Resenha do A liturgia escolar na Idade Moderna Otranto, C. R. (2019, dezembro 11). Resenha do Formação para o trabalho docente por J. M. de Macedo. Resenhas Educativas, 26. http://dx.doi.org/10.14507/er.v26.2715 11 dezembro 2019 ISSN 1094-5296 Macedo, J. M. de. (2017). Formação para o trabalho docente. Curitiba: Appris. Pp. 303 ISBN: ISBN: 978-85-473-0628-1 Resenhado por Celia Regina Otranto Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro Brasil Logo que se tem acesso físico ao livro Formação para o trabalho docente de Jussara Marques de Macedo a capa chama a atenção por sua simplicidade e força de comunicação. Ela é toda negra, retratando um quadro de giz bem empoeirado, como se tivesse sido apagado várias vezes por um apagador já muito usado. Neste quadro se vê a mão de uma pessoa segurando um pedaço de giz para escrever. A arte já dá a “dica” ao leitor que se trata de uma obra voltada à formação de professores, mas não àquela formação por vezes tratada com um certo glamour. Esta tem como foco o docente trabalhador, igual a tantos outros, que viu suas atribuições sendo ampliadas e diversificadas ao longo do tempo, enquanto as condições de trabalho, quase sempre, continuaram as mesmas: quadro- negro, giz e muito esforço pessoal. Este é um livro que trata da formação do professor real, daquele que encontramos em cada rincão do país e, dentre as muitas nuances que esta formação pode nos apresentar, a autora lança uma luz especial na intensificação do trabalho docente, que é analisada ao longo da obra, com destaques para as repercussões no cotidiano do trabalho Resenhas Educativas 2 em sala de aula e nas relações sociais como um todo. Para não deixar dúvidas, Macedo (p. 20) assim o define: Embora na nomenclatura atual o termo professor esteja, aos poucos, sendo substituído por designações qualificantes como “professor reflexivo”, “professor eficaz”, “professor profissional do conhecimento”, preferimos defender a ideia de professor como trabalhador da educação. Ou seja, com uma formação específica, para fugir da possibilidade de ser confundido com o “profissional” defendido na atual “sociedade do conhecimento” e que está caracterizado nos vários documentos dos organismos internacionais. Por isso, neste trabalho, optamos por trabalhar com o termo professor por compreendermos que se trata de um profissional com a formação mínima exigida pela Lei 9.394/96 para o exercício da profissão. Uma vez esclarecido qual o conceito de professor adotado neste livro, vale ponderar que a autora não se furta de fazer referência ao professor como educador, partindo da compreensão de que esse conceito traz, de forma subjacente, uma responsabilidade ética e política, que faz com que ele reflita sobre a sua prática pedagógica, impedindo-o de cair na armadilha da neutralidade. Dialogando com Gramsci, Frigotto e Antunes, afirma que “a formação de professores em nível superior deve ser aquela que possibilite a emancipação humana com base na omnilateralidade” (p. 21). A formação de professores e o trabalho docente são discutidos a partir de análises das políticas públicas brasileiras e das influências externas que direcionaram/direcionam essas políticas. O livro tem sua origem em uma densa pesquisa de doutorado que contribuiu para forjar uma pesquisadora altamente meticulosa em suas observações. No entanto, o texto é de leitura acessível a professores e estudantes de graduação e pós-graduação em educação. A autora, Jussara Marques de Macedo, é professora adjunta da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde compõe o quadro docente do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Políticas Públicas e Direitos Humanos. É também de sua autoria um livro publicado em 2008, que tem por título A formação do pedagogo em tempos neoliberais (Macedo, 2008), que vem servindo de referência em diversos cursos de pedagogia no país. A experiência na área de educação com ênfase em Política Educacional garantiu a qualidade da investigação que deu origem à obra em análise. Sua proposta, conforme a própria autora define na introdução do livro, foi: [...] investigar o lugar da formação de professores na reforma universitária do governo de Luiz Inácio Lula da Silva tomando como referência o processo de mundialização do capital que, no caso brasileiro, materializou-se no projeto neoliberal iniciado nos governos de Fernando Colllor e Mello (1990-1992) e Itamar Franco (1993- 1994), tendo sua consolidação nos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso (FHC) (1995-1998 e 1999- 2002) e nos governos de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2006 e 2007- 2010). (p. 17). A pesquisa girou em torno de uma indagação, que foi revisitada algumas vezes pela autora: Em que medida a contrarreforma universitária contemporânea garante ou não a formação de professores pautada pela indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, indispensável à preparação desses profissionais, para capacitá-los a atuar num mundo marcado pelo avanço da tecnologia e pela exclusão? A busca da resposta à esta questão contribuiu para girar a roda da investigação. Resenha do Formação para o trabalho docente 3 Apesar de ser um tema difícil e complexo, a autora conseguiu desenvolvê-lo com muita competência técnica, percorrendo uma considerável fundamentação teórica e adotando uma linguagem que flui de forma fácil, possibilitando a total compreensão das ideias por ela apresentadas. Para fundamentar suas análises, Macedo pavimenta o caminho, tratando das transformações do mundo do trabalho, tomando o método do materialismo histórico dialético como diretriz para a construção do conhecimento acerca das políticas de formação do professor em nível superior. Analisa a crise do capital, a reestruturação produtiva e a necessidade de uma nova ordem mundial, apontando as principais mudanças na sociedade capitalista a partir do final do século XX. Em seguida, apresenta as teses do fim da centralidade do trabalho e a valorização da sociedade da informação, para, na sequência, refletir a respeito da relação entre educação e trabalho na perspectiva da reestruturação produtiva. Dando prosseguimento à sua linha argumentativa, a autora apresenta as agências e acordos internacionais, tecendo reflexões a respeito das interferências destas agências na regulamentação da formação docente em nível superior. Dá destaque especial ao Banco Mundial, à UNESCO, à OCDE e ao Processo de Bolonha apontando, em cada um, as propostas políticas de qualificação para o trabalho docente. Enumera os principais elementos que têm sido disseminados pelos organismos internacionais com vistas à propagação do “pensamento único”, tais como: universalização e profissionalização; formação prática; formação continuada; educação a distância e pedagogia das competências. Quando trata do Processo de Bolonha, pauta-se em um documento da Comissão Europeia, elaborado em 2007 e na Política de Formação de Professores em Portugal. Em várias partes do livro encontramos comparações entre a formação docente no Brasil e em Portugal. Este estudo comparativo enriquece sobremaneira as análises. Na sequência, Macedo revela como os organismos internacionais do capital imprimiram suas marcas na educação brasileira, a partir dos anos de 1990, nos governos de Fernando Henrique Cardoso (FHC), e, mais especificamente, nos dois governos de Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo a autora, a educação superior brasileira se “materializou como uma educação subalterna” dando origem à “uma política de formação do professor também subalterna, que, mesmo em nível superior, representa uma formação precária e limitada aos interesses do capital internacional” (p. 169). Com base nas reflexões inicias, onde apresenta suas principais categorias de análise, a autora se dedica ao cerne da sua investigação: o lugar da formação do professor no governo Lula, passando detalhadamente pelos dois governos de FHC. Macedo norteia suas análises, primeiramente, pelas marcas do neoliberalismo da terceira via, fundamentada principalmente em Guiddens, para depois tratar da formação do professor em nível superior. Em seguida, estabelece um diálogo muito profícuo com Florestan Fernandes, esclarecendo ao leitor a visão de contrarrevolução e contrarreforma, para clarificar o conceito de contrarreforma universitária que integra o texto. O diálogo com Fernandes continua nas reflexões da autora ao longo de grande parte do livro, com alguns enfoques especiais, dentre os quais se destacam: a dependência do Brasil em relação à enganadora “ajuda estrangeira”; a preservação e intensificação de privilégios de poucos e exclusão da maioria da população; e o padrão compósito de hegemonia burguesa, que possibilita à burguesia atingir “seu objetivo por solidificar seu poder exacerbando a dominação externa, a desigualdade social e o subdesenvolvimento” (p. 173). Resenhas Educativas 4 Nos estudos referentes à década de 1990, em especial nos governos de Fernando Henrique Cardoso, vamos encontrar nesta obra uma análise primorosa do Plano Bresser- Pereira, que forjou os fundamentos para a Reforma Gerencial do Estado, no ano de 1995. Embora iniciada em 1995, a contrarreforma capitaneada pelo então Ministro da Administração Pública e Reforma do Estado teve continuidade nos governos Lula da Silva, daí a importância dada pela autora em estudá-la profundamente. Ao adentrar no século XXI, a autora apresenta, com detalhes, os dois governos de Lula da Silva, dede a proposta governamental do Partido dos Trabalhadores, até cada uma das políticas voltadas à formação docente. Nesta parte dialoga, dentre outros, com Ricardo Antunes, Carlos Roberto Jamil Cury, James Petras, Deise Mancebo, Acássia Kuenzer e Kátia Lima. Suas conclusões são que, ao longo dos governos de Lula da Silva, [...] as políticas de formação do professor em nível superior acompanham, declaradamente, as exigências dos organismos internacionais. Contudo fazem parte de uma estruturada mudança que houve, a partir da reforma do Estado brasileiro que tomou forma, no ano de 1995, quando o Brasil optou pelo modelo gerencial de administração do Estado a pretexto de ter condições de pôr em prática o neoliberalismo da Terceira Via (p. 283) A autora complementa, afirmando que as mudanças que acompanharam a contrarreforma universitária possibilitaram o desmonte da universidade pública e da formação de professores. Evidencia que as políticas públicas que ocasionaram mudanças na educação brasileira nos últimos anos tiveram por objetivo submeter as políticas de formação e qualificação docente à ideia de qualidade referenciada na lógica mercantil, destacando o discurso de garantia da empregabilidade. Menciona os mecanismos de subordinação e conformação dos trabalhadores da educação e do sistema educacional do país, e propõe uma educação que vá além das exigências do capital, dialogando, dentre outros, com Mèszáros, Florestan Fernandes e Gramsci. Na última parte do livro a autora defende a formação para a emancipação humana, com vistas à construção de outra sociabilidade, dialogando com Tonet. Fundamentada neste autor, defende a ressignificação da palavra cidadania que é utilizada indiscriminadamente tanto pela classe trabalhadora quanto pela classe dominante e pelos organismos internacionais, “que acabam desaguando em um ponto comum: a formação para a cidadania como mais um paradigma educacional da contemporaneidade” (p. 270). Segundo Tonet há uma evidente distinção ente cidadania e emancipação humana. Para ele, cidadania não é sinônimo de liberdade efetiva e plena do indivíduo, já emancipação humana, sim. Acompanhar essa discussão nas páginas finais do livro é, sem dúvida, muito elucidativo, e contribui sobremaneira para entender a proposta de formação defendida por Macedo. Esta resenha se desenvolveu de forma a demonstrar ao leitor que a formação para o trabalho docente encontra no texto de Macedo dados históricos e políticos muito importantes para quaisquer análises a respeito da temática. Todos os pesquisadores que se debruçam sobre o assunto em tela, não podem deixar de consultar esta obra que investiga com seriedade e precisão as principais políticas públicas de diferentes governos brasileiros da contemporaneidade voltadas para a área de educação. Além disso, cada um dos capítulos deste livro, com sua vasta fundamentação teórica, fornece elementos para os docentes de graduação (licenciaturas) e pós-graduação desenvolverem as disciplinas nos melhores Resenha do Formação para o trabalho docente 5 Programas de Graduação e Pós-graduação em Educação do país. Este excelente livro é, portanto, leitura obrigatória para os profissionais de educação que acreditam, como autora do livro, que uma outra formação é possível: a formação para o trabalho docente na perspectiva da emancipação humana. Referencias Macedo, J. M de. (2008). A formação do pedagogo em tempos neoliberais: A experiência da UESB. Vitória da Conquista - BA: Edições UESB. Acerca da Autora da Resenha Celia Regina Otranto Departamento de Teoria e Planejamento de Ensino, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro http://orcid.org/0000-0001-8914-5705 https://celiaotranto.wixsite.com/ufrrj Education Review/Reseñas Educativas/Resenhas Educativas is supported by the Scholarly Communications Group at the Mary Lou Fulton Teachers College, Arizona State University. Copyright is retained by the first or sole author, who grants right of first publication to the Education Review. 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