras manifestações de violência e práticas de comportamentos antiéticos (Nunes, 2016). Em um ambiente que já apresenta constantes pressões internas e externas, cobranças exacerbadas, questionamentos de capacidade e busca incessante pela produtividade, os quais geram efeitos diversos para os indivíduos que nele interagem, a ocorrência do assédio moral potencializa os efeitos negativos. Assim, nesse ambiente “insalubre” somado às violências sofridas, a vivência durante o curso de mestrado ou doutorado para os discentes, por exemplo, é intensa e paulatina – uma vez que o tempo destes é limitado, porém, eles podem carregar as consequências provocadas ao longo de suas vidas. Por outro lado, os docentes da mesma forma carregam e seguram as Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 28, No. 11 Dossiê Especial 11 consequências negativas por desejarem permanecer vinculados à pós-graduação, o que pode provocar a intensificação dos efeitos ao longo do tempo. Consequências do Assédio Moral As informações a seguir apresentam as consequências e os efeitos proporcionados pelas situações de assédio moral vivenciadas e/ou vividas pelos discentes e docentes, as quais podem afetar a saúde psíquica e física, relacional e afetiva, além do trabalho ou estudo no ambiente da pós- graduação. Dessa forma, a Tabela 3 apresenta resumidamente a incidência dessas categorias na pesquisa. Tabela 3 Consequências do assédio moral Consequências do Assédio Moral Freq. % Saúde Psíquica 44 54,3 Saúde Física 3 3,7 Relacional/Afetivo 12 14,8 Trabalho/Estudo 22 27,2 Total 81 100 Nota: Dados primários. A Tabela 3 apresenta o que a própria literatura relata sobre os casos de assédio moral, aqui estão elencadas as consequências causadas pelo assédio que afetam principalmente a saúde psíquica das vítimas (Freitas et al., 2008; Hirigoyen, 2006). Ademais, essas consequências afetam em maior ou menor grau outras esferas da vida do indivíduo. Logo, nas próximas subseções serão apresentados os principais efeitos de cada categoria e as verbalizações dos pesquisados para contextualizar a gravidade de consequências que o assédio pode proporcionar para o alvo. Consequências do Assédio Moral: Saúde Psíquica e/ou Física Segundo os participantes, a maioria dos efeitos proporcionados pela vivência de situações de assédio ocorre na sua saúde psíquica (55,7%), e, com isso, podem surgir efeitos para outros âmbitos: no físico, no desempenho do trabalho e no relacionamento com colegas e familiares (Barreto, 2000). É importante enfatizar que as consequências do assédio podem ser devastadoras e severas para o alvo, ou seja, o assédio moral não é uma “frescura” do indivíduo (Freitas et al., 2008; Nunes & Tolfo, 2012; Pellegrini, 2016). Para esses autores, ao longo do tempo, as consequências podem se intensificar devido ao constante “massacre” que o alvo vivência, além disso, esse “massacre” pode causar danos irreparáveis. Ao tratar da saúde psíquica e física, Hirigoyen (2006, p. 162) ressalta que “um choque físico pode ter efeitos psiquiátricos, e um choque emocional pode implicar em uma série de consequências. Passa-se, assim, do físico ao psíquico e reciprocamente. A representação ou o temor do acontecimento cria por sua vez a mesma síndrome”. Ou seja, os efeitos na saúde física podem repercutir na saúde psíquica e, assim, mutuamente. A Tabela 4, a seguir, apresenta as consequências identificadas na saúde psíquica e física dos participantes. Assédio Moral na Pós-Graduação 12 Tabela 4 Consequências do assédio moral: saúde psíquica e física Saúde Psíquica Freq. % Participantes Raiva 4 9,1 Q4; Q6; Q113; Q115 Ansiedade 3 6,8 Q37; Q70; Q113 Baixa autoestima 3 6,8 Q15; Q43; Q117 Choro 3 6,8 Q70; Q78; Q113 Depressão 3 6,8 Q37; Q83; Q113 Desmotivação 3 6,8 Q6; Q17; Q104 Constrangimento 2 4,5 Q54; Q104 Danos psicológicos 2 4,5 Q49; Q113 Desânimo 2 4,5 Q59; Q115 Frustração 2 4,5 Q109; Q115 Sentimento de inferioridade 2 4,5 Q70; Q113 Sentimento de incompetência / incapacidade 2 4,5 Q37; Q113 Tristeza 2 4,5 Q78; Q109 Outros 11 25,4 Q30; Q37; Q39; Q70; Q84; Q113; Q120 Total 44 100 Saúde Física Freq. % Participantes Alopecia (perda de cabelo) 1 33,3 Q70 Aumento de peso 1 33,3 Q113 Tremedeira 1 33,3 Q113 Nota: Os itens em Saúde Psíquica com frequência menor que 2 focam alocados em “Outros”, a saber: aborrecimentos; dificuldade de concentração; dificuldade na leitura; inquietação; insônia; mal-estar; ideação suicida; sensibilidade; síndrome do pânico; sofrimento; vulnerabilidade. As consequências para a saúde dos participantes assediados, tendo como base os respondentes do questionário on-line, não tiveram muito destaque na incidência dos efeitos. O que não significa que não ocorreram ou que não foram graves, pois, muitas vezes, não são identificadas, assim como a violência em si (Hirigoyen, 2006, 2008). A raiva, elemento com maior frequência, é um sintoma manifestado principalmente pelos homens (Barreto, 2008; Freitas et al., 2008), uma vez que, culturalmente, o homem não deve demonstrar fraqueza e tende a ter pensamentos e sentimento mais agressivos, como raiva e vingança. Por sua vez, segundos os autores, as mulheres tendem a ter mais tristeza e choro, por exemplo. No entanto, tanto os homens quanto as mulheres participantes da pesquisa apresentaram o sentimento de raiva, mas, não contextualizando, por exemplo, se esse sentimento é direcionado ao agressor por ter passado pela situação hostil ou por não ter reagido. O assédio moral representa um sofrimento que pode gerar ansiedade, vergonha, medo, baixa autoestima e diversos sentimentos que inferiorizam e inibem o indivíduo em reagir, e com o tempo, os efeitos pioram podendo levar ao suicídio (Barreto & Venco, 2011). Para Hirigoyen (2006), quando o indivíduo não consegue reagir, debilitado psiquicamente para isso, ele acaba ficando alienado e sente-se afastado de si. Em pesquisa desenvolvida por Levecque, Anseel, Beuckelaer, Heyden e Gislef (2017) com discentes de doutorado, os autores identificaram que grande parte destes experienciaram algum distúrbio psicológico ou o risco de desenvolver algum transtorno psiquiátrico. Para eles, os efeitos Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 28, No. 11 Dossiê Especial 13 mais comuns foram: estar sobre pressão constante, demonstrar tristeza, depressão e problemas para dormir devido às preocupações, sentir falta de habilidade para ultrapassar as dificuldades e não conseguir aproveitar as atividades diárias. Como forma de contextualizar melhor as consequências do assédio moral, tendo como foco principal a saúde (psíquica e/ou física), algumas verbalizações foram selecionadas: “Eu acho que o que mexe no psicológico e na saúde dá uma dor de estômago quando essas coisas acontecem” (E1); “Eu emagreci bastante, porque eu não comia muito. Eu comia correndo e pouco para dar tempo de fazer as coisas. Eu dormia, mas eu só sonhava com os textos, acredito que isso vem muito dessa cobrança” (E7); Hoje em dia quando eu falo sobre a Pós, eu consigo levar tranquilo, não é uma coisa que dá mais aperto no coração sabe, de dar palpitação e transpirar, isso hoje não mais... Essa questão do bloqueio de escrita também afetou minha autoestima, até onde eu sou capaz de escrever uma coisa realmente boa... Tive estresse a ponto de não conseguir dormir, aí começa a repercutir, comecei a comer mal... Eu sabia que estava bebendo muito, mas eu falava “cara eu não consigo dormir, eu preciso estar alcoolizado e realmente dopado para deitar e capotar na cama...” Eu ia para lá [dar aula] de ressaca, não era uma aula boa... Comecei a ganhar peso, eu entrei num programa de doutorado com 83kg e consegui atingir 100kg. Eu via que estava inchado, que estava cansado... Eu via que começava a degradar cada vez mais a saúde... Tinha surtos, as vezes acordava no meio da noite e o coração palpitando acelerado, porque eu sonhei que tinha uma coisa para entregar naquele prazo. Tinha uma inquietação, esse transtorno psíquico que tinha de ansiedade... Minha coluna começou a doer muito... Meu colesterol começou a estourar, porque eu não controlava nada. O fígado, eu estava bebendo, passei quase 2 anos bebendo, bebia quarta, quinta, e na sexta saia com minha esposa, e não ia deixar de me divertir. Estava bebendo demais... O álcool usava realmente para anestesiar mesmo, porque eu sabia que eu não acordaria de novo porque eu estava capotado... Quando eu comecei a fazer o tratamento de psicoterapia, comecei a ver os problemas... Tive dor de estômago leve, mas dormindo já resolvia... Imagina, como meu estômago deveria estar cheio de úlcera, talvez por problemas similares, beber, estresse, comer mal. Na cabeça, pensamentos de eu não estou mais bem, medo de fracassar, de frustrar. (E2) Eu fiz uns 2 meses de atendimento psicológico aqui em Maringá, mas aí estava muito caro. Aqui na UEM eles têm um grupo de atendimento psicológico, entrei em contato e não tinha vaga, aí eu falei pra ela “olha, eu estou pensando em me matar” passei por todo o processo de depressão profunda. Pensava em me suicidar várias vezes por semana sabe, é até horrível de se dizer, mas não tinha vaga... E nesse meio tempo, que ficava sozinha, eu pensava “vou me matar, porque eu vou ficar em casa fazendo isso? Eu não sou capaz, não sou competente”. Fiquei um tempo assim, vou me matar, vou me jogar na cerca que tem aquelas pontas. Eu ficava um tempão embaixo do chuveiro chorando. E aquele sentimento ruim dentro, uma angústia terrível, de vontade de morrer, de sumir, desaparecer, nada fazia sentido para mim... E eu ameaçava para ele [marido] “não aguento mais... aí eu tomava todo o remédio. (E5) Como eu comecei a ver que os sintomas da depressão ficaram fortes. Todo mês era um problema de saúde que eu tinha, um mês era bexiga, no outro era estômago, era no outro cabeça, no outro era útero. Tive problema de útero muito forte, de dor. Assédio Moral na Pós-Graduação 14 Desregulou meu ciclo menstrual, eu fiquei sem menstruar, o que nunca aconteceu na minha vida, e eu não estava grávida. Foi assim, uma dor muito forte que eu tive. Fui na ginecologista para saber, e era do sistema nervoso. Além da exigência do doutorado, que era muito, tinha até semana que eu dormia umas 15h na semana. Sinusite atacou bastante também... Toda vez que eu me lembrava já começava a tremer, tinha ansiedade de nervoso. Aí eu só fui começar com remédio em janeiro, isso porque eu tinha amostra grátis do antidepressivo. Comecei a tomar, e engordei 20kg quase. Toda vez que eu começo a entrar em colapso, eu começo a tremer. Quando eu lembro do que ele fala eu começo a tremer... Me confundia com as datas, daí que eu tive que tomar remédio para começar a fazer as pesquisas. Começava a chorar porque já estava me sentindo hostilizada. (E5) As verbalizações anteriores relatadas pelos entrevistados apresentam alguns efeitos que prejudicaram a saúde física e psíquica. Por sua vez, E2 e E5 apresentaram mais detalhes das consequências proporcionadas pelo assédio que vão desde o bloqueio da escrita, situação que acontece de forma frequente na pós-graduação, ao início de vícios diversos e até de suicídio. Segundo Hirigoyen (2006, p. 161), “após um certo tempo de evolução dos procedimentos de assédio, os distúrbios psicossomáticos passam quase sempre ao primeiro plano. O corpo registra a agressão antes do cérebro, que se recusa a enxergar o que não entendeu”. Para a autora, alguns desses distúrbios se manifestam por emagrecimentos ou aumento rápido de peso (15 a 20kg em alguns meses), distúrbios digestivos (gastrites, úlceras de estômago), distúrbios endócrinos (problemas de tiroides, menstruais), crises de hipertensão arterial, vertigens, doenças de pele e outros. O indivíduo em depressão que sofre assédio moral tem seu quadro piorado quando a violência se prolonga ou se torna mais intensa, podendo apresentar complexo de culpa, desinteresses por seus próprios valores e atividades, apatia, tristeza, não se sente capaz de realizar suas atividades (Hirigoyen, 2006). E nesse estado precisam ainda mais de constante vigilância, pois a possibilidade de suicídio é risco real (Barreto & Venco, 2011). Consequências do Assédio Moral: Relacional/Afetivo Em decorrência das consequências causadas à saúde da vítima, o mesmo acaba afetando os seus relacionamentos, no trabalho, na sua rede social e familiar, podendo intensificar ainda mais o sofrimento causado durante a violência. Foram identificadas algumas situações relatadas pelos participantes, conforme pode ser visualizado na Tabela 5 a seguir. Tabela 5 Consequências do assédio moral: relacional/afetivo Relacional/Afetivo Freq. % Participantes Afastamento/Perda de amigos 4 33,3 Q28; Q34; Q78; Q113 Crises conjugais 2 16,7 Q78; Q113 Desgaste nas relações de trabalho 2 16,7 Q7; Q49 Afastamento da vida social 2 16,7 Q34; Q86 Afastamento da família 1 8,3 Q78 Crises familiares 1 8,3 Q113 Total 12 100 Nota: Dados primários. Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 28, No. 11 Dossiê Especial 15 Ao sofrer a violência, o indivíduo-alvo tende a se isolar dos colegas de trabalho, dos amigos e dos familiares por medo, receio de julgamento e vergonha de expor o seu sofrimento (Freitas et al., 2008; Nunes & Tolfo, 2012; Pellegrini, 2016). Porém, segundo os autores, esse isolamento só piora a situação da vítima, promovendo uma potencialização do seu sofrimento, que repercute na sua relação com os outros, podendo promover sentimentos de desamparo familiar. As verbalizações em sequência contextualizam alguns desses aspectos: “Houve um distanciamento das pessoas, até da família. Às vezes, estava estressada. Só que, assim, ele [marido] estava fazendo pós-graduação, então, ele entende também” (E3); Prejudicou o meu relacionamento com meus pais, acabei projetando frustrações neles que não são exatamente deles. E eu vejo que prejudicou, e eu não quero que prejudique mais... Ao mesmo tempo fragilizou a relação que eu tinha com os amigos... Com relação ao meu casamento, a minha esposa é muito querida. Foi uma pessoa que eu sentia amparo, e até falei assim, eu prefiro perder o doutorado que perder meu casamento. E isso já falei nitidamente, porque vem esses comentários, “às vezes, deixa um pouco de lado a esposa, porque tem trabalho”. Aí eu falo, a minha esposa é minha vida, o doutorado não. Na vida sexual acaba prejudicando, você acaba acumulando energia para um lado e acaba faltando para outro lado. Minha vida sexual era boa de forma geral, mas teve um momento que ela chegava a prejudicar. Imagina, dois meses sem nada e recém-casados, não é a vida que eu quero. Também não abdiquei de viajar com ela, viagem curta, de 3-4 dias, mas ia com peso na consciência. Então, eu vejo que afetou a vida pessoal (E2). Esse daqui [marido], eu falo para ele que ele não entende o que é assédio moral, depressão. Ontem mesmo eu falei pra ele, [Fulano], e eu chorando. [Marido falando] “se eu não entendesse o que você estava passando, a gente estaria separado já”. Então, repercutiu sim, porque eu falo para ele, “olha, eu queria que ele sentisse na pele o que eu senti, mas ao mesmo tempo eu não queria”, eu não quero que ninguém sinta (E5). Os três entrevistados relataram que se afastaram dos amigos, familiares e cônjuge. Os cônjuges de E2 e E3 fizeram/fazem pós-graduação, então, segundo eles, os companheiros compreendem como é viver um mestrado ou doutorado. No entanto, não ficou evidenciado nas conversas se esse “saber” também inclui questões hostis ou se tais situações são naturalizadas pelos cônjuges como parte do processo. Em entrevista realizada com E5, na qual seu marido participou em determinados momentos apoiando-a, foi questionado se o assédio moral teve influência na relação conjugal. Ficou evidenciado pelas falas e pelos comportamentos que todo o processo e seus efeitos afetaram o relacionamento. Além disto, o cônjuge não consegue compreender claramente o processo em que E5 passou e passa e, em vários momentos, ele falou que ela deveria ter confrontado o agressor, como se a situação de assédio só tivesse ocorrido porque ela “permitiu”, que não teve uma reação de confrontar. Determinados comportamentos e atitudes por parte de pessoas que não estão ou não vivenciaram situações de assédio acabam por prejudicar ainda mais o alvo, pois o indivíduo não encontra um amparo afetivo/emocional e no futuro evita relatar novos acontecimentos. Para Hirigoyen (2006; 2008) e Freitas et al. (2008), só quem realmente compreende todo o sofrimento proporcionado pela vivência de situações de assédio moral é quem passou/passa pela violência. A estrutura familiar/conjugal, segundo Cassitto, Fattorini, Gilioli, Rengo e Gonik (2003), Caldas (2007) e Yung (2011), é afetada, pois há momentos de crises quando um ou mais membros Assédio Moral na Pós-Graduação 16 vivenciam situações de assédio moral. Pellegrini (2016) complementa isso ao relatar que existem mudanças na rotina e na organização da família diante da vivência de assédio moral, com repercussões para os relacionamentos entre os cônjuges e com seus filhos. Logo, para a autora, o compartilhamento dessas experiências é importante para manter a estrutura familiar/conjugal e também para construir medidas de enfrentamento e de fortalecimento do assediado(s) e familiar. Consequências do Assédio Moral: Trabalho/Estudo Embora o assédio moral provoque principalmente consequências na saúde da vítima, os efeitos também extrapolam esse limiar – conforme explanado nesta pesquisa. O assédio também repercute no desenvolvimento das atividades e na adesão do indivíduo ao seu trabalho e, no caso, na sua permanência na pós-graduação. Tabela 6 Consequências do assédio moral: trabalho/estudo Trabalho/Estudo Freq. % Participantes Desilusão com o meio acadêmico/pós-graduação 4 18,2 Q15; Q42; Q113; Q123 Aumento da carga de trabalho 3 13,6 Q9; Q39; Q86 Vontade de desistir da pós-graduação (discente) 3 13,6 Q49; Q78; Q101 Queda na produtividade 2 9,1 Q28; Q84 Sem vontade de trabalhar/ir para a aula 2 9,1 Q15; Q49 Sentimento de impunidade/injustiça 2 9,1 Q4; Q113 Vontade de desistir da docência 2 9,1 Q15; Q113 Afastado da função 1 4,5 Q4 Atraso dos trabalhos 1 4,5 Q105 Bloqueio da escrita 1 4,5 Q115 Perda da bolsa 1 4,5 Q101 Total 22 100 Nota: Dados primários. Observa-se, pelos dados apresentados na Tabela 6, a desilusão e a vontade de desistir da pós- graduação como situações que ocorrem com frequência, pois o próprio ambiente proporciona lembranças e sensações que não são desejadas pelos alvos, além de possível reencontro com o(s) agressor(es) (Hirigoyen, 2008; Nunes & Tolfo, 2012). Teve dia que eu nem fui para a aula de tão estressada que eu estava. Deitei na cama, fiquei por lá. “Eu não vou, não vou”. Cheguei a pensar em desistir, e eu acho que não só eu, várias pessoas... Tem bastante gente ali que desistiu, uns 25%, é muito gente. Gente que saiu com depressão, com coisas assim. Um monte de gente tomando ritalina, passando mal de tomar energético (E3). O efeito relacionado ao trabalho/estudo refletiu mais na identificação com o ambiente acadêmico, e não, especificamente, com a produtividade (leituras e escritas), como é mais comum nas pesquisas. Possivelmente, pelo fato de a pós-graduação ser uma questão opcional (principalmente para os docentes) e momentânea para os discentes (que podem procurar outros Programas), a vivência de situações de assédio faz com que se pense sobre a importância em continuar ou não. Corroborando essas questões, foi perguntado aos discentes, respondentes do questionário, “se os acontecimentos ocorridos na pós-graduação influenciam na carreira/escolha como docente”. As respostas apresentaram dois elementos principais, o repensar sobre a profissão e o de não Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 28, No. 11 Dossiê Especial 17 reproduzir as práticas hostis vivenciadas em sala de aula. “Se eu for docente um dia nunca, jamais tratarei um aluno como fui tratada” (Q37); “Não sei se quero fazer parte desse mundo que acha normal a falta de respeito com o outro” (Q78); “Influenciam de forma contundente. São práticas que não pretendo levar para a minha vida profissional” (Q123). Ademais, a desigualdade de poder, como um elemento presente na cultura e nas práticas da Universidade, que pode favorecer a ocorrência do assédio moral (Nunes, 2016), dentro da pós- graduação, e, principalmente, na relação docente/orientador e discente/orientando, pode ainda provocar sentimentos e efeitos negativos quando essa relação incide o assédio moral: “A gente fica muito vulnerável à pessoa que ‘comanda’. Essa pessoa pode mexer os pauzinhos dela. Eles têm muito poder em cima da gente, e se eles quiserem fazer alguma coisa, eles têm como. É a hierarquia, a gente sabe quem manda” (E3). As verbalizações apresentadas pelos participantes sobre suas vivências de assédio moral vão muito além de consequências “simples e leves”, podem ter uma duração longínqua e prejudicar toda sua vida pessoal e laboral (Heloani & Barreto, 2018). Afeta sua dignidade e projetos futuros, além do sentido e significado em estar cursando uma pós-graduação ou em ser um docente dela (Nunes & Mello Neto, 2018). O não reconhecimento e a desvalorização do servidor público (docente) e do discente podem afetar o sentido que eles dão ao seu trabalho no presente e nas projeções futuras (Nunes & Mello Neto, 2018; Ribeiro & Mancebo, 2018), saindo de algo positivo (crescimento profissional e pessoal, contribuição sociais e demais) para algo negativo (sofrimento) e/ou instrumental (“trampolim” para algo melhor, sobrevivência). Rates & Leda (2018) complementam o que foi dito ao enfatizar que se faz necessário o desenvolvimento de políticas públicas na área da educação que priorizem o docente e a docência, de modo a defender o seu trabalho e a profissão de forma digna, respeitosa e com reconhecimento da sua importância. Sabe-se e fala-se veladamente na academia sobre saúde mental, precarização do trabalho, competitividade (Rates & Leda, 2018; Ribeiro & Leda, 2016), publicar ou perecer, discriminação, assédio (Nunes & Mello Neto, 2018). No entanto, esses e outros assuntos precisam ser mais debatidos e desenvolvidos para proporcionar ambientes e indivíduos mais saudáveis, pois simplesmente negar a existência de aspectos negativos nesse ambiente altamente turbulento, é negar a si mesmo. Ademais, é importante e fundamental finalizar esta subseção apresentando uma ideia que é promovida e até naturalizada por muitos docentes e discentes na pós-graduação, que é a aceitação de que ficar “doente” durante o mestrado/doutorado faz parte do processo. A ideia de que ficar doente é uma coisa normal, e depois você vai poder se reabilitar. A ideia de que se perder a amizade, não tem problema, porque depois você recupera. Então assim, gera uma atmosfera que é assim mesmo, de que não se deve se preocupar, porque depois fica tudo bem. Quando eu comecei com a psicologia, eu vi que não é assim, que não vai ser assim. Porque eu estou me culpando nos dias que eu estou dormindo, que eu estou viajando, que eu estou com minha esposa, que eu estou bebendo com meus amigos, e não tem nada de errado nisso. Não tem absolutamente nada de errado. (E2) Por fim, pelas verbalizações dos participantes, ficou evidenciada a intensidade em que determinados efeitos se manifestaram. O ambiente da pós-graduação não é completamente saudável, pois apresenta uma carga de trabalho que, muitas vezes, extrapola o necessário, além de ser um ambiente altamente competitivo e de muitos egos inflados. Essa questão, somada ao assédio moral, demonstra a necessidade de criar ações coordenadas para dar suporte tanto aos discentes (elo mais fraco) quanto aos docentes e de disponibilizar canais em que as pessoas possam relatar suas situações de Assédio Moral na Pós-Graduação 18 modo a cessar essas vivências hostis, além de minimizar as consequências proporcionadas pela ação – transformando esse período de pós-graduação em algo mais saudável. Além disso, não se pode naturalizar as práticas hostis e seus efeitos, pois é preciso agir e prevenir. Considerações Finais Esta pesquisa atendeu ao objetivo de identificar as consequências pelo assédio moral em discentes e docentes vinculados aos Programas de Pós-Graduação stricto sensu em uma Universidade Estadual Brasileira. A metodologia utilizada mostrou-se adequada para a pesquisa e proporcionou resultados consistentes e relevantes. Na pesquisa bibliográfica, identificou-se que esse é um tema importante pela possibilidade de agravos à saúde da população estudada e pelo potencial deletério e de disseminação desse comportamento na academia. Apesar de muitos estudos encontrados na literatura brasileira, o número de respondentes desta pesquisa revela que esse é um assunto teorizado, mas que não tem recebido expressiva adesão para estudos. A análise de resultados demonstra que o tema ainda é negado e, portanto, não reconhecido pelos docentes e discentes, tendo em vista o número de questionários enviados e as respostas obtidas. O percentual de 65,9% de respondentes do sexo feminino corrobora os achados de pesquisa (Hirigoyen, 2006), que concluíram ser a mulher mais vulnerável ao assédio. Por suas características intrínsecas e pelo contexto social de contínuas violações de seus direitos, a mulher reconhece com maior prontidão ser vítima de um assédio moral. O percentual de discentes respondentes (mestrandos e doutorandos) foi maior do que o de docentes, conforme mostrou a Tabela 2, o que leva a considerar o silenciamento dos docentes quanto ao assédio moral e a resistência ao sofrimento mental por parte dos discentes. Identificar e expressar as emoções negativas e as angústias diante do quadro de abuso e de violência podem ser entendidos como um ato de resistência e um grito de socorro diante da dominação infringida. A maioria dos efeitos proporcionados pela vivência de situações de assédio ocorre na sua saúde psíquica (55,7%), o que significa que a saúde integral do indivíduo está comprometida, assim como sua produtividade laboral e suas relações interpessoais nos grupos aos quais pertence (Barreto, 2000). As emoções negativas experienciadas podem ser maiores do que a satisfação e a realização no trabalho. A vivência do assédio pode trazer consequências de curto, médio e longo prazo, pois as reações ao sofrimento biopsíquico podem surgir ao longo da vida do sujeito e prejudicar a sua vida laboral, afetiva e pessoal. A fala frequente, mas velada, a respeito do assédio moral na pós-graduação precisa se tornar audível e frequente para que possa haver um acesso maior à informação e à oportunidade de discussões, pois, assim, será possível estabelecer medidas de contenção e de desenvolvimento de estratégias para o enfrentamento do assédio. A banalização desse problema e a negação de sua existência, assim como dos aspectos negativos nesse ambiente altamente turbulento, se constituem mais uma violência praticada contra os docentes e discentes, com repercussões no significado e no sentido do trabalho acadêmico e, consequentemente, na produtividade. Ribeiro e Leda (2016) ressaltam as arapucas veladas nos discursos produtivistas no trabalho acadêmico, modelo gerencialista importado do setor privado, inserido na cultura da pós-graduação, e que cria barreiras para que o indivíduo consiga agir criticamente. A naturalização do sacrifício de ficar “doente” durante o mestrado/doutorado é uma ideia perversa perpetrada entre os próprios docentes e discentes na propagação dessa cultura de violência. A Universidade é um importante lócus de saber e de experiências e precisa ampliar a perspectiva de cuidado para com a população, da qual ela faz parte, e fazer jus ao seu papel social dentro de seus muros. É necessário ampliar a perspectiva da visão de seu papel como Promotora de Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 28, No. 11 Dossiê Especial 19 Saúde, em que os processos de promoção da saúde sejam contínuos e abranjam todas as áreas da instituição, incluindo docentes, pesquisadores, gestores e demais funcionários, discentes e comunidade local. Além disso, as instalações e a estrutura organizacional devem permear as discussões e intervenções sobre assédio moral, saúde mental e outros temas correlacionados. Esta pesquisa contribuiu para o conhecimento ao trazer as informações sobre o adoecimento psíquico causado pelo assédio moral na pós-graduação, corroborando outros estudos brasileiros, o que poderá dar força e impulso a ações para enfrentamento desse problema de saúde coletiva. Contribui também para a Ciência em uma visão interdisciplinar sobre o tema. Para finalizar, sugerem-se novas pesquisas sobre as estratégias de enfrentamento possíveis em uma perspectiva preventiva, de suporte e tratamento, com exemplos de experiências já implementadas em outras universidades. Referências Alcadipani, R., & Crubellate, J. M. (2003). Cultura organizacional: Generalizações improváveis e conceituações imprecisas. Revista de Administração de Empresas, 43(2), 64-77. Bardin, L. (2016). Análise de conteúdo (1. ed., rev. e ampl). São Paulo: Edições 70. Barreto, M. (2000). Uma jornada de humilhações (Dissertação de Mestrado). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social, São Paulo. Barreto, M. (2006). Violência, saúde e trabalho: Uma jornada de humilhações. São Paulo: EDUC. Barreto, M., & Venco, S. (2011). Da violência ao suicídio no trabalho. In M. Barreto, N. B. Netto, & L. B. Pereira (Orgs.). Do assédio moral à morte de si: Significados sociais do suicídio no trabalho (pp. 221-248). 1. ed. 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Assédio Moral na Pós-Graduação 22 Sobre os Autores Thiago Soares Nunes Centro Universitário Una adm.thiagosn@gmail.com ORCID: http://orcid.org/0000-0002-1323-8160 Professor do Mestrado Profissional em Administração do Centro Universitário Una. Pós- Doutorado em Administração pela Universidade Estadual de Maringá. Doutor em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com período sanduíche no Departamento de Psicologia Social da Universidade Autônoma de Barcelona (UAB/Espanha). Mestre e Graduado em Administração pela UFSC. Eliana Marcia Martins Fittipaldi Torga Centro Universitário Una elianatorga@gmail.com ORCID: http://orcid.org/0000-0003-4175-9390 Doutora e Mestre em Administração pela Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais, graduação em Psicologia - Instituto Cultural Newton de Paiva Ferreira. Pós-graduada em Psicologia Hospitalar e Intervenção em Emergências em Sevilha, Espanha. Professora Adjunta do Centro Universitário Una. Docente do Programa de Mestrado Profissional em Administração. Sobre as Editoras Convidas Deise Mancebo Universidade do Estado do Rio de Janeiro deise.mancebo@gmail.com http://orcid.org/0000-0001-8312-4495 Doutora em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professora Titular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Pesquisadora e professora do Programa de Pós- graduação em Políticas Públicas e Formação Humana. Coordenadora da Rede Universitas/Br. Kátia Maria Teixeira Santorum Universidade do Estado do Rio de Janeiro katia.santorum@gmail.com https://orcid.org/0000-0003-2830-157X Doutora em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca / Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Professora Adjunta da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Pesquisadora e professora do Programa de Pós-graduação em Políticas Públicas e Formação Humana. Carla Vaz dos Santos Ribeiro Universidade Federal do Maranhão carlavazufma@gmail.com http://orcid.org/0000-0002-5518-9619 http://orcid.org/0000-0002-1323-8160 http://orcid.org/0000-0003-4175-9390 mailto:deise.mancebo@gmail.com https://urldefense.proofpoint.com/v2/url?u=http-3A__orcid.org_0000-2D0001-2D8312-2D4495&d=DwMFaQ&c=l45AxH-kUV29SRQusp9vYR0n1GycN4_2jInuKy6zbqQ&r=LjMqjl4R-2qm1usoNnGI1mF7F_j_WN6lRbuxHej1Xg8&m=a5H3GjX3nFi00cEsi7rgW0zjo1bVtL5zHcxmcHaNv4M&s=MD3kEUVPZ8AHpRJV2enhiqvfaPhu0vhZ11X1enKhrqs&e= mailto:katia.santorum@gmail.com https://urldefense.proofpoint.com/v2/url?u=https-3A__orcid.org_0000-2D0003-2D2830-2D157X&d=DwMFaQ&c=l45AxH-kUV29SRQusp9vYR0n1GycN4_2jInuKy6zbqQ&r=LjMqjl4R-2qm1usoNnGI1mF7F_j_WN6lRbuxHej1Xg8&m=a5H3GjX3nFi00cEsi7rgW0zjo1bVtL5zHcxmcHaNv4M&s=5w_wrsdWmNP8uEFJl49regE_51Hmuy6vTiH6KG2YGFM&e= mailto:carlavazufma@gmail.com https://urldefense.proofpoint.com/v2/url?u=http-3A__orcid.org_0000-2D0002-2D5518-2D9619&d=DwMFaQ&c=l45AxH-kUV29SRQusp9vYR0n1GycN4_2jInuKy6zbqQ&r=LjMqjl4R-2qm1usoNnGI1mF7F_j_WN6lRbuxHej1Xg8&m=a5H3GjX3nFi00cEsi7rgW0zjo1bVtL5zHcxmcHaNv4M&s=tsfLDRBxCQ3iq0n4X60WzFssX6pnnVpGFLlS3H1Xcs4&e= Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 28, No. 11 Dossiê Especial 23 Doutora em Psicologia Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Professora Associada da Universidade Federal do Maranhão. Pesquisadora e professora do Programa de Pós-graduação em Psicologia da UFMA. Integrante da Rede Universitas/Br. Denise Bessa Léda Universidade Federal do Maranhão denise.bessa.leda@gmail.com http://orcid.org/0000-0002-8696-6126 Doutora em Psicologia Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Professora da Universidade Federal do Maranhão. Professora permanente e pesquisadora do Programa de Pós- Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Maranhão. Membro da Rede Universitas/Br e do Grupo de Pesquisa Psicodinâmica e Clínica do Trabalho da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia. Dossiê Especial O Trabalho no Ensino Superior arquivos analíticos de políticas educativas Volume 28 Número 11 20 de janeiro 2020 ISSN 1068-2341 Los/as lectores/as pueden copiar, mostrar, distribuir, y adaptar este articulo, siempre y cuando se de crédito y atribución al autor/es y a Archivos Analíticos de Políticas Educativas, los cambios se identifican y la misma licencia se aplica al trabajo derivada. Más detalles de la licencia de Creative Commons se encuentran en https://creativecommons.org/licenses/by- sa/2.0/. Cualquier otro uso debe ser aprobado en conjunto por el autor/es, o AAPE/EPAA. La sección en español para Sud América de AAPE/EPAA es publicada por el Mary Lou Fulton Teachers College, Arizona State University y la Universidad de San Andrés de Argentina. Los artículos que aparecen en AAPE son indexados en CIRC (Clasificación Integrada de Revistas Científicas, España) DIALNET (España), Directory of Open Access Journals, EBSCO Education Research Complete, ERIC, Education Full Text (H.W. Wilson), PubMed, QUALIS A1 (Brazil), Redalyc, SCImago Journal Rank, SCOPUS, SOCOLAR (China). 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Fischman (Arizona State University) Editoras Associadas: Andréa Barbosa Gouveia (Universidade Federal do Paraná), Kaizo Iwakami Beltrao, (Brazilian School of Public and Private Management - EBAPE/FGVl), Sheizi Calheira de Freitas (Federal University of Bahia), Maria Margarida Machado, (Federal University of Goiás / Universidade Federal de Goiás), Gilberto José Miranda, (Universidade Federal de Uberlândia, Brazil), Marcia Pletsch, Sandra Regina Sales (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro) Almerindo Afonso Universidade do Minho Portugal Alexandre Fernandez Vaz Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil José Augusto Pacheco Universidade do Minho, Portugal Rosanna Maria Barros Sá Universidade do Algarve Portugal Regina Célia Linhares Hostins Universidade do Vale do Itajaí, Brasil Jane Paiva Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil Maria Helena Bonilla Universidade Federal da Bahia Brasil Alfredo Macedo Gomes Universidade Federal de Pernambuco Brasil Paulo Alberto Santos Vieira Universidade do Estado de Mato Grosso, Brasil Rosa Maria Bueno Fischer Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil Jefferson Mainardes Universidade Estadual de Ponta Grossa, Brasil Fabiany de Cássia Tavares Silva Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Brasil Alice Casimiro Lopes Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil Jader Janer Moreira Lopes Universidade Federal Fluminense e Universidade Federal de Juiz de Fora, Brasil António Teodoro Universidade Lusófona Portugal Suzana Feldens Schwertner Centro Universitário Univates Brasil Debora Nunes Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Brasil Lílian do Valle Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil Geovana Mendonça Lunardi Mendes Universidade do Estado de Santa Catarina Alda Junqueira Marin Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Brasil Alfredo Veiga-Neto Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil Flávia Miller Naethe Motta Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Brasil Dalila Andrade Oliveira Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 28, No. 11 Dossiê Especial 25 archivos analíticos de políticas educativas consejo editorial Editor Consultor: Gustavo E. Fischman (Arizona State University) Editores Asociados: Felicitas Acosta (Universidad Nacional de General Sarmiento, Argentina), Armando Alcántara Santuario (Universidad Nacional Autónoma de México), Ignacio Barrenechea, Jason Beech (Universidad de San Andrés), Angelica Buendia, (Metropolitan Autonomous University), Alejandra Falabella (Universidad Alberto Hurtado, Chile), Carolina Guzmán-Valenzuela (University of Chile), Veronica Gottau (Universidad Torcuato Di Tella), Antonio Luzon, (Universidad de Granada), José Luis Ramírez, (Universidad de Sonora), Paula Razquin, Axel Rivas (Universidad de San Andrés), Maria Veronica Santelices (Pontificia Universidad Católica de Chile), Maria Alejandra Tejada-Gómez (Pontificia Universidad Javeriana, Colombia) Claudio Almonacid Universidad Metropolitana de Ciencias de la Educación, Chile Ana María García de Fanelli Centro de Estudios de Estado y Sociedad (CEDES) CONICET, Argentina Miriam Rodríguez Vargas Universidad Autónoma de Tamaulipas, México Miguel Ángel Arias Ortega Universidad Autónoma de la Ciudad de México Juan Carlos González Faraco Universidad de Huelva, España José Gregorio Rodríguez Universidad Nacional de Colombia, Colombia Xavier Besalú Costa Universitat de Girona, España María Clemente Linuesa Universidad de Salamanca, España Mario Rueda Beltrán Instituto de Investigaciones sobre la Universidad y la Educación, UNAM, México Xavier Bonal Sarro Universidad Autónoma de Barcelona, España Jaume Martínez Bonafé Universitat de València, España José Luis San Fabián Maroto Universidad de Oviedo, España Antonio Bolívar Boitia Universidad de Granada, España Alejandro Márquez Jiménez Instituto de Investigaciones sobre la Universidad y la Educación, UNAM, México Jurjo Torres Santomé, Universidad de la Coruña, España José Joaquín Brunner Universidad Diego Portales, Chile María Guadalupe Olivier Tellez, Universidad Pedagógica Nacional, México Yengny Marisol Silva Laya Universidad Iberoamericana, México Damián Canales Sánchez Instituto Nacional para la Evaluación de la Educación, México Miguel Pereyra Universidad de Granada, España Ernesto Treviño Ronzón Universidad Veracruzana, México Gabriela de la Cruz Flores Universidad Nacional Autónoma de México Mónica Pini Universidad Nacional de San Martín, Argentina Ernesto Treviño Villarreal Universidad Diego Portales Santiago, Chile Marco Antonio Delgado Fuentes Universidad Iberoamericana, México Omar Orlando Pulido Chaves Instituto para la Investigación Educativa y el Desarrollo Pedagógico (IDEP) Antoni Verger Planells Universidad Autónoma de Barcelona, España Inés Dussel, DIE-CINVESTAV, México José Ignacio Rivas Flores Universidad de Málaga, España Catalina Wainerman Universidad de San Andrés, Argentina Pedro Flores Crespo Universidad Iberoamericana, México Juan Carlos Yáñez Velazco Universidad de Colima, México javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/816') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/819') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/820') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/4276') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/1609') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/825') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/797') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/823') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/798') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/555') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/814') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/2703') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/801') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/826') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/802') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/3264') javascript:openRTWindow('http://epaa.asu.edu/ojs/about/editorialTeamBio/804') Assédio Moral na Pós-Graduação 26 Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 28, No. 11 Dossiê Especial 27 education policy analysis archives editorial board Lead Editor: Audrey Amrein-Beardsley Editor Consultor: Gustavo E. Fischman (Arizona State University) Associate Editors: Melanie Bertrand, David Carlson, Lauren Harris, Eugene Judson, Mirka Koro-Ljungberg, Daniel Liou, Scott Marley, Molly Ott, Iveta Silova (Arizona State University) Cristina Alfaro San Diego State University Amy Garrett Dikkers University of North Carolina, Wilmington Gloria M. Rodriguez University of California, Davis Gary Anderson New York University Gene V Glass Arizona State University R. Anthony Rolle University of Houston Michael W. Apple University of Wisconsin, Madison Ronald Glass University of California, Santa Cruz A. G. Rud Washington State University Jeff Bale University of Toronto, Canada Jacob P. K. Gross University of Louisville Patricia Sánchez University of University of Texas, San Antonio Aaron Bevanot SUNY Albany Eric M. Haas WestEd Janelle Scott University of California, Berkeley David C. 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