Resenha do Dicionário de Pesquisa Narrativa Santos, S. (2025, 6 de agosto). Resenha do Dicionário de pesquisa narrativa por G. Reis, I. B. de Oliveira & P. Baroni (Orgs.). Resenhas Educativas, 32. https://doi.org/10.14507/er.v32.4167 6 de agosto 2025 ISSN 1094-5296 Reis, G., Oliveira, I. B. de, & Baroni, P. (Orgs.). (2022). Dicionário de pesquisa narrativa. Ayvu. Pp. 358 ISBN 978-65-87168-19-7 Resenhado por Sheila Martins dos Santos Universidade do Estado do Rio de Janeiro – FFP/UERJ Brasil O Dicionário de Pesquisa Narrativa é uma obra singular no campo da investigação acadêmica, representando um repositório conceitual e epistemológico para pesquisadores que trabalham ou não com narrativas. Diferente de um dicionário tradicional, que busca a normatização e padronização dos termos de uma língua, esta obra assume um compromisso com a pluralidade e a constante transformação. Organizado em 40 verbetes de (auto)biografia (p. 21) até: tempo e narrativa (p. 349) e contando com a contribuição de 49 autores, o livro permanece aberto a novas colaborações, ajustes e ampliações, refletindo a dinamicidade da própria pesquisa narrativa. Não se trata de um livro a ser lido de capa a capa em uma sequência linear, mas sim de um material de consulta, um instrumento de trabalho essencial para aqueles que investigam através das narrativas. Ele é um guia para quem busca compreender os fundamentos e implicações dessa abordagem investigativa. Os verbetes fornecem pistas, não respostas fechadas, incentivando o leitor a construir seu próprio caminho dentro da pesquisa narrativa. Para aqueles que acreditam que a investigação narrativa é uma forma simplificada de pesquisa, o Dicionário de Pesquisa Narrativa se apresenta como um convite para uma compreensão mais profunda e complexa. Ele evidencia que a verdade não é única ou absoluta; pelo contrário, ela é uma construção através do olhar do pesquisador sobre o campo e os relatos colhidos. A investigação narrativa, longe de ser apenas uma narração ou relato, é uma forma de análise que condensa saberes e permite que diferentes compreensões emergentes sejam postas em evidência. https://doi.org/10.14507/er.v32.4167 Education Review/ Reseñas Educativas/Resenhas Educativas 2 Um dos aspectos centrais da pesquisa narrativa, ressaltado ao longo dos verbetes do dicionário, é o trânsito contínuo entre o singular e o social. A investigação narrativa não nega a subjetividade das experiências individuais, mas tampouco descarta os contextos sociais que as produzem. Essa abordagem abraça a multiplicidade e está sempre em diálogo com diferentes perspectivas, recusando visões engessadas e limitadas do conhecimento. A grande beleza deste dicionário reside em sua capacidade de tornar acessível a complexidade do campo da pesquisa narrativa. Ele não apenas apresenta conceitos- chave, mas também os interliga, permitindo que o leitor compreenda como diferentes ideias e perspectivas teóricas podem dialogar entre si. Ainda que os termos discutidos tenham origens diversas, o livro os organiza de forma que os pesquisadores possam encontrar caminhos para articular suas próprias investigações. Por ser uma obra de produção coletiva, o Dicionário de Pesquisa Narrativa também se configura como um testemunho do crescimento e fortalecimento desse campo de estudo. Ele não só apresenta os conceitos já consolidados, mas também publiciza experiências e debates emergentes entre pesquisadores que se dedicam à investigação narrativa. Tecida a muitas mãos, como uma colcha de retalhos que abriga e aquece, esta escrita coletiva pulsa a vida que emerge da pluralidade de vozes, estilos e gestos de linguagem. Cada traço, cada curva textual, nos convida não apenas a conhecer, mas a mergulhar profundamente em conceitos que são centrais para a pesquisa narrativa — e mais que isso, essenciais para o florescimento da pesquisa em educação em sua inteireza, em sua vastidão viva e sensível. Aqui, não importa o método previamente delimitado, pois o que importa é a escuta atenta, a abertura ao inusitado e o respeito pela experiência. Há, por exemplo, a delicada e potente escrita da professora Thais da Costa Motta Rocha, docente EBTT de Educação Especial no Colégio de Aplicação da UFRJ, que, ao refletir sobre os sentidos da (auto)formação, nos oferece um pensamento que se acende à luz de Pineau (2003), numa escrita que pensa e pulsa, que ensina e acolhe. Sua voz nos lembra que formar-se é um gesto íntimo e ao mesmo tempo coletivo, é deixar-se atravessar pela experiência e pelo outro. Em outra clave, temos a precisão analítica e o rigor encantado da professora Maria Luiza Sussekind, do Programa de Pós-Graduação em Educação, que, ao delinear a noção de glocalidade, desenha um mapa de sentidos entre o local e o planetário, chamando para o diálogo com Ailton Krenak e seus clamores por mundos múltiplos, por narrativas outras que precisam ser vistas, ouvidas, legitimadas. Seu texto é farol que clareia o caminho da desinvisibilização, abrindo espaço para que cada história encontre seu lugar de ressonância. E há também o vigor afetivo e político das palavras da professora Patrícia Baroni, coordenadora da Faculdade de Educação da UFRJ, que, ao partilhar uma narrativa profundamente comovente, nos conduz por entre as trilhas das interseccionalidades. Em diálogo sensível com Grada Kilomba, Baroni nos lembra que escrever é um ato de insurgência, de resistência amorosa—e que reivindicar a Resenha do Dicionário de pesquisa narrativa 3 autoria é gesto contracolonial, é tomar a palavra como quem toma para si o direito de existir plenamente, com dignidade e memória. Assim, cada contribuição reunida nesta obra é como uma estrela num céu bordado de experiências—juntas, elas iluminam o horizonte de uma educação que pensa com o coração e sente com o pensamento. O objetivo dos organizadores foi construir e compartilhar uma síntese da compreensão atual sobre a pesquisa narrativa, partindo das práticas cotidianas daqueles que trabalham há anos nesse campo. Assim, cada verbete funciona como um fragmento desse conhecimento acumulado, possibilitando que o leitor se aproxime das diferentes formas de fazer pesquisa narrativa e compreenda sua relevância para o cenário acadêmico e social. A pesquisa narrativa, conforme apresentada no dicionário, é fundamentada na ideia de que o conhecimento é uma rede tecida pelos praticantes da vida cotidiana. Ou seja, ela valoriza saberes que frequentemente são marginalizados pelas epistemologias tradicionais da modernidade. Nessa perspectiva, as narrativas são mais do que simples relatos; elas são modos de compreender os cotidianos pesquisados e de valorizar as experiências vividas por diferentes sujeitos em diversos espaço-tempos. Como destacam Oliveira (2012) e outros autores citados na obra, a pesquisa narrativa revela experiências epistemológicas formadoras e emancipatórias. Quando essas experiências são narradas e compartilhadas, tornam-se potentes formas de resistência e transformação social. Dessa maneira, o dicionário contribui para consolidar a pesquisa narrativa como um campo crítico e plural, que amplia as possibilidades de compreensão da realidade e fomenta o desenvolvimento de novas formas de investigação. Os verbetes que compõem a obra foram elaborados com o intuito de incorporar a riqueza das diversas pesquisas narrativas em andamento. Ao trazer diferentes modos de pesquisar, o dicionário amplia as possibilidades de teorizacão e favorece o diálogo entre distintas perspectivas acadêmicas. No contexto atual, abraçar a pesquisa narrativa implica uma posição política. Ler, dar-se a ler e ler solidariamente são movimentos interdependentes dentro desse campo. O ato de pesquisar torna-se, assim, um processo horizontalizado, em que a relação entre pesquisador e participantes da pesquisa se constitui em um diálogo recíproco, em vez de uma simples coleta de informações. Vale destacar que a elaboração do Dicionário de Pesquisa Narrativa ocorreu durante um período desafiador: a pandemia de COVID-19. Esse contexto influenciou significativamente a produção da obra, levando os organizadores a refletirem sobre a força e a resiliência das narrativas em momentos de crise. O confinamento, que inicialmente se impunha como um obstáculo, acabou se tornando um estímulo para que os verbetes pudessem circular livremente e contribuir com a comunidade acadêmica. Em suma, o Dicionário de Pesquisa Narrativa é uma obra essencial para pesquisadores, professores e estudantes interessados em compreender e aplicar a investigação narrativa. Sua organização colaborativa e sua abertura às múltiplas Education Review/ Reseñas Educativas/Resenhas Educativas 4 perspectivas fazem dele um instrumento valioso para aqueles que desejam aprofundar seus conhecimentos sobre esse campo de estudo. Ao apresentar a complexidade da pesquisa narrativa de maneira acessível e dialogada, o livro se consolida como uma referência indispensável para todos que acreditam no poder das narrativas como forma de conhecimento e emancipação. Referências Certeau, M. de. (1994). A invenção do cotidiano (The practice of everyday life). University of California Press. Oliveira, I. B. (2012). Pesquisa narrativa: Conceitos e usos em educação. Autêntica. Sobre as Organizadoras: Graça Reis. Doutora e Mestre em Educação pelo ProPED/UERJ. Graduada em Pedagogia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ. Professora do Instituto Multidisciplinar da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de Educação, atuando principalmente nos seguintes temas: currículo, cotidiano escolar, formação de professores, pesquisa (auto)biográfica e pesquisa narrativa. Líder do grupo de pesquisa "Conversas entre professores: alteridades e singularidades" (ConPAS/CAp/UFRJ). Inês Barbosa de Oliveira. Graduada em Pedagogia pela Faculdade de Educação Jacobina (1982), mestre em Administração de Sistemas Educacionais pelo Instituto de Altos Estudos Em Educação da Fundação Getúlio Vargas (1988). Doutora em Sciences Et Théories de L'éducation - Université de Sciences Humaines de Strasbourg (1993). Pós-doutora pelo Centro de Ciências Sociais da Universidade de Coimbra (2002) e titulada HDR (Habilitação para dirigir pesquisas) pela Université de Rouen (França, 2013). Professora titular aposentada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e professora adjunta do Programa de pós-graduação em Educação da Universidade Estácio de Sá. Ex-presidente da Associação Brasileira de Currículo (ABdC), membro titular do Conselho Fiscal da ABdC e ex-membro titular do Conselho Fiscal da ANPEd e membro do GT Currículo da entidade. Pesquisadora associada ao GT Políticas Educacionais do CLACSO. Bolsista PQ 1C do CNPq e Cientista do Nosso Estado FAPERJ. Patrícia Raquel Baroni. É professora adjunta da Universidade Federal do Rio de Janeiro, atuando no Programa de Pós-Graduação em Educação e na Faculdade de Educação. Coordenadora do curso de Pedagogia da Faculdade de Educação da universidade Federal do Rio de Janeiro. É doutora em Educação formada pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Espírito Santo e mestre em Educação formada no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É coordenadora do grupo de pesquisa e extensão Ecologias do Narrar. Resenha do Dicionário de pesquisa narrativa 5 Acerca do(a) Autor(a) da Resenha: Sheila Martins dos Santos: Doutoranda e mestre em Educação pelo Programa de Pós-graduação Processos Formativos e Desigualdades Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – PPGedu/UERJ. Atua com intérprete de Libras- Português no Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). Integrante do grupo de pesquisa Alfabetização, Memória, Formação Docente e Relações Étnico- raciais – ALMEFRE. Participa do grupo de pesquisa ArteGestoAção (INES). e- mail: sheila.jh@hotmail.com Este artigo pode ser copiado, exibido, distribuido e adaptado, desde que o(s) autor(es) e Education Review/Reseñas Educativas/Resenhas Educativas sejam creditados e a autoría original atribuídos, as alterações sejam identificadas e a mesma licença CC se aplique à obra derivada. Mais detalhes sobre a licença Creative Commons podem ser encontrados em https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/. Education Review/Reseñas Educativas/Resenhas Educativas é publicado pela Mary Lou Fulton College for Teaching and Learning Innovation, Arizona State University. O conteúdo de 1998-2020 da Education Review/Reseñas Educativas/Resenhas Educativas foi publicado sob uma licença CC diferente: http://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/3.0 Nota: Os pontos de vista ou opiniões apresentadas nas resenhas de livros são exclusivamente do (s) autor (es) e não representam necessariamente os da revista.