Ferreira, A. I., & Sales, L. F. R. (2019). Resenha do O ato de educar emu ma língua ainda por ser escrita: O nós construindo o nosotros a partir de línguas dos mundos por W. O. Kohan, S. Lopes & F. Martins (Orgs.). Resenhas Educativas, 27. http://dx.doi.org/10.14507/er.v26.2519 29 de maio de 2019 ISSN 1094-5296 Kohan, W. O., Lopes, S., & Martins, F. (Orgs). (2016). O ato de educar em uma língua ainda por ser escrita: O nós construindo o nosotros a partir de línguas dos mundos (Coleção Ensaios, 1ª ed.). Rio de Janeiro: NEFI. páginas: 480 ISBN: 978-85-93057-03-8 Resenhado por Adriano Ibiapina Ferreira e Luiz Fernando Reis Sales Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ Brasil O Núcleo de Estudos de Filosofias e Infâncias da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – NEFI/UERJ – lança pela editora Nefi O ato de educar em uma língua ainda por ser escrita (2016). O livro compõe a coleção Eventos, pois recolhe trabalhos do WIII Colóquio Internacional de Filosofia e Educação realizado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro entre os dias 3 e 7 de outubro de 2016. Como pensar esse livro frente aos contextos políticos que afetam o ato de educar? Por que podemos pensar o escrito presente como diálogo entre educadores e discentes? Quais forças foram, são e poderão ser presentes no espírito dessa obra? O que afirma como possibilidade de educar em uma língua ainda por ser escrita? O ato de educar em uma língua ainda por ser escrita é a força de um Temer Jamais! O ato de educar em uma língua ainda por ser escrita – O nós construindo o nosotros a Resenhas Educativas 2 partir de línguas dos mundos é o título que floresce o verde no asfalto. No Brasil ondas de movimentos antidemocráticos assumem postos na governança dos âmbitos tanto federal como estaduais. No ano de 2016 estávamos presentes do golpe institucional que retirou a então presidenta eleita democraticamente Dilma Rousseff para garantir o (des)governo do seu vice, Michel Temer. Como agir, pensar e recriar a educação frente a um não governo para todos? O livro faz presença pelo enfrentamento contra esse acinzentado não democrático. Logo no primeiro folhear a obra assume seu posicionamento frente à conjuntura política do país e junto uma posição convite para pensar as inquietações que cercam o nós, pronome que o livro usa como um aparato conceitual para organizar os textos que o compõe. Esse convite é contemplado na dedicatória editorial referida aos 54.501.118 votos traídos pelo golpe saqueador dos direitos civis. A estampa no peito e na escrita da expressão “Temer jamais”, no duplo jogo do verbo que impede pensar e do usurpador que não deve ser aceito, foi à potência condutora da luta desse livro. Línguas de um mundo em um mundo de línguas? Essa pergunta é fruto do título do texto que apresenta o percurso das quarenta e duas escritas presentes no livro que promove a afirmação de línguas que compõem um nosotros potente. O tema proposto pela comissão acadêmica do VIII Colóquio lança perguntas que envolvem os todos e todas de diferentes línguas. Escritas que se compõem e se reinventam a partir dos encontros dos ressonantes nosotros convidados a fluir pelo ato de educar em uma língua estrangeira e, muitas das vezes, ainda por ser escrita. Línguas minoritárias e ancestrais, ou que ainda estão por ser inventadas são os meios que a temática desse editorial afirma para enfrentar forças que assumem a não democracia do educar, ou de nós. Pensar o ato de educar em um movimento de polissemia de vozes linguísticas que não são idênticas umas às outras proporciona um corpo de textos que articulou saberes de um nós, elaborado por diversos nós em diferentes atos. Por mais que o livro esteja contemplando o nós, apresenta lacunas para dizer outras línguas desse nós, visto que o nosotros entoado nas escritas faz parte do círculo acadêmico que é excludente. Não seria interessante buscar vozes e línguas fora desse âmbito? Muitos dos artigos apresentados nesse editorial são resultados caminhantes de projetos com alunas e alunos, ou escritos que envolvem pessoas não ligadas à escola (como o texto de Sylvio Gadelha sobre a segurança pública). Então o quanto não seria interessante linguagens outras serem apresentadas por elas mesmas (sem a mediação do pesquisador)? Textos, ensaios ou modos de expressão dos conhecimentos sendo entoados e compostos por vozes fora, talvez, explorariam nessa edição, um nós que fala com outras línguas não acadêmicas. Um outro ponto paradoxal do livro é que, no seu esforço por dar voz a uma polifonia, o livro contém textos em diversas línguas o que pode obstaculizar sua leitura pelos falantes de uma única língua, mas, ao mesmo tempo, pode garantir um acesso de entrada para pessoas de pelo menos quatro línguas diferentes (Português, Inglês, Espanhol e Italiano). O que torna o caráter paradoxal e ambivalente tanto negativo como positivo. Não espere aqui o leitor da presente resenha uma descrição sobre cada texto presente no livro. Contudo, os pontos fortes e possíveis questionamentos sobre cada seção é algo para por em questão. Em Política, Sujeito e Educação cada tema é extremamente importante para as relações políticas do contexto da produção dos livros junto ao campo da educação. Para cada ponto da seção há um texto que pensa o nós sobre política, sujeito e educação. Nas partes seguintes, Nós, os frágeis e pequenos especiais, Filosofia com crianças e posteriormente A escola e o educacional no escolar, foram trazidos bons interlocutores para pensar os frágeis e pequenos especiais. Contudo, há uma ausência que chama a atenção: não seria Resenha do O ato de educar emu ma língua ainda por ser escrita 3 interessante ouvir o nós pequenos – sem a mediação - das salas de aula? Já em África e nós, os temas e os autores foram muito engajados com a proposta, perspectivas que nos fazem e nos perpassam. Mas para pensar África, um continente vasto e de inúmeros pensadores e pensadoras, por que não uma escrita de algum(a) nativo(a) de lá? Talvez uma boa investida para pensar o nós daqui que também está lá. Essa inclusão e alargamento das vozes podem ser ouvidas e lidas na próxima seção, já que em Educar em nossa América diferentes posições de três países são apresentadas. Em Narrativa, escrileitura, ficção os textos, como veremos, são ótimos espaços para pensar a escrita outra, uma seção que muito conversa com outros tipos de conhecer e pensar, como o caso dos artigos em Musicalidade, teatralidade e arte na educação, essa seção é uma afirmativa de outros nós a partir das artes que compõem nossas línguas. Por último, em Tempo, finitude e inquietude de si a proposta de pensar o tempo finito é uma das seções inquietantes que nos coloca a refletir sobre o que fazemos com nossa vida. Um importante posicionamento, que, mesmo tendo seções específicas sobre África ou América, talvez, incluir saberes desviantes das perspectivas eurocêntricas poderia ampliar o ato de educar por uma língua ainda por ser escrita. Assim, nove sessões foram elaboradas e apresentadas como interseções discursivas. Leituras outras e escritas diversas perpassam um corpo textual a-linear que produz uma lógica sem identidade fixa. Em vista de concluir essa escrita, o livro resulta num interessante esforço em lutar por uma educação mais por nós e menos seletiva. É claro que percalços aparecem na organização, como o fato de não fazer presente escritas produzidas por uma parte de nós fora do mundo acadêmico, ou uma tentativa de ir além dos discursos eurocêntricos em assuntos que poderiam abraçar outros mundos, conforme nas seções de temas como morte, ficção narrativa, música, política e outras. Mesmo assim, a perspectiva conceitual da organização garante um fluxo de debates e posicionamentos a partir de temáticas que nos cercam com extremo cuidado sobre o complexo ato de educar produzido com à força de um nosotros. Acerca do Autor da Resenha Adriano Ibiapina Ferreira é graduando em Filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Bolsista de Iniciação Ciêntifica do CNPq. Luiz Fernando Reis Sales é graduado em filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e mestrando em educação pelo ProPEd – UERJ. Resenhas Educativas 4 Education Review/Reseñas Educativas/Resenhas Educativas is supported by the edXchange initiative’s Scholarly Communications Group at the Mary Lou Fulton Teachers College, Arizona State University. Copyright is retained by the first or sole author, who grants right of first publication to the Education Review. Readers are free to copy, display, and distribute this article, as long as the work is attributed to the author(s) and Education Review, it is distributed for non-commercial purposes only, and no alteration or transformation is made in the work. More detai ls of this Creative Commons license are available at http://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/3.0/. All other uses must be approved by the author(s) or Education Review. 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