45 RBCIAMB | n.36 | jun 2015 | 45-59 Gerald Norbert Souza da Silva Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) – Recife (PE), Brasil. Luiz Eduardo Nascimento Figueiredo Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) – Recife (PE), Brasil. Márcia Maria Guedes Alcoforado de Moraes Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) – Recife (PE), Brasil. Endereço para correspondência: Gerald Souza da Silva – Rua Ambrosina Soares dos Santos, 71, Bessa – 58035-140 – João Pessoa (PB), Brasil – E-mail: geraldsouzadasilva@gmail.com RESUMO A região do submédio da bacia do Rio São Francisco tem uma variedade de usos, com alguns conflitos já estabelecidos. Curvas de demanda da água são importantes para identificar o valor econômico dado ao recurso hídrico pelo usuário diante de diferentes quantidades disponibilizadas. O conhecimento de tais curvas deve auxiliar no estabelecimento de políticas que criem incentivos adequados ao uso eficiente do recurso e evitem sua sobre‑exploração. Este trabalho apresenta curvas de demanda pelos recursos hídricos estimadas para os usuários da agricultura irrigada e para o abastecimento humano usando o método de programação matemática positiva e expansão de ponto. Os resultados para a agricultura irrigada nos dois métodos mostraram que o mix de culturas é o fator mais relevante na disposição a pagar dos usuários pelo recurso hídrico e que, para o abastecimento humano, os valores econômicos em relação ao mesmo grau de disponibilidade hídrica foram mais elevados em comparação com a irrigação. Palavras‑chave: curvas de demanda; valor econômico da água; alocação de água. ABSTRACT The lower basin region of São Francisco basin has a variety of uses, with some conflicts already established. Water demand curves are important to identify the economic value given to the water resource by different users and available amounts. The knowledge of them should assist in establishing policies that create appropriate incentives for efficient water resource use and prevent their over‑exploitation. This paper presents the water demand curves estimated by users of irrigated agriculture and human supply using the positive mathematical programming method and point expansion method. Results for irrigated agriculture of the two methods showed that the crop mix is the most important factor for the willingness to pay for water resources and that, for human supply, the economic values, considering the same level of water availability, are higher when compared with irrigation. Keywords: demand curves; water value; water allocation. CURVAS DE DEMANDA PELOS RECURSOS HÍDRICOS DOS PRINCIPAIS USOS CONSUNTIVOS NO SUBMÉDIO DA BACIA DO RIO SÃO FRANCISCO DEMAND CURVES FOR WATER RESOURCES OF THE MAIN WATER USERS IN SUB‑MIDDLE SÃO FRANCISCO BASIN DOI: 10.5327/Z2176-947820151004 Silva, G.N.S.; Figueiredo, L.E.N.; Moraes, M.M.G.A. 46 RBCIAMB | n.36 | jun 2015 | 45-59 INTRODUÇÃO A região semiárida brasileira é cada vez mais impactada pela escassez de água, ao mesmo tempo que o cres- cimento econômico alavancado pelo setor agrícola de- pende fortemente de água para irrigação. O aumento da população e de sua renda está criando uma deman- da crescente por água em setores não agrícolas e muitas vezes não rurais. Variabilidade temporal e espacial das chuvas e altas taxas de evaporação em conjunto com estiagens prolongadas marcam a região. As mudanças climáticas e o continuado crescimento da população podem elevar ainda mais a já existente crise da água na região. A exploração excessiva dos recursos hídricos disponíveis, bem como o uso de reservatórios de acu- mulação, afeta também a qualidade das fontes de água doce, por exemplo por intermédio da intrusão salina. A região hidrográfica do submédio do rio São Francis- co foi escolhida para identificação do valor econômico da água para os principais usos consuntivos, com o ob- jetivo de subsidiar o desenvolvimento de um modelo de alocação hidroeconômico (MORAES et al., 2013). A área de estudo é inserida na região semiárida bra- sileira, que possui características especiais, sobretudo com relação ao clima e à vegetação. O clima tropical semiárido no Brasil destaca‑se pelo regime e pela quantidade de chuvas e determinado pela escassez, ir- regularidade espacial e concentração das precipitações pluviométricas. Na região semiárida, as chuvas anuais variam de no mínimo 400 mm ao máximo de 800 mm ao ano. O período seco é predominante e pode atingir até 11 meses nas áreas de maior aridez, e a precipita- ção ocorre de forma irregular e concentrada em dois ou três meses do ano. Nessa época intensas precipita- ções (120 a 130 mm em 24 horas) podem ser observa- das (BRASIL, 2005; EMBRAPA, 2008). A irrigação é responsável por cerca de 70% das retira- das totais de água no submédio do São Francisco. In- centivos que envolvem preços mais elevados de água para irrigação estão sendo cada vez mais considerados como uma ferramenta eficaz para reduzir a demanda de água. A elasticidade–preço da demanda por recur- sos hídricos mede a alteração proporcional na quanti- dade demandada do recurso diante de uma mudança no preço. A elasticidade–preço da demanda é uma me- dida econômica usada muitas vezes para avaliar a eficá- cia de um sistema de preços, no sentido de incentivar a conservação de água ou a viabilidade econômica de transferir água de um uso para outros. Os formulado- res de políticas interessados em estimar os efeitos das modificações em preços dos recursos hídricos podem basear‑se em estimativas da elasticidade–preço da de- manda (SCHEIERLING et al., 2006). Curvas de demanda por recursos hídricos podem ser empregadas no apoio à decisão na gestão de bacias hi- drográficas, ao possibilitar análise de questões relativas ao recurso, tais como: escassez, estabelecimento de prio- ridades, avaliação do retorno de atividades econômicas que usam tal recurso como entrada, alocação eficiente, conservação, e avaliação de políticas. Tendo em vista que os mercados de bens como a água são em geral ausen- tes ou ineficazes, as decisões de alocação dos recursos hídricos raramente podem contar com o funcionamento autônomo do mercado. Em vez disso, as curvas de de- manda e os valores marginais de água devem ser aplica- dos para subsidiar políticas de intervenção que impeçam a sobreutilização do recurso, bem como assegurem a boa qualidade dele (TILMANT et al., 2008). O Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF) implementou a cobrança pelo uso da água no Rio São Francisco, em julho de 2010 (BRASIL, 2010). Os mecanismos e valores de cobrança foram estabe- lecidos na Deliberação CBHSF n.° 40/08. Os valores são cobrados e arrecadados pela Agência Nacional de Águas (ANA) e repassados à Associação Execu- tiva de Apoio à Gestão de Bacias Hidrográficas Peixe Vivo (AGB Peixe Vivo), a quem compete desembolsar os recursos nas ações previstas no Plano de Recursos Hídricos da bacia, conforme as diretrizes estabelecidas no plano de aplicação (ANA, 2014). Os valores de co- brança atualmente são fixados em níveis baixos e em geral não têm cumprido o papel de induzir um uso efi- ciente pelos agricultores, pois são determinados por metodologias com objetivos arrecadatórios. Segundo Vera (2014), em termos numéricos da cobrança, a ir- rigação consome mais de 70% dos volumes totais da bacia, porém a contribuição da cobrança é de apenas 9% do valor arrecadado total. Para o autor, isso é o re- sultado do mecanismo de cobrança adotado, que dá desconto de 97,5% no valor cobrado e nos preços fixos unitários estabelecidos. Ademais, a avaliação da evo- lução do consumo e das vazões de captação mostram crescimento para o período de 2011 a 2013, o que pode sinalizar a utilização não eficiente dos recursos Curvas de demanda pelos recursos hídricos dos principais usos consuntivos no submédio da bacia do rio São Francisco 47 RBCIAMB | n.36 | jun 2015 | 45-59 hídricos. Além disso, dados relativos ao consumo do recurso pelos agricultores continuam a ser imprecisos. O objetivo principal deste trabalho foi estimar as cur- vas de demanda para os principais usos consuntivos de água no submédio do Rio São Francisco. É importante frisar que o termo demanda na economia pressupõe a existência de um mercado e a determinação de um preço para o bem. Essas características (mercado e pre- ço) nem sempre são observadas quando a análise está relacionada ao recurso hídrico em alguns de seus usos. Assim, o termo demanda aqui é empregado como si- nônimo de benefício marginal, ou seja, o quanto de re- torno é obtido com base em uma variação marginal na quantidade de água. Outras denominações são encon- tradas e também utilizadas no presente artigo com o mesmo sentido, como, por exemplo, a disponibilidade a pagar, o valor econômico da água, entre outros. MATERIAIS E MÉTODOS A medida da capacidade de resposta da quantidade demandada de um bem a mudanças em seu próprio preço é conhecida como elasticidade–preço da de- manda (LIPSEY, 1988). Para estimar a função demanda pelo recurso hídrico, que mede os benefícios marginais associados a diversas quantidades do recurso, são ne- cessários os dados relativos às quantidades totais do recurso, bem como os benefícios econômicos associa- dos a ele. Existem muitas formas de utilização da água, seja para consumo direto, seja para consumo indireto, num pro- cesso produtivo, como, por exemplo, a produção de ali- mentos e os serviços de ecossistemas básicos. Por con- ta dessa diversidade de uso dos recursos hídricos e de suas características específicas, uma variedade de mé- todos para estimar as demandas econômicas da água foi desenvolvida e continua a se desenvolver (BOOKER et al., 2012). Em geral os métodos econométricos são intensivos em dados, isto é, requerem uma série exten- sa e confiável de informações. Métodos não tão inten- sivos em dados foram utilizados, a saber: o método de expansão de ponto e a programação matemática posi- tiva (GRIFFIN, 2006). Expansão de ponto A técnica da expansão do ponto já foi empregada em inúmeros trabalhos e representa um instrumento im- portante para a estimação da demanda (HAROU et al., 2009; GRIFFIN, 2006). O método é relativamente fácil na aplicação, dado que se obtém toda curva de deman- da por intermédio de apenas um ponto conhecido da função (normalmente o ponto de operação atual) e a elasticidade–preço da demanda, que é exógeno e assu- mido ser constante. A elasticidade–preço da demanda é definida como a variação na quantidade demandada em relação à variação no preço (GRIFFIN, 2006; VA- RIAN, 2006): (1) Em que: d = delta; η = elasticidade–preço da quantidade demandada; Q = quantidade de água; P = preço de água, disposição a pagar; valor econômico da água ou o benefício marginal; Resolvendo‑se a equação diferencial (dQ=f(dP)) e as- sumindo‑se a elasticidade–preço constante, chega‑se à seguinte função de demanda inversa: (2) Conhecendo‑se um ponto na Equação 2, a constante k pode ser obtida e a curva de demanda traçada. Para esse ponto em geral se usa o ponto da operação atual do usuário, ou seja, a quantidade do recurso atualmente utilizada e os custos médios atuais incorridos para a ob- tenção de tal recurso como condição de contorno. De- ve‑se salientar que, conquanto mais fácil de obter, o cus- to médio não é igual ao custo marginal (que é igual ao benefício marginal no ponto de ótimo), mas é uma boa proxy dele, pelo menos para os usuários que empregam Silva, G.N.S.; Figueiredo, L.E.N.; Moraes, M.M.G.A. 48 RBCIAMB | n.36 | jun 2015 | 45-59 o recurso de forma eficiente (o ponto mínimo do custo médio ocorre quando este se iguala ao custo marginal). Entretanto a Equação 2 proposta por Griffin (2006) tem certas limitações referentes a essa utilização na prática, pois a função assímptota os eixos P e Q em direção ao infinito. Assim, por exemplo, quando a quantidade de água alocada tende a zero, o valor da água tende ao in- finito. Na teoria isso representaria tendência real, mas na prática a função resulta em benefícios econômicos infinitos para valores alocados de água maiores que zero (benefícios econômicos totais dados pela área sob a cur- va de demanda de zero até o valor alocado). Por isso, na maioria das aplicações dessas curvas de demanda em modelos hidroeconômicos, utilizam‑se tais curvas para calcular a perda dos benefícios econômicos (área sob a curva entre o valor atual e o valor alocado) por conta das reduções na alocação, o chamado custo de escassez. Moraes et al. (2006) propuseram uma Equação 3 similar, mas que interceptasse o eixo das ordenadas pela introdu- ção de duas constantes C2 e C1 e, portanto, possibilitasse o cálculo dos benefícios totais, mediante o deslocamento da função. A ideia era que na prática o valor econômico associado à quantidade alocada nula seria mensurável, e não infinito. Ademais, os valores dos benefícios eco- nômicos atualmente obtidos seriam usados como ou- tra condição de contorno, e a curva então se adaptaria de forma a que a área sob ela no ponto de operação se aproximasse do benefício atual obtido pelo usuário com a quantidade de água atual (ponto de operação). (3) A curva da Equação 3 passaria a interceptar o eixo dos preços (quantidade zero) e o eixo da quantidade aloca- da na qual o preço tende a zero (consumo autônomo). Para a regressão dos pontos obtidos com o método da programação matemática positiva (PMP), foi utilizada a mesma Equação 3, com o valor de operação (P água e Q p ) obtido pelo método PMP. Para a obtenção das curvas da irrigação difusa e para o abastecimento humano com o método de expansão de ponto, também se recorreu aos benefícios brutos dos usuários, e o parâmetro C2 foi obtido com o excedente bruto calculado por meio da integração da função de demanda inversa e da minimização do erro utilizando o solver, empregando o método não linear de Levenber- g‑Marquardt. Programação Matemática Positiva A partir da década de 1990, a programação matemá- tica foi integrada como método de modelagem para a demanda de água para irrigação, com o trabalho de Howitt (1995), que desenvolve uma técnica denomina- da programação matemática positiva (PMP). Os méto- dos para obtenção de curvas de demanda por meio da PMP baseiam‑se em um determinado preço e estimam a quantidade de água que maximiza o lucro do agri- cultor. A variação do preço da água induz diferentes quantidades de água ideais. Essas informações são di- retamente usadas para representar a demanda deriva- da da água para irrigação. Várias hipóteses são feitas a respeito da função‑resposta rendimento da cultura à água de irrigação. A PMP é um procedimento de autocalibração, em três estágios, desenvolvido por Howitt (1995). O primeiro estágio consiste em um modelo de programação linear definido como: (4) (5) (6) Em que Equação 4 é a função objetivo e (hectares plantados por região g e cultura i) são as variáveis de decisão. A receita marginal é dada por e a produti- vidade média e custos variáveis médios por e . Os parâmetros são definidos pela razão do total de insumos normalizados pela área plantada. A restrição dos recursos é dada pela Equação 5, e o conjunto da Equação 6 representa os limites da calibração em que é a quantidade de área plantada atualmente ob- servada, e ε, um erro de tolerância. Curvas de demanda pelos recursos hídricos dos principais usos consuntivos no submédio da bacia do rio São Francisco 49 RBCIAMB | n.36 | jun 2015 | 45-59 O segundo estágio consiste na calibração de uma fun- ção custo quadrática e de uma função de produção com elasticidade constante, conforme descrito a seguir: (7) (8) Em que: = produto da cultura i na região g; = parâmetro de escala da função de produção (CES); = parâmetros de participação de um dado recurso j. A elasticidade de substituição é e são o intercepto e a declividade, respectivamente, da fun- ção linear de custo marginal da cultura i da região ir- rigada g. Por fim, o terceiro estágio consiste em resolver um pro- grama de maximização não linear com restrição. A fun- ção objetivo pode ser escrita assim: (9) (10) (11) é definida pela função de produção e pelos parâme- tros e da Equação 8. O segundo termo é a função custo quadrática calibrada (Equação 7). O conjunto de restrições (Equação 10) é o mesmo utilizado no proble- ma de maximização linear (Equação 5). Não são usa- das mais as restrições de calibração do modelo linear (Equação 6). Adiciona‑se um novo conjunto de restri- ções exclusivo para o uso da água anual (Equação 11). Os procedimentos utilizados para a calibração do pro- blema PMP foram os mesmos de Howitt et al. (2012). Já para a calibração da função CES e para a calibração da função custo quadrática, recorreu‑se aos traba- lhos de Medellín‑Azuarra et al. (2009) e Maneta et al. (2009). A elasticidade de substituição adotada foi 0,4, valor derivado dos estudos de Maneta et al. (2009) e Torres et al. (2012), e para a elasticidade de oferta1 das culturas foram aplicados os valores de 0,2 até 2,0 para todas as culturas observadas. Os dados utilizados nessa etapa do trabalho consisti- ram em um total de culturas observadas de onze (ba- nana, cana, cebola, coco, goiaba, manga, maracujá, melancia, melão, uva, tomate) para doze regiões irri- gadas (Nilo Coelho, Bebedouro, Salitre, Maniçoba, Tou- rão, Curaçá, Icó Mandantes, Apolônio Sales, Barreiras, Caraíbas, Brígida e Pedra Branca) e quatro insumos (terra, água, trabalho e suprimentos). Os valores necessários foram obtidos com base nos da- dos municipais do Censo Agropecuário (IBGE, 2009), da Produção Agrícola Municipal (IBGE, 2012), do Relatório Final dos Coeficientes Técnicos de Recursos Hídricos das Atividades Industriais e Agricultura Irrigada n.° 6 (FUNARBE, 2011) e do Relatório de Gestão da Compa- nhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (CODEVASF, 2006). RESULTADOS E DISCUSSÃO O método PMP foi utilizado para a identificação das cur- vas de demanda dos perímetros irrigados no submédio do São Francisco. Foram analisados 12 perímetros irri- gados (Nilo Coelho, Bebedouro, Salitre, Maniçoba, Tou- rão, Curaçá, Icó Mandantes, Apolônio Sales, Barreiras, Caraíbas, Brígida e Pedra Branca) com as principais cul- turas (banana, cana, cebola, coco, goiaba, manga, ma- racujá, melancia, melão, uva, tomate) referentes aos insumos (terra, água, trabalho e suprimentos). Obtive- ram-se os valores com base nos dados municipais do 1A elasticidade de oferta da cultura é definida pela variação percentual na demanda da cultura determinada pela variação percen- tual no preço dessa cultura. No modelo, tais elasticidades vão impactar no custo do recurso terra. Ou seja, quanto maior a elasti- cidade da oferta, mais os produtores desejarão ofertar o produto e consequentemente demandarão mais terras, aumentando o custo do fator (para cada elasticidade se terá uma função custo quadrática calibrada com valores diferentes de α e γ) Silva, G.N.S.; Figueiredo, L.E.N.; Moraes, M.M.G.A. 50 RBCIAMB | n.36 | jun 2015 | 45-59 Censo Agropecuário (IBGE, 2009), da Produção Agríco- la Municipal (IBGE, 2012), do Relatório Final dos Coe- ficientes Técnicos de Recursos Hídricos das Atividades Industriais e Agricultura Irrigada n.° 6 (FUNARBE, 2011) e o Relatório de Gestão da Codevasf (2006). Em relação à área irrigada por cultura e por região, o relatório da Funarbe (2011) forneceu a área irrigada mensalmente, estimada pelos dados do Censo Agropecuário de 2006 (IBGE, 2009), por cultura, para cada município. Para re- presentar a área por cultura anual, usou‑se a média das áreas mensais de cada cultura por município. Os resultados dados pela PMP, que compuseram a cur- va de demanda por água, correspondem aos valores sombra (benefícios marginais) da restrição anual de dis- ponibilidade de água expressa pela Equação 11, usando diferentes percentuais de disponibilidade de 100 até 5% do volume atual observado, empregando para isso o parâmetro avail. Isso foi feito em intervalos de 5% e para a elasticidade de oferta de 0,2 adotada para as cul- turas propostas. Deve‑se ressaltar que na maioria das aplicações são obtidos valores sombra com a PMP para 100 a 60% de disponibilidade, porque também para esse método grande parte das aplicações dessas curvas de demanda em modelos hidroeconômicos é voltada ao cálculo dos custos de escassez, e não aos benefícios econômicos totais advindos da alocação. O Gráfico 1 mostra os valores sombra alcançados para as diversas disponibilidades de água de 100 a 5% para 100% 0 10.000 20.000 30.000 0 0.2 0.4 Salitre Salitre (PMP) Ico Ico (PMP) Barreiras Barreiras (PMP) Pedra Branca Pedra Branca (PMP) Apolonio Apolonio (PMP) Brigida Brigida (PMP) dam3/ano R$ /m 3 Gráfico 1 – Curvas de demanda dos perímetros irrigados Salitre, Icó Mandantes, Barreiras, Pedra Branca, Apolônio e Brígida obtidas usando o método programação matemática positiva (PMP). Curvas de demanda pelos recursos hídricos dos principais usos consuntivos no submédio da bacia do rio São Francisco 51 RBCIAMB | n.36 | jun 2015 | 45-59 os perímetros irrigados Salitre, Icó Mandantes, Barrei- ras, Pedra Branca, Apolônio Sales e Brígida obtidos com o método PMP e as curvas resultantes de uma regres- são desses pontos achados com o PMP feita no tocante à forma funcional dada pela Equação 3, que resultou em aproximações bastante satisfatórias. Os valores obtidos com a PMP foram representados pela forma funcional dada pela Equação 3 pela ob- tenção de valores ótimos para C2 e η, que minimi- zam os erros ao quadrado entre os valores alcança- dos com a PMP e os dados pela relação funcional, empregando o método não linear de Levenberg- ‑Marquardt, que é uma variante do método de qua- se‑Newton. A Tabela 1 exibe os resultados e os valo- res ótimos encontrados. A ideia de usar a mesma relação funcional para as cur- vas de demanda obtidas pelos dois métodos empre- gados (expansão de ponto e PMP) tem a vantagem de facilitar a integração de ambas as curvas quando apli- cadas num modelo de alocação hidroeconômico. A re- ferida relação funcional, apesar de ser uma função re- lativamente simples e obtida com base no pressuposto elasticidade–preço constante, adaptou‑se bem aos da- dos obtidos com a PMP em que a elasticidade (η) muda constantemente. Ressalta‑se apenas que, como a PMP, ao contrário do método de expansão deslocado, não associa na sua estimação a área total sob a curva de de- manda aos benefícios econômicos totais, isso deve ser considerado quando da integração dessas curvas como medida dos benefícios totais e critério de otimização nos modelos hidroeconômicos. Pode ser observado nos dados obtidos com o método PMP que a maioria dos perímetros mostra no ponto de operação atual (a 100% de avail) valores marginais de água muito baixos (. Acesso em: 20 dez. 2014. ANA – AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS. Outorgas emitidas pela ANA: 2001‑2013. 2013. Disponível em: . Acesso em: 2013. BOOKER, J. F.; MICHELSEN, A. M.; HOWITT, R. E.; YOUNG, R. A. Economics and the modeling of water resources and policies. Natural Resource Modeling Journal, v. 25, n. 1, 2012. DOI: 10.1111/j.1939‑7445.2011.00105.x BRASIL. MIN – Ministério da Integração Nacional. Plano estratégico de desenvolvimento sustentável do semi‑árido. Brasília: MIN, 2005. BRASIL. MMA – Ministério do Meio Ambiente. Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH). Resolução CNRH n.º 108, de 13 de abril de 2010. Brasília, 2010. CODEVASF – Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba. Relatório de Gestão. Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco. 2006. DALHUISEN, J. M.; FLORAX, R. J. G. M.; GROOT, H. L. F. M.; NIJKAMP, P. Price and income elasticities of residential water demand: why empirical estimates differ. Tinbergen Institute Discussion Paper, Amsterdã, n. 01-057/3, 2001. DENYS, E. et al. Oficina para apresentação de resultados de disponibilidade de água e demanda presente e futuras bacias do Jaguaribe e piranhas‑açu, com discussão sobre desafios detectados na alocação de água no contexto de mudanças climáticas. Relatório de pesquisa. ed. [S.l.]: [s.n.], 2011. Silva, G.N.S.; Figueiredo, L.E.N.; Moraes, M.M.G.A. 58 RBCIAMB | n.36 | jun 2015 | 45-59 EMPRAPA – EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA. Solos do submédio do vale do São Francisco. Petrolina: Embrapa, 2008. FIGUEIREDO, L. E. N. & MORAES, M. M. G. A. A demanda da água para irrigação para os perímetros públicos do submédio do Rio São Francisco. In: SIMPÓSIO BRASILEIRO DE RECURSOS HÍDRICOS, 21., 2015. Anais..., Brasília, 2015. FUNARBE – FUNDAÇÃO ARTHUR BERNARDES. Desenvolvimento de matriz de coeficientes técnicos para recursos hídricos no Brasil. Brasília, 2011. GRIFFIN, R. C. Water resource economics: the analysis of scarcity, policies, and projects. Cambridge: MIT Press, 2006. HAROU, J. J.; PULIDO‑VELAZQUEZ, M.; ROSENBERG, D. E.; MEDELLIN‑AZUARA, J.; LUND, J.; HOWITT, R. Hydro‑economic models: concepts, design, applications, and future prospects. Journal of Hydrology, p. 627‑643, 2009. DOI: 10.1016/ j.jhydrol.2009.06.037. HOWITT, R. E. Positive mathematical programming. American Journal of Agricultural Economics, v. 77, n. 2, p. 329‑ 342, 1995. HOWITT, R. E.; MEDELLÍN‑AZUARA, J.; MACEWAN, D.; LUND, J. R. Calibrating disaggregate economic models of agricultural production and water management. Environmental Modelling & Software, v. 38, p. 244-258, 2012. IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Agropecuário 2006. Rio de Janeiro: IBGE, 2009. IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Produção agrícola municipal. 2012. Disponível em: . Acesso em: 12 jun. 2014. LIPSEY, R. G. First principles of economics. Oxford: Colin Harbury, 1988. MANETA, M.; TORRES, M. O.; WALLENDER, W.; HOWITT, R. E.; VOSTI, S.; RODRIGUES, L.; BASSOI, L. A spatially distributed hydro‑economic model to assess the effects of drought on land use, farm profits, and agricultural employment. Water Resources Research, v. 45, 2009. DOI: 10.1029/2008WR007534 MEDELLIN‑AZUARA, J.; HOWITT, R. E.; WALLER‑BARRERA, C.; MENDOZA‑ESPINOSA, L. G.; LUND, J. R.; TAYLOR, J. E. A calibrated agricultural water demand model for three regions in northern baja California. Agrociência, v. 43, n. 2, p. 83‑96, 2009. MORAES, M. M. G. A. D. et al. SSD espacial para la gestión óptima de sistemas de recursos hídricos incorporando modelos hidroeconómicos. In: SOLERA, B. S.; PAREDES, J.; ANDREU, J.; PEDRO, M. Aplicaciones de sistemas soporte a la decisión en planificación y gestión integradas de cuencas hidrográficas. Barcelona: Marcombo, 2013. MORAES, M. M. G. A.; SAMPAIO, Y.; CIRILO, J. A. Integração dos componentes econômico e hidrológico na modelagem de alocação ótima de água para apoio a gestão de recursos: uma aplicação na bacia do Pirapama. Revista Economia, v. 7, n. 2, 2006. SCHEIERLING, S. M.; LOOMIS, J. B.; YOUNG, R. A. Irrigation water demand: a meta‑analysis of price elasticities. Water Resources Research, v. 42, n. 1, 2006. DOI: 10.1029/2005WR004009. SILVA, G. S. D.; MORAES, M. M. G. A. D.; SILVA, A. C. S. D. Delimitação das áreas irrigadas no trecho do sub‑médio do Rio São Francisco. In: SIMPÓSIO DE RECURSOS HÍDRICOS DE NORDESTE, 12., Natal, 2014. Anais..., Natal, 2014. SNIS – SISTEMA NACIONAL DE INFORMAÇÕES SOBRE SANEAMENTO. Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento. Brasília: PMSS, 2012. TILMANT, A.; PINTE, D.; GOOR, Q. Assessing marginal water values in multipurpose multireservoir systems via stochastic programming. Water Resources Research, v. 44, n. 12, 20 dez. 2008. Curvas de demanda pelos recursos hídricos dos principais usos consuntivos no submédio da bacia do rio São Francisco 59 RBCIAMB | n.36 | jun 2015 | 45-59 TORRES, M. O.; MANETA, M.; HOWITT, R. E.; VOSTI, S. A.; WALLENDER, W. W.; BASSOI, L. H.; RODRIGUES, L. N. Economic impacts of regional water scarcity in the São Francisco River Basin, Brazil: an application of a linked hydro‑economic model. Environment and Development Economics, v. 17, n. 2, p. 227‑248, 2012. DOI: 10.1017/S1355770X11000362 VARIAN, H. R. Microeconomia: conceitos básicos. 7. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006. VERA, L. H. A. Atuação da cobrança pelo uso da água de domínio da União como instrumento de gestão de recursos hídricos na bacia hidrográfica do Rio São Francisco. Dissertação (Mestrado em Engenharia Civil)–Centro de Tecnologia e Geociências, Programa de Pós‑Graduação em Engenharia Civil, Universidade FEderal de Pernambuco, Recife, 2014.