RESENHA Bastidores da Pesquisa em Instituições Educativas (Orgs) Mónica de la Fare, Laura Rovelli, Marcelo Oliveira da Silva e Daniela Atairo. Porto Alegre: EDIPUCRS, Universidade Nacional de la Plata, 2020. 422 p. Resenhado por Andréa Ribeiro Gonçalves. O livro Bastidores da Pesquisa em Instituições Educativas, publicado em 2020, pela editora EDIPUCRS e Universidade Nacional de la Plata, organizado por Mónica de la Fare, Laura Rovelli, Marcelo Oliveira da Silva e Daniela Atairo, reúne produções de pesquisadores que atuam na formação em pesquisa educacional na graduação e na pós-graduação strictu sensu de universidades argentinas e brasileiras, resultado de um convênio entre os Programas de Pós-Graduação em Educação da Universidade Nacional de La Plata (UNLP) e da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), a qual foi formalizada por convênio, com a participação conjunta no Programa Binacional de Centros Associados de Pós-graduação Brasil-Argentina (CAPG-BA), com fomento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), do Brasil, e da Secretaria de Políticas Universitárias do Ministério Nacional de Educação da Argentina (SPU). A apresentação e a introdução da obra estão expostas em línguas portuguesa e espanhola, no entanto, o conjunto de 13 artigos foram publicados na língua nacional de cada autor(a). A introdução se configura em um capítulo, onde as autoras e os autores informam que se propõem a pensar “o relacionamento com o ofício de pesquisar no campo educacional, através dos mergulhos reflexivos” que realizaram “nos diferentes capítulos que se referem a perspectivas teórico-metodológicas, abordagens e usos de técnicas a partir de suas experiências enquanto pesquisadores” (p. 18), dividida em três partes: 1ª) A institucionalização e o desenvolvimento da pesquisa educacional na Argentina e no Brasil, que trata as semelhanças e diferenças da institucionalização da pesquisa educacional no Brasil e na Argentina, destacando que, nos dois países, essa institucionalização ocorreu após metade do século XX, estimulada pela ação do Estado e seguindo modelos estrangeiros; 2ª) Os estudos sobre a pesquisa educacional na Argentina e no Brasil, apresenta um panorama do campo educacional no Brasil e na Argentina nas últimas cinco décadas, diferenciando as noções de pesquisa educacional enquanto uma área, uma delimitação, de pesquisa em educação remetendo à investigação enquanto uma prática que pode utilizar as perspectivas de outras áreas do conhecimento para alcançar seus objetivos; 3ª) Este livro, expõe que a sequência dos capítulos foi determinada a partir de “critérios de agrupamento orientados pelos temas (...) considerados relevantes para dar visibilidade aos bastidores da pesquisa educacional” (p. 36), o que oportunizou identificar linhas e tendências de análise do campo. Ao final, apresenta as três seções que formam a obra. A primeira seção intitulada “PERSPECTIVAS TEÓRICO-METODOLÓGICAS, ABORDAGENS E ARTESANATO INTELECTUAL NA PESQUISA EDUCACIONAL”, traz um conjunto de seis capítulos resultado do trabalho artesanal intelectual que se desenvolvem a partir das reflexões sobre o oficio de pesquisar, oportunizando ao leitor visualizar outros caminhos possíveis ao “analisar as perspectivas teórico-metodológicas, abordagens e aspectos que possibilitam pensar o trabalho de pesquisa sobre instituições educativas” (p. 36). O primeiro capítulo, Perspectivas Teórico-Metodológicas, Abordagens e Artesanato Intelectual na Pesquisa Educacional, de autoria de Myriam Southwell, expõe que a Teoria da Análise Política do Discurso, sob a perspectiva de Ernesto Laclau y Chantall Mouffe, contribui para a compreensão da teoria da Hegemonia Discursiva em relação a construção do currículo, da profissionalização docente, das identidades sociais e como se institui na prática social, seus reflexos e reproduções no campo educacional. Complementa apresentando a Teoria da Desconstrução derrideana, como alternativa ao determinismo e às construções discursivas hegemônicas dos sistemas educativos nacionais, ressaltando ser produtivo revisar certas sedimentações no campo educacional, destacando que os atores que dão vida a esse campo, estão subordinados a determinações. Assim, aponta para a necessidade de se descontruir as estruturas dos discursos hegemônicos deterministas, a partir de uma abordagem analítica e metodológica que possa instituir condições de possibilidades para a construção de realidades cotidianas. O segundo capítulo, A Hermenêutica Objetiva e a Relação da Teoria Crítica com as Pesquisas Qualitativas com bases Empíricas em Educação, de autoria de Pedro Savi Neto, apresenta a Hermenêutica Objetiva, sob a perspectiva de Ulrich Oevermann, uma abordagem de pesquisa sociológica qualitativa, que auxilia as análises das realidades sociais das pesquisas em educação. O autor salienta, que o tema é complexo, indica referências para estudos mais aprofundados, bem como contextualiza, histórica e teoricamente, a Teoria Crítica a partir da necessidade de se “pensar e colocar em prática uma abordagem de pesquisa dotada de mecanismos capazes de identificar e tratar teoricamente a injustiça” (p. 108). Desta maneira, refere-se às pesquisas e aos pesquisadores que utilizam a metodologia no Brasil. Levando em consideração que, a Hermenêutica Objetiva (conceituar) é uma abordagem de pesquisa atual e pertinente. O terceiro capítulo, Los Estudios Sobre Trayetorias en el Campo de la Investigación Educativa: Discusiones Necesarias, de autoria de Mónica de la Fare, analisa o conceito de trajetória a partir da perspectiva estruturalista construtivista de Pierre Bourdieu”. Problematiza o uso e apropriações frequentes da concepção de trajetória na pesquisa em educação. Discorre que, as pesquisas sobre trajetórias escolares e acadêmicas se configuram em uma área emergente no campo da pesquisa em educação. Desta forma, contextualiza analiticamente o ensaio de Pierre Bourdieu que critica o uso de histórias de vida e biografias na investigação social. A autora, apresenta a definição de trajetória a partir da construção teórica do autor, amparada na relação com os conceitos de campo, habitus, capital e estratégia. Por fim, aprofunda conceitos que se relacionam com a teoria. O quarto capítulo, Utilización del Estudio de Casos en las Investigaciones Recientes Sobre Políticas Universitarias en la Argentina, de autoria de Daniela atairo e Laura Rovelli, reflete sobre o uso do Estudo de Caso como uma possibilidade metodológica na pesquisa em educação, partindo das pesquisas sobre a análise de políticas universitárias na Argentina, bem como descrevem as tipologias e o processo de coleta de dados que envolvem o método. Apontam que os aportes teóricos de Robert Yin e Robert Stake são os usados com mais frequência, neste tipo de investigação. Atentam sobre o cuidado que se deve ter em não confundir o contexto com o caso em estudo, observando a rigorosidade que o processo de delimitação do objeto de análise e do contexto exigem. Pois, o êxito tanto do levantamento dos dados empíricos quanto das interpretações decorrentes das investigações, está subordinado a perspectiva teórica adotada pelo pesquisador. O quinto capítulo, Historizar los Datos. La Investigación Cuantitativa Como Productora de Realidad Social y Educativa, de autoria de Martín Legarralde e Aldana Ponce de León, discorre sobre o caráter construído dos dados em pesquisas quantitativas. Apresenta como os dados estatísticos, que tiveram origem institucional no sistema educacional, evoluíram para dados empíricos em investigações quantitativas, configurando-se em reflexos das realidades sociais e educacionais. Indicando que, o processo de construção das categorias nas pesquisas quantitativas, a partir do questionamento de como estas são produzidas, constituem “en un terreno fértil de investigación” (p. 193). Expõe que, no campo da pesquisa em educação, não é comum investigações de base quantitativa como único procedimento metodológico para se tratar os dados. Ademais, frisa que na última década, na Argentina, ocorreu a popularização da noção de trajetória no âmbito do sistema educativo para se descrever os reflexos da política educativa. O sexto capítulo, O Artesanato da Pesquisa: Provocações Para Pensar a Constituição de Marcadores de Rigor Atrelados à Pesquisa em Educação, de autoria Gabriela do Amaral Peruffo, Lilian Alves Schmitt e Marcos Villela Pereira, apresentam uma reflexão sobre a importância dos marcadores de rigor, quais sejam: efeitos da implicação do pesquisador, ponderação e estratégias de diálogo e negociação, determinados e definidos pelos autores, a partir da análise de dois trabalhos de suas autorias, que foram produzidos no âmbito do PPGEdu PUCRS na linha Teorias e Culturas em Educação. As duas pesquisas tem em comum o aspecto de mestiçagem na área da Educação, em virtude da circulação dos conhecimentos, práticas e políticas originárias nos múltiplos campos disciplinares. Ao final afirmam que, o que os provocou “na reflexão sobre a artesania em pesquisa é a ideia de envolvimento, comum a todos os marcadores aqui ensaiados” (p. 235). A segunda seção intitulada “A ETNOGRAFIA E SUAS POSSIBILIDADES NA PESQUISA EM INSTITUIÇÕES EDUCACIONAIS”, composta por cinco capítulos, que expõe diversas dimensões e possibilidades de uso da metodologia etnográfica na pesquisa em instituições educacionais, através das reflexões e problemáticas decorrentes dos bastidores das investigações que deram origem aos textos. O sétimo capítulo, Etnografia e Educação: Notas Sobre uma Experiência Etnográfica em uma Escola Guarani, de autoria de Fernando Carreira, dispõe sobre as consequências que a pesquisa etnográfica pode trazer aos estudos em educação, a partir das reflexões em torno de seu trabalho de campo junto a escola e a comunidade indígena dos Mbya Guarani. Explora como a etnografia passa da antropologia para a prática da pesquisa em educação. Atenta a “possibilidade de expansão dos horizontes teóricos e metodológicos dos estudos em educação” (p. 241) através da bricolagem intelectual. Aponta a relevância e o impacto que a participação ativa da comunidade objeto de estudo traz ao processo de adaptação e mudança que ocorre na prática da pesquisa etnográfica, e também o aprendizado da trajetória de campo e da prática etnográfica enquanto um exercício efetivo de composição com e não sobre a comunidade estudada. O oitavo capítulo, Implicações e Desafios na Pesquisa em Educação com Escolas, Famílias e Comunidades, de autoria de Simone Santos de Albuquerque e Crisliane Boito, aponta que a intenção é, a partir das reflexões teóricas e metodológicas, “olhar para além da escola, para as relações que se constituem na/da escola a partir das famílias e da comunidade onde ela está inserida” (p. 266). A partir de três experiências de pesquisas com escolas, famílias e comunidades, desenvolvidas junto a um grupo de estudos e um de pesquisa. Afirma que, a pesquisa é processual e contém: início (entrada em campo), meio (cotidiano da pesquisa) e fim (devolutiva de pesquisa). Necessitando de antecipação por meio do planejamento e organização prévios. Ressaltando que a autorização da presença do pesquisador em espaços da pesquisa, está para além da assinatura do Termo de Consentimento. O nono capítulo, As Crianças Como Sujeitos de Pesquisa: Desafios e Perspectivas no Campo da Educação, de autoria de Rodrigo Saballa de Carvalho e Bianca Salazar Guizzo, a partir das experiências profissionais e acadêmicas no âmbito da Educação Infantil, afirmam o aumento das pesquisas sobre as infâncias e as crianças em espaços escolares, opondo-se aos estudos com visão adultocêntrica sobre o tema. Relatam que, para a realização da pesquisa de caráter qualitativo, tiveram que usar múltiplos métodos “com o objetivo de assegurar uma compreensão em profundidade das questões que nos propusemos a investigar” (p. 294). Neste sentido, destacam os aspectos éticos que, obrigatoriamente, devem ser adotados para o desenvolvimento das investigações, em especial no que tange as resoluções no âmbito do Conselho Nacional de Saúde (CNS), que regram sobre a questão. O décimo capítulo, Reflexões Sobre as Escolhas Metodológicas em uma Tese Sobre Educação Infantil Inclusiva, de autoria de Marcelo Oliveira da Silva, relata sobre o caminho que percorreu para a conclusão de sua tese de doutorado. Destaca que o desenho da pesquisa, sendo Estudo de Caso Etnográfico, proporcionou-lhe usar as observações e registros do diário de aula, como também, as entrevistas e os documentos da escola e de outras fontes, como dados da investigação, que buscava entender a educação inclusiva de crianças, em uma escola da rede privada da cidade de Porto Alegre (RS). Identificando o diário de aula, como primeiro instrumento metodológico, e como este evoluiu, no decorrer da pesquisa, em uma fonte de dados. Afirma que oscilou quanto ao uso rigoroso do método, deixando que o campo ditasse o caminho, e que o projeto é peça fundamental para a realização da pesquisa. O décimo primeiro capítulo, O Que é “Intervenção do Etnógrafo”?, de autoria de Barbara Dennis, tem como objetivo “contribuir para a literatura, por meio de uma discussão de questões relacionadas à ética na pesquisa de campo que ficam muitas vezes relegadas a escolhas intuitivas e que não aparecem nos relatos das investigações” (p. 340). Ela problematiza a questão sobre o etnógrafo intervir no campo. Através da análise de uma pesquisa com base etnográfica crítica, que revelou os modos de intervenção, os elementos associados à tomada de decisão sobre intervir ou não, e os princípios éticos, que justificaram a prática da intervenção. Ao descrever os bastidores da pesquisa e como ocorreu a prática de intervenção que conceitua “como uma mudança na vida dos participantes com envolvimento colaborativo” (p. 342). E a última seção denominada “O USO DE FONTES NA PESQUISA SOBRE A HISTÓRIA DAS INSTITUIÇÕES EDUCACIONAIS E A ANÁLISE DOCUMENTAL”, composta por dois capítulos, que descrevem e problematizam a complexidade do uso de fontes de documentos institucionais na produção da empiria na pesquisa em educação. O décimo segundo capítulo, Una Milonga Para Mi Pesquisa: de Saltos, Encuentros y Caminos Sinuosos. Experiencias de Investigación Sobre Colegios Nacionales en Argentina en el Siglo XIX, de autoria de Susana Schoo e María Gabriela Mayoni, analisa os caminhos percorridos no desenvolvimento da pesquisa historiográfica sobre os “Colegios Nacionales” argentinos. Destaca a necessidade da vigilância epistemológica sobre as decisões tomadas para concretizarem a pesquisa. E, para a necessidade de revisitar referências para contextualizar e atualizar a história da educação argentina, a partir de novas chaves interpretativas sobre o tema estudado. Ressaltando que uma das maiores dificuldades foi encontrar um referencial continuado sobre o período estudado. Afirmam que o resultado final é fruto de um exaustivo trabalho, na busca de fontes documentais fidedignas, para a produção dos dados. O décimo terceiro capítulo, Consideração Sobre a Análise Documental na Pesquisa em Educação, de autoria de Jonathan Henrique do Amaral, a partir da experiência de elaboração da tese de doutoramento “que tratou da produção de conhecimento no campo de interlocuções entre Educação e Neurociências” (p. 399). O autor, define teoricamente documento e análise documental, apresenta as estratégias que utilizou para a “seleção dos documentos que compuseram seu corpus de análise” e algumas “implicações sobre o processo de pesquisa e produção de conhecimento no campo educacional”. Reflete sobre a diferença entre pesquisa documental e análise de documentos e sobre os cuidados, para não se confundir documentos analisados com referencial teórico. Não pretendendo definir método ou metodologia, propõe-se a elucidar o que se compreende por documento, enquanto material empírico, e análise documental para a pesquisa em educação. Os 13 capítulos, apesar de terem sido escritos por autores com experiências de pesquisas independentes, foram expostos na obra de forma que, cada um apresentasse uma possibilidade metodológica, contemplando a proposta de que “este libro plantea la necesidad de sistematizar experiencias de investigación y de reflexión metodológica que contribuyan al proceso de trasmisión de saberes con diferente grado de formalización” (p. 160). Portanto, os pesquisadores iniciantes ou não, podem apropriarem-se do conteúdo como um instrumento que antecipa questões inerentes ao ofício de pesquisar, assim como aprofundar saberes já conhecidos. Apresentando possibilidades e alternativas teóricas e metodológicas, a partir das reflexões sobre suas próprias experiências, as autoras e os autores esclarecem muitas dúvidas e problemáticas que fazem parte do artesanato da pesquisa. Apontam que é possível, romper com o determinismo da teoria tradicional, exercitando a bricolagem metodológica nas pesquisas em educação, com crítica, rigorosidade e ética científica. O que remete às tendências contemporâneas, com a mescla de métodos e metodologias para se alcançar resultados epistemológicos coerentes com as necessidades sociais. Recomendamos a obra pois, configura-se em importante referencial para se identificar e aproximar de algumas linhas e tendências possíveis para o desenvolvimento do ofício de pesquisar. Demonstrando que, através da união e mestiçagem de abordagens e perspectivas metodológicas podemos desenvolver a pesquisa em educação, com ética e rigorosidade. Porém, não diminuindo a relevância desta obra para a divulgação da ciência. Consideramos que, a obra limitou-se à exposição das perspectivas teórico-metodológicas de origens eurocêntricas, não apresentando alternativas metodológicas decoloniais, como contraponto ao senso comum científico. REFERÊNCIA FARE, Mónica de la, ROVELLI, Laura, SILVA, Marcelo Oliveira da, ATAIRO, Daniela (orgs). Bastidores da Pesquisa em Instituições Educativas. Porto Alegre: EDIPUCRS, Universidade Nacional de la Plata, 2020. 422 p. SOBRE A AUTORA Andréa Ribeiro Gonçalves é doutoranda em educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS). E-mail: andrearigonca@gmail.com