59 RBCIAMB | n.39 | mar 2016 | 59-69 Ittana de Oliveira Lins Mestre em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente da UESC – Ilhéus (BA), Brasil. Henrique Leonardo Maranduba Mestre em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). Doutorando do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente da UESC — Ilhéus (BA), Brasil. Luciano Brito Rodrigues Doutor em Engenharia Mecânica pela Universidade Estadual de Minas Gerais (UFMG). Professor Titular no Departamento de Tecnologia Rural e Animal da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) – Itapetinga (BA), Brasil. José Adolfo de Almeida Neto Doutor em Engenharia Agrícola pela Universitaet Kaseel, Alemanha, reconhecido pela Universidade de São Paulo (USP). Professor Titular no Departamento de Ciências Agrárias e Ambientais da UESC — Ilhéus (BA), Brasil. Endereço para correspondência: Ittana de Oliveira Lins – Rua Osmundo Marques, 37 – São Francisco – 45659-200 – Ilhéus (BA), Brasil – E-mail: ittanalins@gmail.com RESUMO Este trabalho avaliou o desempenho ambiental dos cachos de frutos de dendê na região do Baixo Sul do estado da Bahia, comparando os cultivos convencional e orgânico. A avaliação seguiu os passos indicados pelas normas ISO 14040 e 14044 para avaliar as categorias de impacto: acidificação, aquecimento global e uso de recursos não renováveis. O cultivo orgânico apresentou o melhor desempenho, reduzindo, comparativamente ao cultivo convencional, os impactos em 27,6% para o aquecimento global, 69,0% para o uso de recursos não renováveis e 89,4% para a acidificação. O principal fluxo elementar no sistema de cultivo convencional foi o uso de fertilizantes sintéticos, devido a seu elevado consumo energético e emissões na fase de uso. Para o cultivo orgânico, o principal fluxo elementar foi o transporte do fertilizante orgânico, com consumo de recursos fósseis (diesel) e emissões relacionadas ao aquecimento global e à acidificação. Apesar dos indicadores favorecerem o cultivo orgânico, é importante considerar a interdependência entre os sistemas produtivos. Palavras-chave: avaliação do ciclo de vida; impacto ambiental; sistemas de cultivo; Elaies guineenses. ABSTRACT This study evaluated the environmental performance of palm fruit bunches in the Southern region of Bahia state, Brazil, comparing the conventional and organic crops. The assessment followed the steps in ISO 14040 and 14044 to assess the impact categories: acidification, global warming and use of non-renewable resources. In comparison to conventional crops, organic crops presented the best environmental performance, reducing the impacts in 27.6% for global warming, 69.0% for non-renewable resources and 89.4% for acidification. The main elementary flow in conventional crops system has been the use of synthetic fertilizers, due to their high energy demand and direct emissions in the use phase. In organic crops, the main elementary flow has been the organic fertilizers transportation, due to fossil (diesel) burning and emissions related to global warming and acidification. Although the organic crops present the best results, compared with conventional crops, it is important to consider the production systems interdependence. Keywords: life cycle assessment; environmental impact; farming systems; Elaies guineenses. DOI: 10.5327/Z2176-947820160069 DESEMPENHO AMBIENTAL DOS CACHOS DE FRUTOS DE DENDÊ DE PRODUÇÕES CONVENCIONAL E ORGÂNICA NA REGIÃO DO BAIXO SUL DA BAHIA ENVIRONMENTAL PERFORMANCE OF PALM FRUIT BUNCHES FROM CONVENTIONAL AND ORGANIC PRODUCTION IN THE SOUTH BAHIA REGION Lins, I.O. et al. 60 RBCIAMB | n.39 | mar 2016 | 59-69 INTRODUÇÃO As atividades agrícolas, além de fornecedoras de ali- mentos para o consumo humano, são fontes de ma- térias-primas para diversas atividades econômicas. Por outro lado, a demanda das atividades agrícolas mo- dernas por grandes quantidades de recursos naturais, renováveis ou não renováveis, resulta em impactos negativos ao meio ambiente (CLAUDINO & TALAMINI, 2013). Tais impactos podem variar em função de diver- sos fatores, como a tecnologia empregada, o manejo praticado e as condições edafoclimáticas do local onde a cultura está sendo desenvolvida (NTIAMOAH & AFRA- NE, 2008; OFORI-BAH & ASAFU-ADJAVE, 2011; BESSOU et al., 2016a, 2016b; CASTANHEIRA & FREIRE, 2016). Associados ao processo de modernização e intensifi- cação de áreas de cultivo, com o objetivo principal de aumentar a produção e a produtividade, o manejo em diversas culturas inclui práticas como o desmatamento e o uso intensivo de insumos agrícolas originados de fontes não renováveis, as quais são causadoras de im- pactos ambientais à montante e à jusante da atividade agrícola (GALHARTE & CRESTANA, 2010; HAPPE et al., 2011; TUOMISTO et al., 2012; SIREGAR et al., 2015; BESSOU et al., 2016a, 2016b). A partir da década de 1960, com a Revolução Verde, as atividades agrícolas foram intensificadas pela utilização em grande escala de adubos sintéticos solúveis, pesti- cidas, herbicidas e pela mecanização agrícola intensiva, associada ao uso de sementes melhoradas ou modifi- cadas geneticamente. Tais práticas, as quais passaram desde então a caracterizar a agricultura convencional, resultaram em um aumento tanto da produtividade como também dos consequentes impactos ambientais (ALBERGONE & PELAEZ, 2007). Contrapondo esse modelo de produção e manejo agrí- colas, denominado neste trabalho como “cultivo con- vencional”, tem-se o modelo de produção e manejo orgânico. Também conhecido como “agricultura orgâ- nica” (neste trabalho denominado “cultivo orgânico”), tal prática apresenta-se como uma proposta promisso- ra para a redução dos impactos ambientais negativos, identificados no modelo convencional, especialmente com relação ao uso de insumos agrícolas de origem não renovável, uma vez que prescinde do uso dos insu- mos já mencionados (NEMECEK et al., 2011). Focando na prática de adubação como uma das carac- terísticas que diferencia esses dois tipos de manejos agrícolas, Reinhardt, Rettenmaier e Gärtner (2007) constataram que adubos sintéticos solúveis garantiram elevadas produtividades em sistemas de cultivo condu- zidos sob o manejo convencional. Porém, Choo et al. (2011) verificaram danos irreversíveis aos sistemas en- volvidos, tais como contaminação do solo e emissão de gases poluentes para a atmosfera, cujos impactos foram identificados tanto na fase de uso como na fase de produção desses insumos. Tomando como referência uma das principais culturas agrícolas da região Baixo Sul da Bahia, o dendê (Elaies guineenses L.) tem sido cultivado sob o modelo de mo- nocultura convencional, contando com mais de 53 mil ha de área em produção (IBGE, 2012). O dendezeiro, espécie de palmeira oleaginosa pertencente à família Arecaceae, destaca-se das demais oleaginosas pela elevada produtividade de óleo, com rendimento anual de 4,0 a 6,0 t.ha-1.a-1, podendo produzir até 10 vezes mais óleo do que outras oleaginosas, o que o torna a espécie vegetal que apresenta a maior produtividade em óleo bruto (SUMATHI; CHAI; MOHAMED, 2008; QUEIROZ; FRANÇA; PONTE, 2012). As formas de cul- tivo e manejo convencional adotadas para a cultura do dendê têm causado diversos impactos negativos ao ambiente, destacando-se a perda de biodiversida- de e alterações das propriedades físico-químicas do solo (REINHARDT; RETTENMAIER; GÄRTNER, 2007; SCHMIDT, 2007, 2010). A expansão de grandes áreas cultivadas nesse modelo, mesmo considerando o uso de áreas degradadas e a substituição de áreas de cul- tivo subespontâneo — populações naturais de dende- zeiros predominantemente da variedade dura, que se expandiram em áreas abertas, exploradas pelo sistema extrativista — podem provocar significativos impac- tos ambientais negativos (CORLEY, 2009). Este traba- lho avaliou o desempenho ambiental dos cachos de frutos de dendê produzidos na região Baixo Sul do estado da Bahia, comparando dois sistemas de cultivo, o convencional e o orgânico, de dendê da variedade Tenera, fruto do cruzamento das varie- dades dura e pisifera, sendo a variedade que pre- domina nos cultivos comerciais de dendê. Desempenho ambiental dos cachos de frutos de dendê de produções convencional e orgânica na região do baixo sul da Bahia 61 RBCIAMB | n.39 | mar 2016 | 59-69 METODOLOGIA Área de estudo A área de estudo está inserida no Bioma Mata Atlântica, compreendendo dois municípios da região Baixo Sul do es- tado da Bahia (Figura 1). Nessa região são cultivados 54.031 ha, cuja produção, segundo o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2014, foi de 204.961 toneladas de cachos de frutos de dendê (IBGE, 2012). O clima predominante nessa região é do tipo B2r (classifi- cação de Thornthwaite), úmido com pequena ou nenhu- ma deficiência hídrica mensal e com pequenas oscilações de temperatura do ar ao longo do ano. Possui ainda forte influência do clima litorâneo, com umidade relativa mé- dia em torno de 80 a 90% e velocidade média dos ventos entre 1,29 e 2,9 m.s-1, dependendo dos meses do ano (ALMEIDA, 2001). Os solos são bastante variados, predo- minando os Latossolos Podzólicos (profundos, típicos de clima úmido e de baixa fertilidade). Região do Baixo Sul da Bahia Bancos de Dados CPRM DATUM WGS 1984 Base cartográfica do LabClima, 2016 Ittana de Oliveira Lins Municípios em estudo Baixo Sul da Bahia Demais municípios 0 15 30 km Figura 1 – Região Baixo Sul, Bahia, destacando-se os dois municípios onde estão localizadas as fazendas de cultivo de dendezeiros, consideradas neste estudo. Método de pesquisa Este trabalho foi realizado seguindo os princípios da metodologia da Avaliação do Ciclo de Vida (ACV), nor- matizada segundo as ISO 14040 e 14044 (ISO, 2006a, 2006b). Conforme previstas na ISO, procedeu-se a mo- Lins, I.O. et al. 62 RBCIAMB | n.39 | mar 2016 | 59-69 delagem dos sistemas de produto, a construção do in- ventário de dados, a análise dos fluxos de massa e de energia e a avaliação dos impactos ambientais no ciclo de vida dos frutos nos cultivos convencional (CC) e or- gânico (CO). O método considerado para avaliação dos impactos ambientais foi o desenvolvido pelo Instituto de Ciên- cias Ambientais da Universidade de Leiden, o Centrum voor Milieuwetenschappen Leiden (CML 2), baseline 2000 com normalização World 1995 (GUINÉE, 2001; GRANT; RIES; THOMPSON, 2016; CASTANHEIRA & FREI- RE, 2016). As categorias de impacto ambiental utiliza- das do método CML 2 foram definidas conforme sua relevância para o estudo em questão, a saber: acidifi- cação — por avaliar as emissões de óxido de nitrogênio (NOx), dióxido de enxofre (SOx) e amônia (NH3) e a de- posição de ácidos nítrico e sulfúrico sobre a vegetação e os recursos hídricos, originados das práticas de adu- bação —; aquecimento global (por avaliar as emissões de CO 2 e de outros gases causadores do efeito estufa para a atmosfera, devido, principalmente, ao consumo de combustível fóssil (CF) nas práticas de manejo e no ciclo de vida dos insumos agrícola); e uso de recursos não renováveis (para avaliar o consumo total de ener- gia e de recursos naturais). A fronteira estabelecida para o sistema de produ- to baseou-se na abordagem “berço a portão”, sendo consideradas as etapas relacionadas à produção agrí- cola dos cachos de frutos de dendê. Os inventários de dados foram construídos a partir de dados primários e secundários. Os dados primários foram coletados por meio de visitas às empresas produtoras e processa- doras de dendê na região Baixo Sul da Bahia, utilizan- do-se observação direta, aplicação de formulários aos técnicos agrícolas responsáveis pelo cultivo e consulta telefônica a técnicos e especialistas. Os dados levan- tados foram validados por especialistas na cultura do dendezeiro da Comissão Executiva do Plano da Lavou- ra Cacaueira (CEPLAC), em Ilhéus, na Bahia, por meio de reuniões técnicas. Os dados primários obtidos nas coletas referem-se às informações agronômicas sobre o manejo da cultura, tais como tipo e quantidade de cada insumo agrícola utilizado e práticas de manejo adotadas. No caso da mecanização, foram levantadas informações de equipamentos utilizados (se necessá- rio), consumo de combustível e produtividade. Os dados secundários são referentes às especificações técnicas dos insumos agrícolas e consumo de combus- tível das máquinas agrícolas utilizadas, obtidos a partir de artigos científicos, relatórios técnicos das empresas e da CEPLAC e complementados com a base de dados ecoinvent versão 2.2 (ecoinvent Centre). Os dados foram coletados com auxílio de planilhas ele- trônicas e incluídos no software proprietário SimaPro 8.0(Pré Consultant), para manuseio, modelagem dos sistemas de cultivo, cálculos de caracterização, avaliação de impacto, análise de incertezas e interpretação. As in- certezas foram estimadas com base na matriz Pedigree associada à simulação de Monte Carlo (1.000 interações, intervalo de confiança de 95%) (CIROTH et al., 2013). Descrição do processo Foram analisados comparativamente os cachos de fru- tos de dendê da variedade Tenera produzidos por meio do CC e CO (Quadro 1). Os sistemas de cultivo são caracterizados pelas mesmas etapas: produção de mudas, preparo da área, plantio, tratos culturais, colheita e transporte, conforme repre- sentação na Figura 2. A diferença entre eles está no tipo dos insumos agrícolas utilizados nas etapas preparo da área, plantio e tratos culturais, conforme entradas in- dicadas pela representação pontilhada, demonstrando as diferenças entres os dois sistemas (inputs). Os fluxos mássicos e energéticos de fertilizantes e con- sumo de diesel que entram e saem dos sistemas foram processados e normalizados para a unidade funcional de 18.720 kg de cachos de frutos de dendê, o equiva- lente à produtividade média de 1 ha.a-1 (Tabela 1). Os impactos relacionados à infraestrutura das pro- priedades agrícolas e relacionados à ocupação e transformação do uso da terra, tais como a vegetação existente, e/ou prática de desmatamento, foram des- consideradas. Foi desconsiderado na alocação dos im- pactos entre os sistemas que, para o suprimento em cachos vazios para 1 ha de cultivo orgânico de dendê, foi necessário o uso dos cachos vazios de 8 ha de culti- vo convencional. Desempenho ambiental dos cachos de frutos de dendê de produções convencional e orgânica na região do baixo sul da Bahia 63 RBCIAMB | n.39 | mar 2016 | 59-69 Quadro 1 – Descrição dos sistemas de cultivo avaliados. Cultivo convencional Cultivo orgânico Sistema modelado a partir de dados médios para os aspectos ambientais do ciclo de vida dos cachos frutos de dendê, originados de sistemas de cultivo de dendê Tenera sob o manejo convencional, incluindo recomendação de adubação, consumo de combustível fóssil na mecanização agrícola e etapas de transporte, obtidos nas áreas agrícolas das duas principais empresas que cultivam dendezeiros e extraem o óleo de dendê, instaladas nos municípios de Taperoá e de Nazaré, no estado da Bahia. Sistema modelado a partir de dados médios para os aspectos ambientais do ciclo de vida dos cachos de frutos de dendê Tenera sob manejo orgânico, incluindo consumo de combustível fóssil na mecanização agrícola e etapas de transporte. Os dados de recomendação de adubação foram baseados em Viégas e Botelho (2000, p. 267), considerando a mesma produtividade de cachos de frutos de dendê estimada para o cultivo convencional. Os aspectos ambientais foram estimados a partir de parâmetros técnicos obtidos por consulta à empresa nacional com área de produção orgânica certificada pelo Instituto Biodinâmico. Cachos de frutos de dendê Água Insumos agrícolas PRODUÇÃO DE MUDAS Mudas TRANSPORTE Diesel Mudas transportadas fertilizantes sintéticos adubo orgânico Diesel (mecanização) PREPARO DA ÁREA Área preparada PLANTIO Diesel (mecanização) Diesel (mecanização) Diesel (mecanização) Insumos agrícolas (convencional) Insumos agrícolas (convencional) fertilizantes sintéticos fertilizantes sintéticos Insumos agrícolas (orgânico) Insumos agrícolas (orgânico) adubo orgânico adubo orgânico adubo orgânico TRATOS CULTURAIS Área tratada COLHEITA Figura 2 – Fluxograma simplificado da produção de cachos de frutos de dendê, conforme os dois sistemas de cultivo analisados, indicando a fronteira deste estudo e os respectivos inputs. Lins, I.O. et al. 64 RBCIAMB | n.39 | mar 2016 | 59-69 RESULTADOS E DISCUSSÃO O sistema de produto com CO apresentou uma redu- ção expressiva para as categorias de impacto acidifica- ção (AC) e uso de recursos não renováveis (RNR), com 89,4 e 69,0%, respectivamente. Para a categoria aque- cimento global (AG), a redução foi menos expressiva, alcançando 27,6% (Figura 3). No caso da categoria AC, essa diferença favorável ao sistema no CO está relacionada, principalmente, ao uso de fertilizantes sintéticos nitrogenados no sistema de produto no CC, contribuindo para as emissões de NH 3 e NO x . De acordo com Milà i Canals, Romanyà e Cowell (2007), o principal contribuinte para essa categoria é a NH 3 , originada da volatilização dos fertilizantes nitroge- nados, sendo relevante o controle do manejo na apli- cação, observando-se o tipo, a dosagem e as condições climáticas. Nesse mesmo estudo, verificou-se que as emissões de NO x também estão associadas à produção e ao uso de insumos de origem fóssil (emissões oriun- das do ciclo de vida dos derivados fósseis). Com relação às categorias RNR e AC, a diferença a fa- vor do sistema de CO foi menor, devido ao maior con- sumo de CF na mecanização das atividades agrícolas e no transporte e na aplicação do adubo orgânico, com- pensando parcialmente as emissões de gases do efei- to estufa (GEE) oriundas da mecanização e da produ- ção e do uso de fertilizantes sintéticos do cenário CC. Queiroz, França e Ponte (2012) constataram que o uso de fertilizantes contribui para o maior consumo de re- curso natural não renovável na fase agrícola de cultivo de dendezeiros na Amazônia, recomendando ajustes no uso de fertilizantes de origem fóssil com os adubos orgânicos de forma que reduza o consumo de energia nessa fase. Castanheira e Freire (2016) consideraram a recomendação de adubação conforme necessidade nutricional da cultura como prioridade ambiental para a redução da contribuição do cultivo de dendezeiros para as categorias AC, AG e RNR. Segundo Viégas e Botelho (2000), o fato de o dende- zeiro ser classificado como uma cultura perene resulta em vantagens frente às demais oleaginosas, principal- mente por não demandarem o preparo anual do solo para o plantio. Isso traz como consequência o uso me- nos intensivo da mecanização e, consequentemente, um menor consumo de CF, bem como maior estoque de carbono no sistema, em forma de biomassa vegetal aérea e no solo. Na dendeicultura, o maior consumo de CF está associado ao transporte dos cachos de fruto do campo para a indústria de processamento do óleo. Tabela 1 – Inventário do ciclo de vida com dados normalizados para a unidade funcional de 18.720,0 kg.a-1, de cachos de frutos de dendê sob os cultivos convencional e orgânico. Aspectos ambientais (inputs) Unidade Cultivo convencional1,2 Cultivo orgânico3,2 Consumo de diesel L 60,96 94,35 Cloreto de potássio (KCl) kg 152,28 – Fertilizante nitrogenado (ureia) kg 267,92 – Fertilizante superfosfato triplo (P 2 O 5 ) kg 189,00 – Fertilizante fosfato natural kg 20,00 20,00 Sulfato de magnésio (MgSO 4 ) kg 0,26 – Cachos vazios (bucha) t – 28,6 Pesticidas (herbicida, fungicidas e formicida)4 – – – Cachos de frutos de dendê kg 18.720,00 18.720,00 1Cálculos baseados nos parâmetros técnicos da planilha de custos de 1 ha de dendê (ceplac, 2007); 2análise estatística utilizando simulação Mon- te Carlo, com Intervalo de Confiança de 95% e 1.000 interações; 3com base em dados de Viégas e Botelho (2000) e Müller (2000); 4considerando um ciclo produtivo de 25 anos para o dendezeiro, o consumo de pesticidas em cc foi restrito a formicidas na fase inicial da cultura, tendo sido desconsiderado neste estudo. Desempenho ambiental dos cachos de frutos de dendê de produções convencional e orgânica na região do baixo sul da Bahia 65 RBCIAMB | n.39 | mar 2016 | 59-69 Segundo Soraya et al. (2014), a etapa de transporte contribuiu significativamente para os impactos am- bientais decorrentes do ciclo de vida do biodiesel de óleo de dendê porduzido na Indonésia, principalmente na fase agrícola da produção do óleo bruto. Quanto às emissões de GEE para os sistemas de produto com CC e CO na etapa agrícola de produção do cacho de dendê para produção de óleo, o CC apresentou um po- tencial de contribuição para a categoria AG 42% maior do que no CO, com valores absolutos de 2,49 e 1,44 kg CO 2 eq.kg-1 de CF para o CC e o CO, respectivamente. Os valores referentes às emissões de gases que contri- buem para a categoria AC, AG e o consumo de recursos fósseis, referentes à categoria RNR, podem ser visuali- zados na Tabela 2. A Figura 4 destaca os principais processos que contri- buíram para emissão de GEE. Enquanto para o CC as principais contribuições foram da ureia (48,0 g CO 2 .kg-1 de CF) e do superfosfato triplo (21,0 g CO 2 .kg-1 de CF), para o CO o único processo com emissão considerada foi o transporte, especialmente relacionado à opera- ção com os cachos vazios (21,4 g CO 2 .kg-1 de CF). Uso de recursos não renováveis Cultivo convencional Cultivo orgânico Acidificação 180% 160% 140% 120% 100% 80% 60% 40% 20% 0% Aquecimento global (100a) Figura 3 – Comparação dos sistemas de cultivo convencional e orgânico, para as categorias acidificação, aquecimento global e uso de recursos não renováveis. O coeficiente de variação foi estimado utilizando-se o software Simapro 8.0©, combinando a Matrix Pedigree e a Simulação Monte Carlo (1.000 interações, 95%). Tabela 2 – Impacto do sistema de produto com cultivo convencional e orgânico para as categorias acidificação, aquecimento global e uso de recursos não renováveis, normalizadas para a unidade funcional 18.720 kg de cachos de frutos de dendê. *Análise estatística utilizando simulação Monte Carlo, com Intervalo de Confiança de 95% e 1.000 interações. Categorias Unidade Cultivo convencional* Cultivo orgânico* Acidificação tSO 2 eq 0,183 0,0262 Aquecimento global tCO 2 eq 71,042 51,4234 Uso de recursos não renováveis (fóssil) GJeq 119,622 36,5421 Lins, I.O. et al. 66 RBCIAMB | n.39 | mar 2016 | 59-69 Figura 4 – Valores de emissões de CO 2eq (aquecimento global) para o sistema de produto com cultivo convencional e cultivo orgânico na fase agrícola do ciclo de vida dos cachos de frutos de dendê. 80 70 60 50 40 30 20 10 0 Cultivo orgânico Em is sõ es d e g CO 2e q / kg C F Transporte Superfosfato triplo Ureia Potássio (K 2 O) Cultivo convencional Cabe ressaltar que o modelo de produção orgânico adotado prevê uma quantidade de cachos vazios para atender às necessidades nutricionais da planta e que permitam atingir produtividades agrícolas equivalen- tes ao sistema convencional. Nesse caso, para produzir a quantidade de cachos vazios para adubação de 1 ha de dendê no sistema CO, são necessários cerca de 8 ha de dendê convencional, com suas exigências e seus im- pactos previstos ao longo da cadeia de produção. Soraya et al. (2014) confirmam que o uso de fertilizan- tes no CC de dendê foi o principal contribuinte para a categoria de impacto AG. Milà i Canals, Romanyà e Cowell (2007) também constataram que o uso de fer- tilizantes sintéticos no CC de maçãs foi o maior con- tribuinte na emissão de GEE, seguido das emissões de CO 2 na queima de CF nas operações de mecanização. No caso deste estudo, no CO de dendê, o que mais contribuiu na categoria AG foi a combustão de diesel na mecanização intensiva das atividades agrícolas e de transporte, o que justifica a escolha e a importância da seleção das categorias de impactos deste estudo. CONCLUSÃO A avaliação do desempenho ambiental dos cachos de frutos do dendê utilizando-se a ACV possibilitou cons- tatar que mudanças nas práticas de manejo dessa cul- tura apresentam os principais desafios na redução dos impactos ambientais. Os aspectos ambientais destacados neste estudo e as suas contribuições para cada categoria de impacto am- biental foram analisados considerando-se uma mesma produtividade de cachos de frutos de dendê para os dois sistemas de cultivo. Assim, observou-se que mu- danças nas práticas de adubação no CO, principalmen- te no uso de adubos sintéticos produzidos a partir de recursos não renováveis, e redução no uso de combus- tível nas práticas de manejo foram ações identificadas para reduzir os impactos ambientais nas categorias es- tudadas e alcançar a mesma capacidade produtiva do sistema de CC. Se por um lado o CO utiliza mais diesel no processo de transporte do adubo orgânico, isso é compensado nas categorias de impacto AG e RNR por não demandar fer- Desempenho ambiental dos cachos de frutos de dendê de produções convencional e orgânica na região do baixo sul da Bahia 67 RBCIAMB | n.39 | mar 2016 | 59-69 tilizantes sintéticos, que foram responsáveis pelos im- pactos ambientais negativos no sistema de CC. O CO apontou um potencial para redução de impactos ambientais por meio do aproveitamento de resíduos or- gânicos da indústria de extração do óleo, condicionado à logística de retorno dos cachos vazios para as áreas de cultivo orgânico, uma vez que os impactos do transporte são significativos e crescem com a distância transportada. Nesta perspectiva, um resultado do ponto de vista de redução dos impactos ambientais poderia ser alcança- do também utilizando os resíduos orgânicos da indús- tria para reduzir o consumo de fertilizantes sintéticos nas áreas de CC. Nesse sentido, é importante mencionar que as van- tagens do CO, considerando as categorias de impacto estudadas, são limitadas às fontes de aquisição de re- síduos orgânicos necessários ao atendimento das de- mandas nutricionais do CO, dependendo, em princípio, de um outro sistema agropecuário que produza maté- ria orgânica excedente próximo às áreas de cultivo. Com base nas premissas e condições deste estudo, o CO não se justificaria somente pelos critérios ambien- tais. É importante ressaltar que os principais argumen- tos para a manutenção de áreas de cultivo orgânico podem estar relacionados a mercados diferenciados e qualidade nutritiva dos produtos derivados do dendê. Os resultados alcançados neste estudo corroboram para a consolidação da ACV como metodologia de ava- liação de impactos ambientais de produtos agropecuá- rios, auxiliando na tomada de decisão e melhoria de processos e práticas de cultivo, com vistas ao atendi- mento das expectativas de consumidores, mercados e legislações cada vez mais exigentes. AGRADECIMENTOS À CEPLAC pelo apoio técnico, financeiro e facilitador do acesso às áreas de cultivo de dendê. Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológ- co (CNPq) pelo investimento na infraestrutura técnica e compra de licenças de softwares para a realização deste trabalho. REFERÊNCIAS ALBERGONE, L. & PELAEZ, V. Da Revolução Verde à agrobiotecnologia: ruptura ou continuidade de paradigmas? Revista de Economia, Paraná, v. 33, n. 1, p. 31-53, 2007. ALMEIDA, H. A. Probabilidade de ocorrência de chuvas no Sudeste da Bahia. Boletim Técnico nº 182. lhéus: CEPLAC/ CEPEC. 32 p, 2001. 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