Resenha do livro Educação, culturas e hackers: escritos e reflexões SOUZA, Fernando Roberto Amorim; CAMAS, Nuria Pons Vilardell. (2021, 18 de agosto). Resenha do livro PRETTO, N. D. L. Educação, culturas e hackers: escritos e reflexões. Salvador, BA: Edufba, 2017. Resenhas Educativas, 28. http://dx.doi.org/10.14507/er.v28.3211 18 de agosto 2021 ISSN 1094-5296 PRETTO, N. D. L. Educação, culturas e hackers: escritos e reflexões. Salvador, BA: Edufba, 2017. 220 p. ISBN: : 978-85-232-1654-2 Resenhado por Fernando Roberto Amorim Souza e Nuria Pons Vilardell Camas Universidade Tecnológica Federal do Paraná e Universidade Federal do Paraná Brasil A obra Educação, culturas e hackers: escritos e reflexões, apresentada pelo Professor Nelson De Luca Pretto, do Departamento de Educação da Universidade Federal da Bahia, publicada pela editora desta Universidade em 2017, é, sem dúvida, um convite a boas reflexões acerca do contexto atual relacionado ao uso das tecnologias digitais, sobretudo na educação. O livro reúne textos acerca da educação, da cultura, da ciência, da universidade e da cibercultura. Criticamente nos convida ao envolvimento na educação. Escrito numa linguagem clara, dialógica e bastante compreensível, a obra se torna acessível tanto a quem é especialista quanto àqueles que buscam entender essas nuances da introdução das tecnologias digitais na cultura e na educação. Não podia ser diferente por se tratar de um pesquisador engajado na luta em defesa da valorização da divulgação científica, falar a língua do povo e trazê-lo para o debate acadêmico. Aliás, o próprio autor, professor titular da UFBA, coloca-se como subversivo aos textos acadêmicos por seu estilo de linguagem jornalística de fácil compreensão do grande público. De fato, isso é observado durante a leitura de todo o livro e o faz ser uma obra curiosa, criativa e, especialmente, instigante. O Professor Nelson De Luca Pretto é um ativista, como ele mesmo se denomina, e sua história contada em fragmentos do próprio livro corrobora tal Education Review/ Reseñas Educativas/Resenhas Educativas 2 afirmação. Além da participação no sindicato de professores, ele atua em diversos conselhos, entre eles a ANPEd1 e o SBPC2, uma demonstração de seu dinamismo em tudo o que faz. No entanto, o grande destaque são as pesquisas no âmbito da Educação, Comunicação e Tecnologias, que trazem inestimável valor para o debate sobre como, o que e por que dos malefícios e benefícios do uso das tecnologias digitais em âmbito da cultura e da educação. Vivemos um momento em que muito se discute o uso das tecnologias digitais, porém pouco compreendidas pelos professores quanto ao seu propósito, o que as reduz a meros instrumentos auxiliares no processo docente. Todavia, não se pode culpabilizar o professor por não conceber com profundidade os atributos das tecnologias digitais, pois isso vem de longa data, desde sua própria formação inicial, em que a intencionalidade do sistema educacional está voltada ao atendimento de um projeto neoliberal, em que se reduzem pessoas e processos a coisas, em que a classificação, o ranqueamento e a produtividade são mais importantes que a emancipação cidadã. A obra, com apenas três anos de lançamento, continua atual e não apenas revela a necessidade de uma atenção especial quanto ao tema, como também faz uma denúncia do descaso e da negligência com relação às tecnologias digitais na escola, propositalmente reduzindo-a ao utilitarismo. O fato de o professor considerar as tecnologias digitais como coisas utilizáveis o faz tomar decisões incompreensíveis, como a proibição de celular na sala de aula, em vez de utilizar essa alta conectividade dos estudantes a seu favor. É preciso fortalecer o professor, como diz o autor, para agir e reagir com sabedoria neste momento de alta e complexa conectividade. São reflexões como essas que o Professor Nelson Pretto traz à tona, ou seja, as tecnologias como meio de aprendizado dos estudantes. As contribuições do prefácio do Professor Rivoltella voltam-se ao processo de comunicação, aliás, inerente ao professor. Salienta-se a comunicação na academia que troca a forma pelo conteúdo, porém a mídia digital oferece um potencial muito grande para o pesquisador comunicar suas ideias sem a padronização exigida pela academia, a fim de atingir, dessa forma, não apenas uma maior quantidade de pessoas, mas também uma voz que facilmente se pode entender. Como dissemos anteriormente, esse é o estilo do livro, que expressa toda a liberdade literária de um pesquisador criativo. Interessante essa observação do Professor Rivoltella, primeiro, pelo fato de a padronização literária acadêmica estar longe da comunicação científica, entretanto os trabalhos científicos, para serem aceitos por revistas científicas, precisam seguir uma rígida formatação, criando um fosso entre o apresentar a Ciência e a divulgação científica, o que amarra o pesquisador; segundo, o que estamos fazendo aqui é encaixotando as ideias do Professor Nelson Pretto ao estilo acadêmico, expressadas sem o dogmatismo da academia, num belíssimo livro, um exemplo de divulgação científica que pode chegar a todos. Contudo, é importante registrar que não se deve deixar de lado a língua culta, mas “promover um diálogo permanente entre autores, conhecimento, leis, percepção de mundo, saberes e culturas locais, de 1 Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação. 2 Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Resenha do livro Educação, culturas e hackers 3 maneira constante e permanente” (p. 58). Eis mais uma reflexão da obra: como fazer divulgação científica pelos meios digitais. O livro em questão, criativamente, oferece a resposta. A obra está dividida em dois momentos: escritos e reflexões. Poderíamos dizer que os escritos, uma análise crítico-reflexiva sobre arte e conhecimento livre e aberto, propicia-nos uma base teórica importante à construção de uma inteligibilidade a respeito de educação, cultura (o autor se refere no plural: educações e culturas) e processos colaborativos, ancorados no conceito de hackers, o que, a nosso ver, constitui a espinha dorsal conceitual da obra, portanto há necessidade de compreender essa terminologia. Essa parte do livro se divide em três blocos, assim chamados pelo autor: Educação, Culturas e Hackers; Arte e Tecnologia: Uma Chave para outras Educações; e Cinema, TV e Educação: Limites, Possibilidades e Perspectivas. Na outra parte, denominada de Reflexões, é como um reverberar da experiência viva do autor, já que são recortes de suas publicações em diversas mídias, porém nos remete a reflexões que impactarão a nossa prática docente ao estabelecer uma relação com a primeira parte do livro e a praxiologia. Por serem publicações realizadas ao longo dos últimos três a quatro anos, o autor sublinha seu risco com o autoplágio. No entanto, essa questão nos leva e nos faz pensar a remixagem dos recursos midiáticos, presentes e atualmente incentivados como Recursos Educacionais Abertos (REA). Nesse sentido, até que ponto reutilizar um material é considerado plágio? Outrossim, convida-nos a pensar não apenas sobre o conceito, mas acerca da prática dos preceitos do Creative Commons com relação aos direitos autorais. O autor aborda essa questão da remixagem de conteúdos e informações como uma forma de criativamente produzir saberes. Em suma, podemos dizer que a segunda parte do livro são confabulações do que o autor fez de concreto por meio de suas pesquisas e como professor, ou seja, na primeira parte do livro é como se o autor dissesse: é assim meu ponto de vista e que deve ser conforme as pesquisas (teoria); e, na segunda parte: é assim que faço. Juntando as duas partes, o autor revela a coerência no que diz e faz. O autor liga o conceito de hackers à essência do trabalho colaborativo, do trabalho solidário, da economia solidária e do envolvimento nas tarefas, motivado pela paixão. Esses são elementos constitutivos de um mundo solidário e sustentável. Parece uma referência ao trabalho docente, mas ele não faz esse paralelo, e a partir da filosofia hackers denomina cultura hacker, educação hacker e escola hacker. Para descrever o conceito dessa terminologia bem importante no livro, ele inicia falando da história do computador como resultado do trabalho hacker colaborativo, inicialmente para trocar informações ponto a ponto, evoluindo para uma meta rede, balizado nos princípios da não modificação da infraestrutura existente; da neutralidade dos bits, ou seja, o que se recebe se entrega sem cobrar nada por isso. Esse aspecto trazido pelo autor nos remete a reflexões sobre os objetivos da criação dos artefatos tecnológicos, enquanto o computador em sua gênese teve a construção motivada por uma demanda específica, a troca de informações. Entretanto, atualmente, testemunhamos a criação desses artefatos sem a devida necessidade aparente e a partir deles surge Education Review/ Reseñas Educativas/Resenhas Educativas 4 nossa necessidade, o que reforça o consumismo e o que se chama de neofilia, ou seja, somos atraídos pela hipernovidade, mesmo sem julgar sua intencionalidade. Traduzindo isso para a sala de aula, somos atraídos pela adoção de plataformas educacionais gratuitas; ingenuamente consideramos de fato serem gratuitas, sem levar em conta que, por exemplo, em troca dessa gratuidade, entregamos dados pessoais para que essas empresas possam monitorar nossos passos no ciberespaço. Por essa razão, o autor, de forma bem efusiva, fala da necessidade de criação e utilização dos softwares livres (diferente dos softwares gratuitos) e de conhecer o código de ética dos hackers, bem como dedicar um subtítulo para dizer que internet e computador não são ferramentas. Ressalta que não se devem considerar hackers sinônimos de criminosos cibernéticos, pois estes são denominados crackers. O espírito hacker tem muito a ensinar à sociedade, em especial, aos profissionais da educação, guiado por uma ética e pela finalidade dos softwares livres, relacionado à partilha e à colaboração, por meio de iniciativas bem-sucedidas, como Linux, Wikipédia, REA, etc. Ele diz vislumbrar na cultura hacker “um novo campo de luta para socialização dos bens culturais e científicos” (p. 41). Para fundamentar seu raciocínio, traz o exemplo de Bernard Shaw (p. 38): “se você tiver uma maçã e eu tiver uma maçã, e trocarmos a maçã, então cada um continuará com uma maçã. Mas se você tiver uma ideia e eu tiver uma ideia, e trocarmos essa ideia, então cada um de nós terá duas ideias”. A partir dessa premissa, colocamo-nos a pensar como as tecnologias digitais podem potencializar uma educação colaborativa. Vivemos numa cultura profundamente transformada pelas tecnologias digitais e, nesse sentido, o autor nos conclama a articular a educação a essa cultura emergente, em que não há mais espaço para uma educação de produção fordista, uma educação na qual o professor é o detentor do conhecimento e o transmite do seu jeito, seguindo uma lógica de distribuição de informação, no modelo que ele chama de educação broadcasting. Nossos estudantes estão em descompasso com a escola, estão sempre conectados em rede e já não sabem distinguir tempo e espaço. É uma geração também chamada pelo autor de “geração alt + tab” (p. 53), guiada pelo multiprocessamento, ou seja, à medida que escuta uma aula, olha múltiplos ecrãs, áudios ou outros objetos na rede. Como maneira de superar esse deficiente modelo educacional, sugere a constituição de um ecossistema pedagógico de aprendizagem e produção de culturas e conhecimentos, o que implica a reestruturação curricular, a formação do professor, a infraestrutura escolar, entre outros. Enfatiza, ainda, a necessidade de optar pelos softwares livres como forma de se desvencilhar das imposições do mercado que em nada contribuem para as mudanças no sistema educacional, pelo contrário, sua lógica positivista é pela padronização de tudo, inclusive do saber e assim manter uma estrutura hegemônica dominante oposta ao estímulo para o desenvolvimento dos processos criativos. Nesse sentido, destaca que as tecnologias digitais podem contribuir para o fortalecimento dos processos criativos em oposição às reproduções e tornar cada professor e cada estudante em efetivos “criadores de conteúdos, de cultura, de ciência, de tecnologia e de artefatos criativos” (p. 57), a fim de transformar a escola em espaço de criação. Daí associar a escola à educação hacker que propicie Resenha do livro Educação, culturas e hackers 5 a produção de conhecimento à maneira hacker e promova uma educação aberta e voltada àqueles que querem aprender e estimular os estudantes mais como produtores do que consumidores, com vistas a exercer o protagonismo de si e de culturas. Importante destacar que o autor, a todo momento, adverte e nos leva a entender que internet, ciberespaço e tecnologias, inclusive as digitais, não são ferramentas. É preciso compreendê-las, especialmente aquelas da informação e comunicação, para além da dimensão instrumental. Essa reflexão é importante para inserir a educação como espaço coletivo e um campo fértil à produção e à circulação de conhecimento, saberes e cultura de maneira colaborativa. Caminhando para o final da obra, deixa claro que “não queremos internet nas escolas, e sim as escolas na internet” (p. 78) como balizadora de sua prática. É uma reverberação do que traçou ao longo de todo o livro, isto é, a internet como uma tecnologia que tem a possibilidade de potencializar a inclusão e de democratização da informação, e a escola, a partir das conexões em si e em rede, favorece as produções, sem se preocupar com o mero consumo de informações. É preciso pensar as tecnologias como fomentadoras da produção de culturas, de conhecimento e de ciência. Salienta que isso deve partir da escola sem esperar a demanda de cima para baixo, mas de baixo para cima, fazendo dela um ambiente de convivência dialógica e mediadora dos suportes, culturas, conhecimentos e saberes que emanam da sociedade. As lições do livro são indispensáveis para uma compreensão epistemológica sobre as tecnologias digitais e sua influência para o processo educativo. Neste momento, em que o uso das tecnologias ganha força e importância na sociedade, a escola precisa se apropriar desse debate, (re)pensar o currículo e a formação docente, inserindo-as no contexto educacional para além do utilitarismo. Somente assim a escola poderá dar a resposta que a sociedade atual dela espera e restabelecer a criatividade dos professores e estudantes, condição tomada pela preocupação na transmissão de conteúdos e pelo ranqueamento das avaliações. As tecnologias, sobretudo as digitais, pelos recursos da informação e comunicação, potencializam a capacidade criativa de produzir cultura, ressignificando o ensino e a aprendizagem. Dar asas aos sonhos de nossos estudantes como produtores, e não consumidores de informações, é sem dúvida trazê-los de volta para um processo educacional prazeroso, em que ele passa a ser o protagonista, aprendendo, assim, a ser a parte importante do processo, a ter responsabilidade, sociabilidade e colaboração, além de ser mais humano na sociedade que carece mais de humanistas do que meros operários. Acerca do(a) Autor(a) da Resenha Fernando Roberto Amorim Souza, doutorando do Programa de Pós- Graduação em Formação Científica, Educacional e Tecnológica da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Education Review/ Reseñas Educativas/Resenhas Educativas 6 Nuria Pons Vilardell Camas, Doutora em Educação pela PUC-SP, professora e pesquisadora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Programa de Pós-Graduação em Educação: Teoria e Prática de Ensino e professora e pesquisadora no Programa de Pós-Graduação em Formação Científica, Educacional e Tecnológica da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Este artigo pode ser copiado, exibido, distribuido e adaptado, desde que o(s) autor(es) e Education Review/Resenhas Educativas sejam creditados e a autoría original atribuídos, as alterações sejam identificadas e a mesma licença CC se aplique à obra derivada. Mais detalhes sobre a licença Creative Commons podem ser encontrados em https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/. Education Review/ Resenhas Educativas é publicado pela Mary Lou Fulton Teachers College, Arizona State University. 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