Pinheiro, C. (2019). Resenha do Dialogar, conversar e experienciar o filosofar na escola pública: Encontros e desencontros por V. Gomes. Resenhas Educativas, 26. http://dx.doi.org/10.14507/er.v26.2515 29 de maio de 2019 ISSN 1094-5296 Gomes, V. (2017). Dialogar, conversar e experienciar o filosofar na escola pública: Encontros e desencontros (Coleção: Teses e Dissertações; VI, 1 ed.). Rio de Janeiro, Editora NEFI. Pp.2070 ISBN: 978-85-93057-10-6 Resenhado por Camila Pinheiro Universidade do Estado do Rio de Janeiro Brasil A autora do livro “Dialogar, conversar e experienciar o filosofar na escola pública: encontros e desencontros” é Vanise Gomes, é professora da Escola Municipal Joaquim da Silva Peçanha, localizada na periferia Beira Mar em Duque de Caxias, onde coordena o projeto “Em Caxias, a filosofia en-caixa?”. Ao longo de seus trabalhos, desenvolve pesquisas com centralidade na escola pública, aborda eixos temáticos como: infância, filosofia com criança, formação de professores, alfabetização, ensinar e aprender. A escola Municipal Joaquim Peçanha é habitada pela professora e pelo projeto que a mesma coordena em Duque de Caxias pensado pelo Núcleo de Estudos de Filosofias e Infâncias do Programa de Pós-Graduação em Educação (ProPEd) da Faculdade de Educação (UERJ). Desse modo, a tese-livro da autora convida a pensar as experiências desenvolvidas no projeto “Em Caxias, a filosofia en-caixa?”. Portanto, o projeto descrito, tece dentro da escola um espaço para explorar questões da filosofia, infância e educação com crianças, jovens e adultos. Assim, a escrita da Resenhas Educativas 2 autora/professora contribui para pensar diversas questões que atravessam a escola e a universidade. E com isso, ela relata suas experiências e transformações, tanto do projeto ao longo dos anos, como do seu modo de habitá-lo. A experiência e o afeto da autora pelas questões abordadas sobre a escola especificam os movimentos que ela permeia, ou seja, a escola pública. E com isso, deu-se um movimento belo, a escrita de uma tese, a qual foi defendida em um espaço público, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Nesse sentido, este livro deu forma e transformou-se em uma outra tese. Agora transita e habita uma tese-livro e/ou um livro- tese. É possível uma escrita movimentar outros espaços? Este livro se coloca a pensar o diálogo, proposta temática que inquieta o projeto “Em Caxias, a filosofia en-caixa?”, o diálogo pensado aproxima-se de um convite para sentar e conversar sobre as perguntas que são inquietantes. Não só perguntas que dirigem-se ao que acontece na escola, mas também diversas perguntas a respeito dos movimentos da vida. Como um ambiente de acolhimento, escuta e atenção, todos podem pensar, como iguais, os encontros e desencontros do diálogo. Será que o diálogo é algo que se aproxima de uma conversa? De uma resenha? Apresentar um livro é convidar o outro a experimentar o desconhecido, e é também convidá-lo a habitar novas experiências de pensamento. Sendo assim, é também acolher seus atravessamentos, portanto, vivenciá-lo para além da escrita a pergunta “o que pode um diálogo dentro da escola pública”? A aposta da autora é contar sua experiência com o projeto “Em Caxias, a filosofia en-caixa?”. Além disso, dizer como o diálogo é um convite para alcançar escuta e atenção dentro da escola, isto é, para além das experiências de pensamento que ocorrem na mesma. Que escuta estamos falando? Como pensamos a escuta, a partir do diálogo e da experiência em uma conversa com as crianças? Portanto, a escuta, através do exercício de atenção com o outro, dialogarmos numa posição onde todos se sintam acolhidos pelo diálogo. O livro problematiza, através de conversas e perguntas, como o diálogo provoca, de forma inquietante, a intensidade das experiências do projeto. Apresentar as temáticas que transitam a escrita é convidar você, leitor, para aventurar-se em temas potentes, de modo geral, temas que circulam através dos professores e dos estudantes. Colocar à mostra o livro é fazer um convite ao público e tudo aquilo que é público, ou seja, “o diálogo como conversa” tem um princípio de hospedar com afeto às questões do projeto na/da escola pública, pois é uma abertura para pensar as experiências, as perguntas, e inquietações. Assim, o diálogo como conversa dá lugar para pensar os modos de fazer educação e as maneiras de habitar a vida. Apresentar o livro “Dialogar, conversar e experienciar o filosofar na escola pública: encontros e desencontros” a leitores que viajam pelo mundo da educação, da infância e da escola pública. Apresentar para aqueles que caminham em busca das perguntas, das inquietações e das invenções, e quiçá, aqueles que movimentam, fazem mover à infância da escola pública. Apresentar uma leitura comprometida com o caminhar da escola pública. Apresentar um conjunto de escritas que potencializam o lugar da infância e da filosofia dentro da escola pública. Os escritos trazem a problematização das experiências de pensamento no projeto “Em Caxias, a filosofia en-caixa?”, nos convidando a dialogar, conversar e experiênciar seus movimentos. A escrita da autora dialogam diretamente com conceitos entre filosofia e educação. Portanto, é nutrida por transcrições das experiências de pensamento, reunidas para serem pensadas, ou seja, problematizadas. Resenha do Dialogar, conversar e experienciar o filosofar na escola pública 3 Entre os escritos, o livro traz como primeiro texto: o diálogo na escola pública: voar ou caminhar? Uma pergunta para pensar a formação e atenção como exercício de diálogo na escola. Na p. 35 do livro, Vanise traz uma pergunta potencializadora: Que aberturas se podem encontrar acessando outras maneiras de dialogar na escola? Quais impactos teriam ela criado, nos alunos, nos professores e na própria escola? Ao longo da escrita, a autora, percorre o espaço onde colocamos a atenção, partindo assim, da pergunta “O que nos faz deslocar o olhar, a atenção”? Isto é o sentido do próprio projeto: potencializar o olhar como forma de “ressignificar o meu fazer pedagógico/saber pedagógico, assim como também reinventar a própria vida”, p. 40). A autora dialoga com diversos autores ao longo da escrita, entre eles, Masschelein e Simons (2014), que tratam da questão da atenção e a reinvenção no cotidiano escolar, como exercício de estar atento. A autora também traz em seus escritos, Foucault (1994) afirmando que o autor “nos anima a dar lugar ao exercício de pensamento, promovendo a crítica entre as contingências e arbitrariedades que vão nos constituindo no que somos e nos convida à possibilidade de outras maneiras de ser o que ainda não somos” (p. 50). Seria um movimento de autotransformação, autoeducação? Pensar sobre o ensino de filosofia, talvez seja um exercício de estar inteiro para se reinventar no cotidiano escolar. “A filosofia na escola através do dialogar como conversa só se pode fazer presente à abertura aos outros e ao que eles têm para nos dizer e dar a pensar.” (p. 125). Em o diálogo e conversa: encontro e desencontro? a autora começa a perguntar em quais elementos podem potencializar os encontros de filosofias na escola, assim, seria o exercício de atenção, cuidado e escuta com o outro? Seria a reinvenção do diálogo? Pois, podemos perceber que se faz necessário pensar que tipo de diálogo é afirmado dentro do espaço escolar, portanto, quais formas de diálogos se acolhem e se reinventam na prática. Aqui talvez há um dos limites do trabalho que tem como seu forte muito mais a narração viva de uma experiência do que a discussão teórica de um conceito. O capítulo Bordas, vazios e infâncias: O ressoar de um diálogo como conversa? nos convida a estarmos atentos às bordas e aos detalhes que ocorrem dentro da escola. Sendo assim, deveremos perceber como os atravessamentos infantis têm vozes dentro dos espaços. Como acolher essas vozes infantis? Seria um olhar sensível ao outro? É um exercício de estar atento aos devires, aos devaneios infantis? Uma pergunta sem resposta. Como muitas outras pois a tese-livro da Vanise lança muito mais perguntas do que respostas. Ou responde uma pergunta com outras perguntas. Como nesse caso: é da sala do pensamento? A partir da provocação de uma aluna na sala do pensamento sobre o porquê a sala de aula acaba sendo um ambiente voltado para certezas, planejamentos, e não para o acolhimento das perguntas, a autora repergunta-se: como acolher outra maneira essas inquietações infantis na escola? Como afirmar uma educação pedagógica que acolha o tempo livre? Em O diálogo como convite à vida: traduzir o intraduzível? a escrita é atravessada por uma pergunta: é possível traduzir todos os acontecimentos infantis? Isto é, o projeto é um lugar que prioriza a intensidade dos encontros, o exercício de atenção e escuta. Nesse sentido, qual é o papel do dialogar como conversa? A tese-livro é um convite a um deslocamento, um convite a trilhar, ou seja, a caminhar o caminho da leitura fazendo perguntas: será o lugar de experienciar novas maneiras de pensar o ensino de filosofia dentro da escola e, de modo geral, da instituição educacional? Observar a tessitura da escrita da autora é perceber um movimento que se atenta ao acolhimento das experiências de pensamento Resenhas Educativas 4 no projeto “Em Caxias, a filosofia”. Um projeto que tem como princípio uma pergunta afirma que o diálogo como conversa deve circular pelos encontros, não só na Escola Municipal Joaquim Peçanha, mas em outras escolas públicas. Talvez essa abertura expresse novos encontros e desencontros para reinventar uma escola que tem preocupação com a escuta, atenção e o tempo livre. Esse caminho está aberto pois a autora não explora as questões que coloca para além de sua própria escola. Nesse sentido, a autora poderia ter explorado o seu campo problemático “dialogar, conversar e experiênciar o filosofar na escola pública”, pensando como poderia efetivamente ser implementado em outras escolas públicas. De um modo geral, a autora traz, ao longo da sua escrita, as andanças e errâncias da sua experiência com o projeto “Em Caxias, a filosofia en-caixa”? pensando a relação da infância, da formação do professor como um processo de autotransformação, a importância de afirmar o espaço da escola pública. Portanto, propaga que a possibilidade de habitar uma escola, através do diálogo como conversa é um exercício de “transformação de si e do mundo”, assim, um exercício de habitar este espaço de outras maneiras. Que maneiras o professor poderia habitar o espaço da escola pública? A autora poderia ter explorando conceitualmente de que forma poderia acontecer o processo de autotransformação do professor que habita o espaço público. Mas mesmo não fazendo para toda professora interessada na transformação de si, o livro aqui resenhado pode ser um bom interlocutor. Referências Foucault, M. (1994). Conversazione con Michel Foucault (Entretien avec Michel Foucault ). In: Dits et ecrits IV (pp. 41-95). Paris: Gallimard. Masschlein, J., & Simons, M. (2014). Em defesa da escola. Belo Horizonte: Autêntica Editora. Acerca da Autora do livro Vanise Gomes é formada em pedagogia pela Universidade Federal Fluminense/Faculdade de Educação – UFF. Mestra em Educação pelo programa de pós graduação em Educação (ProPed) e Doutora em Educação/ProPed. A autora brasileira atua como docente na rede Municipal de Duque de Caxias, um município do Estado do Rio de Janeiro. Acerca da Resenhadora Camila Pinheiro é pedagoga formada na Universidade do Estado do Rio de Janeiro em 2018. Membro do Núcleo de Estudos de Filosfias e Infância (NEFI/ProPED/UERJ) desde 2015. E-mail de contato: camilaprh@live.com Resenha do Dialogar, conversar e experienciar o filosofar na escola pública 5 Education Review/Reseñas Educativas/Resenhas Educativas is supported by the edXchange initiative’s Scholarly Communications Group at the Mary Lou Fulton Teachers College, Arizona State University. Copyright is retained by the first or sole author, who grants right of first publication to the Education Review. Readers are free to copy, display, and distribute this article, as long as the work is attributed to the author(s) and Education Review, it is distributed for non-commercial purposes only, and no alteration or transformation is made in the work. More details of this Creative Commons license are available at http://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/3.0/. All other uses must be approved by the author(s) or Education Review. Education Review is published by the Scholarly Communications Group of the Mary Lou Fulton Teachers College, Arizona State University. 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