80 RBCIAMB | n.48 | jun 2018 | 80-96 Viníciu Fagundes Bárbara Professor de ensino básico, técnico e tecnológico do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás – Goiânia (GO), Brasil. Maria Gizelda de Oliveira Tavares Professora adjunta do Instituto de Química da Universidade Federal de Goiás (UFG) – Goiânia (GO), Brasil. Nelson Roberto Antoniosi Filho Professor adjunto do Instituto de Química da UFG – Goiânia (GO), Brasil. Endereço para correspondência: Viníciu Fagundes Bárbara – Rua 75, 46 – Centro – CEP 74055‑110 – Goiânia (GO), Brasil – E‑mail: viniciu.fagundes@ifg.edu.br Recebido em: 31/08/2017 Aceito em: 10/07/2018 RESUMO As cavas são um problema ambiental emergente no mundo. Embora seus riscos ecológicos ainda sejam largamente desconhecidos dos pesquisadores, é sabido que podem se constituir em promissoras oportunidades de uso ou em preocupantes problemas ambientais. Este trabalho objetivou traçar um panorama dos enfoques investigativos dos principais estudos sobre lagos de mineração desenvolvidos internacionalmente (1979–2018). Para tanto, foi utilizado o conectivo “pit lake” na base de dados da CAPES para a seleção dos artigos analisados. Os resultados demonstraram que as informações científicas existentes sobre o tema ainda são incipientes, especialmente na América Latina, e que a maioria das pesquisas apresentam abordagem predominantemente limitada a aspectos geoquímicos. A gestão ambiental de cavas necessita ser interdisciplinar, o que a torna desafiadora. Um nicho investigativo identificado que poderá contribuir para o maior entendimento do assunto consiste no desenvolvimento de estudos embasados na combinação de aspectos químicos, ecotoxicológicos e genotoxicológicos, inexistentes até então. Palavras-chave: áreas degradadas; lagos artificiais; gestão ambiental integrada. ABSTRACT Pit lakes are an emerging environmental problem in the world. Although its ecological risks are still largely unknown by researchers, they can represent promising opportunities for use or worrying environmental problems. The objective of this work was to give an overview of the main research approaches on the subject of internationally developed mining lake ( 1979– 2018). And for that, the term “pit lake” was used in the CAPES database to select the articles analyzed. The results showed that information related to pit lakes is incipient, especially in Latin America, and that most of the researches conducted to date have limited focus to geochemical approaches. The environmental management of these artificial spaces needs to be interdisciplinary, which makes it challenging. An area of research identified, though not yet developed and which may contribute to a better understanding of the subject, is the development of studies based on the combination of chemical, ecotoxicological and genotoxic aspects of the waters of the pit lakes, nonexistent until then. Keywords: degraded areas; artificial lakes; integrated environmental management. DOI: 10.5327/Z2176-947820180287 IMPACTOS AMBIENTAIS DE CAVAS DE MINERAÇÃO: UMA REVISÃO ENVIRONMENTAL IMPACTS OF MINE PIT LAKES: A REVIEW https://orcid.org/0000-0001-9243-5543 https://orcid.org/0000-0002-8390-8617 https://orcid.org/0000-0002-3067-0385 Impactos ambientais de cavas de mineração: uma revisão 81 RBCIAMB | n.48 | jun 2018 | 80-96 INTRODUÇÃO A indústria da mineração é conhecida por desencadear grandes impactos ambientais (IBRAM, 2013), como no caso da Barragem do Fundão (em Mariana, MG), rom‑ pida recentemente. O evento provocou a introdução de milhões de metros cúbicos de rejeitos de minera‑ ção no Rio Doce e no Oceano Atlântico, um cenário de degradação que levará décadas para ser revertido ( LOPES, 2016). Quando a exploração mineral é desenvolvida a céu aberto, são formadas cavas nas jazidas exauridas, nor‑ malmente preenchidas por influxos hídricos de origem subterrânea e pluvial (CÁNOVAS et al., 2015; ANTUNES et al., 2016). Esses lagos artificiais são um problema ambiental emergente e de intensificação recente em diversas partes do globo, notadamente em países afri‑ canos, na Austrália, nos Estados Unidos, no Canadá, no Chile, no Cazaquistão, no Irã, no México, no Peru, na Indonésia, nas Filipinas, na Papua‑Nova Guiné e no Brasil. Na tentativa de compreenderem melhor os riscos que as cavas oferecem ao meio natural, apenas recentemente pesquisadores das Ciências Ambientais se atentaram para o problema (FERRARI et al., 2015; MOLLEMA et al., 2015; PEIFFER, 2016). Ao longo do tempo, devido à intemperização geoquí‑ mica, as águas de cavas tendem a se alterar quimica‑ mente, muitas vezes se tornando ácidas e enriqueci‑ das com elementos químicos potencialmente tóxicos. Normalmente, isso ocorre devido ao processo de dre‑ nagem ácida de mina (DAM), desencadeado quando minerais sulfetados originalmente em condições de equilíbrio são expostos às águas pluviais e ao ar, des‑ prendendo um percolado ácido e rico em metais dis‑ solvidos. A DAM se constitui em um dano ambiental de longo prazo comumente observado em jazidas de minerais nobres, especialmente ouro e prata (AYUSO et al., 2013; DELGADO‑MARTIN et al., 2013). Segundo Luek et al. (2014), dependendo da qualidade hídrica, cavas podem se configurar em valiosos equipamentos de usos social e ambiental ou oferecer riscos aos seres vi‑ vos, como o Lago Berkeley (EUA), onde 340 gansos‑da‑ne‑ ve (Anser caerulescens) morreram devido à intoxicação com metais presentes na água oriundos da mineração desativada (HBC, 1996). Pelo fato de os lagos de mineração terem comporta‑ mento complexo, sua gestão se mostra desafiadora. Adicionalmente, os impactos advindos do pós‑fecha‑ mento de minas, em especial de cavas, é um tema ainda pouco discutido no âmbito mundial devido ao fato de muitos empreendimentos não terem chega‑ do à fase de desativação e também de a recuperação ambiental de áreas mineradas, quando realizada, ain‑ da seguir práticas convencionais e pouco eficientes no sentido de evitar o surgimento de áreas contaminadas (HRDINKA et al., 2013; SÁNCHEZ‑ESPAÑA et al., 2014). Portanto, este trabalho objetivou discutir os principais estudos sobre impactos ambientais de cavas a céu aberto desenvolvidos mundialmente, bem como expli‑ citar nichos de pesquisa que poderão ser explorados pelos estudiosos das Ciências Ambientais na intenção de contribuir para o aumento da compreensão a res‑ peito do tema. MATERIAIS E MÉTODOS Realizou‑se um levantamento dos artigos sobre cavas publicados internacionalmente ao longo dos últimos 39 anos. Para tanto, foi utilizada a opção “Busca avançada” do Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoa‑ mento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), disponível em http://www‑periodicos‑capes‑gov‑br.ez49.periodicos. capes.gov.br/, que engloba dezenas de bases de dados de periódicos, incluindo Web of Science, Scopus e Elsevier. O levantamento contemplou artigos publicados entre 1º de janeiro de 1979 e 1º de julho de 2018. Os trabalhos foram selecionados mediante o uso do conec‑ tivo “pit lake” no campo “Assunto”. Adicionalmente, com o uso da opção “Expandir meus resultados”, o sistema au‑ tomaticamente sugeriu a inserção de outros 19 conecti‑ vos, utilizados para ampliar o escopo da busca: “mining”, “lakes”, “surface mining”, “open-pit mining”, “mines”, “en- vironmental geology”, “pollution”, “geochemistry”, “sur- face water”, “water quality”, “metals”, “hydrochemistry”, “pH”, “acid mine drainage”, “freshwater”, “sediments”, “sulfates”, “iron” e “groundwater”. Os artigos identificados pelo sistema foram então submetidos a uma avaliação prévia de título, resumo e palavras‑chave, visando identificar quais trabalhos realmente abordaram os impactos ambientais de cavas Bárbara, V.F.; Tavares, M.G.O.; Antoniosi Filho, N.R. 82 RBCIAMB | n.48 | jun 2018 | 80-96 de mineração a céu aberto. Uma vez selecionadas, as publicações de interesse foram lidas na íntegra, anali‑ sadas, fichadas, classificadas e agrupadas em seis ca‑ tegorias, com o objetivo de facilitar as discussões dos resultados obtidos — Química Ambiental (QA), Reme‑ diação Ambiental (RA), Passivo Ambiental (PA), Mo‑ delagem Ambiental (MA), Toxicidade Ambiental (TA) e Planejamento Ambiental (PL) —, estabelecidas com base nos respectivos objetivos e aspectos metodoló‑ gicos predominantes de cada estudo (BARDIN, 1977). Portanto, o trabalho consistiu em uma pesquisa explo‑ ratória descritiva, desenvolvida mediante avaliações de ordem qualitativa fundamentadas na utilização de elementos quantitativos organizados (LAKATOS, 2010). RESULTADOS E DISCUSSÃO O levantamento preliminar na base de dados da CAPES resultou em 301 ocorrências. Desse total, foram sele‑ cionados e analisados 75 artigos que realmente tinham ligação com o tema. O Quadro 1 relaciona os trabalhos triados, incluindo a ordem cronológica das publica‑ ções, o país onde o estudo foi desenvolvido e a respec‑ tiva categoria de enquadramento. Na sequência, são apresentados os aspectos mais relevantes das princi‑ pais pesquisas enquadradas em cada um dos grupos de análise. Quadro 1 – Trabalhos que embasaram a elaboração do presente artigo, incluindo as categorias de enquadramento. Autor/país Área de estudo Categoria Autor Área de estudo Categoria Davis e Ashenberg (1989) EUA QA Servida et al. (2009) Itália PA Jhanwar (1996) Índia PL Robles‑Arenas e Candela (2010) Espanha MA Levy et al. (1997) EUA RA Romero et al. (2010) Cuba PA Hamblin et al. (1999) EUA MA Schultze et al. (2010) Alemanha QA Shevenell et al. (1999) EUA QA Wendt‑Potthoff et al. (2010) Alemanha RA Savage et al. (2000) EUA PA Xiao et al. (2010) China PA Shevenell (2000) EUA QA Aluma e Johnson (2011) EUA TA Wisotzky e Obermann (2001) Alemanha RA Czop et al. (2011) Polônia QA Millu et al. (2002) Romênia PA Radhakrishnan et al. (2011) Austrália RA Çolak et al. (2003) Turquia PA Moser e Weisse (2011) Áustria QA Erg (2003) Estônia MA Rocha et al. (2011) Portugal TA Gammons et al. (2003) EUA QA Rozon‑Ramilo et al. (2011) Canadá TA Ramstedt et al. (2003) Suécia QA Edberg et al. (2012) Suécia QA Brandenberger et al. (2004) EUA PA Golestanifar e Ahangari (2012) Irã MA Kohfahl e Pekdeger (2004) Alemanha MA Koschorreck e Wendt‑Potthoff (2012) Alemanha QA Bowell e Parshley (2005) EUA QA Marques et al. (2012) Brasil QA Castendyk et al. (2005) NZ QA Poerschmann et al. (2011) Alemanha QA Continua... Impactos ambientais de cavas de mineração: uma revisão 83 RBCIAMB | n.48 | jun 2018 | 80-96 Categoria química ambiental As pesquisas enquadradas nesta categoria tiveram a geoquímica como foco principal, incluindo a qualidade hídrica, de solos, de rejeitos e de sedimentos de cavas. Estudos que relacionaram esses aspectos à estrati‑ ficação química da água, à avaliação do potencial de geração de drenagem ácida de mina, à formação e à mobilidade de substâncias tóxicas e à presença de mi‑ crorganismos na água também foram agrupados nela. O levantamento demonstrou que a grande maioria das pesquisas analisadas apresentou abordagem predomi‑ nante em análises geoquímicas de áreas mineradas. Em termos históricos, o primeiro estudo publicado internacionalmente envolvendo impactos ambientais de uma cava foi o de Davis e Ashenberg (1989), que avaliaram o perfil químico das águas ácidas do Lago Berkeley, nos Estados Unidos da América (EUA), uma Autor/país Área de estudo Categoria Autor Área de estudo Categoria Costa e Duarte (2005) Portugal RA Rapantová et al. (2012) RT MA Denimal et al. (2005) França QA Santofimia et al. (2012) FPI QA Hancock et al. (2005) Austrália MA Ayuso et al. (2013) EUA PA Hangen‑Brodersen et al. (2005) Alemanha PL Delgado‑Martin et al. (2013) Espanha QA Herzsprung et al. (2005) Alemanha QA Gammons et al. (2013) EUA QA Lottermoser et al. (2005) Austrália QA Herlory et al. (2013) França TA Pellicori et al. (2005) EUA QA Hrdinka et al. (2013) RT QA Balistrieri et al. (2006) EUA MA Skipperud et al. (2013) Tajiquistão TA Fyson et al. (2006) Alemanha RA Villain et al. (2013) Suécia RA Kalin et al. (2006) Canadá RA Xuan et al. (2013) Vietnã PA Triantafyllidis e Skarpelis (2006) Grécia QA Yucel e Baba (2013) Turquia QA Antunes et al. (2007) Portugal TA Grande et al. (2014) Portugal PL Bozau et al. (2007) Alemanha RA Luek et al. (2014) Canadá RA Castendyk e Webster‑Brown (2007) NZ MA Sánchez‑España et al. (2014) Espanha PL Migaszewski et al. (2008) Polônia QA Cánovas et al. (2015) Espanha QA Panilas et al. (2008) Grécia MA Ferrari et al. (2015) Brasil QA Sánchez‑España et al. (2008) FPI QA Gagnaire et al. (2015) França TA Geller et al. (2009) Alemanha RA Mollema et al. (2015) PB QA Monjezi et al. (2009) Irã PL Antunes et al. (2016) Portugal RA Neil et al. (2009) Austrália TA Peiffer (2016) Alemanha MA Ramalho et al. (2009) Portugal PL ‑ ‑ ‑ EUA: Estados Unidos da América; NZ: Nova Zelândia; FPI: Faixa Piritosa Ibérica; RT: República Tcheca; PB: Países Baixos; QA: Química Ambiental; RA: Remediação Ambiental; PA: Passivo Ambiental; MA: Modelagem Ambiental; TA: Toxicidade Ambiental; PL: Planejamento Ambiental. Quadro 1 – Continuação. Bárbara, V.F.; Tavares, M.G.O.; Antoniosi Filho, N.R. 84 RBCIAMB | n.48 | jun 2018 | 80-96 das maiores e mais icônicas bacias de mineração do mundo. Com 542 metros de profundidade, o lago foi paulatinamente tomado por águas subterrâneas após o encerramento das atividades de exploração de cobre. Os referidos autores analisaram a qualidade hídrica da cava e fizeram simulações para definição de processos de neutralização e diminuição da distribuição de me‑ tais na coluna líquida mediante a introdução de rejei‑ tos alcalinos. O mesmo lago foi objeto de dois outros estudos publicados posteriormente, de Gammons et al. (2003) e de Pellicori et al. (2005). Os três grupos de autores identificaram preocupantes índices de con‑ taminação hídrica por metais potencialmente tóxicos nas águas do referido lago. Bowell e Parshley (2005) analisaram a composição e o grau de influência de minerais sobre a qualidade das águas da Mina Getchell, no estado de Nevada, nos Es‑ tados Unidos. Ensaios de lixiviação demonstraram que os elementos presentes na parede da rocha, por serem altamente reativos às intempéries, se constituíam em importantes fontes de acidez e metais, pois exerciam forte controle geológico sobre as águas daquele lago durante suas fases iniciais de enchimento. Por sua vez, Sánchez‑España et al. (2008) analisaram característi‑ cas químicas e limnológicas das águas de pelo menos 22 lagos localizados na Faixa Piritosa Ibérica, inundados entre os anos 1960 e 1990 e não estudados com base em uma perspectiva científica até aquele momento. A pesquisa também identificou um controle significati‑ vo dos processos geoquímicos locais sobre a qualidade das águas das cavas, ácidas e ricas em metais tóxicos, levando os autores a concluírem que os lagos se consti‑ tuíam em fontes potenciais permanentes de drenagem de mina para os recursos naturais próximos. Alguns estudos de caráter geoquímico foram desenvol‑ vidos com a finalidade de avaliar se as águas acumula‑ das em cavas poderiam ser utilizadas para outros fins, principalmente como possíveis fontes de abastecimen‑ to. Shevenell et al. (1999) pesquisaram pelo menos 16 minas a céu aberto localizadas nos Estados Unidos, mediante a combinação de informações geoquímicas que objetivaram prever se as futuras condições de qualidade hídrica seriam prejudiciais ou favoráveis a outros usos. No geral, a pesquisa comprovou que as águas dos lagos apresentavam qualidade satisfatória, com pH neutro e baixas concentrações de metais, em‑ bora temporalmente pudessem ser esperadas eleva‑ ções nas concentrações de elementos como ferro e manganês nas colunas hídricas, principalmente devido às características geológicas, hidrológicas e climáticas locais, fatores dominantes da evolução da química da água. Nos Países Baixos, Mollema et al. (2015) busca‑ ram identificar a origem dos processos que conduziam a elevação das concentrações de metais nos sedimen‑ tos do Lago Lange Vlieter, utilizado para acúmulo de água potável. Apesar das vantagens principalmente econômicas que justificavam a escolha da cava como alternativa de abastecimento, como sua pré‑existência e a distância relativamente pequena de transporte da água, o estudo alertou para o fato de que lagos de mi‑ neração tendem a se tornar pontos de acumulação de metais, sendo necessária a realização de uma gestão segura no sentido de se garantir temporalmente a qua‑ lidade hídrica e evitar, assim, prejuízos a usos futuros. Outros trabalhos enquadrados nesta categoria anali‑ saram aspectos geoquímicos diversificados, como o de Schultze et al. (2010), que investigaram algumas das 140 minerações a céu aberto da Alemanha, exploradas desde o século XIX e preenchidas com águas subter‑ râneas e dos Rios Saale, Weisse Elster, Mulde e Selke. Um dos objetivos do estudo foi comprovar se a introdu‑ ção de águas superficiais em cavas era uma alternativa viável para garantir a qualidade hídrica futura. Os re‑ sultados demonstraram que os processos de oxidação da pirita foram controlados com sucesso na maioria dos lagos devido à introdução de águas externas, ha‑ vendo pouco risco de eutrofização, contaminação por poluentes industriais e desenvolvimento de patógenos advindos das águas fluviais. Apenas duas pesquisas envolvendo cavas brasilei‑ ras foram identificadas no levantamento. O primeiro, desenvolvido por Marques et al. (2012), avaliou a in‑ fluência química sazonal das águas de quatro lagos de mineração na qualidade hídrica subterrânea da bacia sedimentar da região de Sepetiba, no Rio de Janeiro, importante fonte de extração de areia para constru‑ ção civil desse estado e reconhecidamente o principal passivo ambiental da região. Por sua vez, Ferrari et al. (2015) pesquisaram o recém‑formado Lago Osamu Utsumi, localizado em Poços de Caldas, Minas Gerais, de onde era extraído urânio. O estudo consistiu na ca‑ racterização química e da comunidade zooplanctônica da cava, tendo apresentado como uma das suas princi‑ pais conclusões a necessidade de realização de testes ecotoxicológicos para avaliação dos efeitos de estres‑ sores químicos sobre organismos‑teste identificados. Impactos ambientais de cavas de mineração: uma revisão 85 RBCIAMB | n.48 | jun 2018 | 80-96 Categoria remediação ambiental Foram enquadradas nesta categoria as pesquisas que avaliaram propostas de alternativas de tratamentos de rejeitos, efluentes e águas de cavas, bem como solu‑ ções de remediação e redução da geração de drena‑ gem ácida de mina. Levy et al. (1997), por exemplo, pesquisaram a mina abandonada de Spenceville, na Califórnia (EUA), aterrada com toneladas de resíduos de mineração como medida de proteção do meio na‑ tural local. Efluentes de colunas filtrantes preenchidas com esse material e expostas a amostras de drenagem ácida de mina foram analisados. Uma das conclusões consistiu no alerta a respeito da importância da esco‑ lha correta dos rejeitos minerais a serem empregados em ações de recuperação, pois danos ainda maiores podem ser desencadeados na busca pela proteção am‑ biental. Por sua vez, Wisotzky e Obermann (2001) apre‑ sentaram cálculos geoquímicos para a determinação da concentração média da pirita advinda dos depósitos de cavas de mineração, visando ao estabelecimento de valores médios de referência para a determinação da quantidade de aditivos necessários à neutralização de descargas minerais e, consequentemente, à garantia da manutenção da qualidade das águas subterrâneas. Também foi considerada a adição de pedra calcária tri‑ turada e cinzas como alternativas para a diminuição dos possíveis efeitos químicos sobre a água. Os cál‑ culos hidrogeoquímicos associados aos experimentos laboratoriais demonstraram viabilidade de diminuição dos riscos de poluição hídrica. Costa e Duarte (2005) estudaram a viabilidade de um novo processo de biorremediação para o tratamento da drenagem ácida da mina portuguesa de São Do‑ mingos. Para tanto, biorreatores de coluna de leito fixo combinados com lactose, uma fonte de carbono com‑ plementar, foram utilizados para avaliar a eficiência de um processo simples e semicontínuo embasado no uso de esgoto, lodo anaeróbio e solo ácido advindo da área de mineração. Os resultados foram satisfatórios em re‑ lação à precipitação dos principais metais dissolvidos, à redução dos teores de sulfato e à neutralização da DAM. De forma semelhante e na busca por alternativas de remediação inovadoras, economicamente viáveis e ambientalmente aceitáveis, Fyson et al. (2006) desen‑ volveram um método de remoção de acidez das águas de lagos de mineração localizados na região de Lausitz, na Alemanha, onde há dezenas de cavas formadas devi‑ do à exploração de lignito. Experimentos laboratoriais de eutrofização controlada que objetivavam melhorar a ciclagem de elementos e os processos de geração de alcalinidade de águas e sedimentos foram desenvolvi‑ dos. Embora a adição de nutrientes tenha levado ao aumento da produção primária algal, não ocorreu a remoção da acidez, alcançada apenas na presença de sedimentos e com a adição de batatas, importantes fontes de nutrientes como carbono e fósforo. Por sua vez, Bozau et al. (2007) desenvolveram um trabalho de remediação biotecnológica do Lago RL111, explorado pela indústria mineral alemã entre os anos de 1923 e 1958. Os autores instalaram in loco uma torre preen‑ chida com palha e carbokalk, um subproduto da indús‑ tria de açúcar de beterraba. Protótipos do experimento também foram montados em laboratório. Entre outros aspectos, a pesquisa demonstrou que as taxas de redu‑ ção do sulfato medido em condições controladas não foram alcançadas no trabalho realizado em campo, li‑ mitando o sucesso da remediação, e que outros fatores poderiam aumentar o tempo do tratamento. Categoria passivo ambiental Estudos que mensuraram o grau de contaminação ambiental de complexos minerais visando ao geren‑ ciamento de áreas contaminadas foram incluídos nes‑ ta categoria. Savage et al. (2000) e Çolak et al. (2003) pesquisaram os níveis de contaminação por arsênio em mineração dos Estados Unidos e da Turquia, respecti‑ vamente. Os primeiros analisaram o grau de compro‑ metimento ambiental do Distrito Mineral Mother Lode mediante a análise da geoquímica do elemento, pre‑ sente em altas concentrações nas águas superficiais e subterrâneas locais. Para tanto, coletaram amostras de diversos ambientes minerados caracterizados por dife‑ rentes modos de interação rocha–água, influenciadores do transporte do arsênio, como afloramentos, rochas, pilhas de rejeitos e as cavas propriamente ditas. Os au‑ tores constataram influências sazonais marcantes nas concentrações de arsênio na área, fato que os levou a alertarem sobre a necessidade de consideração desses efeitos durante o planejamento do uso do solo na re‑ gião. O segundo grupo de pesquisadores mensuraram o passivo ambiental formado em uma antiga mina a céu aberto de borato, onde pessoas do entorno foram Bárbara, V.F.; Tavares, M.G.O.; Antoniosi Filho, N.R. 86 RBCIAMB | n.48 | jun 2018 | 80-96 diagnosticadas com sintomas de intoxicação. O estudo consistiu na análise de amostras de solo e águas super‑ ficiais e subterrâneas advindas de uma rede amostral estrategicamente distribuída na área, tendo identifica‑ do um grave cenário de contaminação ambiental local por arsênio. A contaminação de recursos hídricos situados a jusan‑ te da maior mina a céu aberto de cobre da Romênia, a Rosia Poieni, foi investigada por Millu et al. (2002). A pesquisa identificou que a DAM se mostrava ativa na área e, por intermédio do intemperismo, liberava elevadas concentrações de elementos tóxicos no meio ambiente, como alumínio, ferro, cobre, zinco, chum‑ bo, arsênio e irídio, impacto que deverá perdurar por pelo menos 50 anos, demandando monitoramento contínuo. Na Itália, Servida et al. (2009) dividiram a área estudada em uma malha amostral unifor‑ me para a caracterização química de águas e solos. Constataram concentrações de alguns metais acima dos limites legais, bem como potencial de geração de DAM em mais de 50% das amostras. Por sua vez, Ro‑ mero et al. (2010) publicaram um trabalho desenvol‑ vido na mina inativa de Santa Lúcia, em Cuba, cujo ob‑ jetivo foi desenvolver uma estratégia de gestão eficaz para prevenir danos à vida selvagem e aos recursos naturais locais. Análises geoquímicas e mineralógi‑ cas foram desenvolvidas com enfoque na mobilida‑ de de elementos tóxicos e na possível contaminação dos corpos hídricos superficiais da região. Identifica‑ ram sinais da presença de contaminantes em águas superficiais coletadas a centenas de metros a jusante da mina, embora também tenha ficado comprovada a atenuação natural das concentrações desses elemen‑ tos ao longo do corpo hídrico analisado. Os trabalhos mais recentes identificados foram os de Ayuso et al. (2013) e Xuan et al. (2013). Os primeiros estudaram a mina de Callahan, situada no litoral dos Estados Unidos, para delinear a extensão de uma possí‑ vel contaminação, uma vez que a cava existente é inun‑ dada diariamente pelas marés desde o ano de 1972, o que possibilitou a oportunidade única de avaliação dos impactos de uma mineração no ambiente estuari‑ no. Os resultados demonstraram que a contaminação é um legado de longo prazo na região e apresenta refle‑ xos significativos em organismos marítimos. Os demais pesquisadores publicaram a primeira pesquisa sobre avaliação de contaminação ambiental em uma área de mineração do Vietnã. Resíduos e rejeitos da mina a céu aberto do depósito de Cay Cham foram analisados com o objetivo de verificar seus respectivos potenciais de geração de drenagem ácida de mina e, consequente‑ mente, de contaminação ambiental. Observaram ele‑ vadas concentrações de zinco, níquel, cobre e manga‑ nês, elementos oriundos da DAM. Categoria modelagem ambiental Os estudos enquadrados nesta categoria utilizaram modelos matemáticos de sistemas ambientais para si‑ mular e auxiliar na compreensão dos comportamentos do meio, tais como hidrodinâmica, estratificação térmi‑ ca e qualidade das águas de cavas, como o desenvolvi‑ do por Erg (2003), que aplicou um modelo conceitual de fluxo hídrico subterrâneo para prever possíveis alte‑ rações químicas ocasionadas por atividades de mine‑ ração que pudessem prejudicar usos locais, principais fontes de abastecimento da população do Nordeste da Estônia. Os autores concluíram que o efeito combina‑ do de fatores antrópicos e naturais refletiu na elevação dos teores de sulfato nas águas subterrâneas, tendên‑ cia que deve perdurar durante anos após o encerra‑ mento das atividades de mineração. Kohfahl e Pekdeger (2004) utilizaram o Programa Sapy para antever condições geoquímicas associadas à Mina Lohsa, na Alemanha. Simularam cenários de longo prazo de qualidade da água a fim de embasar possí‑ veis estratégias de gestão dos recursos hídricos sub‑ terrâneos locais frente aos impactos pós‑mineração. Hancock et al. (2005) pesquisaram o balanço de mas‑ sa para calcular o volume de água e as cargas de sal de uma mina localizada no Vale Hunter, na Austrália, onde haviam outras 22 unidades em operação e mui‑ tas previstas para iniciarem suas atividades. A pesquisa consistiu no desenvolvimento de simulações de longo prazo a fim de prever riscos associados à qualidade da água de minerações a céu aberto e embasar opções de gestão. Nos Estados Unidos, Balistrieri et al. (2006) pes‑ quisaram o ciclo sazonal de temperatura e salinidade do Lago Dexter com o auxílio do modelo unidimensio‑ nal Dyresm. De forma geral, os resultados demonstra‑ ram que o sistema computacional foi apropriado para a compreensão do comportamento da cava e que sua hidrologia e geoquímica não são tão complexas como a de outros lagos artificiais. Impactos ambientais de cavas de mineração: uma revisão 87 RBCIAMB | n.48 | jun 2018 | 80-96 Rapantová et al. (2012) estudaram uma mina da Repú‑ blica Tcheca por intermédio de modelagem espacial e temporal dos efeitos do rebaixamento hídrico sobre as condições hidrogeológicas locais, onde ocorrem nas‑ centes termais protegidas que, no passado, irrompe‑ ram na área da mina, limitando os métodos de mine‑ ração empregados. Os resultados demonstraram que não deverão ser observados impactos significativos da atividade de exploração sobre as fontes termais no lon‑ go prazo. Categoria toxicidade ambiental Os trabalhos envolvendo a toxicidade ambiental de elementos advindos de áreas mineradas são pouco numerosos e recentes. Historicamente, o primeiro es‑ tudo identificado foi o de Antunes et al. (2007), que mensuraram o grau de comprometimento ambiental de uma mina portuguesa de urânio por intermédio de ensaios de água e sedimentos de uma cava utilizando algas, crustáceos e dípteros como organismos‑teste. Dois anos depois, Neil et al. (2009) publicaram uma pesquisa de análise da efetividade do tratamento de águas de um lago de mina da Austrália formado após mais de cem anos de exploração de carvão, tendo con‑ cluído que os bioensaios são ferramentas indispensá‑ veis para uma melhor compreensão do grau de toxici‑ dade das substâncias testadas. Rozon‑Ramilo et al. (2011) analisaram a toxicidade de pelo menos três efluentes de mineração com bioen‑ saios crônicos associados a análises histológicas de ór‑ gãos de peixes, possibilitando a caracterização das vias de exposição e o potencial de toxicidade das substân‑ cias de interesse. No mesmo ano, Rocha et al. (2011) publicaram um estudo de toxicidade de frações solú‑ veis de solos afetados por atividades industriais e de minerações portuguesas com o objetivo de compreen‑ derem melhor os impactos antrópicos sobre os ecossis‑ temas aquáticos locais. Para tanto, utilizaram bactérias marinhas, microalgas e microcrustáceos como organis‑ mos‑teste. De forma semelhante, o potencial de toxici‑ dade da drenagem ácida de uma mineração localizada em Ohio (EUA) foi analisado ecotoxicologicamente por Aluma e Johnson (2011), mediante bioensaio realizado com exemplares de Daphnia magna em estágio inicial de desenvolvimento. O método empregado também se mostrou uma boa ferramenta de avaliação de riscos ambientais associados a drenagens de mina. Skipperud et al. (2013) pesquisaram a biomagnificação de contaminantes advindos de uma mineração de urâ‑ nio em peixes mediante a análise histológica de órgãos específicos. A área estudada foi a de Taboshar, no Taji‑ quistão, onde se localiza uma antiga mina utilizada pelo programa de armas nucleares da União Soviética que gerou cerca de 35 milhões de metros cúbicos de resí‑ duos radioativos e levou à formação de um grande lago artificial onde foram introduzidos peixes para consumo da população do entorno. Além de exemplares da ic‑ tiofauna, outros organismos locais foram capturados para análise, como caracóis e musgos. Os autores com‑ provaram concentrações alarmantes de contaminantes nas espécies estudadas. Os impactos de minerações francesas sobre as águas do Rio Ritort foram estudados por Herlory et al. (2013) por intermédio da análise do potencial bioindicador de comunidades de diatomáceas perifíticas. Durante sete meses, as condições das microalgas presentes no rio foram monitoradas, tendo sido observadas alterações ambientais significativas provocadas pelas atividades de mineração. Finalmente, o estudo mais recente que abordou aspectos da toxicidade ambiental associada a atividades de mineração foi o desenvolvido por Gagnai‑ re et al. (2015). Peixes da espécie Rutilus rutilus foram confinados em águas de duas lagoas, uma delas, a Pon‑ tabrier, contaminada por urânio. Aspectos físico‑quími‑ cos das águas e dos sedimentos e a bioacumulação de metais nos organismos‑teste foram determinados du‑ rante os ensaios. A metodologia aplicada na pesquisa possibilitou obter resultados satisfatórios de avaliação dos efeitos de poluentes em ecossistemas aquáticos. Categoria planejamento ambiental Os trabalhos enquadrados nesta categoria objetiva‑ ram diagnosticar diferentes impactos de áreas de mi‑ neração mediante o estabelecimento de uma base de informações a ser utilizada principalmente para fins de planejamento ambiental. No único estudo sobre cavas desenvolvido na Índia identificado no presente Bárbara, V.F.; Tavares, M.G.O.; Antoniosi Filho, N.R. 88 RBCIAMB | n.48 | jun 2018 | 80-96 levantamento, Jhanwar (1996) utilizou o sensoriamen‑ to remoto para avaliar o grau de interferência de uma atividade de mineração no meio natural local, tendo identificado intervenções profundas em florestas nati‑ vas, topografia e drenagem. Com objetivo mais amplo, Grande et al. (2014) inventariaram minas existentes em Portugal em uma base cartográfica. A área estuda‑ da vem sendo minerada há pelo menos 2000 anos e possui cerca de 90 minas abandonadas formadoras de uma rede difusa de efluentes de mineração. Os pesqui‑ sadores estimaram que a contaminação causada por drenagens ácidas já atingiu quase 5000 ha. Hangen‑Brodersen et al. (2005) desenvolveram pesqui‑ sa para fornecer subsídios ao planejamento ambiental de áreas de mineração da Alemanha, especialmente em relação à qualidade das águas de cavas que seriam desativadas. Por sua vez, Ramalho et al. (2009) apli‑ caram métodos geofísicos para avaliação da possibi‑ lidade de antigas cavas receberem resíduos de minas adjacentes de forma ambientalmente segura. Os re‑ sultados indicaram a necessidade de estabelecimento de um programa detalhado de impermeabilização de áreas críticas para que problemas de drenagem fossem minimizados ou superados, permitindo a instalação de depósitos seguros de resíduos. Por sua vez, Mon‑ jezi et al. (2009) utilizaram o Método Folchi para ava‑ liar os impactos ambientais de quatro minas iranianas, tendo observado que o meio natural local se mostra‑ va mais suscetível aos efeitos da mina Sarcheshmeh. Recentemente, Sánchez‑España et al. (2014) busca‑ ram compreender a história da inundação, a evolução limnológica e a dinâmica hidrológica de um complexo sistema de minas da Espanha. Os resultados obtidos serão úteis especialmente para a concepção de futuros planos de fechamento de minas. Considerações gerais As quase quatro décadas de publicações contempladas neste levantamento bibliográfico demonstram que, em termos de distribuição espacial, a maior parte das pes‑ quisas sobre impactos ambientais de cavas foi desen‑ volvida em países do Hemisfério Norte, notadamente naqueles localizados na Europa (43 artigos: 57,24% do total) e na América do Norte (17 artigos: 22,66%), regiões que respondem por praticamente 80,00% dos trabalhos analisados (Tabela 1). A América Latina, por exemplo, apesar de contar com al‑ gumas das nações com maior potencial de exploração de minérios do mundo, ainda se mostra carente de pesqui‑ sas sobre o tema. Há um déficit considerável de estudos especializados principalmente em regiões compostas de países emergentes, especialmente no Brasil, que ainda não possui um levantamento sistematizado dos lagos de mineração existentes em seu território e não dispõe de legislações de disciplinamento específico. Uma pos‑ sível explicação para a elevada discrepância geográfi‑ ca de trabalhos sobre cavas no globo é que os países localizados no Hemisfério Norte, em geral, apresentam maior tradição na exploração mineral, pois se industria‑ lizaram antes que os do Sul. Consequentemente, aque‑ las nações se depararam primeiro com os impactos do setor, o que as estimulou a desenvolverem pesquisas há mais tempo. Adicionalmente, é sabido que há maior aporte de recursos financeiros para estudos em países desenvolvidos, favorecendo o desenvolvimento de tra‑ balhos nessa área. Região Número de artigos Porcentagem (%) Europa 43 57,24 América do Norte 17 22,66 Oceania 6 7,55 Ásia 5 6,67 América Central 2 2,94 América do Sul 2 2,94 Tabela 1 – Distribuição dos artigos por região do mundo. Impactos ambientais de cavas de mineração: uma revisão 89 RBCIAMB | n.48 | jun 2018 | 80-96 Outra constatação é que as pesquisas sobre os impac‑ tos ambientais de cavas são relativamente recentes, tendo em vista que o primeiro artigo foi publicado ape‑ nas em 1989. Apesar da escassez de trabalhos sobre o assunto reconhecida por diversos autores ( PELLICORI et al., 2005; SÁNCHEZ‑ESPAÑA et al., 2008; VILLAIN et al., 2013) e comprovada por este levantamento, estudos ligados ao tema estão aumentando temporal‑ mente, conforme pode ser visualizado na Figura 1. Verificou‑se que a busca por métodos para melhor compreender os impactos ambientais de lagos de mi‑ neração é um esforço ainda tímido por parte dos pes‑ quisadores das Ciências Ambientais em nível mundial, refletindo em pouco conhecimento acumulado. Dado o entendimento recente das cavas como problemas am‑ bientais emergentes, os esforços científicos ainda ne‑ cessitam avançar significativamente para a consolida‑ ção de mais informações sobre o tema. Em relação às categorias de análise, o levantamento demonstrou que a maioria dos estudos analisados se limitou, metodologicamente, à avaliação de aspectos químicos de áreas mineradas (Figura 2). Naturalmente, a avaliação ambiental contemplando aspectos químicos é necessária, porém limitada, pois retrata apenas estados instantâneos de qualidade am‑ biental, não sendo capaz de mensurar, por exemplo, os possíveis efeitos da ação biológica de contaminantes de interesse sobre organismos específicos. Isso porque cavas de mineração, especialmente suas águas, ten‑ dem a apresentar variabilidade de diversos aspectos que interagem entre si mediante processos químicos, físicos e biológicos associados: • a mecanismos de condicionamento geológico — in‑ teração rocha–água–ar; • à sazonalidade; • ao tempo. Assim, considerando o grau de complexidade dos im‑ pactos ambientais potenciais dessas unidades de ori‑ gem antrópica, muitas vezes a simples determinação química não é suficiente para possibilitar conclusões mais amplas. Adicionalmente, ainda que as concentra‑ ções de determinados analitos de interesse ambiental se apresentem inferiores aos valores legais máximos permitidos, seus efeitos tóxicos sinérgicos podem re‑ sultar em prejuízos ambientais significativos quando interagem entre si na coluna d’água (HERLORY et al., 2013; GAGNAIRE et al., 2015). Figura 1 – Distribuição dos artigos por categoria de análise e ano de publicação. N úm er o de p ub lic aç õe s (u n. ) 7 6 5 4 3 2 1 0 19 89 19 90 19 91 19 92 19 93 19 94 19 95 19 96 19 97 19 98 19 99 20 00 20 01 20 02 20 03 20 04 20 05 20 06 20 07 20 08 20 09 20 10 20 11 20 12 20 13 20 14 20 15 20 16 Planejamento Remediação Passivo Modelagem Toxicidade Química Bárbara, V.F.; Tavares, M.G.O.; Antoniosi Filho, N.R. 90 RBCIAMB | n.48 | jun 2018 | 80-96 Não obstante o exposto, a experiência acumulada até então demonstra o consenso entre os pesquisadores de que cavas apresentam comportamento complexo e, consequentemente, gestão ambiental desafiado‑ ra quando comparada à de outros recursos naturais, como recursos hídricos superficiais e subterrâneos. Enquanto esses dois últimos podem ser gerenciados apenas com base em padrões metodológicos tradicio‑ nais de controle e monitoramento ambiental — como a abordagem exclusivamente química —, cavas, por sua natureza ambientalmente variada, exigem abordagens embasadas em critérios que possibilitem uma visão ambiental sistêmica, integrada. Requerem, portanto, abordagens metodológicas interdisciplinares. Um exemplo de avaliação ambiental integrada de lagos de mineração consiste no desenvolvimento de meto‑ dologias investigativas embasadas na associação entre Química e Ecotoxicologia, ciências complementares en‑ tre si. Análises ecotoxicológicas agregam mais elemen‑ tos às avaliações ambientais, pois permitem mensurar os efeitos deletérios potenciais de diversas substâncias químicas sobre o comportamento de organismos‑teste padronizados mediante exposições agudas ou crônicas. Adicionalmente, possibilitam avaliar a evolução temporal dos efeitos tóxicos de elementos químicos de interesse sobre os espécimes expostos. Todavia, apesar de as duas ciências se encontrarem consolidadas há décadas, o levan‑ tamento demonstrou que trabalhos com esse enfoque me‑ todológico ainda são raros e muito recentes para lagos de mineração (COSTA & DUARTE, 2005; ROCHA et al., 2011). Finalmente, considerando que as substâncias químicas presentes em cavas também podem manifestar seus efei‑ tos de forma discreta, a ponto de não serem visualmen‑ te perceptíveis em ensaios ecotoxicológicos, entende‑se que os princípios da Genotoxicologia Ambiental também devem ser empregados na busca pelo entendimento do comportamento de tais unidades, uma vez que análises genéticas possibilitam o desenvolvimento de aborda‑ gens capazes de detectar alterações orgânicas em nível celular nos organismos expostos. Entretanto, investiga‑ ções científicas centradas na análise dos mecanismos de ação de químicos tóxicos de cavas mediante abordagens mais completas, que busquem avaliar, por exemplo, al‑ terações orgânicas em nível celular por intermédio de abordagens genotoxicológicas combinadas com aspec‑ tos ecotoxicológicos e químicos, são desconhecidas. Figura 2 – Distribuição das quantidades de publicações por categoria de análise. 29 612 9 11 8 Química Planejamento Remediação Passivo Modelagem Toxicidade Impactos ambientais de cavas de mineração: uma revisão 91 RBCIAMB | n.48 | jun 2018 | 80-96 CONCLUSÕES A proposta deste estudo foi buscar compreender como cavas e seus impactos ambientais vêm sendo tratados pela comunidade científica internacional ao longo das últimas décadas. Verificou‑se que o conhecimento acu‑ mulado sobre o tema ainda é incipiente no mundo, ten‑ do em vista o reduzido número de trabalhos publicados, especialmente no Hemisfério Sul. Adicionalmente, a maior parte (39%) dos estudos desenvolvidos até en‑ tão apresentam abordagem predominante em aspec‑ tos geoquímicos de lagos de mineração, importantes, porém limitados frente à complexidade dos impactos ambientais desencadeados. Do ponto de vista da sustentabilidade, cavas deman‑ dam medidas gerenciais diferenciadas que necessitam estar embasadas em investigações amplas e suficien‑ temente capazes de abranger o sinergismo dos seus processos químicos, físicos e biológicos associados aos fatores dominantes da evolução da qualidade hídrica. Por outro lado, para que os pesquisadores ampliem o entendimento do problema de forma condizente com suas especificidades ambientais, é necessária a obten‑ ção de respostas — de controle e monitoramento am‑ biental — que vão além das abordagens tradicionais, normalmente aplicadas de maneira isolada. Nesse sen‑ tido, novos trabalhos constituídos de questões de pesquisa, objetivos e metodologias investigativas que contemplem avaliações integradas de aspectos quími‑ cos, ecotoxicológicos e genotoxicológicos de cavas, por exemplo, se configuram como oportunidades científi‑ cas que futuramente poderão ser desenvolvidas pelos estudiosos das Ciências Ambientais. REFERÊNCIAS ALUMA, E.; JOHNSON, K. Short communication: a 24 hour ecotoxicity test for acid mine drainage using hatching success in Daphnia magna. Journal of Applied Sciences and Environmental Management, v. 15, p. 231‑234, 2011. http://dx.doi. org/10.4314/jasem.v15i1.65704 ANTUNES, I. M. H. R.; GOMES, M. E. P.; NEIVA, A. M. R.; CARVALHO, P. C. S.; SANTOS, A. C. T. Potential risk assessment in stream sediments, soils and waters after remediation in an abandoned W4Sn mine (NE Portugal). Ecotoxicology and Environmental Safety, v. 133, p. 135‑145. 2016. https://doi.org/10.1016/j.ecoenv.2016.06.045 ANTUNES, S. C.; FIGUEIREDO, D. 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