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Maria de Lima Alves
Doutora pelo Programa
Regional de Pós-Graduação em
Desenvolvimento e Meio Ambiente
da Universidade Federal do Rio
Grande do Norte (UFRN) – Natal
(RN), Brasil.
Paulo Roberto Medeiros
de Azevedo
Professor do Departamento de
Estatística do Centro de Ciências
Exatas e da Terra (CCET) – Natal
(RN), Brasil.
Maria de Fátima Freire
de Melo Ximenes
Professora do Departamento
de Microbiologia e Parasitologia
do Programa Regional de Pós-
Graduação em Desenvolvimento
e Meio Ambiente do Centro de
Biociências (CB) – Natal (RN), Brasil.
Endereço para correspondência:
Maria de Lima Alves – Secretaria
de Estado da Saúde Pública do
Rio Grande do Norte – Avenida
Marechal Deodoro da Fonseca,
730, 6° Andar – Centro – 59025-
600 – Natal (RN), Brasil – E-mail:
malimalves11@gmail.com
RESUMO
Aspectos socioeconômicos, ambientais e culturais que caracterizam as
comunidades influenciam diretamente na saúde dos indivíduos. O objetivo
do estudo consistiu em analisar o conhecimento dos indivíduos sobre os
fatores associados aos riscos de transmissão da leishmaniose visceral na
comunidade Guanduba, município de São Gonçalo do Amarante (RN).
A metodologia envolveu a aplicação de 111 questionários, com famílias
da comunidade, abordando aspectos socioeconômicos, epidemiológicos,
sanitários e ambientais associados à transmissão da doença. Os resultados
revelam que as características ambientais presentes na comunidade
favorecem a transmissão da leishmaniose visceral (LV), em que 21% dos
participantes não possuem educação formal e 97% não sabem como
se prevenir da doença. Portanto, o conhecimento que os indivíduos da
comunidade Guanduba possuem acerca da LV é insuficiente para sua
prevenção. A necessidade de compreender como os sujeitos organizam suas
vivências e saberes é imprescindível para o planejamento e a consolidação
de ações de promoção da saúde humana e ambiental.
Palavras-chave: conhecimento da população; leishmaniose visceral; área
periurbana; meio ambiente.
ABSTRACT
Socioeconomic, environmental and cultural aspects that characterize
communities directly influence the health of individuals. This study aimed to
analyze the knowledge of individuals about the factors associated with the
risks of transmission of visceral leishmaniasis in the Guanduba community, county
of São Gonçalo do Amarante (RN(. The methodology involved the application of
111 questionnaires to members of families in the community, considering
socioeconomic, epidemiological, sanitary and environmental aspects associated
with the transmission of the disease. The results reveal that the environmental
characteristics present in the community favor the transmission of visceral
leishmaniasis. Of the total participants, 21% do not have formal education
and 97% do not know how to prevent the disease. Therefore, the knowledge
that individuals of the Guanduba community have about visceral leishmaniasis
is insufficient for its prevention. Understanding how the subjects organize their
experiences and knowledge is essential for planning and consolidation of actions
promotion human and environment health.
Keywords: knowledge of the population; visceral leishmaniasis; peri-urban
area; environment.
DOI: 10.5327/Z2176-947820150070
LEISHMANIOSE VISCERAL E ASPECTOS SOCIOAMBIENTAIS:
RELATOS SOBRE A DOENÇA EM ÁREA PERIURBANA DA
REGIÃO METROPOLITANA DE NATAL (RN), BRASIL
LEISHMANIASIS VISCERAL AND ENVIRONMENTAL ASPECTS: REPORTS ABOUT THE DISEASE IN
AREA PERI-URBAN OF THE METROPOLITAN REGION OF NATAL, RIO GRANDE DO NORTE, BRAZIL
Alves, M.L.; Azevedo, P.R.M.; Ximenes, M.F.F.M.
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INTRODUÇÃO
As transformações econômicas, sociais e demográficas
nas duas últimas décadas no Brasil repercutiram de
forma significativa nas condições de vida e de saúde
da população. Nesse cenário, o crescimento demográ-
fico das cidades destaca-se como propulsionador das
problemáticas urbanas que envolvem questões cru-
ciais nos mais variados campos da sociedade brasileira,
como o da saúde pública.
Os riscos à saúde humana inerentes ao crescimento
demográfico e à expansão urbana desordenada contri-
buem para deficiências de infraestrutura básica, des-
truição da vegetação e sua substituição por diferentes
tipos de empreendimentos, transformando completa-
mente a paisagem (LEAL et al., 2008). Desse modo, as
questões sanitárias e ambientais desfavoráveis verifica-
das nos espaços com alta vulnerabilidade social inter-
ferem nas condições de saúde dos indivíduos, estando
diretamente relacionadas, contribuindo, assim, para o
surgimento de doenças infecciosas e parasitárias, sen-
do a leishmaniose uma dessas doenças (WHO, 2010).
A leishmaniose apresenta diferentes formas clínicas
(visceral e tegumentar), sendo notificadas em diferen-
tes países (WHO, 2013). No Brasil, as leishmanioses
são registradas em todas as Regiões. No Rio Grande
do Norte, a distribuição da leishmaniose visceral (LV)
e tegumentar ocorre nas diferentes regiões do Esta-
do, de forma isolada ou em concomitância (XIMENES
et al., 2007). A LV é mais predominante na população
carente (JERÔNIMO, 2004) e sua ocorrência endêmica
está associada às baixas condições socioeconômicas da
população, podendo alcançar proporções ainda maio-
res pela adaptação dos insetos vetores da doença aos
ambientes modificados (MARZOCHI et al., 2009).
No que se refere à LV, diversos fatores estão envolvidos
na sua transmissão. A doença é causada por um pro-
tozoário do gênero Leishmania. No Brasil, o principal
vetor é o inseto flebotomíneo da espécie Lutzomyia
longipalpis, sendo o cão doméstico o principal reser-
vatório e o ser humano o hospedeiro final. Acomete
órgãos internos, principalmente o fígado, o baço e a
medula óssea, podendo durar meses ou até ultrapas-
sar o período de um ano e ser fatal (PEARSON, 1995).
Essas particularidades tornam a doença sem controle
e com avanço desordenado, atingindo 21 Estados das
5 Regiões brasileiras, sendo endêmica na Região Nor-
deste (BRASIL, 2013). No Rio Grande do Norte, três
municípios em diferentes regiões de desenvolvimen-
to ― Metropolitana, Mossoroense e Vale do Açú ―
têm classificação intensa para a LV. O município de São
Gonçalo do Amarante, lócus deste estudo, está classi-
ficado como de transmissão moderada e integra a Re-
gião Metropolitana de Natal (SESAP, 2014).
Assim sendo, o objetivo do estudo consistiu em anali-
sar o conhecimento dos indivíduos sobre os fatores as-
sociados aos riscos de transmissão da LV na comunida-
de Guanduba, município de São Gonçalo do Amarante
(RN). A perspectiva fundamental é contribuir com no-
vos subsídios acerca das condições socioeconômicas,
ambientais e sanitárias e dos fatores de risco favoráveis
à transmissão da LV em ambiente periurbano.
MATERIAIS E MÉTODOS
A pesquisa foi realizada na comunidade Guandu-
ba (Figura 1), com latitude 5°48’11” sul e longitude
35°21’28” oeste, localiza-se em área periurbana a
5 km da sede do município de São Gonçalo do Ama-
rante, que integra a Região Metropolitana de Natal,
Rio Grande do Norte (IBGE, 2014).
O universo da pesquisa abrange 702 famílias de Guan-
duba e a amostra analisada corresponde a 111 famí-
lias. A amostragem foi do tipo aleatória simples e a
variável considerada foi a proporção de famílias cadas-
tradas no Programa Saúde da Família (PSF) da referi-
da comunidade. O instrumento de coleta de dados foi
um questionário composto por 20 perguntas semies-
truturadas contendo respostas dicotômicas e espaço
reservado para observações. Os questionários foram
aplicados no mês de julho de 2014 a um indivíduo de
cada família maior de 18 anos. A pesquisa foi aprova-
da pelo Comitê de Ética em Pesquisa (licença CEP com
nº 184.343/2012). A análise dos dados qualitativos e
quantitativos foi realizada por meio do programa Sta-
tistica 7.0. Para verificação de possíveis associações
entre as variáveis, foi utilizado o teste do χ2 e adotado
o nível de significância menor ou igual a 5% (p<0,05).
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RESULTADOS
A pesquisa constatou que na comunidade Guandu-
ba não há saneamento e 100% dos dejetos são des-
tinados à fossa séptica. Já o abastecimento público
de água canalizada chega a 91,82% das residências
e a água proveniente de poços ou cacimbas perfaz
8,18%. Possui uma cobertura em atenção à saúde
para mais de 90% das famílias residentes, com 758
famílias cadastradas no PSF no ano de 2013, com-
preendendo uma população de 2.701 pessoas; des-
se total, são 1.367 homens e 1.334 mulheres (SÃO
GONÇALO DO AMARANTE, 2014).
Os resultados evidenciam que dos 111 participan-
tes da pesquisa, 33% pertencem ao gênero mas-
culino, e 67%, ao gênero feminino. Observou-se
uma associação significativa entre a escolaridade e
a idade (p=0,0000), ou seja, indivíduos do gênero
feminino na faixa etária de 25 a 59 anos possuem
escolaridade mais elevada e, entre a escolaridade
e o gênero (0,0293), as mulheres possuem nível de
escolaridade mais elevado do que os homens. Os
participantes distribuíram-se em diferentes graus
de escolaridade: sem escolaridade (21%), ensino
fundamental (47%), ensino médio (31%) e ensino
superior (1%), conforme Figura 2.
No tocante à ocupação dos participantes, as princi-
pais categorias laborais citadas foram: dona de casa
(38%), aposentado (20%), comerciante (8%), agricul-
tor (8%), doméstico (4%), outras (24%). Quanto aos
conhecimentos sobre a leishmaniose/calazar, 73%
dos sujeitos confirmaram possuir conhecimento so-
bre a doença. Nesse passo, sobre as formas de trans-
missão da leishmaniose, 34% dos participantes com-
preendiam como ocorre a transmissão da doença e
66% responderam que não tinham conhecimento
sobre esse assunto. Não se observou associação sig-
nificante entre escolaridade e conhecimento sobre a
prevenção da leishmaniose (p=0,7234).
Quanto ao conhecimento sobre quem é o vetor da
leishmaniose, 52% dos sujeitos não conheciam o
inseto e 48% responderam afirmativamente. Obser-
vou-se associação significante entre o conhecimento
a respeito da LV e sobre quem é o seu transmissor
(p=0,0023). Sobre a existência de casos de leishma-
niose na família ou na comunidade, verificou-se que
10% dos entrevistados confirmaram casos na família,
ao passo que 90% negaram tal ocorrência em am-
biente familiar. Já o risco de contrair a leishmanio-
se foi confirmado por 83% dos participantes. No Rio
Grande do Norte, o adoecimento por este agravo é
elevado. Considerando o período de 2004 a 2014,
verifica-se que foram confirmados 916 casos de LV
no Estado (Figura 3).
No que se refere às formas de prevenção da leishma-
niose, 3% dos indivíduos afirmaram saber como se
prevenir e 97% relataram não possuir conhecimen-
tos a esse respeito (Figura 4). Não se observou as-
Figura 1 – Vista aérea da comunidade Guanduba, São Gonçalo do Amarante (RN).
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sociação significante entre o conhecimento sobre
a prevenção da leishmaniose e a escolaridade dos
participantes (p=0,7234).
No que diz respeito à presença de animais domésticos
nesses domicílios, 74% afirmaram ter a posse desses
animais, mencionando diferentes espécies domésticas
Figura 2 – Escolaridade dos participantes da pesquisa em Guanduba, São Gonçalo do Amarante (RN), 2014.
0,40
0,35
0,30
0,25
0,20
0,15
0,10
0,05
0,00
Sem escolaridade
Masculino
14%
7%
36%
11%
6%
25%
1%
Feminino
Fundamental Médio Superior
Es
co
la
ri
d
ad
e
d
o
s
p
ar
ti
ci
p
an
te
s
(%
)
Fonte: SEAP/SINAN/SUVIGE.
Figura 3 – Letalidade e incidência de casos de leishmaniose visceral no Rio Grande do Norte (RN), 2004–2014.
LV – incidência/100.000
Taxa de letalidade (%)
Le
ta
lid
ad
e
(%
)
In
ci
d
ên
ci
a/
10
0.
00
0
4,5
4
3,5
3
2,5
2
1,5
1
0,5
0
2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014
10
9
8
7
6
5
4
3
2
1
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comumente presentes em suas residências, prevalecen-
do os cães. Ao responderem sobre a questão da posse
de cão que já tinha adquirido o calazar, 11% declararam
que sim e 89% assinalaram negativamente. No entan-
to, o conhecimento sobre cães doentes na comunidade
apresentando sintomas do calazar foi confirmado por
55% dos entrevistados, que descreveram os sinais e sin-
tomas, em contraposição a 45%, que assinalaram desco-
nhecimento de casos desse tipo.
A presença de animais da mata próximos ou dentro da
residência foi descartada por 20% e confirmada por
80% das famílias, que mencionaram diferentes espé-
cies de animais, como cobra, preá, escorpião, sapo, ca-
ranguejeira, etc., e um dos entrevistados afirmou que
criava preá (Galea spixii) no quintal da sua casa. Nes-
sa comunidade, 80% das residências situam-se próxi-
mas da mata, entre 10 e 100 m de distância, e a prática
de desmatamento foi confirmada por 35% dos sujei-
tos, em contraposição a 65% que desconhecem essa
prática na comunidade. Observou-se associação signi-
ficante entre a presença de animais silvestres dentro
de casa ou nas proximidades e a residência próxima da
mata (p=0,0000).
No que se refere às questões sanitárias e ambientais
na comunidade, verificou-se que 80% das residências
têm água parada ou fluente na frente e/ou no quintal.
Não se observou associação significante entre o co-
nhecimento sobre a prevenção da LV e a água escor-
rendo nas proximidades das residências (p=0,1230).
O acúmulo de lixo próximo às residências ou em ter-
renos baldios foi confirmado por 64% dos participan-
tes. Não se observou associação significante entre o
conhecimento sobre a prevenção da LV e o acúmulo
de lixo nas proximidades das residências (p=0,9854).
A destinação de restos de comida no quintal para alimen-
tar animais domésticos, ocorre em 55% das residências
dessas famílias e 45% responderam que não reprodu-
zem tal hábito. Não se observou associação significan-
te entre a prevenção da LV e a destinação de restos de
comida nas proximidades da casa (0,9268). Destaca-se
a quantidade de espécies frutíferas (82%) na frente
e/ou nos quintais das casas. A maioria das residências
tem mais de três espécies de frutíferas em sua área de
abrangência; as mais citadas foram mangueira (Mangi-
fera indica), 30%, coqueiro (Cocos nucifera), 23%, ace-
roleira (Malpighia punicifolia L.), 20%, bananeira (Musa
spp.), 17%, outras frutíferas, 10%.
A totalidade (100%) dos entrevistados confirmaram o
acompanhamento da família pelo agente comunitário
de saúde, e que a Unidade Básica de Saúde (UBS) ofer-
ta serviços em nível de atenção básica à população lo-
cal. Quanto à participação dos entrevistados em pales-
tras ou atividades similares que abordasse o tema da
leishmaniose, 5% assinalaram participação em alguma
atividade educativa sobre o assunto. Não se observou
associação estatisticamente significante entre o conhe-
LV: leishmaniose visceral.
Figura 4 – Respostas dos entrevistados sobre leishmaniose visceral em Guanduba, São Gonçalo do Amarante (RN), 2014.
Não sabe como se prevenir da LV
Desconhece quem é o vetor da LV
Não sabe como ocorre a transmissão da LV 66%
52%
97%
0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 110
Alves, M.L.; Azevedo, P.R.M.; Ximenes, M.F.F.M.
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Variável 1 Variável 2 Valor p
Idade
Escolaridade
0,0000
Fundamental Nível médio
≤39 18 (16,2%) 36 (32,4%)
>39 47 (42,3%) 10 (9%)
Gênero
Escolaridade
0,0293
Fundamental Nível médio
Fem. 38 (34,2%) 36 (32,4%)
Masc. 27 (24,3%) 10 (9,0%)
Como se prevenir da LV
Escolaridade
0,7234
Fundamental Nível médio
Não 63 (56,8%) 44 (39,6%)
Sim 2 (1,8%) 2 (1,8%)
Conhecimento sobre LV
Quem é o transmissor da LV
0,0023
Sim Não
Sim 48 (43,2%) 33 (29,7%)
Não 8 (7,2%) 22 (19,8%)
Mata próximo à residência
Animais silvestres nas proximidades da casa
0,0000
Sim Não
Sim 85 (76,6%) 7 (6,3%)
Não 3 (2,7%) 16 (14,4%)
Sabe como se prevenir da LV
Lixo acumulado nas proximidades da casa
0,9854
Sim Não
Sim 54 (48,6%) 53 (47,7%)
Não 2 (1,8%) 2 (1,8%)
Tabela 1 – Resultados de testes de associação entre alguns pares de variáveis do estudo em Guanduba,
São Gonçalo do Amarante (RN), 2014.
cimento que os indivíduos possuem sobre Leishma-
niose visceral e a participação em palestras e eventos
similares sobre esse tema (0,71731). Os resultados dos
testes de associações entre alguns pares de variáveis
do estudo são mostrados na Tabela 1.
Para a realização do teste de associação foi necessário
adequar a faixa etária entre ≤39 e >39 anos e o nível
de escolaridade para ensino fundamental e ensino
médio. Os percentuais foram obtidos com relação ao
total de pesquisados (n=111).
Continua...
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DISCUSSÃO
Na comunidade Guanduba (Figura 1), as precárias con-
dições socioeconômicas, sanitárias e ambientais são
notórias. A falta de saneamento básico se constitui em
um dos maiores problemas estruturais da comunida-
de, refletindo a precariedade das condições socioe-
conômicas e ambientais em que vive essa população.
Outra característica que chama a atenção é o elevado
número de animais domésticos, principalmente cães,
contribuindo para maior probabilidade de aquisição de
doenças zoonóticas pelos indivíduos.
Foram presenciadas situações corriqueiras como a de
crianças brincando em frente a suas casas, inclusive
com os animais domésticos, entre lixo e esgotos, ig-
norando os riscos aos quais estão submetidas. As con-
dições sanitárias precárias e desfavoráveis à saúde
humana, presentes no cotidiano dessas famílias em
situação adversa, estão naturalizadas em função da
estabilidade dessa situação insalubre ao longo de suas
vidas, permanecendo negligenciadas pelo poder públi-
co mesmo em detrimento de políticas de incentivos ao
saneamento básico para os municípios brasileiros por
parte da esfera federal. Estudos realizados Rio Grande
do Norte, mostram que fatores ambientais e sociais
são importantes variáveis associadas à infecção por
L. infantum em humanos e caninos (LIMA et al., 2012).
As condições de vida dos indivíduos geram diferenças
não apenas sociais e ambientais, mas, principalmente,
na condição humana do processo saúde-doença e no
acesso aos serviços de saúde. A estratificação econô-
mico-social e ambiental dos indivíduos e grupos reper-
cute nos diferenciais de saúde (CNDSS, 2008). No con-
texto de comunidades em situação de vulnerabilidade
social e pobreza, o acesso à assistência à saúde se dá
não como um direito de cidadania, como preconiza o
Sistema Único de Saúde (SUS). De acordo com Silva Fi-
lho & Fortes (2013), a vulnerabilidade dos indivíduos
diante do infortúnio da doença, agravada pelas baixas
condições socioeconômicas e ambientais, é determi-
nante para a naturalização de trocas de favores assi-
métricas entre profissionais do setor saúde, usuários
do SUS e atores políticos, caracterizando práticas clien-
telísticas no setor público da saúde. Ocorre principal-
mente quando os indivíduos necessitam de suporte da
média e alta complexidade no SUS para o tratamento
de doenças, como é o caso da leishmaniose. A resoluti-
vidade para o agravo se depara com diferentes proble-
Variável 1 Variável 2 Valor p
Sabe como se prevenir da LV
Restos de comida nas proximidades da casa
0,9268
Sim Não
Não 56 (50,5%) 51 (45,9%)
Sim 2 (1,8%) 2 (1,8%)
Sabe como se prevenir da LV
Água escorrendo nas proximidades da casa
0,1230
Sim Não
Não 87 (78,4%) 20 (18%)
Sim 2 (1,8%) 2 (1,8%)
Conhecimento sobre LV
Participação em palestras ou similares
0,7173
Não Sim
Sim 77 (69,4%) 4 (3,6%)
Não 29 (26,1%) 1 (0,9%)
Tabela 1 – Continuação.
LV: leishmaniose visceral.
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mas e, sobretudo, com a necessidade de qualificação
dos profissionais para realizar o diagnóstico precoce e
tratamento para as doenças de notificação compulsó-
ria. Mas é imprescindível que a população tenha co-
nhecimentos acerca da estrutura e do funcionamento
dos serviços do SUS, para que possa reivindicar o aten-
dimento para a detecção oportuna do agravo.
Neste estudo, observações e conversas complementam
o quadro de informações coletadas e muitos aspectos
evidenciaram como os membros da comunidade, no
seu cotidiano, convivem com os fatores associados à
LV e, sobretudo, o que sabem, pensam e reproduzem
sobre a leishmaniose. Como refletido na fala de um dos
entrevistados sobre os sinais clínicos da doença no cão:
[...] eu crio um cachorro... e faz dias que o coitado está
doente: magro, pelo caindo, feridas no focinho... acho
que é calazar [...] ele pegou essa doença desses ca-
chorros da rua [...]
Esse relato demonstra o reconhecimento, pelos indiví-
duos, de cães doentes apresentando sinais da LV ca-
nina, apesar de não saberem identificar como ocorre
a transmissão da doença. No Rio Grande do Norte, os
sintomas da LV canina foram estudados e destacados
como sintomas preditivos de LV canina a presença
de úlceras, unhas grandes, perda de peso e alopecia
(QUEIROZ, 2012).
Nessa comunidade, a guarda dos cães por essas famí-
lias ainda é feita de forma elementar, não observan-
do cuidados de higiene, alimentação e prevenção de
doenças. Em situação de doença do animal, não co-
municam o fato para os serviços públicos, para que
possam realizar testes sorológicos para verificação da
positividade canina e recolhimento do animal com ca-
lazar para a eutanásia. Foram constatados, ainda, hábi-
tos inadequados de manutenção, soltura ou abandono
de cães doentes na comunidade, constituindo-se como
um grave problema de saúde pública.
A permanência de pessoas nas residências, sobretudo
donas de casa, possibilita melhor acompanhamento do
animal por intermédio de cuidados e práticas de higie-
ne apropriados para os cães. Nesta comunidade, a ocu-
pação que obteve maior percentual foi a de dona de
casa, com predomínio do gênero feminino em relação
ao masculino, principalmente na faixa etária de 25 a
59 anos, ocupando a terceira posição dentre as ocupa-
ções mais atingidas pela LV, ficando atrás de estudantes
e aposentados, que ocupam, respectivamente, o pri-
meiro e o segundo lugar das ocupações (SESAP, 2014).
Em relação a esse perfil, observou-se associação signi-
ficante entre gênero e escolaridade dos participantes,
com predominância do gênero feminino, havendo uma
diferença sutil entre as que se incluem no ensino fun-
damental (34,2%) e aquelas que se incluem no ensino
médio (32,4%) (Tabela 1).
O baixo nível de escolaridade dos participantes pode
ter repercutido na qualidade das respostas obtidas.
Uma parcela dos entrevistados foi composta por
analfabetos (21%), ficando incluídos no ensino fun-
damental. Em relação ao nível educacional, obser-
vou-se associação estatisticamente significante en-
tre a escolaridade e a idade, em que os maiores de
39 estavam incluídos no nível fundamental (42,3%),
categoria na qual foram incluídos os idosos autode-
clarados analfabetos. Borges et al. (2008), com da-
dos menos alarmantes, também verificaram o baixo
índice de instrução dos entrevistados, já que 68,3%
podiam ser incluídos no grupo daqueles que não
chegaram a terminar o ensino médio. A constatação
do baixo nível educacional (58,5%) dos participantes
no nível fundamental pode implicar na situação de
saúde dos indivíduos da comunidade, já que a es-
colaridade contribui para a percepção dos riscos à
saúde e da noção de cidadania (Tabela 1).
Embora tenham demonstrado conhecimento sobre a
existência da leishmaniose, constatou-se elevado per-
centual de desconhecimento sobre os mecanismos de
prevenção da doença (97%). No entanto, a escolarida-
de dos indivíduos não obteve associação significante
em relação à prevenção da LV, em que tanto indivíduos
incluídos no ensino fundamental (56,8%) quanto no
ensino médio (39,6%) responderam não saber como
se prevenir da LV (Tabela 1). Esses resultados demons-
tram que essa temática possivelmente não seja traba-
lhada pelos professores em sua prática educativa tanto
no ensino fundamental quanto no ensino médio. Ade-
mais, evidenciam a ineficácia, por parte Equipe de Saú-
de da Família, dos mecanismos de educação em saúde
nessa comunidade.
Nesse sentido, a aquisição de informações acerca dos
sinais e sintomas da leishmaniose no ser humano e no
cão e das formas de transmissão da doença é impres-
cindível, já que esses dados são indispensáveis à ado-
ção de medidas preventivas, pelos indivíduos na comu-
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nidade, no que se refere à doença e ao saneamento
ambiental, contribuindo para o controle da LV. Desse
modo, os entrevistados que afirmaram compreender
como se transmite a doença não conseguiram des-
crever de forma clara os diferentes elos da cadeia de
transmissão: o vetor (inseto), o reservatório (cão) e o
hospedeiro final (ser humano). Isso ficou evidente em
um discurso de um dos entrevistados:
[...] a gente pega essa doença dos cachorros doentes,
sentando perto deles ou nos locais onde eles vivem.
Os cachorros também pegam o calazar de outro ca-
chorro doente [...].
No discurso acima fica evidente o conhecimento con-
fuso sobre a transmissão da leishmaniose tanto no
cão quanto no ser humano, colocando o cão como
principal agente transmissor da doença, não citando
o inseto vetor nesse ciclo da doença. Em estudo sobre
leishmaniose cutâneo-mucosa, Netto et al. (1985) ob-
servaram que a população detinha um entendimento
razoável sobre alguns aspectos epidemiológicos e o
tratamento da leishmaniose, mas demonstrava pou-
co conhecimento sobre a etiologia e a prevenção da
doença. Já os estudos de Alemu et al. (2013) sobre
LV mostraram que as pessoas estão bem informadas
sobre a doença, mas o conhecimento sobre a trans-
missão, os sinais e sintomas e a origem infecciosa da
doença não ficou evidente.
Na Amazônia Legal, a incidência da LV pode estar as-
sociada com pouco ou nenhum conhecimento da po-
pulação sobre a prevenção da doença (OLIVEIRA et
al., 2013), o que foi corroborado por Margonari et al.
(2012) demonstrando que o conhecimento público
sobre a LV em Divinópolis é escasso e fragmentado.
Gama et al. (1998) verificaram que as populações resi-
dentes em áreas endêmicas de LV no Maranhão apre-
sentavam baixo nível de conhecimento, principalmen-
te em relação à prevenção e à terapêutica da doença.
Diferente do que Boraschi et al. (2008) observaram em
Três Lagoas (MG), onde a população demonstrou ter
conhecimento sobre a doença, a transmissão e o que é
necessário para a prevenção.
Ainda que os participantes deste estudo tenham refe-
rido conhecimento sob a forma de transmissão da LV,
69% não citaram os nomes populares do inseto trans-
missor da leishmaniose já relatados na literatura. Ou-
tros 28% citaram insetos responsáveis por outras doen-
ças, como muriçoca, Aedes aegypt, mosquito, maruim,
como transmissores desta doença. Em contrapartida,
3% citaram o mosquito do calazar como sendo o trans-
missor da leishmaniose.
O desconhecimento sobre a transmissão, os riscos e
a prevenção da LV é preocupante, já que o Rio Gran-
de do Norte é endêmico para esse agravo. No perío-
do de 2004 a 2014, a incidência de registros de casos
LV no Estado potiguar (Figura 3) foi maior entre 2008
e 2011, sendo que em 2008 a letalidade alcançou a
maior taxa. No período analisado, os municípios com
maiores taxas de incidência de casos humanos de
LV são Natal, Mossoró e Açú, classificados como de
transmissão intensa e prioritários para os serviços
de vigilância ambiental e epidemiológica.
No município de São Gonçalo do Amarante, foram
registrados 31 casos da doença distribuídos no re-
ferido período. No entanto, a classificação epide-
miológica para área de transmissão da LV nesse
município mudou de esporádica para moderada no
último triênio (2012 a 2014), em decorrência do re-
gistro de oito casos humanos de LV; dentre estes,
houve a confirmação de dois óbitos (SESAP, 2014)
em indivíduos oriundos de localidades periurbanas
com ocorrência de desmatamento de grandes áreas
de mata nativa, tanto para a construção de cente-
nas de unidades habitacionais, quanto para a cons-
trução de um aeroporto nesse município.
Na comunidade Guanduba não se registra casos huma-
nos de LV há cinco anos (SESAP, 2014). Essa constata-
ção, possivelmente, justifique o alto percentual (90%)
de desconhecimento de casos de LV na comunidade
pelos moradores, já que apenas 10% dos entrevista-
dos afirmaram ter conhecimento sobre tal enfermida-
de, sendo que um deles admitiu ter história pregressa
da doença na família. Embora essa comunidade tenha
sido classificada como área silenciosa para transmissão
da LV pelos serviços de vigilância e controle, a cons-
tatação de cães doentes apresentando sintomas da
doença, as condições socioambientais desfavoráveis e
o desmatamento da mata nativa são fatores que suge-
rem o risco eminente de ocorrência de casos humanos.
As implicações referentes à notificação de casos huma-
nos de LV foram apenas uma questão de tempo, já que
no segundo bimestre de 2015 se confirmou um caso de
LV em um comunitário de Guanduba, fechando, assim,
o ciclo da doença.
Alves, M.L.; Azevedo, P.R.M.; Ximenes, M.F.F.M.
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Ximenes et al. (2007) assinalaram a existência de as-
sociações entre as espécies vetoras e da distribuição
da doença com características demográficas, fisio-
nômicas, crescimento desordenado, condições de
vida e degradação ambiental em área de notificação
de casos de LV da região metropolitana de Natal.
Guanduba se insere no contexto dessa região me-
tropolitana, possuindo características rurais e urba-
nas, o que a evidencia como área periurbana (VALE,
2005). Nessa comunidade ainda se verificam práti-
cas como a criação de animais domésticos (suínos,
caprinos, ovinos, bovinos), elucidando a destinação
de resíduos orgânicos nos quintais dessas residên-
cias para alimentação desses animais. Nesses am-
bientes, as condições precárias de moradia, ausên-
cia e/ou deficiência na coleta de lixo e presença de
animais domésticos no peridomicílio favorecem a
manutenção do ciclo de insetos vetores (flebotomí-
neos) da leishmaniose (LIMA et al., 2012; QUEIROZ
et al., 2009; XIMENES et al., 2007).
O cultivo de frutíferas nas proximidades dessas residên-
cias, com forte presença de mangueiras, contribui para
o sombreamento do solo e o aumento da quantidade
de matéria orgânica (frutas e folhas caídas), criando
ambiente propício à manutenção do ciclo biológico dos
flebotomíneos. Ademais, constatou-se a convivência
comum de crianças e cães nesses ambientes, represen-
tando um risco ainda maior, já que esses animais são po-
tenciais reservatórios de Leishmania em áreas urbaniza-
das ou fonte de alimentação para o inseto vetor, como
demonstrado por Rebêlo et al. (2000), na Amazônia
Maranhense, e Ximenes et al. (2007), no Rio Grande do
Norte, em áreas endêmicas de leishmaniose.
Para essa comunidade periurbana, o risco de adquirir a
LV assemelha-se ao de se adquirir outro tipo de doença.
Mesmo sem compreenderem os mecanismos de trans-
missão da doença, ao serem questionados sobre os ris-
cos de adquirir a LV, responderam questionando: “quem
não tem medo?” ou comentando: “sim, como qualquer
doença”. Já os participantes que confirmaram a criação
de caninos, negaram sintomas da doença no seu animal.
Contudo, confirmaram a presença de cães doentes na
comunidade, mas desconheciam os encaminhamentos
a serem dados ao cão doente, conforme relato:
[...] o que devo fazer quando aparecer um cachorro
doente? Se um dos meus cachorros pegar a doença vai
passar para o resto? O que eu faço?
Assim, a constatação de cães apresentando sinto-
mas característicos da leishmaniose canina, indica
tanto a presença do protozoário quanto a do inse-
to vetor neste território. Esta verificação aponta a
ausência dos serviços de vigilância em saúde deste
município em relação a busca ativa de cães posi-
tivos em Guanduba. Os inquéritos caninos, reali-
zados no Município de São Gonçalo do Amarante
no último triênio (2012, 2013 e 2014), apesar da
baixa cobertura em relação a população canina,
demonstraram positividade crescente de 4,3, 6,4
e 16%, respectivamente (SESAP, 2014). Contudo,
esses resultados não representam a real situação
epidemiológica deste município. Já que os órgãos
responsáveis pelas ações de vigilância não realizam
inquéritos sorológicos em cães, refletindo no baixo
percentual de infecção na população canina desta
comunidade, mesmo fazendo uso do teste rápido
para detecção de cães positivos.
De acordo com o Ministério da Saúde, o cão (Canis
familiaris) é a principal fonte de infecção em áreas
urbanas e periurbanas (BRASIL, 2014). A infecção em
cães tem sido mais prevalente e antecedem os casos
humanos, confirmando a importância dos cães na
epidemiologia da LV humana servindo de reservatório
para o parasita e fonte alimentar para o vetor, con-
tribuindo para a manutenção de focos endêmicos e
a dispersão da infecção para áreas sem registros de
casos (MARGONARI et al., 2006; REIS et al., 2006).
Estudo realizado em Teresina-PI, sobre a LV humana e
canina, demonstrou que a infecção canina foi predito-
ra de maior infecção humana (WERNECK et al., 2002).
No Rio grande do Norte, a prevalência de infecção
por Leishmania em cães é elevada, contribuindo para
a manutenção da endemia e para a disseminação e
urbanização da infecção humana e canina no Estado
(QUEIROZ, 2012).
Em contrapartida, há uma correlação direta entre o
acréscimo do número de cães vacinados e o decrésci-
mo na incidência de LV canina e humana (PALATNIK-
DE-SOUZA et al., 2009). Essa constatação demonstra a
necessidade de ampliação das ações públicas no Brasil
no que se refere ao reservatório, por meio da inclusão
de vacinas para o controle parasitário nos cães, con-
tribuindo para a redução do risco de transmissão da
leishmaniose para humanos.
Leishmaniose visceral e aspectos socioambientais: relatos sobre a doença em área periurbana da Região Metropolitana de Natal (RN), Brasil
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A localização de 80% dos domicílios visitados próximos
da mata (entre 10 e 100 m) propicia a aparição de ani-
mais silvestres, de flebotomíneos vetores e de insetos
que invadem o peridomicílio e/ou o domicílio em bus-
ca de alimento ou abrigo, podendo causar diferentes
problemas aos moradores. Esse fato corriqueiro nas re-
sidências foi confirmado pelos entrevistados, que con-
sideraram normal a grande quantidade de mosquitos e
outros insetos nesse ambiente, sendo que os “bichos”
mais citados foram: cobra, preá, escorpião e carangue-
jeira. O estudo realizado por Werneck et al. (2007) em
Teresina (PI) mostra que a maior incidência de LV foi
encontrada em áreas com vegetação abundante, suge-
rindo uma relação entre a ocupação da área e sua co-
bertura vegetal. Em contrapartida, Araújo et al. (2013)
constataram que a vegetação não se mostrou associa-
da com o risco relativo de LV em Belo Horizonte (MG).
Nesse território, constataram-se áreas com cobertura
vegetal abundante. Todavia, a derrubada da mata foi
percebida tão somente por 35% dos entrevistados. Essa
situação revela-se preocupante, visto que nessa co-
munidade são observadas áreas de matas devastadas
para a construção de estradas de acesso ao aeroporto
construído nesse município e para a manutenção da in-
dústria ceramista, que é uma atividade econômica pre-
sente nessa comunidade. O desmatamento acentuado
e as condições sanitárias e ambientais precárias favore-
cem a multiplicação do vetor e uma maior proximidade
entre humanos e cães, fazendo destes um reservatório
ativo para a transmissão do parasita (OLIVEIRA et al.,
2013). No Rio Grande do Norte, Ximenes et al. (1999,
2007) verificaram que a destruição ou o desequilíbrio
dos sítios naturais de reprodução das espécies vetoras
da leishmaniose contribuem para a criação de habitats
peridomiciliares para o vetor e predispõem à instala-
ção de novos focos da doença.
Outro fator inquietante é a precariedade nas deman-
das referentes ao saneamento básico. A coleta de re-
síduos sólidos é realizada uma vez durante a semana,
não garantindo a periodicidade esperada e necessária
ao atendimento das necessidades da comunidade, cau-
sando insatisfação e criando condições propícias para
o desenvolvimento de vetores de doenças. A situa-
ção é ainda pior em relação à destinação dos dejetos
das residências, em que a maioria destes é canalizada
para fossas sépticas construídas nos quintais das ca-
sas. A ausência do serviço público de coleta de esgotos
explica a grande quantidade de água, proveniente das
pias e banheiros, escorrendo nos quintais e na frente
das casas, causando infortúnios pela sujeira e odores.
Mas, em relação ao acompanhamento da família pelo
agente comunitário de saúde, as respostas foram unâni-
mes, incluindo-se o reconhecimento de uma instituição
de saúde (UBS) para atendimento aos problemas de saú-
de das famílias locais. Por outro lado, os entrevistados afir-
maram criticamente vivenciar dificuldades com consultas
e exames de alta complexidade e ausência de serviços de
urgência e emergência nesse município, necessitando se
deslocar de “qualquer forma” para Natal. Os serviços de
saúde possuem a capacidade de diminuir a exposição aos
fatores de risco para a saúde de indivíduos e grupos. Con-
tudo, o acesso equitativo aos serviços de saúde é impres-
cindível para diminuir os diferenciais de saúde de indiví-
duos referentes a esses aspectos (CNDSS, 2008).
O atendimento da equipe da Estratégia Saúde da Família
(ESF) dessa comunidade ocorre na UBS, com cobertura de
mais de 90% das famílias cadastradas no PSF de Guandu-
ba em 2014. Observou-se que as ações de educação em
saúde, cerne do PSF, não são prioritárias, como ressalta-
das no depoimento de um profissional de saúde:
O trabalho burocrático aumentou [...] toda semana te-
mos que entregar um relatório estatístico, que antes
era mensal [...] não restando muito tempo para as ati-
vidades de educação em saúde na comunidade como
deveria acontecer [...].
A constatação desse déficit das ações de educação em
saúde foi evidenciada nos discursos dos entrevistados,
sobretudo no que se refere à participação em atividades
educativas sobre leishmaniose. Apenas 5% confirmaram
ter participado de uma atividade sobre a leishmaniose
em uma instituição de ensino, não havendo nenhum
registro de eventos dessa ordem na UBS dessa comuni-
dade. O agravante é que a maioria (95%) confirmou que
em nenhuma ocasião participou de evento com essa fi-
nalidade, evidenciando a necessidade de realização de
atividades continuadas de educação em saúde ambien-
tal e leishmanioses na comunidade mediante o trabalho
da Equipe de Saúde da Família. No entanto, faz-se ne-
cessária a capacitação dos profissionais integrantes da
ESF em educação sanitária e ambiental, a fim de sensibi-
lizá-los sobre a situação da leishmaniose e das questões
sanitárias, epidemiológicas e ambientais que oferecem
riscos à saúde da população.
Alves, M.L.; Azevedo, P.R.M.; Ximenes, M.F.F.M.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
O conhecimento que a população de Guanduba pos-
sui em relação à LV é frágil, não contribuindo para a
formação de hábitos e práticas sanitárias e sociais
saudáveis na comunidade no controle do risco de
adoecimento. O estudo aponta a necessidade de im-
plantação de ações educativas em saúde adaptadas
à realidade da comunidade, a fim de que contribuam
para as medidas de controle da doença (manejo am-
biental, controle vetorial, controle do reservatório)
como forma de prevenção dos riscos sanitários e
ambientais presentes na comunidade que são favo-
ráveis a leishmaniose.
Ademais, a participação dos indivíduos e suas fa-
mílias em ações educativas em saúde ambiental e
leishmanioses é imprescindível. Contudo, a ESF de-
verá assumir o protagonismo na execução dessas
atividades de educação em saúde, mantendo um
diálogo permanente na comunidade. O planejamen-
to e a execução dessas ações devem se pautar na
realidade local e nas práticas sociais da comunida-
de em consonância com as diretrizes do SUS e dos
conhecimentos produzidos na academia acerca do
manejo ambiental, da prevenção, do tratamento e
da cura da leishmaniose.
Portanto, o conhecimento que os indivíduos residen-
tes em uma área periurbana da Região Metropolitana
de Natal possuem acerca da LV é insipiente para sua
prevenção, considerando a existência de diversos fato-
res presentes no processo de transmissão da doença, o
que a qualifica como de alta complexidade em relação
às estratégias de controle. Contudo, a necessidade de
compreender como os sujeitos vivenciam seu ambien-
te e organizam suas experiências e conhecimentos,
desde os mais elementares, acerca das implicações
das alterações ambientais e dos diferentes fatores que
favorecem a transmissão da leishmaniose, é indispen-
sável para o planejamento e a consolidação de ações
intersetoriais de promoção da saúde e do meio am-
biente pela gestão pública mediante parcerias com ins-
tituições de pesquisa e com setores responsáveis pelo
controle da LV.
Leishmaniose visceral e aspectos socioambientais: relatos sobre a doença em área periurbana da Região Metropolitana de Natal (RN), Brasil
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