Análise textual dos espelhos das redações de candidatos que realizaram a videoprova em Libras do Enem - 2017 Página web: http://epaa.asu.edu/ojs/ Artigo recebido: 1/8/2022 Facebook: /EPAAA Revisões recebidas: 5/12/2022 Twitter: @epaa_aape Aceito: 5/12/2022 arquivos analíticos de políticas educativas Revista acadêmica, avaliada por pares, independente, de acesso aberto, e multilíngue Arizona State University Volume 31 Número 21 28 de fevereiro de 2023 ISSN 1068-2341 Análise Textual dos Espelhos das Redações de Candidatos que Realizaram a Videoprova em Libras do Enem - 2017 Luiz Renato Martins da Rocha Universidade Federal do ABC Brasil & Cristina Broglia Feitosa de Lacerda Universidade Federal de São Carlos Brasil Citação: Rocha, L. R. M. da, & Lacerda, C. B. F. de (2023). Análise textual dos espelhos das redações de candidatos que realizaram a videoprova em Libras do Enem - 2017. Arquivos Analíticos de Políticas Educativas, 31(21). https://doi.org/10.14507/epaa.31.7704 Resumo: O presente estudo objetiva a análise do conteúdo do espelho (versão digitalizada do texto original) de 50 redações elaboradas por candidatos que realizaram a videoprova em Libras do Exame Nacional do Ensino Médio - Enem (2017). A seleção de 50 redações ocorreu de forma randomizada, cujas notas variaram entre 0 a 980 pontos - e a análise qualitativa, via software Iramuteq, qualificou o estudo e trouxe clareza sobre os temas tratados nas redações. Em síntese, mesmo se tratando de um tema familiar aos candidatos, uma vez que analisamos redações de quem fez a videoprova era sobre a pessoa surda, ao que aparece, isso não colaborou para o alcance de uma nota acima da média desses candidatos. Além disso, destaca- se que a acessibilidade tem sido recorrentemente negada a esse público no cotidiano da Educação Básica, e isso faz com que seu desempenho, mesmo quando ofertada prova em Libras e redação sobre seus desafios educacionais, seja abaixo da média nacional, não favorecendo seu ingresso no curso superior desejado. Palavras-chave: ENEM; redação; videoprova; Libras; estudante surdo Textual analysis of the mirrors of the essays of candidates who took the video test in Libras of ENEM – 2017 http://epaa.asu.edu/ojs/ https://doi.org/10.14507/epaa.31.7704 Arquivos Analíticos de Políticas Educativas, Vol. 31 No. 21 2 Abstract: The present study aims to analyze the content of the mirror (digitized version of the original text) of 50 essays written by candidates who took the video test in Libras of the National High School Examination - Enem (2017). The selection of 50 essays took place at random, whose scores ranged from 0 to 980 points - and the qualitative analysis, via the Iramuteq software, qualified the study and brought clarity about the topics addressed in the essays. In summary, even though it was a familiar subject to the candidates, since we analyzed essays by those who made the video test were about the deaf person, it appears that this did not contribute to the achievement of an above-average score for these candidates. In addition, it is noteworthy that accessibility has been recurrently denied to this public in the daily life of basic education, and this means that their performance, even when offered a test in Libras and writing about their educational challenges, is below the national average, not favoring entry into the desired higher education course. Keywords: ENEM; essay; video test; Libras; deaf student Análisis textual de los espejos de los ensayos de los candidatos que realizaran la prueba de video en Libras de ENEM - 2017 Resumen: El presente estudio tiene como objetivo analizar el contenido del espejo (versión digitalizada del texto original) de 50 ensayos realizados por candidatos que tomaron la prueba de video en Libras do Examen Nacional de Enseñanza Media - Enem (2017). La selección aleatoria de 50 ensayos, que oscilaron entre 0 y 980 puntos, y el análisis a través del software Iramuteq calificaron el estudio y aportaron claridad a los temas tratados en los ensayos. En resumen, aun tratándose de un tema que, en teoría, conocían quienes disertaban sobre él, ya que analizamos ensayos de quienes tomaron la prueba de video en Libras y cuyo tema central del ensayo era sobre la persona sorda, resulta que esto no contribuyó a una puntuación superior a la media para estos candidatos. Además, se destaca que reiteradamente se le ha negado la accesibilidad a este público en el cotidiano de la Educación Básica, y eso hace que su desempeño, aún cuando se le ofrezca una prueba en Libras y escriba sobre sus desafíos educativos, esté por debajo del promedio nacional, no favoreciendo su entrada en el curso superior deseado. Palabras clave: ENEM; ensayo; prueba de vídeo; Libras; estudiante sordo Análise Textual dos Espelhos das Redações de Candidatos que Realizaram a Videoprova em Libras do Enem - 2017 O Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) teve sua primeira aplicação de prova em 1998 no Brasil, e tinha como objetivo primordial ser “um instrumento para avaliar o desempenho dos estudantes no término da educação básica” (Silveira, Barbosa & Silva, 2015, p. 2). Desde então, muitas transformações ocorreram na prova e “[...] a partir de 2009, foram adotadas medidas governamentais que incentivaram o uso desse exame também como um meio de ingresso na Educação Superior” (Rocha, Oliveira & Torres, 2022, p. 89). Atualmente, o Enem conta com dezenas de recursos especializados e/ou específico para pessoas que demandam o atendimento às suas necessidades específicas para a realização das provas. Dentre esses recursos, há a videoprova em Libras que “[...] começou a ser adotada no ENEM de 2017 e destina-se a candidatos surdos, usuários da LIBRAS e que recebem a prova em formato de vídeo e também impressa” (Rocha, Oliveira & Torres, 2022, p. 97), além de contar como 120 minutos a mais em cada dia da prova, para a sua realização. A solicitação das pessoas surdas para fazer vídeoprovas em língua brasileira de sinais – Libras não é algo recente. A recomendação nº 001 de 2010, do Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência – Conade, já recomendava a aplicação do princípio da acessibilidade às pessoas surdas ou com deficiência auditiva em concursos públicos, em igualdade de condições Redações de candidatos que realizaram a videoprova em Libras do Enem – 2017 3 com os demais candidatos, com o uso de recursos visuais, por meio de vídeo ou outra tecnologia análoga (Brasil, 2010). Pessoas surdas, usuárias da Libras, reivindicaram também, durante algum tempo, que a prova do Exame Nacional do Ensino Médio – Enem fosse realizada em formato de vídeo, via campanhas em redes sociais (Rocha, 2015; Junqueira & Lacerda, 2019). Diante de tais solicitações algumas universidades passaram a realizar seus vestibulares em formato de videoprova: Universidade Federal de Grande Dourados (em 2010), Universidade Federal da Paraíba (em 2012, com tradução apenas da prova de Língua Portuguesa), Universidade Estadual de Londrina (em 2011) e, “Em 2010, a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e 2013 a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), passaram a contar [também] com a tradução [do vestibular] em formato vídeo-gravado em Libras” (Rocha & Lacerda, 2016, p. 711), em várias edições, até a oferta da videoprova em Libras pelo Enem. Essa movimentação das universidades também favoreceu ações para que o Enem fosse ofertado em Libras, bem como a intensificação por parte da comunidade surda de campanhas nessa direção. Iniciativas de oferta de exames vestibulares em Libras (Rocha, 2015), além do baixo desempenho dos estudantes surdos no Enem (Junqueira & Lacerda, 2019), da constante solicitação das pessoas surdas para a tradução do Enem em Libras e das reivindicações apresentadas pela Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos – Feneis (2013), assegurando equidade e isonomia às pessoas surdas no exame, culminaram, em 2017, com a realização da videoprova em Libras, pela primeira vez, na história do Enem. Além de o Enem-2017 ter sido o marco da realização das videoprovas em Libras (Brasil, 2017b), esse exame também se destaca por trazer como temática para a redação a pessoa surda e questões da inclusão educacional: “Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil”. O tema em questão trouxe bastante visibilidade para a pessoa surda, já que o conjunto dos participantes do Enem precisou refletir sobre essa realidade para produzir suas redações (Morais et al, 2019). “O tema da redação do ENEM de 2017 proposto [...] surpreendeu os alunos que prestavam o exame” (Morais et al, 2019. p. 155). Razões pelas quais, escolhemos o ano de 2017 para a realização da presente análise. Inseridos nesse contexto, objetivamos, no presente estudo, analisar a redação de 50 estudantes que realizaram a videoprova do Enem em Libras, em 2017, e compreender, por meio do uso de um software de análise textual, o que eles ‘falaram de si mesmos’, do seu processo educacional na condição de pessoa surda e se manifestaram, de alguma forma, sobre o fato de o tema da redação ter ou não colaborado para notas melhores desse grupo no ano de 2017. A Redação do Enem 2017 e a sua Matriz de Correção A fim de auxiliar os estudantes na escrita da redação do Enem-2017, havia quatro textos motivadores relacionados à temática “Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil”. O primeiro texto motivador trazia um fragmento da Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015, mais conhecida como Lei Brasileira de Inclusão, sobretudo o trecho do seu capítulo IV – do direito à Educação. O segundo texto, no formato de gráfico de linhas, mostrava a evolução do número de matrículas de surdos na Educação Básica, em classes comuns (alunos incluídos) e em classes especiais/escolas exclusivas (com os valores em milhares). O terceiro texto, em formato de imagem, apresentava um cartaz de uma campanha publicitária com a imagem de um homem ao fundo com os seguintes dizeres destacados: “Sou surdo e pós-graduado em Marketing. E na sua empresa tem espaço para mim? Trabalho não tolera preconceito. Valorize as diferenças”. O quarto e último texto traz informações históricas sobre o Dia do Surdos, a história do Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES) e a Lei nº 10.436 de 2002 (Brasil, 2017d). Arquivos Analíticos de Políticas Educativas, Vol. 31 No. 21 4 Figura 1 Provas do Enem: Textos Motivadores Fonte: Brasil (2017d). A proposta da redação do Enem-2017 foi a de redigir um texto dissertativo- argumentativo em modalidade escrita formal da língua portuguesa sobre o tema, selecionando, organizando e relacionando, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para a defesa de ponto de vista do candidato (Brasil, 2017d). Destaque-se que, para zerar na redação era preciso que o candidato fizesse qualquer uma das seguintes situações: 1) desrespeitasse os direitos humanos1 ou 2) tivesse até 7 (sete) linhas escritas, sendo considerado “texto insuficiente”, 3) fugisse ao tema ou que não atendesse ao tipo dissertativo-argumentativo ou, ainda, 4) apresentasse parte do texto deliberadamente desconectada do tema proposto. Ainda constam as seguintes recomendações na prova: 1) texto 1 Tal como consta na prova, no entanto, o Supremo Tribunal Federal resolveu por manter uma decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) que resolveu anular um trecho de um dos itens do edital do Enem (2017), o qual determinava a nota zero para a redação que desrespeitasse os direitos humanos. Segundo Neves (2018): “[...] quando o STF decidiu alterar o edital do ENEM/2017 e não mais anular as redações que desrespeitassem os direitos humanos, pois antes, eles, alunos, se sentiam lesados em não poderem expressar seus desejos fascistas em suas produções textuais (p. 752)”. Redações de candidatos que realizaram a videoprova em Libras do Enem – 2017 5 até 30 linhas, 2) A redação que apresenta cópia dos textos da proposta de redação ou do caderno de questões tem o número de linhas copiadas desconsiderado para efeito de correção e 3) a redação deve ser escrita à mão, na folha própria para tal (Brasil, 2017d). Romário et al (2018) entrevistaram 49 estudantes ouvintes quando deixavam o local de prova, em uma escola pública estadual na cidade de João Pessoa/PB, no primeiro dia de provas do Enem (2017) – dia da redação. A pergunta principal da entrevista foi: “Para você, quais são os ‘desafios para a formação educacional de surdos no Brasil?’” (p. 505). Diante disso, 13 desafios para a formação de pessoas surdas no Brasil foram identificados: 1) Inclusão da Libras como disciplina curricular obrigatória na educação básica (24,48%), 2) Formação docente (18,36%), 3) Despreparo institucional (18,36%), 4) Inclusão social e laboral (16,32%), 5) Combate ao preconceito (16,32%), 6) Instituição própria para as pessoas surdas (12,24%), 6) Difusão da Libras na sociedade (8,16%), 7) Investimento financeiro (6,12%), 8) Melhoria da qualidade educacional (4,08%), 9) Políticas públicas específicas para as pessoas surdas (4,08%), 10) Conscientização sobre os direitos das pessoas surdas (2,04%), 11) Tolerância ao diferente (2,04%), 12) Desafios superados (2,04%) e 13) os que não souberam responder (2,04%). Nesse sentido, Romário et al (2018) apontam que: Pessoas ouvintes conseguiram visualizar desafios que estudiosos da área vêm apontando há bastante tempo, tais como: a inclusão da Libras como disciplina curricular nas escolas, a formação docente qualificada para a educação das pessoas surdas, o preparo adequado das instituições para atendê-las, a inclusão social e laboral e o combate ao preconceito. (p. 517) Assim, indagamos se, nesse mesmo contexto, os sujeitos surdos em suas redações apontaram temas semelhantes e se, como os participantes ouvintes, as pessoas surdas conseguiram abordar reflexões importantes (presentes nas pesquisas da área) em suas redações dissertativas- argumentativas. Para a correção da redação do Enem, há uma matriz de referência (Brasil, 2017a) que indica pelo menos dois avaliadores para cada redação, de forma independente, atribuindo no máximo 200 pontos para cada uma das cinco competências, totalizando no máximo 1000 pontos. A primeira competência avaliada no Enem é: “Demonstrar domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa” (Brasil, 2017a). Nessa competência, o participante alcança até 200 pontos, se ele demonstrar, ao longo de sua redação, um: “[...] excelente domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa e de escolha de registro. Desvios gramaticais ou de convenções da escrita serão aceitos somente como excepcionalidade e quando não caracterizarem reincidência” (Brasil, 2017a, p. 14). As pessoas surdas ou com deficiência auditiva, nessa categoria, são avaliadas “[...] em uma categoria diferente dos demais (construção sintática, convenções da escrita, convenções gramaticais, escolha de registro e escolha vocabular)” (Brasil, 2020, p. 10). Em relação aos desvios considerados em qualquer correção de redação, para as pessoas surdas ou com deficiência auditiva é importante que não haja supervalorização destes no processo de atribuição de nota na competência avaliada (Brasil, 2020), pois “Muitos profissionais de educação, que desconhecem as particularidades da Libras, ao se depararem com a escrita do surdo, consideram-na errada” (Cruz et al, 2020, p. 178). A segunda competência é: “Compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o tema, dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo em prosa” (Brasil, 2017a). Nessa competência, recebe nota integral o participante que: “Desenvolve o tema por meio de argumentação consistente, a partir de um repertório sociocultural produtivo, e apresenta excelente domínio do texto dissertativo- argumentativo” (Brasil, 2017a, p. 19). Nessa competência, poderão ser notadas características de segunda língua nos estudantes surdos, quando da compreensão ao tema proposto: “[...] há a Arquivos Analíticos de Políticas Educativas, Vol. 31 No. 21 6 necessidade de ter intérpretes na realização das provas, de modo a esclarecer dúvidas dos usuários de Libras na leitura de palavras, expressões e orações escritas em língua portuguesa” (Brasil, 2020, p. 12). Nessa competência, nota-se, devido aos gargalos vivenciados no processo educacional das pessoas surdas, que [...] é natural que ocorra dificuldade quanto à escrita coesa e coerente na língua portuguesa” (Cruz et al, 2020, p. 178). Por fim, compreendendo esse contexto, espera-se do candidato “[...] que ele disponha de repertório linguístico-cultural e de conhecimento prévio suficiente para desenvolver um texto com as características esperadas pela banca corretora das redações” (Cruz et al, 2020, p. 178). A terceira competência avaliada é: “Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista” (Brasil, 2017a). Aqui, receberá a pontuação integral o participante que “Apresenta informações, fatos e opiniões relacionados ao tema proposto, de forma consistente e organizada, configurando autoria, em defesa de um ponto de vista” (Brasil, 2020, p. 21). Nesse contexto, para as pessoas surdas ou com deficiência auditiva, “os olhares da banca de avaliadores devem ser orientados pela premissa de respeito a essa diferença em relação aos ouvintes” (Brasil, 2020, p. 14). Tal respeito refere-se ao fato de a escrita da pessoa surda ter características de uma segunda língua, com características próprias que precisam ser contempladas (Cruz et al, 2020). A quarta competência esperada é que o candidato possa “Demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação” (Brasil, 2017a). Nessa competência, para a máxima pontuação, verifica-se se o participante “Articula bem as partes do texto e apresenta repertório diversificado de recursos coesivos” (Brasil, 2017a, p. 24). Nesse quesito, o participante será avaliado em como “[...] articula as ideias no seu texto e como usa os operadores argumentativos próprios para estabelecer as relações semânticas que quer demonstrar na sua redação” (Brasil, 2020, p. 14). Aqui, novamente, as defasagens vivenciadas pela maioria das pessoas surdas na educação podem refletir em sua escrita, uma vez que é exigido: [...] que a habilidade de leitura seja revertida para a habilidade de escrita, pois a produção textual depende de repertório linguístico, adquirido por meio de leituras, de atenção, memória, monitoramento para evitar fragmentação de ideias, repetição de palavras e expressões, identificando uso formal e informal da língua. (Cruz et al., 2020, p. 179) A quinta competência é: “Elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direitos humanos” (Brasil, 2017a). Já nessa competência é aferido, para a nota máxima, se o participante “Elabora muito bem proposta de intervenção, detalhada, relacionada ao tema e articulada à discussão desenvolvida no texto” (Brasil, 2017a, p. 25). Nessa competência, a proposta “[...] deve ser concreta, específica ao tema e consistente com o desenvolvimento das ideias” (Brasil, 2020, p. 16). Assim, a “[...] produção textual consiste na apresentação de uma solução para determinado problema, a partir dos argumentos descritos, discutidos e refletidos no texto” (Cruz et al, 2020, p. 179). Nessa senda, o que se espera dos participantes com relação à temática do Enem-2017 é que: [...] os textos produzidos se direcionassem para um contexto específico, como o contexto legal, discutindo aspectos existentes na legislação atual no que concerne ao acesso dos surdos à educação em Libras, à educação de surdos no sistema educacional formal e à preparação do próprio sistema educacional para atender às necessidades desse público; o contexto de inclusão por meio de políticas públicas, abordando ações afirmativas a favor da formação educacional dos surdos; o contexto de defesa dos direitos educacionais dos surdos com Redações de candidatos que realizaram a videoprova em Libras do Enem – 2017 7 apoio da sociedade civil e/ou de entidades não governamentais; o contexto de mudanças culturais em relação à cultura surda e à cultura ouvinte, com a quebra de estigmas de preconceitos e de pressupostos referentes à educação de surdos; os contextos de ações individuais com incentivo à integração familiar na educação do surdo, estimulo à aprendizagem da Libras e ao estabelecimento de apoios governamentais ou civis. (Brasil, 2017a, p. 14) Contudo, parece haver uma certa dispersão com relação ao texto motivador três, que tratava da questão do mercado de trabalho, que não se relaciona tão estritamente com o tema da redação. Ressalte-se ainda que a correção da redação dos estudantes surdos é realizada por uma equipe com experiência na temática, e leva-se em consideração o que é preconizado na legislação brasileira sobre a temática em questão, como, por exemplo: o Decreto nº 5.626 de 2005, que preconiza a adoção de “[...] mecanismos de avaliação coerentes com aprendizado de segunda língua, na correção das provas escritas, valorizando o aspecto semântico e reconhecendo a singularidade linguística manifestada no aspecto formal da Língua Portuguesa” (Brasil, 2005), questões estas contempladas no edital do Enem (Brasil, 2017d). Dessa forma, o [...] Enem oferece uma correção de redação especializada, que leva em conta características linguísticas específicas dos surdos e deficientes auditivo [...] Para corrigir as redações dos participantes que se declaram surdos ou deficientes auditivos, são selecionados avaliadores que tenham experiência com a escrita de alunos com esse diagnóstico. Além disso, passam pelo Curso de Capacitação de Avaliadores, complementado por uma capacitação específica, em que têm contato com os critérios de avaliação e as produções escritas desses participantes. (Brasil, 2020, p. 4) Ainda nesse quesito, a proposta Brasil (2020) salienta que: “[...] a equipe de avaliadores das redações dos participantes surdos está atenta às interferências da Libras na escrita em língua portuguesa, vistas como um processo normal de sujeitos bilíngues aprendizes de segunda língua” (Brasil, 2020, p. 7). Nesse sentido, é próprio da grande maioria das pessoas surdas construções frasais e gramaticais da Libras, o que configura como um estágio de interlíngua (Brochado, 2003). O participante com surdez, tendo seus direitos garantidos na escrita da redação, poderá, portanto, participar em igualdade de condições com os demais participantes. A principal mudança do Enem 2016 para o de 2017 (foco do presente estudo), em relação aos participantes com surdez ou deficiência auditiva, foi a oferta da videoprova em Libras (Brasil, 2017c) – em caráter experimental, com um dispositivo contendo vídeo com a tradução de itens do Enem 2017 em Libras (Brasil, 2017d). Destarte, a manifestação sobre a realização da videoprova ou não ocorreu no ato da inscrição do candidato e, para isso, era preciso que fosse pessoa surda ou com deficiência auditiva, com comprovação apoiada no Código correspondente à Classificação Internacional de Doença - CID 10, além da descrição da condição que motivou a solicitação. Procedimentos Metodológicos A pesquisa em tela é de abordagem qualitativa e, para alcançar os objetivos desejados, utilizamos de pesquisa do tipo descritiva e exploratória (Triviños, 1987). Valemo-nos do software Iramuteq para a análise textual do espelho de 50 redações de estudantes que realizaram a primeira videoprova em Libras da história do Enem (Brasil, 2017a), cuja temática da redação foi: “Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil”. Os participantes que realizaram a prova em formato de vídeo em Libras eram sujeitos usuários da Arquivos Analíticos de Políticas Educativas, Vol. 31 No. 21 8 Libras e, nessa condição, o tema da redação coaduna com aquilo que é vivenciado (ou que vivenciaram) durante seu percurso acadêmico, o que, em tese, favoreceria sua dissertação. A primeira etapa do presente estudo foi a abertura dos microdados do Enem (2017), utilizando o software R. Selecionamos, assim, todos os estudantes que realizaram as provas ‘verde’ do Enem, que é a prova videogravada em Libras, cujas variáveis foram: CO_PROVA_CN=411, CO_PROVA_CH=412, CO_PROVA_LC=413 e CO_PROVA_MT=414. Em seguida, procedemos à análise das notas das provas e da redação (NU_NOTA_REDACAO). Selecionamos, assim, 50 redações, conforme Tabela 1. Diante do número de inscrição registrado nos microdados, a seleção ocorreu de forma randômica, que foi de 0 a 980. Após esse processo de seleção, solicitamos ao INEP formalmente os espelhos das redações conforme o número de inscrição descrito na Tabela 1. Tabela 1 Redações Selecionadas Número da inscrição Nota 170005686005 0 170004401269 0 170006315267 40 170004396759 60 170002915231 80 170004324084 100 170003192634 120 170002234769 140 170000743714 160 170002302356 180 170001104044 200 170004526223 220 170002564383 240 170005759675 260 170004086868 280 170001312198 300 170000770885 320 170000627902 340 170002239028 360 170002235991 380 170002120146 400 170004074489 420 170000543464 440 170000969555 460 170002247351 480 170000540453 500 170002223849 520 170004491556 540 170001002869 560 170002848379 580 170000616810 600 Número da inscrição Nota 170002629656 620 170003036779 640 170001464764 660 170003332383 680 170000735102 700 170004557063 720 170003764376 740 170002044263 760 170002056339 780 170002861761 800 170002634340 820 170000425492 840 170003517719 860 170003671929 880 170002445151 900 170000539697 920 170005292676 940 170000635370 960 170001164962 980 Fonte: autoria própria, com base nos microdados da redação do Enem (2017). Redações de candidatos que realizaram a videoprova em Libras do Enem – 2017 9 Com a devolutiva do Inep fornecendo os espelhos das redações, procedemos à digitação delas. No total, foram 27 páginas de material. Em média, 46% das redações tinham títulos. A média de parágrafos girou em torno de quatro. Havia redações escritas com 1 (um) parágrafo, até produções realizadas com 9 (nove) parágrafos. Para a inserção dos dados no Iramuteq, fizemos uma linha de comando para cada uma das redações, da seguinte forma: **** *inscrição_01, para a redação número 1, **** *inscrição_50, para a redação de número 50 e assim para cada uma delas. Após todo o processo de limpeza do corpus, seguindo as recomendações contidas no manual do Iramuteq, iniciamos o processamento dos dados, o qual gerou uma série de imagens visuais que serão apresentadas na sequência. Nesse contexto e objetivando a permanência visual das imagens que foram geradas pelo software, selecionamos todas as palavras com frequência que variaram entre 179 até 20 ocorrências. Havia 2040 formas distintas nas redações (palavras escritas de formas diferentes), mais de 9 mil palavras presentes nas mais de 27 páginas, 1204 palavras escritas uma única vez (Hápax) e um aproveitamento de mais de 75% do corpus, o que gerou um material consistente para análise. Vale ressaltar que o Iramuteq não analisa os dados, mas entrega um produto garimpado, sobre o qual os pesquisadores devem se debruçar para interpretação e análise (Rocha et al, 2021). Resultados e Discussões: Análise das Redações No Enem de 2017, houve um total de 6.731.203 inscritos, foram solicitados mais de 38 mil recursos de Atendimento Especializado e mais de 30 modalidades de recursos diferentes e, dentre estes, 2.364 participantes realizaram a videoprova em Libras. A média geral das 4.398.454 redações corrigidas foi de 558,55. Ainda há 1.307 participantes cujas redações foram anuladas, 3.869 que realizaram uma cópia do texto motivador, 35.910 que entregaram a redação em branco, 234.317 que fugiram ao tema, 4.431 que não atenderam ao tipo solicitado de redação, 15.266 que tinham texto insuficiente e 7.874 com partes desconectadas (Brasil, 2017). As redações dos participantes da videoprova em Libras foram avaliadas de zero a 980 pontos e, num total de 1.932 redações corrigidas, a média foi 405,7 (Brasil, 2017). Destaca-se a diferença, em relação à média geral, de mais de 150 pontos, para menos. O presente estudo selecionou destas 1.932 redações, 50 redações (sendo que duas delas foram entregues em branco), o que corresponde acerca de 2,5% (um percentual significativo para análise). Para Morais, “O desempenho insuficiente pode se justificar pela falta de domínio de conteúdo, de habilidade de compreensão textual e de produção escrita” (p. 156); e ainda complementa “O que mostra que somente acesso em Libras ou um tema de conhecimento não garantem um desempenho satisfatório” (Morais, 2019, p. 156). Assim, indagamos: Um tema considerado propício para o desenvolvimento de argumentos pelos participantes surdos, os ajudou ou os atrapalhou na escrita? Os problemas de notas abaixo da média geral estão relacionados somente à escrita em segunda língua ou a uma Educação Básica de baixa qualidade? A nuvem de palavras nos proporciona uma imagem visual das principais palavras usadas nas redações, o que aponta pistas daquilo que foi tratado com maior centralidade. Na nuvem de palavras gerada pelo Iramuteq, a maior evidência e com maior centralidade é a pessoa surda2, Libras3, educação, escola, Brasil, sociedade, formação, aula, inclusão, dentre outras, o 2 A partir de agora, utilizaremos em itálico as palavras selecionadas para compor o corpus de análise e foco da nuvem de palavras e análise de similitude, bem como os excertos retirados das redações. 3 Que após o processo de lematização ficou como libra. Arquivos Analíticos de Políticas Educativas, Vol. 31 No. 21 10 que aponta para temas tratados durante a redação. Na inscrição_064, vemos: “Sociedade o povo com de deficiências o direito educação, que entra conjunto nesse os surdos e ouvir da difrença5 a natureza com cultura” (sic); e, ainda, em inscrição_08 “É preciso notar que o surdo na sociedade é visto e tratado como ser humano diferente e aqui vou mostrar importantes pontos positivos e negativos que atingem o cotidiano da problemática da vida de um portador de surdez”. Tais redações exemplificam a assertividade do software quando da distribuição realizada na nuvem de palavras, na Figura 2. Figura 2 Nuvem de Palavras das Redações Fonte: Elaborada pelos autores com dados das redações de participantes que realizam a videoprova em Libras (2017). Os trechos destacados revelam, bem como a nuvem de palavras, desafios que são enfrentados pelas pessoas surdas, seja na educação, seja na sociedade em geral, inclusive relatados, em diferentes décadas e níveis, por pesquisadores da área. Por exemplo: “observa-se que as crianças surdas encontram-se defasadas no que diz respeito à escolarização, sem o adequado desenvolvimento e com um conhecimento aquém do esperado para sua idade” (Lacerda, 2006, p. 165;) e, ainda, em outra pesquisa, Cruz e Meireles (2018) apontam “[...] que os alunos atingem a graduação com sérias limitações linguísticas, não atendidas nos anos anteriores, pois o nível de conhecimento e de fluência da Língua Portuguesa é visivelmente aquém do desejável para um graduando (p. 191). Outro tipo de análise utilizada é a de similitude, que traz as relações que ocorrem entre as palavras em um corpus, evidenciando as palavras selecionadas e as ocorrências entre elas e sua conectividade. Em outro estudo realizado com o resumo de teses e dissertações, Rocha (2019) esclarece que: “Assim, podemos inferir a estrutura de construção dos resumos e os temas mais relevantes presentes nestes, a partir das coocorrências entre as palavras” (p. 120), quando do uso da 4 As redações serão apresentadas em itálico e o número dela na ordem em que foi colocada no Iramuteq. 5 Em muitas redações há erros ortográficos na escrita das palavras, transcrevemos as redações tal qual estão no espelho enviado. Usaremos o sic apenas nessa primeira transcrição de uma das redações, nas demais, permanecerá apenas o excerto. “A expressão sic significa assim mesmo, isto é, estava assim no texto original. Redações de candidatos que realizaram a videoprova em Libras do Enem – 2017 11 análise de similitude. De forma semelhante, conseguimos inferir elementos que constituíram a maior parte das 50 redações escritas pelos participantes da videoprova em Libras. Por fim, salientamos que a análise em questão baseia-se na teoria dos grafos e produz gráficos da livraria IGRAPH do R (Marchand & Ratinaud, 2012). A análise de similitude aponta, ainda, algo que a diferencia de todas as demais experiências anteriores dos pesquisadores no uso desse tipo de software, que é uma capilarização de ramificações. É exatamente isso que encontramos nas redações: uma série de temáticas sendo trabalhadas, algumas de forma bastante superficial, outras mais aprofundadas, algumas em consonância com a temática principal (desafios educacionais) e, outras, sobre dificuldades presentes no dia a dia das pessoas surdas – para além do ambiente acadêmico, dificuldades enfrentadas no mercado de trabalho e afins. Na análise de similitude apresentada na Figura 3, há uma centralidade no termo surdo e a partir dela emergem diversas raízes. As mais fortemente marcadas são as que se relacionam aos termos escola, educação, pessoa, Libras e outros. Nas redações, encontramos textos que ajudam a compreender as raízes mais fortemente marcadas na Figura 3, como, por exemplo, na inscrição_03 “Portanto, as escolas e as universidades devem adquirir essa língua nas grades curriculares de seus cursos, para que todos os alunos saibam como conversar e ajudar um surdo e este não ficar isolado das relações por falta de comunicação”. Figura 3 Análise de Similitude das Redações Fonte: Elaborada pelos autores, com dados das redações de participantes que realizam a videoprova em Libras (2017). Arquivos Analíticos de Políticas Educativas, Vol. 31 No. 21 12 Com enfoques mais diversificados, foram identificadas redações nas quais o participante se pronuncia na primeira pessoa, apontando suas dificuldades com a escrita da língua portuguesa, como na inscrição_06: “Por isso, sou surdo o primeiro difícil profundo da linguagem. As pessoas que no preconceito se pensar esse do surdo que burro e não saber escreveu [...]”. Há, ainda, redações que definem a surdez como um mal com o qual se pode nascer e falam do sofrimento causado em decorrência dela, como, por exemplo, a inscrição_08: “Eu sofro bastante, pois apresento surdez moderada a severa e sinto na pele o sofrimento de um surdo”. Encontram-se ainda nas redações dificuldades quanto ao processo de escolarização, como na inscrição_19: “eu recebia falta mesmo estando em aula, além de não conseguir acompanhar a aula com grandes barulhos em sala”. Há aqueles que relatam situações de dificuldades em ambientes não escolares: “eu vou pro banco para pegar o meu dinheiro se não tiver o intérprete e eu não entender as palavra e apertar errada que perder o dinheiro, no hospital também se não tem o interprete e como os surdos vai comunicar do dono para saber porque doente” (inscrição_34). Outros temas mais afastados na análise de similitude perpassam palavras como: problemas, interpretar/intérprete, dificuldade, preconceito, aula e outros. Na inscrição_04, fica perceptível que as palavras posicionadas pelo software foram assertivas ao identificar que: “Quando na escola um surdo sozinho na aula falta de interprete não tem pois é difícil, o professor explicar pro alunos e menos o surdo porque o surdo não entendeu o professor o que falou então alguns surdos já se reprovou na escola”. Nessa teia que se formou com a análise de similitude, fica clara a inserção de muitos temas. Dessa forma, as redações escritas pelos sujeitos que realizaram a videoprova pode apontar diferentes caminhos, como bem identificou Romario et al (2018), ao entrevistar pessoas ouvintes sobre a temática da redação do Enem também do ano de 2017, identificando ao menos 13 desafios para a formação de pessoas surdas no Brasil. Nas redações analisadas neste estudo, podemos identificar também um número grande de argumentos em relação a estes desafios. Na redação do Enem-2017, era exigido dos participantes “[...] o conhecimento da temática da educação de surdos e a apresentação de argumentos que demonstrassem esse conhecimento” (Cruz et al, 2020, p. 176). Esperava-se, ainda, que o participante fosse: “reflexivo, crítico e capaz de construir argumentos para defender um ponto de vista, premissa estabelecida nas competências do vestibulando, que está bem clara na explanação do INEP” (Ibidem, p. 174). Nesse sentido, em observância às redações, algumas se posicionaram de forma clara, crítica e objetiva, outras tangenciaram apenas o tema principal, e, ainda outras, trouxeram vivências próprias. Em sua maioria, as redações demonstraram várias possibilidades no tocante aos desafios educacionais de pessoas surdas no país, mas com pouco adensamento. A próxima análise a ser apresentada é conhecida como Classificação Hierárquica Descendente (CHD) “[...] que, além de permitir uma análise lexical do material textual, oferece contextos (classes lexicais), caracterizados por um vocabulário específico e pelos segmentos de textos que compartilham este vocabulário” (Camargo & Justo, 2013, p. 515). Nesse caso, o software classifica “[...] segmentos de texto em função dos seus respectivos vocabulários, e o conjunto deles é repartido com base na frequência das formas reduzidas (palavras já lematizadas)” (Camargo & Justo, 2013, p. 516). Redações de candidatos que realizaram a videoprova em Libras do Enem – 2017 13 Figura 4 Filograma das Classes Fornecidas pelo Iramuteq Fonte: Elaborada pelos autores, com dados das redações de participantes que realizam a videoprova em Libras (2017). A CHD gerada foi repartida pelo software em 5 classes. A primeira classe, a mais representativa do corpus analisado, corresponde a 26,4%. A segunda classe corresponde a 18,6%; a terceira classe a 17,6% e a quarta classe, a 20,2%. A quinta classe, a menos representativa, corresponde a 17,1%. Na classe de palavras 3, palavras como: campanha/conscientização, ensino, deficiente, além, instituição, profissional e outras encontram-se com mais frequência. Em tal classe, observamos elementos relacionados à importância da conscientização da sociedade sobre a pessoa surda. A Inscrição_42, por exemplo, pontua: “Além disso, o Ministério da Educação deve promover campanhas por meio das mídias, como as redes sociais, para que a sociedade tenha tolerância e valorizar as diferenças”. Ainda nesse contexto, a inscrição_08 traz como contribuição que: Apresnto para melhoria da vida de um surdo: aumento na fiscalização e leis mais severas para punir quem desrespeita um surdo; mais campanhas conscientização e maior investimento em educação dentre isso melhor treinamento de professores, médicos e outros profissionais que convivem com os surdos e ofertar ao surdo financiamento para aquisição de tecnologias novas para melhor trato da surdez. Arquivos Analíticos de Políticas Educativas, Vol. 31 No. 21 14 A discriminação, preconceito e as barreiras impostas por uma sociedade de maioria ouvinte são representadas na classe 2 como formas de problemas. Contudo, como possíveis soluções, a classe de palavras 3 traz a necessidade de conscientização da população, por meio de campanhas educativas, como forma de dissipar a barreira atitudinal, entendida aqui como “atitudes ou comportamentos que impeçam ou prejudiquem a participação social da pessoa com deficiência em igualdade de condições e oportunidades com as demais pessoas” (Brasil, 2015) Na classe 2, as palavras com mais evidência são: individuo, sociedade, preconceito/discriminação/minoria, escolar e outros. A redação inscrição_14 sintetiza bem tal divisão feita pelo Iramuteq, na qual pontuou: “Além disso, há a questão do preconceito dentro do ambiente escolar, o que contraria totalmente a (sua) principal função da escola torna-los cidadãos e tolerantes. O que acaba desestimulando os deficientes prosseguirem na formação educacional”. Na inscrição_33, o/a autor/a, esclarece que a Constituição Federal é enfática quanto ao direito à educação: “Todavia, a legislação é ineficaz em relação a minorias. A ausência de profissionais especializados em libras e instituições adaptadas à inclusão de deficientes auditivos gera a abstenção educacional desses indivíduos”. O preconceito, ou a falta de um olhar mais voltado às diferenças, ainda é uma barreira enfrentada por muitos sujeitos surdos que foi muito bem posta nas redações, para que haja, assim, políticas mais efetivas no tocante ao atendimento a tais singularidades. Na classe de palavras 5, emergem palavras como: educacional, formação, desafio, alcançar, termos históricos, entre outros. Em sua maioria, tais palavras estão relacionadas ao título da redação que, em algumas redações, foi copiado tal qual no texto do candidato. No entanto, a inscrição_11, baseada no psicólogo humanista Maslow, esclarece que: Um dos desafios enfrentados em relação a educação, é que com o decorrer dos anos, apesar da existência de leis que garantem os direitos à educação de qualidade e inclusiva. Na prática, isso não ocorre de forma universal, pois as escolas muitas vezes não dispõem de instrumentos de apoio ao aluno portador da deficiência auditiva, seja com intérprete da Lingua Brasileira de Sinais (LIBRAS), de um repetidor de informações ou até mesmo de um professor apto a lidar com esse aluno em sala de aula. Pelo trecho evidenciado na redação da/o estudante e presente em várias outras redações, observa-se uma descrença, entre o que figura na legislação e o que de fato é cumprido. Nesse sentido, Rocha (2019), por exemplo, ao analisar o Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) e a relação com a inclusão nas Instituições de Educação Superior (IES), aponta que: “[...] exige-se, embora apenas num plano documental, que as adequações estruturais e comunicacionais sejam garantidas pelo PDI das IES, o que não assegura, necessariamente, seu cumprimento na prática das instituições” (p. 78). Tal falta de confiança no cumprimento das legislações é refletido em todos os níveis e camadas sociais, devido à vivência dos participantes no processo em questão, ou seja, o surdo a conhece de dentro, pois a vivencia. Acrescente-se, ainda, a demora na efetivação de ações inclusivas. Na classe 4, notam-se as seguintes palavras em destaque: acessibilidade, língua, sinal, perder, termos esses relacionados, por exemplo, na inscrição_19: “O surdo quando entra na sala de aula com ensino educacional padrão, sem acessibilidade corre o risco de perder a chamada, quem nós garante que não irá perde os que são repassados em aula?” A acessibilidade para as pessoas com deficiência é necessária, para que de fato tenham igualdade de condições com as demais pessoas. Ressalte-se que a sociedade no geral é uma grande produtora de barreiras (entre elas a comunicacional), o que precisa ser transposto com a acessibilidade que deve ser concedida às pessoas surdas por meio da língua de sinais. Assim, a barreira comunicacional deixa de ser um impeditivo e passa a ser uma diferença linguística. Redações de candidatos que realizaram a videoprova em Libras do Enem – 2017 15 Por fim, na classe 1 de palavras, é possível identificar alguns termos com maior destaque, como: importante, muito, precisar, lutar, aprender etc. relacionados aos estudos, ao não ouvir/surdo, as empresas e outras. Na inscrição_25, tal classe pode ser assim representada: “Surdos estava muitos sofre e difícil, mas surdos precisa tentar muitos lutar pode mostra sinal muitos importante libras e também surdos precisa lutar tentar conseguir o trabalho mostra precisa igual”. Nessa classe, relataram-se vivências de pessoas surdas, das constantes lutas pelo reconhecimento de sua singularidade linguística e de suas especificidades culturais. A Análise Fatorial de Correspondência (AFC) também foi um elemento empregado nas análises como mais uma ferramenta na compreensão das redações. Por essa análise, é possível identificar entrecruzamentos e distanciamentos. Na Figura 4, identificamos redações que se complementavam ou se distanciam do centro, mostrando assim, a relação entre elas e como ‘conversavam’ entre si. Na Figura 5, é possível identificar quais redações têm temas mais próximos entre si, e as mais distantes, mostrando construções e/ou temáticas que se diferenciam das demais, como podemos identificar no quadrante 1, com a redação 37 (que está separada das demais). Tal redação é a única que utiliza o filósofo Confúcio, fala sobre a lei de reserva para pessoas com deficiência em empresas com mais de 100 funcionários e, por fim, trata sobre a curricularização da disciplina de Libras e a disseminação do conhecimento sobre a pessoa surda, como forma de diminuir a evasão escolar dessa população. Trata-se de contribuições importantes presentes na redação relatada e que vem sendo pauta recorrente da luta da comunidade surda brasileira. No quadrante 2, as redações encontram-se mais concentradas, sem grandes distanciamentos. A inscrição_38 é a que se destaca mais, diferenciando-se das demais. Ao analisá-la, identificamos uma série de palavras escritas de forma incoerente em relação ao vernáculo da Língua Portuguesa: “O governo oriente orzianção para acabar acessibilidade de barreira pessoa com deficiência sofer menos”. No quadrante 3, as redações estão também concentradas, com algumas variações, como a redação 26, em que é apontada a necessidade em se concentrar na área em que se tem formação: “Cada interprete deve interpreta sua disciplina de formação para adaptar para os surdos entender”, diferenciando-a das demais redações. A redação 18 é bastante enxuta e objetiva, e aponta algo que a diferencia, que é: “Portanto há necessidade de cursos na área de tradução e interpretação de Libras”, certamente uma lacuna existente, visto que, quando há familiaridade com a temática que se interpreta ou traduz, as escolhas lexicais são mais assertivas e isso gera uma melhor qualidade na interpretação. Segundo Santos (2014), “Algumas condições devem ser consideradas em sua formação [do Intérprete Educacional], como a forma de lidar com cada disciplina, os conhecimentos específicos das áreas de atuação, os recursos para interpretação que se adequam a cada contexto (p. 103, grifo nosso). Já no quadrante 4, temos as maiores dispersões, como pode ser constatado, por exemplo, na redação 2, que traz vários recortes dos textos motivadores, nomes de pessoas (relatos pessoais) e outros: “[...] Divisa Nova mãe Libras Regina sala de recurso 2013 Kassy 13 anos escola Josiane libras alunos feliz”, tornando o texto bastante confuso para o leitor. Já na redação 28, há uma referência a Maquiavel, no qual o/a candidato/a esclarece que, para este: “uma mudança proporciona uma nova mudança, o que já acontece no país”, ao se referir à formação educacional para surdos como um desafio não tão atual assim. Arquivos Analíticos de Políticas Educativas, Vol. 31 No. 21 16 Figura 5 Análise Fatorial de Correspondência Fonte: Elaborada pelos autores, com dados das redações de participantes que realizam a videoprova em Libras (2017). Considerações Finais O tema da redação de 2017 trouxe como temática principal a pessoa surda e seus desafios educacionais, o que colocou esses sujeitos em evidência. As redações aqui analisadas são de pessoas que realizaram a videoprova em Libras do Enem, o que os torna sujeitos com mais afinidade com relação ao tema, uma vez que, se são usuários da Libras, já enfrentaram, em algum momento de sua escolarização, desafios educacionais. Em tese, esses participantes teriam bom volume de argumentos para dissertar e argumentar sobre a temática, no confronto com estudantes não surdos. Pela análise realizada nas redações, seja com o auxílio do Iramuteq, seja na leitura de cada uma delas, é possível observar que, apesar de os participantes analisados usarem a Libras, serem surdos/deficientes auditivos e serem parte do público-alvo da Educação Especial, havia diversos erros conceituais e/ou relacionados à Língua Portuguesa com relação à temática. Veja-se, como, por exemplo, alguns destaques: a) portador de deficiência ao invés de pessoa com deficiência, b) confusão entre as nomenclaturas surdez e deficiência auditiva, c) linguagem de sinais ao invés de língua de sinais, d) LIBRAS ao invés de Libras. Redações de candidatos que realizaram a videoprova em Libras do Enem – 2017 17 Com relação a um olhar mais macro sobre o conteúdo das redações, é possível identificar diversas temáticas, o que tornou a análise de similitude bastante diversificada. Apesar de o título da redação ser: “Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil”, um dos textos motivadores tratava sobre o mercado de trabalho, o que abria caminho para discutir outra temática, para além do que constava no título, o que de fato ocorreu; também emergiram questões sobre conscientização sobre a pessoa surda e sobre a Libras; e ainda relatos de situações vivenciadas no dia a dia por esses sujeitos. É possível identificar redações muito boas, inclusive bem fundamentadas teoricamente, e outras bastante frágeis, bem aquém do esperado para adentrar no Ensino Superior. Considerando que o tema da redação se referia à vivência daqueles que realizaram a videoprova em Libras, os candidatos tiveram um desempenho bem abaixo da média geral, o que pode apontar que: mesmo havendo uma prova em Libras, mesmo adotando critérios de correção de segunda língua e mesmo tendo uma temática tão próxima para quem disserta sobre o assunto, se a educação básica não for de qualidade, tudo isso é pouco eficaz para as pessoas surdas, usuárias da Libras (Rocha, 2015). Conforme apontado por Cruz et al (2020), e corroborando com a temática aqui defendida: “Dados divulgados por alguns jornais, a partir de informações do INEP, revelam que o desempenho dos alunos surdos em 2017 não foi considerado melhor do que em anos anteriores [...]” (p. 173). Para Morais (2019), “Na redação, apesar do tema ser muito conhecido pelos surdos, por viverem no dia a dia, a média desses alunos ficou bem abaixo da média geral. Acreditamos que as notas médias desses candidatos refletem os desafios que enfrentamos no ensino desses aprendizes [...]” (p. 158). A luta pelo direito de uma educação de fato bilíngue e de qualidade é legítima, pois de nada adianta ter direitos e prerrogativas diferenciadas para se fazer uma avaliação como a do Enem, se o conteúdo necessário para enfrentar esse tipo de avaliação é negado por uma educação básica de pouca qualidade e pouco atenta às diferenças linguísticas das pessoas surdas (Rocha, 2015). Nesse sentido, Cruz et al (2020) apontam que: “Dessa forma, podemos pensar que o uso da Libras, por si só, pode não ser suficiente para a solução de problemas” (p. 181). Além de conquistar o Enem em Libras, é necessário ainda se pensar em temáticas tão importantes como: [...] oferta ao aprendiz surdo de um ensino adequado durante toda a vida escolar; disponibilização de professores e intérpretes capacitados para desenvolverem capacidades de leitura e produção textual; elaboração de materiais didáticos autênticos e significativos para o letramento do aluno. (Cruz et al, 2020, p. 181) Esse tipo de pesquisa não deve se esgotar aqui. Ao contrário, ela configura-se como um passo inicial na busca por mais análises que possam englobar cada vez mais redações e qualificá-las, por serem eficientes para a compreensão da educação básica no tocante ao aprendizado da língua portuguesa. Além disso, as pessoas surdas vêm enfrentando cotidianamente uma sociedade de maioria ouvinte, razão pela qual o presente estudo almeja ter potencialidade de provocar pesquisadores que também reflitam sobre a videoprova em Libras e seus efeitos sobre o ingresso dos participantes surdos pelo SISU. Referências Brasil, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). (2017a). Redação do Enem 2017: Cartilha do participante. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas. Arquivos Analíticos de Políticas Educativas, Vol. 31 No. 21 18 Brasil, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). (2017b). Edital nº 13, de 7 de abril de 2017. https://download.inep.gov.br/educacao_basica/enem/edital/2017/edital_enem_2017.pdf Brasil, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). (2017c). Exame nacional do ensino médio (Enem) – Principais Mudanças. 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Cristina Broglia Feitosa de Lacerda Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) cbflacerda@gmail.com ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3250-1374 Graduação em Fonoaudiologia pela Universidade de São Paulo (1984), Mestre em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (1992) e Doutora em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (1996). Atualmente professor Associado II da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) no Curso de Licenciatura em Educação Especial e no Programa de Pós-Graduação em Educação Especial- PPGEEs. http://lattes.cnpq.br/4901568089807470 https://orcid.org/0000-0002-2884-4956 https://orcid.org/0000-0002-3250-1374 Arquivos Analíticos de Políticas Educativas, Vol. 31 No. 21 20 arquivos analíticos de políticas educativas Volume 31 Número 21 28 de fevereiro 2023 ISSN 1068-2341 Este artigo pode ser copiado, exibido, distribuido e adaptado, desde que o(s) autor(es) e Arquivos Analíticos de Políticas Educativas sejam creditados e a autoría original atribuídos, as alterações sejam identificadas e a mesma licença CC se aplique à obra derivada. Mais detalhes sobre a licença Creative Commons podem ser encontrados em https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/. Arquivos Analíticos de Políticas Educativas é publicado pela Mary Lou Fulton Teachers College, Arizona State University. 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