Resenha do Conversidade: Diálogo entre universidade e movimentos sociais Lopes, I. P. (2019, dezembro 11). Resenha do Conversidade: Diálogo entre universidade e movimentos sociais por R. M. Fleuri. Resenhas Educativas, 26. http://dx.doi.org/10.14507/er.v26.2371 11 dezembro 2019 ISSN 1094-5296 Fleuri, R. M. (2019). Conversidade: Diálogo entre universidade e movimentos sociais. João Pessoa: Editora do CCTA. 145 p. ISBN: 978-85-9559-149-3 Resenhado por Isabela Pereira Lopes Universidade Federal do Rio de Janeiro Brasil O livro Conversidade: Diálogo entre universidade e movimentos sociais traz a proposta central de discutir diferentes experiências onde a articulação, integração e diálogo entre a universidade e os movimentos sociais. A obra foi dividida em três estudos onde o conceito central “conversidade” é apresentado através de experiências de extensão onde o diálogo universidade/movimentos sociais é explorado, ou seja, setores sociais excluídos, para com eles revelar estratégias de enfrentamento e resistência às desigualdades sociais. Mas podemos verificar também alguns elementos pré e pós-textuais que corroboram com as ideias e o conceito central do livro. Na apresentação do livro, o autor já procura explicar com detalhes o conceito de conversidade, já anuncia no título a ideia central que o texto procura defender: “A Conversidade como conceito central na orientação do fazer universitário e sua construção compartilhada com os grupos populares, as práticas comunitárias e os movimentos sociais”. Nele Pedro José Santos Carneiro Cruz, coordenador do Projeto de Resenhas Educativas 2 Pesquisa e Extensão Vivências de Extensão em Educação Popular e Saúde no SUS (VEPOP), grupo que suscita os elementos abordados no livro, apresenta um quadro atual de nossa sociedade marcada pelo contexto de desigualdades sociais e econômicas, alienação da cidadania e opressão. A proposta que a “conversidade” procura superar é justamente todos esses aspectos negativos, através de iniciativas e realizações educacionais que ser contrapõe aos modelos que dominam a lógica universitária, mas que simultaneamente não negam a importância do papel dessa instituição. O conceito de “conversidade” foi fundamentado e sistematizado pelo próprio autor do livro, e que na obra é apresentada como práxis acadêmica, através da qual busca compreender categorias teóricas no campo da Extensão Popular. Para Fleuri, o termo nasce no conhecimento desenvolvido entre o diálogo crítico entre universidade e movimentos sociais. O autor se fundamenta em Boaventura de Sousa Santos (2004) para sustentar suas ideias, são o que Boaventura chama de conhecimento universitário e pluriversitário. Em poucas palavras, o modelo universitário é aquele tradicional que estamos habituados a pensar quando nos remetemos à universidade, enfim, seu papel científico. Mas esse modelo sofre uma crise, desse modo, Santos vai afirmar que a superação desse processo pode ser conquistada com a perspectiva pluriversitária, ou seja, voltada para a pluralidade de diferentes camadas da sociedade. No primeiro estudo, “Conversidade: diálogo entre universidade e movimentos sociais”, já procura anunciar o tom do texto, apresentando três experiências em diferentes universidades brasileiras, no que tange a interação com movimentos sociais em projetos de educação popular. A análise desse estudo que fez surgir o conhecimento “conversitário”. Nele são apresentadas as crises da universidade, se baseando nos estudos de Boaventura de Sousa Santos: de hegemonia, que resulta das contradições entre as funções tradicionais da universidade; de legitimidade, onde está em jogo a hierarquização dos saberes especializados com a restrição do acesso versus pressão social para democratizar o espaço; e a institucional, onde entra em choque o papel da universidade. Será ainda Boaventura que vai inspirar os estudos desse grupo, no que tange o conhecimento universitário e o conhecimento pluriversitário. Assim, os saberes populares que geralmente são entendidos como não-científicos, passam a ter reconhecimento e são estudados para a construção de um novo modelo de conhecimento. Para Fleuri (2019), a perspectiva “conversitária” do conhecimento, constuída a partir de articulação entre a universidade e os movimentos sociais, evidencia novas implicações epistemológicas. A primeira é a própria compreensão do que é ciência. A segunda se refere aos sujeitos que estão implicados na elaboração de novos conhecimentos. Já a terceira diz respeito à reconfiguração da educação e da investigação científica como práxis social. Um conceito usado para ampliar o debate sobre essas novas abordagens epistemológicas será a “ecologia de saberes” (SANTOS, 2004), que procura se configurar numa reorientação solidária de saberes entre as sociedades e as universidades. Uma quarta implicação seria a de que existe um caráter relacional da elaboração dos saberes. , ou seja, ele não surge de uma narrativa única, mas de um confronto de entre-lugares (Bhabha, 1998), ou seja, espaço de criação do novo. “Conversidade: educação popular em saúde”, o segundo estudo apresentado, levanta diversos depoimentos de profissionais da saúde, através de uma perspectiva epistemológica dialógica e problematizadora, experiências nas atividades em extensão universitária em educação popular no campo da saúde. Esse estudo aponta a extensão, como um importante espaço para a experimentação dos conhecimentos Resenha do Conversidade: Diálogo entre universidade e movimentos sociais 3 “conversitários” e como lugar onde é possível horizontalizar saberes através de uma mudança pedagógica interdisciplinar. O terceiro estudo, “Conversidade: aprender com os povos originários”, é um ensaio que apresenta um projeto de cooperação científica que visa estreitar o diálogo entre a universidade e movimentos sociais em articulação com povos originários. Para isso é necessário compreender de que forma esses povos interpelam a universidade, bem como sua expectativa quando o fazem. Esse estudo vai usar como principal norteador, o conceito epistemológico do Sul global (Santos, 1995), onde estão os grupos excluídos, que possuem conhecimentos desconhecidos por outros grupos. Ouvir esses grupos e compreender seus saberes demanda uma atitude ética, social, política e epistêmico, no intuito de descolonizar saberes e povos. Como elemento pós-textual, temos um epílogo, que procura fazer um resgate dos três capítulos apresentados no livro e finaliza afirmando que será mediante a um dialogo conversitário critico com povos originários e movimentos sociais, que poderemos nos encontrar com saberes ancestrais. Assim, o que esse livro apresenta para os leitores é o desafio conversitário fundamental que consiste em reconhecer processos educativos “capazes de respeitar as diferenças e de integrá-las em uma unidade que não as anule, mas que ativem o potencial criativo e vital de conexão entre diferentes agentes e entre seus respectivos contextos”. (Fleuri, 2019). Referências Bhabha, H. (1998). O local da cultura. Belo Horizonte: UFMG. Santos, B. S. (1995). Toward a new common sense: Law, science and politics in the paradigmatic transition. New York: Routledge. Santos, B. A. (2004). A Universidade no Século XXI: Para uma reforma democrática e emancipatória da Universidade. São Paulo: Cortez. Acerca da Autora da Resenha Isabela Pereira Lopes Escola de Música, Universidade Federal do Rio de Janeiro isabelaufrj@gmail.com Resenhas Educativas 4 Education Review/Reseñas Educativas/Resenhas Educativas is supported by the Scholarly Communications Group at the Mary Lou Fulton Teachers College, Arizona State University. Copyright is retained by the first or sole author, who grants right of first publication to the Education Review. Readers are free to copy, display, and distribute this article, as long as the work is attributed to the author(s) and Education Review, it is distributed for non-commercial purposes only, and no alteration or transformation is made in the work. More details of this Creative Commons license are available at http://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/3.0/. 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