114 RBCIAMB | n.39 | mar 2016 | 114-123 Maurício Ferreira Mendes Mestre em Ambiente e Sistemas de Produção Agrícola pela Universidade do Estado do Mato Grosso (UNEMAT) – Cáceres (MT), Brasil Sandra Mara Alves da Silva Neves Docente do Programa de Pós- graduação em Ambiente e Sistemas de Produção Agrícola da UNEMAT – Cáceres (MT), Brasil. Solange Kimie Ikeda Castrillon Docente do curso de Biologia da UNEMAT – Cáceres (MT), Brasil. Sildnéia Aparecida de Almeida Silva Bióloga pela UNEMAT – Cáceres (MT), Brasil. Jesus Aparecido Pedroga Técnico em Laboratório da UNEMAT – Cáceres (MT), Brasil. Endereço para correspondência: Maurício Ferreira Mendes – Avenida Santos Dumont, s/n, Cidade Universitária – Santos Dumont – 78200-000 – Cáceres (MT), Brasil – E-mail: mauricio.f3@hotmail.com RESUMO Este estudo teve como objetivo investigar a regeneração das espécies do Cerrado sensu stricto utilizadas no extrativismo em áreas dos assentamentos: Margarida Alves, Corixo e Bom Jardim/Furna São José, região Sudoeste Mato-grossense. A análise se baseou em coletas de dados florísticos e fitossociológicos em 30 parcelas, medindo 20 x 50 m, realizadas no período de fevereiro a julho de 2012, tendo como critérios de inclusão a circunferência à altura do peito (CAP) ≥15 cm e altura ≥3 m. No Assentamento Margarida Alves, o babaçu (Attalea speciosa) foi a espécie com maior valor de importância (IVI), 92,00%, no Assentamento Corixo, foi o pequi (Caryocar brasiliense), IVI=40,65%, e no Bom Jardim/Furna São José, o cumbaru (Dipteryx alata) foi a segunda espécie com maior IVI (26,24%). Os valores de R² para a relação de indivíduos sobre circunferência e altura resultaram em valores baixos para as espécies citadas, assim, não foi demonstrado o padrão de J-invertido na maioria dos gráficos de histogramas, indicando baixa regeneração, podendo no futuro comprometer a atividade extrativista dos assentamentos. Palavras-chave: conservação; diversidade; extrativismo; Cerrado. ABSTRACT This study aimed to investigate the regeneration of species stricto sensu of the Cerrado used in extractivism in areas of settlements: Margarida Alves, Corixo and Bom Jardim/Furna São José, in the Southwest region of Mato Grosso, Brazil. The analysis was based on floristic and phytosociological data collection in 30 installments, measuring 20 x 50 m, in the period from February to July 2012. The inclusion criteria was the circumference at breast height ≥15 cm and height ≥3 m. At the Margarida Alves settlement, the babaçu (Attalea speciosa) was the species with higher importance value index (IVI), 92.00%, in Corixo settlement, it was the pequi (Caryocar brasiliense), with IVI=40.65%; and in Bom Jardim/Furna São José, the cumbaru (Dipteryx alata) was the second species with higher IVI (26.24%). The R² values for the relationship of the individuals on the circumference and height resulted in low values for the species mentioned, so it has not been demonstrated the J-inverted standard in most histograms graphs indicating poor regeneration, which can, in the future, compromise the extractive activity in the settlements. Keywords: conservation; diversity; extractivism; Cerrado. DOI: 10.5327/Z2176-947820160062 REGENERAÇÃO E SUSTENTABILIDADE DAS ESPÉCIES EXTRATIVISTAS UTILIZADAS EM TRÊS ASSENTAMENTOS DA REGIÃO SUDOESTE MATO-GROSSENSE REGENERATION AND SUSTAINABILITY OF EXTRACTIVE SPECIES USED IN THREE SETTLEMENTS IN THE SOUTHWEST REGION OF MATO GROSSO Regeneração e sustentabilidade das espécies extrativistas utilizadas em três assentamentos da região sudoeste mato-grossense 115 RBCIAMB | n.39 | mar 2016 | 114-123 INTRODUÇÃO O Cerrado é o centro de uma grande variedade de espécies vegetais, animais e outros seres vivos, além da enorme riqueza de diferentes populações hu- manas (CARVALHO, 2005). Apesar da elevada bio- diversidade existente, é geralmente menosprezada (KLINK & MACHADO, 2005). Devido às elevadas concentrações de alumínio nos solos dos remanescentes desse bioma, é aplicado fertilizante e calcário para fins agrícolas voltados especialmente à cultura de soja e às pastagens plantadas (KLINK & MA- CHADO, 2005). Nos dias atuais, nessa fisionomia savâ- nica restam apenas fragmentos sob diferentes níveis de perturbação (FELFILI; CARVALHO; AIDAR, 2005). A maioria dos estudos realizados em Mato Grosso sobre o aproveitamento do Cerrado tem como foco o componente herbáceo, buscando o manejo susten- tável dos ambientes de pastagens, pois constitui o de maior importância para o setor econômico (SANTOS; CRISPIM; COMASTRI FILHO, 2005), não dando ênfase ao componente arbóreo, que também é extremamen- te importante para a dinâmica do ambiente. Situação que remete à reflexão sobre a sustentabilidade, que segundo Sachs (2009) engloba vários aspectos e/ou dimensões, como a social (distribuição de renda justa e igualdade no acesso a serviços sociais e recursos naturais), a ambiental (respeito à capacidade de reno- vação dos aspectos naturais e conservação da biodiver- sidade) e a territorial (configurações urbanas e rurais balanceadas e melhorias do ambiente urbano e rural), que na maioria das vezes são postas em segundo plano em relação ao aspecto econômico. O extrativismo é um objeto de estudo complexo, re- quer a construção ao longo de gerações, com acúmulos de saberes. A extração de produtos da floresta faz par- te do sistema de produção de muitos agricultores fami- liares de diversos biomas. Assim, o extrativismo deve ser compreendido não apenas em um momento, mas sim englobando toda a unidade de produção ao longo do tempo. No entanto, o extrativismo, sob a ótica da abordagem sistêmica, como os sistemas de produções, ainda é constatado como insuficiente e descontínuo (SILVA & MIGUEL, 2014). O potencial econômico do extrativismo no Cerrado ain- da é pouco explorado e conhecido pelos órgãos públi- cos estadual e municipais de Mato Grosso e pela socie- dade local. Com isso, são necessárias políticas públicas mais adequadas para o desenvolvimento dessa prática, com ênfase no que o potencial de uso sustentável da biodiversidade tem para contribuir no incremento da renda dos pequenos produtores, propiciando a dinami- zação das economias locais e a conservação dos recur- sos naturais, explorando-a racionalmente (CARVALHO, 2005). Vale destacar que a partir de 2008 houve avan- ços, com a criação, pelo Governo Federal, do Plano Nacional de Promoção das Cadeias de Produtos da So- ciobiodiversidade (PNPCPS), contemplando diferentes espécies vegetais dos biomas brasileiros. Esse plano tem como objetivo articular políticas públicas voltadas à promoção do desenvolvimento sustentável, geração de renda e justiça social, que podem favorecer o de- senvolvimento de ações no âmbito dos assentamentos de reforma agrária (BRASIL, 2008). Dentre as políticas articuladas no plano, destaca-se a Política de Garantia de Preços Mínimos para os Produ- tos da Sociobiodiversidade (PGPM-Bio), que garante preço mínimo e valorização dos diversos produtos da flora brasileira: Attalea speciosa (babaçu), Caryocar brasiliense (pequi) e Dipteryx alata (cumbaru), entre outros. Além dessa política, a atividade extrativista gerada nos assentamentos Margarida Alves, Corixo e Bom Jardim/Furna São José pode valer-se das políticas públicas destinadas à agricultura familiar, como o Pro- grama Nacional da Agricultura Familiar (PRONAF), o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) (MENDES et al., 2015). Neste estudo partiu-se do princípio que a regeneração das espécies utilizadas no extrativismo é baixa, devido aos desmantamentos e à predominância da pecuária leiteira, verificados nos três assentamentos investiga- dos, implicando na sustentabilidade da atividade extra- tivista. Pois, segundo Chazdon (2012): O banco de sementes do solo fica seriamente depau- perado de espécies de árvores e arbustos após vários anos de uso da terra para pecuária e/ou queima reali- zada para o estabelecimento e manutenção de pasta- gens ou lavouras. (p. 202) Em diversas regiões do Brasil, como Mato Grosso, Ma- ranhão, Minas Gerais e Goiás, a exploração dos produ- Mendes, M.F. et al. 116 RBCIAMB | n.39 | mar 2016 | 114-123 tos das espécies de Attalea speciosa (babaçu), Caryocar brasiliense (pequi) e Dipteryx alata (cumbaru) ocorrem no período da entressafra das principais culturas re- gionais, contribuindo para a manutenção das famílias e exercendo uma função fundamental na conservação da fertilidade do solo (ROCHA et al., 2008; SANTOS; RODRIGUES; SILVA, 2012; CARNEIRO et al., 2014). Para que o planejamento e a utilização dos recursos naturais sejam eficazes de forma sustentável, é neces- sário o conhecimento prévio das características quali- tativas e quantitativas desses recursos (GUERRA, 1980). Nessa perspectiva, visando à geração de subsídios que contribuam para a sustentabilidade da produção agroextrativista, este estudo objetivou investigar a re- generação de três espécies (Attalea speciosa, Caryocar brasiliense e Dipteryx alata) utilizadas no extrativismo por agricultores familiares, em áreas do Cerrado sensu stricto, presentes nos assentamentos rurais Margarida Alves, Corixo e Bom Jardim/Furna São José, região Su- doeste Mato-grossense. MATERIAL E MÉTODOS As áreas de estudo estão situadas nos assentamen- tos onde é desenvolvida a atividade de extrativis- mo: Margarida Alves, localizado nos municípios de Mirassol D’Oeste e Cáceres; Corixo e o Bom Jardim/ Furna São José, ambos situados no município de Cáceres (Figura 1). Mato Grosso BR-174 Mi ras sol D’ Oe ste Glória D’Oeste M T-248 Margarida Alves -58o15’ Cáceres Cáceres Cáceres Cáceres -58o30’ -58 -57o45’ -57o30’ -1 5o 45 ’ -1 6o 15 ’ -1 6o Bo m Ja rd im / Fu m a Sã o Jo sé N Corixo Cuiabá 0 0 2010 km Projeção cilíndrica equirretangular Limite internacional Rodovias Limite municipal Perímetro urbano Assentamento Município de Cáceres 200 400 Km Bo liv ia BR-174 BR -07 0 BR-070 Fonte: LABGEO (2012). Figura 1 – Localização dos assentamentos rurais investigados: Margarida Alves, Corixo e Bom Jardim/Furna São José. Regeneração e sustentabilidade das espécies extrativistas utilizadas em três assentamentos da região sudoeste mato-grossense 117 RBCIAMB | n.39 | mar 2016 | 114-123 Os dois municípios citados integram a região Sudoes- te Mato-grossense de planejamento (MATO GROSSO, 2010), no qual as áreas em estudo se encontram inseri- das na Bacia do Alto Paraguai. O assentamento Margarida Alves, criado em 1996, é composto por 145 proprieda- des de 25 hectares cada. O uso dominante da terra é voltado para a pastagem que sustenta a atividade leitei- ra e o extrativismo de babaçu (Attalea speciosa Mart. ex Spreng.). O assentamento Corixo, criado em 2002, é composto por 72 famílias de agricultores familiares, e as principais atividades econômicas são a pecuária leiteira e as culturas anuais, além do extrativismo de pequi (Caryocar brasiliense A. St.-Hil.). O assentamento Bom Jardim/Furna São José possui 40 famílias distribuí- das em lotes que variam de 10 a 40 hectares, e suas prin- cipais atividades econômicas são a agricultura (mandioca, banana e milho), a criação de pequenos animais e o ex- trativismo do cumbaru (Dipteryx alata Vogel). A vegetação dominante do município de Cáceres e en- torno é de Cerrado, o clima regional é o tropical quente, caracterizado por estação chuvosa no verão (novem- bro a abril) e seca (maio a outubro) no inverno (NIMER, 1989; NEVES; NUNES; NEVES, 2011). As áreas de coleta são recobertas por vegetação de Cerrado sensu stricto, sendo que algumas áreas estão antropizadas. As coletas florísticas e fitossociológicas foram realiza- das no período de fevereiro a julho de 2012 em 30 par- celas (10 em cada assentamento) medindo 20 x 50 m cada, totalizando 30 mil m2, com critério de inclusão circunferência à altura do peito (CAP) ≥ 15 cm (FELFILI; CARVALHO, HAIDAR, 2005). A altura de cada indivíduo foi estimada visualmente. O material botânico coletado foi identificado com auxí- lio de bibliografia especializada e por comparação com material botânico do Herbário do Pantanal (HPAN) da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT). Posteriormente, esse material foi depositado no res- pectivo herbário. A coleta dos frutos nativos nessas áreas ocorre de forma individual e coletiva por grupos que praticam o extrativismo. Para obter a densidade (ind.ha-1) foi utilizada a Equação 1, segundo proposição de Muller-Dombois e Ellenberg (1974). DA= A ni (1) Onde: DA = densidade absoluta; ni = número de indivíduos; A = área. Para verificar o valor de importância (IVI) das espécies foi realizada a soma aritmética dos valores relativos de den- sidade, dominância e frequência (LONGHI et al., 2000). Para análise da estrutura de distribuição horizontal (circun- ferência) e vertical (altura) dos indivíduos foram utilizados histogramas de frequência, com intervalos de classes de- terminados a partir da fórmula de Sturges (Equação 2): IC= A K (2) Onde: IC = intervalo de classes; A = amplitude total; k = número de classes. O número de classes é dado pela Equação 3 (MACHADO et al., 2008): nc = 1 + 3,3 log (n) (3) Onde: nc = número de classes; n = número de indivíduos. A inclusão da linha de tendência e o cálculo do valor de R² foram realizados no programa Microsoft Office Excel® 2007. Essa distribuição permite verificar se a es- pécie está em processo de regeneração. RESULTADOS E DISCUSSÃO Nos 30 lotes dos 3 assentamentos investigados foram encontrados 1.150 indivíduos, pertencentes a 91 espé- cies, distribuídas em 82 gêneros e 47 famílias. No Assentamento Margarida Alves (Figuras 2 e 3), o ba- baçu (A. speciosa) foi a espécie com maior densidade absoluta (DA), com 53 indivíduos, equivalente a 22% Mendes, M.F. et al. 118 RBCIAMB | n.39 | mar 2016 | 114-123 (densidade relativa – DR) e 92% de IVI. Em estudo rea- lizado por Silva et al. (2008) em 80 parcelas amostra- das numa área de 2.500 m² no Cerrado com vegetação natural, em áreas de pastagens ou uso agrícola, não sendo uma área de babaçuais, foram encontrados, em 65 parcelas, uma média de 90,8 indivíduos por hecta- re, considerada uma densidade alta em comparação ao presente estudo. No assentamento Corixo (Figuras 4 e 5), o pequi (C. brasiliense) apresentou maior DA (81 indivíduos) equivalente a 19% (DR) e 40,65% de IVI. A densidade dessa espécie em estudos realizados na mesma fito- fisionomia, porém com método de coleta diferente, apresentou baixa quantidade de indivíduos, equivalnte a 8 e 30 indivíduos, em 2.800 m² e 6 hectares, respec- tivamente (CARDOSO; MORENO; GUIMARÃES, 2002; SILVA et al., 2002). No assentamento Bom Jardim/Furna São José (Figu- ras 6 e 7), o cumbaru (D. alata) foi a espécie com a se- gunda maior DA (54 indivíduos) equivalente a 11% (DR) e 26,24% de IVI. A densidade dessa espécie é irregular no Cerrado, ocorrendo em determinados pontos em Figura 2 - Áreas de babaçuais no assentamento Margarida Alves, Mirassol D’Oeste, Mato Grosso. Figura 3 - Fruto do Attalea speciosa, assentamento Margarida Alves, Mirassol D’Oeste, Mato Grosso. Figura 4 - Cerrado sensu stricto do assentamento Corixo, Cáceres, Mato Grosso. Figura 5 - Fruto do Caryocar brasiliense, assentamento Margarida Alves, Mirassol D’Oeste, Mato Grosso. Regeneração e sustentabilidade das espécies extrativistas utilizadas em três assentamentos da região sudoeste mato-grossense 119 RBCIAMB | n.39 | mar 2016 | 114-123 alta concentração e em outros, ausência quase total (VIEIRA et al., 2006). Os valores de R² para a espécie Attalea speciosa (ba- baçu) com relação aos indivíduos sobre circunferência e altura no Assentamento Margarida Alves (0,140); (0,479) (Figura 8) não representaram uma tendência de J invertido, assim como não foi apresentado esse padrão para a espécie Caryocar brasiliense (pequi) no Assentamento Corixo (0,757); (0,317) (Figura 9), e Dipteryx alata (cumbaru) (0,626); (0,685) (Figura 10) no Assentamento Bom Jardim/Furna São José, devi- do à maioria dos valores de R² não apresentar valores próximos de 1. Apesar da relação dos indivíduos sobre circunferência para a espécie C. brasiliense apresentar valor de R² próximo de 1, não foi demonstrado o mo- delo exponencial, típico para o padrão de J invertido. No entanto, a espécie D. alata demonstrou o modelo para a mesma relação, porém apresentou valores bai- xos de R², não sendo explicativo o modelo exponencial. Neste estudo, conforme as classes de circunferência e altura aumentam, o número de indivíduos não segue o padrão de J invertido, com menor quantidade de indi- víduos nas últimas classes, ocorrendo grande variação. Isso foi representado pelo modelo linear na maioria dos gráficos de histogramas. O padrão de J invertido caracteriza a capacidade da dinâmica de mortalidade e recrutamento (autorrege- neração) e manutenção nos níveis atuais de densidade (NASCIMENTO; FELFILI; MEIRELLES, 2004). E isso pode não ter sido demonstrado devido às espécies em estu- do estarem inseridas em áreas de pastagem e agricul- tura, que são atividades que contribuem para a intensa degradação do meio (CARVALHO, 2005) e, consequen- Figura 6 - Assentamento Bom Jardim/Furna São José, Cáceres, Mato Grosso. Figura 7 - Fruto do Dipteryx alata, assentamento Margarida Alves, Mirassol D’Oeste, Mato Grosso. Figura 8 - (A) Distribuição horizontal (classes de circunferência) dos indivíduos de Attalea speciosa no assentamento Margarida Alves, Mirassol D’Oeste e Cáceres, Mato Grosso; (B) distribuição vertical (classes de altura) dos indivíduos de Attalea speciosa no assentamento Margarida Alves, Mirassol D’oeste e Cáceres, Mato Grosso. N úm er o de in di ví du os 20 Classes de circunferência 18 16 14 12 50 -8 5, 8 85 ,8- 12 1,6 12 1, 6- 15 7, 4 15 7, 4- 19 3, 2 19 3, 2- 22 9 22 9- 26 4, 8 26 4,8 -3 00 ,6 Linear (Attalea speciosa) y=-1,287x+12,714 R2=0,1404 Attalea speciosa 10 8 6 4 2 0 A y=-4,5x+25,571 R2=0,4798 Linear (Attalea speciosa) Attalea speciosa N úm er o de in di ví du os 45 3- 4,7 9 4,7 9- 6,5 8 6,5 8- 8,3 7 8,3 7- 10 ,16 10 ,16 -1 1,9 5 11 ,95 -1 3,7 4 13 ,74 -1 5,5 3 Classes de altura 40 35 30 25 20 15 10 5 0 -5 -10 B Mendes, M.F. et al. 120 RBCIAMB | n.39 | mar 2016 | 114-123 temente, impossibilitando a regeneração das espécies vegetais. Situação análoga à encontrada nos assenta- mentos investigados ocorre nos 20 assentamentos da reforma agrária existentes no município de Cáceres (FREITAS et al., 2014), nos quais 70% das áreas estão ocupadas com pastagens e 30% com atividades agríco- las (SILVA; ALMEIDA; KUDLAVICZ, 2012). Os agricultores familiares dos assentamentos utilizam os frutos dessas espécies para a alimentação e poste- riomente comercialização, e a baixa quantidade de in- divíduos jovens (baixa regeneração) intriga a questão de que a população das espécies em estudo possam estar chegando ao ponto de equilibrio dinâmico, com indivíduos mais velhos (CARVALHO, 1999), assim, confor- me a população de agricultores familiares aumenta, a ati- vidade extrativista pode se limitar, devido a não obter uma densidade proporcional de produtividade de frutos para essa prática, implicando no uso sustentável e consequen- temente podendo levar à falta de ocorrência das espécies localmente. Desse modo, é necessária a conservação do habitat para que a produtividade possa ser significativa e Figura 9 - (A) Distribuição horizontal (classes de circunferência) dos indivíduos de Caryocar brasiliense no assentamento Corixo, Cáceres, Mato Grosso; (B) distribuição vertical (classes de altura) dos indivíduos de Caryocar brasiliense no assentamento Corixo, Cáceres, Mato Grosso. A Linear (Caryocar brasiliense) Caryocar brasiliense N úm er o de in di ví du os 30 16 -2 9 29 -4 2 42 -5 5 55 -6 8 68 -8 1 81 -9 4 94 -1 07 10 7- 12 0 25 20 15 10 5 0 -5 y=-3,631+26,464 R2=0,7576 Classes de circunferência B N úm er o de in di ví du os y=-1,9643x+18,964 R2=0,3172 Linear (Caryocar brasiliense) Caryocar brasiliense 30 25 20 15 10 5 0 Classes de altura 3- 3, 82 3, 82 -4 ,6 4 4, 64 -5 ,4 6 5, 46 -6 ,2 8 6, 28 -7 ,1 7, 1- 7, 92 7, 92 -8 ,7 4 8, 74 -9 ,5 6 Figura 10 - (A) Distribuição horizontal (classes de circunferência) dos indivíduos de Dipteryx alata no assentamento Bom Jardim/Furna São José, Cáceres, Mato Grosso; (B) distribuição vertical (classes de altura) dos indivíduos de Dipteryx alata no assentamento Bom Jardim/Furna São José, Cáceres, Mato Grosso. A Linear (Dipteryx alata) Dipteryx alata y=-20,465e-0,4x R2=0,6268 N úm er o de in di ví du os 35 40 30 25 20 15 10 5 0 Classes de circunferência 33 ,3 –4 7, 6 19 –3 3, 3 47 ,6 -6 1, 9 61 ,9 -7 6, 2 76 ,2 -9 0, 5 90 ,5 -1 04 ,0 8 10 4, 08 -1 19 ,1 B N úm er o de in di ví du os Linear (Dipteryx alata) Dipteryx alata y=-4,1071x+24,143 R2=0,6851 Classes de altura 4- 5, 34 5, 34 -6 ,6 8 8, 02 -9 ,3 6 6, 68 -8 ,0 2 9, 36 -1 0, 7 10 ,7 -1 2, 04 12 ,0 4- 13 ,3 8 35 30 25 20 15 10 5 0 -5 -10 Regeneração e sustentabilidade das espécies extrativistas utilizadas em três assentamentos da região sudoeste mato-grossense 121 RBCIAMB | n.39 | mar 2016 | 114-123 o agroextrativismo não seja comprometido, garantindo a geração de renda extra aos pequenos produtores. A conservação nos assentamentos investigados, assim como constatado por Neves et al. (2015) nos assenta- mentos Providência III e Tupã, situados no município Mato-grossense de Curvelândia, constitui um desafio, todavia, é possível a adoção de abordagens inovadoras de manejo (sistemas agroflorestais, sistema de integra- ção lavoura, pecuária e floresta, etc.) e planejamento e gestão ambiental, que favoreçam a utilização racional das espécies e o desenvolvimento socioeconômico dos atores sociais. CONCLUSÃO Constatou-se que, nos lotes dos assentamentos avaliados, as espécies utilizadas no extrativismo apresentam baixa regeneração, o que pode im- plicar em risco social para as famílias que obtêm parte de sua renda para seu sustento por meio dessa atividade. A baixa regeneração das espé- cies decorre do fato dos três assentamentos se- rem oriundos de desapropriação de fazendas de criação bovina. Contudo, há iniciativas por parte dos assentados do Bom Jardim/Furna São José de produção de mudas de cumbaru (Dipteryx alata) para plantio em seus lotes, visando à longevidade da atividade extrativista. No caso dos assentamentos estudados, o incentivo ao manejo e à gestão ambiental da diversidade do Cerra- do é imprescindível, pois ações como: deixar parte dos frutos para a alimentação da fauna, manutenção da ve- getação das áreas de preservação permanente, produ- ção de mudas, entre outras, podem minimizar a baixa capacidade de regeneração das espécies e contribuir para a sustentabilidade da atividade extrativista. AGRADECIMENTOS Esta pesquisa contou com a concessão de bolsa de es- tudos pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (FAPEMAT). O estudo foi contemplado com apoio financeiro do Programa Universidades e Co- munidades no Cerrado (UNICOM), através do projeto “FLORELOS: elos ecossociais entre as florestas brasilei- ras: modos de vida sustentáveis em paisagens produti- vas”, desenvolvido pelo Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN) e com apoio financeiro da União Eu- ropéia. Este documento é de responsabilidade dos au- tores não podendo, em caso algum, considerar-se que reflete a posição de seus doadores. COMITÊ DE ÉTICA E BIOSSEGURANÇA Esta pesquisa foi submetida para análise no Comitê de Ética da Universidade do Estado de Mato Grosso obtendo o deferimento para sua execução (Parecer CEP UNEMAT no 055/2012). REFERÊNCIAS BRASIL. Plano nacional de promoção das cadeias de produtos da sociobiodiversidade. Brasília: Ministério do Desenvolvimento Agrário, 2008. Disponível em: . Acesso em: 13 jun. 2016. CARDOSO, E.; MORENO, M. I. C.; GUIMARÃES, A. J. M. 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