RBCIAMB_0000017_.indd RBCIAMB | n.38 | dez 2015 | 78-94 78 Kallyne Machado Bonifácio Doutora em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) – Natal (RN), Brasil. Alexandre Schiavetti Professor do Doutorado em Desenvolvimento e Meio Ambiente da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) – Ilhéus (BA), Brasil. Eliza Maria Xavier Freire Professora do Doutorado em Desenvolvimento e Meio Ambiente da UFRN – Natal (RN), Brasil Endereço para correspondência: Kallyne Machado Bonifácio – Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Centro de Biociências, Curso de Doutorado em Desenvolvimento e Meio Ambiente, Laboratório de Herpetologia – Campus Universitário, Lagoa Nova – 59078-900 – Natal (RN), Brasil – E-mail: kallynebonifacio@yahoo.com.br RESUMO Em comunidades adjacentes à Área de Proteção Ambiental Chapada do Araripe investigou-se o conhecimento ecológico local sobre Mazama gouazoubira. Pela técnica bola de neve, foram entrevistadas 35 pessoas. Para análise, categorizaram-se os dados em conhecimento ecológico local, método de caça e percepção de disponibilidade. M. gouazoubira é conhecida por veado comum (77,15% das citações) e é reconhecida por caracteres morfológicos. Para 54,28% dos entrevistados, essa espécie é avistada todo o ano (51,43%). Dentre os itens alimentares, destacaram-se os frutos silvestres (68,75%). Quanto à reprodução, essa espécie se reproduz o ano todo (22,86%). A técnica de caça para sua captura é a espera (100%). Sobre a mudança na quantitativa ao longo do tempo de M. gouazoubira, 91,42% perceberam diminuição no avistamento. Os entrevistados investigados demonstraram conhecimento consistente sobre M. gouazoubira, o que é relevante para viabilizar estratégias de manejo dessa espécie na região. Palavras-chave: etnoecologia; etnozoologia; Chapada do Araripe; saber local. ABSTRACT The local ecological knowledge about Mazama gouazoubira was investigated in communities adjacent to the Environmental Protection Area Chapada do Araripe, Brazil. A total of 35 people were interviewed using the snowball technique. For analysis, data were categorized on local ecological knowledge, hunting method and perception of availability. M. gouazoubira is known for common deer (77.15% of citations) and recognized by morphological characters. For 54.28% of the respondents, this species is sighted throughout the year (51.43%). Among the food items, wild fruits stood out (68.75%). Regarding reproduction, this species reproduces throughout the year (22.86%). For 22.88% of respondents, M. gouazoubira is diurnal and agile. The hunting technique to its capture is waiting (100%). On the change in the M. gouazoubira population, 91.42% realized decrease in sighting. The human group investigated showed a consistent knowledge about M. gouazoubira, which is relevant to enable management strategies for this species in the region. Keywords: ethnoecology; ethnozoology; Chapada do Araripe; local knowledge. DOI: 10.5327/Z2176-947820150017 CONHECIMENTO ECOLÓGICO LOCAL SOBRE O VEADO, MAZAMA GOUAZOUBIRA (G. FISCHER, 1814), POR MORADORES DO ENTORNO DE UMA ÁREA PROTEGIDA DO SEMIÁRIDO BRASILEIRO LOCAL ECOLOGICAL KNOWLEDGE ABOUT THE GRAY BROCKET, MAZAMA GOUAZOUBIRA (G. FISCHER, 1814), BY RESIDENTS SURROUNDING A PROTECTED AREA OF THE BRAZILIAN SEMIARID Conhecimento ecológico local sobre o veado, Mazama gouazoubira (G. Fischer, 1814), por moradores do entorno de uma área protegida do semiárido brasileiro RBCIAMB | n.38 | dez 2015 | 78-94 79 INTRODUÇÃO O veado comum, Mazama gouazoubira (G. Fischer, 1814) (Artiodactyla; Cervidae), tem ampla distribui- ção no Brasil, com ocorrência também na Bolívia, Paraguai, norte da Argentina e Uruguai (BLACK-DÉ- CIMA et al., 2010; DUARTE et al., 2012). Essa espé- cie desempenha um papel recorrente em diversas comunidades locais estudadas, devido ao seu valor como recurso alimentar (ALTRICHTER, 2006; HURTA- DO-GONZALES & BODMER, 2004; ROCHA-MENDES et al., 2005; SOUZA-MAZUREK et al., 2000), muito embora no Brasil seja de conhecimento das pessoas locais a existência da legislação que proíbe a caça de animais silvestres, conforme Art. 29, § 1 da Lei de Crimes Ambientais, Lei nº 9.605/98 (BRASIL, 1998). Na Área de Proteção Ambiental (APA) Chapada do Ara- ripe, Nordeste do Brasil, M. gouazoubira é reconheci- da como parte constitutiva da cultura local, não como fonte de alimento para a sobrevivência, mas como ele- mento incorporado à prática social, motivo pelo qual as inter-relações das comunidades locais com essa es- pécie são mantidas na região do Araripe (BONIFÁCIO; FREIRE; SCHIAVETTI, 2016; MELO et al., 2014). No panorama atual de conservação, M. gouazoubira não tem sido suficientemente estudada nos seus as- pectos biológicos e ecológicos (BLACK-DÉCIMA et al., 2010), mas, apesar disso, devido a sua ampla área de distribuição, é considerada pouco preocupante (LC) pela União Internacional para a Conservação da Natu- reza e dos Recursos Naturais (UICN) (BLACK-DÉCIMA & VOGLIOTTI, 2014), estando ausente na atual Lista Na- cional de Espécies ameaçadas (MMA, 2014a). No âmbi- to regional, em relação à presença em lista de espécies ameaçadas, é categorizada como vulnerável (VU) no Rio Grande do Sul (MARQUES et al., 2002) e dados in- suficientes (DD) no Paraná (MIKICH & BERNILIS, 2004). Para o estado do Ceará não há dados disponíveis para essa categorização e, nesse contexto, o conhecimento ecológico das comunidades locais torna-se uma ferra- menta útil na conservação de espécies, na medida em que contribui para uma melhor compreensão da dinâ- mica dos sistemas socioecológicos, principalmente em situações onde o monitoramento e a captura do animal para estudos ecológicos é difícil (SAHOO; PUYRAVAUD; DAVIDAR, 2013). O conhecimento ecológico local (CEL) remete ao saber adquirido pela vivência, convivência e expe- riência humana no meio em que vive ao longo do tempo (PRADO et al., 2013). Cada espécie biológica tem hábitos e histórias diferentes, por vezes não investigados ou evidenciados pelo conhecimento científico-acadêmico. Assim, para efeito de estra- tégias efetivas de conservação, várias pesquisas et- nobiológicas têm demonstrado a importância de in- tegrar conhecimento local e enfoques acadêmicos, reforçando o potencial complementar em relação às informações produzidas por ambos os sistemas de conhecimento (FERREIRA et al., 2014; GANDI- WA, 2012; PRADO et al., 2014, ROSA; CARVALHO; ANGELINI, 2014; SILVA; COSTA-NETO; ROCHA, 2014; SOBCZAK et al., 2013). A concentração de estudos sobre M. gouazoubira tem sido na área de uso e seleção de habitat (BLACK-DÉCI- MA, 2000; CARABALLO, 2009; RIVERO; RUMIZ; TABER., 2005; ROMERO & CHATELLENAZ, 2013), além de tra- balhos sobre comportamento alimentar (RICHARD & RADA, 2006; SERBENT; PERIAGO; LEYNAUD, 2011), taxonomia morfológica (ANGELI; OLIVEIRA; DUARTE, 2014; GARDNER, 1999), ecologia comportamental (BLACK-DÉCIMA & SANTANA, 2011), reprodução (ZA- NETTI et al., 2014) e genética/bioquímica (CAMARGO et al., 2013). Sob o enfoque da etnozoologia, pesqui- sas especificamente com M. gouazoubira ainda são incipientes; os dados disponíveis na literatura refe- rem-se a trabalhos genéricos no contexto do conhe- cimento local das espécies brasileiras de cervídeos do gênero Mazama (Rafinesque, 1817) (GEHARA et al., 2009; VOGLIOTTI, 2003). Neste estudo foi analisado o conhecimento ecológico local sobre a espécie M. gouazoubira em comunidades rurais da APA Chapada do Araripe, bem como discuti- dos os aspectos relacionados à sua conservação, pois essa espécie tem o maior valor de uso entre as espé- cies que tem relação com as comunidades rurais estu- dadas por Bonifácio, Freire e Schiavetti (2016). Bonifácio, K.M.; Schiavetti, A.; Freire, E.M.X. RBCIAMB | n.38 | dez 2015 | 78-94 80 METODOLOGIA Área de estudo O estudo foi realizado na APA Chapada do Araripe, Ceará, Brasil (7°42’42” e 7°50’28” S, 39°17’04” e 40°35’23” W), em quatro comunidades do seu entorno (Figura 1): Co- munidades do Caldas (7°22’43”S, 45°21’01”W e 787 m) e do Farias (7°29’39”S, 45°22’01”W e 693 m), pertencentes ao município de Barbalha, comunidade de Novo Horizon- te (7°29’39”S, 45°22’01”W e 837 m), município de Jardim, e comunidade Banco de Areia (7°26’23”S, 45°12’40”W e 917 m), pertencente ao município de Missão Velha. Essa Área Protegida Federal possui uma extensão de 972.590,45 hectares, abrangendo os estados do Ceará, Piauí e Pernambuco (CNUC, 2011). Em termos climato- lógicos insere-se no domínio do clima semiárido, com média pluviométrica de 1.000 mm anuais e tempera- tura variando entre 23 e 25°C (PERNAMBUCO, 2007). A cobertura vegetal é constituída por áreas de matas úmidas com transição para o cerradão, carrasco e cer- rado (RIBEIRO-SILVA et al., 2012), ambientes nos quais ocorrem o soldadinho-do-araripe, Antilophia boker- manni (Coelho & Silva, 1998), ave com distribuição res- trita à Chapada do Araripe, Ceará, categorizada como espécie criticamente em perigo (CR) (MMA, 2014b), e Figura 1 – Localização da Área de Proteção Ambiental da Chapada do Araripe no Estado do Ceará, Nordeste do Brasil e das quatro comunidades estudadas no seu entorno. 40o0´00´´W Brasil 40o0´00´´W 40o0´00´´W 39o20´00´´W 7o20´0´´S Barbalha Missão Velha Jardim 7o20´0´´S 40o40´0´´W 40o0´00´´W 39o20´00´´W40o40´0´´W Sistema de Coordenadas Universal Transversa de Mercator – UTM Datun, SAD 69 – Zona – SUL 24 5o0´5´´S N Nordeste PI CE RN PB PE 2 20 2010 0 1 0 2 4 Km Km Oceano Atlântico 5o0´5´´S A m ér ic a do S ul Oc ea no A tlâ nti co 1: Comunidade do Caldas; 2: Comunidade do Farias; 3: Comunidade Banco de Areia; 4: Comunidade Novo Horizonte. Conhecimento ecológico local sobre o veado, Mazama gouazoubira (G. Fischer, 1814), por moradores do entorno de uma área protegida do semiárido brasileiro RBCIAMB | n.38 | dez 2015 | 78-94 81 a onça-parda, Puma concolor (Linnaeus, 1771), incluída como VU, ambas na Lista das Espécies da Fauna Brasi- leira Ameaçadas de Extinção (MMA, 2014c). No entorno da APA Chapada do Araripe vivem cerca de 23 comunidades, as quais subsistem de 2 fontes de renda, o extrativismo, proveniente das coletas do pequi (Caryocar coriaceum Wittm.) e da fava d’anta (Dimorphandra gardneriana Tul.); e a agricultura de subsistência (milho, feijão, mandioca e cana de açúcar) (SOUSA JÚNIOR; ALBUQUERQUE; PERONI, 2013). Para este estudo foram selecionadas quatro comu- nidades que mantêm e/ou mantiveram sua base de subsistência associadas aos recursos faunísticos, sendo duas comunidades localizadas em um raio ˂2 km da Floresta Nacional do Araripe (FLONA) (Co- munidades do Caldas e do Farias) e duas em um raio ≥2 km da FLONA (Comunidades Novo Horizonte e Banco de Areia). Com exceção da Comunidade do Caldas, que apresenta características urbanas-rurais, as demais comunidades estudadas são predominan- temente rurais. Coleta e análise dos dados Os dados foram coletados através de entrevistas se- miestruturadas, conforme Albuquerque, Lucena e Alencar (2010), entre janeiro e fevereiro de 2013, com tempo de permanência no local de estudo por três me- ses consecutivos. A escolha dos informantes locais seguiu uma amos- tragem intencional, através do método Bola de Neve (BERNARD, 1996), selecionando-se os indivíduos maiores de 18 anos, reconhecidamente conhece- dores da espécie M. gouazoubira, ou que já avis- taram essa espécie em alguma fase da vida, e com residência na localidade há mais de 10 anos, perío- do considerado suficiente para um conhecimento mínimo da fauna local (GEHARA et al., 2009). Esse método baseia-se na indicação de novos potenciais informantes pelos próprios entrevistados. As entre- vistas ocorreram individualmente, com um membro de cada família, do sexo masculino — por ser indi- cado pelas comunidades como maior conhecedor sobre animais — e as entrevistas foram individuais para evitar indução de respostas. No caso de incom- preensão de alguma informação exposta pelo entre- vistado, conversas foram retomadas, de maneira a obter um melhor esclarecimento e aprofundamento. O número de entrevistas foi considerado suficiente quando os informantes locais indicavam pessoas já contatadas, impossibilitando o acréscimo de no- vos entrevistados ao universo amostral (MARTINS; SCHIAVETTI; SOUTO, 2011). As perguntas contidas no formulário de entrevistas eram todas abertas (n=20), sendo 8 questões refe- rentes às características socioeconômicas do entre- vistado (idade, tempo de moradia na comunidade, escolaridade e profissão) e 12 sobre os aspectos bioecológicos do veado comum, M. gouazoubira (et- noclassificação, habitat, distribuição temporal, ali- mentação, reprodução e comportamento), além de aspectos relacionados a sua caça, seus usos e per- cepção de disponibilidade. Foram visitadas 246 famílias de um total de 646 esti- madas pelo agente de saúde no período deste estudo, sendo entrevistadas 35 pessoas (homens) nas 4 comu- nidades estudadas: Caldas (n=8), Farias (n= 5), Novo Horizonte (n= 15) e Banco de Areia (n=7). De acordo com a faixa etária (BRASIL, 2011), o total de entrevistados correspondeu a 8 adultos (22,85%) e 27 idosos (75,15%), com a idade va- riando de 46 a 89 anos, média de 67,06±9,7 anos. A agricultura constitui a principal ocupação para 71,42% (n=25) dos entrevistados, com 28,58% de- les (n= 10) vivendo apenas da aposentadoria. As demais características sociais dos entrevistados encontram-se na Tabela 1. Às pessoas que aceitaram participar deste estudo, solicitou-se a assinatura do Termo de Consentimen- to Livre e Esclarecido (TCLE) conforme as normas estabelecidas pela Resolução nº 196/1996 do Con- selho Nacional de Saúde e previamente aprovadas pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universi- dade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) (CEP/ UFRN nº 227/12). Para a análise, quantificados em percentual, os dados foram sistematizados em quatros aspectos: conheci- mento ecológico local, método de caça, usos culturais e percepção da disponibilidade de M. gouazoubira. Bonifácio, K.M.; Schiavetti, A.; Freire, E.M.X. RBCIAMB | n.38 | dez 2015 | 78-94 82 RESULTADOS E DISCUSSÃO Conhecimento ecológico dos informantes locais sobre a espécie M. gouazoubira Etnoclassificação Foram mencionados diferentes nomes para a espécie M. gouazoubira: veado comum (n=27; 77,15%), veado capoeiro (n= 4; 11,43%), veado garapú (n=2; 5,71%) e veado fuboca (n= 2; 5,71%). Essa diversidade de nomes locais tem sido evidenciada na literatura (BLACK-DÉCI- MA et al., 2010; DUARTE et al., 2012; VOGLIOTTI, 2003) e pode estar relacionada às características sociocultu- rais dos grupos humanos (MOURÃO; ARAÚJO; ALMEI- DA, 2006; PINTO; MOURÃO; ALVES, 2013). Segundo Farias e Alves (2007) muitas das nomeações locais atri- buídas às espécies biológicas partem de situações de observações do animal no ambiente e/ou característi- cas perceptíveis, tais como tamanho, comportamento, habitat, etc. Daí a variação de nomes constatados nes- te estudo, “veado capoeiro”, “veado garapú” e “veado fuboca”, os quais foram relacionados à preferência de habitat do veado comum e os dois últimos nomes, ao tamanho (pequeno porte). Todos os entrevistados utilizaram caracteres mor- fológicos externos (tamanho corporal, coloração e tipo de chifre) na descrição para o reconhecimento do veado comum (Tabela 2). Essa espécie foi relata- da como um animal de estatura pequena (entre 70 e 80 cm de comprimento) com peso médio entre 12 e 15 kg, dotado de um par de chifre simples peque- no (apenas nos machos adultos) e coloração marrom avermelhada (parda). Um entrevistado informou que nos indivíduos “mais velhos” (de mais idade) o chifre apresenta listras escuras na vertical, enquanto que nos indivíduos “não muito velhos” as listras são claras (brancas). Mourão, Araújo e Almeida (2006), durante estudo no semiárido da Paraíba, também registraram a utilização de aspectos morfológicos (cor, tamanho e característica típica de qualquer parte do animal) na descrição da mastofauna. Vogliotti (2003), em São Paulo, registrou o tamanho em 50% das descrições re- lacionadas à espécie M. gouazoubira. A descrição apontada pelos entrevistados corrobora as informações documentadas por Feijó e Langguth (2013) em revisão acerca da diversidade e distribuição Dados sociais Número de entrevistados Frequência relativa (%) Média Desvio padrão Máximo Mínimo Idade (anos) 46 a 60 8 22,85 67,06 9,7 89 46 ≥61 27 75,15 Tempo de residência (anos) ˂30 1 2,85 62,29 11,72 83 30 ˃30 34 94,15 Escolaridade Analfabeto funcional 32 91,43 ─ ─ ─ ─Ensino fundamental I 1 2,85 Ensino médio 2 2,72 Ocupação Agricultor 25 71,42 ─ ─ ─ ─ Aposentado 10 28,58 Tabela 1 – Perfil dos 35 entrevistados situados em comunidades adjacentes à Área de Proteção Ambiental da Chapada do Araripe, estado do Ceará, nordeste do Brasil. Conhecimento ecológico local sobre o veado, Mazama gouazoubira (G. Fischer, 1814), por moradores do entorno de uma área protegida do semiárido brasileiro RBCIAMB | n.38 | dez 2015 | 78-94 83 geográfica dos mamíferos terrestres de médio e grande porte do nordeste do Brasil: espécie de médio porte (comprimento da cabeça e corpo 86 cm) com um peso corporal de 13 kg. Segundo Black-Décima et al. (2010), os padrões de coloração apresentam variações entre os indivíduos, podendo ir do cinza escuro ao marrom avermelhado e os chifres simples, sem ramificações (presentes apenas nos machos) são pontiagudos com 5,63 a 11,73 cm de comprimento; uma pinta branca acima dos olhos pode ser vista na maioria dos indiví- duos dessa espécie. Em relação às marcas transversais presentes nos chifres, Duarte e Merino (1997) relatam que em sua fase de crescimento os chifres estão recobertos por uma pele (velame) que se desprende, com auxílio do atrito que o animal realiza contra arbustos e ár- vores, quando os chifres completam o crescimento. Esse comportamento tende a deixar marcas sobre os chifres, resultando numa coloração de tons de marrom pelo esfregaço contra árvores e, em segui- da, evidenciando uma superfície brilhante e polida (limpa) da base do chifre em direção à extremidade (JIM & SHIPMAN, 2010). Habitat e distribuição temporal Para 54,28% (n=19) dos entrevistados, M. gouazoubi- ra ocorre principalmente em fragmentos de mata ricos em frutos silvestres, aparecendo também em ambien- te aberto, “capoeiras” (n=8; 22,8%), roças de milho e feijão (n=5; 14,28%) e ambiente fechado, “capões de mata” (n=3; 8,58%). A percepção dos entrevistados mostra correspondência com a literatura, que define a ocorrência dessa espécie por vários ambientes, englobando florestas densas con- tínuas a savanas abertas com pequenas e poucas man- chas de mata, mas sempre associadas a florestas para abrigo e alimentação (DUARTE et al., 2012; PINDER & LEEUWENBERG, 1997), podendo habitar áreas agrícolas e antropizadas, devido à sua plasticidade no uso de am- bientes (DUARTE & REIS, 2012). Assim como neste estu- do, os habitats mencionados pelas comunidades locais estudadas por Vogliotti (2003) em uma floresta ombrófi- ta densa, em São Paulo, foram relacionados a ambientes antropizados (92% das citações), como capoeiras, bor- das de matas e pastagens. Gehara et al. (2009), entre co- munidades rurais do Parque do Ibitipoca, Minas Gerais, documentaram o campo como habitat ocupado por esse cervídeo. Juliá e Richard (2000), na Reserva Experimen- tal Horco Molle, Argentina, registraram preferências de M. gouazoubira por ambientes abertos, secundários e/ ou degradados, o que demonstra a capacidade adaptati- va dessa espécie de cervídeo. Quanto à distribuição temporal, a maior parte dos entrevistados (n=18; 51,43%) afirmou não haver sazonalidade na APA Chapada do Araripe; contudo, ressaltaram que ocorre maior aparição dessa espécie em algumas épocas do ano. Para 14,28% (n=5) dos entrevistados a estação seca (julho a novembro) é a época de maior aparição de M. gouazoubira, devido à escassez de alimento e água; outros (n=12; 34,28%) afirmaram que essa espécie é mais abundante no período da floração e frutificação de árvores como o aperta-cu (Eugenia punicifolia (Kunth) DC.), o cajuí (Anacardium Caracteres morfológicos Número de citações Frequência (%) Descrição Tamanho corporal 23 65,72 “O veado comum é um veadinho pequinininho de uns 10, 12 kg; de uns 15 kg abaixo” (A.Q., 56 anos) Coloração 4 11,43 “A qualidade do veado é só vermelho” (P.B., 65 anos) Tipo de chifre 8 22,85 “... o veado comum, o chifre dele é curtinho que nem bode” (V.R., 85 anos); “... A fêmea não tem ponta [chifre]” (F., 49 anos). “O traço marrom no chifre diz que o bicho é velho; quando num é muito velho é mais branco” (C.A., 68 anos) Tabela 2 – Caracteres morfológicos utilizados pelos entrevistados da Área de Proteção Ambiental da Chapada do Araripe, Ceará, para identificar a espécie M. gouazoubira. Bonifácio, K.M.; Schiavetti, A.; Freire, E.M.X. RBCIAMB | n.38 | dez 2015 | 78-94 84 microcarpum Ducke), a mangaba (Hancornia speciosa Gomes), o murici (Byrsonima vaccinifolia A. Juss) e o pequi (Caryocar brasiliense Cambess.). A utilização do habitat está condicionada ao tipo de dieta que o animal necessita; no caso do gênero Ma- zama, existem preferências por certas frutas dentro das florestas neotropicais (BODMER, 1997). Todas as espécies de plantas mencionadas como consumidas foram encontradas em floração e frutificação durante a estação chuvosa (dezembro a junho) em áreas de cer- rado da Chapada do Araripe, estado do Ceará (COSTA; ARAÚJO; LIMA-VERDE, 2004); destas, duas espécies, E. punicifolia e H. speciosa, foram registradas por esses autores florescendo e frutificando duas vezes no ano, antes do início do período chuvoso e no período chu- voso. Black-Décima (2000), estudando a área de vida e padrões de M. gouazoubira na Argentina, encontraram mais indivíduos se deslocando nos meses de julho e agosto, período correspondente à baixa disponibilida- de de alimento. Sendo assim, a intensidade dos “avis- tamentos” não sazonais ao longo do ano, apontada pe- los entrevistados, pode ser explicada pela diversidade de padrões fenológicos reprodutivos das espécies de flores e frutos que constituem os principais itens da dieta desse cervídeo nos fragmentos de mata. Alimentação Os relatos dos entrevistados indicaram quatro categorias de itens alimentares, todos de origem vegetal: a dos fru- tos silvestres (n=22; 68,75%) teve alta representatividade em número de citações, seguida pela flor de árvores fru- tíferas (n=9; 25,71%), grãos de milho e feijão (n=3; 8,57%) e brotos de vegetação (n=1; 2.85%). Entre os frutos, um entrevistado mencionou a mangaba (H. speciosa) como sendo o preferido, devido à quantidade de polpa e à sua disponibilidade ao longo de todo o ano. Embora considerada generalista, adaptando sua dieta às condições do ambiente (BLACK-DÉCIMA et al., 2010; PINDER & LEEUWENBERG, 1997), vários autores têm evidenciado uma dieta marcadamente frugívora para M. gouazoubira (BODMER, 1989; BRANAN; WERKHO- VEN; MARCHINTON, 1985; GAYOT et al., 2004; RICHARD; JULIÁ; ACENOLAZA, 1995; RICHARD & JULIÁ, 2001; STAL- LINGS, 1984), o que corrobora a informação passada pelos entrevistados. Em um estudo realizado na Guiana Francesa, por exemplo, os conteúdos estomacais de M. gouazoubira analisados por Gayot et al. (2004) eviden- ciaram as frutas em 70 a 90% dos animais estudados. Bodmer (1997), na região amazônica brasileira, encon- trou frutas em 87% dos rúmens amostrados. Para Pinder e Leeuwenberg (1997), a disponibilidade es- tacional dos diversos tipos de frutos se reflete no consu- mo dessas espécies por M. gouazoubira. A preferência pela mangaba (H. speciosa), citada pelos entrevistados, pode se dever ao fato dessa espécie encontrar-se dispo- nível ao longo de todo o ano e, provavelmente, ser o item alimentar mais comum. Segundo Soares et al. (2006), a florada de H. speciosa ocorre entre agosto e novembro (pico em outubro), com sua frutificação concentrando-se entre julho e outubro ou de janeiro a abril, além de apre- sentar alguns frutos temporãos fora dessa época. Costa, Araújo e Lima-Verde (2004), em seu estudo realizado no cerrado da Chapada do Araripe, registraram que H. spe- ciosa floresceu nos meses de março e junho, frutifican- do de janeiro a dezembro, março e junho, confirmando a disponibilidade desse recurso nos ambientes da Chapada. Reprodução Quanto ao período de nascimento dos filhotes, segundo os entrevistados, M. gouazoubira se reproduz o ano todo, principalmente no mês de janeiro, sendo gerado um filhote em cada prole; no entanto, a maioria dos entrevistados não soube responder esse item (n=27; 77,14%). Essa percepção a respeito da época reprodutiva de M. gouazoubira baseia-se na observação dos entrevistados mais experientes (ex-caçadores) do comportamento exibido por essa espécie: “o veado só anda ele mesmo; anda de dois quando tem o novinho” (A.N., 77 anos). De acordo com Black-Décima et al. (2010), no Brasil, e Stallings (1986), no Paraguai, M. gouazoubira não apresenta uma sazonalidade reprodutiva, relato seme- lhante ao dos entrevistados. Isso porque ao longo do ano inexiste um período crítico em termos de escassez de alimento, o qual poderia alterar o comportamento de reprodução dessa espécie. Conhecimento ecológico local sobre o veado, Mazama gouazoubira (G. Fischer, 1814), por moradores do entorno de uma área protegida do semiárido brasileiro RBCIAMB | n.38 | dez 2015 | 78-94 85 A esse respeito, Pinder e Leeuwenberg (1997) argu- mentam que a reprodução dos cervídeos é afetada diretamente pela disponibilidade de alimento no am- biente. Como exemplo, no estudo realizado por Juliá e Peris (2010) no noroeste da Argentina, foi observado que 65% dos nascimentos ocorreram na estação chu- vosa, época coincidente com a queda de flores e fru- tos das espécies de plantas. Esse resultado evidenciou uma correlação positiva das variáveis ocorrência de chuva e produtividade de recursos com o nascimento desses animais. O fato de alguns entrevistados indica- rem janeiro como o mês de maior número de nasci- mento pode ser reflexo também da maior quantidade de frutos e/ou flores nessa época do ano, já que cor- responde ao início do período chuvoso na região do Araripe (COSTA; ARAÚJO; LIMA-VERDE, 2004). Na Serra de Paranapiacaba, em São Paulo, Vogliotti (2003) do- cumentou um período de nascimento a partir de agos- to, o que reforça a variação de eventos de reprodução conforme o contexto ecológico regional. Em relação à estrutura social reprodutiva, as informa- ções apresentadas pelos entrevistados são concor- dantes com a literatura: a espécie é essencialmente solitária, agregando-se eventualmente (em período de baixa disponibilidade de alimento) em duplas ou gru- pos de indivíduos de um ou ambos os sexos e/ou dife- rentes faixas etárias (PINDER & LEEUWENBERG, 1997). A quantidade de filhotes por gestação (de aproximada- mente sete meses) é de apenas um indivíduo (DUARTE & MERINO, 1997), podendo a fêmea ter duas ninhadas em um mesmo ano (DUARTE et al., 2012). Comportamento Os entrevistados especificaram uma série de padrões comportamentais exibidos por M. gouazoubira, que en- volvem o deslocamento e o comportamento social. De acordo com alguns entrevistados (n=3; 8,57%), essa espé- cie se desloca por diversos ambientes: “Todo bicho tem uma vareda [trilha] para andar; o veado não, anda por todo canto” (C., 51 anos). Com relação ao tipo de ativida- de realizada ao longo do dia, 22,88% (n=8) dos entrevista- dos informaram que M. gouazoubira se desloca durante o dia por vários lugares e trilhas para forrageamento e, à tarde, descansa (esconde-se) embaixo de grandes árvores com cobertura espessa. A produtividade do ambiente corresponde a um dos fa- tores que podem alterar o comportamento de forragea- mento em cervídeos, levando-os a exibir um comporta- mento exploratório que se reflete no tamanho da área de vida de cada indivíduo (PERIAGO & LEYNAUD, 2009; JULIÁ & RICHARD, 2000; RIVERO; RUMIZ; TABER, 2005). Isso explica a observação dos entrevistados quando afir- mam que M. gouazoubira não possui tendência a usar as mesmas trilhas; porém, difere do observado por Vogliotti (2003), no seu estudo através da radiotelemetria, o qual constatou a utilização regular de algumas trilhas por esse cervídeo, apontadas como rotas de fuga. O ritmo de atividade diária, relatado pelos entrevista- dos, está de acordo com Rivero, Rumiz e Taber (2005), na Bolívia, e Periago e Leynaud (2009), na Argentina, que registraram o turno da manhã como período de maior atividade. Rivero, Rumiz e Taber (2005), em monitora- mento fotográfico, relatam pico de atividade para esse cervídeo entre 5:00 e 10:00 h, próximo ao citado pelos entrevistados, sendo menos ativo entre 10:00 e 14:00 h e com atividade moderada e/ou inativo no restante do dia. Uma das características da organização social dos cervídeos é que os machos e fêmeas levam uma vida completamente independente (JULIÁ & RICHARD, 2000) e, sendo animais de pequeno porte, a forma encontrada de se tornarem menos conspícuos para o seu predador é esconder-se entre as vegetações em situações de ina- tividade (PINDER & LEEUWENBERG, 1997). Todos os entrevistados mencionaram que M. goua- zoubira pisa fazendo furo no chão, porém, quando pressente ameaça à sua segurança, principalmente pelo olfato, foge rapidamente correndo aos pulos. Os membros da ordem Artiodactyla caracterizam-se pela presença de cascos que recobrem os dedos (qua- tro em cada extremidade), dos quais apenas dois se apoiam no chão (DUARTE & MERINO, 1997), geran- do como característica de rastro marcas comprimi- das lateralmente terminando em uma unha pontuda (REZENDE et al., 2013). Sobre o comportamento de fuga, escapam com velocidade e agilidade por entre a vegetação, a qual tende a dificultar a locomoção de predadores, cães de caça ou do próprio homem (PIN- DER & LEEUWENBERG, 1997). Bonifácio, K.M.; Schiavetti, A.; Freire, E.M.X. RBCIAMB | n.38 | dez 2015 | 78-94 86 Um entrevistado relatou que é comum encontrar nos trajetos percorridos por M. gouazoubira troncos de ár- vores marcados por chifre, alegando que esse compor- tamento está relacionado à defesa. Black-Décima et al. (2010) informam que comportamento agonístico entre cervídeos usando o chifre é comum em populações sil- vestres e cativas, comportamento esse que pode estar relacionado à disputa de território; as marcações nas árvores funcionam como um sistema de comunicação visual entre esses indivíduos (BLACK-DÉCIMA et al., 2010; PINDER & LEEUWENBERG, 1997). Métodos e técnicas de caça Todos os entrevistados foram unânimes em afirmar que a técnica de caça para a captura de M. gouazoubira é a de espera. Segundo os entrevistados, a caça de espera é rea- lizada geralmente por um único indivíduo e costuma ser feita junto a uma árvore que esteja frutificando; no alto dessa árvore é montado um poleiro de madeira amarrado com cipó, que serve de apoio para o caçador, o qual fica na espreita sentado com a espingarda, nominada localmente de espingarda de cartucho. Um entrevistado citou os ho- rários de meio-dia às 19:00 h e de 15:00 às 21:00 h como principais horários para caçar com espingarda, pois coinci- de com hábito alimentar de alguns animais silvestres. As técnicas de caça variam conforme a espécie-alvo (ROCHA-MENDES et al., 2005), assim como o horário de caça varia de acordo com o tipo de recurso faunístico (RAMOS; MOURÃO; ABRANTES, 2009). A caça de espera é uma atividade noturna amplamente difundida para a captura de cervídeos em outras regiões do Brasil (CHIA- RELLO, 2000; PRADO; FORLINE; KIPNIS, 2012; FERREIRA; CAMPOS; ARAÚJO, 2012; FRAGOSO; DELGADO; LOPES, 2011), e em países como Venezuela (MOLINA, 2004) e México (BARAJAS & PIÑERA, 2007). Santos-Fita et al. (2013) relatam que a espera deve ser colocada entre 5 e 6 m do solo sempre contra o vento, pois os cervídeos conseguem detectar facilmente o caçador pelo olfato. Rocha-Mendes et al. (2005), no Paraná, e Gehara et al. (2009), em Minas Gerais, além da espingarda, registra- ram o uso de cães na caça de veados (Mazama spp.). Entre os entrevistados mais experientes nas atividades de caça (n=8; 22,8%) foi relatado que M. gouazoubira não é uma caça de fácil captura, pois é dotado de um olfato bastante aguçado, exigindo do caçador um estu- do acurado do ambiente, principalmente com relação ao vento, além de possuir comportamento evasivo, mostrando-se sempre alerta. Para Vogliotti (2003), es- sas características comuns aos cervídeos, os acurados sentidos de olfato e audição, refletem uma importan- te adaptação antipredatória, informação que também foi atestada por Moura-Brito e Margarido (2000), em pesquisa realizada no Paraná com veado-campeiro (Ozotoceros bezoarticus Linnaeus, 1758). Esses autores observaram que com a aproximação humana a reação principal do animal é a fuga imediata em disparada. Um entrevistado deste estudo, que já capturou M. gouazoubira, mencionou que pessoas que matam o veado, antes de tirá-lo do lugar tem que benzê-lo, do contrário, não conseguirá capturar nenhuma caça por um período de três anos. Não foi encontrado na literatu- ra registro similar a esse comportamento, sugerindo que seja uma crença local. Todavia, entre os maias da Penín- sula de Yucantán, México, o veado, Mazama pandora (Merriam, 1901), constitui a principal oferenda para o culto do Deus B (divindade da chuva, da fertilidade e da caça) (MONTOLÍU, 1976). Assim, no momento em que o caçador faz o gesto da cruz no animal abatido é possível supor que ele esteja doando simbolicamente o corpo e a alma desse animal para a entidade, a fim de receber graças de caça em abundância. Os entrevistados mais experientes relataram que, em suas atividades de caça, a captura de M. gouazoubira é envolvida por um universo encantado. Indivíduos com pintas brancas distribuídas pelo corpo não são captura- dos, pois segundo os caçadores da região, essa caracte- rística é típica de animal mandingueiro, sendo necessária a permissão da Dona da Mata (figura mítica da floresta responsável pelas vidas na mata) para capturá-lo. Essa di- ferenciação de padrão de coloração, destacada pelos en- trevistados, trata-se provavelmente de indivíduo juvenil, pois conforme descrição de Feijó e Langguth (2013), os indivíduos jovens apresentam de seis a oito listras hori- zontais, formadas por manchas brancas, que se estendem por todo o comprimento do dorso e lateral do corpo, as quais são mantidas até os três ou quatro meses (BLACK- -DÉCIMA et al., 2010). Quanto à crença em uma entidade sobrenatural, que protege os recursos e castiga aqueles que os usam inadequadamente (desperdiça ou excede), aparentemente, é uma estratégia de conservação bastan- te eficiente (COSTA-NETO, 2000). Silva (2005), estudando Conhecimento ecológico local sobre o veado, Mazama gouazoubira (G. Fischer, 1814), por moradores do entorno de uma área protegida do semiárido brasileiro RBCIAMB | n.38 | dez 2015 | 78-94 87 narrativas populares em comunidades rurais do Agreste paraibano, reporta que essa entidade sobrenatural da floresta impõe medo aos caçadores, pois é ela quem de- termina a caça e a livre circulação dentro desse espaço, o que sugere uma possível delimitação de atividades ci- negéticas sob algumas espécies. Assim como a Caipora, figura mítica do manguezal (MAGALHÃES; COSTA-NETO; SCHIAVETTI, 2014), a Dona da Mata também é um ser que causa temor, pois tem um poder de fazer as pessoas se desorientarem e perderem o caminho de volta na mata. Usos culturais conhecidos Como justificativa para a caça de M. gouazoubira na re- gião estudada, no passado e/ou atualmente, foi relata- da a preferência pela carne (n=35; 100%), sendo men- cionadas finalidades como artesanato (n=15; 42,85%), para fins zooterápicos (n=11; 31,42%), e uso mágico-re- ligioso (n=8; 22,8%) (Figura 2). Em estudos sobre a fauna cinegética, os cervídeos são geralmente um grupo altamente valorizado pelas comu- nidades locais do semiárido brasileiro (ALVES; GONÇAL- VES; VIEIRA, 2012; MELO et al., 2014) e de outros países de ambientes áridos (ALTRICHTER, 2000; 2006), devido ao retorno energético em termos de biomassa extraída. Os entrevistados relataram a utilização de diversas par- tes da espécie para fins medicinais, bem como para di- ferentes enfermidades tratadas, quando comparadas às indicações de tratamentos documentadas em ou- tras pesquisas no Brasil com essa espécie. Por exemplo, Gehara et al. (2009), em Minas Gerais, encontraram re- latos medicinais apenas da raspa do chifre, sendo in- dicado para cólicas menstruais. Aspecto interessante é a não correspondência de prescrição entre os achados deste estudo e de outros pesquisadores (Tabela 3). Souto et al. (2010) afirmam que a diversidade de par- tes usadas de uma mesma espécie nas práticas medi- cinais regionais reflete um elevado grau de interação dos moradores locais com o recurso faunístico. A não correspondência nas indicações terapêuticas permite inferir que M. gouazoubira é uma espécie de utilidade medicinal redundante e, portanto, pode estar sofrendo uma maior pressão de captura nos sistemas culturais. No estudo conduzido por Melo et al. (2014) em outras comunidades da APA da Chapada do Araripe, foi do- cumentado o uso do chifre para dor de ouvido; neste estudo a indicação terapêutica para tratar essa enfer- midade é o óleo da canela. Figura 2 – Multiplicidade de usos de M. gouazoubira segundo os entrevistados de comunidades do entorno da Área de Proteção Ambiental da Chapada do Araripe, Ceará. M. gouazoubira Couro Artesanato Cinturão, jibão bornal Tamburete, estofamento Pandeiro Mau olhado Chifre, pata Carne Banha, fígado, fezes Proteção Remédio Remédio Remédio Alimento Bonifácio, K.M.; Schiavetti, A.; Freire, E.M.X. RBCIAMB | n.38 | dez 2015 | 78-94 88 Percepção dos informantes locais sobre a disponibilidade de M. gouazoubira Quando questionados sobre diminuição na quanti- dade de M. gouazoubira desde o período em que a caça, como recurso de subsistência, acontecia sem proibição (entre 1947 e 1965), todos os entrevista- dos declararam uma menor quantidade de avista- mento dessa espécie na região. Os motivos relata- dos para a diminuição de M. gouazoubira ao longo do tempo foram: ausência humana (n=32; 91,42%) e migração dessa espécie para outros locais em busca de alimento (n=3; 8,57%). Tabela 3 – Comparação das prescrições terapêuticas de M. gouazoubira citadas pelos entrevistados da APA da Chapada do Araripe, Ceará com outros estudos realizados no Brasil. Modo de preparo e uso: (1) tira o óleo, molha o algodão e coloca dentro do ouvido; (2) derrete no fogo, põe em um frasco e, ainda morno, passar na área afetada duas vezes ao dia; (3) torra e faz o chá do pó; (4) cozinha no fogo, coa, põe em um vidro e quando esfriar tomar uma colher de sopa uma vez ao dia; (5) amarrar o couro na altura do joelho sem apertar, dar três nós e retirá-lo quando os nós desatarem espontaneamente; (6) raspa, faz o chá e toma uma colher de chá três vezes ao dia até nascer os dentes; *modo de preparo indi- cado somente para irritação; (7) lavar os joelhos da criança uma vez ao dia. Finalidades Parte utilizada Neste estudo Outros estudos Referências Locais citados Dor de ouvido, mouquidão (= surdez) Óleo da canela (1) chifre Melo et al. (2014) CE Reumatismo Banha (2) óleo da canela Costa-Neto e Motta (2010) DF Puxado (= asma) Fígado (3) e fezes (4) banha Alves e Rosa (2007); Oliveira et al. (2010) PB; RN óleo da canela Costa-Neto (1999) BA chifre Ferreira et al. (2012) CE, AL, PE e BA Mordedura de cobra Couro (5) chifre Melo et al. (2014); Vogliotti (2003) CE; SP Dor de dente; irritação- durante o nascimento dos dentes em crianças Chifre (6)* ─ ─ ─ Criança andar cedo Salmoura (=secreção da carne) (7) óleo da canela Marques (1995) AL Onde tinha muita gente a fartura era grande [muita caça]; tirando o povo da floresta o veado desapareceu. (A.N., 83 anos) Há 30 anos atrás a serra era mais povoada, tinha mais roça, o pessoal cuidava das lavouras de fei- jão, mandioca, milho, assim os bichos se aproxi- mavam. (D., 49 anos) Semelhante a esse resultado, o estudo de Gehara et al. (2009) no Parque de Ibitipoca, Minas Gerais, também indicou uma diminuição na abundância de M. goua- zoubira, porém em decorrência da atividade de caça, que já não ocorre atualmente devido à fiscalização. Black-Décima et al. (2010) e Duarte et al. (2012) argu- mentam que as populações de cervídeos estão, na sua maioria, em declínio devido a uma combinação de fa- tores, tais como caça, enfermidades transmitidas por animais domésticos, predação por cães e fragmenta- ção de habitat. Numa perspectiva socioecológica, a retirada das pes- soas após a delimitação da FLONA do Araripe nos anos 1940 também pode ter influenciado na abundância de Conhecimento ecológico local sobre o veado, Mazama gouazoubira (G. Fischer, 1814), por moradores do entorno de uma área protegida do semiárido brasileiro RBCIAMB | n.38 | dez 2015 | 78-94 89 M. gouazoubira nos ambientes desta Área Protegida, haja vista que os espaços antes destinados aos culti- vos de monoculturas e frutíferas em abundância estão sendo substituídos por áreas de vegetação nativa, a qual promove maior heterogeneidade espacial e con- sequente maior disponibilidade em alimento. Aliada a essa maior oferta de ambientes com vegetação nativa está o abandono de áreas cultivadas, locais esses com grande probabilidade de avistamento de indivíduos, atraídos pela oferta de alimento. Gehara et al. (2009) constatou que, em Minas Gerais, agricultores envol- vidos com cultivo do feijão avistaram M. gouazoubira com mais frequência como resultado do hábito sinan- trópico exibido por essa espécie. Entre comunidades indígenas maia do México, as áreas agrícolas de milho e feijão são manejadas como espaço para caçar espé- cie da fauna silvestre (SANTOS-FITA et al., 2013). CONCLUSÃO Os moradores demonstraram um conhecimento ex- pressivo sobre M. gouazoubira, com usos múltiplos pelas comunidades locais e forte ligação com esse cer- vídeo, corroborando o encontrado por Bonifácio, Freire e Schiavetti (2016). Estratégias adequadas de manejo e conservação bio- cultural incluem a compreensão das interações das comunidades locais com os recursos biológicos. Essas relações ainda são desconhecidas para a FLONA/APA da Chapada do Araripe, especialmente com a fauna. Por exemplo, a provável mudança do padrão de abun- dância desse cervídeo na região do Araripe deve ser in- vestigada, inclusive com avaliação dos ambientes com condições ecológicas mais favoráveis à manutenção dessa espécie de grande relevância sociocultural. Outras ações e estudos necessários para conservação de M. gouazoubira na FLONA/APA da Chapada do Ara- ripe são fundamentais, tais como realizar estudos sobre taxonomia, para esclarecer possíveis dúvidas quanto à identificação da espécie; efetuar estimativas popula- cionais para o conhecimento da dinâmica das popu- lações; realizar levantamento da distribuição atual da espécie e monitoramento através de radiotelemetria, para estimar o tamanho da área de vida dessa espécie dentro e fora da Flona do Araripe. AGRADECIMENTOS KM Bonifácio agradece à Coordenação de Aperfeiçoa- mento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pela bolsa de doutorado; EMX Freire e A Schiavetti ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológi- co (CNPq) pelas bolsas de produtividade (Processos 309424/2011-9 e 310799/2009-0, respectivamente). Agradecimento especial aos informantes das comuni- dades estudadas (Caldas, Farias, Novo Horizonte e Ban- co de Areia, APA Crato/CE) que foram indispensáveis para a realização desta pesquisa. REFERÊNCIAS ALBUQUERQUE, U. P.; LUCENA, R. F. P.; ALENCAR, N. L. Métodos e técnicas para coleta de dados etnobiológicos. In: ALBUQUERQUE, U.P.; LUCENA, R.F.P.; CUNHA, L.V.F.C. (Org.). Métodos e técnicas na pesquisa etnobiológica e etnoecológica. Recife: NUPEEA, 2010. v. 1, p. 41-64. ALTRICHTER, M. Importancia de los mamiferos silvestres em la dieta de pobladores de la Península de Osa, Costa Rica. Revista Mexicana de Mastozoología, v. 4, p. 95-103, 2000. ALTRICHTER M. 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