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Isabel Jurema Grimm
Pós-Doutoranda em Gestão
Urbana da Pontifícia Universidade
Católica do Paraná (PUCPR), Gestão
Ambiental pela Universidade
Positivo (UP). Turismóloga.
Doutora em Meio Ambiente e
Desenvolvimento pela Universidade
Federal do Paraná (UFPR).
Carlos Alberto Cioce Sampaio
Professor da Fundação Universidade
Regional de Blumenau e
Universidade Positivo (UP). Pós-
Doutor em Ecossocioeconomia,
Cooperativismo Corporativo e
Ciências Ambientais. Administrador.
Doutor em Planejamento e Gestão
Organizacional.
Endereço para correspondência:
Isabel Jurema Grimm – Rua Vinícius
de Morais, 109 – Pilarzinho –
82115-060 – Curitiba (PR), Brasil –
E-mail: isabelgrimm@gmail.com
Recebido: 22/06/2016
Aceito: 25/05/2017
RESUMO
Neste artigo, busca-se analisar possíveis impactos e consequências das
mudanças climáticas no sistema turístico, em cenários prospectivos no Brasil
e no mundo. Metodologicamente, constitui-se de pesquisa bibliográfica
e documental com abordagem interdisciplinar e enfoque exploratório.
Delimita-se o referencial teórico-metodológico, voltando-se a evidências e
perspectivas que envolvem mudanças climáticas e o turismo internacional.
A coleta de dados ocorreu com entrevistas estruturadas junto aos
especialistas de diferentes áreas do conhecimento: meteorologia, física,
sociologia, ciências econômicas, geografia, turismo, administração, ciências
sociais, biologia e engenharia ambiental. Todos demonstram aproximação
com pelo menos uma das categorias: mudanças climáticas, turismo,
impactos ambientais. Como resultado, tem-se evidências de impactos
ambientais sobre a atividade turística internacional, o que pode indicar a
necessidade de inclusão do turismo na política climática global orientando o
setor para medidas de adaptação e mitigação às mudanças climáticas, tanto
quanto para os desafios e oportunidades da política de baixo carbono no
desenvolvimento do turismo sustentável.
Palavras-chave: mudanças climáticas; turismo; adaptação; mitigação;
baixo carbono.
ABSTRACT
This paper aims to analyze several possible impacts and consequences about
climate change on the tourism system, in prospective scenarios in Brazil and
in the world. Its methodology consists in bibliographical and documentary
research with an interdisciplinary approaching about an exploratory
focusing. Regarding the theoretical-methodological reference, it intends to
create some embryonic notions about evidences and perspectives which are
involving global climatic changes and also the international tourism. Data’s
gathering was carried out through structured interviews with specialists from
different areas of knowledge, as such as: meteorology, physics, sociology,
economics, geography, tourism, administration, social sciences, biology, and
environmental engineering. All show an approximation with at least one
of the categories: climate change, tourism, environmental impacts. As a
result, there is evidence of environmental impacts on international tourism
activity, which may indicate the need to include tourism in global climate
policy, guiding the sector toward measures to adapt and mitigate climate
changes, as well as to the challenges and opportunities for the development
of sustainable tourism.
Keywords: climate change; tourism; adaptation; mitigation; low carbon.
DOI: 10.5327/Z2176-947820170164
CRISE AMBIENTAL, POLÍTICA CLIMÁTICA
E O TURISMO: ALGUMAS REFLEXÕES
ENVIRONMENTAL CRISIS, CLIMATE POLICY AND TOURISM: SOME REFLECTIONS
Grimm, I.J.; Sampaio, C.A.C.
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INTRODUÇÃO
A atividade turística sempre teve que afrontar diversas
circunstâncias e se adaptar a novas condições, sejam
econômicas, legais ou sociais. Entretanto, em face de
uma nova situação, como a mudança climática, o setor
se encontra diante de um fenômeno que não pode ser
controlado e que exige que sejam planificadas estraté-
gias de adaptação e mitigação que permitam desenvol-
ver atividades turísticas em longo prazo, com vistas ao
enfrentamento da nova ordem climática global. Devido
à gravidade das mudanças climáticas projetadas e seus
impactos, o tema está sendo integrado a pesquisas e
iniciativas sustentáveis de desenvolvimento do turismo
(HALL et al., 2015; GRIMM, 2016).
O turismo, a exemplo de outros setores econômicos,
é dependente da energia, em especial da energia de-
rivada de combustíveis fósseis. Globalmente, o setor
é responsável por cerca de 5% das emissões de CO
2,
provenientes da ação antrópica. Destes, o transporte
de turistas por avião contribui com 40% das emissões,
por automóvel 32% e outros meios de transporte con-
tribuem com 3% das emissões. O setor de alojamento
e as atividades de recreação e lazer, representam 25%
das emissões de gases de efeito estufa do setor (OMT,
2008; SIMPSON et al., 2008; MORENO, 2010; RIBOT,
2011; GRIMM et al., 2013; GRIMM, 2016). Entretanto,
esses cálculos não contabilizam os efeitos adicionais da
aviação em alta altitude, sobre os quais ainda há in-
certeza científica. De acordo com a Organização Mun-
dial do Turismo (OMT, 2008), a contribuição do turismo
para a mudança climática global (incluindo efeitos de
forçamento radiativo) é estimada em 14%.
Previsões sinalizam que a mudança climática vai redu-
zir a taxa de crescimento dos movimentos turísticos
internacionais, incidindo especialmente em destinos
de longa e média distância. Nesse cenário, haverá,
mundialmente, regiões “ganhadoras” e “perdedoras”.
Esse posicionamento responderá a uma combinação
de vários fatores: maturidade dos mercados emissores,
novas condições climáticas relativas de determinada
região e a capacidade de adaptação da mesma frente
a essas mudanças (OMT, 2008; GÖSSLING et al., 2009;
MACHETE, 2011).
Diante disso, o turismo tem papel relevante nesse de-
bate, uma vez que é afetado pelos efeitos das mudan-
ças climáticas, ao mesmo tempo que contribui para o
aquecimento global (SIMPSON et al., 2008; MORENO,
2010; MATZARAKIS, 2008). Portanto, sua inclusão no
campo da política climática — a exemplo de outros se-
tores econômicos mundiais como a agricultura, ener-
gia, pecuária, pesca etc. — é necessária para garantir o
desenvolvimento de estratégias de enfrentamento aos
desafios impostos pelas mudanças climáticas.
Nesse contexto, este artigo busca analisar possíveis
impactos e consequências das mudanças climáticas no
sistema turístico — em cenários prospectivos no Brasil
e no turismo internacional — e a inserção do setor na
política global de redução de emissões. A metodologia
tem viés interdisciplinar e sistêmico, com base em da-
dos bibliográficos e documentais. Especialistas de dife-
rentes áreas disciplinares colaboraram para a coleta de
dados, que por meio de entrevistas estruturadas, apor-
taram para este constructo. Todos demonstraram apro-
ximação com pelo menos uma das categorias: mudan-
ças climáticas; turismo; e impactos ambientais. Como
resultado, têm-se evidências de impactos ambientais
sobre o turismo internacional, o que pode indicar a ne-
cessidade de inclusão do turismo na política climática
global, orientando o setor para medidas de adaptação
e mitigação às mudanças climáticas, tanto quanto para
os desafios e oportunidades da política de baixo carbo-
no no desenvolvimento do turismo sustentável.
REFERENCIAL TEÓRICO
A crise ambiental contemporânea e o turismo
O modelo de civilização estabelecido a partir da Revo-
lução Industrial, com sua forma de produção e orga-
nização do trabalho, a mecanização da agricultura, o
uso intenso de agrotóxicos, o aumento populacional e
sua concentração nas cidades, intensificou a explora-
ção dos recursos naturais associada a um processo de
formação de mercado mundial, que transforma desde
a matéria-prima até os mais sofisticados produtos em
demandas mundiais. Esse processo “levou à degrada-
ção ambiental de forma diferenciada entre as nações,
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quer seja pela exaustão dos recursos naturais explo-
rados, quer seja pelo destino inadequado dos resí-
duos gerados pelas atividades econômicas” (MARTINS
COSTA, 2011, p. 4).
Contudo, Foladori (2001) destaca que, apesar das re-
lações capitalistas pressionarem mais fortemente a
destruição do meio ambiente, isso não quer dizer que
não haja pressões em formas diferentes de economia
de produção que causem o mesmo efeito. Para Leff
(2010), outras atividades humanas também têm pro-
vocado efeitos negativos sobre a natureza e o turismo,
o que vem sendo discutido, ora como atividade econô-
mica, ora como atividade socioeconômica-ambiental.
Embora o turismo seja considerado menos agressivo
que outros setores econômicos, suas dimensões po-
dem trazer consequências negativas ao meio ambiente
em termos físicos e sociais, contribuindo, mesmo que
em menor escala, para a crise ambiental contemporâ-
nea. O Quadro 1 apresenta alguns impactos socioam-
bientais do turismo mundialmente relacionados à crise
ambiental atual (GRIMM, 2016).
O turismo e a mudança climática possuem estreita re-
lação, podendo ser observadas alterações do clima que
já afetam ou afetarão o turismo em nível global, de for-
ma direta ou indireta. Os impactos diretos se referem,
por exemplo, à alteração nas estações climáticas (com
diminuição da cobertura da neve nos destinos de inver-
no alpino), que influencia a escolha do destino e, con-
sequentemente, o fluxo turístico, além de acarretar em
danos à infraestrutura, aumento dos custos operacio-
nais. (SCOTT et al., 2012). Os efeitos indiretos incluem
os impactos das mudanças climáticas sobre o ambiente
natural e a diminuição da biodiversidade, que por sua
vez irá reduzir a atração ambiental da localidade (FIT-
CHETT et al., 2016). Scott et al. (2012) incluem como
impactos indiretos as alterações ambientais induzidas
pelo clima que afetam o meio ambiente natural dos
destinos (como a erosão costeira derivada do aumen-
to do nível do mar ou a redução da biodiversidade
Quadro 1 – Impactos socioambientais do turismo internacional e sua relação com a crise ambiental contemporânea.
Fenômeno Relação com o turismo
Relação com a crise
ambiental contemporânea
Produção e
consumo de
energia
Transporte
Refrigeração
Emissões de gases de efeito estufa.
Destruição da camada de ozônio.
Poluição do ar.
Consumo de
água
Aumento do consumo durante a temporada
turística.
Uso desordenado e ilegal do recurso.
Escassez do recurso.
Uso e ocupação
do solo
Remoção de vegetação para construção
de hotéis, áreas de lazer, rodovias e outras
infraestruturas.
Especulação imobiliária.
Erosão do solo.
Perda de biodiversidade.
Destruição de habitat e da paisagem.
Alteração de dunas costeiras.
Crescimento desordenado.
Contaminantes
Uso de óleos, lubrificantes, hidrocarbonetos,
detergentes, emissão de esgoto.
Contaminação do solo, água e ar.
Migrações Temporada turística
Alta taxa de produção e mau descarte do lixo.
Padrões de consumo.
Mudança comportamental e cultural.
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decorrente de um clima em mudança), influenciando
novamente nos custos, riscos e escolhas. Há, ainda,
desde mudanças socioeconômicas indiretas induzidas
pelo clima, ocasionando danos ao desenvolvimento
e ao crescimento do turismo, até instabilidade e mu-
dança de atitudes em relação à escolha do destino em
viagens. Em resposta a esses impactos, podem surgir
políticas, como as de mitigação, em outros setores eco-
nômicos, afetando o turismo e o transporte turístico de
várias maneiras (SCOTT et al., 2012).
Como resposta a essa situação, surgem alternati-
vas ecologicamente menos impactantes da atividade
como o turismo de base comunitária1, o ecoturismo, o
turismo rural entre outras, que podem contribuir para
“emissões líquidas zero” (GRIMM et al., 2013), ou seja,
que atuem para um equilíbrio entre a quantidade de
CO
2
liberado na atmosfera em decorrência da ativida-
de e a quantidade dela retirada. Contudo, é importante
observar que, apesar de poder promover um estilo de
vida ativa e saudável, o turismo baseia-se no elevado
custo do consumo de recursos com crescente deman-
da dos consumidores, colaborando para a emissão de
gases de efeito estufa (GEE).
Fayos-Solà (2010) ressalta que é fundamental diferen-
ciar as etapas da atividade turística para assim relacio-
nar a responsabilidade dos turistas nas emissões de GEE.
O autor relaciona quatro fases. A fase prévia, que con-
sidera as preferências e motivações que condicionam
a escolha do destino; nessa fase os impactos ambien-
tais são relativamente baixos. A fase de deslocamento,
que suscita preocupações pelo alto grau de consumo de
energia. A fase de estadia, cujos impactos e emissões
dos turistas não devem ser superiores às atividades de
seu lugar de residencial habitual. Finalmente, a fase do
pós-viagem, considerada de reflexão e avaliação da ex-
periência, na qual deve-se levar em conta as percepções
e comportamentos do turista em relação às questões da
mudança do clima (FAYOS-SOLÀ, 2010, p. 297-298).
Frente a esse cenário, o desenvolvimento do turismo
internacional passou a ser abordado sob uma pers-
pectiva sustentável, cuja prática, embora de difícil de-
limitação, é definida pela OMT (2003), “como aquele
que satisfaz as necessidades dos turistas, das regiões
receptoras ao mesmo tempo que protege e potencia-
liza novas oportunidades para o futuro”. Esse conceito
encontrou muitas críticas, pois demonstra o viés utili-
tarista propagado pela OMT que, apesar de histórico,
não incorporou outras dimensões importantes como a
gestão de todos os recursos existentes, tanto do ponto
de vista da satisfação das necessidades econômicas,
sociais e estéticas quanto da manutenção da integri-
dade cultural, dos processos ecológicos essenciais,
da diversidade biológica e dos sistemas de suporte à
vida (CANDIOTTO, 2011). De toda forma, Beni (2006)
defende que o turismo sustentável deve pressupor
viabilidade econômica e social, privilegiando simul-
taneamente a cultura local e o ambiente. Nessa es-
teira, Ruschmann (2008) argumenta que o turismo
sustentável deve incorporar a existência de turistas
mais responsáveis, privilegiando sua interação com as
comunidades receptoras nos campos social, cultural e
ambiental de forma equilibrada.
O desenvolvimento do turismo como atividade econô-
mica deve reconhecer a necessidade de planejamento,
tendo a complexidade do fenômeno como problemática.
Deve-se observar e compreender sua transversalidade e
intersetorialidade sistêmica, como forma de promover
mudanças que atuem como motivadoras do desenvolvi-
mento. Assim como a globalização democratizou e inter-
nacionalizou o mercado turístico, desencadeou também
a necessidade de práticas de gestão e planejamento
diferenciadas, a partir de paradigmas globais atentos à
sustentabilidade local, que contraponham a perversa ló-
gica de privatizar o lucro e socializar as perdas, e poten-
cializem o enfrentamento das adversidades resultantes
da mudança climática (GRIMM, 2016).
Desafios das mudanças climáticas para o turismo global
Como atividade relacionada com o clima, o turismo se
vê afetado — positiva ou negativamente — por esse
sistema, em dois aspectos fundamentais: a mudança
nas condições climáticas (temperatura, pluviometria,
1Estratégia de sobrevivência e comunicação social de conservação de modos de vida e preservação da biodiversidade, organizado
associativamente em territórios, como arranjos socioprodutivos e políticos de base comunitária, que se valem do consumo solidá-
rio de bens e serviços (SAMPAIO, 2011, p. 27).
Crise ambiental, política climática e o turismo
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frequência de fenômenos climáticos extremos etc.) e
as mudanças que se produzem nos destinos, relacio-
nadas com a frequência da mudança de temperatura.
De acordo com Giménez (2007, p. 107), os segmentos
turísticos que deverão ser mais afetados com as mu-
danças do clima são: o turismo de neve (esqui), o turis-
mo de sol e praia, o turismo esportivo (golf), o turismo
rural e os esportes náuticos. Os menos afetados são: o
turismo de natureza, o turismo de congresso e eventos
e o turismo cultural.
Contemporaneamente, o principal desafio do turismo
internacional é contribuir para a redução de suas emis-
sões, que deverão aumentar rapidamente nas próxi-
mas décadas, passando de 1101 Mt CO
2
em 2010, para
2957 Mt CO
2
até 2050 (GÖSSLING & PEETERS, 2015),
resultante do rápido crescimento do volume e distância
das viagens aéreas. A exemplo de outros setores econô-
micos, a participação do turismo nas emissões antropo-
gênicas aumentará consideravelmente. Diante dessas
tendências, as emissões do turismo subiriam no pata-
mar global de CO
2
em um cenário de 2°C, isto é, man-
tendo o aquecimento global abaixo dessa temperatura,
até meados deste século (SCOTT et al., 2010).
Reconhecendo a magnitude dos potenciais impactos
que a mudança do clima poderá representar para o
setor, a OMT (2008) publicou o relatório “A mudança
climática e turismo – Responder aos desafios globais”,
o qual analisa a relação entre as mudanças climáticas e
o turismo, identificando os principais impactos em re-
giões e atividades, e os possíveis meios de adaptação e
mitigação do setor.
Em alusão a esses impactos, vale fazer duas considera-
ções: a primeira em relação às implicações que já estão
sendo observadas em âmbito global, e ações que de-
vem ser tomadas para amenizar os efeitos deletérios
decorrentes do fenômeno climático; a segunda é que
ele reflete o outro lado da situação que caracteriza a
relação generalizada entre mudança climática e turis-
mo — o reconhecimento de que o turismo, apesar de
ser afetado pelas mudanças climáticas, também tem
nelas uma poderosa força motriz (MATZARAKIS, 2008;
MORENO, 2010).
A mudança climática poderá afetar negativamente o
conjunto do sistema turístico (SISTUR) quanto à oferta,
à demanda, ao espaço geográfico turístico e aos agen-
tes. Esta poderá também aumentar a pressão para a
redução do consumo de energia, exigindo ações de
redução e ecoeficiência. As alterações induzidas pelo
preço da energia e do transporte poderão ter efeito
nas tarifas e nos destinos mais distantes dos núcleos
emissores. Tudo isso repercutirá na necessidade de es-
tratégias para o fomento de sistemas menos poluentes,
de planos de mobilidade sustentáveis nos destinos, es-
tímulo às viagens de lazer e férias mais próximas da re-
sidência, implantação de sistema de energia renovável,
sistemas de gestão ambiental e medidas de adaptação
do setor turístico às mudanças climáticas (MACHETE,
2011; GRIMM, 2016).
Outros fenômenos naturais relacionados ao tempo e
ao clima também poderão afetar o setor de turismo:
1. geológicos: terremotos, tsunamis e erupções vul-
cânicas;
2. eventos de tempestades: ciclones tropicais, tem-
pestades extratropicais (de inverno), tornados tem-
pestades e tempestades de monções regionais;
3. eventos de chuva: inundações, tempestades, ondas
altas, chuva forte, granizo e relâmpago;
4. degelo: blocos de gelo e icebergs à deriva; e
5. o efeito el niño/la niña: alterações climáticas (IPCC,
2014).
Estes riscos são relevantes à segurança das pessoas,
aos bens do setor turístico e também aos turistas.
Os impactos poderão comprometer a atratividade
e singularidade de paisagens em razão da erosão de
praias, branqueamento de corais, degelo de geleiras e
até mesmo o desaparecimento de destinos turísticos
insulares em todo o mundo. Poderão ainda afetar des-
tinos turísticos diretamente, causando perdas e prejuí-
zos à indústria hoteleira e demais serviços disponíveis
em suas cercanias.
Eventos climáticos decorrentes de temperaturas ex-
tremas, modificações significativas do ciclo hidrológico
ou aumento na velocidade dos ventos, demandarão
atenção especial dos destinos turísticos quanto à sua
infraestrutura e medidas adicionais em caso de emer-
gências decorrentes de desastres naturais. O transpor-
te poderá sofrer aumento de preço pela inviabilida-
Grimm, I.J.; Sampaio, C.A.C.
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de de acesso aos destinos, decorrente de quedas de
barreiras, alagamentos, entre outros transtornos que
afetam estradas, pontes, aeroportos, canais etc. (OMT,
2007). A disponibilidade de água potável, outro fator
preponderante para manutenção dos destinos, tam-
bém poderá ter seu fornecimento afetado.
Entre os aspectos de vulnerabilidade do setor, destaca-
se a construção de infraestrutura turística e de comuni-
cação em áreas de risco, particularmente em encostas
e morros mais expostos aos impactos de fenômenos hi-
drometeorológicos extremos. A sazonalidade alterada,
o estresse térmico para os turistas e a transmissão de
doenças infecciosas também poderão ser relevantes.
Segmentos turísticos de sol e praia, ecoturismo, espor-
tes de neve, entre outros, poderão ser influenciados
por este fenômeno quando expostos a eventos climá-
ticos, afetando sua infraestrutura e exigindo medidas
de preparação para situações de emergência, elevando
os gastos de manutenção e interrompendo, por vezes,
a atividade comercial (GRIMM, 2016). De acordo com
a OMT (2007), isso significa que, mesmo sob condições
atuais, a rentabilidade e a viabilidade dos destinos são
pelo menos parcialmente influenciadas pelo clima.
Embora o turismo internacional se apresente sensível
aos eventos do clima e suas variações, até recente-
mente, tanto o setor como a comunidade acadêmica
pouco haviam pesquisado os impactos das alterações
climáticas na atividade turística, ou o peso que o tu-
rismo e atividades a ele relacionadas têm surtido em
mudanças ambientais e globais. Apesar dos progressos
observados na última década, algumas lacunas no co-
nhecimento sobre as áreas de impacto e a percepção
dos operadores do turismo sobre os riscos das altera-
ções climáticas e a capacidade de adaptação indicam
que o setor não está preparado para os desafios que
poderão decorrer das mudanças climáticas (SCOTT &
LEMIEUXA, 2009; SCOTT et al., 2012).
Os impactos da mudança climática no setor turístico
geram certo grau de incertezas, superior ao de impac-
tos provenientes de outros setores econômicos. Por-
tanto, seja qual for o resultado ambiental da mudança
do clima, o turismo não pode ser visto isoladamente,
pois qualquer mudança no padrão da demanda pode
acarretar impactos amplos em muitos destinos, refle-
tindo também nas áreas da política econômica e so-
cial (GRIMM, 2016). Frente a esta realidade, a OMT
vem fortalecendo o debate sobre mudanças climáticas
globais, o que reflete a preocupação que o tema traz
para o setor turístico, para os próprios turistas e para
as economias que se apoiam no gasto derivado, tendo
em vista que os efeitos da mudança do clima poderão
afetar todo o sistema turístico.
O turismo e a política climática global
Em meio a divergentes argumentos científicos sobre
o aquecimento global e suas causas antropogênicas,
uma vez que a questão não goza de unanimidade
na comunidade científica, é possível constatar que a
ciência das mudanças climáticas está envolvida em
inúmeras incertezas, além de estar sujeita a interes-
ses políticos aparentemente ocultos (MOLION, 2008;
LINO, 2009). Tudo parte da ideia de que cientistas con-
gregados ao Painel Intergovernamental para as Mu-
danças Climáticas (IPCC) e demais pesquisadores que
concordam com o painel possuem razão ao defender
a tese de que o aquecimento global existe, nos afeta
e possui origem em práticas sociais (emissões antró-
picas, desmatamento que diminui a umidade do ar,
impermeabilização do solo nas grandes cidades etc.).
O discurso ganhou proporção à medida que tais sus-
peitas projetaram dados pontuais para uma possível
catástrofe global.
Em meio ao debate sobre causas e consequências da
mudança climática, o turismo ganhou notoriedade,
uma vez que seu desenvolvimento tem tributado para
o aquecimento global. Pesquisas têm aumentado o do-
mínio do turismo e sua relação com esse fenômeno,
sendo sua presença notada em publicações de revistas
científicas, documentos governamentais e eventos in-
ternacionais sobre o tema (SCOTT et al., 2012; GRIMM
et al., 2013). Todavia, como exposto anteriormente, a
produção científica que debata o turismo e sua relação
com a mudança climática ainda é frágil e insuficiente.
De toda forma, alguns exemplos podem ser destaca-
dos, como a realização da Primeira Conferência Inter-
nacional sobre as Mudanças Climáticas e o Turismo,
em 2003 na ilha de Djarba, na Tunísia, organizada pela
OMT e pelas Nações Unidas. A ocasião buscou a coo-
peração internacional para concretizar, de um lado,
ações comuns e homogêneas para o enfrentamento de
Crise ambiental, política climática e o turismo
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mudanças climáticas, e por outro, as possibilidades de
diminuição de emissões de GEE geradas pelo turismo
em âmbito mundial. O encontro não teve o intuito de
manter um debate puramente científico, nem de abra-
çar a totalidade das conhecidas implicações sociais e
ambientais que a mudança climática pode ter na so-
ciedade, mas sim fortificar as bases da relação entre
turismo e mudanças climáticas, pela importância eco-
nômica que a atividade representa em muitos países,
principalmente nas pequenas ilhas e em países em vias
de desenvolvimento.
A Declaração de Djarba foi produzida durante o even-
to, conferindo ênfase à importância dos recursos hídri-
cos para o setor de turismo e sua vinculação com as
mudanças climáticas. A vulnerabilidade do desenvol-
vimento do turismo em ecossistemas sensíveis como
em regiões costeiras, montanhosas, terras áridas e
ilhas foi enfatizada. O documento dedicou-se a apoiar
e estimular organizações internacionais para que estu-
dem e investiguem os impactos recíprocos do turismo
e das mudanças climáticas, incluindo lugares de inte-
resse cultural e/ou arqueológico, em cooperação com
autoridades públicas, instituições acadêmicas, orga-
nizações não governamentais (ONGs) e comunidades
locais. Destacou-se que organismos internacionais, fi-
nanceiros e bilaterais das Nações Unidas devem apoiar
os governos de países em desenvolvimento, em parti-
cular os menos desenvolvidos, para os quais o turismo
representa um setor econômico fundamental no com-
bate à pobreza, formulando planos de ação adequa-
dos às realidades locais. Na ocasião, foram destacadas
medidas de mitigação para uso de tecnologias e logís-
tica apropriadas que estimulem o consumo racional
de energia, minimizando a contribuição do turismo na
emissão de GEE (OMT, 2003)
.
Em 2007, a OMT, o Programa das Nações Unidas para o
Meio Ambiente (PNUMA) e a Organização Meteoroló-
gica Mundial (OMM), com o apoio do Foro Econômico
Mundial e do governo da Suíça, realizaram em Davos
a Segunda Conferência Internacional sobre Mudanças
Climáticas e o Turismo, com o objetivo de manter as
discussões sobre a temática e ampliar seus estudos.
Na oportunidade, um grupo de especialistas de sete
países realizou um diagnóstico sobre os impactos da
mudança climática, exigindo dos organismos responsá-
veis a elaboração de políticas públicas de turismo em
termos nacional e internacional. A Declaração de Da-
vos, em um documento intitulado “Cambio climático
y turismo: responder a los retos mundiales” , oferece
um resumo atual do conhecimento sobre os impactos
atuais e futuros do fenômeno nos destinos turísticos
no mundo, possíveis efeitos na demanda turística, ní-
veis e tendências atuais das emissões de GEE gerado
pelo setor e uma sinopse das respostas normativas e
de gestão dos principais grupos envolvidos (organiza-
ções internacionais, administrações públicas, setor de
turismo) interessados na adaptação e mitigação dos
efeitos da mudanças climática (OMT, 2008).
Recentemente, em Berlim, na Alemanha, um grupo de
30 especialistas em turismo, provenientes de 19 países,
reuniram-se com o objetivo de questionar os caminhos
do turismo e a efetividade da sua forma de desenvol-
vimento para o alcance dos objetivos de desenvolvi-
mento sustentável, e a inclusão do turismo na Agenda
2030. Na ocasião, foi elaborada a Declaração de Ber-
lim: Transformar o Turismo. O documento apresenta,
entre outras, preocupações diretas sobre a relação do
turismo com as mudanças do clima:
As mudanças climáticas são mais fortemente percebi-
das pela população mais pobre do mundo. O turismo
é, ao mesmo tempo, um vetor e uma vítima das mu-
danças climáticas. É urgente repensar o atual modelo
do turismo que depende cada vez mais das viagens
aéreas e de curta duração, o que definitivamente não
contribui para o desenvolvimento sustentável.
Nos preocupa a forma como as soluções tecnológicas
são superestimadas em detrimento de mudanças de
comportamento e no desenvolvimento de produtos
para diminuição significativa das emissões de gases e
do efeito estufa (Declaração de Berlim: Transformar o
Turismo, 2017, p. 2).
Tal iniciativa demonstrou atenção e organização da co-
munidade científica internacional na mobilização em
prol de iniciativas de apoio e estratégias de mitigação
e adaptação, que reduzam vulnerabilidades e riscos
em destinos turísticos e promovam seu desenvolvi-
mento sustentável. Também evidenciou a importância
do turista na escolha consciente e na forma responsá-
vel de realizar suas viagens, e a importância do setor
para a redução da pobreza, em especial em países em
vias de desenvolvimento.
O turismo desempenha papel potencialmente impor-
tante e positivo em resposta aos principais desafios
da sustentabilidade em nosso tempo. No entanto, o
Grimm, I.J.; Sampaio, C.A.C.
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setor não poderá fazer frente aos problemas das mu-
danças ambientais, climáticas e de redução da pobre-
za de forma isolada. A atividade deve atuar em escala
global, para poder contribuir para a consecução dos
Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das
Nações Unidas. Para isso, Scott et al. (2016) destacam
a necessidade da elaboração de estratégias normati-
vas coerentes, que desvinculem o crescimento turísti-
co previsto para as próximas décadas do aumento do
consumo de energia e da emissão de GEE, provenien-
te principalmente do transporte turístico, em especial
da aviação, por meio de intervenções regulatórias
mais eficientes.
Contudo, parece haver uma forte relutância dentro do
setor do turismo em aceitar um futuro com menos trans-
porte aéreo, que atualmente cobre apenas 17% das via-
gens turísticas globais, em prol de viagens por modais
de transporte de baixo impacto, como o trem e o ônibus
(GÖSSLING et al., 2010). Como o turismo não considera
tais futuros, os governos deverão assumir mecanismo
de preços justos, sistemas regulatórios ou de comércio
de emissões para o setor, a fim de desenvolver novos
produtos de menor impacto (PEETERS et al., 2006).
MATERIAIS E MÉTODOS
O estudo foi realizado a partir de análise bibliográfica
e documental. Para o construto teórico, considerou-
se o tema turismo e sua interação com as mudanças
climáticas. Foram analisados 30 artigos disponíveis na
base de dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de
Pessoal de Nível Superior (CAPES) — scielo, sciencedi-
rect, sbecotur — no período de 2008 a 2015. A seleção
baseou-se nas palavras “turismo”, “mudanças climá-
ticas”, “adaptação”, “mitigação” e “política climática”
constantes em títulos, resumos e/ou palavras-chave e
disponíveis nos idiomas português, espanhol e inglês.
Ao serem localizados, os artigos passaram a compor os
dados de uma planilha Excel. Posteriormente, realizou-
se a análise dos textos. Os dados documentais foram
pesquisados no site da OMT e utilizados somente na
composição do referencial teórico.
Nesse ponto, algumas lacunas impediram a fluência
da pesquisa, pois bibliografias nesse campo são escas-
sas considerando a inovação do tema, em especial os
estudos dos impactos da mudança do clima sobre os
turismos internacional e nacional. Diante disso, foram
realizadas entrevistas com pesquisadores, oriundos de
diferentes áreas do conhecimento, compondo um qua-
dro interdisciplinar de especialistas.
Instrumental da pesquisa
O instrumental foi composto por entrevistas estrutu-
radas, levando-se em conta que o colaborador deve-
ria ter aproximação com pelo menos duas das grandes
áreas: mudanças climáticas, turismo, desenvolvimento
e política climática. A pesquisa, realizada em 2014 e
2015, foi constituída em etapas:
• seleção dos especialistas: participantes de univer-
sidades nacionais e estrangeiras — Coimbra, Bar-
celona, Austral do Chile, King’s College London,
Universidade Estadual do Ceará, Universidade do
Estado da Bahia, Universidade Federal do Pará, Uni-
versidade Estadual de São Paulo; colaboradores de
instituições como IPCC, o Painel Brasileiro para as
Mudanças Climáticas (PBMC) e o Instituto Nacional
de Pesquisas Espaciais (Inpe). No total, houve con-
tribuição de 15 especialistas das áreas disciplinares:
meteorologia, física, sociologia, ciências econômi-
cas, geografia, turismo, administração, ciências so-
ciais, biologia e engenharia ambiental;
• convite via telefone ou e-mail, informando os obje-
tivos da pesquisa;
• envio do questionário via e-mail ou entrevista reali-
zada por telefone; e
• análise das informações para verificar a validade
dos dados. Nesse ponto, o retorno dos questioná-
rios foi satisfatório, não sendo necessário solicitar
esclarecimentos ou novas informações.
Por se tratar de uma pesquisa bastante específica, ela-
borou-se um questionário que foi enviado a todos os
colaboradores, independentemente de sua área de
Crise ambiental, política climática e o turismo
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formação, com vistas a responder ao objetivo da pes-
quisa: analisar possíveis impactos e consequências das
mudanças climáticas no sistema turístico em cenários
prospectivos no Brasil e no turismo internacional, e
a inserção do setor na política global de redução de
emissões. Foram questionados e são expostos para
efeito deste artigo:
• o turismo e o clima apresentam estreita relação,
tendo em vista que o turismo pode ser afetado por
emissões de gases causadores do efeito estufa e, ao
mesmo tempo, contribuir para agravar o problema.
É possível identificar oportunidades e desafios para
o desenvolvimento sustentável do turismo brasilei-
ro observando os cenários projetados pelas mudan-
ças climáticas?
• poderá o turismo modificar-se e adaptar-se com
êxito aos novos cenários socioambientais aponta-
dos a partir das mudanças climáticas?
• considerando a relação local-global, intrínseca ao fe-
nômeno das alterações climáticas, é possível articular
ações locais com as propostas internacionais a respei-
to do tema: política climática e turismo? Como?
• como promover um desenvolvimento de baixa
emissão de gases de efeito estufa, tendo o turismo
como atividade que contribua para essa redução?
• o turismo comunitário pode ser considerado uma
atividade de baixo carbono, contribuindo com o
enfrentamento da crise ambiental, mais especifica-
mente das mudanças climáticas?
Análise dos dados
Para análise do conteúdo, os dados brutos foram
tratados de maneira a serem significativos e válidos.
Nesse sentido, as categorias de análise: mudanças
climáticas, turismo, adaptação, mitigação, política cli-
mática e baixo carbono servem para transformar as
informações obtidas junto aos especialistas em dados
que sejam interpretáveis e tenham significado confor-
me o objetivo da pesquisa.
O cruzamento dos dados foi organizado em torno da
categorização que consistiu em descobrir os núcleos de
sentido que compõem o aporte de cada especialista.
Em consonância com Bardin (2011), elegeu-se a regra
de enumeração com presença (ou ausência), o que na
abordagem qualitativa recorre a indicadores não fre-
quências suscetíveis de inferências. Levou-se em con-
sideração a regra de exclusividade, em que uma frase
presente em uma categoria não pode estar em outra,
bem como a regra de homogeneidade, princípio que
define uma categoria como sendo necessária, a fim de
que houvesse apenas uma dimensão na análise. Final-
mente, com sucessivas leituras, foi possível sistemati-
zar as contribuições dos especialistas e, a partir dessas
informações, relativizá-las com o propósito deste arti-
go, formatando assim os resultados.
RESULTADOS E CONCLUSÕES
Desafios e oportunidades para o desenvolvimento sustentável
do turismo nacional: cenários projetados pelas mudanças climáticas
Alguns cenários indicam que as mudanças climáticas
poderão representar potenciais riscos para o desenvol-
vimento do turismo mundial. Mudanças nos padrões
meteorológicos nos destinos turísticos e nos países
emissores podem afetar significativamente o bem-es-
tar dos turistas, as decisões na escolha do destino de
suas viagens e, consequentemente, diminuir o fluxo da
demanda. Contudo, a falta de observações de longo
prazo é um fator limitante para diagnosticar e quantifi-
car o papel dos diferentes agentes do clima no sistema
turístico. Da mesma forma, o universo das pesquisas
realizadas corresponde a regiões específicas, não dis-
ponibilizando informações relevantes quando o foco é
a atividade turística nacional.
Isso poderia ser justificado pelo fato de que, apesar
do crescente debate do turismo e mudanças climáti-
cas a partir da década de 1990, o campo ainda é re-
lativamente inexplorado, devido, principalmente, ao
fraco investimento governamental na investigação das
dimensões ambiental e social do turismo. No Brasil, de
acordo com Ambrizzi (2014) e Marengo (2014), parece
ser pouco expressivo o número de estudos interdisci-
Grimm, I.J.; Sampaio, C.A.C.
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plinares e profissionais ligados ao tema, mesmo entre
aqueles que desempenham papel relevante na área
das políticas públicas e instituições governamentais.
Reconhecidas as limitações em torno do conhecimento
que trata da relação entre turismo e mudanças climá-
ticas (MORENO, 2010; SIMPSON et al., 2008; SCOTT &
LEMIEUXA, 2009; GRIMM et al., 2013), os resultados
aqui apresentados têm por base a revisão bibliográfica
e o encontro de saberes identificados entre os especia-
listas consultados.
No Brasil, a atividade turística representa 4% do pro-
duto interno bruto (PIB) nacional. Números do Minis-
tério do Turismo mostram que 71% dos turistas inter-
nacionais usam o avião como meio de transporte para
chegar ao nosso país (MTur, 2015). Esses dados vis-
lumbram o turismo como essencial para a economia e,
portanto, sua contribuição para o aquecimento global,
observando-se o transporte aéreo como principal mo-
dal, exige ações de mitigação, para fazer frente aos im-
pactos derivados da atividade e que contribuem para o
aquecimento global.
Em relação ao SISTUR (demanda, oferta, espaço geo-
gráfico turístico e agentes), os impactos que podem
ser esperados a partir do aumento da temperatura
global são: redução nas precipitações e aumento em
sua variabilidade interanual, aumento dos eventos
climáticos extremos e elevação no nível do mar (MA-
RENGO, 2014; AMBRIZZI, 2014; CORIOLANO, 2014);
tais eventos podem afetar diretamente a atividade tu-
rística. No Quadro 2 são listados os possíveis impactos
e consequências das mudanças climáticas no sistema
turístico, em cenários prospectivos no Brasil, elabora-
do a partir das contribuições feitas pelos especialis-
tas consultados (AMBRIZZI, 2014; CORIOLANO, 2014;
MACHETE, 2014; BELÉN, 2014; CAMPOS FILHO, 2014;
HENRIQUEZ, 2014).
A respeito dos impactos da mudança climática sobre
os entornos turísticos (espaço de litoral, montanha,
rural, urbano), estes deverão ser afetados de forma
desigual, pois dispõem de diversificada oferta de re-
cursos, produtos e destinos, cada qual com diferente
grau de relação com o clima. De acordo com o caráter
e a escala de análise com que se opera neste trabalho,
os informes publicados por instituições como o IPCC
(2014) e a OMT (2008), juntamente com dados de es-
tudos científicos (GÖSSLING et al., 2010; GÖSSLING &
PEETERS, 2015) e o parecer de especialistas (AMBRIZZI,
2014; BELÉN, 2014; MARENGO, 2014; MACHETE, 2014;
CORIOLANO, 2014; CAMPOS FILHO, 2014; HENRIQUEZ,
2014), observa-se que zonas e produtos mais vulnerá-
veis estão relacionados aos entornos litoral e monta-
nha. Essa vulnerabilidade aos impactos da mudança
climática não é particular no Brasil; tal cenário pode
ser verificado em outros destinos turísticos mundiais
(MELLO et al., 2009).
No cenário nacional, Coriolano (2014) ressalta um
exemplo emblemático da atividade turística na zona
costeira do Ceará, vulnerável aos impactos ambientais.
Para a especialista:
As alterações na temperatura do planeta podem cau-
sar alterações em fenômenos climáticos, como o El
Niño, por exemplo, e gerar aumento do nível do mar.
Isso pode aumentar eventos de inundação e agravar
processos erosivos (perda de praia). Além disso, a in-
fraestrutura urbana e turística localizada na zona cos-
teira pode ser danificada. A alternativa para reduzir
os danos desses impactos pode ser a implantação de
obras de engenharia costeira, mas, em contrapartida
podem afetar a balneabilidade e a beleza cênica do li-
toral (CORIOLANO, 2014. Especialista consultada).
Temperaturas mais amenas no sul do país podem fa-
vorecer o turismo fora do período de verão (AMBRIZZI,
2014). Destinos costeiros poderão ter algumas de suas
praias afetadas, principalmente entre os meses de julho
a setembro, quando os ventos são mais fortes e as ma-
rés estão mais altas. As causas do avanço do mar estão
relacionadas a efeitos locais (erosão, atividades huma-
nas, engenharia e ocupações) e globais do aquecimen-
to do planeta. Também existem variações temporais do
nível do mar que podem influir nos números de longos
períodos. Como consequência, a água invade e destrói a
infraestrutura construída na orla marítima (MARENGO,
2014; AMBRIZZI, 2014) Especialistas entrevistados.
Os cenários simulados a partir da mudança climática no
turismo litorâneo brasileiro apontam que poderá haver
deslocamento da temporada turística devido à intensi-
ficação de um período estival mais quente e seco, o que
poderá favorecer a ampliação e desestacionalização da
mesma. Poderá ainda ocorrer uma fragmentação do
período de férias laborais, para melhor aproveitamen-
to de condições atípicas do clima (por excesso de calor
fora de temporada) e melhores condições econômicas
(promoção de viagens com preços mais acessíveis).
Crise ambiental, política climática e o turismo
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É possível identificar oportunidades para o setor de
turismo decorrentes de mudanças climáticas. Verões
cada vez mais quentes poderão promover economias
locais de forma indireta com a venda de produtos des-
tinados à proteção contra os raios ultravioletas (prote-
tores solares, chapéus, óculos etc.) e produtos paliati-
vos do calor (bebidas, alimentos apropriados, sorvetes,
ar condicionado, ventiladores etc.), que passam a ser
necessidade básica tanto de moradores locais quanto
de turistas (MARENGO, 2014).
Entretanto, Belén (2014) destaca que tanto os desa-
fios como as oportunidades dependem de variáveis
que influenciam o setor de turismo de forma dire-
Quadro 2 – Possíveis impactos e consequências das mudanças climáticas no sistema turístico, cenários prospectivos no Brasil.
Fatores Impactos Consequências
Aumento de
temperatura
(oferta e
demanda)
- Redução do período adequado de
exposição solar
- Stress térmico
- Aumento na incidência de câncer de pele
- Redirecionamento da demanda para outros
destinos potenciais (Unidade de Conservação)
- Adaptação do período da viagem
- Fragmentação do período de férias com
diminuição da estadia
- Má qualidade da experiência
Eventos
extremos*
(espaço
geográfico
turístico,
demanda, oferta
e agentes)
- Destruição da infraestrutura turística
- Bloqueio de vias de acesso
- Interrupção nos meios de comunicação
- Mudanças do ciclo hidrológico
- Especulação imobiliária
- Contaminações e propagação de doenças
- Falta de água potável
- Alto custo de recuperação
- Baixa capacidade de atendimento
emergencial (resgate, evacuação, serviços
médicos)
- Indisponibilidade de acomodações de
emergência, aconselhamento e atendimento
às vítimas
- Aumento no preço das viagens
- Insegurança
- Má qualidade da experiência
- Desconfiança do consumidor
Elevação do nível
do mar
(espaço
geográfico
turístico, oferta e
agentes).
- Degradação da praia
- Branqueamento de corais
- Erosão costeira
- Destruição de manguezais
- Diminuição do espaço junto à areia para o lazer
- Impactos na reserva de água doce
- Alto custo da restauração da orla
*Tempestades tropicais, furacões, inundações, movimento de massa de solo, secas etc.
Grimm, I.J.; Sampaio, C.A.C.
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ta, quando se analisam os impactos do clima sobre a
atividade. Para a especialista consultada, essas variá-
veis são: “el ámbito territorial, la escala de análisis, la
modalidad turística, el elemento del sistema turístico
contemplado (demanda turística / espacio geográfico /
oferta turística / agentes y operadores del mercado) y
el marco temporal”. A especialista aponta ainda que:
“cada destino debe realizar estudios detallados de vul-
nerabilidad y establecer sus prioridades de desarrollo,
antes de diseñar estrategias que permitan adaptarse al
cambio climático y mitigar sus efectos, maximizando
las oportunidades y minimizando los inconvenientes”
(BELÉN, 2014. Especialista consultada).
Campos Filho (2014) destaca na análise dos impactos
a escala temporal e espacial a ser adotada, e as carac-
terísticas do local a ser estudado. Para o especialista,
considerando um cenário macro, a mudança climática
tem impactado negativamente todos os ambientes ru-
rais e urbanos, incluindo destinos turísticos vulneráveis
(atuais e potenciais), independentemente de bioma
e/ou outras características geográficas.
Ao questionar os especialistas sobre a relação local-
global como intrínseca ao fenômeno das alterações cli-
máticas, identificou-se que o setor do turismo, ao fazer
frente aos novos desafios impostos pela mudança do
clima, deve considerar a relação local-global, articulan-
do ações conjuntas a respeito do tema. Contudo, Ma-
rengo (2014) adverte que, apesar de a articulação glo-
bal/local ser possível, é recomendável haver sinergia
das ações, uma vez que não adianta reduzir as emis-
sões localmente se o “mundo continua liberando ga-
ses na solta”. Ainda segundo o especialista, deve haver
grande coordenação entre ações locais, no contexto de
políticas ambientais, regionais e globais.
Para Ambrizzi (2014), o Brasil, como um todo, deve
mostrar ao mundo que está fazendo sua parte na re-
dução de emissões de GEE na adoção de um desen-
volvimento econômico sustentável; talvez assim, o país
possa influenciar mais decisivamente outras nações e,
com isso, consiga propor projetos e temas a outros paí-
ses rumo a um consenso, inclusive com aqueles que
não assinaram o acordo global de redução em Kyoto
(Protocolo de Kyoto).
Para que as ações direcionadas ao enfrentamento dos
desafios impostos pela mudança do clima alcancem
seus propósitos e revertam-nos em benefícios às co-
munidades receptoras, turistas e empresas de turismo,
são necessárias parcerias entre os diversos segmentos,
no sentido de legitimar as ações e unir esforços em prol
de objetivos comuns. Reconhecendo essa necessidade,
Redclift (2014) aposta na ação coletiva, na legitimidade
e na força da sociedade civil: “There needs to be speci-
fied links between individual and collective action and
the need for strong community involvement. The key is
the strength and legitimacy of civil society and its insti-
tutions” (REDCLIFT, 2014. Especialista consultado).
Oportunidades surgem das mudanças, e o setor de
turismo deverá aproveitar o momento para criar
condições de desenvolvimento de uma economia de
baixo carbono. Coloca-se, assim, a necessidade de os
destinos turísticos brasileiros de litoral, mais vulne-
ráveis a eventos extremos (falta de água, ondas de
calor, furacões, inundações, deslizamentos, elevação
do nível do mar etc.), buscarem adaptar-se aos novos
cenários ambientais. Dessa adaptação, podem emer-
gir novas formas de fazer turismo, mais solidário e
sustentável, privilegiando uma atividade de menor
impacto ambiental.
Implicações da política de baixo carbono para o
desenvolvimento do turismo a partir do “olhar” dos especialistas
O objetivo global da política e estratégias de mitiga-
ção das mudanças climáticas é o de contribuir para
o desenvolvimento de uma economia de baixo car-
bono, buscando ecoeficiência nos diversos setores
produtivos. A atividade turística também tem bus-
cado mitigar seu tributo, incentivando novas formas
de fazer turismo, valorizando a experiência da via-
gem e contribuindo na geração de benefícios sociais,
econômicos e ambientais, por meio da mitigação
das emissões de carbono em atividades turísticas
(GRIMM, 2016).
O turismo em si contempla amplo panorama no cená-
rio mundial, sobretudo envolvendo planos estratégicos
de ampliação das atividades do setor, bem como dis-
cursos sobre os cenários atuais e projeções no que diz
respeitos à sua participação na mitigação de impactos
climáticos em escala global. Diante disso, questionou-
se qual a forma de promover um desenvolvimento de
Crise ambiental, política climática e o turismo
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baixa emissão de GEE, tendo o turismo como atividade
que contribua para essa redução, e se o turismo comu-
nitário poderia representar uma condição no enfren-
tamento da crise ambiental, mais especificamente das
mudanças climáticas.
Ao se analisar as colocações feitas pelos especialistas,
percebe-se que há consenso no fato de que o setor de
turismo deve trabalhar no sentido de implantar ações
e estratégias de mitigação, reduzindo o consumo de
energia, melhorando a eficiência energética, implan-
tando novas tecnologias na aviação e aumentando a
utilização de energias renováveis e o sequestro de car-
bono por meio de sumidouros. Independentemente do
sucesso na redução das emissões de GEE, Scott et al.
(2016) destacam que haverá, sem dúvida, custos asso-
ciados à adaptação exigida pela mudança climática.
A capacidade do setor em adaptar-se é considerada re-
lativamente elevada, devido à sua natureza dinâmica e,
portanto, haverá oportunidades importantes para a re-
dução de vulnerabilidade das comunidades receptoras
às mudanças climáticas por parte do turismo, ao mes-
mo tempo que contribui nas ações de mitigação (OMT,
2007; OMT, 2008; SIMPSON et al., 2008; MORENO,
2010). Neste sentido Belén (2014), destaca:
Quizás, con carácter genérico, el principal reto que el
cambio climático plantea al turismo sea el entendi-
miento entre sector público y privado. En este sentido,
el sector público debe ser capaz de proporcionar un
conocimiento adecuado de los impactos (positivos y
negativos) y de las mejores estrategias de adaptación
y mitigación. También el sector público debe ser capaz
de crear un marco normativo y de incentivos que es-
timulen la implicación de la empresa privada. Sólo de
este modo, el sector privado será capaz de considerar
el cambio climático en la toma de decisiones, tanto a
corto como a largo plazo (BELÉN, 2014. Especialista
consultada).
Para empresas, organizações ou instituições de turis-
mo, neutralidade de carbono significa ter contribuição
líquida zero de GEE liberados na atmosfera. Isso inclui
todas as atividades diretamente controladas, incluin-
do viagens, compra de bens e serviços e comporta-
mento diário de funcionários e turistas (MUKOGO,
2014). A neutralidade, ou baixa emissão de carbono,
pode ser conseguida através de melhorias na organi-
zação, de eficiência das operações e equipamentos e
com a oferta de atividades de lazer de menor impacto
(AMBRIZZI, 2014).
A mitigação pode ser realizada por meio da inovação
tecnológica e de mecanismos de mercado. Contudo, os
especialistas apontam que os efeitos mais significati-
vos da redução das emissões só podem ser alcançados
com a mudança comportamental do turista, que tem
mostrado, em alguns casos, características de pegada
de carbono cada vez maior, como é o caso do crescente
uso do transporte aéreo que, de acordo com a OMT
(2008), representa 42% dos meios utilizados para des-
locamento de turistas. Há também o aumento da ati-
vidade turística, com deslocamentos aéreos cada vez
mais distantes, em que iniciativas de mitigação têm
que mediar objetivos muitas vezes conflitantes: de um
lado a necessidade de redução de emissões, do outro a
necessidade de aumentar a demanda.
Da mesma forma, governos devem formular políticas
públicas prevendo a integração das questões ambien-
tais em todas as políticas de desenvolvimento do turis-
mo. É sugerida a criação de normas de emissão de GEE
para funcionamento e licenciamento de novas instala-
ções, padrões de eficiência energética para a hotelaria
e transporte, normas de reaproveitamento e uso efi-
ciente da água, exigir de novos projetos de turismo que
contenham, entre outras, iniciativas de contribuição
para minimizar o impacto ambiental. Incentivos como
créditos fiscais são indicados para encorajar empresas
a aderir a requisitos de mitigação, e até mesmo pro-
por suas próprias iniciativas (AMBRIZZI, 2014; BELÉN,
2014; MACHETE, 2014. Especialistas consultados).
Campos Filho (2014. Especialista consultado) adverte
ainda que:
Parte da atividade turística tem adotado estratégias de
modificação e adaptação aos cenários socioambientais
apontados a partir das mudanças climáticas, como a
implantação de critérios de sustentabilidade nas suas
diferentes dimensões, com ênfase na ambiental, anco-
radas ou não em processos de certificação.
Um bom começo é adotar as medidas recomendadas
pelo extinto Conselho Nacional de Turismo Sustentável
que em parte foram inclusas nas normas de certifica-
ção de meios de hospedagem em vigor, que tem reco-
mendações e exigências do ponto de vista ambiental,
social e econômico.
Colocadas as possibilidades de o turismo contribuir
com ações de mitigação, é importante destacar que
iniciativas desenvolvidas — como por exemplo, no se-
tor de transporte aéreo com a regulação/controle do
Grimm, I.J.; Sampaio, C.A.C.
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tráfego e o aumento do preço do petróleo — buscando
reduzir as emissões desse sistema, podem ter um im-
pacto significativo nos custos e na disponibilidade des-
se modal, afetando negativamente a mobilidade dos
turistas e diminuindo a demanda para determinados
destinos. Isso poderá induzir mudanças na demanda,
substituindo destinos de longa distância por outros
mais próximos, regionais e locais, mas, consequente-
mente, afetar a balança comercial de países que de-
pendem economicamente da atividade na promoção
de trabalho e renda (GRIMM, 2016).
Ademais da mitigação, outros desafios são impostos ao
turismo quando o tema é o desenvolvimento de uma
economia de baixo carbono. A sustentabilidade, por
exemplo, que não é prioridade entre algumas empre-
sas do setor, deve ser posicionada como uma oportuni-
dade de mercado e não uma obrigação, uma vez que a
demanda cada vez mais consciente de questões sociais
e ambientais tem buscado destinos comprometidos
com o turismo responsável.
Da mesma forma, a percepção de que o turismo, como
emissor de GEE, não está alinhado à sustentabilidade
deve ser combatida. A eficiência do setor como uma
economia de baixo carbono passa pelo desenvolvimen-
to sustentável e, para isso, esforços devem ser concen-
trados no sentido de promover medidas que possam
ser aplicadas no setor, reduzindo as emissões de GEE.
Entre as medidas mais simples e eficazes:
• incentivar a renovação da frota aérea por aeronaves
energeticamente mais eficientes; melhorar a gestão
do espaço aéreo reduzindo ineficiências nas rotas;
promover mudanças no comportamento dos turis-
tas para reduzir o uso do automóvel. Localmente,
incentivar o uso de transporte alternativo (ônibus,
bicicleta) e promover o turismo regional, que dis-
pensa o transporte de longa distância;
• no alojamento, implantar medidas que visem a re-
duzir o gasto energético e o consumo de água. In-
centivar mudanças no comportamento dos turistas
para alcançar economia de consumo;
• na gastronomia, promover a cozinha tradicional do
lugar, consumindo produtos locais, diminuindo ou
mesmo dispensando o transporte de mercadorias
em larga distância;
• promover formas alternativas de turismo, que va-
lorizem uma atividade de menor escala e mais inte-
grada ao entorno ecológico e cultural, associando o
turismo a outras atividades produtivas tradicionais.
Sob essa perspectiva, o turismo comunitário, que
acontece em menor proporção, vem sendo disse-
minado em comunidades tradicionais e em regiões
onde populações buscam mecanismos de adapta-
ção frente às crises ambiental e climática. Essas co-
munidades encontram, no turismo, uma estratégia
de diversificação econômica e geração de trabalho
e renda. De acordo com o especialista consultado,
Henriquez (2014): “un turismo de bajo impacto sin
dudas puede convertirse en atributos diferenciado-
res a la hora de programar un viaje con fines de tu-
rismo beneficiando con ello a comunidades locales
que actúan en modalidades de turismo comunitario,
solidario o sustentable”.
O turismo comunitário, solidário e sustentável sugere
uma atividade de baixo impacto, uma vez que essa mo-
dalidade não demanda grandes estruturas para sua via-
bilização, vem contribuindo para a preservação e para
a valorização das culturas tradicionais e não possui sa-
zonalidade de veraneio típica do turismo convencional.
A compreensão dos impactos climáticos e as respostas
mitigadoras e adaptativas poderiam ser incorporadas
à gestão desses destinos e regiões. Porém, Ambrizzi
(2014) aponta que isso demandará maior esforço in-
terdisciplinar, inter-relacionando todos os setores eco-
nômicos, entre eles o turismo.
Nas experiências e iniciativas do turismo comunitário,
além dos benefícios citados, é reconhecida uma nova
proposta de relação humana e institucional, que bus-
ca superar deficiências da lógica do mercado vigente.
No entanto, o especialista consultado (HENRIQUEZ,
2014) adverte que “no todas las prácticas comunitarias
son sustentables, hay que tener cuidado en eso. Para
esto es necesario trabajar en una planificación a doc
con la gente que pretende trabajar en turismo estable-
ciendo parámetros de organización y fiscalización local
(autocertificación)”.
Entre os especialistas consultados, cuja área de ação
está vinculada ao turismo, há consenso ao indicar as
possíveis contribuições dessa modalidade, com ações
Crise ambiental, política climática e o turismo
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que visem à mitigação das mudanças do clima. Entre as
recomendações consideradas, destacam-se:
• evitar vinculações com os princípios de reprodução,
comercialização e consumo em massa de bens e ser-
viço padronizados, desconectando-se do objetivo
de privilegiar a diversidade e a capacidade de ino-
vação que as comunidades tradicionais possuem, a
partir de seus modos de vida, cultura e história;
• não fomentar a homogeneização de ideias e dese-
jos dos consumidores — atitude própria do turismo
convencional ou de massa —, mas sim a valorização
da cultura, interesses, valores e formas de vida pró-
prias das comunidades receptoras;
• possibilitar que o turismo comunitário aconteça em
localidades que realmente o desejam, sem destruir
sua liberdade de escolha; e
• não promover o desenvolvimento de mais uma moda-
lidade de turismo, privilegiando a ação coletiva em de-
trimento do fomento à competição, à geração de lucro
e à comercialização em larga escala como fim maior.
Além disso, a mudança climática demandará do setor
de turismo o desenvolvimento de novas estratégias
econômicas, tecnológicas e culturais e, uma vez que a
atividade se encontra envolvida com a atenuação da
pobreza, seria um erro adotar um enfoque reducionis-
ta com relação ao clima que possa perder de vista qual-
quer oportunidade.
Observa-se que, nos próximos anos, o fenômeno da
mudança climática deverá estar presente nas políticas
de desenvolvimento e gestão do turismo e, conside-
rando que o turismo é uma atividade que contribui di-
reta e indiretamente para o aquecimento global, este
deve também internalizar essa dimensão e considerar
estratégias adequadas de mitigação em seu planeja-
mento (MARENGO, 2014; AMBRIZZI, 2014; CAMPOS
FILHO, 2014. Especialistas consultados).
Frente ao exposto, pode-se indicar que o turismo, en-
quanto setor econômico chave para o desenvolvimento
de muitas regiões, desempenha papel importante na
redução da pobreza de muitas comunidades, colaboran-
do para alcançar os ODS das Nações Unidas. Da mesma
forma, é um setor que pode contribuir para a mitigação,
reduzindo os efeitos colaterais das mudanças climáticas.
Portanto, sugere-se que a educação e a informação do
cidadão/turista sobre problemas ambientais e climáti-
cos e sobre a forma como cada um pode colaborar com
medidas de mitigação e adaptação são fundamentais
para a redução de emissões de GEE pelo setor turístico.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao se analisar as complexas relações entre turismo e
mudança climática e, em particular, os efeitos que es-
sas mudanças geram em diferentes destinos turísticos,
nota-se que são necessárias medidas no setor, que
deve se adaptar às instáveis condições do clima, ado-
tando ações preventivas para enfrentar e minimizar
possíveis efeitos das mudanças climáticas.
Nesse momento, é cabível expor suspeitas de que a ins-
titucionalização, muitas vezes, não apresenta funciona-
lidade ou ainda de que seja composta por sistemas re-
gulatórios subutilizados, ignorados ou mesmo que não
refletem a realidade local. Qualquer que seja a situação,
a atuação isolada por vezes é inócua, tornando inope-
rantes ações mitigadoras que tenham algum significado
plausível. Portanto, são necessárias medidas que visem
à adequação de políticas públicas de turismo, subscre-
vendo acordos intergovernamentais, governamentais e
multilaterais afins, na busca de soluções associadas que
contribuam para a redução das emissões de GEE pelo
setor em escala global, regional e local.
Uma das tendências recentes no setor de turismo pa-
rece ser a adoção de medidas que visam a atenuar os
impactos ambientais de suas atividades, como hote-
laria e recreação, e que permitam reduzir o consumo
de recursos hídricos e energéticos, melhorar os proce-
dimentos inerentes ao tratamento de resíduos, entre
outros. Essa mudança de comportamento é motivada
tanto pelas regulações legais como pela redução de
custos operativos e pelo aperfeiçoamento da imagem
pública da empresa, que influencia a competitividade
junto aos clientes. Esse gênero de medidas pode ser
aplicado às várias regiões do globo e aos tipos de ati-
vidades desenvolvidas; contudo, cada região poderá
sentir vulnerabilidades específicas às caracteristicas do
território, havendo necessidade de iniciativas de miti-
gação e adaptação específicas para cada lugar.
Grimm, I.J.; Sampaio, C.A.C.
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Na verdade, não existe um conjunto de medidas de
mitigação e adaptação únicas. Todo o sistema turístico
pode e deve tomar medidas para reduzir as emissões
de gases associados a suas atividades: para os turistas,
a escolha de meios de transporte menos contaminan-
tes, a procura de produtos e atividades de pegada de
carbono zero e a compensação de suas emissões quan-
do fizer uso do transporte aéreo; para os agentes, a
promoção de produtos com períodos de estadia mais
longos e destinos mais próximos e o desenvolvimento
de produtos e atividades de pegada de carbono zero.
Governos e comunidades devem buscar desenvolver
um marco normativo que estimule a economia energé-
tica e programas de educação e conscientização social.
No transporte e alojamento, a eficiência energética e
hídrica tem sido a alternativa mais indicada.
Do mesmo modo, observando o caminho inverso dessa
abordagem, é questionável a validade de julgamentos
sob a responsabilidade turística como deflagradora de
mudanças climáticas. Talvez, mais modestamente, es-
sas alterações em escala local ou regional apresentem
impactos ambientais severos e localizados, que podem
ser detectados nas pesquisas in loco, para posterior
projeções ou consolidação de dados numa tentativa de
projeção global. Apesar de os modelos do IPCC serem
desenvolvidos em alta resolução, ainda carecem de co-
nhecimento microclimático, podendo gerar previsões
pouco precisas. Todavia, esses aspectos devem ser mi-
nimizados com o passar do tempo e não devem ser con-
siderados como percalços às imprescindíveis ações de
mitigação e adaptação a este fenômeno que é, prova-
velmente, um dos maiores desafios desse século.
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