revp73 Compton, Mary and Weiner, Lois (Eds.) (2008). O Ataque Global ao Ensino, Pro fessores e seus Sindicatos . Histór ias para Res is t ênc ia (original em inglês The Global Assaul t on Teaching , Teachers , and Their Unions : Stor i es for Res is tance . NY: Palgrave MacMillan 281 pp. $ 27.95 ISBN 0-230-60631-8 Resenhado por Suzana Feldens Schwertner Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Brasil) 15 de maio de 2009 As recentes manifestações de apoio à educação pública, realizadas em diversas regiões dos Estados Unidos, indicam um oportuno momento para a leitura do livro organizado por Mary Compton e Lois Warner. Passeatas e pronunciamentos de professores, pais e alunos nos estados de Nevada, Califórnia, Flórida e Washington D.C. são alguns exemplos de reivindicações iniciadas no final de 2008 e que se estendem no corrente ano. Apenas no estado do Arizona, quatro manifestações ocorreram em um menos de vinte dias: Rally pela Educação, organizado pelo sistema público de Educação do Arizona, em 14 de fevereiro; Rally da Educação, organizado por estudantes, em 24 de fevereiro; Rally pela Educação Pública, planejado por diretores de um grupo escolar, em 26 de fevereiro; e a Marcha pelas Escolas, coordenada pela Associação de Educação do Arizona, ocorrida em 04 de março. Tais manifestações ocorrem em resposta aos efeitos da crise econômica mundial, que consequentemente provocou drásticos cortes nas verbas destinadas à educação pública americana. Portanto, este é um período apropriado pra ler e discutir sobre a importância do ensino na contemporaneidade, bem como para compreender a situação dos professores e de seus sindicatos ao redor do mundo. E já que estamos falando sobre manifestações coletivas solicitando melhores condições para a educação, nada poderia ser mais enriquecedor do que ler uma coleção de textos abordando assuntos candentes nestes tempos, como igualdade e justiça na educação. Através de vinte e sete capítulos, professores de ensino universitário, de ensino fundamental e médio, pesquisadores e líderes de sindicatos de professores compartilham suas experiências de vida http://edrev.asu.edu/reviews/revp73 2 profissional. Perspectivas sobre desafios nas escolas da Índia, Brasil e Alemanha; histórias de professores mexicanos e educadores da Namíbia; diferentes formas de organizações sindicais de professores na Inglaterra, Canadá e na Austrália; além de análise documentos e entrevistas, são os componentes principais destes escritos. As organizadoras do volume iniciam o debate problematizando os efeitos do neoliberalismo na educação e buscando investigar como estas mudanças estão afetando os professores. Uma das noções prevalentes das políticas neoliberais é a de que o setor privado seria mais competente e eficiente que o setor público para lidar com os assuntos da educação. Conforme Compton e Werner, as idéias neoliberais colocam em jogo uma busca incessante para provar que “... as corporações privadas e os empresários são mais aptos para oferecer educação aos pobres do que professores, comunidades e os representantes políticos no governo” (p. 05-06). Como Susan Robertson define no segundo capítulo, as propostas neoliberais não são atuais, foram configuradas pelo Liberalismo através das idéias de Hobbes e Lockes, calcadas na noção de liberdade pessoal e na posse individual de bens. A diferença hoje, segundo Robertson, se define pelo fato de que “… em contraste com o liberalismo, o neoliberalismo demanda que a liberdade do mercado, o direito à livre negociação, o direito de escolha e a proteção da propriedade privada sejam asseguradas pelo Estado” (p.13). Uma das implicações na educação, segundo a perspectiva de Robertson, seria perceber como as ideias neoliberais afetam o que os professores pensam e ensinam em sala de aula, bem como modificam a maneira como os diretores conduzem as suas instituições de ensino. Conseqüentemente, de acordo com esta autora, um dos mais visíveis efeitos destes trinta anos de doutrina neoliberal na educação traduz-se pela importância atribuída aos resultados de testagens padronizadas como o principal meio de avaliar estudantes e escolas. Sob esta mesma ótica, John Nyambe, no capítulo 4, denuncia o quanto instituições como o Banco Mundial ou o Fundo Monetário Internacional, ao mesmo tempo em que planejam uma “educação para todos” – particularmente para as camadas pobre da população mundial – estão promovendo a desregulamentação, a competitividade e a privatização. Em países como a Namíbia, o Ministério da Educação – responsável pelo interesse em assuntos como justiça e acesso à educação pública – não possui tanta relevância nos sistemas de educação, se comparado ao poder de decisão do Banco Mundial e do FMI. Paralelamente, os cortes nos gastos públicos são realizados por estas instituições com a finalidade de investir no setor privado da educação. O autor, então, alerta para os perigos deste desvio de atenção – e verba pública: “Na formulação das políticas (políticas transnacionais), o lucro, ao invés do bem-estar social, ocupa o espaço principal” (p. 35). Considerando as perigosas relações entre economia, mercado e educação, três autores apresentam suas preocupações com a educação técnica no México. Tendo como objetivo ministrar técnicas específicas aos alunos, tais escolas acabam por omitir o ensino de outras atividades igualmente fundamentais, como o exercício da liderança e do pensamento democrático. Os autores criticam as escolas direcionadas exclusivamente às indústrias estrangeiras, cujos interesses consistiriam apenas em preparar trabalhadores para a indústria privada. Rincones, Hampton e Silva não condenam a existência das escolas técnicas, nem almejam sua extinção, mas não deixam de apontar suas preocupações: “Nós encorajamos a educação técnica, mas argumentamos e nos opomos a políticas que promovam gastos de orçamento público com o objetivo de subsidiar a produção de indústrias estrangeiras” (p. 41). Em consonância com esta crítica, Stephen J. Ball (2008) nos auxilia a compreender melhor este quadro. O autor se mostra igualmente preocupado com a situação da educação pública e sua atenção está direcionada para o significativo espaço que a economia ocupa hoje O Ataque Global ao Ensino, Professores e seus Sindicatos 3 no debate educacional. Ball demonstra como o “vocabulário dos negócios” se infiltrou no campo da educação, possibilitando novas formas de discurso que modificam nossas práticas educativas. Transformação, modernização, inovação, empreendimento, dinamismo e competitividade são algumas das muitas palavras que podemos listar como “imprescindíveis” ao discurso de professores e instituições de ensino. O conhecimento válido para a economia e para os negócios torna-se parte do mundo da educação. Todas estas modificações sobre o gerenciamento da educação como um “ramo” de negócios, e a consequente importância relegada às medidas padronizadas para avaliação de alunos e instituições de ensino, colocam em risco a qualidade da educação. Apesar da defesa de que tais mudanças propostas pelas políticas neoliberais tem como objetivo aperfeiçoar a eficiência e contribuir para melhores resultados no sistema educacional, os efeitos no trabalho dos professores e nas salas de aula apresentam perspectivas diferentes. Basant Chakraborty destaca, no capítulo 14, um exemplo das inúmeras atividades que o professor precisa exercer em uma escola primária na Índia e os resultados advindos destas tarefas: “... fazer levantamento, coletar dados demográficos, atualizar informações sobre matrículas e, além do mais, compilar dados estatísticos sobre matrícula, retenção e aprendizado de alunos. Consequentemente, os professores primários possuem pouco tempo para ensinar” (p. 146). Como é possível avaliar o resultado de escolas ou de alunos quando a principal atividade de um professor, o ato de ensinar, é ignorado? Para enfrentar esta desvalorização ao ensino e aos professores, Compton e Weiner afirmam que precisamos lutar contra estas condições. As questões educacionais merecem uma posição privilegiada, e não secundária às preocupações econômicas. Educação pública significa investimento em formação de pessoas, significa primar pela qualidade de professores e estudantes; e isto não é algo que se realiza instantaneamente. Para as organizadoras deste livro, os sindicatos de professores constituem uma das alternativas para seguir permanentemente lutando contra as forças de privatização do mercado – e da educação. Eberhard Brandt e Susanne Gondermann, em entrevista à Mary Compton (capítulo 20), afirmam que os novos padrões de privatização, baseados nas ideias neoliberais, estão ampliando a influência das instituições privadas de educação e a importância dos testes padronizados. Perguntam-se: como os professores poderiam enfrentar ou mesmo resistir a esses novos padrões? Na Alemanha, segundo os autores exemplificam, professores (apoiados por pais de alunos) estão planejando um boicote nacional à testagem nas escolas. Os editores e colaboradores deste livro acreditam que professores, organizados em seus sindicatos, podem chamar atenção para estas questões: apenas conjuntamente eles podem transformar a solidariedade e a organização em vozes poderosas. E por que o sindicato dos professores, por que chamar atenção para esta organização? Segundo Nurit Peled-Elhanan, professor e pesquisador de Israel, trata-se de perceber a relação entre o ato de ensinar e os movimentos sociais pela paz, pela justiça social e pela liberdade. As experiências de professores em movimentos estudantis e outras atividades políticas são ampliadas às filiações sindicalistas, ultrapassando o espaço da escola. Na Austrália, Rob Durbridge explica seu comprometimento como membro de sindicato, realizando uma avaliação positiva do movimento: “Enquanto as políticas de esquerda têm sido vencidas pelo sucesso das políticas e ideologias neoliberais, o ativismo da comunidade e dos movimentos sindicais de oposição e mudança nunca estiveram tão em alta” (p. 122). Por outro lado, Nina Bascia, no capítulo 11, aponta para resultados divergentes em sua pesquisa sobre o envolvimento de professores em sindicatos no Canadá e nos Estados Unidos. Segundo esta autora, é possível perceber uma distância entre os sindicatos e os professores na contemporaneidade, especialmente naqueles países. Ao concluir, afirma que a organização de http://edrev.asu.edu/reviews/revp73 4 professores em torno de valores democráticos, discutindo oportunidades e ideias, é uma alternativa para fortalecer os sindicatos e seus participantes. O processo de globalização mundial produz mudanças na área econômica, política, social e cultural. Para a educação pública, os efeitos da globalização econômica, conforme discutidos neste livro, oferecem efeitos perigosos. Especialmente porque reduzem o orçamento das escolas públicas ao mesmo tempo em que ampliam os investimentos no setor educacional privado, estabelecendo uma competição desigual. Educação entendida como sinônimo de mercadoria e produto a ser vendido, e como exclusiva atenção aos resultados de testes padronizados, significa violação ao ato de ensinar. Para enfrentar estes desafios torna-se necessário pensar coletivamente, ampliando a qualificação de professores e criando possibilidades e condições para os alunos pensarem criticamente. Eis a principal contribuição deste livro: compartilhar pensamentos através de trinta vozes diferentes que estão lutando contra assuntos urgentes na educação, como o paternalismo na Índia, a educação racista em Israel, aspectos da homofobia nas Ilhas do Caribe; além de reivindicar justiça social ao redor do mundo. Compton and Weiner alertam desde o início desta obra: os professores e seus sindicatos devem estar à frente desta batalha, pois são eles que lutam para assegurar o objetivo principal da educação: permitir que as crianças – quaisquer crianças – recebam uma justa educação pública, com igualdade e qualidade. Referências: Ball, S. J. (2008). The education debate. Bristol: Policy Press. Sobre a resenhadora: Suzana Feldens Schwertner é doutoranda no Programa de Pós- Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil. Ela está realizando estágio de doutorando na Universidade Estadual do Arizona durante o período de agosto de 2008 a julho de 2009, como bolsista do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq). *** Resenhas Educativas/ Education Review publica resenhas de livros recém-lançados na Educação, abrangendo o conhecimento e a prática em sua totalidade. Todas as informações são avaliadas pelos editores: • Editor para Espanhol e Português Gustavo E. Fischman Arizona State University • Editor Geral (inglês) Gene V Glass Arizona State University • Editora de Resenhas Breves (inglês) Melissa Cast-Brede University of Nebraska at Omaha As resenhas são arquivadas e sua publicação divulgada por meio da listserv (EDREV).