Desafia-TE: Avaliação externa de um projeto local para combater a exclusão social de jovens estudantes Página web: http://epaa.asu.edu/ojs/ Artigo recebido: 30/11/2023 Facebook: /EPAAA Revisões recebidas: 19/9/2024 Twitter: @epaa_aape Aceito: 20/9/2024 arquivos analíticos de políticas educativas Revista acadêmica, avaliada por pares, independente, de acesso aberto, e multilíngue Arizona State University Volume 32 Número 64 15 de outubro de 2024 ISSN 1068-2341 Desafia-TE: Avaliação Externa de um Projeto Local para Combater a Exclusão Social de Jovens Estudantes Norberto Ribeiro Centro de Investigação e Intervenções Educativas/CIIE –Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto/FPCEUP Portugal Andreia Casimiro Gabinete da Juventude, Câmara Municipal de Santa Maria da Feira Portugal & Liliana Freixo Gabinete da Juventude, Câmara Municipal de Santa Maria da Feira Portugal Citação: Ribeiro, N., Casimiro, A., & Freixo, L. (2024). Desafia-TE: Avaliação externa de um projeto local para combater a exclusão social de jovens estudantes. Arquivos Analíticos de Políticas Educativas, 32(64). https://doi.org/10.14507/epaa.32.8491 Resumo: Este artigo tem como principal objetivo analisar as perceções dos/as jovens relativamente ao impacto do projeto Desafia-TE (D-TE) implementado no Município de Santa Maria da Feira, localizado no Norte de Portugal. O D-TE é um programa criado para jovens estudantes (14-18 anos) que manifestam indicadores preocupantes de risco de exclusão social, e.g., desmotivação, insucesso escolar e acesso limitado a experiências educativas significativas. Neste estudo, adotou-se um desenho metodológico misto, com recurso a inquéritos por questionário (N = 33), entrevistas (N = 6) a jovens que participaram nas várias edições do projeto D-TE, e grupos de discussão focalizada (N = 13). Os resultados mostram a existência de uma perceção positiva relativamente ao http://epaa.asu.edu/ojs/ https://doi.org/10.14507/epaa.32.8491 Desafia-TE: Avaliação externa de um projeto local para combater a exclusão social de jovens estudantes 2 impacto nas competências pessoais e relacionais dos/as jovens participantes. No que concerne especificamente ao impacto na escola, os/as jovens revelam uma perceção ambivalente. No geral, os/as participantes gostaram da experiência e voltavam a repeti-la. Discute-se o papel do D-TE no desenvolvimento pessoal, integração social e construção do projeto de vida de jovens em risco de exclusão. A qualidade desenvolvimental das experiências e a escola como potencial dispositivo de exclusão, emergem como tópicos de análise que legitimam o D-TE como alternativa viável para promover maior justiça social. Palavras-chave: projeto municipal; jovens-estudantes; educação não formal; metodologia mista; exclusão social Desafia-TE: External evaluation of a local project to combat the social exclusion of young students Abstract: The main objective of this article is to analyse young people’s perceptions regarding the impact of the Desafia-TE (D-TE) project implemented in the Municipality of Santa Maria da Feira, located in the North of Portugal. D-TE is a program created for young students (14-18 years old) who show worrying indicators of risk of social exclusion, such as lack of motivation, academic failure, and limited access to meaningful educational experiences. In this study, a mixed methodological design was adopted, using questionnaire surveys (N = 33), interviews (N = 6) with young people who participated in the various editions of the D-TE project, and focus group discussions (N = 13). The results show the existence of a positive perception regarding the impact on the personal and relational skills of the young participants. Regarding the impact on school specifically, young people reveal an ambivalent perception. Overall, the participants enjoyed the experience and would repeat it. The role of D-TE in personal development, social integration, and the construction of life projects for young people at risk of exclusion is discussed. The developmental quality of experiences and the school as a potential exclusion device emerge as topics of analysis that legitimise D-TE as a viable alternative to promote greater social justice. Keywords: municipal project; young students; non-formal education; mixed methodology; social exclusion Desafia-TE: Evaluación externa de un proyecto local para luchar contra la exclusión social de jóvenes estudiantes Resumen: El principal objetivo de este artículo es analizar las percepciones de los jóvenes sobre el impacto del proyecto Desafia-TE (D-TE) implementado en el municipio de Santa Maria da Feira, ubicado en el norte de Portugal. D-TE es un programa creado para jóvenes estudiantes (14-18 años) que muestran indicadores preocupantes de riesgo de exclusión social, por ejemplo, falta de motivación, fracaso académico y acceso limitado a experiencias educativas significativas. En este estudio se adoptó un diseño metodológico mixto, utilizando encuestas por cuestionario (N = 33), entrevistas (N = 6) a jóvenes que participaron en las distintas ediciones del proyecto D-TE, y grupos de discusión enfocados (N = 13). Los resultados muestran la existencia de una percepción positiva sobre el impacto en las habilidades personales y relacionales de los jóvenes participantes. En cuanto específicamente al impacto en la escuela, los jóvenes revelan una percepción ambivalente. En general, los participantes disfrutaron la experiencia y la repetirían nuevamente. Se discute el papel de la D-TE en el desarrollo personal, la integración social y la construcción del proyecto de vida de jóvenes en riesgo de exclusión. La calidad evolutiva de las experiencias y la escuela como potencial dispositivo de exclusión emergen como temas de análisis que legitiman la D-TE como una alternativa viable para promover una mayor justicia social. Palabras-clave: proyecto municipal; jóvenes-estudiantes; educación no formal; metodología mixta; exclusión social Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 32, No. 64 3 Desafia-TE: Avaliação Externa de um Projeto Local para Combater a Exclusão Social de Jovens Estudantes O presente artigo tem como principal objetivo analisar a perceção dos/as jovens relativamente ao impacto do projeto Desafia-TE (D-TE) implementado pela Câmara Municipal de Santa Maria da Feira. A decorrer desde o ano letivo 2015-2016, o D-TE é um projeto educativo comunitário de prevenção secundária (Romano & Hage, 2000), que se destina a jovens que estudam no município, com idades compreendidas entre os 14 e os 18 anos, e que manifestam indicadores preocupantes de risco de exclusão social, como por exemplo: desmotivação, insucesso escolar, risco de abandono escolar precoce, absentismo escolar, e acesso limitado a oportunidades/experiências educativas significativas promotoras de desenvolvimento e de transformação (Thematic Working Group on Early School Leaving, 2013). Em concreto, o D-TE é um projeto de educação não formal, centrado no reconhecimento de competências dos/as jovens, que consiste em implementar um conjunto de atividades dinamizadas por parceiros locais, no sentido de promover competências transversais relevantes para o desenvolvimento pessoal, integração social e construção do projeto de vida dos/as jovens participantes. Contexto O município de Santa Maria da Feira localiza-se na região Norte de Portugal e integra a Área Metropolitana do Porto (AMP) desde 2005. Segundo o Recenseamento Geral da População 2021 (Instituto Nacional de Estatística, 2022), o município tem uma das populações jovens mais representativas da região, registando 14.870 jovens com idades compreendidas entre os 15 e 24 anos. Nos últimos anos, os jovens residentes em Santa Maria da Feira têm enfrentado importantes obstáculos relativamente à sua inclusão social. Especialmente no que diz respeito às condições de acesso e de sucesso escolar. De acordo com investigação realizada que se propôs a analisar a construção e implementação inicial do projeto (Martins et al., 2016), cerca de 17,6% dos casos registados a nível nacional pelo sistema de promoção e proteção estava relacionado, em 2013, com situações em que estava em risco o direito à educação por parte de crianças e jovens. Segundo os autores, a tendência também se verifica a nível concelhio, “tendo a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens de Santa Maria da Feira acompanhado, no mesmo ano, 140 jovens entre os 15 e os 21 anos, sendo que 23,6% destes casos (33 casos) corresponderam a situações de perigo em que estava em causa o direito à educação” (Martins et al., 2016, n.p.). Adicionalmente, o fenómeno dos e das jovens NEET (Not in Employment, Education and Training) continua a ser objeto de atenção e preocupação por parte das instituições políticas europeias, que estabeleceram como objetivo global reduzir até 2030 a taxa de jovens (entre os 15 e 29 anos de idade) que se encontram nessas condições para 9% (Comissão Europeia, 2021). De acordo com Pimentel, Barbosa-Ducharne e Simões (2023), a população NEET representava, em 2021, 13,1% dos jovens adultos na União Europeia; e, em 2022, 8,3% de todos os jovens em Portugal e 7,5% no Norte do país. Por conseguinte, este fenómeno tem sido profusamente estudado, associando-o a níveis mais elevados de insatisfação com a vida e de desconfiança (e.g., Bynner & Parsons, 2002; OECD, 2016), a um menor desempenho educacional e rendimentos futuros (e.g., OECD, 2016; Vanttaja & Järvinen, 2006), e a problemas relacionados com a saúde mental e o consumo problemático de substâncias psicoativas (e.g., O’Dea et al., 2014; Paljärvi et al., 2015). Esta é uma situação que se verifica em termos globais (e.g., Eurofound, 2012; OECD, 2016), sendo especialmente lesiva para as mulheres (García-Fuentes & Martínez García, 2020), bem como para jovens provenientes de famílias que têm rendimentos mais precários (e.g., Dorsett & Lucchino, Desafia-TE: Avaliação externa de um projeto local para combater a exclusão social de jovens estudantes 4 2014; Pitkänen et al., 2021; Yates et al., 2011), e que manifestam falta de engajamento, conexão e interesse pela sua educação escolar (e.g., Bynner & Parsons, 2002). A longo prazo, como alerta a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico ([OECD]; 2016), este fenómeno coloca em perigo a coesão social. A consciência desta realidade instou a Câmara Municipal de Santa Maria da Feira a implementar o projeto D-TE como resposta viável de educação não-formal para jovens em risco de insucesso/abandono escolar e, consequentemente, de exclusão social. Segundo o levantamento de dados levado a cabo por Ribeiro, Casimiro e Freixo (2022), participaram, no total, 144 jovens nas sete edições do D-TE, que ocorreram entre os anos letivos 2015-2016 e 2020-2021. O número de participantes manteve-se estável ao longo das edições. Não obstante, a edição de 2020-2021, implementada no período mais crítico da pandemia da COVID-19, foi a que teve menos participantes (N=9). A idade média dos/as participantes situou-se nos 14,6 anos; e o número de participantes foi equilibrado relativamente ao sexo (50,7% raparigas). Além disso, a grande maioria dos/as participantes frequentava o 7º, 8º e 9º anos, correspondendo a 85,4% do total dos/as jovens; e havia reprovado pelo menos uma vez de ano (63%). Adicionalmente, os dados levantados ainda nos informaram dos níveis de participação dos/as jovens na comunidade. Apenas 34% dos/as participantes disseram frequentar alguma modalidade desportiva ou associação. E desses, a esmagadora maioria (84%) mencionou frequentar ou pertencer a grupos desportivos e recreativos (e.g., futebol, basquetebol, andebol, xadrez, dança, rancho, música, teatro), bem como a grupos de escuteiros (10%) (Ribeiro et al., 2022). Estes dados corroboram o que tem vindo a ser apresentado na literatura neste domínio como sendo o tipo de participação prevalente nos/as jovens (e.g., Magalhães & Moral, 2008; Menezes et al., 2005), e que tem sido objeto de questionamento quanto à sua qualidade desenvolvimental, i.e., quanto à sua capacidade de promover desenvolvimento psicológico nos/as jovens (e.g., Azevedo, 2009; Ferreira, 2006; Ferreira et al., 2012). Método O presente estudo foi realizado em estreita colaboração com o Gabinete da Juventude da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira. Atendendo às particularidades do projeto D-TE, adotou- se um desenho metodológico misto (Creswell, 2012) para analisar a perceção dos/as jovens participantes sobre o seu impacto. Para tal, fizeram-se uso de procedimentos de recolha de dados de natureza quantitativa e qualitativa no sentido de se realizar, através da triangulação da informação daí resultante, uma análise mais aprofundada das perceções dos/as jovens sobre o projeto; a saber: i) inquéritos por questionário a jovens participantes (N = 33); ii) entrevistas semiestruturadas a jovens que participaram em edições anteriores do projeto (N = 6) (4 raparigas), com idades compreendidas entre os 14 e 20 anos; iii) e dois grupos de discussão focalizada com jovens da edição 2021-2022 (N = 13) (7 raparigas), entre os 14 e 17 anos de idade, que frequentavam 8º-11º anos de escolaridade. Os dados obtidos de natureza qualitativa (i.e., entrevistas e grupos de discussão focalizada) foram analisados segundo os procedimentos e princípios da “análise temática” proposta por Braun e Clarke (2006). De acordo com as autoras, esta define-se como um método qualitativo analítico flexível capaz de “identificar, analisar e reportar padrões (temas) existentes nos dados” (p. 79), dividindo-se, de forma resumida, em seis principais fases de análise: 1) familiarização com os nossos dados, 2) criação de codificações iniciais, 3) procura de temas, 4) revisão dos temas, 5) definição e nomeação dos temas, e 6) produção de relatório de análise a partir da seleção de “excertos vívidos e convincentes” (Braun & Clarke, 2006, p. 87). A recolha dos dados implicou o devido consentimento informado dos objetivos, condições e direitos de participação no presente estudo; bem como a autorização prévia da gravação e análise Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 32, No. 64 5 dos discursos por parte de todos/as os/as jovens que participaram no estudo – nomeadamente no que se refere aos dados qualitativos. O tratamento e a apresentação dos resultados obedeceram a critérios éticos de investigação, respeitando sempre a confidencialidade e o anonimato de todos/as os implicados/as nos discursos. Resultados Dados Quantitativos: Inquéritos por Questionário Elaborou-se um questionário que foi enviado, via online, para todos os ex-participantes do projeto D-TE para avaliar especificamente as seguintes questões: i) Que impacto teve a participação no D- TE: no interesse pela escola? no rendimento escolar? no percurso académico? na vida pessoal e social? e no percurso profissional; ii) No geral, qual o teu grau de satisfação pela participação no D-TE?; iii) Voltarias a candidatar-te ao D-TE?; iv) Aconselharias um amigo/colega/familiar a participar no D-TE? Nas duas primeiras questões foi usada uma escala de tipo lickert de 5 pontos (1 Nenhum, 5 Muito). Nas duas seguintes, uma escala dicotómica (Sim/Não). Foram recebidas 33 respostas. Assim, os resultados permitiram verificar que a participação no projeto teve um impacto mais significativo na vida social e profissional dos jovens. 21 respondentes em 33 (63,6%) indicaram que o D-TE teve “Bastante” ou “Muito” impacto na sua vida pessoal e social. Quanto ao interesse pela escola e ao rendimento escolar, os respondentes indicaram maioritariamente (51,5%) a existência de “Algum” impacto. Quanto ao percurso académico, as respostas foram mais distribuídas, no entanto a maioria (54,5%) respondeu ter sentido “Algum” e “Bastante” impacto. Por último, no concerne ao percurso profissional, das 11 respostas válidas de quem já não se encontrava a estudar, 9 (81.9%) indicaram que a participação no D-TE teve “Algum”, “Muito” e “Bastante” impacto. Em síntese, os resultados mostram que a participação no projeto D-TE teve, no geral, um impacto positivo nos/as participantes (Figura 1). Figura 1 Que impacto teve a participação no D-TE? Desafia-TE: Avaliação externa de um projeto local para combater a exclusão social de jovens estudantes 6 Relativamente ao grau de satisfação geral pela participação no D-TE, 97% dos/as jovens respondeu ter ficado “Bastante” e “Muito” satisfeito (Figura 2). Figura 2 No geral, qual o teu grau de satisfação pela participação no D-TE? Na linha dos resultados anteriores, 91% dos/as participantes respondeu ainda que voltaria a candidatar-se ao D-TE; e 97% que aconselharia um amigo/colega/familiar a participar no mesmo – somente um participante respondeu que “Não” aconselharia. Dados Qualitativos: Entrevistas e Grupos de Discussão Focalizada Para apoiar a condução das entrevistas e dos grupos de discussão focalizada, elaboraram-se guiões orientadores com os tópicos que se pretendia explorar. A construção do guião das entrevistas foi inspirada, em particular, pelo método das ‘entrevistas episódicas’ proposto por Flick (2000), com o objetivo de se aprofundar os episódios mais marcantes da experiência no D-TE: A entrevista episódica apresenta vantagens sobre outros métodos, principalmente quando o/a entrevistador/a recebe narrativas muito ricas e detalhadas. Uma má condução da entrevista é aquela em que se gera apenas respostas que nomeiam temas, em vez de recontar narrativas. (Flick, 2000, p. 88 – tradução livre) Da ‘análise temática’ realizada ao conteúdo das entrevistas e grupos de discussão focalizada, apresentar-se-á resultados relativos aos seguintes tópicos: Perceção geral da participação no projeto; Impacto na escola; Atividades mais marcantes; “Se mandasses/mandassem, o que mudavas/mudavam?”; e “Voltavas/voltariam a participar?”. No que se refere aos grupos de discussão focalizada, ainda se integrará o tópico: Interesses pessoais e níveis de participação, que teve o objetivo de perceber a potencial influência da experiência no modo como os/as jovens participam e exercem a sua cidadania. Procurar-se-á fundamentar a análise através de excertos ilustrativos. Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 32, No. 64 7 Entrevistas Perceção Geral da Participação no Projeto. A perceção geral dos/as entrevistados quanto à sua participação no projeto é muito homogénea. Todos/as destacaram que a experiência foi muito positiva, porquanto lhes permitiu conhecer pessoas novas e aceder a um conjunto de experiências diferentes que provavelmente não teriam acesso: Decidi vir para este projeto para sair do meu habitat, conhecer novas pessoas (…) passámos por algumas atividades práticas e físicas, foi uma maneira de fazer coisas. Se estivesse em casa, ia jogar [online] (Tomás) É um projeto onde se pode aprender coisas novas e onde pessoas não com muitas condições podem ter estas experiências (Leonor) Foi uma experiência única. Na altura, aquilo era só uma diversão (…) mas hoje penso que aprendi coisas lá que nunca iria aprender (Francisca) Alguns dos aspetos que mais gostaram quanto ao modo como o projeto era implementado foram, por um lado, não saberem previamente que tipo de atividade iriam fazer (tal condição provocava nos/as jovens um sentimento de expectativa e curiosidade), e, por outro, o sentimento de “liberdade” que tinham por poderem “falar tudo” o que queriam sem serem julgados/as: Sempre que chegava o dia para esse projeto, ficava muito feliz, a pensar o que é que ia fazer (Leonor) Era sempre empolgante, divertido, querer sempre saber o que iríamos fazer (Gustavo) [Quando penso no D-TE, penso em] Liberdade. Nós tínhamos algumas coisas para fazer, mas fazíamos como nós queríamos, falarmos tudo o que queríamos, sem sermos julgados (Francisca) A maior parte dos/as jovens entrevistados destacou ainda que as atividades do projeto eram “desafiantes” e que implicavam saírem da sua “zona de conforto”, promovendo nelas e neles um conjunto de transformações pessoais (e.g., menos timidez e mais confiança e autoestima), relacionadas sobretudo com o modo como se “davam” e “abriam” aos outros/as, por outras palavras, com a capacidade de se colocarem no lugar dos/as outras e de respeitarem a diferença: Deu-me mais confiança. Agora não tenho medo de falar (…) agora vou ter com as pessoas e não tenho medo de falar, graças ao projeto (Francisca) [Quando penso no projeto], penso em amigos e companhia (…) é bom relacionarmo-nos com outras pessoas que não estamos habituados, sairmos da nossa zona de conforto para falar com outras pessoas e ver as experiências diferentes e compartilhar isso (Leonor) Primeiro, reforçou a minha ideia de não julgar as pessoas (…). Aprendi a não julgar as pessoas com base nas primeiras impressões, porque por mais diferente o estilo de vida, a escola onde andas, a inteligência, há muito mais em comum (Amélia) Ali no D-TE acho que me deu mais abertura para pensar mais nos outros, para ser mais altruísta (Vera) Por último, as entrevistas relevam ainda um outro ponto relevante e que se refere ao efeito “orientador” (numa altura “crítica” da adolescência) que a participação no projeto teve na definição Desafia-TE: Avaliação externa de um projeto local para combater a exclusão social de jovens estudantes 8 das experiências que mais gostavam de fazer e que deveriam ser prioritárias para o seu desenvolvimento pessoal, bem como na definição do percurso académico e profissional que queriam prosseguir: O projeto D-TE foi um projeto que me fez crescer enquanto pessoa numa altura muito crítica da minha adolescência, porque estava num daqueles momentos que tinha muito que fazer e não sabia o que fazer, estava um pouco perdida, e ajudou-me muito a crescer e a definir coisas que eu realmente gostava (Amélia) Se eu não tivesse entrado no projeto, se calhar não tinha pensado em ir para desenho (Gustavo) Uma das primeiras sessões foi na GNR [Guarda Nacional Republicana] e acho foi assim um impulso [para querer ir para o curso de criminologia] (Vera) Impacto na Escola. Apesar de não haver nenhum/a entrevistado que considerasse ter havido um impacto negativo do projeto D-TE na escola, verifica-se ainda assim uma perceção ambivalente dos/as jovens relativamente a este tópico. Por um lado, destacam que o interesse e o rendimento escolar não foram objeto de uma influência significativa por parte do projeto D-TE – embora mencionem também que a experiência lhes proporcionou um conjunto de atividades práticas que contrastaram com a “rotina” e a “monotonia” instaladas na escola, subentendendo-se aqui uma crítica aos atuais modelos pedagógicos adotados pelo sistema educativo: Ficava sempre ansiosa às quartas-feiras para ir. A nossa vida na escola é sempre muito monótona, estamos sempre ali, é sempre a mesma coisa, e aquilo fez uma mudança ali naquela rotina (Vera) O meu interesse pela escola, manteve-se (…) não mudou tanto (Vera) A nível das notas, manteve-se igual (Tomás) Para ser sincera, não [teve influência no rendimento escolar]. Por muito que as técnicas dissessem “Tens de subir as notas” (Francisca) Por outro lado, há igualmente testemunhos que dizem que o projeto D-TE teve uma influência positiva na escola, quer ao nível da relação com os/as outras/as alunos/as, equilíbrio emocional e consciência crítica, quer mesmo ao nível das notas e do método de estudo: Agora tenho mais preocupação a integrar as pessoas novas que chegam à escola (Tomás) Melhorei na escola no segundo período e fiquei mais calmo. Antes ficava mais nervoso e agora já conseguia ficar mais calmo (Gustavo) As minhas notas aumentaram. O facto de ir para o projeto não queria dizer que eu não podia estudar (…) comecei a estudar melhor, eu conseguia estudar bem, concentrada. Eu acho que o projeto D-TE conseguiu focar-me mais nos estudos. Sempre que havia uma atividade, estudava antes, e não faltava ao projeto (Leonor) Um outro aspeto ainda relevado pelos/as entrevistadas/as foi o facto de o projeto D-TE se ter constituído mesmo como um “refúgio mental” da “confusão” e do “stress” da escola: Foi uma espécie de refúgio dentro da confusão que era estar no secundário, estudar para exames e assim (…). Então, todas as quartas-feiras, que era quando havia o D- TE, não tinha de pensar nisso. Era um bocado um refúgio mental, onde podia parar Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 32, No. 64 9 de pensar nos stresses da escola, nos stresses que tinha com os meus amigos, porque isto aqui era um grupo à parte (Amélia) Andava mais calmo, sabia que ia ter com os meus amigos. Havia stresses na escola, mas depois ia para o projeto e ficava mais calmo (Gustavo) Atividades mais Marcantes. Os/as jovens identificaram um conjunto bastante diversificado de atividades como tendo sido as mais marcantes da experiência no projeto D-TE. Essas atividades caracterizaram-se todas elas pela sua dimensão prática (i.e., “de meter as mãos na massa”), e/ou contacto com determinadas práticas profissionais ou artísticas: O momento mais marcante foi a base militar, que me levou a seguir outros caminhos, outros sonhos que eu não tinha (…) Todos nós temos sonhos, e alguns deles, um dia, vão ser possíveis. Mas depois de entrar na base militar, estar lá dentro, saber o que é trabalhar lá um dia (…) então pensei, gostei disto (Tomás) Se calhar foi naquele do graffiti em que eu me apercebi que gostava de desenho (…) foi quando ele estava a mostrar os desenhos dele assim e eu disse assim: fogo, quem me dera estar no lugar dele, mostrar assim os meus desenhos (Gustavo) Gostei da experiência da fogaça, de meter as mãos na massa. Acho que dava uma boa pasteleira (risos) (Francisca) Portanto, não foi surpreendente que também se tenha afirmado que as atividades de que menos gostaram de participar tenham sido as mais teóricas e escolarizadas como as idas à Biblioteca: Não gostei das idas para a biblioteca, acho que era aquela cena, vamos para a biblioteca e já sabíamos que não íamos a lado nenhum (Francisca) Apesar da diversidade das atividades mencionadas, as Vidas Ubuntu foi a atividade que os/as jovens entrevistados/as manifestaram de forma mais expressiva como tendo sido a mais marcante, constituindo, para a maior parte deles/as, o ponto de viragem relativamente ao sentido e importância que a experiência no projeto D-TE viria a ter nas suas vidas: Acho que a semana Ubuntu, onde ficámos quatro dias juntos, foi a mais importante (…). Acho que consegui refletir sobre mim e sobre as outras pessoas à minha volta e acho que isso foi bastante importante …deu-nos abertura para pensar no outro. Essa semana foi mesmo muito importante (…). Eu lembro-me duma atividade em que tivemos de escrever uma carta para nós mesmos e [foi libertador]. Acho que agora sou mais tolerante comigo e com os outros (Vera) Foi na sessão Vidas Ubuntu, foi quando estávamos todos a olhar para o vídeo e começámos todos a chorar, foi esse o momento mais marcante (…) eu era daquelas pessoas que dizia isto e aquilo e agora olho para as pessoas e não digo nada porque não sei a vida delas, ganhei mais maturidade (Francisca) As vidas Ubuntu, foi um workshop de storytelling, cada um partilhava o que queria, fizemos um vídeo, acho que depois desse workshop em específico, acho que ficámos todos mais próximos. Dávamo-nos todos bem, foi uma coisa boa que aconteceu, não havia muita confusão dentro do nosso grupo. Mas foi uma coisa Ok, agora percebo por seres assim e consigo meter-me nos teus pés (Amélia) Desafia-TE: Avaliação externa de um projeto local para combater a exclusão social de jovens estudantes 10 “Se Mandasses, o que Mudavas?” Perante esta questão mais direta, a maior dos/as jovens entrevistados considerou que se estava a fazer um bom trabalho e que, na opinião deles/as, não se deveria fazer alterações no projeto: Não mudava nada porque acho que eles conseguem fazer um trabalho espetacular (Tomás) Acho que não alterava nada. Acho que tudo o que fizemos foi fixe (Gustavo) No entanto, ao aprofundarem a sua reflexão sobre este tópico, os/as jovens identificaram um conjunto muito diversificado de alterações que poderiam ser feitas no projeto, tais como: i) participar em mais do que uma edição (cada participante só pode participar uma só vez no D-TE), ii) não haver limite de idade e de número de participantes, iii) haver mais sessões por semana, e iv) apostar nas atividades mais práticas e “divertidas”: Ter mais contacto com as pessoas de fora, porque hoje em dia os miúdos ignoram as pessoas, parece que têm vergonha (Gustavo) E não haver limite de idade (…). Metia mais pessoas, porque ali [no projeto] há um limite. Mas também compreendo, porque gastam mais dinheiro (…) E deixava repetir, porque é uma injustiça não deixarem repetir o projeto (…) não ser uma sessão por semana, ser duas ou três (Francisca) Além dessas sugestões, os/as jovens apresentaram ainda outras propostas que nos parecem merecer maior destaque na análise. Uma proposta muito relevante, apresentada em tom crítico, refere-se ao facto de o projeto D-TE assentar numa “ideia mal registada”. Bem entendido, esta proposta sugere que a retórica do projeto não deve estar orientada para um público excluído, os “reprovados”, porquanto este rótulo associado pode potenciar a estigmatização do projeto e dos/as seus participantes, mas sim para quem quer ter novas experiências e está desmotivado da escola. Tal implicaria alargar o leque de perfis de jovens no projeto, tornando-o assim mais inclusivo e menos estigmatizante: Sempre ouvi dizer que aquilo [o projeto] era para os reprovados, “eu não posso ir porque não reprovei”, diziam na minha turma (…) eu queria lá saber o que eles diziam, eu preferia ser reprovada e ir para o projeto. Mas na altura era chunga. O psicólogo deu a justificação que tínhamos de ter duas ou três justificações para entrar no projeto (…). Alguns colegas na altura até diziam que queriam ir, mas não podiam porque não eram reprovados (…). Eu sou caladinha e isso, mas ninguém precisava de saber que eu era reprovada (Francisca) Aquilo é para pessoas que não sabem bem como ocupar os seus tempos livres. A ideia é que está mal registada no sistema deles [devia ser um projeto orientado para quem está desmotivado ou quer encontrar novos interesses, novas motivações, e pode ver no projeto D-TE uma oportunidade]. É também um projeto difícil de publicitar (Amélia) Uma outra proposta importante, colocada pelos/as jovens, seria a inclusão no processo de divulgação de testemunhos de ex-participantes do projeto D-TE, na medida em que os seus discursos, na primeira pessoa, seriam mais eficazes relativamente a despertar o interesse dos/as jovens pelo projeto e a compreender melhor os seus objetivos: Quando fui a uma edição explicar o que é que fazíamos, uma rapariga disse “Ah, agora percebi”, porque eu vou lá apresentar o ponto de vista deles e não dos Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 32, No. 64 11 mentores, “Já deu para perceber o que estava aqui a fazer e não desisti, porque sinceramente já estava com ideias de desistir porque não sabia o que estava aqui a fazer” (…) e ela fez o projeto até ao fim e adorou (Amélia) Por fim, propõem ainda que o desenho das atividades a realizar no projeto não estivesse completamente fechado à partida para que este se pudesse moldar aos interesses dos/as jovens, promovendo assim um maior envolvimento da sua parte: Talvez moldar o projeto ao grupo. No início do ano perguntar ao grupo…eles já fazem isso, mas como não têm noção do que conseguem na realidade fazer…passados três meses, perguntar: Agora, que já sabem, o que querem mais fazer? (Amélia) “Voltavas a Participar?” Em relação a esta questão, houve uma resposta muito homogénea por parte dos/as entrevistados. Se pudessem, voltariam a participar, o que reforça a perceção de que o projeto D-TE foi uma experiência positiva para os/as participantes: Participava outra vez, se pudesse. Não me importava de vir para aqui outra vez, foi bué da fixe (Gustavo) Quando soube que não podia participar outra vez, fiquei muito triste. E a gente não gasta dinheiro com quase nada e acho que é bom (Leonor) Grupos de Discussão Focalizada Perceção Geral da Participação no Projeto. À semelhança das entrevistas, os/as jovens, no geral, consideraram que o projeto D-TE foi uma experiência positiva, na medida em que conheceram pessoas e culturas novas, e tiveram a oportunidade de realizar um conjunto alargado de atividades de cariz desportivo, cultural e artístico: Porque conhecemos pessoas novas e aprender coisas novas, como por exemplo graffiti (Rapaz) Tivemos a oportunidade de conhecer mais a cultura de outros países através do Rosto Solidário (Rapaz) Interesses Pessoais e Níveis de Participação. Os interesses pessoais dos/as jovens resumem-se, de forma geral, a fazer atividades desportivas e recreativas – excetuando um/a elemento que faz teatro. Contudo, também se sugere que estas são realizadas de forma esporádica e não sistemática. Quando solicitados/as a falar sobre a eventual influência que a participação no D-TE tinha tido no modo como se interessavam por determinados assuntos sociais e políticos e participavam na sociedade/comunidades, o resultado foi um lacónico silêncio, sugerindo uma ausência de impacto neste domínio. Importa ressalvar, no entanto, que os grupos de discussão foram realizados imediatamente a seguir ao término do projeto, não havendo eventualmente tempo para que as experiências pudessem ser devidamente integradas para começarem a produzir algum efeito nos/as jovens. Por conseguinte, é necessário considerar neste resultado quer a importância de uma maior distância temporal para se poder analisar com mais acuidade os efeitos efetivos do projeto sobre os/as jovens, quer ainda a importância de uma maior continuidade temporal da experiência (durou cerca de seis meses) para esta ter maior impacto, como aliás a literatura tem vindo a argumentar a respeito de este ser um fator relevante para promover a qualidade desenvolvimental das experiências (e.g., Ferreira et al., 2012). Desafia-TE: Avaliação externa de um projeto local para combater a exclusão social de jovens estudantes 12 Impacto na Escola. Tal como nas entrevistas, os/as jovens participantes também consideraram que o projeto não teve um impacto significativo no rendimento escolar, mas que a nível pessoal teve uma influência muito positiva, mormente no que se refere às competências relacionais e de autoconhecimento: Fez-me conhecer melhor a mim própria. Eu senti que aqui não era julgada, que toda a gente se entendia uns aos outros, ou pelo menos tentava (Rapariga) O projeto ajudou a aprender a conviver com as outras pessoas. Na escola não és obrigada a isso (Rapariga) A escola continuou igual. A única coisa que mudou foi a proximidade. Muita gente aqui não se falava e agora fala (Rapariga) Não obstante, os/as jovens também consideraram não haver um grande envolvimento e interesse por parte da escola no projeto D-TE, sugerindo-se que tal se devia ao facto de o projeto estar associado a alunos/as com dificuldades: Na minha escola, se eu ficasse longe, ainda melhor (Rapariga) Os psicólogos só nos perguntavam sobre o D-TE quando nos viam (Rapariga) Sei que na minha escola não ligam nada a certos alunos. Na minha escola, aqueles que têm dificuldades, eles não ligam (Rapariga) Atividades mais Marcantes. Como observado nas entrevistas, também os/as jovens dos grupos de discussão pós-intervenção gostaram de participar no projeto, sobretudo por este assentar num conjunto de atividades maioritariamente práticas (e.g., graffiti, Zoo, Vidas Ubuntu, fogaça, Cine Teatro) e que iam ao encontro dos seus interesses: Gostamos de atividades mais mexidas (…) preferimos a prática (Rapariga) Tinha sempre ansiedade que chegasse a próxima quarta-feira para vir para cá (…) não só para estar com os nossos amigos como para fazer novas atividades (Rapaz) Reforçando esse seu maior interesse pelas atividades mais práticas, argumentaram de forma enfática que não gostavam de atividades excessivamente teóricas, sugerindo mesmo que era a dimensão prática e de diversão que diferenciava, no sentido positivo, o projeto D-TE da escola: Não gostei daqueles que vieram mostrar uns powerpoints (…) foi secante. Se falassem de outra maneira. Nas atividades que falámos sobre as pessoas transexuais e assim, elas estavam a falar, mas cativaram a nossa atenção (Rapariga) Se soubéssemos que íamos para [atividades teóricas], ficávamos logo desanimados (Rapariga) Este projeto dá diversão que escola não dá, porque na escola não tens tempo para te divertires com os teus amigos (Rapariga) Quando questionados, em particular, sobre a atividade/episódio que mais os/as tinha marcado, afirmaram de forma praticamente unânime que foi a experiência ‘Vidas Ubuntu’, na qual tiveram de criar entre eles um clima de maior proximidade e confiança, e onde partilharam as suas histórias de vidas, promovendo assim uma maior compreensão e respeito pelos/as outros/as: [A respeito da atividade Vidas Ubuntu em Braga] A dinâmica da fita, porque nós conhecemo-nos uns aos outros e percebemos que não estávamos sozinhos nos nossos problemas, que outras pessoas estavam a passar pela mesma coisa (Rapariga) Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 32, No. 64 13 Acho que foi em Braga [Vidas Ubuntu], a conversa com a técnica, marcou-me e muito (Rapariga) Em Braga, nas Vidas Ubuntu, quando tivemos de contar as nossas histórias de vida (Rapaz) Ainda que de forma menos destacada, também relevaram a experiência em que contactaram com jovens de outros países do programa Erasmus: Quando fizemos Kahout e experimentámos comidas de outros países, quando estivemos com jovens de outros países da atividade Erasmus (Rapaz) “Se Mandassem, o que Mudavam?” No que concerne à questão sobre o que mudariam no projeto D-TE, os/as jovens destacaram, à imagem das entrevistas, a importância de introduzir atividades mais práticas em substituição das mais teóricas, prolongar por mais tempo e mais dias por semana o projeto, e aumentar o número de jovens a poderem participar no mesmo: Colocar mais atividades práticas (Rapariga) Prolongar mais tempo. Em vez de ser uma vez por semana, podia ser duas (Rapariga) Aumentar o número de pessoas que se poderiam inscrever (Rapariga) “Voltariam a Participar?” Por último, perante a questão se voltariam a participar no projeto D-TE, os/as jovens responderam, no geral, que “sim”, o que robustece mais uma vez a ideia de que foi uma experiência positiva para os/as jovens. Discussão dos Principais Resultados No geral, os resultados mostram que a perceção dos/as jovens é positiva relativamente ao impacto do projeto D-TE. Não obstante, importa destacar aqui alguns que, nosso entender, ilustram melhor a avaliação dos/as jovens quanto a esta experiência. O primeiro resultado a destacar é, desde logo, a perceção muito homogénea de terem gostado da experiência e de a quererem, caso fosse possível, repetir. Nesse sentido, os/as jovens propõem mesmo que se deveria realizar mais do que uma sessão por semana, o que mostra objetivamente que o projeto D-TE se constituiu como uma experiência socioeducativa positiva para os/as participantes. Entre os argumentos apresentados para justificar esta opinião, destaca-se o facto de considerarem que a experiência promoveu competências pessoais e relacionais de forma muito significativa. Com efeito, sublinham especificamente que o D- TE teve impacto na sua autoestima e autoconfiança e que estas se manifestaram sobretudo no modo mais natural como passaram a relacionar-se uns com os outros. A partir da participação no projeto, os/as jovens sentiram que ficaram mais disponíveis para conhecer novas pessoas, mais conscientes do outro, e mais preocupados com a questão da integração. Adicionalmente, também foi referido que a experiência no D-TE fê-los/as tomar consciência de interesses e de vocações que gostariam de desenvolver pessoal e profissionalmente no futuro. O segundo resultado foi a valorização expressiva da dimensão “prática” que os/as jovens consideraram estar presente na maioria das atividades realizadas no projeto. Este aspeto constituiu- se mesmo como um fator motivador e mobilizador muito significativo para os/as participantes, na medida em que lhes proporcionou um conjunto de experiências cuja natureza mais prática contrastou com a “rotina” e a “monotonia” das experiências de índole mais teórica e expositiva que sugeriram sentir na escola – consideraram, em particular, a participação na atividade “Vidas Ubuntu” como a experiência mais marcante do D-TE, ao promover neles um sentimento de maior tolerância Desafia-TE: Avaliação externa de um projeto local para combater a exclusão social de jovens estudantes 14 e compreensão pelo/a outro/a. Este resultado corrobora investigação que refere que os/as alunos/as tendem a gostar de trabalhos mais práticos, apesar de esta também indicar que os efeitos na motivação para o estudo são relativamente ineficazes a longo prazo, e que tal deve ser considerado pelos/as cientistas da educação para desenvolver uma compreensão mais fidedigna das potencialidades e limitações dos trabalhos/experiências educativas mais práticas na dimensão escolar (Abrahams, 2009). O terceiro resultado a realçar relaciona-se justamente com o impacto do projeto na escola. Em concreto, este resultado mostra uma perceção ambivalente dos/as jovens. Por um lado, realçam que o interesse e o rendimento escolares não se alteraram devido à participação no projeto D-TE. Por outro, também referem que o projeto D-TE teve uma influência positiva na escola, quer ao nível pessoal/relacional (i.e., relação com os seus pares e professores, equilíbrio emocional, consciência crítica e sentimento de confiança para se expressarem); quer ainda ao nível das notas e do método de estudo. Esta última perceção está em sintonia com estudos que associam a participação em atividades extracurriculares a melhor desempenho académico e a comportamentos pró-sociais (e.g., Eccles & Barber, 1999; Marsh & Kleitman, 2002; Zaff et al., 2003), embora estes, importa realçar, também salientem que as que são desenvolvidas em contexto escolar têm um efeito mais robusto (e.g., Zaff et al. 2003), assim como as que apresentam maior intensidade e duração (e.g., Gardner et al., 2008). Tendo em conta esta ambivalência, considera-se importante, tal como se sugere acima, realizar mais pesquisas para aprofundar os efeitos deste tipo experiências na vida académica dos/as jovens. Aliás, esta recomendação não é nova na investigação, que tem vindo a assinalar que as experiências de participação, dependendo da sua qualidade, nem sempre se traduzem em ganhos desenvolvimentais para os/as jovens (Ferreira et al., 2012, inter alia). De acordo com esta linha de pesquisa, são necessários quatro fatores principais para as experiências garantirem desenvolvimento psicológico nos indivíduos, i.e., experiências de ação, reflexão sobre elas, equilíbrio entre ação e reflexão, qualidade relacional e continuidade temporal (Ferreira et al., 2012, inter alia). O quarto resultado prende-se, em particular, com as características dos/as jovens que participam maioritariamente neste projeto, nomeadamente no que se refere aos seus baixos níveis de interesse e de participação cívica e política. Este dado foi sugerido quer pelo levantamento de dados de todas edições anteriores do projeto (Ribeiro et al., 2022), quer pelos grupos de discussão focalizada, ao indicarem que os/as jovens participam sobretudo em atividades desportivas e recreativas, e de forma esporádica e não sistemática. A este respeito, somos levados novamente a destacar a importância de se analisar a efetiva qualidade desenvolvimental das experiências (Ferreira et al., 2012), colocando como hipótese, considerando os níveis de participação apresentados (baixos) e suas características (esporádicas), a possibilidade de não se estarem a promover o desenvolvimento esperado nos/as jovens. Além disso, tendo em conta que o projeto D-TE recebe tendencialmente jovens que já reprovaram pelo menos uma vez de ano (Ribeiro et al., 2022), não é surpreendente que estes/as apresentem baixos níveis de participação. Mais, diríamos mesmo que era até expectável, visto existir evidência científica significativa a indicar que a educação, a literacia e o capital cultural são preditores da participação (e.g., Emler & Frazer, 1999; Hadjar & Beck, 2010; Ribeiro et al., 2016; Stockemer, 2014; Verba et al., 1995). Por conseguinte, consideramos que a participação no projeto D-TE teve o mérito de proporcionar um conjunto de experiências educativas (em especial as de carácter mais prático destacadas pelos/as jovens) com um potencial efeito positivo no desenvolvimento dos/as jovens, que estes/as, por razões diversas não aprofundadas neste estudo (e.g., nível socioeconómico das famílias, apatia política dos/as jovens, entre outras), não tiveram/têm oportunidade de usufruir. O quinto resultado relaciona-se com o anterior e tem que ver com o facto de os/as jovens considerarem que a filosofia implícita do projeto D-TE não devia assentar no propósito de se constituir uma iniciativa preferencialmente direcionada para jovens “reprovados” ou com problemas Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 32, No. 64 15 de integração escolar e social, de modo a evitar a estigmatização do projeto e de quem nele participa. Na realidade, os dados mostram que os/as jovens que participam no projeto têm, maioritariamente, um histórico marcado por insucesso escolar (Ribeiro et al., 2022). Cientes desta situação, os/as participantes sugerem que a retórica do projeto devia incidir sobre a ideia de que é para jovens que se sentem desmotivados e/ou “perdidos” e que estão à procura de encontrar os seus interesses, e não para jovens problemáticos, isto é, com uma relação problemática com a escola. Sugerem, assim, que a filosofia subjacente terá de ser direcionada para potenciar e não remediar ou mitigar os/as jovens problemáticos, de modo a combater uma possível estigmatização do projeto. Não obstante, admitimos que a existência deste projeto tal como está definido continua a ser muito pertinente porquanto pretende combater a exclusão e proporcionar atividades a jovens que muito dificilmente teriam oportunidade de experienciar. Atividades, essas, que podem minimizar eventuais desvantagens sociais, ao promoverem a apropriação de (auto)conhecimento e de competências pessoais e relacionais. Em última análise, o que mais importa destacar neste resultado é que as experiências no projeto D-TE se constituam, de facto, em ganhos desenvolvimentais para os/as jovens. Esse é, no nosso entender, o ponto-chave. Ainda assim, julgamos também que é necessário ponderar a possibilidade de se introduzir intencionalmente no projeto D-TE mais elementos “de equilíbrio” (i.e., jovens que fogem a um padrão de exclusão), de modo a contrariar o estigma que pode estar a ele associado. Por fim, é importante dar ainda um relevo especial aos dois últimos resultados, tendo em conta a injustiça e as desigualdades sociais que os principais problemas que eles colocam (i.e., baixos níveis de participação e insucesso académico) promovem na sociedade. A literatura científica (vide acima a respeito da participação) diz-nos perentoriamente que mais educação significa maior possibilidade de participação na sociedade. Nesse sentido, a escola devia ser idealmente um local de sucesso e de inclusão para todos e todas. Não sendo essa a realidade, resta-nos arranjar alternativas educativas para colmatar essa lacuna, como parece constituir-se, de facto, o projeto D-TE. Assim sendo, consideramos que é legítima a expectativa de continuar a valorizar uma iniciativa cujo objetivo primordial se baseia em proporcionar um conjunto diversificado de experiências a estudantes que geralmente padecem de exclusão escolar, e que de outro modo não teriam acesso se não saíssem dos muros das escolas. Agradecimentos Este trabalho foi apoiado pelo Município de Santa Maria da Feira, no âmbito do projeto Desafia-TE; e por fundos nacionais, através da Fundação para a Ciência e Tecnologia, IP (FCT), no âmbito do financiamento estratégico atribuído ao CIIE (bolsas n.º UIDB/00167/2020, e UIDP/00167/2020). N. Ribeiro agradece ainda à FCT o financiame nto do seu contrato, estabelecido no âmbito do Programa Individual de Estímulo ao Emprego Científico (CEECIND/02115/2018). Referências Abrahams, I. (2009). Does practical work really motivate? A study of the affective value of practical work in secondary school science. 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As suas publicações incidem sobre os tópicos da participação cívica e política de jovens, e da educação política. Nos últimos anos, tem coordenado a avaliação externa de projetos locais. Andreia Casimiro Gabinete da Juventude, Câmara Municipal de Santa Maria da Feira Andreia.Casimiro@cm-feira.pt ORCID: https://orcid.org/0009-0009-0456-9062 Andreia Casimiro é técnica superior no Gabinete da Juventude da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira, Portugal. Participa no desenvolvimento e implementação de projetos de combate ao desemprego jovem e abandono escolar, inclusão social e de promoção das políticas de juventude. É licenciada em Psicologia e mestre em Psicologia Clínica pela Universidade Lusíada do Porto. Liliana Freixo Gabinete da Juventude, Câmara Municipal de Santa Maria da Feira Liliana.Freixo@cm-feira.pt Liliana Freixo é técnica superior no Gabinete da Juventude da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira, Portugal. Participa no desenvolvimento e implementação de projetos de combate ao desemprego jovem e abandono escolar, inclusão social e de promoção das políticas de juventude. É licenciada em Psicopedagogia pelo Instituto Superior de Ciências da Informação e da Administração (ISCIA), de Aveiro. arquivos analíticos de políticas educativas Volume 32 Número 64 15 de outubro 2024 ISSN 1068-2341 Este artigo pode ser copiado, exibido, distribuído, e adaptado, desde que o(s) autor(es) e Arquivos Analíticos de Políticas Educativas sejam creditados e a autoría original atribuídos, as alterações sejam identificadas e a mesma licença CC se http://orcid.org/0000-0001-7581-7902 https://orcid.org/0009-0009-0456-9062 Arquivos Analíticos de Políticas Educativas Vol. 32, No. 64 19 aplique à obra derivada. Mais detalhes sobre a licença Creative Commons podem ser encontrados em https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/. Arquivos Analíticos de Políticas Educativas é publicado pela Mary Lou Fulton Teachers College, Arizona State University. Os artigos que aparecem na AAPE são indexados em CIRC (Clasificación Integrada de Revistas Científicas, España) DIALNET (España), Directory of Open Access Journals, EBSCO Education Research Complete, ERIC, Education Full Text (H.W. Wilson), PubMed, QUALIS A1 (Brazil), Redalyc, SCImago Journal Rank, SCOPUS, SOCOLAR (China). Sobre o Conselho Editorial: https://epaa.asu.edu/index.php/epaa/about/editorialTeam Para erros e sugestões, entre em contato com Fischman@asu.edu https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/ http://www.doaj.org/ https://epaa.asu.edu/index.php/epaa/about/editorialTeam https://epaa.asu.edu/index.php/epaa/about/editorialTeam