Gaivota, D. (2019, maio 29). Resenha de Fala, gesto, silêncio: Uma questão pedagógica A discussão entre sofistas e filósofos pelo sentido e poder de ensinar por V. Vicenzi. Resenhas Educativas, 26. http://dx.doi.org/10.14507/er.v26.2511 29 de maio de 2019 ISSN 1094-5296 Vicenzi, V. (2017) Fala, gesto, silêncio: Uma questão pedagógica. A discussão entre sofistas e filósofos pelo sentido e poder de ensinar. Rio de Janeiro: NEFI. 204 páginas ISBN: 978-85-93057-08-3 Resenhado por Daniel Gaivota NEFI - UERJ Brasil Como é possível pensar a Escola sem uma ideia de verdade? Como é possível pensar e defender uma instituição ou um espaço-tempo que historicamente garante que as novas gerações saibam diferenciar o falso do verdadeiro se abandonamos tal conceito? É sequer possível pensar sem uma baliza epistemológica ou linguística que garanta alguma ordem ao conhecimento? Para Nietzsche, que praticamente fundou as bases para a filosofia e o pensamento pós-moderno, a verdade é uma ilusão. Ela está intimamente vinculada à linguagem, ao modo pelo qual os conhecimentos se fundaram, através das diversas interações e desejos humanos. O que é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas, e obrigatórias: as verdades são ilusões. (Nietzsche, 2009, p. 535). Resenhas Educativas 2 O desejo pela verdade para o filósofo, portanto, não é intrínseco; é nada mais que a vontade de potência, o desejo por dominação ou poder. Não se deseja dizer a verdade porque a verdade é boa em si, mas porque dizê-la carrega consigo uma série de vantagens. Discussão original? Não exatamente. Este é o exato mesmo dilema que enfrentam Sócrates e seus interlocutores em alguns diálogos de Platão, como o início da República, o Fedro, o Mênon, o Górgias e o Crátilo. A discussão sobre a verdade atravessa a história da filosofia – até sua extinção (?) no pós-modernismo – e de certa forma, ela funda a história da filosofia ocidental: é na busca pela legitimação ou condição de verdade do pensamento racional sobre o mito e, logo depois, da filosofia sobre a retórica que as primeiras questões surgem, como num amálgama de disputas, cujas vitórias epistemológicas serão mais tarde consolidadas por Aristóteles em um cânone filosófico ao qual raramente, ainda hoje, ousamos nos opor. A maioria das pessoas a pôr os olhos nestas palavras muito provavelmente compreende como a filosofia se opôs, na antiguidade clássica grega, às técnicas demagógicas dos sofistas, que, se aproveitando da estrutura democrática ateniense, usavam de sua retórica para conseguir poder e dinheiro. É a narrativa de todo manual de filosofia, que lhe permitiu, ao longo de sua história, vincular-se com a emancipação e a verdade, mais que à persuasão e à falsidade. Entretanto, se dermos um passo atrás, como Nietzsche, e nos perguntarmos sem inocência, sem engolir tão facilmente as dicotomias e binarismos que os manuais tendem a nos empurrar garganta abaixo, se fizermos apenas um exercício de observação, o que há do outro lado? Se aceitamos Nietzsche a desdizer a Verdade, por que ainda reproduzimos esta narrativa fundadora quase mitológica que opõe filosofia e sofística binariamente? É este o ponto de partida do percurso teórico de Vinicius Bertoncini Vicenzi em Fala, gesto, silêncio: uma questão pedagógica. A discussão entre sofistas e filósofos pelo sentido e poder de ensinar, publicado pela NEFI editora em 2017. Ao naturalizar o discurso que separa filosofia e retórica e aproximar verdade e filosofia, marcamos definitivamente nosso pensamento sobre a verdade, o conhecimento e sobre a educação, além de sobre a própria filosofia. Porque somos professores formados em um discurso socrático, filosófico. O que significa ser um professor foi definido e demarcado a partir desta disputa sobre quem merecia educar, sobre quem deveria ser mestre. Vicenzi não pretende, com seu texto, defender a retórica ou os sofistas – isto reproduziria a mesma estrutura que nos privou desta perspectiva a princípio –, mas sim expor, colocar em igualdade estes dois tipos de professor grego e permitir que, afinal, olhemos para ambos, já que a tradição nos nega um deles. A primeira parte do livro se ocupa de apresentar a retórica enquanto uma outra perspectiva pedagógica e política em relação à filosofia. Através de textos platônicos e autores contemporâneos, como Foucault, Manoel de Barros e Rancière, o autor demonstra todo o processo de disputa, apresentado os ataques e contra-ataques de cada lado, e captando, como um colecionador, alguns elementos interessantes no caldo da disputa, como o aparecimento da infância como elemento discursivo e da loucura no projeto platônico e sofista. Assim, não só faz um exercício retórico, apresentando uma sequência argumentativa convincente para assumir qualquer uma das posições, como também um exercício filosófico, retirando do contexto que descreve perguntas, que saltam do texto fazendo com que o leitor quase saia por alguma tangente, só para descobrir que aquela linha acaba costurando a trama que o livro apresenta desde o princípio. Na segunda parte, o livro explora uma outra perspectiva da disputa, que é ontológica, Resenha de Fala, gesto, silêncio 3 mas que é, enfim, epistemológica. Descrevendo as conclusões de Parmênides em seu poema, fundador da metafísica (e, em última análise, da ciência e de toda a tradição do pensamento ocidental), e descrevendo o modo pelo qual Parmênides o faz, Vicenzi demonstra quão retórica é a filosofia parmenídica. Na verdade, dado sua extensão e influência, faz parecer que foi a obra de retórica mais eficaz na história do pensamento. Parmênides convence o leitor de que o que defende é quase óbvio, o ser é e o não ser não é. Mas logo a seguir, Vicenzi parte para uma análise da obra Tratado do Não-ser, de Górgias, na qual o sofista, através de argumentação sólida e lógica, numa análise meticulosa da obra de Parmênides, contrapõe- se a ela, argumentando a favor de uma tese oposta, tríplice, aparentemente absurda: de que nada existe; de que se algo existe não é apreensível ao homem; de que se é apreensível é, sem dúvida, intransmissível e inexplicável a outrem. Neste momento, Vicenzi descreve a argumentação gorgiana; o texto aqui fica mais denso, talvez um pouco confuso, e lança mão de uma linguagem analítica que destoa um pouco da leitura mais acessível das outras partes do livro. Entretanto, realiza uma virada e faz com que revisitemos algumas certezas. Gorgias vira de ponta-cabeça os fundamentos tão cristalizados de nossa metafísica, de nossa semiótica, de nossa teoria da linguagem, ao afirmar por exemplo o absurdo de que dizer algo é dizer o ser (já que a linguagem comporta inúmeras coisas que não são). Na leitura das palavras de Vicenzi, portanto, não há como não ser levado a esta conclusão simples e aterradora: Górgias é um filósofo; Parmênides é um retórico. Ou talvez nenhum dos dois corresponda a algum destes epítomes. Ou correspondam a ambos. Aqui, as linhas que delimitam cada um destes territórios já não se fazem claras. Então, numa revirada, Aristóteles aparece na narrativa, retirando da linguagem a relação com a ontologia, e acabando com a brincadeira tanto de Parmênides quanto de Górgias. Aristóteles inaugura uma seriedade nunca antes vista na filosofia, engendrando o pensamento em um método “infalível” que descarta tanto os pré- socráticos quanto os sofistas e até mesmo Platão. A filosofia aristotélica marca com ferro quente as linhas que Górgias ensaiou embaçar, e é neste território que circulamos, é dos manuais de Aristóteles que derivam nossos manuais. Neste ponto, o livro de Vinicius Vicenzi alcança seu ápice, seu clímax: é ao serem oficialmente alijados da história do pensamento e da história da filosofia que os sofistas e a sofística alcançam sua posição mais significativa. A partir principalmente da análise de Barbara Cassin, pesquisadora francesa da sofística, o autor nos leva a uma reflexão sobre o lugar das diferentes linhas e forças na prática pedagógica. Nos vemos frente a duas grandes possibilidades de pensar o pensamento e a educação: uma, aquela que desde Platão – ou desde Parmênides – vinha sendo construída como a via da verdade, que foi consolidada e estruturada nas mãos e palavras de Aristóteles; e outra, um outro saber, uma outra voz, que foi retirada do território do discurso, separada do pensamento tradicional e sua história, sombreada pela efígie da filosofia. Deleuze e Foucault, muito mais tarde, observariam as instituições e os dispositivos que produzem, controlam, distribuem e legitimam os discursos, criando constantemente o limite entre o território da verdade e de sua oposição, nas formas da falsidade, do silêncio, da ficção e da loucura. Estes dispositivos, através de sistemas de interdição, separação e apagamento, distribuem através das instituições o poder – análise política que Foucault chama de uma microfísica do poder: Trata-se (...) de captar o poder em suas extremidades, em suas últimas ramificações (...) captar o poder nas suas formas e instituições mais regionais e locais, principalmente no ponto em que ultrapassando as regras de direito que o Resenhas Educativas 4 organizam e delimitam (...) Em outras palavras, captar o poder na extremidade cada vez menos jurídica de seu exercício. (Foucault, 1979, p. 182) Deleuze e Guattari, quando observam a influência destes dispositivos, atentam para os modos de tempo e espaço que tais forças produzem na realidade. Para os autores, estas estruturas – que chamam de aparelhos de Estado, na medida em que estatizam, imobilizam e oficializam as forças – produzem espaços estriados, ou seja, espaços marcados, traçados, onde cada objeto tem sua função própria, seu tempo e espaço bem definidos, e através dessa definição, controlados. São os aparelhos de Estado que dão conta de construir esta malha de instituições que organiza e distribui o poder microfísico que Foucault anuncia. A visão hipocrática de pensamento, apresentada por Vicenzi como base da pedagogia platônica, é no sentido Foucaultiano e Deleuziano, institucionalizante. O livro mostra como Hipócrates acredita que uma educação política tem como objetivo contrapor uma natureza humana mal composta, falha. Como a educação pode, em sua ação, ordenar, diagnosticar e curar seus objetos. Uma educação pensada a partir da medicina, ou seja, que separe verdadeiro do falso, que separe aparência de essência e coloque cada coisa em seu lugar. Há uma distinção, então, entre artificial (aparente) e natural, que merece uma maior consideração. Platão usa a medicina como paradigma porque é ela quem permite fazer essa distinção entre aparência e essência, entre visível e invisível, em última instância. (Vicenzi, 2017, p. 156) Os pensamentos platônico e aristotélico representam aqui, portanto, numa análise dos discursos aguda, uma aparelhagem do pensamento. É no fim da disputa selada por Aristóteles que o território “oficial” da filosofia, com suas regras, temas, tempos e espaços bem definidos é delimitado – e que o outro lado, o dos outros professores gregos, é excluído. É excluído porque não cabe neste modelo oficial, nesta via verdadeira. A herança socrática tem por fim uma estriação do pensamento. A verdade enfim é o aparelho de Estado da filosofia da educação. Por outro lado, Deleuze e Guattari nos presenteiam com um outro conceito, que permite olhar o mundo numa outra perspectiva política e com mais coragem e atenção: todo aparelho de Estado está sujeito à interferência do que os autores chamam de máquinas de guerra, forças externas que penetram nos territórios oficiais e ignoram as estruturas limítrofes, borrando-as, fazendo com que esses limites percam força. Esta máquina de guerra nômade, para os autores, parece ser a própria exteriorização, o conjunto que produz linhas de fuga, o que significa criar vetores de externalização, possibilidades de craqueamento de sistemas de controle, de quebrar estruturas e revelar espaços abertos. Enquanto o aparelho de Estado constrói espaços estriados, onde sujeitos e objetos são estabelecidos e funções, nomes e cargos são definidos (em suma, um espaço idealista, transcendente) máquinas de guerra criam o que Deleuze e Guattari chamam de espaço liso. Em oposição ao espaço estriado, onde a subjetivação, a cronologia e as posições são marcadas em uma estrutura (como parece ser, para Vicenzi, de certa forma, o projeto aristotélico), o espaço liso é um plano não estruturado, em que as coisas não são marcadas pela hierarquia, relações verticais ou representação. A maneira como essas máquinas de guerra minam o Estado é através do exercício do poder difuso para rachar os poderes concentrados, através da substituição do espaço estriado com espaço liso, ou melhor: desafiando, negando ou destruindo alguma estrutura, subvertendo as regras e linhas estabelecidas pelo outro lado. E é exatamente esse movimento que observamos a retórica realizar em Fala, gesto, silêncio. Tal Resenha de Fala, gesto, silêncio 5 qual a retórica em relação ao discurso. “Destruir a seriedade dos adversários com o gracejo e o gracejo com a seriedade”, como formula Górgias – atravessar as linhas estabelecidas com sua oposição direta. A análise de Vicenzi em Fala, gesto, silêncio não lança mão destes conceitos, não se funda em Deleuze ou Guattari para chegar a suas conclusões, mas o que o livro constrói, pouco a pouco, é uma comparação entre a história da filosofia que defendemos, que ensinamos nas escolas e através da qual pensamos a própria educação e uma outra visão de linguagem, de discurso, de política que é mais próxima de um pensamento da diferença e da multiplicidade, mas que – exatamente por causa disso – ignoramos. Através da comparação entre o método de Hipócrates e a figura do Hipócrites, aquele que pensa de baixo pra cima, o ator grego, o livro vai nos levando a pensar que esta outra ideia de educação grega exerceu (e depois de Aristóteles, mais do que nunca) o papel de máquina de guerra. O que, em termos do autor, significa que essa outra possibilidade, hipocrítica (intimamente relacionada ao sofista – que “atua”, que não tem um compromisso com a verdade, mas sim com a aparência, segundo Platão e Aristóteles), tem mais a ver com o não-saber, com a invenção e o movimento que com os saberes estáticos e definidos aos quais se almeja numa busca pela verdade. O resultado é que, se pensarmos em uma pedagogia herdeira destes mestres gregos e não daqueles, teremos que pensar em uma educação do improviso, do jogo, do desafio e da igualdade – lembrando da crítica de Rancière à ideia de que Sócrates é um mestre da igualdade das inteligências. Vicenzi passa a última parte do livro desenvolvendo essas características de uma educação hipócrita, como atenção para o presente, a presença de um éthos e um páthos teatrais, ou seja, afetivos, estéticos, a importância do gesto e, em grande medida, da voz. O livro nos mostra uma outra rua, um outro caminho que poderíamos ter trilhado, mas que ficou desgastado e perigoso, e não é mais aconselhável. Ou melhor, uma rua que foi interditada e destruída há muito, por onde não há mais caminho. E é esta a genialidade no que Vicenzi nos propõe: a grande e maior potência desta outra força reside justamente por ela não ter um lugar, não ser mais um caminho trilhável. Pois, como dizia Foucault, o visível, o oficial, a verdade, é o que foi permitido pelas estruturas de poder. Não habitar a rua da verdade construída pela filosofia significa, nas palavras de Vicenzi, habitar a encruzilhada. E a encruzilhada é o não-lugar, é a fronteira, a margem. É o lugar dos conflitos e dos devires, e por isso a filosofia oficial e cristalizada em sua verdade não-contraditória teme tanto este pensamento marginal. Vicenzi, apoiado de perto por Cassin, nos leva a um trajeto nomádico da retórica e da sofística, para nos fazer perceber que elas não estão extintas do pensamento: muito mais interessante que isso, elas passam a atuar ocultas, subversivas, pelos cantos. No professor que convence os alunos das teses racionalistas para logo depois convencê-los, igualmente persuasivo, do empirismo. No aluno que faz uma pergunta impossível de ser respondida. Na paixão com que o professor descreve um argumento, seguida por uma exclamação múltipla de assombro. A escola pode ser clínica, hipocrática, pode intentar separar verdade de falsidade, mas as forças hipocríticas atravessam esse tecido como linhas de fuga, máquinas de guerra que subvertem e ressignificam palavras, ideias, conceitos. As palavras e os silêncios, os ruídos e as vozes criam e recriam o mundo, não num sentido único, mas numa encruzilhada de possibilidades. Diante da beleza de tal conclusão, qualquer contradição resulta desimportante. Resenhas Educativas 6 Referências Foucault, M. (1979). Microfísica do poder. Organização e tradução de R. Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal. Nietzsche, F. (2009). Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral. Trad. R. Torres Filho. In: J. Marçal (Org.), Antologia de Textos Filosóficos. Curitiba-PR: SEED. Acerca do Autor do Livro Vinicius Vicenzi é Doutor em Filosofia pela Universidade do Porto/Portugal, com intercâmbio na Université Paris IV - Sorbonne (2016). É Mestre em Educação pela UERJ (2010). Seus interesses em Filosofia da Educação e Ensino de Filosofia o colocaram em contato com diferentes contextos educacionais. Foi professor em escolas de Ensino Fundamental e Médio (Regular e EJA) em Florianópolis, e em cursos de graduação (Filosofia e Pedagogia) da UFSC. Participou de projetos de extensão de filosofia com crianças. É membro fundador da Sociedade Brasileira de Retórica, do Núcleo de Estudos de Filosofias e Infâncias (NEFI/UERJ) e do Aesthetics, Politics and Art Research Group- Universidade do Porto. Acerca do Autor da Resenha Daniel Gaivota é filósofo, mestre e doutorando em Educação. Professor há mais de dez anos, acredita em uma educação que movimente, desloque e transforme as pessoas e o mundo, buscando sempre afirmar o caráter público da escola como seu elemento mais importante. É apaixonado por tangerinas e jabuticabas, e acredita que é só através das infâncias, dos devires e das menoridades que nos tornamos capazes de viajar e explorar o mundo. Resenha de Fala, gesto, silêncio 7 Education Review/Reseñas Educativas/Resenhas Educativas is supported by the edXchange initiative’s Scholarly Communications Group at the Mary Lou Fulton Teachers College, Arizona State University. Copyright is retained by the first or sole author, who grants right of first publication to the Education Review. 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