Internacionalização e extensão universitárias em diálogo: Estado do conhecimento e perspectivas futuras Página web: http://epaa.asu.edu/ojs/ Artigo recebido: 10/1/2022 Facebook: /EPAAA Revisões recebidas: 6/6/2022 Twitter: @epaa_aape Aceito: 15/8/2022 arquivos analíticos de políticas educativas Revista acadêmica, avaliada por pares, independente, de acesso aberto, e multilíngue Arizona State University Volume 31 Número 6 24 de janeiro de 2023 ISSN 1068-2341 Internacionalização e Extensão Universitárias em Diálogo: Estado do Conhecimento e Perspectivas Futuras Fernanda Leal Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Stefani de Souza Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) e Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) & Mário César Barreto Moraes Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) Brasil Citação: Leal, F., Souza, S., & Moraes, M. C. B. M. (2023). Internacionalização e extensão universitárias em diálogo: Estado do conhecimento e perspectivas futuras. Arquivos Analíticos de Políticas Educativas, 31(6). https://doi.org/10.14507/epaa.31.7389 Resumo: O entendimento de que a concepção dominante de internacionalização da educação superior se insere em uma racionalidade que naturaliza a expansão perpetuada do capitalismo e a hierarquização radical da humanidade justifica a importância da busca por relações internacionais universitárias que estejam alinhadas a esforços mais amplos de justiça social ou que sejam epistemologicamente desobedientes ao confrontarem projetos globais com histórias locais. Dado o potencial da extensão no que diz respeito ao estabelecimento de uma relação orgânica entre a universidade e a sociedade, neste artigo, buscamos conhecer, de uma perspectiva panorâmica e exploratória, a produção científica brasileira e internacional sobre o diálogo entre internacionalização e extensão universitárias. Realizamos uma revisão da literatura sobre o tema http://epaa.asu.edu/ojs/ https://doi.org/10.14507/epaa.31.7389 Internacionalização e Extensão Universitárias em Diálogo: Estado do Conhecimento e Perspectivas Futuras 2 nas principais bases de dados nacionais e internacionais. Do córpus de análise, estudamos com maior profundidade as dez publicações que mais diretamente enfatizavam as nuances desse diálogo. A análise nos possibilitou sinalizar, entre outros aspectos: 1. A fragilidade da interação entre internacionalização e extensão universitárias; 2. A existência do entendimento da relação universidade-sociedade como sinônimo da colaboração universidade-indústria, sendo a internacionalização compreendida como meio para intensificar essa parceria; e 3. A possibilidade de que estudos latino-americanos sejam menos reducionistas ao tratarem de extensão universitária e da relação entre internacionalização e extensão. Palavras-chave: educação superior; internacionalização; extensão; estado do conhecimento Internationalization and university outreach in dialogue: Current knowledge and future perspectives Abstract: The dominant conception of the internationalization of higher education rationalizes and naturalizes the perpetuated expansion of capitalism and the radical hierarchization of humanity. Thus, it is important to seek international university relations aligned with broader social justice efforts or epistemologically opposed to the privileging of the global over the local. Given the potential of outreach in terms of establishing an organic relation between the university and the society, we seek to understand, from a panoramic and exploratory perspective, Brazilian and international scientific production on the dialogue between internationalization and university outreach. We carried out a literature review on the subject in the leading national and international databases. From this corpus, we studied the 10 publications that most directly emphasized the nuances of this dialogue. The results of this analysis point out, among other aspects: 1. The fragile interaction between internationalization and university outreach; 2. The understanding of the university-society relationship as synonymous to university-industry collaboration, with internationalization understood as a means to intensify such partnerships; and 3. The possibility that Latin American studies are less reductionist when discussing university outreach/extension and the relationship between internationalization and outreach. Keywords: higher education; internationalization; outreach; state of knowledge Internacionalización y extensión universitaria en diálogo: Estado del conocimiento y perspectivas de futuro Resumen: La comprensión de que la concepción dominante de la internacionalización de la educación superior es parte de una racionalidad que naturaliza la expansión perpetuada del capitalismo y la jerarquización radical de la humanidad, justifica la importancia de la búsqueda de relaciones universitarias internacionales alineadas con esfuerzos más amplios de justicia social o que son epistemológicamente desobedientes al confrontar los proyectos globales con las historias locales. Dada la potencialidad de la extensión con respecto al establecimiento de una relación orgánica entre la universidad y la sociedad, en este trabajo buscamos conocer, desde una perspectiva panorâmica y exploratoria, la producción científica brasileña e internacional sobre el diálogo entre internacionalización y extensión universitaria. Realizamos una revisión de la literatura sobre el tema en las principales bases de datos nacionales e internacionales. A partir del corpus de análisis, profundizamos en las diez publicaciones que enfatizaron más directamente los matices de este diálogo. El análisis nos permitió señalar, entre otros aspectos: 1. La fragilidad de la interacción entre internacionalización y extensión universitaria; 2. La existencia de una comprensión de la relación universidad-sociedad como sinónimo de colaboración universidad- empresa, la internacionalización entendida como un medio para intensificar esta asociación; y 3. La posibilidad de que los estudios latinoamericanos sean menos reduccionistas cuando se trata Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 31, No. 6 3 de la extensión universitaria y la relación entre internacionalización y extensión. Palabras-clave: educación superior; internacionalización; extensión; estado del conocimiento Internacionalização e Extensão Universitárias em Diálogo: Estado do Conhecimento e Perspectivas Futuras Em “A Universidade Necessária”, Darcy Ribeiro (1975) manifesta descontentamento com o caráter que a universidade latino-americana e, particularmente, a universidade pública brasileira, havia assumido. Ao categorizá-la como uma instituição favorável à manutenção do status quo, em grande medida distanciada dos conflitos presentes na sociedade, propôs a transfiguração de seu caráter de “guardiã do saber organizado a ser transmitido como informação, adestramento e disciplina”, dada sua incapacidade de “empregar seus próprios recursos intelectuais para debater a responsabilidade ética da ciência e da técnica por ela mesma cultivada e de reformular a ordem social” (Ribeiro, 1975, p. 7). Na busca por uma universidade autêntica, não subordinada, que valorizasse o saber local, promovesse a atitude solidária e uma concepção crítica do mundo, Ribeiro (1975) concebeu o conceito de “universidade necessária”, uma perspectiva que enfatiza a autonomia e o diálogo intercultural crítico e transversal, bem como a relação orgânica entre a universidade e a sociedade (Abba, 2018; Leher, 2017; Ribeiro, 1975). As denúncias de Ribeiro (1975) revelam como a relação entre a universidade e a sociedade integra o debate sobre essa instituição. Uma das (re)configurações contemporâneas que enfatizam tal relação é a chamada internacionalização da educação superior, genericamente definida como “o processo de integração das dimensões internacional, intercultural e global aos propósitos, às funções primárias e à entrega da educação pós-secundária” (Knight, 2004, p. 11, tradução nossa) e considerada um dos fatores que mais criticamente têm afetado a educação superior no mundo (de Wit, 2019; Knight & de Wit, 2018). Apesar dos benefícios e das oportunidades atribuídos pelos discursos dominantes a esse processo, uma série de dilemas nos possibilita associá-lo a questões éticas e políticas que são contraditórias e contestáveis (Abba & Streck, 2021; De Wit et al., 2020; George Mwangi et al., 2018; Leal, 2020; Stein, 2017). Problematizações a seu respeito envolvem desde o entendimento de que a internacionalização deveria ser mais inclusiva e menos elitista (de Wit, 2019), até a percepção de que ela se integra à estrutura do capitalismo como sistema mundial histórico e, como tal, reflete interesses essencialmente coloniais (Leal, 2020). O entendimento de que a concepção dominante de internacionalização da educação superior se encontra imersa em uma matriz cultural moldada por hierarquia (Leal, 2020) justifica a busca por pistas sobre como desenvolver relações internacionais nesse setor que estejam alinhadas a esforços mais amplos de justiça social (De Wit et al., 2020), ou que sejam epistemologicamente desobedientes ao confrontarem projetos globais com histórias locais (Leal, 2020). Dado o potencial da extensão universitária no que diz respeito ao estabelecimento de uma relação orgânica entre a universidade e a sociedade, os seguintes questionamentos serviram como fio condutor para o desenvolvimento deste artigo: 1. Como a internacionalização e a extensão universitárias dialogam na literatura? 2. Quais sentidos a internacionalização tem dado à extensão universitária e à relação entre a universidade e a sociedade? 3. No contexto da universidade pública latino-americana, pode a extensão universitária servir como contraponto às tendências hegemônicas evidenciadas no campo da internacionalização?. A partir desses questionamentos, estabelecemos como objetivo do artigo conhecer, de uma perspectiva panorâmica, a produção científica brasileira e internacional sobre o diálogo entre internacionalização e extensão universitárias. Do ponto de vista epistemológico, nos aproximamos de uma matriz epistêmica crítica, de sentido emancipatório, que busca identificar e desnaturalizar relações opressivas, com vistas à transformação do status quo, sem, contudo, desvincular-se da práxis Internacionalização e Extensão Universitárias em Diálogo: Estado do Conhecimento e Perspectivas Futuras 4 (Paes de Paula, 2015). Em alinhamento com essa perspectiva, buscamos contribuir com uma emergente área de estudos críticos em internacionalização da educação superior, que problematiza a natureza predominantemente técnica, apolítica e a-histórica das abordagens convencionais (Leal, 2020). Quando tratamos de universidade, nos referimos à pública latino-americana, aqui compreendida como bem público e social e direito do povo (Dias, 2017) e cujas missões institucionais são o ensino, a pesquisa e a extensão. Para alcançarmos o objetivo proposto, realizamos uma revisão bibliográfica seguida de um balanço da literatura a partir das publicações que mais diretamente colocavam internacionalização e extensão em diálogo. Procedimentos de Levantamento Bibliográfico Para conhecer a produção científica brasileira e internacional sobre o diálogo entre internacionalização e extensão universitárias, realizamos uma revisão bibliográfica a partir de buscas sistemáticas nas bases de dados SciELO, Scopus e Web of Science, bem como na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) e no Catálogo de Teses e Dissertações da Capes, além da rede ResearchGate. SciELO, Scopus e Web of Science são bases de dados internacionais abrangentes, que contemplam estudos de diferentes naturezas (artigos publicados em journals, artigos de conferências, livros, capítulos de livros, entre outros). BDTD e Catálogo de Teses e Dissertações da Capes são bases nacionais que armazenam dissertações de mestrado e teses de doutorado de programas de pós-graduação brasileiros. ResearchGate é uma rede social na qual pesquisadores de todo o mundo interagem e compartilham sua produção acadêmica. A principal diferença da rede ResearchGate em relação às demais fontes utilizadas é a não sistematização, uma vez que o conteúdo lá disposto é alimentado pelos próprios usuários. Todavia, dado o potencial que a rede tem de abranger pesquisas sintetizadas em diferentes formatos e muito recentes, por vezes ainda em vias de publicação, usamos o ResearchGate de forma complementar às bases de dados. Devido à atualidade do tema, adotamos uma postura menos restritiva nas buscas sistemáticas, que possibilitasse acessar uma quantidade significativa de estudos. Assim, inicialmente não estabelecemos restrições de tempo, idioma, tipo de documento ou área de conhecimento. Usamos termos de busca em espanhol, inglês e português e realizamos a pesquisa entre janeiro e fevereiro de 2021, conforme demonstra o Quadro 1: Quadro 1 Critérios de Busca e Resultados Idioma Bases Termos de busca Espanhol - SciELO - ResearchGate - Extensión AND Internacionalización AND Universidad OR "Educación Superior" OR "Enseñanza Superior" Inglês - SciELO - Scopus - Web of Science - ResearchGate - Extension AND Internationali?ation AND Universit* OR Higher Education; - Outreach AND Internationali?ation AND Universit* OR "Higher Education"; - "Community Service" AND Internationali?ation AND Universit* OR "Higher Education"; Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 31, No. 6 5 Idioma Bases Termos de busca - "Social Engagement" AND Internationali?ation AND Universit* OR "Higher Education"; - "Third Mission" AND Internationali?ation AND Universit* OR "Higher Education" Português - SciELO - BDTD - Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES - ResearchGate - Extensão AND Internacionaliza* AND Universidade OR "Ensino Superior" OR "Educação Superior"; - "Compromisso Social" AND Internacionaliza* AND Universidade OR "Ensino Superior" OR "Educação Superior"; - "Terceira Missão" AND Internacionaliza* AND Universidade OR "Ensino Superior" OR "Educação Superior". Fonte: Elaborado pelos autores (2022). Em Português e em Inglês, além do termo extensão/extension propriamente dito, incluímos outros termos comumente usados para fazer referência à relação Universidade-Sociedade em diferentes contextos nacionais, especificamente: outreach; community service; social engagement/compromisso social; third mission/terceira missão. A soma dos resultados totalizou 816 trabalhos, que inserimos em pastas no gerenciador de referências Mendeley, para organização/sistematização. Fizemos a leitura dos resumos e das palavras-chaves de todos os trabalhos para identificar se, de fato, eles tratavam ou ao menos mencionavam a relação entre internacionalização e extensão universitárias. Em diversos casos, também lemos a introdução e as considerações finais para definirmos se o estudo abordava tal relação e se deveria integrar o escopo da análise. Desse primeiro filtro, restaram 131 trabalhos, dos quais 36 eram repetidos. Chegamos, assim, a 95 trabalhos, dos quais excluímos outros nove, por terem sido publicados em idiomas desconhecidos pelos autores (grego e alemão) ou por estarem inacessíveis ou por serem textos não acadêmicos, mas de opinião. Com tais refinamentos, o córpus de análise constituiu-se de 86 trabalhos. Desconstruindo os Relatos Parciais da Internacionalização da Educação Superior Seja em nível global, regional, nacional, institucional ou individual, a internacionalização da educação superior é um dos fatores que mais criticamente tem afetado a educação superior no mundo ( de Wit, 2019; Knight & de Wit, 2018). A constituição desse fenômeno como objeto de estudo contemplou, de início, a saga por uma definição genérica para o termo; uma ‘working definition’ que, em teoria, facilitaria seu estudo e compreensão. Sem dúvidas, o conceito mais amplamente adotado pela literatura é o fornecido por Knight (2004, p. 11, tradução nossa), que define internacionalização como “o processo de integração das dimensões internacional, intercultural e global aos propósitos, às funções primárias e à entrega da educação pós-secundária”, com vistas ao alcance ou ao aprimoramento de objetivos de diferentes naturezas. Trata-se, nessa ótica, de um meio para a consolidação de um fim; de um processo com valor instrumental (de Wit, 1998; Hunter et al., 2016; Knight, 2004, 2015). Um balanço da literatura sobre internacionalização da educação superior, com ênfase nas tendências e nos discursos mais recorrentes, possibilita vislumbrar ao menos dois grandes desenvolvimentos recentes da área (de Wit et al., 2020; Leal, 2020). O primeiro diz respeito à Internacionalização e Extensão Universitárias em Diálogo: Estado do Conhecimento e Perspectivas Futuras 6 evolução do conceito e das práticas. Conceitualmente, o fenômeno tem sido cada vez mais definido como ‘abrangente’, ideia inicialmente apresentada pelo American Council on Education (ACE) e adotada por Hudzik (2011) em publicação da Association of International Educators (NAFSA), para expressar a necessidade de que o processo alcance a instituição universitária em sua totalidade, de modo a delinear sua razão de ser e seus valores, com vistas a alcançar objetivos como a ‘excelência acadêmica’ e a formação de ‘cidadãos globais’ dotados de ‘competências multiculturais’. Em vez de indiscriminadamente associada a uma de suas dimensões – como a mobilidade acadêmica internacional, sua manifestação mais recorrente (Kehm & Teichler, 2007) e visível (Lima & Contel 2011) – a internacionalização, nessa configuração particular, adquire contornos mais estruturais; representa mudanças que buscam permear toda a estrutura universitária. Expressões desse desenvolvimento são a sua bifurcação em dois pilares distintos: ‘abroad’ e ‘at home’ (Knight & de Wit, 2018); bem como a transição de um foco direto nos indivíduos para um foco direto nas universidades e nos institutos de pesquisa (Prolo et al., 2019). A filosofia associada a essa prescrição é a crença generalizada sobre a inevitabilidade do processo (Lima & Contel, 2011), tendo em vista o contexto de globalização e competitividade (Oregioni, 2015), que induz a maior parte das pesquisas sobre internacionalização a orientar-se para o alcance de uma internacionalização ‘bem-sucedida’ ou ‘inteligente’ (Godwin & de Wit, 2019) e a lamentar o vácuo entre retórica e realidade (Hunter & Sparnon, 2018). O segundo desenvolvimento do campo se refere a um maior reconhecimento, por parte dos pesquisadores sobre o tema, de que ao lado das oportunidades que a internacionalização oferece, há questões políticas e éticas que são contraditórias e contestáveis; de que inexiste um modelo de internacionalização que sirva a todos os contextos (de Wit, 2019) e de que a despeito do discurso político dominante, a internacionalização não é um bem incondicional (Morley et al., 2018). Todavia, muito frequentemente tais dilemas são tratados de forma factual ou naturalizada, sem o aprofundamento da sua relação com o contexto mais amplo em que a educação superior se insere, sobretudo historicamente (Leal, 2020). Como Bedenlier et al. (2018, p. 128, tradução nossa) argumentam em sua revisão de literatura sobre o tema, “a pesquisa e a prática precisam questionar de forma autocrítica os entendimentos e as abordagens da internacionalização no que diz respeito à sua contribuição para a desigualdade e dependência entre os sistemas de ensino superior e a consolidação da dominância ocidental”. Quando tal contextualização ocorre, a tendência é que se faça referência a uma tensa relação entre internacionalização e globalização, com conotação positiva para o primeiro e negativa para o segundo (Leal, 2020). Por exemplo, argumenta-se que enquanto a internacionalização busca incorporar à educação superior diferentes perspectivas e modelos por meio do intercâmbio entre nações e culturas, com vistas a descobrir maneiras de explorar as diferenças para o bem maior; a globalização promove um modelo de homogeneização cultural, social, política e tecnológica para viabilizar maior integração e interdependência (Maringe et al., 2013). No contexto dessa tensa relação, a internacionalização é também situada como meio para subverter as consequências negativas da globalização, como observam Bamberger et al. (2019, p. 4, tradução nossa): “A internacionalização é amplamente descrita como uma resposta positiva às formas destrutivas do neoliberalismo globalizado”. Constam nas principais críticas à internacionalização que as rationales econômicas/mercadológicas têm se sobressaído às demais (acadêmicas, socioculturais etc.) (Yemini & Sagie, 2015; de Wit et al., 2017; Hunter & Sparnon, 2018); que a internacionalização está “perdendo o seu rumo” (Knight, 2014, p. 76, tradução nossa); que nesse campo a competição avança em detrimento da cooperação (de Wit, 2019; Hunter et al., 2016; Kehm & Teichler, 2007; Knight, 2014) que a internacionalização deveria ser ‘mais inclusiva’ e ‘menos elitista’ (de Wit, 2019); que o vínculo entre internacionalização e neoliberalismo tem se estreitado (Bamberger et al., 2019); Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 31, No. 6 7 que a colaboração internacional tem se tornado ‘complexa’ (Reisberg, 2019): “Em outras palavras: uma evidente mudança de (somente) cooperação para (mais) competição” (de Wit, 2019, p. 12, tradução nossa). Mesmo pesquisadores com produção predominantemente funcionalista, de origem europeia e norte-americana, começam a advogar pela necessidade de que a internacionalização se guie (também) por valores distanciados da lógica econômica/mercadológica e ofereçam contribuições mais diretas à sociedade. Todavia, o reconhecimento das contradições e dos dilemas associados ao fenômeno não parece desafiar a crença generalizada de que sua intensificação é inevitável ou questionar pressupostos relacionados a questões estruturais de poder, de desigualdade ou de colonialidade (Leal, 2020). Igualmente, não associa suficientemente a ênfase depositada na internacionalização ao surgimento de um projeto que contempla um mercado transnacional para a educação superior como um de seus pilares estruturais (Sousa Santos, 2011). Sousa Santos (2011) distingue dois níveis nos quais o projeto de mercantilização da educação superior se exterioriza: o primeiro voltado a induzir a universidade a gerar sua própria receita, especificamente por meio de parcerias com o capital (sobretudo o industrial); e o segundo orientado a transformar a universidade em organização/empresa, entidade de produção e controle que, ao mesmo tempo em que produz para o mercado, projeta a si mesma como tal. Trata-se de uma perspectiva de universidade que privilegia a formação técnica, sem compromisso social; uma “fábrica de profissionais” (Tommasino & Stevenazzi, 2016, p. 125, tradução nossa), incomensurável com o paradigma institucional e político-pedagógico da universidade pública. Essa lógica, consolidada em diferentes formas de ‘capitalismo universitário’ (Jessop, 2017; Schultze-Cleven & Olson, 2017), se pauta na transformação do status do conhecimento e da universidade, que passam a estar mais fortemente inseridos em um contexto de múltiplas formas de competição. Submetidos a um ‘regime de ranqueamentos’ – que determina, por exemplo, o que é ‘excelência’, ‘conhecimento válido’ ou ‘universidade de classe mundial’ (Gonzales & Núnez, 2014) – pesquisadores competem por reputação, enquanto que universidades competem por acumulação de capital. Trata-se de um mecanismo articulado à ‘economia global do conhecimento’: um imaginário social que normaliza a competição nas infraestruturas regionais, nacionais e institucionais, moldando as expectativas dos atores sobre seus futuros e os futuros dos outros (Robertson & Komljenovic, 2016). Assim, ao mesmo tempo em que a ‘economia global do conhecimento’ situa o conhecimento como pilar do desenvolvimento da humanidade e exalta o papel da educação superior, faz com que o domínio da produção desse conhecimento seja pensado segundo uma perspectiva econômica, controlado por um mundo de mercados, com vistas à produção de avanço econômico (Jessop, 2017; Kim, 2017). Com base no pressuposto de que as universidades funcionam melhor quando operam como empreendimentos econômicos, o setor é forçado, por meios objetivos e subjetivos, a acomodar-se e a responder proativamente aos novos imperativos. Extensão Universitária na América Latina: Caminho para Transgredir a Concepção Hegemônica de Internacionalização da Educação Superior? Em termos de antecedentes históricos, a extensão universitária foi um dos princípios orientadores do Movimento de Córdoba, iniciado em 1918, na Argentina, que marcou o surgimento de uma corrente universitária tipicamente latino-americana. No sentido atribuído por esse movimento estudantil, extensão se ampara na ideia de que a universidade tem o dever de cumprir um papel fundamental na transformação da sociedade (Dalmasso, 2018); diz respeito ao seu Internacionalização e Extensão Universitárias em Diálogo: Estado do Conhecimento e Perspectivas Futuras 8 engajamento com a justiça social, na busca de uma sociedade mais igualitária e democrática (Prolo, 2019). Como raiz da vinculação entre reforma universitária e reforma social, o Movimento de Córdoba repercutiu em reformas universitárias de diversos países da América Latina (Sousa Santos, 2018). Embora o sonho que sustentou o Movimento não tenha se concretizado integralmente, em parte devido às contrarreformas das ditaduras militares, deixou legados importantes, presentes ainda hoje, em maior ou menor grau, nas universidades públicas da região (Rubião, 2013). Na perspectiva de Córdoba, extensão é antes uma metodologia do que uma função universitária isolada; refere-se à relevância social do ensino e da pesquisa (Rubião, 2013). Como tal, pode ser associada às ideias de autonomia condicionada à sociedade e de contextualização das atividades universitárias (Rubião, 2013); atua como um motor da geração de práticas universitárias integrais; na busca por um diálogo de saberes científicos e populares: A extensão entendida como um processo dialógico e bidirecional redimensiona o ensino, a aprendizagem e a pesquisa. [...]. Quando tarefas são geradas e operadas em campo, partindo dos problemas que a sociedade tem, tentando junto a ela encontrar alternativas, o ato educacional é reconfigurado e ampliado. (Tommasino & Stevenazzi, 2016, p. 122, tradução nossa) No Brasil, um conceito que se aproxima da ideia de extensão tal como imaginada por Córdoba é o de ‘universidade necessária’, cunhado por Ribeiro (1975) a partir de sua experiência na Universidade do Brasil e na liderança do projeto de construção da Universidade de Brasília (UnB) (Abba, 2018; Leher, 2017; Ribeiro, 1975). Exemplo recente que revela a intenção de vincular organicamente a universidade e a sociedade no contexto brasileiro é descrito por Souza e Barbosa (2020) quando tratam do processo de construção da extensão na Universidade Federal da Integração Latino- Americana (UNILA). Amparada no propósito de “considerar os processos históricos de desigualdade socioeconômica e de naturalização da pobreza e as forças hegemônicas, de toda ordem, que insistem na marcação da dependência do continente, enfraquecendo, dessa maneira, uma identidade latino-americana” (Souza & Barbosa, p. 46), a política de extensão da UNILA se propõe a enfrentar “questões e problemas caros à dignidade humana” (Souza & Barbosa, 2020, p. 54), na busca pela diminuição das desigualdades e “pelo reconhecimento das diferenças culturais, étnico- raciais, de gênero e de orientação sexual como valores a serem protegidos e promovidos” (Souza & Barbosa, 2020, p. 55). A extensão é uma das dimensões que compõem o ‘tripé’ da universidade pública brasileira. Essa função universitária ganhou notoriedade com a Constituição Cidadã de 1988, que estabelece que “as universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão” (Brasil, 1988). Atualmente, é uma estratégia prevista pelo Plano Nacional de Educação (PNE 2020- 2024), regulamentada pela Resolução n.º 7/MEC/CNE/CES, de 18 de dezembro de 2018 (CES/CNE/MEC, 2018), que estabelece as diretrizes para a extensão na educação superior. Ao menos no discurso presente em tal documento, a estratégia de ‘curricularização da extensão’ ou de ‘creditação curricular da extensão’ busca atender aos preceitos da extensão como meio para contextualizar socialmente o ensino e a pesquisa, dada sua definição como a atividade que se integra à matriz curricular e à organização da pesquisa, constituindo-se em processo interdisciplinar, político educacional, cultural, científico, tecnológico, que promove a interação transformadora entre as instituições de ensino superior e os outros setores da sociedade, por meio da produção e da aplicação do conhecimento, em articulação permanente com o ensino e a pesquisa (CES/CNE/MEC, 2018, p. 1). Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 31, No. 6 9 Todavia, os desafios relacionados à implementação da extensão na universidade pública brasileira, no sentido idealizado por Córdoba, são inúmeros. Leher (2010), tratando da influência desse movimento no Brasil, observa que, aqui, a ofensiva contra reformista impediu que sua influência perpetuasse de forma semelhante à Argentina. Além disso, pode-se dizer que um dos dispositivos necessários à materialização de tal perspectiva – a autonomia universitária – não ocorre na forma esperada, já que a universidade pública brasileira é fortemente regulada por fatores exógenos. Contemporaneamente, pode-se pressupor como um dos aspectos que dificultam a vinculação entre universidade e sociedade, por vias da extensão universitária, é a ênfase depositada pelo governo federal e pelas próprias universidades em uma perspectiva hegemônica de internacionalização da educação superior. Nesse aspecto, Leal e Moraes (2018) e Leal (2020) argumentam que, no Brasil, muito provavelmente a extensão se refira ao aspecto mais negligenciado pelo viés privilegiado de internacionalização, uma vez que suas definições e seus indicadores não fazem menção à função social da universidade. Dada a percepção de que a extensão universitária tem sido negligenciada ou reconfigurada nas políticas e nas práticas de internacionalização da educação superior, cabe conhecer como a literatura põe esses processos em diálogo. Informações Gerais do Córpus de Análise Do córpus de análise, constituído de 86 trabalhos que tratavam ou, ao menos, mencionavam a relação entre internacionalização e extensão universitárias, 55 foram publicados em periódicos/revistas e onze em anais de conferências. Também compuseram o córpus: duas teses, oito dissertações, um projeto técnico de mestrado profissional, um livro, um working paper e um relatório técnico, conforme demonstramos na Figura 1: Figura 1 Categorias dos Trabalhos do Córpus de Análise Fonte: Elaborado pelos autores (2022). A maior parte desses trabalhos foi publicada nos anos de 2018 (quatorze estudos), 2019 (quinze estudos) e 2020 (quatorze estudos), o que revela a incipiência do tema como um objeto de interesse na literatura. Na Figura 2, expusemos os anos de pu blicação de todos os trabalhos. 1 1 1 1 2 6 8 11 55 Projeto Técnico - Mestrado Profissional Relatório Técnico Working paper Livro Tese de doutorado Capítulo de livro Dissertação de mestrado Artigo de conferência Artigo de revista Internacionalização e Extensão Universitárias em Diálogo: Estado do Conhecimento e Perspectivas Futuras 10 Figura 2 Ano de Publicação dos Trabalhos do Córpus de Análise Fonte: Elaborado pelos autores (2022). Desses 86 trabalhos, realizamos uma avaliação qualitativa para selecionar os dez que mais diretamente tratavam da relação entre internacionalização e extensão universitária e que mais possibilitavam visualizar as nuances desse diálogo. Então, desenvolvemos um balanço panorâmico e exploratório da literatura, a partir de uma epistemologia problematizadora. Dos dez trabalhos selecionados, nove são artigos e um é capítulo de livro. Dos nove artigos, seis foram publicados em periódicos latino-americanos, sendo três no Brasil. O trabalho menos recente foi publicado em 2015, e os mais recentes em 2020. Os idiomas espanhol, in glês e português estiveram contemplados. No Quadro 2, apresentamos informações dos trabalhos abrangidos pelo recorte da pesquisa. Quadro 2 Trabalhos Selecionados para o Desenvolvimento do Balanço da Literatura Título Autores Ano Meio de publicação Palavras-chave La internacionalización de la extensión universitaria en clave de integración regional. La experiencia de la Universidad Nacional del Litoral Buscemi, A. 2018 +E Revista de Extensão Universitária Internacionalización. Extensión universitaria. Integración regional. Redes interuniversitarias. Universidad Nacional del Litoral. La internacionalización de la extensión universitaria: El caso del Centro Franco-Argentino de Altos Estudios (CFA- UNR) Demarchi, P., Deuschle, M. K., Suárez, J. I. & Marina, M. F. 2020 Perspectivas Revista de Ciencias Sociales Extensión. Internacionalización. Cooperación académica. Centro Franco- Argentino. Internacionalizando a Extensão Universitária: O Projeto S-Intex na UFPB Paiva Silva, H. I., Vargas, M. & Melo Neto, E. 2019 Mural Internacional Extensão universitária. Internacionalização da Extensão. Ferramentas de Avaliação. 1 1 1 1 1 4 2 4 3 2 3 8 11 14 15 14 1 1 9 9 8 2 0 0 3 2 0 0 4 2 0 0 5 2 0 0 8 2 0 1 0 2 0 1 1 2 0 1 2 2 0 1 3 2 0 1 4 2 0 1 5 2 0 1 6 2 0 1 7 2 0 1 8 2 0 1 9 2 0 2 0 2 0 2 1 Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 31, No. 6 11 Título Autores Ano Meio de publicação Palavras-chave Internationalisation in higher education for society – IHES in the times of corona Brandenburg, U. 2020 Social Education IHES. internationalisation. Corona. Society. Impact. The Internationalization of Teaching, Research and Extension Actions at the Regional University of Blumenau Pereira, P. & Heinzle, M. R. S. 2019 Revista Internacional de Educação Superior (RIESup) Internationalization. Higher education. Educational policies. Internationalization aimed at global social justice: Brazilian University initiatives to integrate refugees and displaced populations de Wit, H., Leal, F. & Unangst, L. 2020 ETD - Educação Temática e Digital Higher Education. Internationalization. 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Balanço da Literatura A literatura científica sobre o diálogo entre internacionalização e extensão universitárias se articula em torno de questões que nos possibilitaram chegar a cinco eixos integrados de análise, quais sejam: a) Existe uma frágil relação entre a concepção dominante de internacionalização da educação superior e a extensão como missão universitária fundamental; b) Tal fragilidade está imersa no contexto histórico-social da instituição universitária e dialoga com a mercantilização da educação superior; c) O excesso de racionalidade econômica faz com que a relação universidade-sociedade seja compreendida como sinônimo de universidade - indústria, sendo a internacionalização um caminho fundamental para o fortalecimento dessa relação; d) O conceito de ‘Internacionalização da Educação Superior para a Sociedad e’ não pode ser compreendido como sinônimo do conceito de Universidade -Sociedade, por vias da extensão, como idealizado pelo Movimento de Córdoba (1918) e e) Estudos latino -americanos aprofundam melhor a relação entre internacionalização e extensão univers itárias e enfatizam a relação desses processos com a integração regional. Abordamos tais eixos a seguir. a) Existe uma frágil relação entre a concepção dominante de internacionalização da educação superior e a extensão como missão universitária fundamenta l A literatura sugere uma fragilidade na articulação entre a ideia de internacionalização da educação superior e extensão como missão universitária fundamental. Em comparação ao ensino e, sobretudo, à pesquisa, a extensão ainda dá seus primeiros passos de ntro dos campos teórico e prático da internacionalização. Muito embora discursos institucionais ressaltem, cada vez mais, a necessidade de que a internacionalização contemple a estrutura universitária em sua totalidade, a prática revela a ausência de ações concretas que coloquem em internacionalização e extensão em um diálogo orgânico e igualitário. Ao negligenciarem a missão que mais potencialmente possibilitaria dissipar o distanciamento entre a universidade e a sociedade, as estratégias de internacionalização em curso talvez induzam a um enfraquecimento da função social dessa instituição. Essa divergência entre discurso e prática é perceptível, por exemplo, em Pereira e Heinzle (2019), que estudam o processo de internacionalização em uma universidade brasileira. Embora a ‘internacionalização da extensão’ esteja presente nos discursos e documentos institucionais analisados pelos autores, a pesquisa não revela a efetivação de ações nesse sentido. De Wit et al. (2020) nesse aspecto, ressaltam a importância da autonomia universitária, da extensão e da participação de grupos minoritários nas políticas de internacionalização das Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 31, No. 6 13 universidades públicas brasileiras para que esse processo seja mais fiel à realidade e às demandas sociedade em que tais instituições se inserem. b) Tal fragilidade está imersa no contexto histórico-social da instituição universitária e dialoga com a mercantilização da educação superior A ênfase da internacionalização na pesquisa em detrimento do ensino e, sobretudo da extensão, relaciona-se à forma como a própria universidade foi constituída e se desenvolve. Reflete, portanto, padrões historicamente evidenciados. Especificamente, tal ênfase dialoga com o contexto de mercantilização em que a educação superior se insere contemporaneamente, que, articulado à ‘economia global do conhecimento’, tende a privilegiar aquilo que é mais potencialmente comercializável. Dado que o conhecimento e a universidade se encontram fortemente imersos em um contexto de múltiplas formas de competição, que suscita hierarquizações entre funções universitárias, a extensão é ‘renegada’, não oferece os insumos necessários à esperada produção de avanço econômico. É nesse sentido que uma infinidade de ações de ‘internacionalização da extensão’, ou de ‘extensão da internacionalização’, pode ser projetada e construída. É também nessa perspectiva que a extensão, no sentido idealizado por Córdoba, pode ser inspirar políticas e práticas da internacionalização, com vistas a contrabalancear os efeitos nocivos desse processo. Há que se considerar, contudo, as distintas possíveis interpretações para extensão e para autonomia universitárias, bem como os limites de uma excessiva idealização/polarização a partir de Córdoba, um movimento histórico com suas próprias contradições e limites contextuais e cuja idealização jamais foi posta em prática em sua totalidade. Portanto, a referência feita a tal movimento no que diz respeito à relação orgânica entre a universidade e a sociedade serve de inspiração; baseia-se no pressuposto de que as interpretações dominantes facilitam, possibilitam e legitimam as transformações sociais conduzidas pelos grupos hegemônicos e que, para conceber perspectivas de internacionalização distanciadas da racionalidade dominante, é preciso expandir o horizonte epistemológico no qual esse fenômeno se encontra (Leal, 2020). A intencionalidade nas políticas e práticas de internacionalização, como argumentam de Wit et al. (2020), é imprescindível; serve como fator decisivo para que esse processo se aproxime mais suas promessas e se vincule de fato a esforços mais amplos de justiça social. Somente por vias da intencionalidade a internacionalização tem o potencial de induzir a questionamentos sobre o papel histórico da universidade na institucionalização e naturalização de relações de apropriação e de exploração e, assim, contribuir para a transformação estrutural da realidade. c) O excesso de racionalidade econômica faz com que a relação uni versidade-sociedade seja compreendida como sinônimo de universidade-indústria, sendo a internacionalização um caminho fundamental para o fortalecimento dessa relação No paradigma econômico/instrumental, a relação universidade -sociedade – também designada de ‘Terceira Missão’ – parece ser compreendida como sinônimo de colaboração universidade-indústria. Trata-se de um viés perceptível, por exemplo, em Sá et al. (2015), que embora declarem não se amparar em uma perspectiva funcionalista de pesquisa – por reconhecerem que os sistemas nacionais de educação superior se desenvolvem e mudam de acordo com um processo complexo, que abrange as expectativas das agências governamentais, dos mercados, das aspirações populares e das culturas institucionais – assumem que o sucesso das universidades brasileiras deve estar associado ao alcance de objetivos mais orientados para a economia, por meio do foco na pesquisa e na inovação. A internacionalização, nesse paradigma Internacionalização e Extensão Universitárias em Diálogo: Estado do Conhecimento e Perspectivas Futuras 14 específico, emerge como caminho fundamental para a inserção da universidade na ‘economia global do conhecimento’. d) O conceito de ‘Internacionalização da Educação Superior para a Sociedade’ não pode ser compreendido como sinônimo do conceito de Universidade -Sociedade, por vias da extensão, como idealizado pelo Movimento de Córdoba (1918) O conceito de ‘internacionalização da educação superior para a sociedade’ (‘Internationalisation of Higher Education for Society’ (IHES)1, trabalhado por Brandenburg (2020) e referenciado por de Wit et al. (2020), dialoga, mas não pode ser compreendido como um sinônimo da ideia de universidade-sociedade por vias da extensão, como idealizada pelo Movimento de Córdoba. A IHES assume que o trabalho em internacionalização deve ser vinculado ao trabalho de engajamento social, com foco em ‘questões globais’ como xenofobia, populismo, mudança climática e preservação da democracia. Por sua vez, a extensão segundo Córdoba diz respeito à relevância social do ensino e da pesquisa; é motor da geração de práticas universitárias integrais; na busca por um diálogo de saberes científicos e populares. Seu escopo, inserido no contexto latino-americano, é antes local do que global. Muito embora o conceito de IHES possa ser contributivo à formulação de políticas e estratégias de internacionalização menos elitizadas, quando analisados de uma perspectiva decolonial (Walsh & Mignolo, 2018), seus ideais podem ser considerados universalistas. Em última instância, pressupõem a existência de necessidades comuns à toda a humanidade e de um centro no qual o conhecimento é produzido para resolver os problemas de todos. É nesse sentido que sua transposição ao contexto das universidades públicas latino-americanas é questionável; confronta o ideal de que a região se constitua como seu próprio centro de referências. e) Estudos latino-americanos aprofundam melhor a relação entre internacionalização e extensão universitárias e enfatizam a relação desses processos com a integração regional Estudos desenvolvidos na América Latina, sobretudo na Argentina, tendem a ser menos reducionistas quando tratam da extensão universitária e da relação internacionalização -extensão, com propostas e evidências mais concretas nesse sentido. Segundo a noção de extensão empreendida, a universidade deve vincular-se ao seu entorno local e global, de modo a fazer emergir o necessário vínculo entre saber acadêmico e saber popular. Trata -se, segundo De Paiva et al. (2019), de promover modelos de pensamento e de ação direcionados à transformação crítica da realidade, ancorados na premissa de que conhecimento é de todos e para todos. Estudos latino-americanos tendem, ainda, a problematizar de forma mais aprofundada o fenômeno da internacionalização, além de vincular internacionalização e extensão à integração regional. É provável que a perspectiva privilegiada possa ser atribuída ao fato de que a América Latina e, especificamente, a Argentina, ser berço dessa missão universitária funda mental. O 1 A rede social ResearchGate demonstra que, em agosto de 2019, Brangenburg et al. (2019) criaram o projeto Internationalisation in Higher Education for Society (IHES), com os objetivos de “vincular melhor o trabalho da internacionalização com o engajamento social, a fim de ajudar a resolver as verdadeiras questões sociais, como, por exemplo, xenofobia, populismo, mudança climática ou preservação da democracia” (tradução nossa). IHES é, também, um projeto vigente na Europa, desenvolvido por oito instituições e quatro parceiros associados, sob coordenação da Palacký University Olomouc. Tal projeto assume que, em vez de cooperar, a internacionalização compete com o engajamento social por recursos. Assim, se propõe a “ativar o potencial da internacionalização para o engajamento social” e a “construir atividades voltadas às reais necessidades da sociedade”. Para tanto, busca “gerar conhecimento que pode ser facilmente transferido entre as regiões e os parceiros envolvidos no projeto” (IHES, 2021, p. 1). Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 31, No. 6 15 trabalho de Perrotta (2020) é esclarecedor nesse aspecto; possibilita vislumbra r como a cultura acadêmica ancorada na ideia de direito individual e coletivo à universidade possibilitou às instituições universitárias públicas argentinas responderem de forma rápida e consistente aos desafios impostos pela pandemia da Covid-19, com diversas iniciativas nos campos de ensino/aprendizagem, pesquisa científica e engajamento comunitário, bem como de internacionalização. Ainda segundo os estudos latino-americanos do córpus de análise, a integração universitária latino-americana pode se dar por meio de redes de extensão internacionalizadas, com intervenções concretas interdisciplinares sobre problemáticas sociais comuns à região. Para Buscemi (2018), a internacionalização da extensão deve ser concebida como uma integração solidária, entendida como o conjunto de ações de cooperação inter universitária de mútuo benefício, na busca de acordos que promovam novos horizontes do conhecimento, o diálogo do conhecimento e o desenvolvimento da região. Para Toscano Ruiz et al. (2017), a gestão da extensão no processo de internacionalização da universidade deve ser mediada e orientada pela concepção sobre sua missão como instituição sociocultural, sem subestimar o lugar importante que ocupa na construção acadêmica de novos saberes e práticas de pesquisa. Dado o predomínio de abordagens técnicas e prescritivas no campo de pesquisa em internacionalização da educação superior, que pouco contribuem para a transformação estrutural da sociedade, os resultados sugerem a importância das pesquisas desenvolvidas nas per iferias da produção da geopolítica do conhecimento. Considerações Finais Neste artigo, buscamos conhecer, de uma perspectiva panorâmica e exploratória, a produção científica brasileira e internacional sobre o diálogo entre internacionalização e extensão universitárias. Para tanto, realizamos buscas sistemáticas da literatura sobre o tema. Do córpus de análise, constituído de 86 trabalhos, selecionamos os dez que mais diretamente enfatizavam tal diálogo. Destacamos, aqui, que a vasta maioria da literatura sobre internacionalização ainda aborda o fenômeno de uma perspectiva não -teórica e acrítica, tanto em relação às suas práticas quanto às estruturas em que opera. Assim, tendem a antes estabelecer os meios para que a internacionalização seja alcançada do que estimular análises sistemáticas sobre os motivos e os meios para fazê-lo. É nesse sentido que, apesar de crescente quantidade de estudos orientados a problematizar o fenômeno e a questionar seu status de imperativo e bem incondicional, este artigo pode ser considerado exploratório. Ao pressupor que a concepção hegemônica de internacionalização se insere em uma racionalidade que naturaliza a expansão perpetuada do capitalismo e a hierarquização radical da humanidade, o estudo se propõe a rastrear iniciativas distanciadas dessa tendência. Pela própria limitação decorrente do ineditismo de publicações que relacionam internacionalização e extensão; pelas distintas interpretações atribuídas à extensão e à autonomia universitárias, e pelas divergências existentes entre as universidades públicas na América Latina e dentro dos contextos nacionais de cada país – no Brasil, por exemplo, existe uma clara distinção entre as universidades bem consolidadas e as novas e novíssimas universidades constituídas no escopo do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), a exemplo da Universidade Federal da Integração Latino -Americana (UNILA) – o artigo não traz respostas precisas sobre as possibilidades de que a extensão sirva com o um meio efetivo para contrapor as contradições e os dilemas evidenciados no contexto da internacionalização. Observamos, sobretudo, uma lacuna de estudos empíricos que avaliem Internacionalização e Extensão Universitárias em Diálogo: Estado do Conhecimento e Perspectivas Futuras 16 iniciativas de “internacionalização da extensão” ou de “extensão da internacio nalização” em curso, o que revela a importância do desenvolvimento de estudos empíricos nesse tema de pesquisa, voltados especificamente ao estudo dos efeitos dessa interação. O levantamento realizado fornece algumas pistas sobre o panorama geral dessa re lação, relacionadas sobretudo: 1. À fragilidade da interação entre internacionalização e extensão universitárias; 2. À existência do entendimento da relação universidade-sociedade como sinônimo da colaboração universidade-indústria, sendo a internacionalização compreendida como meio para intensificar essa parceria; e 3. À possibilidade de que estudos latino-americanos sejam menos reducionistas ao tratarem de extensão universitária e da relação entre internacionalização e extensão. A extensão universitária, segundo a idealização de Córdoba, se apresenta antes como metodologia do que como função universitária isolada; refere -se à relevância social do ensino e da pesquisa; atua como motor da geração de práticas universitárias integrais; na busca por um diálogo de saberes científicos e populares (Arocena & Tommasino, 2011; Tommasino & Cani, 2016; Tommasino & Stevanazzi, 2016). Trata-se, em nosso entendimento, de um conceito central ao desenvolvimento de perspecti vas próprias de internacionalização da educação superior na região: ao mesmo tempo em que diz respeito a um “fenômeno tipicamente latino-americano” (Rubião, 2013, p. 115) e a uma tradição das universidades públicas aqui constituídas (Oregioni, 2015), é possivelmente, o aspecto mais negligenciado pela concepção dominante da internacionalização da educação superior em curso. De uma perspectiva crítica/decolonial (Walsh & Mignolo, 2018), podemos associar as contraditórias questões políticas e éticas da internacionalização ao amplo histórico de relações internacionais desigualmente constituídas que estiveram presentes no contexto universitário antes do surgimento do conceito de internacionalização propriamente dito, incluindo a centralidade da instituição universitária como local chave para a naturalização e a legitimação de relações extrativistas (Leal, 2020). A relação internacionalização -extensão, com ‘autonomia condicionada à sociedade’, apresenta potencialidades no que diz respeito à abertura a novos horizontes de possibilidades para o futuro da internacionalização. Além disso, muito embora diversas das iniciativas/ações de extensão que ocorrem no escopo da Universidade poderiam ser consideradas ‘internacionais’ ou ‘interculturais’ (Knight, 2004) pelas realidades pluriculturais que ensejam, somente uma pequena parcela delas (a alinhada à racionalidade dominante) é classificada pelos discursos como iniciativas/ações de inte rnacionalização. Para o contexto da educação superior pública da América Latina, uma forma de fortalecer a função social da universidade nos projetos de internacionalização nos parece olhar para o futuro a partir do próprio passado (Leal & Moraes, 2018). Assim, o Movimento de Córdoba – reservada sua própria complexidade, suas próprias contradições e suas limitações contextuais e históricas – pode constituir-se como uma inspiração nesse sentido. Como Abba e Streck (2021, p. 1) argumentam, “o legado da reforma, no que se refere à integração regional e ao conceito de autonomia universitária, contribui para uma visão de internacionalização enraizada no contexto latino-americano”. Para que a internacionalização – muitas vezes referenciada sob o rótulo de ‘inclusiva’ – não se consolide como via de mão única, codificada em relações de poder que determinam quem tem o poder de incluir, o esforço de elaborar políticas e estratégias de internacionalização associadas à busca por justiça social deve associar-se ao esforço mais amplo de democratizar radicalmente a instituição universitária pública. Diante dos achados, consideramos que perspectivas como o ‘modelo participativo de universidade’ proposto por Rubi ão (2013) e o ‘modelo de universidade e integralidade’ proposto por Tommasino (Arocena & Tommasino, 2011; Tommasino & Cani, 2016; Tommasino & Stevanazzi, 2016) – que, inspirados pelo Movimento de Córdoba, concebem extensão universitária como ‘motor’ da relação Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 31, No. 6 17 Universidade-Sociedade e de diálogo entre saberes científicos e populares, induzindo à aproximação entre qualidade e relevância – podem inspirar a formulação de políticas e práticas de internacionalização nas universidades públicas latino-americanas que sejam epistemologicamente desobedientes e ‘habitem a fronteira’ e ‘pensem na fronteira’ (Mignolo, 2017) ao confrontarem histórias locais com projetos globais. Referências Abba, M. J. (2018). 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Líder da área temática Universidade, Sociedade e Estado na Contemporaneidade da Divisão de Estudos Organizacionais do Encontro da Anpad (EnANPAD). Líder adjunta do tema Planejamento de Ensino: Programas, Cursos, Disciplinas, Aulas e Avaliação do Seminários de Administração (SemeAd-USP). Membro do Grupo de Pesquisa Múltiplos Olhares sobre a Universidade: Pessoas, Territórios e Projetos. Stefani de Souza Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) e Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) stefani.souza@ufsc.br ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2336-0899 Doutoranda em Administração na Escola Superior de Administração e Gerência (ESAG) da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Mestra Profissional pelo Programa de Pós- Graduação em Administração Universitária da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista em Secretariado com ênfase em Gestão de Pessoas e Processos no Complexo de Ensino Superior de Santa Catarina (CESUSC). Bacharel em Secretariado Executivo pela UFSC. Servidora Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 31, No. 6 21 Pública Federal no cargo de Secretária Executiva. Atuou como Chefe do Setor de Apoio Administrativo do Centro Tecnológico da UFSC. Participa do Grupo de Pesquisa Gestão Social e Administração Pública, liderado pelo Prof. Orientador Irineu Manoel de Souza, Dr. Membro do Grupo de Pesquisa Institucional: Pesquisa e Prática em Gestão e Secretariado (PPGSec/UFSC) CNPq e membro da Associação Brasileira de Pesquisa em Secretariado (ABPSEC), atuando como Conselheira Fiscal Suplente (Gestão 2019-2021 e 2021-2023). Mário César Barreto Moraes Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) mcbmstrategos@gmail.com ORCID: http://orcid.org/0000-0002-0760-8444 Possui graduação em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Santa Catarina (1982), graduação em Administração pela Universidade do Estado de Santa Catarina (1987), mestrado em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Santa Catarina (1997) e doutorado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina (2001). Conselheiro do Conselho Estadual de Educação do Estado de Santa Catarina - CEE-SC. Membro do Conselho Consultivo da Associação Nacional dos Cursos de Graduação em Administração - ANGRAD. Presidente da Comissão Nacional de Avaliação da Educação Superior - CONAES/MEC (2019). Presidente do CACS/FUNDEB de Santa Catarina de 2017 a 2019. Membro da Comissão UNIEDU/FUMDES - Programa de Bolsas Universitárias do Estado de Santa Catarina. Professor titular da Universidade do Estado de Santa Catarina. Tem experiência na área de Administração e de Engenharia, em Ensino e em Estratégia, atuando principalmente nos seguintes temas: administração, educação, avaliação, ensino superior, educação básica e pareceres técnicos na área de educação e de legislação e normas do ensino superior. arquivos analíticos de políticas educativas Volume 31 Número 6 24 de janeiro 2023 ISSN 1068-2341 Este artigo pode ser copiado, exibido, distribuido e adaptado, desde que o(s) autor(es) e Arquivos Analíticos de Políticas Educativas sejam creditados e a autoría original atribuídos, as alterações sejam identificadas e a mesma licença CC se aplique à obra derivada. Mais detalhes sobre a licença Creative Commons podem ser encontrados em https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/. Arquivos Analíticos de Políticas Educativas é publicado pela Mary Lou Fulton Teachers College, Arizona State University. 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