Sayão, L. (2019, maio 29). Resenha de Filosofia com crianças: Cenas de experiência em caicó (RN), Rio de Janeiro (RJ) e La Plata (Argentina) por M. R. D. Cirino.. http://dx.doi.org/10.14507/er.v26.2545 29 de maio de 2019 ISSN 1094-5296 Cirino, M. R. D. (2016). Filosofia com crianças: Cenas de experiência em Caicó (Rn), Rio de Janeiro (RJ) e La Plata (Argentina). (Coleção Teses e Dissertações; V. 2). Rio de Janeiro: NEFI. Pp: 280 ISBN: 978-85-93057-02-1 Resenhado por Lara Sayão Universidade do Estado do Rio de Janeiro – ProPED UERJ Rio de Janeiro, Brasil Sair do lugar, ir ao encontro, colocar-se a caminhar, trilhar os caminhos que se sabem não prontos, não determinados, correr os riscos, fazer experiências em diferentes cenários, abrir-se para pensar junto e, assim, abrir sendas para o não pensado. Tendo as trilhas como metodologia, Maria Reilta Dantas Cirino, com a coragem e a força da mulher nordestina, saiu das terras do Rio Grande do Norte buscando rotas e brechas para avançar em sua pesquisa que, ao invés de pretender ser uma escrita rigorosamente encerrada nos muros acadêmicos, acolhe o convite infantil para tornar pública uma experiência educativa. A cartografia de seu texto parte de Caicó, passa pela Baixada Fluminense (Rio de Janeiro) e vai até La Plata. Em Caicó, o útero dessa escrita feminina é o Projeto de extensão do Curso de Filosofia da UERN, intitulado “Filosofia na infância, identificando desafios – construindo possibilidades”, de onde nascem as perguntas dessa educadora filósofa, atenta às questões que habitam a escola, às quais se devem voltar todas as pessoas que verdadeiramente fazem pesquisa em educação. Resenhas Educativas 2 “O que fazemos quando dizemos que estamos fazendo filosofia com crianças? Quais infâncias atravessam nossas atividades de pensar e fazer filosofia com crianças?” (p.21) Atuando como professora na formação de futuros professores de filosofia, fomentando o interesse pela filosofia com crianças entre seus estudantes de graduação, a autora sente-se convocada a pensar com profundidade tais questões balizadoras de sua proposta. E sai em busca, habita a escola pública de Caicó, ouve, dialoga, recolhe as falas das crianças e das professoras envolvidas nas muitas atividades cuidadosamente relatadas no livro. Inspiradas na proposta de Matthew Lipman, as atividades nas escolas dialogam com a proposta do filósofo, mas também criam e recriam possibilidades de brincar a mente no Seridó (terras do sertão do Nordeste do Brasil). Em rodas, a literatura infantil é a provocação inicial para discutir conceitos, fazer perguntas, fazer movimentar o pensamento. O projeto de extensão é um acontecimento que toca a todos, movimenta a escola, as crianças, as professoras e os estudantes de graduação que passam a se interessar pelo tema como objeto de pesquisa. O interesse pela pesquisa entre seus estudantes de graduação, fez a autora se debruçar ainda mais sobre suas questões geradoras e a levou a buscar o Núcleo de Estudos em Filosofias e Infâncias (NEFI), na UERJ, que desenvolve projetos de filosofia com crianças na baixada fluminense, na cidade de Duque de Caxias. O projeto “Em Caxias, a filosofia em-caixa?” passou a ser então, seu novo cenário de experiências do pensamento. As atividades do projeto do NEFI partem do pressuposto de que a filosofia com crianças é experiência do pensar aberta ao mundo com máxima possibilidade de trocas com outros/as. São práticas transformadoras que potencializam o pensamento crítico e criativo (p.63) e têm como princípio a igualdade das inteligências proposta por Rancière (2011), tese fundamental nas pesquisas realizadas no NEFI, por considerar a igualdade das inteligências como princípio, não como objetivo da educação, o que permite incluir a todos como capazes do filosofar. O livro apresenta não apenas os projetos, mas traz fotos, escritas e falas das crianças, entrevistas com as professoras responsáveis, convidando os leitores a mergulhar intensamente na narrativa que não dá conta do todo, mas se aproxima bastante dos objetivos e das práticas. O livro está organizado em seis capítulos. O primeiro narra o percurso metodológico centrado na experiência da travessia e situa- nos nas cenas que acolheram e provocaram a reflexão da autora. No segundo capítulo, apresenta-nos o pensamento de Matthew Lipman, principal referência em Filosofia com crianças, a trajetória da construção de seu projeto, suas influências teóricas. Os desdobramentos do seu pensamento são apresentados como ecos no terceiro capítulo, onde a autora dialoga com outras referências como Walter Kohan e Jorge Larrosa, além de analisar os ecos do projeto de Lipman nas cenas da pesquisa e em sua própria trajetória de professora pesquisadora. O capítulo quatro se dedica à captura das cenas, como já dito, de maneira cuidadosa e minuciosa, com transcrições e fotografias preciosas. No capítulo cinco, convida-nos para uma reflexão acerca do conceito de educação menor, enfrentando as rejeições comuns da Academia aos textos e às práticas que privilegiam a voz das crianças e das escolas. Encerra para recomeçar, no capítulo seis, revendo as travessias e cenas e abrindo novos caminhos. Além dos capítulos propostos, a obra ainda apresenta apêndices com entrevistas e as transcrições na íntegra, o que torna os relatos excessivos. O livro, como travessia, nos convida a romper fronteiras e encontrar outras cenas, agora na Argentina, em La Plata, em mais um projeto de extensão: Filosofia com niños en la escuela graduada: Um proyeto de práctica filosófica em la educación, coordenado pela professora Laura Agratti, projeto que tem como pressuposto a filosofia como deslocamento, como desnaturalização do óbvio (p.67). A vivência neste cenário, nas rodas, entre crianças e Resenha de Filosofia com crianças 3 professores argentinos favoreceu o encontro com a inquietante pergunta: “Quando podemos dizer que aconteceu filosofia em uma aula?” o que levou a pesquisa a enfrentar a questão central: “O que é Filosofia?” e de que filosofia falamos quando afirmamos sua presença na escola, entre as crianças? A autora convida então, para a trilha, os referenciais teóricos que a ajudam a pensar as questões encontradas, de modo especial Matthew Lipman e Sílvio Gallo. A pesquisa, apresenta os conceitos como se estivesse numa roda com os autores, questionando-os como fazem as crianças e tornando-os acessíveis aos mais diversos leitores. O livro permite ao leitor interessado em adentrar na prática filosófica com crianças, sentir-se vivenciando as experiências nas diversas cenas visitadas, pois são transcritas com detalhes. Neste sentido, toca o que muitas vezes falta em obras mais teóricas sobre o tema: o como fazer? No entanto, não se trata de um manual de receitas que possam ser repetidas em qualquer contexto, mas facilita a compreensão do que pode ser uma experiência filosófica com crianças. A contribuição desta obra está justamente neste ponto. A autora busca respostas para as questões intrigantes que encontrou em sua travessia nas práticas vivenciadas nas três cenas percorridas e traz os autores como contribuição para o diálogo sobre elas, mas não como ponto central da obra. Isso pode parecer a alguns uma escrita menor, um relato de experiências. No entanto, o próprio texto convoca a pensar por outra lógica e trazer a academia para aprender com as crianças e com o chão da escola. E está ciente dessa escolha. É um texto que afirma a igualdade das inteligências não apenas como um pressuposto teórico sobre o qual se pode erigir edifícios conceituais, mas uma escrita que dá mais voz às crianças e às professoras da escola que aos teóricos e a suas obras. Assim, ela compõe uma escrita desafiadora e corajosa que presta grande contribuição para a formação docente e para o desenvolvimento de experiências similares em outras cenas. Uma questão que se apresenta sempre que pensamos filosofia com crianças é sua aplicabilidade em diversos cenários. Seria essa prática uma atividade restrita a alguns nichos que desenvolvem projetos de excelência? Seria uma prática específica de um grupo de professores/pesquisadores ou é possível que seja desenvolvida em toda educação básica e em diferentes contextos? A Filosofia com crianças tem espaço na educação formal ou apenas em projetos de extensão? Tais questões são ainda lacunas na obra de Maria Reilta e nas discussões sobre o tema. As três cenas apresentadas são de projetos de extensão e os muitos relatos transcritos refletem a iniciativa de grupos de pesquisa acadêmicos em busca de um diálogo com a educação básica, sem anunciar uma efetiva atuação e consequente contribuição da Filosofia com crianças para a educação básica. Como os projetos de extensão pesquisados são esporádicos e, ainda que tenham certa regularidade, são centrados em grupos específicos de pesquisadores, seria interessante verificar outras cenas, mais cotidianas para concluir sobre as contribuições da Filosofia com crianças para a educação formal. A obra de Maria Reilta Dantas Cirino é um convite a trilhar caminhos infantis para pensar a Filosofia com crianças. Tais caminhos podem surpreender o leitor ainda não acostumado em ouvir a voz das crianças e professoras num livro. Referências Gallo, S. (2008). O problema e a experiência do pensamento: Implicações para o ensino de Filosofia. In: S. Borba & W. Kohan (Orgs), Filosofia, aprendizagem, experiência (pp.115-130). Belo Horizonte: Autêntica. Resenhas Educativas 4 Larrossa, J. (2010). Pedagogia profana: Danças, piruetas e mascaradas. Tradução de Alfredo Veiga-Neto. (5. ed.). Belo Horizonte: Autêntica. Larrossa, J. (2014). Tremores: escritos sobre experiência. Tradução de C. Antunes & J. Wanderley Geraldi. Belo Horizonte: Autêntica. Kohan, W. & Olarieta, F. (Orgs). (2012). A escola pública aposta no pensamento. Belo Horizonte: Autêntica. Lipman, M. (1990). A filosofia vai à escola. Tradução de M. E. de Brzezinski Prestes e L. M. Silva Kennedy. São Paulo: Summus. Ranciere, J. (2011). O Mestre ignorante. Cinco lições sobre emancipação intelectual. Tradução de L. do Valle (3 ed.). Belo Horizonte: Autêntica. Acerca da Autora do Livro Maria Reilta Dantas Cirino Mestra em Educação pelo PPGED da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Doutora em Educação pelo ProPED da UERJ com pesquisa na Universidade de La Plata (Argentina). Professora do Curso de Filosofia e do Mestrado em Filosofia da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN). Líder do grupo de pesquisa “Aprender e ensinar na Educação Básica” (UERN) e pesquisadora do Núcleo de Estudos de Filosofias e Infâncias (NEFI) da UERJ. Acerca da Resenhadora Lara Sayão Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (ProPed – UERJ). Mestre em Educação pela Universidade Católica de Petrópolis (UCP). Professora de Filosofia, Antropologia e Ética da Universidade Católica de Petrópolis. Professora de Filosofia na Escola Pública. Membro do comitê organizador das Olimpíadas de Filosofia do Rio de Janeiro. Resenha de Filosofia com crianças 5 Education Review/Reseñas Educativas/Resenhas Educativas is supported by the edXchange initiative’s Scholarly Communications Group at the Mary Lou Fulton Teachers College, Arizona State University. Copyright is retained by the first or sole author, who grants right of first publication to the Education Review. 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