Resenha do Pesquisa em Rede: Diálogos de formação em contextos coletivos de conhecimento Menezes, E. A. de O. (2020, fevereiro 26). Resenha do Pesquisa em rede: Diálogos de formação em contextos coletivos de conhecimento por Farias et al. Resenhas Educativas, 27. http://dx.doi.org/10.14507/er.v27.2745 26 de fevereiro 2020 ISSN 1094-5296 Farias, I. M. S. de, Jardilino, J. R. L., Silvestres, M. A., & Araújo, R. M. B. de. (2018). Pesquisa em rede: Diálogos de formação em contextos coletivos de conhecimento. Fortaleza: EdUECE. Pp. 173 ISBN: 978-85-7826-577-9 Resenhado por Eunice Andrade de Oliveira Menezes Universidade Federal do Cariri-UFCA Brasil Desde seu prefácio, o livro divulga a produção de um grupo de pesquisadores que conduziu uma investigação em rede tendo como âncora o programa Observatório da Educação- OBEDUC, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior-CAPES, cujos movimentos resultaram em um estudo sobre as contribuições do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência-PIBID para professores da Educação Básica, ativos ou egressos do Programa, iniciativa essa permitida a partir do edital nº 049/2014 desse Observatório. A autoria da obra em questão, articulada por um exercício dialógico e colaborativo, parte da iniciativa de quatro professores do magistério superior com expertise em pesquisa, domínio esse fortalecido na participação ativa em grupos de pesquisa, sobretudo pelo encargo de liderar os mesmos. São pesquisadores com produção acadêmica robusta, exercendo a docência tanto na graduação e em programas de pós-graduação stricto sensu, sem esquecer de mencionar sua Resenhas Educativas 2 imersão em atividades extensionistas e outras vivências formativas, como as voltadas à cultura, que inegavelmente contribuíram/contribuem para assegurar a estes as condições de coordenar e mediar a pesquisa em rede traduzida nessa obra. Nas 129 páginas do livro, onde a narrativa da pesquisa em tela se desenrola, concatena-se uma teia discursiva que situa o leitor acerca da experiência particular desse Observatório, pormenorizando detalhes importantes para se entender todas as etapas do mencionado estudo. Tal percurso formativo na e para a pesquisa teve como esteio os núcleos que emergiram de três instituições de ensino superior brasileiras: Universidade Estadual do Ceará-UECE (Fortaleza), Universidade Federal de Ouro Preto-UFOP (Mariana) e Universidade Federal de São Paulo (Guarulhos). De fato, a obra se organiza por meio de enunciações discursivas que dão ênfase à relevância da pesquisa na formação docente, diálogo esse tematizado, mormente, por meio das categorias centrais da pesquisa, quais sejam, desenvolvimento profissional docente e a inovação pedagógica, categorias estas definidas a priori pelos integrantes da Rede. A relevância da obra para a educação e o campo da formação docente confirma-se, portanto, em virtude do objeto central da investigação descrita focalizar o desenvolvimento profissional de professores, entendendo que a formação desses atores sociais não pode se afastar da atividade da pesquisa. E isso em uma perspectiva que sobrepuja o que se costuma circunscrever como possibilidades investigativas dos professores, ou seja, o que se convencionou denominar de pesquisa da própria prática. Assim, a inadiável entrada dos professores da Educação Básica na produção do conhecimento, fazendo-se reconhecer como intelectuais, sujeitos capazes de autoria, concorre para superar a clássica divisão entre pesquisadores, os que produzem conhecimento na academia, e os consumidores de tais pesquisas, nomeadamente os professores que atuam na escola. Nesse sentido, a pesquisa em rede descrita no livro enrobustece a importância do mesmo para a formação docente pelo fato de contribuir para minimizar as assimetrias entre os teóricos e os praticum, abrindo possibilidades de compatibilização de culturas de investigação contornadas pela perspectiva colaborativa, pela partilha de saberes entre escola e universidade, tomando estas agências formativas como espaços privilegiados de desenvolvimento profissional docente. Em se tratando da pesquisa discutida, esta nasce e desdobra-se sob o título Desenvolvimento Profissional Docente e Inovação Pedagógica: estudo exploratório sobre contribuições do PIBID, investigação esta que foi descrita, em sua essência, nos três capítulos que constituem o escrito. O texto introdutório justifica com clareza os porquês da feitura do livro, sobretudo, a significância de comunicar a pesquisa em rede como princípio de formação no campo educacional. Dessa maneira, o encadeamento descritivo do texto é arranjado como se detalha a seguir. Tendo em vista apresentar as justificativas teórico-metodológicas de uma pesquisa em rede, e, nomeadamente, publicizar a experiência do OBEDUC ambientado nos núcleos UECE, UFOP e UNIFESP, no primeiro capítulo os autores contextualizam o conceito de pesquisa em rede contido no Plano Nacional de Pós-Graduação 2011-2020 e no Plano Nacional de Educação 2014-2020, forças de Lei que surgem com o intento de valorizar a Educação Básica e a formação de professores. Igualmente, nessa seção do texto faz-se breve resgate histórico do surgimento da noção de rede, momento em que se explica Resenha do Pesquisa em Rede 3 que a mesma, nessa perspectiva inicial, apresenta a predefinição de sequência de um fenômeno ou, ainda, de lógica hierarquizada da construção do conhecimento, do mais simples ao mais complexo, concepções essas que se fundam na década de 1960, em decorrência da veemente entrada de tecnologias da informação no mundo do trabalho. Muito embora decorrente dessa ideia, explicam os autores, a construção simbólica da imagem de rede, principalmente a partir da década de 1990, passa a ser adotada como representação do conhecimento, rompendo com o sentido cartesiano por meio do qual surgiu. Isso decorre do advento de uma nova ordem econômica internacional que favorece a informação e o conhecimento por interconectar computadores através de uma rede mundial. Assim, a ideia de rede desemboca no universo da pesquisa ultrapassando a de estabelecimento de relações entre pontos. O fato de contribuir para partilhar significações, considerando o protagonismo dos sujeitos, de forma a produzir relações cada vez mais complexas entre o instituído e o instituinte, confere a esse conceito um contorno mais dialógico, multirreferencial e colaborativo, assim ratificam os autores. Avançando em seus argumentos sobre a relevância de um estudo multicêntrico, os autores expõem uma breve diferenciação do que defendem como pesquisa em rede e o que algumas instâncias de fomento demarcam como redes de pesquisa e redes sociais de pesquisa. A exemplo disso, menciona-se a compreensão do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico-CNPq, que, ao definir o escopo das redes de pesquisa como impulso para produção do conhecimento, entende que estas corroboram para promover a discussão, divulgação e comercialização, se assim for o caso, dos resultados de pesquisa e inovação. Por outro lado, ao demarcar seu entendimento de pesquisa em rede, apreende-se que os autores apresentam uma definição mais reflexiva e formativa acerca da mesma, definindo-a como aquela desenvolvida em torno de um único objeto de investigação, mas que conta com o trabalho e a colaboração de um coletivo formado por pesquisadores de diferentes contextos institucionais [...] Seu objetivo, além de produzir conhecimento científico e inovação, é dedicar-se à formação dos pesquisadores nela envolvidos. (p. 32) Portanto, entende-se que o conceito de pesquisa em rede assumido pelos autores deixa mais nítida sua mudança epistemológica, desde seu advento à atualidade. Nisso percebe-se a ênfase que dão à ideia de coletividade e colaboração, atributos esses que contornam toda a investigação sobre contribuições do PIBID para professores que participaram do Programa. Importa lembrar que na pesquisa referida lançou-se, igualmente, olhar investigativo para captar se o referido Programa também se configura como uma iniciativa inovadora de formação docente. No desenrolar do capítulo os autores discutem a relevância do Plano Nacional de Pós-Graduação-PNPG 2011-2020, responsável por definir diretrizes, estratégias e metas para este nível educacional. É um espaço do texto no qual, ao sublinharem o papel de destaque que o PNPG confere à Educação Básica, ressaltam, mormente, a relação de interdependência da pós-graduação com os demais níveis educacionais. Nesse momento, não se esquivam de relembrar os inúmeros desafios dessa relação (pós- graduação e outros níveis educacionais) no que concerne à garantia de uma formação de pesquisadores com qualidade que concorra para a melhoria permanente da educação Resenhas Educativas 4 nacional e, por decorrência, para maior compromisso com as crescentes e complexas necessidades sociais. Outra política pública que os autores não perdem de vista em seu debate, especialmente quanto ao espaço que esta confere aos professores e sua formação, é o Plano Nacional de Educação -PNE 2014-2024. À ocasião, realizam um interessante inventário sobre as vinte metas contidas nesse Plano, evidenciando as interrelações existentes em sete delas: três conexas ao ensino superior (metas 12, 13 e 14) e quatro associadas à valorização do magistério (15, 16, 17 e 18). No desenrolar das discussões acerca das metas desse Plano, destaca-se duas delas como desafios que permanecem: a 17, que prevê a compatibilização do rendimento médio dos professores das redes públicas de Educação Básica ao dos outros profissionais com escolaridade semelhante, e a meta 18, que tem em vista garantir, no prazo de dois anos, a existência de planos de carreira para os (as) profissionais da Educação Básica e da Educação Superior pública de todos os sistemas de ensino. Ambas são relembradas pelos autores como demandas históricas da profissão docente, momento no qual estes reclamam a conversão dessas necessidades em política de Estado. Faz falta no trecho imediatamente supracitado, por assim entender-se, a convocação dos autores aos docentes, pesquisadores e demais atores sociais para que ocupem as ambiências onde se têm arquitetado o destino do País. Algo semelhante ao que António Nóvoa, em diversos escritos, tem chamado de comunicação pública, e que envolve o princípio de responsabilidade social sobre, na, e por meio da profissão docente. Não obstante a denúncia sobre os contingenciamentos em educação deflagrados pelo então presidente Michel Temer ser manifestada pelos autores em vários momentos do texto, é especialmente no desfecho dessa seção que se percebe maior ênfase à crítica às consequências desastrosas de um projeto neoliberal que ataca a sociedade, especificamente as minorias, e exatamente nas vias que deveriam ser a base de seu desenvolvimento: a educação e a pesquisa. A partir dessa crítica, apropriadamente os autores relembram que os investimentos em pesquisa educacional, nomeadamente na formação inicial e na pós-graduação, são essenciais para o desenvolvimento de um país, ratificando-se, da mesma forma, que essas iniciativas foram abundantes no Governo de Luiz Inácio da Silva, tendo sido perseguidas também no de Dilma Rousseff. Na última seção deste capítulo, os autores ocupam-se do encargo de relatar os objetivos e a metodologia da pesquisa Desenvolvimento Profissional Docente e Inovação Pedagógica: estudo exploratório sobre contribuições do PIBID, ocasião em que defendem o processo subjacente ao próprio ato de pesquisar como qualidade inalienável de uma pesquisa em rede. Esse é um dos momentos em que se defende a proficuidade das estratégias utilizadas na investigação em rede ora descrita, sobretudo, em favor da formação dos pesquisadores e tendo, igualmente, como foco a garantia da qualidade dos resultados da pesquisa, muito embora se reconheça que [...] realizar uma investigação em rede não é tarefa trivial, uma vez que cada contexto possui características específicas geradoras de relações diversas que protagonizam ampla teia de significações. (p. 48) Porém, não obstante tais dificuldades, os autores confirmam o caráter colaborativo e formativo dessa experiência em virtude do respeito às singularidades de cada núcleo que compôs o Observatório (UECE, UFOP, UNIFESP), bem como pela negociação das Resenha do Pesquisa em Rede 5 questões teóricas e metodológicas da pesquisa, e, ainda, pelo suporte tecnológico materializado no uso de skipe, e-mail, whatsapp, ferramentas como as que o Google hospeda e, principalmente, o uso de um software de análise de dados qualitativos, o QSR NVivo10. Estes foram os principais meios que colaboraram na superação da distâncias e assimetrias institucionais durante a investigação. Além desses expedientes, o caráter colaborativo da pesquisa em rede foi enriquecido, os autores afiançam, por meio do que denominam fóruns ou seminários ampliados de discussão sobre o referencial teórico, bem como através de apresentação dos resultados parciais alcançados, que ocorreram por alternância, ano a ano, nas três universidades parceiras. Outra estratégia considerada no escrito como de ainda maior relevância, tendo em vista a formação de pesquisadores, foi a produção dos textos de análise e interpretação dos resultados, elaborados de forma coletiva e colaborativa, de acordo com as categorias definidas a priori (desenvolvimento profissional docente e inovação pedagógica) tendo por base os referenciais teóricos e epistemológicos estudados e sistematizados, momentos esses que contribuíram para superar a solidão que geralmente perpassa a atividade da pesquisa. Ao arrematar o primeiro capítulo, a pertinência de se desenvolver uma pesquisa em rede é mais uma vez confirmada, tendo como esteio as trajetórias decorrentes de experiências como essa, permitindo, conforme os autores, a apropriação singular do processo próprio de produção do conhecimento. Isso porque se ergueu, por meio do diálogo, do confronto de concepções teóricas e metodológicas, da construção e do desenvolvimento de atividades entre os pares, uma complexa teia de significações individuais e coletivas que corroboraram a formação de um pesquisador mais crítico e atento às demandas da coletividade. Em se tratando do segundo capítulo, este organiza-se em seis subseções que detalham o diálogo sobre os contornos metodológicos da pesquisa, assim como ratificam o aporte que orientou a escolha das categorias teóricas da mesma. Assim, na parte introdutória do capítulo os autores prosseguem com a defesa da necessária articulação entre pesquisa e formação docente, premissa da qual não se afastam até a conclusão do escrito. Nas três primeiras subseções deste capítulo discute-se, de forma articulada: I) o programa OBEDUC, ratificando-se a relevância da iniciativa no que concerne ao fomento à produção acadêmica e à formação de recursos humanos em educação, sobretudo em nível de pós-graduação; II) o esquema interpretativo norteador da pesquisa em rede desenvolvida III) os grupos de pesquisa liderados pelos autores, canais esses que possibilitaram, conforme estes, os movimentos iniciais para a idealização e concretização do Observatório em questão. Assim sendo, os Núcleos dessa rede, ou seja, as três IES e os grupos de pesquisa nestas ambientados, são apresentados como base de trabalho para a realização da investigação ora discutida. É um momento do texto em que se empreendeu vasta discussão acerca dos grupos/núcleos do Observatório, quais sejam: Educação, Cultura Escolar e Sociedade- EDUCAS/UECE, Formação e Profissão Docente-FOPROFI/UFOP e Escola Pública, Infâncias e Formação de Professores – GEPEPINFOR/UNIFESP, discorrendo-se sobre seu escopo e acerca das principais pesquisas desenvolvidas pelos mesmos. No decorrer do texto, evidencia-se o interesse dos autores em sublinhar a relevância de uma investigação em rede, tanto para pesquisadores na modalidade sênior, status em que estão os autores da obra, quanto para pesquisadores iniciantes. Assim, em vários trechos teve-se o cuidado de pormenorizar Resenhas Educativas 6 características, benefícios, estratégias e desafios de uma pesquisa com essa especificidade. A propósito, uma das distinções mais atribuídas à pesquisa em rede descrita, é a perspectiva colaborativa que contornou a experiência, qualidade essa que, nos termos dos autores culminou em “diálogo respeitoso dos saberes de cada integrante [...], mas também instigante e provocador de desafios e aprendizados, fecundado por uma formação orientada para um desenvolvimento docente que assume a autonomia profissional como horizonte” (p. 120). É um ponto em que se explica que a expressão trabalho colaborativo não traduz no escrito a metodologia do estudo desenvolvido, mas, sim, foi empregada como uma forma de estruturação e organização das decisões, favorecendo a manifestação e o posicionamento dos pesquisadores, situando- os como autores da investigação. Em subseção deste capítulo, intitulada O plano geral da investigação, elucida-se os contornos operacionais da pesquisa, bem como suas fases, perspectivadas de forma integrada e complementar. Tais fases tratam das seguintes demandas: I) Aprofundamento de estudos e mapeamento de dados secundários sobre o tema, momento em que se compôs a matriz de referência das categorias da pesquisa; II) Produção de dados primários, que compreendeu, desde a demarcação da amostra de professores que colaborariam com a investigação, até a aproximação direta a estes; III) Movimentos de análise e interpretação dos dados, etapa não menos complexa, sobretudo pela pouca experiência em pesquisa de boa parte dos integrante da Rede. No desenrolar da descrição da pesquisa têm-se a preocupação de esclarecer as inquietações acerca da compreensão da temática central da mesma, efervescências essas que resultaram na composição da referida matriz de referência, sendo esta composta de duas categorias: desenvolvimento profissional docente (da qual desprendem-se as seguintes subcategorias: construtos teóricos e pedagógicos, prática profissional, sujeitos da profissão, formação e condições de trabalho) e inovação pedagógica (tendo como subcategorias: práticas inovadoras e experiência no PIBID). Por sua vez, dessas subcategorias decorreram diversos atributos como detalhamento das mesmas, entendidos pelos autores como elementos que permitiriam ao grupo de trabalho captar a expressão empírica do fenômeno em análise, ou seja, as contribuições do PIBID no desenvolvimento profissional docente de professores da Educação Básica que integraram um subprojeto no Programa. Na segunda fase da pesquisa foi engendrada a produção de dados primários, etapa esta que envolveu desde a definição da amostra de professores que colaborariam com a investigação, até a aproximação a esses sujeitos, conforme já se referiu. Os critérios de inclusão dos mesmos envolveram duas condições indispensáveis ao alcance dos objetivos da investigação: atuar ou ter atuado como professor supervisor do PIBID e ter disponibilidade para participar do estudo. Explica-se que o questionário que mediou a definição dos professores supervisores participantes foi constituído de 25 questões, sendo esse instrumental enviado por e-mail. O mesmo estruturou-se em três blocos de perguntas que buscavam captar: a) dados de identificação dos sujeitos; b) sua experiência profissional e participação no PIBID; e c) a situação no PIBID (se egresso, se ativo) quando da aplicação de tal instrumento. Conforme os autores, o questionário possibilitou a composição de um retrato dos professores supervisores, considerando aspectos profissionais e de sua formação. Após expor situações previsíveis no percurso de uma investigação dessa envergadura, como a disparidade de Resenha do Pesquisa em Rede 7 professores supervisores identificados nos três estados (Ceará, Minas Gerais e São Paulo), explica-se a opção por uma amostra com tamanho único para cada núcleo, ou seja, 30 professores, contemplando ativos e egressos no PIBID, resultando, assim, em 90 sujeitos. Enriquecendo a descrição da experiência do Observatório sobre contribuições do PIBID, além das bem colocadas citações de teóricos que fundamentam a discussão, diversos quadros e tabelas são exibidos no texto, o que, entende-se, facilita a compreensão do leitor em vários momentos, corroborando, igualmente, para resgatar informações e dados do estudo, bem como para causar mais leveza ao escrito. Um exemplo desse subsídio é o quadro que detalha o roteiro da entrevista (exibido entre as páginas 93 e 95) técnica aplicada, individualmente, tendo em vista a produção dos dados da investigação. Ainda nessa subseção do texto, descreve- se as estratégias das quais se cercou tendo em vista preparar os pesquisadores, sobretudo os menos experientes, para adentrarem no campo e, principalmente, realizarem com segurança teórica e metodológica os procedimentos necessários ao ato de entrevistar. As questões éticas que contornaram a produção dos dados também são desenvolvidas com minúcia no texto. No que concerne aos desdobramentos da entrevista, explica-se que após a transcrição, por orientação dos coordenadores da investigação, transcorreu uma conferência de fidedignidade das mesmas. Outrossim, realizou-se um processo de transcriação dos textos oriundos dos áudios das entrevistas. Tal procedimento, explicam os autores, consiste em voltar aos textos transcritos e omitir aspectos que são desnecessários à análise dos dados, como vícios de linguagens e repetições de palavras, tendo em vista a não distorção dos depoimentos. Ao pormenorizar a implicação das transcrições e transcriações das entrevistas, fato que resultou em 93 horas,13 minutos e 13 segundos de áudio, com média de duração das entrevistas de uma hora, 13 minutos e 57 segundos, novamente observa-se na obra uma escrita bastante criteriosa e respeitosa para com o leitor, uma vez que todo o encadeamento enunciativo (e dir-se-ia também: elucidativo) do texto fornece detalhes que permitem dimensionar a envergadura do estudo publicizado por meio deste. Diante da extensão do material gerado via coleta dos dados, contam os autores, instaurou-se no grupo um sentimento de perplexidade e, mesmo, de instabilidade acerca de como seria possível envidar esforços para a análise de todo o conteúdo. Desse desafio urge a exigência de suporte tecnológico, necessidade que foi atendida por meio de um software de análise de dados qualitativos, o QSR NVivo, em sua versão 10, ferramenta que, após ter sido apresentada e explorada em oficinas ofertadas nos três núcleos, tornou-se um aliado importante para que se prosseguisse com a etapa da análise dos dados. Na sequência descritiva se expõe pormenores de como o NVivo contribuiu na organização, análise e compartilhamento das informações não estruturadas decorrentes dos dados da pesquisa, situando o leitor acerca de como o grupo se apropriou dessa ferramenta e, igualmente, como progrediu no manuseio da mesma, alargando as habilidades no trato com os diversos recursos do software, como os nós (categorias) e subnós (subcategorias) alocados em árvores de nós, ou seja, estruturas para armazenamento de informações codificadas. Novamente quadros exemplificadores das estratégias metodológicas utilizadas, como o processo de categorização das entrevistas, engrandecem a qualidade do texto, sendo realmente requeridas para ilustrar trechos que envolvem dados qualitativos. Resenhas Educativas 8 Na descrição do percurso metodológico é possível avaliar o quanto os pesquisadores empreenderam esforços para o alcance dos objetivos da investigação, sobretudo, quando tratam de seu empenho no manejo do Nvivo, ferramenta que, antes da pesquisa, era desconhecida pela maioria do grupo. Não obstante as dificuldades, o software permitiu, conforme os autores, tornar mais evidentes o conjunto de enunciações dos professores entrevistados, sendo possível “identificar a racionalidade subjacente aos argumentos expressos pelos professores, suas consignações, queixas e possíveis incongruências e contradições nos depoimentos” (p. 102) acerca de seu desenvolvimento profissional e sua participação no PIBID. Nessa passagem do texto, os autores afirmam que a sistematização das sínteses compreensivas e explicativas decorrentes da análise dos dados ultrapassaram sua função de entendimento pelo fato de que a fala dos professores foi tomada como fonte de conhecimento, uma vez que o material fornecido revelou densidade e legitimidade suficientes. Por fim, como derradeiras palavras do capítulo, afirma-se que o caminho metodológico que contornou a pesquisa em rede ora retomada foi de profícua aprendizagem para todos os envolvidos, não deixando de citar as dúvidas e erros que, contíguos aos acertos, enriqueceram as aprendizagens na e para a pesquisa e formação docente. No último capítulo, o menor em extensão, mas nem por isso econômico em esclarecimentos acerca da experiência descrita, os autores desfecham a discussão com o exercício reflexivo de anunciar os resultados da investigação, momento em que não apenas discutem as considerações dos professores supervisores, profissionais para os quais a pesquisa em rede se voltou, mas, também destacam as contribuições da mesma para a formação de graduandos, mestrandos, doutorandos, professores da Educação Básica e da universidade envolvidos nessa experiência. Nessa seção se prossegue com a proposição da necessária articulação entre formação docente e pesquisa, momento em que há ancoradouro em reconhecidos autores do campo da formação de professores, tanto da esfera nacional como para além desta, acerca das categorias teóricas que nortearam a investigação, sobretudo desenvolvimento profissional docente. A exemplo de tais teóricos, pode-se citar Francisco Imbernón, Carlos Marcelo Garcia, Bernadete Gatti e Marli André, autores estes que têm se engajado inegavelmente na formulação de uma formação e prática docente embasada na pesquisa. Porém, ao rememorar a existência de uma vasta literatura que defende a pesquisa como condição sine qua non para uma prática docente contextualizada e transformadora, os autores advertem que parte considerável de tal literatura toma a pesquisa como investigação da própria prática, do que decorre, em seu entendimento, a sustentação da “dicotomia criada na adjetivação da categoria professor pesquisador – um que “pesquisa” a sua prática (diagnóstico, planejamento e tomadas de decisões para agir “na ação e pós à ação”) e outro que vai realizar [...] pesquisa de cunho científico” (p. 111). Nesse sentido, defende-se a necessidade de se transpor o que se convencionou denominar de investigação da própria prática, ou seja, é mister investir na formação do professor pesquisador tendo como princípio a categoria científica que envolve o cerne da tarefa de investigação. Assim, por meio desta experiência os pesquisadores seniores envolvidos, autores dessa obra, estão convictos de que a formação do professor, inicial e continuada, não pode se fazer alheia à pesquisa, pois os princípios epistemológicos e metodológicos que regem Resenha do Pesquisa em Rede 9 essa prática são centrais na formação de professores, permeando tanto a ação do ensino quanto da aprendizagem Retomando a reflexão sobre a existência de duas categorias de pesquisadores com valores acadêmicos diferenciados: os praticum e os teórico-reflexivos, discussão amparada mormente no pesquisador norte-americano Kenneth Zeichner, realça-se a investigação partilhada por pesquisadores das universidades, doutores, mestrandos e doutorandos, alunos de graduação e também professores da Escola Básica participantes do PIBID, como uma experiência singular de pesquisa em rede. Diante disso, ressalta-se que todos os integrantes do estudo “indicam que o encontro com a pesquisa desde sua inserção numa rede enriqueceu e ampliou suas experiências e práticas nesse campo, tanto teórica quanto empírica, constituindo-se num lócus privilegiado de formação” (p. 113). Como amparo a essa assertiva, encadeia-se alguns depoimentos que justificam, nos termos dos participantes, contribuições diversas para a formação em pesquisa oriundas do Observatório acenado no livro. A exemplo disso, cita-se os seminários ampliados de discussão, o fomento à reflexividade crítica por meio dos debates do referencial teórico, a partilha de saberes com sujeitos distintos, a participação em eventos, o envolvimento nas diferentes fases de uma pesquisa, o desenvolvimento de habilidades de escrita, os registros, métodos e instrumentos ativados na investigação, o manuseio de softwares, dentre outros procedimentos que permitiram compreender e ressignificar o trabalho do pesquisador. Em subseção deste capítulo, intitulada Aproximando a lente: alguns números da pesquisa em rede, detalha-se a quantidade e a distribuição do conjunto de bolsas destinadas pelo Programa Observatório da Educação aos três núcleos do Projeto nº 20667, quais sejam, 52 bolsas: 18 de graduação, 18 para professores da Educação Básica, 9 de mestrado, 4 de doutorado e 3 para as coordenações dos núcleos, recursos esses que foram distribuídas equitativamente. Além desse detalhamento, os autores trazem outras implicações da pesquisa, por exemplo, aprovação em curso de pós- graduação stricto sensu, produção de literatura científica diversa, como artigos, livros e capítulos de livros, além da defesa, em tempo devido, de Trabalhos de Conclusão de Curso- TCC, dissertações de mestrado e teses doutorais. Igualmente são aludidas diversas produções dos coordenadores da pesquisa decorrentes da mesma, com destaque para os altos estratos qualis/CAPES das revistas em que foram publicados os artigos. Contudo, há a preocupação de externar que a produção bibliográfica resultante da pesquisa em rede debatida, não obstante sua expressividade, diz pouco da rica prática colaborativa que se ergueu em contexto coletivo de produção do conhecimento sobre a temática pesquisada no Observatório. Afora as contribuições já acenadas, a análise do questionário emitido aos participantes, tendo em vista seu parecer sobre a experiência na Rede, apontou outros benefícios da iniciativa, como o diálogo e o respeito construído entre os pares e os intercâmbios culturais, ocasionado saberes pessoais e profissionais. Essa é mais uma oportunidade em que os autores realçam a importância do Programa OBEDUC para o desenvolvimento da pesquisa em Educação, com destaque especial para seus investimentos no campo da formação docente. Os financiamentos permitidos pelo OBEDUC também ganham notoriedade no texto, aproveitando-se, além disso, a oportunidade de chamar a atenção dos leitores para a conjuntura política e econômica do País, que tem infligido uma agenda de crescentes restrições aos direitos sociais e ao financiamento na área da educação, cultura, Resenhas Educativas 10 ciência e tecnologia. Por reflexo dos congelamentos os quais o OBEDUC tem sofrido, o que implica em graves riscos para sua continuidade, os autores chegam a anunciar um processo de morte lenta dessa estratégia política, a partir do ano de 2016. Apesar de toda obra fomentar a esperança acerca do reconhecimento dos professores como profissionais capazes de produção e autoria, vê-se que o livro não pôde ser concluído sem a denúncia de constatações amedrontadoras sobre os rumos da pesquisa no País, haja vista que “não há indicativos de retomada dessa linha de fomento à pesquisa, o que significa uma perda na produção de conhecimento no campo educacional e na qualidade da formação – inicial e continuada – dos professores brasileiros” (p. 130). Assim, diante do delicado cenário político nacional no qual a produção dessa obra se deu, as palavras finais soam como um reclame aos necessários diálogos de formação que precisam ser assumidos, não apenas por pesquisadores, no sentido estrito que o termo assume. Enfim, o livro apela às políticas públicas acerca de quão atravessada pela pesquisa a formação docente precisa ser. E para isso, não se pode sonegar os necessários investimentos nesse campo educacional. Logo, convoca, principalmente professores, mas também os demais atores sociais, a estarem atentos e atuantes nas discussões que definem os rumos da educação, agindo em presença pública. Assim, pode-se granjear forças e visibilidade necessárias à luta pelo merecido reconhecimento da profissão docente. Acerca da Autora da Resenha Eunice Andrade de Oliveira Menezes Universidade Federal do Cariri-UFCA http://lattes.cnpq.br/9007868559583902 Professora adjunta da Universidade Federal do Cariri. Curso de Licenciatura Interdisplinar. http://lattes.cnpq.br/9007868559583902 Resenha do Pesquisa em Rede 11 Education Review/Reseñas Educativas/Resenhas Educativas is supported by the Scholarly Communications Group at the Mary Lou Fulton Teachers College, Arizona State University. Copyright is retained by the first or sole author, who grants right of first publication to the Education Review. 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