Resenha do livro Pesquisando com os Cotidianos: Uma Trajetória em Processo” AMARAL, M. M. do, e VELLOSO, L. (2025, 15 janeiro). Resenha do livro “Pesquisando com os cotidianos: uma trajetória em processo” por Inês Barbosa de Oliveira. Resenha Educativas, 32. https://doi.org/10.14507/er.v32.3967 15 de janeiro de 2025 ISSN 1094-5296 OLIVEIRA, Inês Barbosa de. Pesquisando com os cotidianos: uma trajetória em processo. Petrópolis, RJ: FAPERJ, 2023. Pp. 190 ISBN 978-65-89060-28-4 Resenhado por Mirian Maia do Amaral, Fundação Getulio Vargas–FGV e Luciana Velloso, Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ Brasil Inês Barbosa de Oliveira é pedagoga por formação, doutora em Science Et Théories de L'éducation - Université de Sciences Humaines de Strasbourg e pósdoutora pelo Centro de Ciências Sociais da Universidade de Coimbra. Professora titular aposentada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e professora adjunta do Programa de pós-graduação em Educação da Universidade Estácio de Sá (UNESA). Atua e possui publicações voltadas aos debates em torno da emancipação social democratizante e do direito à educação, com foco nos seguintes temas: novas epistemologias em educação, pesquisa nos/dos/com os cotidianos, currículos praticadospensados e cotidiano escolar; direito à educação e políticas educacionais Na obra intitulada “Pesquisando com os cotidianos: uma trajetória em processo”, a autora apresenta sua experiência com a pesquisa com os cotidianos, trazendo, à cena, mediante a tecitura de narrativas individual e coletiva, uma rede de autores, ideias, reflexões e ações de pesquisa, seja do campo político, epistemológico, metodológico ou pedagógico. Inicialmente, no texto introdutório da obra, a autora anuncia que o livro consiste em uma autonarrativa – uma versão dela própria, entre muitas possíveis, de sua trajetória como ‘docentepesquisadora’, nos diferentes ‘espaçostempos’, nos quais atuou/atua. Nessa perspectiva, ressalta aspectos que considera relevantes do ponto de vista acadêmico, entrelaçando momentos de sua vida profissional àqueles de sua vida pessoal, eventualmente ligada a momentos sociais e políticos, do país e do mundo. Portanto, uma trajetória singular e em processo, que entrelaça individual e coletivo, abordagens e epistemes, o pessoal, o social e o político. Resenha do livro Pesquisando com os cotidianos 2 O livro, dividido em duas partes, é composto por seis capítulos. A PARTE 1 – “A CONSTITUIÇÃO PESSOALPROFISSIONALACADÊMICA: CONHECER O ONTEM, COMPREENDER O HOJE E PROJETAR O AMANHÔ apresenta dois capítulos: “As múltiplas facetas de uma formação em rede”; e “A trajetória das reflexões: pesquisa nos/dos/com os cotidianos, democracia e novas epistemologias”. Em “As múltiplas facetas de uma formação em rede”, a autora ressalta a importância de abordar sua trajetória para que leitor possa dialogar melhor com ela e seus escritos. Para tanto, inspirada em Freire (2011, p. 20) quando afirma que “a compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre o texto e o contexto”, afirma que, antes mesmo de buscar compreender como e com quem o autor do texto dialoga ou pretende dialogar, é preciso situá-lo no contexto de sua vida. Sob essa ótica, ressalta que sua trajetória familiar, afetiva e pessoal, em maior ou menor grau, está presente em sua atuação profissional e acadêmica, não sendo possível dissociar formação/titulação/atuação nos cotidianos e separar suas ações como ‘docentepesquisadora’ de suas produções intelectuais ou de outras atividades profissionais, crenças, valores e convicções pessoais. “A trajetória das reflexões: pesquisa nos/dos/com os cotidianos, democracia e novas epistemologias”, objeto do capítulo que segue, aborda a questão democrática que, para além do âmbito político estrito, revela-se como um eixo central para a construção de uma democracia social, envolvendo políticas públicas e epistemologias que promovem a inclusão, a equidade e a justiça social. A PARTE 2 – “REFLEXÕES ATUAIS: ENREDANDO REFLEXÕES POLÍTICAS, EPISTEMES E TEMÁTICAS: EM BUSCA DE MAIS DEMOCRACIA” relaciona quatro temáticas que articulam - de maneira indissociável, epistemologia metodologias, práticas pedagógicas, currículo e políticas educacionais. Essa conexão é estabelecida, de forma organizada, a partir de produções bibliográficas da própria autora, redes de produções e testemunhos de atividades em pesquisas desenvolvidas nas universidades UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e na UNESA – Universidade Estácio de Sá, além da trajetória geral das pesquisas vivenciadas por docentes. Inês o quanto essas reflexões evidenciam um caráter histórico, de memória, ao mesmo tempo em que se inserem nas vivências contemporâneas. Desse modo, no capítulo que segue, sob o título “Políticaspráticas educacionais cotidianas e o direito à educação: a questão da sustentabilidade social e os cotidianos escolares”, a autora afirma que a escola consiste em um espaço de vivências e práticas que sustentam a formação-cidadã, a construção de significados e a valorização da diversidade nas relações entre docentes e discentes. Compreende a educação não apenas como um direito fundamental, mas, também, como um meio de transformação social. Nessa perspectiva, defende que, para que a educação seja um direito plenamente acessível, é essencial que as políticas educacionais promovam condições para que todos possam participar, desenvolver-se e construir seus conhecimentos. Além disso, o compromisso com a sustentabilidade social implica o desenvolvimento de práticas que visem a equidade, a inclusão e o fortalecimento dos laços comunitários, e que respeitem a pluralidade de realidades e vivências que adentram os muros escolares. Education Review/ Reseñas Educativas/Resenhas Educativas & ANPEd 3 A autora destaca a necessidade e a relevância de se articularem os princípios da dignidade humana, da sustentabilidade e do direito à educação, ao longo de nossas vidas, o que envolve participação democrática, políticas oficiais de educação e práticas educacionais cotidianas, compreendendo-as em seus princípios e significados político-epistemológicos. Dando continuidade, no capítulo intitulado “Desobedecer e desaprender: contra a colonialidade e subalternidade nos cotidianos escolares”, a autora aborda a desobediência como uma característica fundamental da humanidade e como ela se manifesta em diversas práticas cotidianas. O texto explora a ideia de que o cotidiano, comumente descrito como ‘rebelde’, resiste às tentativas de controle e normalização, na medida em que, os seres humanos, por serem reflexivos, são incapazes de obedecer às normas e ordens, sem algum tipo de interferência. Para ela, desaprender valores hegemônicos consiste em um processo necessário para a construção de uma sociedade mais justa e equitativa. Desse modo, essa desobediência é criativa e vital para o desenvolvimento social, educacional e cultural. Mais adiante, em “100 anos de Paulo Freire: amorosidade e esperança na educação para a democracia”, a autora homenageia o centenário de Paulo Freire, ressaltando que, para ele, a amorosidade e a esperança - conceitos que se complementam -, são pilares essenciais na educação para a democracia; um ato de amor, que não foge dos conflitos, mas os encara com a convicção de que o diálogo, a reflexão crítica e a ação transformadora podem gerar mudanças concretas na sociedade. Desse modo, a democracia deve ser compreendida não apenas na perspectiva política, mas na prática cotidiana do diálogo, do respeito e da solidariedade. A amorosidade, nesse sentido, constitui um ato de resistência e luta por justiça social, promovendo relações mais humanizadas e inclusivas. Na prática educativa, acentua a autora, isso significa formar sujeitos críticos e conscientes, capazes de atuar com responsabilidade em prol de uma sociedade mais democrática e igualitária. Finalmente, no capítulo intitulado “Criações curriculares na pandemia: o apagão não ocorreu porque as professoras estavam lá”, a autora afirma que, no período da pandemia, ‘o apagão’ só não ocorreu porque os professores ‘seguraram a barra’ e não esmoreceram. Á medida que enfrentavam condições adversas e imprevistas, fundamentais para a continuidade do processo de ‘aprendizagemensino’, criavam outras estratégias, reinventavam currículos e experienciavam metodologias ainda pouco exploradas. Ressalta, ainda, que não obstante esses esforços, nem todos os estudantes tiveram condições iguais de acesso à tecnologia e nem todos os professores receberam o apoio em relação à infraestrutura e formação. Nesse período pandêmico, enfatiza, a resiliência e o compromisso com a educação foram aspectos centrais para a sustentação do sistema educacional, conforme apresentado nas narrativas de algumas professoras. Em meio à crise, os professores deram continuidade as suas atividades pedagógicas, dando exemplos de resistência e inovação na educação. Com efeito, em “Pesquisando com os cotidianos: uma trajetória em processo”, Inês Barbosa de Oliveira nos brinda com um texto potente que se expressa em uma linguagem textual próxima, que valoriza a experiência subjetiva e as narrativas individuais e coletivas das vivências cotidianas, aberta Resenha do livro Pesquisando com os cotidianos 4 ao diálogo e a múltiplas interpretações. Desse modo, possibilita-nos exercitar o ‘olhar sensível’ sobre os detalhes da vida comum, desvelando significados que, em princípio, podem parecer triviais, mas que ganham profundidade e relevância ao serem explorados, reconhecendo o cotidiano como um ‘espaçotempo’ que acolhe contradições e ambiguidades, repleto de paradoxos. As narrativas aqui apresentadas evidenciam que o processo formativo se dá ao longo de nossas vidas e comporta afetos, pessoas, eventos, história de vida e experiências, no entrelace do pessoal, do acadêmico e do profissional. Com efeito, reafirmamos a relevância e a atualidade dessa obra, que tanto nos ajuda a compreender o quanto os cotidianos podem contribuir para o desenvolvimento de uma pesquisa científica, oportunizando-nos analisar e confrontar ‘fazeressaberes’ e modos de ser no mundo. REFERÊNCIAS FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. São Paulo: Cortez, 2011. OLIVEIRA, Inês Barbosa de. Pesquisando com os cotidianos: uma trajetória em processo. Petrópolis, RJ: FAPERJ, 2023. Este artigo pode ser copiado, exibido, distribuido e adaptado, desde que o(s) autor(es) e Education Review/Reseñas Educativas/Resenhas Educativas sejam creditados e a autoría original atribuídos, as alterações sejam identificadas e a mesma licença CC se aplique à obra derivada. Mais detalhes sobre a licença Creative Commons podem ser encontrados em https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/. Education Review/Reseñas Educativas /Resenhas Educativas é publicado pela Mary Lou Fulton College for Teaching and Learning Innovation, Arizona State University. O conteúdo de 1998-2020 da Education Review/Reseñas Educativas/Resenhas Educativas foi publicado sob uma licença CC diferente: http://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/3.0 Nota: Os pontos de vista ou opiniões apresentadas nas resenhas de livros são exclusivamente do (s) autor (es) e não representam necessariamente os da revista.