Revp75 Fresquet, Adriana e Xavier, Márcia (Orgs). (2008). Novas imagens do desaprender . Uma exper i ênc ia de aprender c inema entre a c inemateca e a es co la . Rio de Janeiro: Booklink-CINEAD – LISE – FE/UFRJ. 276 pp. ISBN: 9788577290604 Resenhado por Suzana Feldens Schwertner Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Outubro 9, 2009 A tela de cinema como quadro negro Imagens para aprender, imagens para desaprender. Nada mais coerente que iniciar a resenha de um livro que trata sobre imagens – imagens do cinema – oferecendo uma imagem. Mais especificamente, uma pintura intitulada Imagining teachers, da autoria de Marcela Harvey1. Nossa intenção aqui não é analisar tal imagem, tão repleta de detalhes e cores, mas chamar atenção para o terço superior do quadro. A combinação das palavras e imagens na pintura nos sugere uma sala de aula com suas portas abertas, que nos levam a um quadro negro. Naquele mesmo espaço da imagem, poderíamos pensar em uma tela negra ao fundo (uma tela de cinema, por que não?), nas portas largas e no cartaz que nos convidam a entrar e penetrar naquele recinto meio claro, meio escuro – que bem poderia ser uma sala de projeção. Quadro negro como tela de cinema, tela de cinema como o quadro negro da escola; espaços em que se aprende e desaprende. Nesta passagem à porta de entrada (da escola? Do cinema?), somos acompanhados por alguns pares de olhos, bem como por algumas palavras, entre as quais destaco 1 A imagem aqui referida é capa do livro Imagining teachers: rethinking gender dynamics in teacher education (Rowman and Littlefield Publishers, 2001), de Gustavo Fischman. http://edrev.asu.edu/reviews/revp75 2 “visão” e “identidade”, escritas em tinta branca (giz?) na altura dos olhos da/o personagem central do quadro. Olhos de diversas cores e tamanhos nos trilham até a porta, olhos abertos e fechados – seriam representações das nossas reações frente à sala de aula, ou frente às emoções do cinema? Ir à escola e ir ao cinema solicita um certo deslocamento, exige uma saída de casa para o local das salas (seja de aula, seja de cinema); deslocamento que é também proposto pelas organizadoras no subtítulo do livro: aprender entre espaços, entre a cinemateca e a escola, a partir de Novas Imagens do Desaprender. O livro remete a um primeiro volume, Imagens do desaprender – Uma experiência de aprender com o cinema, lançado em 2007. Este segundo volume apresenta os resultados do projeto de pesquisa e extensão CINEAD – Cinema para Aprender e Desaprender, envolvendo as etapas fundamentais no processo de conhecimento: pesquisa, análise e prática. Aponta, então, para novidades e criações a partir dos fundamentos discutidos na obra anterior. Contando com a colaboração de vinte autores em mais de vinte textos, a obra é resultado de um produto de coletividade, princípio essencial do fazer cinematográfico. O livro se apresenta subdividido em três partes, cada qual relacionada a diferentes e complementares etapas do projeto (pesquisa, análise e extensão). A tríade evocada em todos os capítulos – aprender, desaprender e reaprender – tem inspiração no nó borromeano estudado por Lacan, conforme destacam as organizadoras na parte inicial do livro. Tal configuração nos diz da impossibilidade de desfazer os elos entre Imaginário, Real e Simbólico, para a Psicanálise. Nesta obra, especificamente, aparece transposto para a impossibilidade de desenlaçar os eixos de aprender, desaprender e reaprender, inseridos em um estudo que se propõe, simultaneamente, um modo de pesquisar, analisar e aplicar/executar. Se naquele livro – conforme resenha de Débora Nakache (2008) – o foco principal foi apresentar análises de filmes sobre a infância, o segundo volume propõe apresentar, além da pesquisa sobre filmes e acervo impresso, os primeiros resultados do trabalho de um ano de pesquisa. Preocupados em fazer emergir crianças e adolescentes nas imagens e linguagens do cinema, os pesquisadores-autores apresentam resultados das experiências iniciais de fazer cinema com “gente pequena, nem tão pequena assim...” A primeira parte do livro trata da pesquisa sobre filmes, embasada teoricamente por Mikhail Bakthin, Alain Bergala e Walter Benjamin (novamente uma tríade!), autores que sustentam os estudos não apenas na parte teórica, mas nas três modalidades do projeto. Iara Arendt e Vanessa Martins, no segundo capítulo, ao pesquisar a produção teórica sobre educação e cinema no Brasil dos anos 70, bem como a produção fílmica da época, chamam atenção para a importância de se preservar o patrimônio audiovisual de nosso país. Tarefa esta que vem sendo realizada, com êxito, pela Cinemateca Brasileira. As autoras revelam preciosidades possíveis de serem garimpadas naquele espaço e criam uma atmosfera de curiosidade em relação às inúmeras possibilidades de pesquisa sobre cinema e educação na Cinemateca. O comprometimento em apresentar crianças e adolescentes como espectadores ativos e atribuidores de sentido àquilo que (des)aprendem com as imagens contribui para a seriedade da publicação. Conforme Adelaíde Léo defende no terceiro capítulo, pensar a criança e o jovem “... não apenas como expectadores , mas também como autores, como realizadores de uma obra fílmica significa dizer que há um entendimento dessas fases do desenvolvimento humano como potências de vida, de ação” (p. 57). A parte analítica da pesquisa busca ouvir as vozes das crianças e adolescentes, valorizando a participação ativa adicionada ao contexto cultural, ao olhar singular e à escuta dos participantes, segundo resume Geórgia Moutella Jordão. Novas imagens do desaprender 3 A metodologia microgenética, utilizada na pesquisa e apresentada por Adriana Fresquet na segunda parte do livro, reporta à análise de mudanças e transições nas falas dos participantes, elementos essenciais a serem observados em um estudo que se propõe escutar a voz analítica de crianças e adolescentes. Através do exemplo de trabalhos com os grupos de pesquisa, nos aprofundamo no conhecimento de tal metodologia e conhecemos, no capítulo Príncipes e Princesas (tripla autoria de Helen Oliveira, Maria Xavier e Adriana Fresquet), o que as crianças de 5ª ano do Ensino Fundamental pensam sobre crianças fazendo cinema no contexto escolar. Já a terceira parte do livro é dedicada às impressões do primeiro ano de trabalho, que teve como objetivo principal “impregnar de cinema” e “fazer arte” com crianças e jovens alunos, permitindo a possibilidade de desaprender na escola, através do cinema. Como definem os autores do primeiro capítulo desta terceira parte do livro: “Nada mais estrangeiro do que a arte no contexto escolar. Arte não obedece, não repete, não aceita sem questionar. Fazer arte é desconstruir, alterar a ordem estabelecida. Arte reclama, desconstrói, resiste com certa irreverência, desaprende” (p. 194). Fazer arte significa também conversar sobre cinema, assistir a filmes cuidadosamente selecionados, pensar a imagem e por imagens, conforme solicita Ana Lucia Soutto Mayor. É igualmente escrever planos e roteiros com os alunos, percebendo a presença de elementos cotidianos da mídia (especialmente, da televisão) na elaboração de roteiros, como observado por Gustavo Sampaio Rego. Fazer arte também se relaciona com o aprendizado de técnicas inovadoras do cinema, como a montagem, “um choque entre imagens e idéias”, definição apresentada por Gregório Galvão Albuquerque no quarto capítulo da última parte do livro. Ensinar sobre montagem no cinema faz parte do desaprender, pois é constituinte do trabalho de reconstrução do olhar: “... ou seja, o real é selecionado, repartido ou até mesmo excluído para compor a história” (p. 235). Desaprender. Esta é a proposta fundamental do projeto de pesquisa e extensão CINEAD, bem como desta coleção de escrita, que deverá seguir em um terceiro volume. Desaprender entre a cinemateca e a escola, entre a sala de projeção e a sala de aula – duas salas em uma, como enfatizamos na pintura apresentada no início da resenha. (Des)Educar pelo cinema: eis a tarefa do CINEAD como “passador” (aquilo/aquele dotado de postura comprometida e responsável), que segue apresentando os resultados de pesquisa e seus efeitos em crianças e jovens alunos. Importante lembrar, juntamente com Diego Rebouças, que o cinema potencializa: “O Cinema tem esse poder. De capturar e envolver. Justamente por isso, pode ser uma ferramenta poderosa na construção de um diálogo com as crianças e os jovens, estimulando a criatividade e um posicionamento autoral perante o mundo” (p. 101). Referências Harvey, Marcela. Imagining teachers. 2001. Nakache, Débora. Resenha do livro Imagens do Desaprender. Uma experiência de aprender com o cinema. Disponível em: http://edrev.asu.edu/reviews/revs198index.html. Último acesso em 01/09/2009. Acerca da autora do livro: Adriana Fresquet é professora adjunta em Psicologia da Educação do Departamento de Fundamentos da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. No Programa da Pós-Graduação em Educação oferece uma disciplina e um seminário sobre Cinema e Educação, objeto de seu projeto de pesquisa e extensão, chamado Cinema para aprender e desaprender. Gestou o convênio assinado entre a Faculdade de Educação e o MAM-Rio e criou a Escola de Cinema do Colégio de Aplicação da UFRJ em 2008. Coordena a coleção Cinema & Educação, co-edição Booklink-UFRJ com http://edrev.asu.edu/reviews/revp75 4 Hernani Heffner, pesquisador e conservador chefe da Cinemateca do MAM-Rio. Em 2005, concluiu seu pós-doutorado sobre Cinema, Infância e Educação. E-mail: adrianafresquet@fe.ufrj.br Acerca da autora da resenha: Suzana Feldens Schwertner é psicóloga e doutoranda em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Integrante do NEMES/UFRGS – Núcleo de Estudos sobre Mídia, Educação e Subjetividade. *** Resenhas Educativas/ Education Review publica resenhas de livros recém-lançados na Educação, abrangendo o conhecimento e a prática em sua totalidade. Todas as informações são avaliadas pelos editores: • Editor para Espanhol e Português Gustavo E. Fischman Arizona State University • Editor Geral (inglês) Gene V Glass Arizona State University • Editora de Resenhas Breves (inglês) Melissa Cast-Brede University of Nebraska at Omaha As resenhas são arquivadas e sua publicação divulgada por meio da listserv (EDREV).