Mesquita, M. (2016, julho 13). Resenha do Abrindo caminhos para uma educação transformadora. Ensaios em educação social, filosofia aplicada e novas tecnologias por Barros, R. & Choti, D. (Org.). Resenhas Educativas 23. http://dx.doi.org/10.14507/er.v23.1968 13 julho 2016 ISSN 1094-5296 Barros, R. & Choti, D. (Org.). (2014). Abrindo caminhos para uma educação transformadora: Ensaios em educação social, filosofia aplicada e novas tecnologias. Lisboa: Chiado Editora. 329 páginas ISBN: 978-989-51-0694-3 Resenhado por Mônica Mesquita Instituto de Educação da Universidade de Lisboa (IEUL) Portugal Se existe algo que atualmente reconhecemos, independente de nossa localização geográfica e tudo o que esta abarca, é que estamos vivendo um momento de (des)encontros. Diferentes culturas, saberes e fazeres permeiam um mesmo espaço desnorteando qualquer racionalidade linear, causal e determinista, e trazendo a imprevisibilidade como certeza. A intencionalidade da governança vigente, linearizada por uma política económica neoliberal, é manter as coisas como elas estão: crises financeiras desenhadas para fomentar êxodos e aumentar mão-de-obra escrava e a desconecção entre grupos locais; guerras civis promovidas em nome de um fundamentalismo que transpõe o sentido religioso e aporta no sentido de propriedade; o desamor alimentado em relação a vida, ao outro, em detrimento da humanização dos espaços vividos e sentidos por cada um de nós – seres coletivos vivos. Se existe algo que http://dx.doi.org/10.14507/er.v23.1968 Resenha do Abrindo caminhos para uma educação transformadora by M. Mesquita 2 atualmente não reconhecemos é que somos parte construtoras deste momento. A obra Abrindo caminhos para uma Abrindo caminhos para uma educação transformadora. Ensaios em educação social, filosofia aplicada e novas tecnologias chega-nos exatamente neste atual momento de (des)encontros, trazendo pensamentos e sentimentos contemporâneos de Paulo Freire para o centro do discurso político atual. Esta obra constitui- se em um desafio tanto no que tange a ̀ conscientização sobre o momento que esta ́ em curso, do qual somos parte ativa, quanto em uma chamada à ação coletiva de conscientização do mundo, via o nosso clamor por protagonismo e responsabilização nos processos educativos deste mesmo momento. Uma obra que vem somar-se a outras em busca de uma nova ação educativa, na qual o paradigma da educação movimenta-se de um espaço posicional para um espaço relacional, interrogando as relações entre educação e desenvolvimento humano sustentável, experienciando os nossos próprios processos de construção bem como os das comunidades em que nos inserimos. Rosanna Barros e Deise Choti, organizadoras desta obra, reúnem reflexões acerca da educação como ação política e domínio de recriação. Abrindo caminhos para uma Educação Transformadora traz, em sua singularidade, uma abordagem interdisciplinar e intercultural que apresenta como mais valia um projeto coletivo viável, concretizado (1) na visão complexa e sistémica dos processos educativos; (2) na valoração dos processos educativos em suas diversas representações; bem como (3) na recontextualização da exigência requerida em uma pedagogia libertária. Cada reflexão, em forma de ensaio, abarca a complexidade sistémica intrínseca nos processos educativos, apresentando um discurso dialógico com a própria prática e criando, assim, artefatos e mentefatos multi e transdisciplinares. Os Ensaios em Educação Social, Filosofia Aplicada e Novas Tecnologias abrem caminhos para o nosso conhecimento e reconhecimento enquanto cidadãs(ãos) do Mundo, propiciando-nos ferramentas político- pedagógicas para serem reinventadas em nossas próprias ações do quotidiano, ato que nos prepara para as imprevisibilidades do mesmo. A organização autónoma desta obra, sem apoio de órgãos de fomento, revela o grande esforço e o enorme desejo das organizadoras em firmar, tanto à comunidade académica quanto à sociedade maior, um contributo à transformação social via o empowerment político e comunitário de cidadãs(ãos), começando por suas próprias práticas. Em total coerência com a proposta, esta obra revela-se como um antídoto aos atuais processos educativos que fomentam o conformismo social, a qualificação de “recursos humanos”, a capacitação psicológica de indivíduos resilientes, assim como a difusão de informação per se. Esta obra revela-se, também, pelo fato de reconhecer e valorar não só as diversas formas que tomam os processos educativos – formais, informais e não-formais, mas também a dialogicidade presente nos mesmos. Cada ensaio manifesta uma possibilidade da conscientização em si e no mundo, uma forma de recriação do sentido, uma reavaliação permanente das convicções das comunidades educativas (os valores). Três movimentos convergentes são experienciados nesta obra e, em cada um deles e de diferente maneiras, é possível sentir-se o quanto é emergente a busca de caminhos para uma educação transformadora. No primeiro movimento, prefácio desenvolvido por José António Caride, professor da Universidade de Santiago de Compostela – Espanha, encontramos uma sucinta e importante contextualização desta obra expressa em um diálogo humanizador entre algumas conceptualizações teórico-práticas da Pedagogia Social e o momento atual das políticas educativas. O autor inicia-nos assim nesta obra, destacando que a mesma revigora os “avanços que se haviam registado nas últimas décadas a favor da descentralização e da autonomia na tomada de decisões” (p. 15), Education Review/Resenhas Educativas 3 tanto nos sistemas formais de educação quanto nas redes comunitárias educativas. Ainda neste movimento, as organizadoras revelam toda a sua grandeza ao explicitarem as suas escolhas, o seu objetivo educacional. A conquista da conceção de uma obra feita por “muitas mãos amorosas” (p. 27) mostra-se como o seu grande feito. Mãos que convergem pela estrutura freiriana e, ao mesmo tempo, refletem suas diferentes identidades e habilidades contribuindo imensamente para uma visão paralaxe da pedagogia da amorosidade. Os dois movimentos que se seguem abarcam ensaios transdisciplinares humanizadores, que apontam para uma pedagogia construída passa a passo com o outro, e não para o outro, em diferentes ambientes e focos de aprendizagem. As posturas dos educadores e dos aprendizes mesclam-se nos meandres das práticas educacionais apresentadas, permitindo vivenciar toda a complexidade sistémica nelas existente e transitar, assim, por múltiplas visões/sensações do ato de ensinar/aprender. A visitação minuciosa das obras de Paulo Freire nas práticas trazidas nestes ensaios revela, de forma transversal, a simbiose que a pedagogia da amorosidade desenvolve, na qual o educador é educando e o educando é educador – uma rede educacional cíclica que constata: nada somos sem o outro! A transversalidade é também sentida no fato dos autores dos ensaios reforçarem a espacialidade da pedagogia freiriana para além dos ambientes educacionais informais. Esta reespacialização propicia a que ambientes educacionais formais, enclausurados nas posições sectárias que negam o direito aos outros de pensarem diferente, se revelem em cenários para o ato de conhecer enquanto um ato político, um compromisso ético e uma experiência estética. Adentrar nestes ensaios proporciona uma viagem à coragem: à coragem de permitir que a aprendizagem se desenvolva sob diferentes formas de ler o mundo, à coragem de assumir as gaiolas (D’Ambrosio, 2014) epistemológicas na qual somos seres operantes – operamos e somos operados. Emergidos em uma visão filosófica da praxis, quatro ensaios sustentam e complementam-se neste segundo momento. O primeiro ensaio – Vida e Obra de Paulo Freire: a dialética de um olhar fundador para uma educação problematizadora que liberta, transforma e emancipa, desenvolvido por Rosanna Barros, remete-nos à praxis de Paulo Freire, envolvendo-nos profundamente em sua metateoria. Incansável e exaustivamente, a autora abarca todo o trajeto da filosofia político-pedagógica freiriana, obrigando o leitor a repensar em cada página, em cada parágrafo, a sua própria prática, enquanto um cidadão (educador) do mundo. O segundo ensaio – Paulo Freire e a Construção da Escola Pública Popular, desenvolvido por Afonso Scocuglia, discute o misticismo da relação pedagogia da amorosidade de Freire em ambientes educacionais informais ou não formais. O autor, abarcando lenta e profundamente todos os conceitos-chave freirianos, desmistifica e reivindica a escola pública popular como alavanca mestra da “construção alternativa e contra-hegemónica à globalização do capitalismo excludente” (p. 115). O terceiro ensaio – Hospitalidade da Razão e Poder Transformador – interpelações de pedagogia social, desenvolvido por Isabel Baptista, leva-nos ao cerne das práticas de aprendizagens – ao nosso lugar antropológico no processo cíclico que vivenciamos enquanto educadores/educandos. A civilidade, no sentido do filósofo político Etienne Balibar (2011), é-nos posta em prática pela autora, que nos convida a adentrarmos em nossa própria prática via a tripla-hélice ética-estética-política, caminho que potencializa a beleza e a responsabilidade de nossas relações sociais, e nos dignifica enquanto seres sociais conscientes, recordando que nada somos sem o todo. O quarto ensaio – Quais são as Convergências entre o Freireanismo Emancipador e as Orientações Analítico- Argumentativas da Filosofia Aplicada a partir dos seus Objetivos e Metodologias?, Resenha do Abrindo caminhos para uma educação transformadora by M. Mesquita 4 desenvolvido por José Barrientos Rastrojo, apresenta-nos partes de um estudo das conexões da pedagogia de Paulo Freire com a Filosofia Aplicada. Uma intensa e fecunda busca pela “morte das crenças opressoras” (p. 157) é sentida e vivenciada neste ensaio, mantendo-se transversal na ordem do seu discurso e revelando-se, assim, como o elo mais forte da conexão em estudo. O último momento surge com três ensaios que permeiam as convergências freirianas via as novas tecnologias. O primeiro ensaio – Traçando Novos Caminhos, por meio das Tecnologias da Informação e Comunicação, norteadas pelo legado de Paulo Freire, desenvolvido por Deise Choti, clama pelo ato de envolver para ensinar (p. 220). A autora reconstrói-se, face ao desafio da escrita deste ensaio, permitindo-nos entrar pelo universo complexo da formação continuada e firmar a importância tanto da postura de mediador do professor em suas práticas pedagógicas, quanto do lugar tecnológico em sala de aula, enquanto ferramentas colaborativas e transformadoras. O segundo ensaio – Educação Transformadora: encontros e convergências das obras de Paulo Freire e de Edgar Morin, desenvolvido por Marilda Behrens, abarca um paradigma inovador nos processos de aprendizagens formais. Este ensaio proporciona uma reflexão histórica sobre o alinhavo das abordagens holísticas da complexidade sistémica e da pedagogia freiriana na formação continuada que ultrapassa a condição dos conteúdos e das didáticas, indo ao encontro da necessidade emergente de práticas educacionais que promovam a construção de uma sociedade mais justa, equitativa e com espaço à dignidade dos seres vivos. O terceiro ensaio – Laboratório online de Aprendizagem: uma proposta crítica de aprendizagem colaborativa para a educação, desenvolvido por Patrícia Torres, desenvolve uma critica construtivista sobre o charme das novas propostas (anti) pedagógicas e da posição fetichista do computador em sala de aula. A pedagogia é aqui entendida como um processo, dentre outros, de participação, criatividade, reconhecimento do conhecimento já construído e inovação no encontro com o outro – um processo coletivo, no sentido do geógrafo social David Harvey (2014). Assim, a autora questiona o espaço ideológico das atuais políticas educacionais, no qual as novas tecnologias tem sido um dos principais atores, e partilha um lugar tecnológico freriano – Laboratório On Line de Aprendizagem. Não posso afirmar que a intencionalidade desta obra fora deslinearizar as quadraturas das políticas educacionais, mas posso afirmar que foi este o percurso que tracei ao lê-la. Os diferentes saberes, fazeres e culturas que experimentei como leitora reforçaram em mim a esperança: a concretização de sonhos plantados por Freire, e, aqui, regados pelos autores. Confesso que me identifiquei com muitas partes, me senti vivendo algumas estrofes (que são partilhadas sem medos e sem barreiras) e respirando, sentindo os cheiros, os sabores e as violências com os autores. Sinto a humanização em praxis e em plena expansão . . . senti em mim! Recontextualizo-me, assim, afirmando que se existe algo que esta obra nos acrescenta é o exercício de nos reconhecermos como parte construída e construtora de todos os momentos atuais existentes – a (re)conscientização de sermos e estarmos no mundo. Uma obra, um encontro! Definitivamente não é um livro fechado à área da Educação Social, nem à Educação. Uma obra para ser visitada por qualquer pessoa que busca um repensar a própria prática de cidadão do Mundo. Education Review/Resenhas Educativas 5 Referências Balibar, E. (2011). Politics and the Other Scene. London: Verso. D’Ambrosio, U. (2014). À guisa do prefácio. In M. Mesquita (Org.), Fronteiras Urbanas. Ensaios sobre a humanização do espaço, (pp 7-18). Viseu: Anonymage. Harvey, D. (2014). Seventeen contradictions and the end of the capitalism. London: Profile Books. Acerca das Organizadoras do Livro Rosanna Barros Doutorada em Educação pela Universidade do Minho, Portugal. Professora Adjunta da Universidade do Algarve. Diretora do Mestrado em Educação Social. Investigadora Integrada do Centro de Investigação em Espaço e Organizações da Universidade do Algarve. Membro eleita da Direção - Steering Committee - for ESREA - European Society of Research on the Education of Adults. Tem diversos Livros e Artigos publicados na área da Educação Social, da Educação de Adultos e das políticas públicas. Deise Choti Doutoranda em Educação na Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Professora na Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Pesquisadora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná no Grupo de pesquisa PEFOP: Paradigmas Educacionais e a Formação de Professores. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Educação com uso de Tecnologias da Informação e Comunicação. Acerca da Autora da Resenha Mônica Mesquita Instituto de Educação da Universidade de Lisboa (IEUL) mbmesquita@ie.ul.pt Doutora em Ciências da Educação pela Universidade Nova de Lisboa (UNL). Professora colaboradora no Mestrado Educação Intercultural e Investigadora do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa (IEUL), Portugal. Pós-doutoranda da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, Portugal. Coordenadora do GEPEm – Pt (Grupo de Estudo e Pesquisas em Etnomatemática de Portugal). Presidente da Assembléia da APOCOSIS (Associação Portuguesa da Complexidade Sistémica) Investigadora colaboradora do MARE (Marine and Environmental Sciences Centre) – line: Policy and governance. mailto:mbmesquita@ie.ul.pt Resenha do Abrindo caminhos para uma educação transformadora by M. Mesquita 6 Education Review/Reseñas Educativas/Resenhas Educativas is supported by the edXchange initiative’s Scholarly Communications Group at the Mary Lou Fulton Teachers College, Arizona State University. Copyright is retained by the first or sole author, who grants right of first publication to the Education Review. Readers are free to copy, display, and distribute this article, as long as the work is attributed to the author(s) and Education Review, it is distributed for non-commercial purposes only, and no alteration or transformation is made in the work. More details of this Creative Commons license are available at http://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/3.0/. All other uses must be approved by the author(s) or Education Review. Education Review is published by the Scholarly Communications Group of the Mary Lou Fulton Teachers College, Arizona State University. Please contribute reviews at http://www.edrev.info/contribute.html. 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