Resenha do Linguagem e escola: Uma perspectiva social Macedo, M. do S. A. (2023, 8 de fevereiro). Resenha do Linguagem e escola: Uma perspectiva social (12 ed.) por M. Soares. Resenhas Educativas, 30. http://dx.doi.org/10.14507/er.v30.3673 8 de fevereiro de 2023 ISSN 1094-5296 Soares, M. (1994). Linguagem e escola: Uma perspectiva social. (12th ed.). Ática. 95 páginas ISBN: 8508026943 Resenhado por Maria do Socorro Alencar Nunes Macedo Universidade Federal de São João del-Rei Brasil É com grande alegria que participo desta sessão homenagem resenhando o livro Linguagem e Escola da querida professora emérita da Universidade Federal de Minas Gerais, Magda Soares, de quem fui aluna no seu último curso na pós-graduação em educação, ao final da década de 1990, quando eu acabara de ingressar no mestrado. Àquela altura, com 29 anos, cinco de experiência como professora alfabetizadora, iniciava meu percurso em busca de um aprofundamento do conhecimento sobre a alfabetização que me possibilitasse compreender o fracasso dos alunos da escola pública, para além de sua dimensão cognitiva. Tive acesso à obra Linguagem e Escola, faísca que acendeu meus olhos para observar as relações entre educação e linguagem, por uma lente sociológica que escancarava uma das razões mais evidentes do fracasso das crianças em processo de alfabetização: o modo como a escola lidava (e lida) com sua linguagem. O livro me fez enxergar que nem todas fracassavam, somente aquelas de perfil semelhante às da Escola Fernando Dias Costa, no coração do Taquaril, comunidade mais vulnerável de Belo Horizonte na qual trabalhei. O subtítulo da obra– uma perspectiva social – evidencia uma educadora preocupada em compreender e apontar respostas – ainda que provisórias – para o fenômeno que retinha 50% das crianças nas turmas de primeira série das escolas públicas nos idos de 1980. Education Review/ Reseñas Educativas/Resenhas Educativas 2 Não tenho mais a primeira edição do livro, marcada pelos riscos a lápis de cada trecho que me instigava a repensar minha prática, repensar a minha própria relação com a linguagem das crianças que alfabetizei ao longo dos anos. Linguagem e Escola, com sua capa vermelha inconfundível, foi a janela mais larga que abri antes de iniciar minha jornada de pesquisadora da alfabetização. Foi sob a perspectiva social apontada por Magda Soares, que comecei a perceber que alfabetizar era muito mais do que dominar as técnicas de um determinado método que eu havia aprendido no curso de Pedagogia. Era necessário mais do que uma teoria psicogenética ou linguística que eu estava aprendendo já nos cursos de formação da Rede Municipal de Belo Horizonte. Linguagem e Escola me fez compreender que a alfabetização era um processo que se dava por meio da relação com a linguagem, relação tensa, conflituosa e contraditória, dadas as diferenças sociolinguísticas entre a minha linguagem e a de meus alunos. Já na introdução, a autora afirma sua posição epistemológica: Esse conflito só pode ser compreendido numa perspectiva social: é a sociologia que, analisando as relações de força materiais e simbólicas determinantes de uma sociedade estratificada em classes, desvenda os pressupostos ideológicos do fracasso das camadas populares na escola, que é, na verdade, um fracasso da escola. (p. 6) Em face desta constatação, posso afirmar que esta janela descortinada, era (e ainda é) uma lente potente para se analisar a educação escolar como um todo na sua relação com a linguagem. Era a própria compreensão de que fora da linguagem não há educação e alfabetização possíveis. Nem humanidade. Desde a primeira edição, em 1986, passaram-se 36 anos. Sim. Linguagem e Escola continua atual. Embora avanços tímidos possam ser vistos, o acesso à escola democratizou-se, a luta maior não é por vagas, mas por qualidade e acolhimento da linguagem de cada criança no processo de alfabetização e de educação. Na escola ainda não se compreendem as diferenças e variações sociolinguísticas, consequentemente, pensar abordagens metodológicas que rompam com o ciclo vicioso do preconceito linguístico, também denunciado pelo sociolinguista Marcos Bagno (1999), ainda é um desafio. A pobreza continua sendo patologizada, a linguagem das camadas populares continua sendo um fenômeno estranho, um desvio, algo a ser combatido por meio do ensino da leitura e da escrita e da educação. O que pode a escola? Problematiza Magda Soares. Que Pedagogia da alfabetização poderia ser formulada para o enfrentamento deste processo severo de exclusão social? De posse de teorias sociolinguísticas e sociológicas de grande referência, produzidas por Labov, Berstein e Bourdieu, Magda Soares desconstrói a ideologia do dom e a ideologia da deficiência cultural que resvalavam numa educação compensatória, guiavam políticas e práticas educativas, teorias que responsabilizavam a criança e sua cultura pelo fracasso escolar. Escreve a autora: “a função da escola, segundo a ideologia do dom, seria, pois, a de adaptar, ajustar os alunos à sociedade, segundo suas aptidões e características individuais” (p. 11). E prossegue na sua crítica sociológica: “É óbvio que tal concepção não resiste à mais elementar análise social, política ou econômica. Nas sociedades capitalistas, a divisão de classes é resultado não das características dos indivíduos, mas da divisão do trabalho” (p. 12). O livro avança na direção de um questionamento profundo à ideologia do déficit cultural, a partir da contribuição decisiva de Labov sobre o mito da deficiência linguística, atribuída à Resenha do Linguagem e Escola 3 linguagem dos falantes das camadas populares. Aliado ao olhar sociológico, a autora introduz o conceito antropológico de cultura para ampliar a compreensão do fenômeno linguístico possibilitando a conclusão de que “diferença não é deficiência”, título do capítulo quatro. Citando Labov, Soares afirma que “o dialeto popular é um sistema perfeitamente estruturado e coerente, nunca, como supõe a teoria da privação verbal, um acúmulo de “erros” causados pela incapacidade de seus falantes usarem o dialeto-padrão” (p. 47). De posse dessas reflexões, a professora alfabetizadora que fui tentava produzir na prática estratégias e ferramentas que possibilitassem construir novo horizonte pedagógico para a alfabetização dos meus alunos do Taquaril. A solução do bidialetalismo funcional, decorrente da teoria de Labov, analisada pela autora, parecia uma alternativa viável em meio à utilização de métodos tradicionais de alfabetização e à divulgação da psicogênese da língua escrita nos programas de formação continuada de professores da Rede Municipal de Belo Horizonte. O apelo da visão social impregnada nas reflexões de Soares fazia todo sentido, eu vivenciava cotidianamente o trabalho com os mais excluídos da educação. Era preciso agir e lançar mão de lentes de maior escala para enxergar mais longe a complexidade do processo de alfabetização. Foi importante perceber que a linguagem das crianças precisava fazer parte do processo educativo, ter consequência nas aulas, para que elas, sentindo-se sujeitos, pudessem se apropriar do capital linguístico escolarmente rentável, tratado no capítulo cinco. No entanto, o diagnóstico de Soares, pelas lentes de Bourdieu, traçou uma linha firme entre a utopia da alfabetizadora e as limitações na sua realização. Nas suas palavras: “a escola leva os alunos pertencentes às camadas populares a reconhecer que existe uma maneira de falar e escrever legítima, diferente daquela que dominam, mas não os leva a conhecer essa maneira de falar e escrever, isto é, a saber produzi-la e consumi-la” (p.63). A luta era justamente para que meus alunos pudessem se apropriar desta ferramenta poderosa: a linguagem da classe dominante. Mas a teoria do capital escolarmente rentável não indicava solução alguma que partisse da escola, instituição vista como impotente, cuja função era reproduzir as desigualdades sociais. Eis a conclusão no capítulo cinco: na escola, diferença é deficiência. Entretanto, no capítulo seis Soares faz uma pergunta alvissareira: Que pode a escola? Leio com a expectativa de que a resposta fosse a de que a escola teria um papel relevante, ainda que não fosse redentor, como supunha a educação compensatória. As reflexões avançam na direção de um balanço a partir das três teorias tratadas ao longo da obra. A teoria das diferenças linguísticas respondia à questão com a proposta do bidialetalismo funcional. A teoria do capital escolarmente rentável, negava a possibilidade de soluções educacionais para o fracasso das camadas populares. E a teoria do déficit linguístico, por outro lado, apostava numa escola redentora cujo papel seria libertar o aluno de sua marginalidade por meio de uma educação compensatória. Entretanto, Linguagem e Escola vai além. Evidencia que a escola é um espaço de contradições, assim como a sociedade. Está na contradição o germe da transformação social. Essas afirmações, ainda no capítulo seis, indicam como a obra pensa uma saída para o fracasso escolar. Argumentando em favor de uma escola transformadora, Magda Soares acende novamente a luz que se apagara com a visão determinista da Education Review/ Reseñas Educativas/Resenhas Educativas 4 teoria do capital linguístico escolarmente rentável. Há uma função social para a escola que escapa à concepção reprodutivista. Afirma a autora: na escola, espelho da sociedade, estão presentes esses mesmos antagonismos e contradições, e por isso é que ela, não podendo ser redentora, também não é impotente: os antagonismos levam-na a ser (...) um espaço de atuação de forças progressistas, isto é, de forças que impelem em direção à transformação social, pela superação das desigualdades sociais. (Soares, 1986, p. 73) Desse modo, a obra conduz o leitor a perceber que a escola não se reduz à dimensão reprodutivista, seu papel amplia-se, provoca fissuras nos antagonismos e determinismos que ignoram a contradição como força motora da transformação social. Esta concepção afina-se claramente com a perspectiva de Paulo Freire sintetizada na célebre assertiva “Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. Em resposta à pergunta O que pode a escola, Soares munida da concepção dialética da sociedade e da educação, aposta na força motriz da contradição que, ao invés de ser evitada/ignorada, deve ser vista como constitutiva do processo educativo, pois as forças conservadoras que agem na escola também abrem brechas para a atuação de forças progressistas e, nesta dialética, se dá a transformação da educação. Nas suas palavras: O que a escola comprometida com a luta contra as desigualdades pode fazer é vitalizar e direcionar adequadamente as forças progressistas nela presentes e garantir às classes populares a aquisição dos conhecimentos e habilidades que as instrumentalizem para a participação no processo de transformação social. (p. 73) O bidialetalismo para a transformação, surge, portanto, como uma possibilidade pedagógica, no sentido de que os efeitos da relação linguagem e classe social possam ser compreendidos não apenas por quem trabalha com o ensino da língua materna, mas por todos os agentes do processo educativo, uma vez que a língua é o principal instrumento de ensino e aprendizagem e a compreensão do papel da linguagem nas relações pedagógicas é imprescindível para que a escola atue no processo de transformação. Soares conclui seu livro na mesma perspectiva com que Freire (2018) fundamentou sua Pedagogia: “Ensinar por meio da língua e, ensinar a língua são tarefas não só técnicas, mas também políticas” (p. 78). Finalizo esta resenha reafirmando que, após 36 anos, a obra Linguagem e Escola continua a ser imprescindível para a educação, para os professores e professoras que defendem e lutam por uma escola progressista, para os que lutam por uma alfabetização inclusiva, de qualidade e socialmente referenciada. Saúdo a professora Magda Soares pela força da sua obra que não se revela apenas em Linguagem e Escola, mas no conjunto dos seus escritos, que reverberam tão profundamente na educação brasileira há tantas décadas. Linguagem e Escola não é apenas um livro, mas um paradigma da educação e da alfabetização. Mudou minha visão da educação, da escola e das crianças com as quais trabalhei na escola pública. Certa estou de que mudou a visão da educação de várias gerações, atuou nas brechas deixadas pela contradição que nos constitui e cumpriu seu papel de ser um marco na produção acadêmica do país. Resenha do Linguagem e Escola 5 O fracasso escolar dos alunos pertencentes às camadas populares mostra que, se vem ocorrendo uma progressiva democratização do acesso à escola, não tem igualmente ocorrido a democratização da escola” (pp. 5-6). Linguagem e Escola é uma poderosa arma na luta pela democratização na e da escola Referencias Freire, P. (2018) Pedagogia do oprimido. Paz e Terra. Soares, M. B. (1986). Linguagem e escola: Uma perspectiva social. (3rd ed.) ÁticaA. Acerca do(a) Autor(a) da Resenha Maria do Socorro Alencar Nunes Professora Titular da Universidade Federal de São João del-rei. Doutora em educação pela UFMG. Pós- doutorado pela University of London, Kings College, (2009), pela Goldsmits University of London (2019), pela UFSCAR, 2019-2020). Líder do grupo de pesquisa Alfabetização, Linguaguem e Colonialidade. 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