124
RBCIAMB | n.40 | jun 2016 | 124-136
Verônica Rosária Polzer
Mestre em Arquitetura e Urbanismo
pela Universidade Presbiteriana
Mackenzie. Doutoranda em
Arquitetura e Urbanismo pela
Universidade Presbiteriana
Mackenzie – São Paulo (SP), Brasil.
Endereço para correspondência:
Verônica Rosária Polzer –
Universidade Presbiteriana
Mackenzie, Campus Higienópolis,
Ed. João Calvino – Rua da
Consolação, 930 CEP: 01302-
907 – São Paulo (SP), Brasil –
E-mail: vpolzer@yahoo.com.br
RESUMO
O artigo analisa como os centros urbanos enfrentam o problema dos resíduos
sólidos orgânicos provenientes de domicílios, restaurantes, feiras livres,
hortifrutigranjeiros, supermercados e outros. O destino desse material para
a compostagem pode contribuir diretamente para o aumento da vida útil dos
aterros sanitários. Além disso, a aplicação do composto em telhados verdes,
jardins verticais, praças, hortas e canteiros públicos ou privados pode incidir na
melhora da qualidade do espaço urbano e do aspecto paisagístico dos bairros,
além de contribuir para a redução das ilhas de calor, e aumento do conforto
térmico em edifícios. Como estudo de caso serão apresentados dois modelos
de compostagem em larga escala, uma em São Paulo e outra em Vancouver.
O objetivo é apresentar alternativas de aproveitamento dos resíduos orgânicos,
de modo a desviar esse material dos aterros sanitários, por meio de técnicas de
compostagem acelerada cujo composto pode ser utilizado em hortas urbanas,
telhados verdes, além de conter valor comercial. Para desenvolvimento do
artigo e obtenção dos objetivos estabelecidos foram consideradas análises
quantitativas, por meio de visitas técnicas à usina de compostagem da Lapa
em São Paulo, à usina de compostagem acelerada em Vancouver e a hortas
urbanas como, por exemplo, a Horta das Corujas; e qualitativas, considerando a
análise de técnicas consagradas utilizadas para compostagem urbana de forma a
identificar as que se adequam às características limitadas de espaço das cidades.
Palavras-chave: resíduos sólidos urbanos; compostagem; telhado verde;
sustentabilidade.
ABSTRACT
The article analyzes how urban centers face the problem of organic solid waste
from households, restaurants, street fairs, horticultural, supermarkets and
others. The destination of this material for composting can directly increase the
landfill’s life. Besides, the application of the compound in green roofs, vertical
gardens, public squares, gardens and public and private raised can focus on
improving the quality of urban space and of the landscaped appearance
of neighborhoods, in reducing heat islands, and in increasing the thermal
comfort in buildings. As a case study of two forms of accelerated composting of
large-scale, one in São Paulo and another one in Vancouver, will be presented.
The objective is to present the organic waste recovery alternatives, diverting
this material from landfills through accelerated composting techniques,
whose compost can be used in urban gardens, green roofs, and contain
commercial value. Qualitative and quantitative analysis were considered for
the development of the article and to achieve the established objectives, as
follows: a) quantitative - through technical visits to Lapa composting plant in
São Paulo, accelerated composting plant in Vancouver and urban gardens, for
example, the Horta das Corujas; b) qualitative – it is considered analysis of
standard techniques used for composting urban in order to identify which suit
the characteristics of limited space of cities.
Keywords: municipal solid waste; composting; green roof; sustainability.
DOI: 10.5327/Z2176-947820164014
COMPOSTAGEM: UMA NECESSIDADE DOS CENTROS URBANOS
COMPOSTING: A NECESSITY OF URBAN CENTERS
Compostagem: uma necessidade dos centros urbanos
125
RBCIAMB | n.40 | jun 2016 | 124-136
INTRODUÇÃO
Anualmente são produzidas cerca de 1,3 bilhão de
toneladas de resíduos sólidos no mundo, de acordo
com o Banco Mundial (2012). A produção de resíduos
cresce num ritmo acelerado, superior ao crescimento
populacional. O aumento da população somado ao
consumismo são fatores que agravam o acúmulo dos
resíduos nos grandes centros urbanos, fazendo com
que novas formas de tratamento dos resíduos sejam
colocadas em prática, a fim de desviá-los dos aterros.
A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), aprova-
da em 2010, é sem dúvidas o grande marco regulató-
rio do país no que diz respeito ao gerenciamento dos
resíduos sólidos, e poderá impulsionar o desenvolvi-
mento e emprego de técnicas avançadas de compos-
tagem acelerada. Além disso, é esperado um aumento
da eficiência em toda a cadeia de reciclagem, desde a
coleta até a utilização do material nas indústrias reci-
cladoras. A partir da PNRS, os municípios brasileiros
deverão buscar soluções a médio e longo prazo para
os resíduos recicláveis e orgânicos, desviando estes
do aterro sanitário que, por sua vez, será autorizado
a receber somente rejeitos. O material reciclável ne-
cessita ter outro destino, como o reaproveitamento
e a reciclagem; já os materiais orgânicos poderão ser
encaminhados para a compostagem, respeitando a
hierarquia da PNRS: “não geração, redução, reutiliza-
ção, reciclagem e tratamento dos resíduos sólidos bem
como a disposição final ambientalmente adequada dos
rejeitos” (BRASIL, 2010, art. 3).
A lei da PNRS (BRASIL, 2010) foi bem assertiva ao es-
clarecer a diferença entre resíduos e rejeitos: o primei-
ro pode ser reaproveitado, reciclado ou compostado,
enquanto o segundo representa aqueles materiais
que, esgotadas todas as possibilidades de reciclagem
ou compostagem, podem ser encaminhados para o
destino final, seja aterros sanitários ou incineradores
de alta tecnologia, com baixo impacto ambiental e ge-
ração de energia.
Além disso, os municípios e regiões consorciadas são
obrigados a extinguir os vazadouros a céu aberto subs-
tituindo-os por aterros sanitários. Devido ao alto custo
de operação e manutenção dos aterros sanitários, a
lei sugere que os municípios formem consórcios para
redução dos custos de coleta, aquisição de equipa-
mentos e infraestrutura necessária. O compromisso
das cidades é, além da redução de custos, investir em
coleta seletiva para os resíduos recicláveis e orgânicos
(BRASIL, 2010).
Segundo a Abrelpe (2014), o resíduo sólido domiciliar
típico de um brasileiro contém 51% de matéria orgâni-
ca, o que representa uma fração significativa do total
destinado aos aterros sanitários, quando não a vaza-
douros a céu aberto. Se esses resíduos fossem desvia-
dos do aterro para a compostagem, poderiam gerar
emprego e renda por meio da venda do adubo, pro-
longando a vida útil dos aterros sanitários, reduzindo
custos e minimizando o impacto ambiental provocado
pelo aterramento da matéria orgânica.
Serão apresentadas duas soluções para a composta-
gem de resíduos orgânicos em centros urbanos, uma
em Vancouver e outra em São Paulo. A região metro-
politana de Vancouver possui um programa de cons-
cientização populacional aliado à infraestrutura de
coleta e ao tratamento, o que garante que o material
orgânico seja destinado corretamente. Esse modelo foi
escolhido para ilustrar como um centro urbano pode
atingir bons resultados no tratamento do material or-
gânico por meio da participação popular e do uso de
tecnologia avançada. O exemplo de São Paulo ainda é
um piloto, mas demonstrou bons resultados e poderia
ser replicado também em outros locais da cidade, bem
como em outros municípios.
COMPOSTAGEM EM LARGA ESCALA
Os resíduos sólidos urbanos provenientes de domi-
cílios apresentam basicamente três frações em sua
composição: matéria orgânica (como restos de co-
mida, vegetais, cascas de fruta, borra de café, cascas
de ovos, guardanapos sujos e outros); materiais re-
cicláveis (papel, papelão, metais, vidros e plásticos);
e, por fim, os rejeitos, que são aqueles resíduos que
não podem ser encaminhados para a reciclagem ou
para a compostagem. Os materiais especiais, como
pilhas, baterias, tintas, vernizes, medicamentos, lâm-
padas, eletrodomésticos, móveis, roupas e outros,
não deveriam ser descartados para a coleta de lixo
Polzer, V.R.
126
RBCIAMB | n.40 | jun 2016 | 124-136
doméstica, pois para esses materiais existem pontos
de entrega voluntária ou coleta específica, de modo
que não são considerados na composição do lixo do-
méstico, muito embora parte da população descarte
esses itens indevidamente.
Tanto os resíduos orgânicos quanto os recicláveis po-
deriam ter outros destinos que não fossem o aterro sa-
nitário, poupando essas unidades de receberem esse
tipo de material. Os aterros sanitários deveriam rece-
ber apenas os rejeitos, aumentando assim sua vida útil
e reduzindo a necessidade de abertura de novos ater-
ros. O material reciclável poderia ter como destino as
cooperativas de triagem de material reciclável. E o ma-
terial orgânico, as usinas de compostagem acelerada.
Outras atividades urbanas também são geradoras de
grandes quantidades de matéria orgânica que seriam
fontes adicionais para alimentar a compostagem ace-
lerada. Tem-se como exemplo as feiras livres e os hor-
tifrutigranjeiros, cujos resíduos estão livres de conta-
minação por materiais recicláveis, o que facilitaria o
processo de compostagem. Restaurantes, cafés e su-
permercados também poderiam fornecer esse tipo de
material para a compostagem.
Há várias técnicas de compostagem acelerada para
grandes quantidades de resíduos sólidos urbanos,
porém, para esse artigo, serão analisadas duas delas:
uma por meio de aeração, empregada na usina de Ri-
chmond, que recebe os resíduos orgânicos da região
metropolitana de Vancouver, e outra por meio de leiras
estáticas com aeração natural, empregada na central
de compostagem da Lapa, em São Paulo.
Define-se por “compostagem” o processo de fermen-
tação dos resíduos orgânicos, que após sua degrada-
ção abastecem o solo com nutrientes. A compostagem
relaciona-se ao aproveitamento de tais resíduos, que
têm diversas origens: urbana, agrícola ou florestal.
Basicamente, a compostagem como processo contro-
lado da degradação da matéria orgânica constitui-se
de duas fases principais: a primeira em que ocorrem
as reações bioquímicas de forma intensa, e a segunda,
que é a fase de estabilização e maturação do composto
(OLIVEIRA et al., 2005).
A compostagem pelo método convencional, mais tra-
dicional, é utilizada em larga escala desde a Antiguida-
de. Compostagens aceleradas são feitas por meio de
processos tecnológicos que diminuem o tempo das
reações bioquímicas, resultando no mesmo composto
em menos tempo. Pelo processo convencional, o com-
posto leva em média 120 dias para ser considerado
maduro e estável, pronto para ser utilizado (OLIVEIRA
et al., 2008). Já o tempo da compostagem acelerada
varia de acordo com a tecnologia empregada, chegan-
do a 60 dias no caso daquela empregada pela empresa
Harvest, em Richmond, e pela Inova, em São Paulo.
Segundo Miller (1993), a compostagem trabalha com
dois grupos de micro-organismos: os mesófilos, que
atuam com a temperatura ótima de 45°C; e os termó-
filos, que possuem atividade numa temperatura acima
de 45°C, atingindo até 75°C. Como a partir de 55°C é
possível eliminar patógenos humanos e larvas de mos-
cas, as usinas de compostagem buscam técnicas (como
melhorar a aeração e o controle de umidade) para que
a temperatura esteja sempre alta, se possível acima de
63°C, de modo a eliminar também sementes de ervas
daninhas (RYNK, 1992).
O resultado do processo irá liberar vapor d’água, calor
e CO
2
obtidos na degradação biológica com o auxílio
de O
2
. Para o processo de compostagem ocorrer per-
feitamente, sem produzir odor desagradável e atrair
vetores, é necessário o equilíbrio entre aeração (for-
necimento de O
2
), umidade e temperatura (EPSTEIN,
1997). Nessas condições, o composto produzido terá
aspecto de terra escura, sem odor e rico em nutrientes.
Compostagem acelerada por aeração, em Vancouver
A cidade de Vancouver possui mais de 600 mil habitan-
tes e a sua região metropolitana ultrapassa 2,3 milhões
de habitantes, sendo a terceira maior metrópole do
Canadá, atrás de Montreal e Toronto. A cidade de Van-
couver, relativamente recente, foi reconhecida e incor-
porada ao Canadá em 1886 e o primeiro assentamento
permanente se deu em 1862, devido à instalação de
uma madeireira que permitiu o crescimento econômi-
co da cidade (GVRD, 2013).
A região metropolitana de Vancouver é composta por
24 cidades, que possuem os seguintes equipamentos
de gestão de resíduos sólidos: uma usina de compos-
tagem acelerada em Richmond; um incinerador com
Compostagem: uma necessidade dos centros urbanos
127
RBCIAMB | n.40 | jun 2016 | 124-136
geração de energia em Burnaby; usinas de triagem
de resíduos recicláveis; e dois aterros sanitários, sen-
do um público (na cidade de Delta, distante 20 km do
centro de Vancouver) e um particular (em Cache Creek,
a 340 km leste de Vancouver, que recebe resíduos de
outras regiões da Columbia Britânica e possui sete es-
tações de transbordo, em Vancouver, North Shore, Sur-
rey, Coquitlam, Langley, Matsqui e Maple Ridge).
Toda a produção de resíduo orgânico coletada é en-
viada para a usina de compostagem acelerada em Ri-
chmond. As prefeituras das 24 cidades que compõem
a região metropolitana de Vancouver disponibilizam
para os cidadãos um contêiner específico para o re-
síduo orgânico. O munícipe recebe a informação dos
horários e dias de cada coleta, não só sobre a coleta
dos orgânicos, mas também das outras duas coletas:
dos recicláveis e dos rejeitos. Já os resíduos especiais
podem ser entregues pela população nos pontos de
coleta específicos, nas estações de transbordo ou nos
aterros sanitários (POLZER, 2012).
A Metro Vancouver, órgão que administra os serviços
de saneamento básico, drenagem e resíduos sólidos de
toda a região metropolitana de Vancouver, iniciou suas
atividades em 1960, sendo que a gestão dos resíduos
sólidos efetivamente passou a fazer parte das suas
responsabilidades em 1973. Entre as importantes ati-
vidades desenvolvidas pelo órgão, destaca-se o Plano
de gestão de resíduos sólidos urbanos para a Grande
Vancouver, aprovado em 1985, que estabeleceu como
meta a redução do descarte de resíduos orgânicos e
recicláveis em 50%, indicando as metas e a regulamen-
tação para o descarte de resíduos sólidos domiciliares
(GVRD, 1998).
A grande mudança por parte da população e do gover-
no em relação aos resíduos sólidos se iniciou na dé-
cada de 1970, quando alternativas para a disposição
final dos resíduos sólidos começaram a surgir, subs-
tituindo os aterros sanitários pelos incineradores de
alta tecnologia com geração de energia. Em paralelo, a
população se envolvia cada vez mais com a separação
dos resíduos recicláveis e orgânicos para reciclagem e
compostagem. Em 1981, foi publicado um relatório co-
nhecido como o Plano das 5 Diretrizes (District’s 5-Part
Plan), que reunia as principais necessidades dos muni-
cípios da Grande Vancouver em relação à gestão dos
resíduos sólidos urbanos:
• abertura de um novo aterro sanitário para atender
a parte leste da região metropolitana;
• ampliação do aterro de Vancouver, na cidade de
Delta, para atender à porção oeste da metrópole;
• construção de um incinerador (waste-to-energy) de
alta tecnologia com geração de energia, para rece-
ber parte dos rejeitos que estavam sendo enviados
para o aterro sanitário;
• construção de novas estações de transbordo para
tornar mais eficientes a logística e o transporte dos
resíduos nas cidades;
• incentivo e promoção de reciclagem e composta-
gem, diminuindo cada vez mais os resíduos dispos-
tos em aterro sanitário.
Todas as ações foram realizadas, exceto a construção
de um novo aterro sanitário na parte leste da região
metropolitana (GVRD, 1998).
A partir de então, a demanda pública pela redução dos
resíduos e soluções para compostagem e reciclagem
tornaram-se mais constantes. Em 1989, a Metro Van-
couver desenvolveu um plano de ação que tinha como
meta inicial desviar em 30% os resíduos orgânicos e re-
cicláveis destinados aos aterros sanitários por meio das
seguintes diretrizes:
• implantação da coleta seletiva em todas as cidades;
• melhorias nos centros de triagem de recicláveis e na
sua comercialização;
• incentivo do uso de composteiras e minhocários do-
mésticos pela população, de modo a reduzir a fra-
ção orgânica destinada aos aterros sanitários;
• incentivo de redução e reciclagem dos recicláveis
gerados pelos setores comerciais e industriais;
• implantação de programas de conscientização am-
biental para a sociedade, com o objetivo de atingir
as metas de redução e reciclagem estabelecidas.
Houve sucesso em relação às diretrizes do plano de
ação de 1989, em especial nas campanhas de cons-
Polzer, V.R.
128
RBCIAMB | n.40 | jun 2016 | 124-136
cientização ambiental. Mas ainda havia dificuldades
na comercialização dos recicláveis, pois as indústrias
que recebiam esse material como matéria-prima para
a sua produção ainda estavam se formando. Em 2008,
foi abandonada a ideia de se construir novos aterros
sanitários; em vez disso, o foco seria na redução dos re-
síduos rumo ao zero waste. Dessa forma, naquele ano
os resíduos orgânicos oriundos da poda de árvores e
recicláveis foram banidos do aterro sanitário, sob pena
de multa em caso de descumprimento. Em 2009, foi
estabelecido como meta desviar 70% dos resíduos para
a reciclagem e compostagem até 2015 e, neste mesmo
ano, foi fechado o acordo com a Fraser Richmond Soil
and Fibre para receber os resíduos orgânicos e de poda
de árvores para a compostagem acelerada.
Como é possível observar, uma série de leis e regula-
mentos foram surgindo de forma a incentivar as in-
dústrias da reciclagem, conscientizar a população e
garantir por parte do governo a gestão e a infraestru-
tura necessárias para atingir as metas de redução de
resíduos. Por isso, hoje a Grande Vancouver consegue
desviar 60% dos resíduos orgânicos e recicláveis dos
aterros e do incinerador. O desafio atual do programa
Zero Waste é reduzir cada vez mais os resíduos e enviar
às unidades de destino final apenas os rejeitos (METRO
VANCOUVER, 2016).
Na cidade de Vancouver, em especial, cabe destacar
o programa Keep Vancouver Spectacular (2016), que
mobiliza a população por meio de campanhas especí-
ficas nos bairros para a redução dos resíduos sólidos,
combate ao descarte em pontos ilegais e aumento da
conscientização e participação de todos na reciclagem
e compostagem. Em relação à compostagem dos resí-
duos orgânicos, o governo ainda subsidia a venda de
minhocários e composteiras, que podem ser adquiri-
dos pelo preço de custo. Em 2010, Vancouver possuía
43.593 composteiras e 5.805 minhocários — uma gran-
de evolução se comparado ao início do programa, em
1999, quando haviam 28.100 composteiras e 2.280 mi-
nhocários. Isso representa um aumento de 55% no uso
da composteira e 155% no uso do minhocário em um
período de 10 anos (SOLID WASTE, 2011).
Os minhocários e composteiras domésticas ajudam na
redução da quantidade de resíduos orgânicos enviados
para os aterros sanitários, mas não são suficientes para
atender toda a demanda da cidade para esse tipo de re-
síduo. Por isso, a usina de compostagem acelerada em
Richmond possui um papel essencial nesse processo,
pois recebe, desde 2009, todo o resíduo orgânico da re-
gião metropolitana, incluindo podas de árvores e madei-
ras em geral. Sendo a maior instalação do segmento na
América do Norte, a usina processa anualmente 240 mil
toneladas de resíduos. A empresa Fraser Richmond Soil
& Fibre é uma das companhias da Harvest que contam
com outras unidades além da Columbia Britânica, como
Califórnia, Pensilvânia e Ontário. Juntas, essas instala-
ções já reciclaram mais de 3 milhões de toneladas desde
o início das atividades, em 1993 (HARVEST, 2014).
A Metro Vancouver está desenvolvendo, ainda, meca-
nismos para impedir que os resíduos orgânicos da região
metropolitana tenham como destino o aterro sanitário
ou incineradores: a meta é desviar 70% dos resíduos
para a compostagem. A matéria orgânica corresponde a
40% de todo o resíduo depositado em aterros sanitários
e, devido a essa proibição, mais de 265 mil toneladas
de resíduos orgânicos deverão ser desviadas dos aterros
anualmente. Em 2008, podas de jardim foram banidas
dos aterros sanitários e, atualmente, mais de 270 mil to-
neladas desse material são coletadas pelos municípios
e compostadas, sendo a Harvest Power responsável por
processar cerca de 200 mil toneladas por ano de poda
de jardim (OPUS DAYTONKNIGHT 2014).
O processo de compostagem acelerada utilizado pela
empresa Harvest é denominado Covered Aerated Static
Pile Composting (CASP), ou seja, o processo de compos-
tagem é feito por meio de uma pilha coberta por uma
camada de material orgânico, aerada por injetores de
ar e estática, sem necessidade de revirar o composto.
A tecnologia consiste em utilizar uma camada orgânica
que cobre as pilhas, um processo de aeração negativa
e um sistema de biofiltros que minimizam e controlam
o odor. A tecnologia empregada, segundo a Harvest
(2014), é simples e de baixo custo, apresentando mui-
tas vantagens. Nesse método, as pilhas estáticas aera-
das são altas, o que otimiza a capacidade do terreno
ocupado, com menor exposição ao ar externo; o tempo
de maturação do composto é menor do que o do sis-
tema tradicional, sendo de dois meses em vez de seis
a oito meses; não é necessário nenhum pré-processo,
como triturar a matéria orgânica; o consumo energéti-
co é menor devido à eliminação da trituração, comum
em processos tradicionais de compostagem; a cober-
tura orgânica age como um biofiltro natural, tratando
as partículas odoríferas; e, por fim, o composto atinge
Compostagem: uma necessidade dos centros urbanos
129
RBCIAMB | n.40 | jun 2016 | 124-136
um alto nível de qualidade devido ao rigoroso processo
empregado. Na Figura 1, observa-se a entrada da usina
em Richmond e as pilhas estáticas (HARVEST, 2014).
O sistema CASP opera da seguinte forma:
1. Uma nova pilha é constituída sobre uma célula do
sistema CASP, de modo a se empilhar o material so-
bre a base da célula por meio de uma escavadeira
ou outro equipamento similar. Normalmente leva-
se de uma a duas semanas para completar a célula,
dependendo da estação do ano.
2. Depois de finalizada a pilha, é colocada sobre ela
uma camada de um material orgânico, cuja compo-
sição foi desenvolvida e patenteada pela Harvest.
Essa cobertura irá impedir que os odores dentro
da pilha escapem por meio do vento ou convecção
devido às altas temperaturas. Depois essa camada
será removida e utilizada novamente em outra pi-
lha, sucessivamente, até não ter mais utilidade e ser
compostada junto aos resíduos.
3. Um sistema de tubulações é introduzido abaixo da
pilha, criando uma rede de tubos perfurados em
aço inoxidável que irá fornecer ar para a pilha de
maneira a criar as condições aeróbicas necessárias
para a compostagem. Esse sistema elimina a neces-
sidade de revirar as pilhas, por isso o sistema é cha-
mado de estático. Dessa forma, a mistura atinge al-
tas temperaturas e o ar injetado pode ser ajustado
em condições ideais, além de também ser favorável
ao controle dos odores.
4. O ar injetado nas pilhas contém partículas odorífe-
ras; por isso, antes de ser solto para a atmosfera,
é submetido a um tratamento, que consiste em
passar por um biofiltro formado por lascas e cas-
cas de madeiras. O calor e a umidade fazem com
que micro-organismos adiram às lascas e cascas de
madeira e se alimentem das partículas odoríferas.
Depois de dois anos, esse material é substituído e
segue para a compostagem.
Fonte: POLZER (2011).
Figura 1 – Fotos da Usina de compostagem acelerada em Richmond.
Polzer, V.R.
130
RBCIAMB | n.40 | jun 2016 | 124-136
5. O sistema CASP demora aproximadamente duas se-
manas para ser finalizado. Cada célula é reestrutu-
rada periodicamente, começando todo o processo
novamente, por meio de um método desenvolvido
pela Harvest. A vantagem dessa tecnologia é que não
é necessário mover, transferir, reconstruir e homo-
geneizar a mistura, evitando assim odor incidental e,
também, a utilização de mão de obra, energia, com-
bustível e equipamentos para revirar o composto.
6. Seguindo o processo CASP, o produto é livre de
contaminantes e segue para um período de ma-
turação de um a dois meses para aumentar ainda
mais a qualidade do composto. O resultado é um
composto estável, de alta qualidade, livre de agen-
tes patológicos e com cheiro de terra. O produto
pode ser comercializado em atacado ou varejo, ser
ensacado e distribuído em supermercados e ser
aplicado para diversos fins como agricultura, con-
trole de erosão e paisagismo.
Compostagem em São Paulo
A cidade de São Paulo possui uma população em tor-
no de 12 milhões de habitantes (IBGE, 2016) e produz
diariamente cerca de 20 mil toneladas de resíduos só-
lidos. Destes, aproximadamente 12 mil são resíduos
domésticos e o restante é proveniente de outras fontes
de geração, como construção civil, varrição, saúde etc.
(PMSP, 2014).
A coleta domiciliar é realizada por duas concessioná-
rias, a Ecourbis e a Loga. O resíduo coletado é enca-
minhado para três estações de transbordo (Vergueiro,
Santo Amaro e Ponte Pequena) e, de lá, é direcionado
para os dois aterros sanitários que recebem os resí-
duos da cidade de São Paulo: um público, Central de
Tratamentos Leste (CTL), e outro privado, em Caieiras
(PMSP, 2016).
O município de São Paulo conta também com a coleta
seletiva de materiais recicláveis, atendendo 46% dos
domicílios por meio de 22 centrais de triagem, 73 eco-
pontos e 1.500 pontos de entrega voluntária. Com bai-
xa adesão e falta de infraestrutura, o índice de recicla-
gem ainda é baixo e corresponde a apenas 2% de todo
o resíduo gerado em 2015 (PMSP, 2014).
A compostagem urbana torna-se, então, também pela
lei da PNRS, um recurso e uma possibilidade para o mu-
nicípio aproveitar a matéria orgânica, que corresponde
a mais de 50% do resíduo domiciliar do cidadão brasi-
leiro, para gerar emprego e renda. Hoje, esse material
é destinado para os aterros sanitários controlados e li-
xões em todo o país. O desafio é recolher e destinar a
matéria orgânica para a compostagem.
Um paulistano típico gera em torno de 51% de resíduos
orgânicos, 35% de recicláveis e 14% de rejeitos (PMSP,
2014). Com o objetivo de desviar parte do material or-
gânico dos aterros sanitários, a Prefeitura de São Paulo
lançou, em 2014, o programa Composta São Paulo
e distribuiu dois mil minhocários (COMPOSTA SÃO
PAULO, 2016), com o objetivo de incentivar a popula-
ção a reduzir e tratar localmente os resíduos orgânicos,
gerando adubo com os restos alimentares.
Além disso, um projeto piloto de compostagem foi ini-
ciado na Lapa no segundo semestre de 2015. A central
de compostagem da Lapa (Figura 2) recebe em média
35 toneladas de resíduos semanais de 26 feiras. O pro-
jeto foi desenvolvido por uma parceria entre a subpre-
feitura da Lapa, a Autoridade Municipal de Limpeza
Urbana (AMLURB) e a empresa Inova, responsável pela
coleta e execução (PMSP, 2016a).
Segundo o plano de metas da prefeitura, o objetivo
é aumentar a coleta de material reciclável para 10%
e realizar a compostagem do material orgânico das
900 feiras livres e dos serviços de poda. Até o momen-
to, apenas a central da Lapa está operando, mas já fo-
ram definidos os locais onde serão instaladas as quatro
novas usinas de compostagem e outros nove pontos
aguardam definição da localização (PMSP, 2016b).
O método utilizado na central de compostagem da
Lapa é baseado num sistema desenvolvido pela Uni-
versidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e o Centro
de Promoção e Estudos da Agricultura de Grupo (Ce-
pagro) (PMSP, 2016a). A Inova faz a coleta das feiras
livres, deposita o material coletado em uma área de
recebimento e de lá o material segue para a leira de
compostagem. Há seis leiras no local, uma para cada
dia da semana em que há feiras livres. Assim, a leira
recebe material em um dia e descansa os outros seis
dias. Esse descanso faz com que a temperatura atinja
em torno de 70°C, tornando o processo mais eficiente.
Compostagem: uma necessidade dos centros urbanos
131
RBCIAMB | n.40 | jun 2016 | 124-136
A técnica utilizada é a de leiras estáticas com aeração
natural, ou seja, não é necessário revolver o compos-
to. As leiras não podem ultrapassar a largura de dois
metros para permitir uma boa aeração, sete metros de
comprimento, dois metros de altura e podem acumular
cerca de oito toneladas de resíduos orgânicos (ABREU
et al., 2015).
A área utilizada para a realização da compostagem é
um pátio inutilizado de 3.000 m² (PMSP, 2016a). O aca-
bamento original do piso era de asfalto que recebeu
uma camada de brita e uma manta de impermeabili-
zação nos locais de operação das leiras. Todo o líquido
percolado é coletado e armazenado em tanques. Devi-
do à concentração de nutrientes, o líquido é chamado
de biofertilizante, e é reinserido nas leiras para manter
a umidade ideal.
Na década de 1970, a cidade possuía duas usinas de
compostagem que recebiam cerca de 11% dos resíduos
domiciliares e de varrição produzidos. Os resíduos che-
gavam misturados e eram separados em recicláveis,
orgânicos e rejeitos. No final do processo, era possível
reciclar e compostar 8% dos resíduos gerados na cida-
de (JACOBI, 2006). Portanto, o município de São Paulo
chegou a ter um índice de aproveitamento maior dos
resíduos nesse período do que em 2015, em que des-
viava apenas 2% do resíduo coletado para a reciclagem.
As reclamações da população próxima às usinas da
Vila Leopoldina e de São Matheus, referentes princi-
palmente ao mau cheiro, fizeram com que as instala-
ções fossem fechadas em 2004. A maioria das usinas
de compostagem instaladas no país passou pelas mes-
mas dificuldades e apresentou problemas na qualida-
de do composto e em todo o processo de separação
e tratamento, o que levou essas instalações a caírem
em descrédito (PEREIRA NETO, 1996; LELIS & PEREIRA
NETO, 2001).
Se as usinas de compostagem tivessem passado por
reformas que considerassem técnicas modernas para
neutralização de odores e melhorias em todo o proces-
so, os índices de compostagem e reciclagem poderiam
ser muito mais altos. O fechamento das usinas fez com
que o tratamento dos resíduos orgânicos fosse negli-
genciado e elevou a barreira para a implantação de um
sistema de coleta e tratamento desse material.
Aplicação do adubo nos centros urbanos
O composto orgânico é rico em nutrientes e pode ser
utilizado largamente na agricultura em geral, em jar-
dins, canteiros, hortas urbanas e telhados verdes, no
paisagismo, no combate e controle de erosão etc.
Trata-se de uma matéria-prima abundante nos centros
urbanos e que é desperdiçada ao ser destinada aos
Fonte: POLZER (2016).
Figura 2 – Central de compostagem da Lapa em São Paulo.
Polzer, V.R.
132
RBCIAMB | n.40 | jun 2016 | 124-136
aterros sanitários. O adubo gerado poderia estimular
o aumento de áreas verdes, tão importantes para au-
mentar a qualidade de vida da população local, me-
lhorar o microclima, reter água de chuva, minimizar as
ilhas de calor além de colaborar com o bem-estar da
população, que poderá usufruir dessas áreas, tão es-
cassas em centros urbanos.
A utilização de telhados verdes traz novas possibilida-
des de uso para uma área que normalmente é desti-
nada apenas para equipamentos de ar-condicionado e
demais instalações do edifício. Com o telhado verde,
essa área recebe um uso adicional e ainda contribui
para retenção e absorção de água pluvial, melhora da
qualidade do ar e do microclima local, além de gerar
emprego e renda para a população que produz o adu-
bo orgânico e faz a manutenção dos jardins e hortas.
As cidades, por serem locais normalmente sem espa-
ços verdes, têm a oportunidade de utilizar o composto
produzido a partir da matéria orgânica para aumentar
a qualidade de áreas verdes já existentes e ainda criar
novos espaços em locais impermeáveis como calçadas,
muros, coberturas e outros.
Na Grande Vancouver é comum a população que mora
nas periferias ter sua própria horta em casa e utilizar os
restos de alimentos para enriquecer o solo. Os terrenos
em geral são ocupados no centro do lote, deixando um
jardim na frente e uma horta no fundo. Já a população
que mora no centro, em edifícios residenciais e que,
portanto, não possuem área verde para plantio, podem
usufruir das hortas urbanas, que são espaços públicos
cedidos pelo governo para a população realizar o plan-
tio. Cada grupo de pessoas recebe um canteiro e todos
os equipamentos necessários, que ficam em um abrigo
no próprio local. As hortas urbanas variam de tamanho,
algumas são canteiros pequenos e outras são quadras
inteiras, proporcionando à população alimento orgâni-
co produzido por eles mesmos.
Em São Paulo, há um movimento para o desenvolvi-
mento das hortas urbanas em espaços públicos e já
existem alguns exemplos de sucesso, como a Horta das
Corujas na Vila Madalena, a Horta do Ciclista no cruza-
mento da Avenida Paulista com a Rua da Consolação,
e outras. A grande dificuldade em São Paulo ainda é a
falta de consciência ambiental e o entendimento por
parte da sociedade de que essa atividade tem muito a
contribuir para elevar a qualidade de vida da população
local, pois não é só o aspecto ambiental que deve ser
considerado, mas também o aspecto social, pois essa
atividade promove o encontro de pessoas do mesmo
bairro, além de ser uma atividade de lazer.
Além dos aspectos já mencionados, a compostagem
urbana gera uma nova atividade econômica, por meio
da comercialização do adubo, que tem potencial para
trazer emprego e renda para a população. Segundo
Epstein (1997), a compostagem pode ser também uma
alternativa economicamente mais viável do que o en-
vio e a manutenção de aterros sanitários. O composto
é considerado estável, semelhante ao húmus da mi-
nhoca, e pode ser utilizado para diversos usos.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Tendo como destino os aterros sanitários na maior par-
te dos casos, os resíduos orgânicos irão se degradar
lentamente dentro da célula de lixo, juntamente com
materiais inorgânicos. O processo de decomposição é
prolongado, pois dentro da célula a matéria orgânica é
isolada do contato com o solo, não recebendo umida-
de, troca de calor e aeração. Dessa forma, os resíduos
orgânicos, além de demorarem mais para se decom-
por, também estão misturados com outros tipos de
materiais descartados que podem ser inertes ou peri-
gosos, como pilhas, baterias, tintas, medicamentos e
outros. Os produtos da reação de oxidação da matéria
orgânica são altamente contaminantes. Como exem-
plos, há o chorume, líquido tóxico que percola pelas
células de lixo do aterro e é captado por um sistema
de drenagem horizontal, e o gás metano, captado por
drenagens verticais. Mesmo em aterros sanitários, que
são considerados ambientalmente adequados em re-
lação às demais formas de deposição de resíduos no
solo, como os vazadouros a céu aberto, não é possível
coletar totalmente os gases e líquidos produzidos pela
decomposição da matéria orgânica. Depois de diversos
estudos sobre análise de ciclo de vida de aterros sani-
tários, os pesquisadores assumiram que tecnicamente
50% do metano produzido em uma célula de lixo é de
fato capturado para gerar energia (IPCC, 2006). Se essa
matéria orgânica fosse desviada para a compostagem,
todos os efluentes e emissões seriam tratados de ma-
Compostagem: uma necessidade dos centros urbanos
133
RBCIAMB | n.40 | jun 2016 | 124-136
neira mais eficiente e com menor risco e impacto ao
meio ambiente.
Se os resíduos forem dispostos em vazadouros a céu
aberto a contaminação é ainda maior, pois nesse local
o solo não foi impermeabilizado e preparado para re-
ceber os resíduos. Não há rede de drenagem de choru-
me e nem captação do gás metano, ou seja, todos os
efluentes e emissões são despejados diretamente no
local, contaminando o ar, o solo, os lençóis freáticos e
corpos d’água, assim como a população ao redor.
A produção de resíduos orgânicos é agravada, também,
pela alta taxa de desperdício de alimentos, tanto por
parte do consumidor quanto por parte dos distribui-
dores e intermediários. Uma correção a esse problema
seria a redução na origem por meio do consumo cons-
ciente e práticas de doação de alimentos para a popu-
lação carente, evitando o desperdício e a produção de
mais resíduo orgânico.
A utilização dos resíduos orgânicos urbanos apresenta
uma série de vantagens para a cidade e ainda é pou-
co ou mal explorada. São diversas oportunidades que
poderiam ser largamente empregadas trazendo muitos
benefícios, como:
• benefícios sociais: envolvimento da população na
separação dos resíduos orgânicos e recicláveis nas
residências e estabelecimentos comerciais; sua apli-
cação no meio urbano trazendo bem-estar para a
população local; promoção da consciência ambien-
tal e divulgação de novas práticas sociais;
• benefícios econômicos: geração de renda e em-
prego por meio da comercialização do adubo; re-
dução dos custos de operação e manutenção dos
aterros sanitários e o prolongamento da sua vida
útil sem necessidade de abertura de novos ater-
ros sanitários;
• benefícios culturais: o envolvimento da sociedade
nas hortas urbanas e outros eventos relacionados
à prática do plantio e a oficinas de compostagem;
aproveitamento de áreas públicas para ampliação
de áreas verdes e espaços de lazer;
• benefícios políticos: participação e envolvimento da
sociedade exercendo seus direitos de cidadãos nas
políticas públicas e garantindo a expansão e a quali-
dade das áreas verdes;
• benefícios espaciais: promoção dos espaços públi-
cos transformando-os em áreas verdes de qualida-
de; mais espaços de lazer e convívio público; pro-
longamento da vida útil dos aterros sanitários;
• benefícios ambientais: redução da ilha de calor por
meio da inserção de áreas verdes sobre áreas im-
permeabilizadas por coberturas verdes e jardins
verticais; redução das enchentes com a absorção
de água de chuva pela vegetação introduzida nos
centros urbanos; aumento da consciência ambien-
tal por parte da população; melhora do microclima
local por intermédio da vegetação inserida e outros.
O desafio das cidades é recolher o material orgânico
das residências, estabelecimentos comerciais como es-
critórios, supermercados, hortifrutigranjeiros e outros e
destinar para usinas de compostagem acelerada, onde
a matéria orgânica será então processada e transforma-
da em adubo, cujas aplicações são muitas, como cober-
turas verdes, agricultura, hortas urbanas, parques etc.
O encerramento das usinas de compostagem na cidade de
São Paulo foi crucial para impedir o desenvolvimento de téc-
nicas mais avançadas de compostagem e fez com que o mu-
nicípio retrocedesse na gestão dos resíduos sólidos. Segundo
Barreira et al. (2006), as usinas de compostagem são equi-
pamentos necessários e importantes para desviar o material
orgânico dos aterros sanitários e proteger o meio ambiente.
Porém, a instalação da usina piloto na subprefeitura da
Lapa pode permitir que novas usinas sejam instaladas
e que essa atividade seja retomada com técnicas mais
modernas de neutralização de odores, o que garantiria
a qualidade do composto orgânico para que este fosse
comercializado e empregado em diversos usos.
A técnica utilizada em Vancouver demonstra que é pos-
sível tratar grandes quantidades de material orgânico,
mas o material deve ser separado na origem para que
não ocorra contaminação de plásticos e metais pesa-
dos presentes nas tintas das embalagens em geral.
Para que a compostagem nos centros urbanos tenha
sucesso é necessário não somente o emprego de
técnicas e infraestrutura mais atuais, mas também o
envolvimento da sociedade na correta separação do
material, garantindo que não haverá contaminação de
outros resíduos como material reciclável e rejeitos.
Polzer, V.R.
134
RBCIAMB | n.40 | jun 2016 | 124-136
CONCLUSÃO
Devido à grande produção de resíduos orgânicos nos
centros urbanos, faz-se necessário o emprego de técni-
cas de compostagem acelerada, de forma a aproveitar
esse material transformando-o em recurso para novas
atividades, como hortas urbanas, jardins, combate à ero-
são, agricultura e outros. Além disso, a comercialização
do composto gera emprego e renda para a população.
Ao ser acelerada, a compostagem otimiza o espaço físico
necessário para essa atividade, o que é determinante nos
centros urbanos, que não possuem extensos locais para
desenvolvimento de processos artesanais tradicionais.
O uso de tecnologia para acelerar a compostagem urba-
na é tão necessário quanto imprescindível para atender
a demanda de produção de resíduos orgânicos de forma
eficiente e econômica num espaço reduzido. Além dis-
so, os municípios também sofrem com a falta de espaços
ambientalmente adequados para a implantação de no-
vos aterros sanitários. Somado a isso, também há o alto
custo de operação e manutenção e o grande impacto
ambiental provocado por esses equipamentos. Portanto,
a compostagem urbana é um dos mais importantes me-
canismos de redução dos resíduos que são depositados
nesses locais, aumentando sua vida útil e diminuindo os
custos dessa instalação para os municípios.
A cidade de Vancouver tem a preocupação em destinar
corretamente os resíduos sólidos produzidos e, para
isso, conta com a participação da população, que se-
para as frações de materiais orgânicos, recicláveis e re-
jeitos. Conta também com a infraestrutura necessária
para a realização da coleta e tratamento dos orgânicos.
Trata-se de um sistema eficiente e que pode ser consi-
derado como exemplo para outras cidades.
Apesar da falta de infraestrutura, como coletas por tipo
de material, condições de armazenamento e usinas de
tratamento de material orgânico, as cidades brasileiras
têm o dever, segundo a PNRS, de desviar os materiais
orgânicos assim como os recicláveis dos aterros sanitá-
rios. Sendo assim, usinas de compostagem como a de
Vancouver e a da Lapa em São Paulo são duas formas
de tratamento que poderiam ser utilizadas, dependen-
do das condições locais de espaço e recursos naturais.
REFERÊNCIAS
ABRELPE – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE EMPRESAS DE LIMPEZA PÚBLICA E RESÍDUOS ESPECIAIS. Panorama dos
resíduos sólidos no Brasil, 2014. Disponível em: . Acesso em: 21 jun. 2016.
ABREU, M. J. de; PALERMO, P. R. O.; BOTTAN, G. A. et al. A Compostagem Termofílica como metodologia para
restauração de áreas degradadas dentro de uma Unidade de Conservação, Florianópolis (SC). In: IX Congresso Brasileiro
de Agroecologia, Belém, PA. Cadernos de Agroecologia, v. 10, n. 3, 2015.
BANCO MUNDIAL. What a waste. A Global Review of Solid Waste Management, n. 15. Washington, 2012.
BARREIRA, L. P.; PHILIPPI JUNIOR, A.; RODRIGUES, M. S. Usinas de compostagem do estado de São Paulo: qualidade dos
compostos e processos de produção. Engenharia Sanitária Ambiental, v. 11, n. 4, p. 385-363, 2006.
BRASIL. Lei n. 12.305, de 2 de agosto de 2010. Institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos; altera a Lei nº 9.605, de
12 de fevereiro de 1998; e dá outras providências. Disponível em: . Acesso em: 24 out. 2016.
COMPOSTA SÃO PAULO. Projeto Composta São Paulo, 2016. Disponível em: .
Acesso em: 21 jun. 2016.
EPSTEIN, E. The Science of Composting. Pennsylvania: Technomic Publishing, 1997.
GVRD – GREATER VANCOUVER REGIONAL DISTRIC. Census Demographic Bulletins and Maps. 2013. Disponível em:
. Acesso em: 30 jun. 2013.
Compostagem: uma necessidade dos centros urbanos
135
RBCIAMB | n.40 | jun 2016 | 124-136
______. Solid Waste Manual. Vitoria: Queen’s Printer, 1998.
HARVEST, P. Organics Management. 2014. Disponível em: . Acesso em: 12 abr. 2014.
IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. São Paulo – população estimada. 2016. Disponível em:
. Acesso em: 24 jun. 2016.
IPCC – INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE. 2006 IPCC Guidelines for National Greenhouse Gas
Inventories. Japan: Waste, IGES, 2006. v. 5.
JACOBI, P. R. (org.). Gestão compartilhada dos resíduos sólidos no Brasil: inovação com inclusão social. São Paulo:
Annablume, 2006.
KEEP VANCOUVER SPECTACULAR. Keep Vancouver spectacular! Vibrant and clean neighbourhoods start with you. 2016.
Disponível em: . Acesso em: 21 jun. 2016.
LELIS, M. P. N.; PEREIRA NETO, J. T. Usinas de reciclagem de lixo: porque não funcionam. In: CONGRESSO BRASILEIRO
DE ENGENHARIA SANITÁRIA E AMBIENTAL, 21. Anais... João Pessoa: ABES, 2001. p. 1-9.
METRO VANCOUVER. Planning for 2020. Disponível em: . Acesso em: 21 jun. 2016.
MILLER, Frederick. C. Composting as a process base on the control of ecologically selective factors. In: METTING JUNIOR,
F. B. Soil Microbial Ecology: application in agricultural and environmental management. [Boca Raton]: CRC Press, 1993.
p. 515-541.
OLIVEIRA, A. M. G.; AQUINO, A. M. de; NETO, M. T. de C. Compostagem Caseira de Lixo Orgânico Doméstico. Empraba
Mandioca e Fruticultura Tropical. Circular Técnica, 76. 1. ed. Bahia, 2005. Disponível em: . Acesso em: 12 abr. 2014.
OLIVEIRA, E. C. A. de; SARTORI, R. H.; GARCEZ, T. B. Compostagem. Universidade de São Paulo (USP), Escola Superior de
Agricultura Luiz de Queiroz, Programa de Pós-graduação em solos e nutrição de plantas. Piracicaba, 2008. Disponível
em: .
Acesso em: 24 jun. 2016.
OPUS DAYTONKNIGHT. Harvest Energy Garden. The future of organic waste management. 2013. Disponível em:
. Acesso em: 6
abr. 2014.
PEREIRA-NETO, J. T. Composting Experiences and Perspectives in Brazil. In: BERTOLDI, M.; SEQUI, P.; LEMMES, B.;
TIZIANO, P. Science of Composting Part 2. 1. ed. England: Chapman & Hall (Edit.), 1996. p. 729-735.
PMSP – PREFEITURA DE SÃO PAULO. Plano de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos do Município de São Paulo, versão
2014. PMSP: 2014. Disponível em: . Acesso em: 23 nov. 2015.
______. A coleta de lixo em São Paulo. 2016. Disponível em: < http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/
servicos/coleta_de_lixo/index.php?p=4634 >. Acesso em: 21 jun. 2016.
______. Prefeitura inaugura central de compostagem para reciclar resíduos das feiras livres. 2016a. Disponível em:
. Acesso em: 21 jun. 2016a.
______. Programa de metas 2013-2016. 2016b. Disponível em: < http://planejasampa.prefeitura.sp.gov.br/metas/>.
Acesso em: 21 jun. 2016b.
Polzer, V.R.
136
RBCIAMB | n.40 | jun 2016 | 124-136
POLZER, V. R. Fotos da visita técnica à usina de compostagem acelerada em Richmond, 2011.
______. Gestão dos resíduos sólidos urbanos domiciliares em São Paulo e Vancouver. Dissertação (Mestrado em
Arquitetura e Urbanismo) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2012.
______. Foto da central de compostagem da Lapa em São Paulo, 2016.
RYNK, Robert. On-Farm composting handbook. Ithaca – NY: Northeast Regional Agricultural Engineering Service,
1992, 188p.
SOLID WASTE, City of Vancouver. Solid Waste Management Branch. Solid Waste Division Report 2010. Publicado em:
dez. 2011.