Resenha do Da Universidade à Commoditycidade Waismann, M. (2019, dezembro 11). Resenha do Da universidade à commoditycidade por L. Bianchetti & V. Sguissardi. Resenhas Educativas, 26. http://dx.doi.org/10.14507/er.v26.2725 11 dezembro 2019 ISSN 1094-5296 Bianchetti, L., & Sguissardi, V. (2016). Da universidade à commoditycidade – ou de como e quando, se a educação/formação é sacrificada no altar do mercado, o futuro da universidade se situaria em algum lugar do passado. Cidade, Estado: Editora. Pp. 95 ISBN: 978-8575914953 Resenhado por Moisés Waismann Universidade La Salle Brasil A escolha deste livro para resenhar está relacionada à pesquisa realizada no meu doutorado, em que desenvolvi o tema das políticas públicas para o ensino superior. A intenção era de conhecer melhor a forma como são pensadas e formuladas as políticas educacionais para este nível de ensino, bem como analisar a repercussão das mesmas. Depois que enviei a solicitação para resenhar e recebi uma cópia do texto é que percebi a empreitada que me aguardava. Resenhar um texto de Lucídio Bianchetti e Valdemar Sguissardi, além de ser um grande desafio, constituiu-se em uma responsabilidade, visto que os autores são pesquisadores com larga experiência nos assuntos abordados e referências para muitos estudos que tematizam o Ensino Superior. O texto está organizado em três partes, além do prefácio, da introdução, da conclusão, das referências e dos mini curriculum sobre os autores. Inicialmente, uma abordagem acerca da “Universidade, tutelas e políticas Resenhas Educativas 2 educacionais: da instituição medieval à moderna. Alguns antecedentes da situação atual”. Na sequência, a discussão “Brasil: de Instituições de Ensino Superior tuteladas – passando por experiências fundantes – à regulação”, sendo esta dividida em três partes, a que trata de “Três experiências fundantes (e fugazes!) de universidade ou ‘desvios’ de trajetória” a segunda discute “A aposta na pós-graduação stricto sensu para a renovação ou reconstrução da universidade brasileira e para a melhoria da/na formação de professores” e a terceira analisa o “Parecer 977/65: A instucionalização da pós-graduação stricto sensu no Brasil e a formação de professores”. A terceira sessão é a Commoditycidade, que é dividida em dois momentos, a que fala sobre “Um caso exemplar e representativo: a expansão da Educação Superior(?) em Santa Catarina” e, em seguida, “[...] ida de “empresas de educação” à Bolsa de Valoresoligopolização no educação superior e criação do INSAES: casos emblemáticos” que é subdividida em “Oligopolização da educação superior” e “Regulação”. Só o prefácio “Da Universidade à Commoditycidade: mudança ou metamorfose na educação superior?” de Almerindo Janela Afonso que leciona e pesquisa na Universidade do Minho (UM) em Portugal, já é uma bela apresentação da obra do que vai ser lido na obra de noventa e cinco páginas. O texto é de leitura fluida e clara, ao mesmo tempo em que os autores vão tramando e tecendo o caminho por onde o leitor é conduzido, eles propõem paradas para reflexão que são distribuídas por meio de perguntas ao longo do texto. Neste sentido, observa-se que os autores são generosos em apresentar outras leituras, assim como conceitos e fontes para a pesquisa. A bibliografia utilizada, além de fazer referência às obras dos dois autores, também apresenta outros autores importantes para o campo de estudos do Ensino Superior. As notas de roda pé esclarecem o leitor, e, em paralelo, aprofundam e indicam temas correlacionados ao assunto principal do livro. Um exemplo está na página 64, pois a nota 56 explica e esclarece e exemplifica como funciona a transferência e/ou compra de uma Instituição de Ensino Superior por um grupo educacional. Os capítulos iniciam sempre com um excerto, ao longo do texto, descobre-se que se trata de um trailer do que será lido, ao mesmo tempo em que se percebe a amplitude do tema tratado, na medida em que vejo a existência de outros autores que tratam do assunto e assim vou ampliando o leque de pesquisa. Recorrer à alegoria dos Arúspices, sacerdotes que “faziam prognósticos consultando as entranhas das vítimas oferecidas em sacrifícios”, utilizada por Nietzsche, como figura de linguajem, nos mostra a necessidade de construir uma memória/reflexão do passado, para que se possa compreender a atualidade e criar cenários possíveis para o devir. Essa é uma grande contribuição metodológica que os autores apresentam ao longo do texto. A meu ver, é impossível chegar ao conceito e/ou neologismo de commoditycidade sem compreender a origem e procedência do modelo de Universidade. É o que fazem os autores, quando situam no tempo-espaço a constituição destas Instituições de Ensino chamadas Universidades na Europa. Nesta perspectiva, discutem a tutela dos Reis e do Clero, as disputas entre essas duas forças e depois com Estado, por meio de ações de Políticas Públicas sempre de forma conflituosa e como chega aqui, em terras brasileiras, com a vinda da corte portuguesa fugida de Portugal. O livro, segundo os próprios autores, é para ser lido como se estivesse em um debate, desta forma, acredito que a novidade está no capitulo 3, por mostrar como as Instituições de Ensino Superior, mais especificamente as Universitárias, se transformam em unidades de negócios. Resenha do Da universidade à commoditycidade 3 Existem algumas sutilezas no texto que, se não lermos com atenção, passam desapercebidas, como a descrita na página 25, a “instituição social metamorfosear-se-á em organização social”. Em seguida, os autores remetem a um texto de Marilena Chauí para melhor compreender a “distância entre Instituição e Organização quando se faz referência à Universidade”. Também utilizam Magalhães (2006, p. 31), apontam que “as universidades, e as instituições do ensino superior em geral, são cada vez mais claramente administradas e geridas como organizações, e cada vez menos como instituições educativas na sua especificidade”. E, a partir deste ponto, os autores demostram como as Universidades foram se transformando em unidades de negócios que visam produzir lucros para serem distribuídos e ou repartidos com os acionistas, estes aglutinados e representados por fundos de ações internacionais, providos de recursos financeiros pelo Banco Mundial. Ora, o que se percebe é uma radicalização do modelo introduzido pelos Organismos Internacionais a partir dos anos de 1960, temporalidade que exigiu das Universidades a produção/formação de técnicos qualificados para o novo ciclo econômico que se tinha como projeto para o Brasil. Observa-se que, nos primeiros anos, as Instituições de Ensino Superior almejavam a formação da força de trabalho, mas, com o passar do tempo, essas instituições se transformaram em organizações responsáveis pela formação de recursos humanos, pesquisa, extensão, e também por produzir lucros. É esta a clareza que o texto aborda. Mostra como algumas Universidades particulares brasileiras pertencem aos fundos de investimentos nacionais (se é que existem) e internacionais, com a propriedade atomizada, e financiados pelo Banco Mundial. Ou seja, em outras palavras, a Universidade que foi criada para formar primeiro os quadros das instituições religiosas e depois do Estado, no início do século XXI, assume uma feição diferenciada, uma nova responsabilidade que seria a de preparar mão de obra qualificada e abundante para operar os pacotes tecnológicos produzidos fora do país, e, ao mesmo tempo, abrir ao mercado, tornando assim o Sistema de Educação Superior um novo mercado para a acumulação do capital e a produção de lucros. Desta forma, fica a sugestão para os leitores-pesquisadores, explicitarem a articulação apresentada do atual estágio de desenvolvimento do capitalismo, ou seja, a financeirização do capital. Onde, por que e de que forma a direção dada pela acumulação financeira feita pelos fundos de pensão afetam e afetarão a produção do conhecimento e dos seres humano? O livro “Da Universidade à Commoditycidade” é uma importante contribuição para compreender os desafios postos neste início de século XXI. Assim, acredito que a disputa não é mais entre a Universidade pública e a Universidade privada, no meu entendimento, tratam-se de disputas entre a Universidade que contempla uma visão humanista e uma organização que objetiva a produção de lucros. Acerca do Autor da Resenha Moisés Waismann Pós-Doutorando em Educação no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Doutor em Educação no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (2013). Mestre em Agronegócios pelo Programa de Pós- Graduação em Agronegócios da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2002). Graduado em Ciências Econômicas pela UFRGS (1990). Professor-pesquisador e Coordenador da Linha de Pesquisa em Memória e Gestão Cultural do Programa de Pós-Graduação em Memória Social e Bens Resenhas Educativas 4 Culturais da Universidade La Salle. Vice-Líder do Grupo de Pesquisa de Estratégias Regionais. Membro do Conselho Municipal de Cultura de Canoas e do Comitê Municipal de Economia Criativa de Porto Alegre. Coordenador do Observatório Unilasalle: Trabalho, Gestão e Politicas Públicas. Investiga assuntos relacionados ao trabalho e educação, ao mercado de trabalho, a economia da educação, ao ensino superior, as políticas públicas, as politicas públicas para educação, a economia da cultura, a cultura, a economia criativa e a moda. moises.waismann@gmail.com http://orcid.org/0000-0003-3164-790X Education Review/Reseñas Educativas/Resenhas Educativas is supported by the Scholarly Communications Group at the Mary Lou Fulton Teachers College, Arizona State University. Copyright is retained by the first or sole author, who grants right of first publication to the Education Review. 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