Lopo, T. T. (2025, 20 de agosto). Resenha do livro Com a palavra, as juventudes brasileiras! Narrativas de jovens sobre a escola e a universidade nos tempos de pandemia da Covid 19 por Silvana Soares de Araújo Mesquita e Juaciara Barroso Gomes (Orgs.). Resenhas Educativas, 32. https://doi.org/10.14507/er.v32.4203 20 agosto 2025 ISSN 1094-5296 Mesquita, S. S. A., & Gomes, J. B. (Eds.). (2023). Com a palavra, as juventudes brasileiras! Narrativas de jovens sobre a escola e a universidade nos tempos de pandemia da Covid 19. Pedro & João Editores. 142 pp. ISBN: 978-65-265-0317-1 Resenhado por Teresa Teixeira Lopo Universidade Lusófona, CeiED – Centro de Estudos Interdisciplinares em Educação e Desenvolvimento, Portugal; Universidade Paris– Saclay, Institut Villebon–Georges Charpak, França A obra Com a Palavra, as Juventudes Brasileiras! Narrativas de Jovens sobre a Escola e a Universidade nos Tempos de Pandemia da Covid-19 organizada por Silvana Soares de Araújo Mesquita e Juaciara Barroso Gomes reúne “as vozes, as palavras, os sentidos e as percepções advindas do viver e do contar” (pp. 14- 15), de vinte jovens brasileiros/as entre os 15 e os 30 anos, de classes sociais, origens e lugares distintos, sobre “o que viveram no contexto da escola e da universidade em tempos da pandemia do Covid-19” (p. 14). A proposta editorial alicerça-se, ao longo das suas 142 páginas, na “escuta sensível” (Barbier, 2011, 2019) dessas narrativas “múltiplas e diversas, que adentram esses espaços institucionais, carregando suas diferentes culturas, lógicas, ideologias e realidades econômicas e sociais” (p. 11), com a singularidade da sua ligação a um denominador comum e aos seus efeitos: a disrupção provocada pelo encerramento dos estabelecimentos de ensino, com imposição do confinamento e de um ensino remoto emergencial. As diferentes narrativas expõem em discurso direto, temáticas diferenciadas, mas em que se destacam as dificuldades técnicas do ensino remoto, a solidão imposta pelo confinamento e o sofrimento psicológico e, por contraste, também experiências de autodescoberta e sobre aprendizagens imprevistas. Passando em revista alguns desses relatos, o testemunho de Ana Clara Silva, por exemplo, traduz bem os efeitos das “fractured ecologies” (Bannink & van Dam, 2021) resultantes https://doi.org/10.14507/er.v32.4203 Education Review/ Reseñas Educativas/Resenhas Educativas 2 da dissociação da partilha do mesmo espaço físico entre professores/as e alunos/as, amplificadas pela comunicação mediada por computador e a sua influência na des(organização) dos cotidianos, na motivação para a aprendizagem e na relação com o saber, ao contar as suas dificuldades de adaptação às aulas virtuais: Posso dizer que foi um pouco desafiador para me acostumar, porque não é igual a acordar, arrumar-se e ir andando para a escola. Eu acordava cinco minutos antes da aula começar, ligava o computador e era só clicar no link. Esse tempo não era suficiente para eu despertar; então, algumas vezes, eu cochilava durante as aulas e outras, eu despertava com a chamada, achando que estava sonhando. Mas esse foi apenas um dos desafios. (p. 29) No mesmo sentido, Guilhermo Dutra partilha que “o fato de ser tudo on-line, uma hora cansa e causa tristeza, tédio e desânimo vinham junto. E isso influencia bastante, pois a vontade de fazer os deveres era baixa até mesmo de matérias que gostava” (p. 58). Outro lado interessante destas narrativas, é o modo como, em discurso indireto, revelam as condições de trabalho dos/as professores/as geradas pela pandemia e os seus efeitos sobre o seu bem-estar psicológico. O cansaço, a solidão e a sensação de desconexão manifestam-se de forma evidente neste episódio narrado por Phelipe Esteves: O professor perguntou se alguém tinha algo para falar. Começou a chamar pelos nomes: oi, Marcos, você está aí? Ana Clara? Querem falar algo? - parecia que estávamos numa mesa espírita. Os de câmeras fechadas - sempre duvidei que estavam - também tinham o microfone fechado. Eu e a Olívia éramos os únicos de câmera aberta. Ninguém disse nada e eu, então, disse: Professor, obrigado por tudo. E o que aconteceu? O professor chorou. (p. 109) Em contraponto ao sentimento de exaustão e desânimo com o ensino remoto, algumas narrativas descrevem experiências mais positivas, nas quais o formato online é reconhecido como um espaço de maior autonomia e abertura à reconfiguração do tempo de estudo em função de ritmos e estratégias individuais, como descreve Henrique da Costa Coelho: As aulas virtuais conseguiram ser bem confortáveis comparadas às aulas presenciais. Eu pude assistir às aulas de qualquer lugar, não precisei do uniforme e não tive que conviver com colegas que implicavam comigo. As provas foram menos estressantes e mais simples do que as presenciais (…). Ao fazer as provas em casa, senti-me mais confortável. (p. 63) A pandemia expôs a fragilidade das políticas públicas de acesso aos equipamentos tecnológicos e à conectividade, desencobrindo desigualdades sociais e económicas; dificuldades com ressonância, entre outros, nos testemunhos de Juliana Race (pp. 77-78), Maiza Coelho (pp. 87-90), ou de Lucas Matheus de Oliveira da Silva, para quem “as incontáveis vezes em que tive que lidar com a falta de Internet e com o mau funcionamento dos aparelhos eletrônicos tornou a experiência do ensino remoto um pesadelo” (p. 83). Resenha do livro Com a Palavra, as Juventudes Brasileiras! 3 Outros relatos revelam o impacto da pandemia de Covid-19 na autoestima e no projeto de vida de muitos/as estudantes, como os de Isaías Justino Delfino, quando assume a sua impotência para decidir racionalmente: “já não sabíamos mais o que fazer, ou tentávamos recuperar a saúde mental, ou fazíamos as atividades dos professores” (p. 72), ou de Aisha Medeiros, quando confidencia que: Eu comecei a me sentir burra, comparar-me, não só com as outras pessoas, mas com uma antiga versão de mim, uma mais inteligente, mais esforçada, mais antenada, mais curiosa, uma versão melhor (a versão da época que íamos ao colégio). E, dessa maneira, tudo se encaixava como em um ciclo vicioso: o desânimo e a comparação traziam o sentimento de incapacidade, que, somado às lacunas de aprendizagem do ensino remoto, causavam um abalo emocional que me afastava ainda mais da escola. (p. 41) Adicionalmente, algumas das experiências relatadas remetem para um sentimento de perda de uma vivência plena da juventude, dos rituais escolares e da relação face a face com o outro, que encontra expressão, entre outros, no relato de Aisha Medeiros, quando explica que “o distanciamento da escola também causou o distanciamento da minha vida, do contato com os amigos, das descobertas e das experiências da adolescência (p. 42). Como sintetizou a este propósito Paulo Carrano, no prefácio que introduz esta obra ao público leitor, a experiência da pandemia articula-se em algumas narrativas à sensação de uma adolescência interrompida, configurando uma “sociabilidade pandêmica” (p. 24) que desafiou não apenas a estrutura das instituições de dedicadas à formação para diferentes níveis de ensino, mas, também, os modos de ser e estar destes jovens no mundo. Apesar das adversidades, algumas narrativas, como a de Isabela Silveira, reconhecem ganhos objetivos relacionais e afetivos: Eu nunca havia tido uma proximidade muito forte com minha mãe, nunca havia ficado tanto tempo apenas com ela, nunca havíamos nos conhecido realmente, sobre nossa personalidade, nossos gostos, nunca confiei nela e nunca a havia amado de verdade, porque, afinal, o amor real só é possível quando se conhece. O que sentíamos antes era apenas uma definição rasa de amor, convencionado socialmente entre familiares, um apego idealizado. A partir daí, conhecendo-nos, estávamos nos amando verdadeiramente, conversando e nos apoiando. (pp. 66-67) Outras, como, por exemplo, a narrativa de Mariana Ferreira, afirmam uma trajetória de amadurecimento pessoal: “a pandemia veio e abalou muito minha saúde emocional e mental, mas mesmo assim, tenho maturidade suficiente para perceber que, por meio disso, hoje, sou uma pessoa melhor até em relação aos meus sonhos profissionais e pessoais” (p. 92). Trata-se, em síntese, de uma obra que, como procurámos ilustrar através dos vários excertos que transcrevemos, visou “trazer as vozes, as palavras, os sentidos e as percepções advindas do viver e do contar” (pp.14-15) da experiência juvenil, reconhecida na pluralidade das suas condições e culturas, durante a pandemia de Covid-19. Education Review/ Reseñas Educativas/Resenhas Educativas 4 Uma mediação editorial mais integrada, que favorecesse o diálogo entre os textos – caracterizados por uma narrativa autobiográfica predominantemente descritiva – e a retomada sistemática de temas recorrentes na sua relação com as distintas temporalidades para que remetem as trajetórias escolares dos/as jovens, poderia ter potenciado o alcance reflexivo da coletânea. Salientamos, contudo, a espontaneidade e a autenticidade na forma artesanal dos relatos, como pilares fundamentais que lhes conferem força e valor. As narrativas foram elaboradas sem proposta ou guião pré-definido, tendo sido construídas livremente pelos seus autores e pelas suas autoras. É, na verdade, nesta liberdade expressiva e na centralidade atribuída às vozes juvenis como forma legítima de conhecimento, a partir das subjetividades expostas que revelam “as histórias e os contextos de cada vida” (p. 15), entre a conclusão do ensino médio e o ingresso no ensino superior, que reside, precisamente, o mérito maior desta obra. Referências Bannink, A., & van Dam, J. (2021). Teaching via Zoom: Emergent discourse practices and complex footings in the online/offline classroom interface. Languages, 6(3). https://doi.org/10.3390/languages6030148 Barbier, R. (2011). Rencontre éducative avec le sujet sensible. Chemins de Formation, 16, 28-36. Barbier, R. (2019). Écoute sensible. In C. Delory-Momberger (Ed.), Vocabulaire des histoires de vie et de la recherche biographique (pp. 329-332). Érès. https://doi.org/10.3917/eres.delor.2019.01.0329 Acerca das Autoras do Livro Silvana Soares de Araújo Mesquita é Doutora em Educação, Professora adjunta do Departamento de Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e Vice-decana de graduação do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0352-2202 Juaciara Barroso Gomes é Doutora em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e Professora Assistente do quadro permanente da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3433-4132 Acerca da Autora da Resenha Teresa Teixeira Lopo coordenou, entre 2022 e 2024, o projeto RePeME - E depois da pandemia? Recuperação, permanências e mudanças no ensino básico em Portugal. Escreveu e proferiu diversas comunicações em eventos científicos nacionais e internacionais sobre os efeitos da pandemia de Covid 19 nas aprendizagens dos/das alunos/as, nas desigualdades sociais e na investigação emergente em educação. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5483-1975 file:///C:/Users/ssmcb/ASU%20Dropbox/Stephanie%20Schreiner/EdRev2025/4203%20Lopo/).%20https:/doi.org/10.3390/languages6030148 https://doi.org/10.3917/eres.delor.2019.01.0329 https://orcid.org/0000-0003-0352-2202 https://orcid.org/0000-0001-5483-1975 Resenha do livro Com a Palavra, as Juventudes Brasileiras! 5 Este artigo pode ser copiado, exibido, distribuido e adaptado, desde que o(s) autor(es) e Education Review/Reseñas Educativas/Resenhas Educativas sejam creditados e a autoría original atribuídos, as alterações sejam identificadas e a mesma licença CC se aplique à obra derivada. Mais detalhes sobre a licença Creative Commons podem ser encontrados em https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/. 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