536 RBCIAMB | v.55 | n.4 | dez 2020 | 536-551 - ISSN 2176-9478 Samira Becker Volpato Doutoranda em Ciências Ambientais na Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC) – Criciúma (SC), Brasil. Antuni Crescencio Engenheiro ambiental na UNESC – Criciúma (SC), Brasil. Carlyle Torres Bezerra de Menezes Professor doutor em Engenharia Mineral na Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC) – Criciúma (SC), Brasil. Andre Escobar Engenheiro químico na Carbonífera Metropolitana – Criciúma (SC), Brasil. Endereço para correspondência: Carlyle Torres Bezerra de Menezes – Rua Antônio Sartor, 439 – Mina do Mato – CEP: 88810-470 – Criciúma (SC), Brasil – E-mail: cbm@unesc.net Recebido em: 02/12/2019 Aceito em: 10/06/2020 RESUMO Este estudo foi desenvolvido com o objetivo de avaliar os processos de tratamento de efluentes provenientes da mineração de carvão mineral, bem como sua eficiência na remoção de manganês e de outros metais pesados. Os procedimentos consistiram na aplicação dos métodos de tratamento de efluentes de mineração por meio do processo de neutralização, seguido de floculação e sedimentação (NFS) e flotação por ar dissolvido (FAD) em escala de bancada. O ensaio via NFS apresentou eficiência de 99,58% na remoção do manganês dissolvido no efluente, com a elevação de pH até 9,95. Para os ensaios por FAD, a eficiência média da remoção de manganês foi de 97,12% e o pH 9,4. Para os outros metais, a NFS apresentou remoção de 99,79% para o alumínio total, 99,32% para o zinco e 97,79% para o ferro solúvel, enquanto a FAD apresentou remoção média de 96,33% para o alumínio total, 97,02% para o zinco e 97,26% para o ferro solúvel. Todos os ensaios se enquadraram nos limites estabelecidos pela legislação ambiental no que diz respeito à concentração em metais tóxicos. Isso comprova que o processo de tratamento do efluente proveniente de uma empresa carbonífera em estudo apresentou eficiência para a remoção dos metais analisados, sobretudo ferro, zinco e manganês. Resta a necessidade de ajustes em futuros trabalhos de pesquisa a adequação do manganês a valores de pH abaixo de 9. Constatou‑se ainda que, além da NFS, a técnica de tratamento por FAD constitui uma alternativa para o tratamento de efluentes ácidos de mina, corroborando trabalhos anteriores e justificando a possível reintrodução futura nos sistemas de tratamento da drenagem ácida de mina na região. Palavras-chave: drenagem ácida de mina; contaminantes ambientais; metais tóxicos. ABSTRACT This study was developed with the objective of evaluating the effluent treatment processes from coal mining, as well as the efficiency in removing manganese and other heavy metals. The procedures consisted of applying mining wastewater treatment methods through the neutralization processes, followed by Flocculation and Sedimentation (NFS) and Dissolved Air Flotation (FAD) on a bench scale. The test via NFS showed an efficiency of 99.58% in the removal of the manganese dissolved in the effluent, with an increase in pH up to 9.95. For the FAD tests, the average manganese removal efficiency was 97.12% and with pH 9.4. For other metals, NFS showed 99.79% removal for Total Aluminum, 99.32% for Zinc and 97.79% for Soluble Iron, while FAD had an average removal of 96.33% for Total Aluminum, 97.02% for Zinc, and 97.26% for Soluble Iron. All tests fell within the limits established by https://doi.org/10.5327/z2176-947820200632 TRATAMENTO DE EFLUENTES ÁCIDOS PARA A REMOÇÃO DO MANGANÊS E DE METAIS PESADOS ASSOCIADOS AOS EFLUENTES DA MINERAÇÃO DE CARVÃO POR MEIO DOS PROCESSOS DE FLOCULAÇÃO E FLOTAÇÃO POR AR DISSOLVIDO TREATMENT OF ACID EFFLUENTS FOR THE REMOVAL OF MANGANESE AND HEAVY METALS ASSOCIATED WITH EFFLUENTS FROM THE COAL MINING THROUGH THE PROCESSES OF FLOCULATION AND FLOTATION BY DISSOLVED AIR Revista Brasileira de Ciências Ambientais • Brazilian Journal of Environmental Sciences http://orcid.org/0000-0003-4063-2515 http://orcid.org/0000-0003-2378-9510 http://orcid.org/0000-0002-2478-8352 http://orcid.org/0000-0003-1394-8899 mailto:cbm@unesc.net https://doi.org/10.5327/z2176-947820200632 https://doi.org/10.5327/z2176-947820200632 Tratamento de efluentes ácidos para a remoção do manganês pelos processos de floculação e flotação por ar dissolvido 537 RBCIAMB | v.55 | n.4 | dez 2020 | 536-551 - ISSN 2176-9478 INTRODUÇÃO A atividade de lavra e beneficiamento de carvão mi- neral na região sul do estado de Santa Catarina teve início no fim do século XIX, mas somente em meados da década de 1940 obteve grande impulso, quando co- meçou a ser implantado o parque siderúrgico nacional (MENEZES et al., 2004). Porém, aliada ao progresso da região sul, a mineração de carvão trouxe consigo seve- ros danos ambientais, comprometendo a qualidade do ar atmosférico, dos solos e dos recursos hídricos locais. Um dos principais impactos da atividade mineira é a poluição hídrica causada pela drenagem ácida de mina (DAM). Os problemas ambientais estão relacionados com o pH geralmente abaixo de 3 e a diversidade de metais dissolvidos, como ferro, alumínio, manganês e traços de chumbo, cobre e zinco (KONTOPOULOS, 1998; SILVAS et al., 2011) A indústria da mineração produz significativas quan- tidades de efluentes líquidos como contrapartida de seus processos, cujas concentrações de compostos inorgânicos e metais, entre outros componentes, es- tão bem acima dos padrões máximos de lançamento estabelecido pela legislação (WOLOSZYN; VOLKART; BIZANI, 2013). A DAM, um dos principais problemas ambientais associados à mineração de carvão mineral e a outras atividades da indústria mineral que contêm sulfetos metálicos, constitui uma fonte expressiva de poluição das águas superficiais e subterrâneas, criando condi- ções impróprias à sobrevivência de seres nesse habi- tat, além de limitar seu uso doméstico ou industrial ( MENEZES et al., 2004; KONTOPOULOS, 1998). Além da DAM, também os efluentes líquidos provenientes do processo de beneficiamento apresentam característi- cas agressivas ao meio ambiente, com altas concentra- ções de metais pesados e a presença de partículas finas e ultrafinas de difícil remoção. O reconhecimento dos riscos ambientais da DAM tem conduzido ao desenvolvimento de várias técnicas para minimizar o impacto dessas correntes ácidas nos ecos- sistemas. Os sistemas convencionais de neutralização de DAM que utilizam reagentes alcalinos (CaO e CaCO3) são os mais empregados em áreas de mineração. Esses sis- temas consistem no aumento do pH e na remoção de metais na forma de hidróxidos. A principal característica da neutralização com reagentes alcalinos é a formação de resíduos (lama) decorrentes do processo de preci- pitação dos sólidos. Em geral, o processo de precipita- ção de constituintes químicos se dá em função do pH. Entretanto, outros fatores podem contribuir nesse pro- cesso, como força iônica, temperatura, potencial de oxi- dação‑redução (Eh), estado de oxidação dos metais, con- centrações dos metais em solução e suas interações com sólidos precipitados (KALIN; FYSON; WHEELER, 2006). O manganês tem sido considerado como um dos prin- cipais elementos contaminantes presentes na DAM de carvão mineral, de difícil remoção nos limites permiti- dos pela legislação ambiental (pH 6 a 9). Normalmente, o manganês existe em solução sob condições normais ambientais na forma do cátion Mn2+. Em DAM, prevale- ce o Mn2+ que é estável até o pH próximo de 10. Alguns métodos de tratamento de efluentes são em- pregados nos setores minerais com a finalidade de remover metais pesados e estabelecer condições apropriadas de descarte desses efluentes conforme os parâmetros exigidos pela legislação ambiental. Tais processos de tratamento de efluentes podem ser utilizados via neutralização, floculação e sedimentação (NFS) e via flotação por ar dissolvido (FAD). environmental legislation with respect to the concentration in toxic metals, this proves that the process of treating the effluent from a coal company under study showed an efficiency for the removal of the analyzed metals, especially iron, zinc, and manganese. There remained the need for adjustments in future research work to adapt manganese to pH values below 9.0. It was also found that, in addition to the NFS, the FAD treatment technique constitutes an alternative for the treatment of acid mine effluents, corroborating with previous works and justifying a possible future reintroduction in the systems of treatment of acid mine drainage in the region. Keywords: mine acid drainage; environmental contaminants; toxic metals. Volpato, S.B. et al. 538 RBCIAMB | v.55 | n.4 | dez 2020 | 536-551 - ISSN 2176-9478 A remoção de manganês da DAM por sistemas con- vencionais de neutralização, por outro lado, tem apresentado baixa eficiência em diversos estudos (HAMMARSTROM; SIBRELL; BELKIN, 2003). Em condi- ções oxidantes, o Mn2+ deveria sofrer oxidação espon- tânea para manganês trivalente ou tetravalente e, em seguida, precipitar na forma de óxidos. Porém, isso re- quer elevada quantidade de energia, tornando lento o processo de oxidação desse metal, especialmente em pH < 8 (POTGIETER‑VERMAAK et al., 2006). No que diz respeito à legislação vigente para este estu- do, a Resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) nº 430 (BRASIL, 2011), que dispõe sobre as definições e padrões de lançamento de efluentes, vem complementar e alterar a Resolução nº 357, de 17 de março de 2005. Em seu artigo 3º, resolve: “Os efluentes de qualquer fonte poluidora somente poderão ser lança- dos diretamente nos corpos receptores após o devido tra- tamento e desde que obedeçam às condições, padrões e exigências dispostos nesta Resolução e em outras normas aplicáveis” (BRASIL, 2011). Portanto, todas as unidades de tratamento de efluente, de qualquer origem, somente poderão lançar diretamente suas águas no corpo recep- tor desde que atendam às disposições da lei. Ressalta ain- da em seu artigo 16º: Os efluentes de qualquer fonte poluidora somente poderão ser lançados diretamente no corpo receptor desde que obedeçam as condições e padrões previstos neste artigo, resguardadas outras exigências cabíveis: I ‑ condições de lançamento de efluentes: a) pH entre 5 e 9; II ‑ Padrões de lançamento de efluentes: Man- ganês dissolvido 1 mg/L; Ferro Dissolvido 15 mg/L e Zinco 5 mg/L (BRASIL, 2011). Nesse contexto, o objetivo geral deste trabalho foi o de realizar a aplicação de métodos de tratamento de efluentes provenientes da mineração de carvão mine- ral, com vistas à melhoria da eficiência na remoção do manganês e de outros metais pesados como alumí- nio, ferro e zinco, em uma estação de tratamento de efluentes (ETE) da indústria carbonífera na região sul do estado de Santa Catarina. Dessa forma, no presente trabalho se buscou propor- cionar uma melhoria da qualidade dos recursos hídri- cos com base no aperfeiçoamento dos processos de tratamento de efluentes e seu posterior lançamento no sistema hídrico. Para atender a esse objetivo, realizou‑se uma revisão do estado da arte dos processos de tratamento de DAM com enfoque na remoção do manganês, fez‑se a caracterização do efluente gerado pela carbonífera e conduziram-se ensaios de tratabilidade para avaliar a eficiência de remoção dos metais manganês, alumínio, ferro e zinco, com vistas à adequação dos efluentes ge- rados aos padrões de qualidade ambiental. MATERIAIS E MÉTODOS Processo de tratamento de efluentes da indústria car- bonífera em estudo A ETE da indústria carbonífera objeto deste estudo compreende as seguintes unidades: • tanque de neutralização; • tanque de floculação; • sedimentador; • adensamento; • desidratação (filtro‑prensa); • bacias de decantação, conforme apresenta a Tabela 1. A ETE apresenta capacidade para a vazão máxima de 900 m3.h-1. Além disso, segue um regime de operação de 24 horas por dia, distribuídos em três turnos. Processo de neutralização Neste trabalho efetuou‑se um estudo de remoção do manganês e de outros metais pesados da DAM forma- da com os efluentes oriundos do beneficiamento de carvão mineral. O efluente descartado pela usina de beneficiamento contém sedimentos finos e ultrafinos, fração derivada do processo de lavagem do carvão. Entretanto, em um primeiro estágio, a água utilizada nesse processo apresenta pH entre 6,2 e 7,5, o que lhe confere uma condição legalmente aceitável no que diz respeito ao pH. Esse fato deve‑se à presença de mine- Tratamento de efluentes ácidos para a remoção do manganês pelos processos de floculação e flotação por ar dissolvido 539 RBCIAMB | v.55 | n.4 | dez 2020 | 536-551 - ISSN 2176-9478 rais com características alcalinas encontrados nas ca- madas de carvão da região catarinense, tais como finas lentes de carbonato de cálcio. O processo de neutralização do efluente gerado é composto de silo de armazenamento de cal, balança, tanque de preparo, filtro, bombas centrífugas e bom- bas dosadoras equipadas com inversor de frequência. Atualmente, utiliza‑se como substância alcalinizante o hidróxido de cálcio (Ca(OH) 2 ). No tanque de preparo é formada a solução de hi- dróxido de cálcio, a uma concentração, pela adição de óxido de cálcio e de água com auxílio de uma ba- lança digital acoplada ao tanque de preparo. Poste- riormente a solução é bombeada até o tanque de neutralização, que se constitui de caixa de recebi- mento do efluente seguida de três calhas Parshall. Cada uma recebe a solução de hidróxido de cálcio, com vazão de 1,8 m3.h-1, com o auxílio de bombas dosadoras. O consumo de cal para os dados citados acima ficou na média de 180 kg/h. Os objetivos da etapa de neutralização somente serão alcançados quando o pH atingir a faixa de 5 a 9, conforme estabelecido na Resolução CONAMA nº 430/2011. Tal aspecto tem como objetivo re- duzir os teores de manganês dissolvido, tendo em vista que a precipitação do manganês sob a forma de óxido ou hidróxido ocorre em sua maior parte na faixa de pH entre 8,5 e 10, segundo estudos de Ferguson (1991). Processo de floculação Durante muitos anos a empresa utilizou o processo de FAD para o tratamento da DAM (MENEZES et al., 2004). A flotação tem várias vantagens sobre a sedimentação por gravidade, destacando-se: possibilidade de produ- ção de água de melhor qualidade; operação em taxas de aplicação mais altas, resultando em estações de tra- tamento mais compactas; início de operação mais rápi- do; concentração de sólidos no lodo significativamente superior à produzida na sedimentação; e menor tempo de detenção em uma estação de tratamento (MENEZES et al., 2004; OLIVEIRA; OLIVEIRA, 2019). No entanto, atualmente o processo de NFS constitui o principal processo de tratamento de efluentes da em- presa objeto deste estudo, e também da maioria das empresas da região (RUBIO; TESSELE, 2002). O processo inicia‑se com o preparo da solução floculante em tanque constituído de agitador acoplado, com capacidade para 4,2 m3. Inicialmente, pesa‑se a quantidade de 2,5 kg de polímero aniônico em pó para dissolvê‑la em volume de 3,5 m3 de água sob agitação constante, apresentando a concentração de 0,71 g.L-1. Essa concentração pode va- riar de acordo com as condições do efluente. A solução floculante é conduzida por meio de bomba dosadora helicoidal até o tanque de floculação. O con- sumo de floculante para as condições citadas acima corresponde em média a 1,84 kg.h-1. A vazão de alimen- tação de efluente oriundo da etapa de neutralização nos tanques de floculação é na ordem de 250 m3.h-1. Tabela 1 – Descrição das unidades de tratamento da estação de tratamento de efluente (ETE). Descrição Quantidade Tanque de neutralização 2 Tanque de floculação 2 Sedimentador 2 Tanque de adensamento 1 Filtro‑prensa 3 Bacias de decantação 2 Volpato, S.B. et al. 540 RBCIAMB | v.55 | n.4 | dez 2020 | 536-551 - ISSN 2176-9478 O tanque de floculação ou tanque de agitação lenta, como é comumente denominado, é anexado aos decantadores, e sua estrutura apresenta os seguintes componentes: • entrada de alimentação; • agitador; • bomba dosadora helicoidal; • alimentação do decantador. Processo de sedimentação O processo de sedimentação se constitui de três de- cantadores, com capacidade de processamento em cada linha de até 450 m3.h-1. Na empresa, atualmente, apenas dois decantadores realizam o processo de se- dimentação, enquanto o terceiro é utilizado como tan- que de adensamento de lodo. A alimentação dos decantadores inicia‑se logo após a etapa de floculação. Pela ação da gravidade, as partícu- las de maior densidade sedimentam e direcionam-se para o fundo do equipamento. O efluente clarificado sai continuamente como overflow, passando por uma calha Parshall, tendo como destino final a bacia de estabilização. O lodo é extraído do fundo dos decan- tadores 1 e 2 por bombas centrífugas equipadas com inversores de frequência, e direcionado para o tanque de adensamento de lodo. Processo de desidratação do lodo O processo de desidratação do lodo consiste em dire- cionar o material adensado (polpa) do decantador 3 até o filtro‑prensa. Esse processo é composto de filtro- ‑prensa de fabricação chinesa, automatizado, consti- tuído de 74 placas de 2 × 2 m. No local ainda se encontram duas unidades de filtro- ‑prensa de 60 placas de 1 × 1 m, destinadas a desidratar a polpa proveniente da bacia de decantação do proces- so de flotação de partículas finas e ultrafinas prove- nientes do processo das instalações de beneficiamento de carvão. Cada filtro‑prensa tem capacidade para fil- trar 37,5 m3 de lodo por ciclo. O tempo estimado para cada ciclo é de 50 min, compreendendo as etapas de filtração, sopramento e descarregamento das tortas. O lodo desidratado, com mais de 20% de sólidos, é de- positado em um compartimento existente abaixo dos filtros‑prensas, sendo carregado por pá carregadeira em caminhões e transportado continuamente para o depósito de rejeitos. Procedimentos experimentais Os procedimentos experimentais deste trabalho foram realizados em escala de bancada e compreenderam duas etapas principais. A primeira destinou‑se à amos- tragem do efluente bruto (água preta) proveniente do processo final de beneficiamento. Esse efluente, como já mencionado, apresenta partículas finas e ultrafinas de difícil remoção e de altas concentrações de metais pesados, principalmente ferro e manganês. Na sequên- cia, foi realizada a amostragem da água de recirculação utilizada no processo inicial do beneficiamento. Por se tratar de água de recirculação, ela apresenta algumas características semelhantes às da drenagem ácida, con- tendo metais dissolvidos em concentrações elevadas, o que justifica a sua avaliação detalhada para este traba- lho com ênfase no manganês. Por fim, procedeu‑se à caracterização físico‑química dessas soluções líquidas, com a finalidade de identificar a concentração de man- ganês e dos demais metais pesados dissolvidos. A segunda etapa dos procedimentos experimentais consistiu na aplicação dos métodos de tratamento de efluentes de mineração por meio dos processos de NFS e FAD, com a caracterização físico‑química do sobrena- dante clarificado e, posteriormente, a determinação de eficiência de remoção de manganês e dos outros me- tais presentes nas soluções líquidas. Pontos de coleta As amostras foram coletadas entre os meses de abril a maio de 2018. Estabeleceram-se dois pontos de coleta, denominados de pontos A e B, localizados no períme- tro da ETE da indústria carbonífera. Tratamento de efluentes ácidos para a remoção do manganês pelos processos de floculação e flotação por ar dissolvido 541 RBCIAMB | v.55 | n.4 | dez 2020 | 536-551 - ISSN 2176-9478 O primeiro ponto (A) destinou‑se à coleta do efluen- te bruto (água preta). Esse ponto localizou‑se antes da etapa de neutralização, tendo como referência a caixa de visita situada próximo à tubulação que direciona o efluente bruto proveniente da usina de beneficiamen- to até a ETE. O segundo ponto (B) destinou‑se à coleta da água de recirculação. Esse ponto localizou‑se na bacia de cla- rificação. Portanto, a bacia de clarificação recebe con- tribuições das bacias de decantação A e B, assim como todo despejo proveniente do sistema de drenagem su- perficial. A bacia de clarificação tem como finalidade abastecer a usina de beneficiamento para o processa- mento da matéria‑prima, no entanto algumas condi- ções são necessárias para o abastecimento da usina de beneficiamento, entre elas baixa turbidez e ausência de sedimentos grosseiros. Procedimentos de coletas de amostras As coletas de efluentes foram realizadas conforme cri- térios estabelecidos pela Associação Brasileira de Nor- mas Técnicas (ABNT) (NBR 9898/1987), que institui os parâmetros de preservação e técnicas de amostragem de efluentes líquidos e corpos receptores. Diante desses parâmetros, as amostras foram coleta- das manualmente e acondicionadas em recipientes de polietileno com capacidade de 2 L. Após a coleta, os recipientes foram armazenados e mantidos sob refri- geração a 4°C. As amostras que se destinaram à análise físico‑química foram acondicionadas em dois recipientes de 600 mL, contendo uma alíquota 2 mL de ácido nítrico 65%, para conservação. Análises físico-químicas dos efluentes Os ensaios físico‑químicos para análise dos efluentes brutos foram realizados pelo Laboratório de Análises Químicas e Ambientais (LAQUA) da Associação Be- neficente da Indústria Carbonífera de Santa Catari- na (SATC). Os principais parâmetros avaliados e suas metodologias de análise foram: alumínio total (mg.L-1); ferro dissol- vido (mg.L-1) ; ferro total (mg.L-1); manganês dissolvido (mg.L-1) e zinco total (mg.L-1), todos pelo método de es- pectrometria de emissão óptica com plasma (ICP‑OES). Ensaios de bancada Os ensaios de tratamento dos efluentes ácidos foram conduzidos no Laboratório de Química da Universida- de do Extremo Sul Catarinense (UNESC). Para a realiza- ção do ensaio de NFS, utilizou‑se o efluente do ponto (A), ou seja, aquele proveniente do descarte da usina de beneficiamento (água preta). Para o ensaio de FAD, utilizou‑se o efluente do ponto (B), proveniente da ba- cia de clarificação. O objetivo dos ensaios de bancada foi simular o proces- so de tratamento de efluentes atual da indústria car- bonífera em estudo, bem como o processo de flotação por ar dissolvido anteriormente empregado pela mes- ma carbonífera, com o intuito de avaliar qual desses processos apresenta melhor eficiência na remoção de manganês, entretanto todos os ensaios de neutraliza- ção tiveram a elevação de pH acima de 9. Essa é uma recomendação prevista neste estudo, que teve entre os seus objetivos a remoção do manganês na faixa de pH compreendida entre 9 e 10, considerando‑se a so- lubilidade em meio aquoso desse metal. Os ensaios de tratabilidade foram executados utilizan- do‑se, em cada um, o volume de 1 L de efluente bruto, com a finalidade de se obter maior controle sobre os procedimentos sequenciais de tratamento. As soluções de hidróxido de cálcio, floculante e de surfactante fo- ram preparadas no Laboratório de Química da UNESC. Ensaio de neutralização Para a realização dos ensaios de neutralização, pre- parou‑se uma solução hidróxido de cálcio (Ca(OH) 2 ) com a concentração de 11,5%, baseando‑se nas con- figurações de escala industrial. A cal utilizada na ETE apresenta as seguintes características: solubilidade em água; densidade aparente variando de 0,7 a 1 g.cm-3. http://g.cm Volpato, S.B. et al. 542 RBCIAMB | v.55 | n.4 | dez 2020 | 536-551 - ISSN 2176-9478 Os ensaios de neutralização iniciaram‑se com a retirada de uma alíquota de 1 L em uma proveta graduada, pos- teriormente transferida para um béquer de vidro e colo- cada sob agitação utilizando‑se um agitador magnético e sem aquecimento da Fisatom, modelo 752. Em seguida, verificou‑se o pH do efluente bruto com um pHmetro di- gital de bancada da marca Quimis Q-400ª, calibrado com solução tampão de pH 4 e 7. Posteriormente, elevou‑se o pH da solução adicionando‑se solução de hidróxido de cálcio, até atingir a faixa de pH ideal. Ensaio de floculação Os ensaios de floculação consistiram na utilização de po- límero aniônico Flonex 934 SH (SNF Floerger), solúvel em água, com densidade relativa variando de 0,6 a 0,9 g.cm-3. Na etapa de floculação, a dosagem requerida da so- lução de floculante aniônico foi de 2 mL.L-1, confor- me estudos anteriores de Volpato, Menezes e Silva (2017). A concentração da solução floculante prepa- rada no laboratório foi de 0,71%. Para a agitação e ho- mogeneização da solução foi adotado o gradiente de velocidade de 20 s-1, conforme parâmetros de diluição em planta industrial. Ensaio de flotação por ar dissolvido Os ensaios de FAD consistiram no emprego de uma célula de flotação por ar dissolvido em escala bancada, fabrica- da pela empresa Aquaflot. Essa célula é equipada de vaso saturador com capacidade de 3 L, e de válvula de seguran- ça apresentando limite máximo de pressão de 6 kgf.cm-2. A pressão de saturação utilizada no processo foi de 4,2 kgf. cm-2, com tempo de saturação de 30 min. Além dis- so, fixou‑se a taxa de reciclo de 60% com base em estudos anteriores envolvendo FAD, de Menezes e Leal Filho (2004). Para os ensaios, utilizaram‑se as duas dosagens de surfactante oleato de sódio de 50 e 75 mL.L-1. O pri- meiro ensaio, denominado de FAD nº 1, utilizou 75 mL de oleato de sódio. O segundo ensaio, denominado de FAD nº 2, realizou‑se dosando 75 mL de oleato de sódio combinado com 2 mL da solução floculante, e o tercei- ro ensaio, denominado de FAD nº 3, empregou 50 mL de oleato de sódio. O tempo de flotação foi de 8 min para os três ensaios. A Figura 1 ilustra uma célula de flotação por ar dissolvido de escala de bancada. Figura 1 – Célula de flotação por ar dissolvido de bancada. Fonte: Menezes e Leal Filho (2004). http://g.cm http://kgf.cm http://kgf.­cm Tratamento de efluentes ácidos para a remoção do manganês pelos processos de floculação e flotação por ar dissolvido 543 RBCIAMB | v.55 | n.4 | dez 2020 | 536-551 - ISSN 2176-9478 Ao término dos ensaios, uma alíquota da amostra foi coletada e acondicionada em recipiente contendo áci- do nítrico 65%, de maneira a conservá‑la. As amostras foram encaminhadas para o LAQUA. RESULTADOS E DISCUSSÃO Resultados para o ensaio de neutralização O presente estudo obteve resultados que, em sua maior parte, corroboraram e aprofundaram estudos anteriores referentes ao tratamento da DAM (TRINDA- DE; SOARES; RIZZO, 2004; MENEZES et al., 2004), em que se afirma que a maior parte dos métodos de trata- mento de DAM envolve uma etapa inicial de neutraliza- ção, tendo em vista a precipitação dos metais contidos na solução ácida. Dessa forma, alguns fatores são con- siderados essenciais para se obter eficiência positiva na remoção de metais pesados dos efluentes de minera- ção de carvão, entre os quais a escolha adequada do reagente alcalinizante, a determinação da concentra- ção ideal e o conhecimento das faixas de precipitação dos principais hidróxidos metálicos. A precipitação máxima do manganês como óxido ou hi- dróxido (MnO2) ou Mn(OH)2 ocorre apenas nas faixas de pH de 9,5 a 10, pois, embora do pH de 8,6 em diante tenha início a sua precipitação, para faixas de pH menores que 9,5 a eficiência é insatisfatória para a remoção desse íon. Assim, os ensaios de neutralização foram realizados elevando‑se o pH até próximo a 10, com a perspectiva de remover a maior parte do manganês presente no efluente bruto. Como já citado anteriormente, para o processo de NFS foi utilizado o efluente bruto (água preta) proveniente do processo de beneficiamento. Os resultados obtidos ao longo do processo de neutra- lização, tanto em termos de volume utilizado quanto de variação do pH, estão apresentados a seguir, na Tabela 2. Para a etapa de neutralização o consumo da solução neutralizante foi de 5 mL para se obter o pH de 9,95. O resultado encontrado para esse parâmetro corrobo- rou adequadamente as condições observadas na plan- ta em escala industrial. Com base no ensaio de neu- tralização foi possível chegar à curva de neutralização, conforme ilustrado abaixo na Figura 2. Resultados para o ensaio de floculação A Figura 3 ilustra a variação nas características de turbidez e clarificação da solução desde a etapa de neutralização até a etapa de floculação, demonstrando a eficiência na formação de flocos e a precipitação dos óxidos e hidróxidos metálicos. Tabela 2 – Ensaio 1 de neutralização com adição de solução de CaO. pH Ca(OH) 2 (mL) inicial 7,25 - 8,25 1 8,9 2 9,37 3 9,7 4 9,95 5 Volpato, S.B. et al. 544 RBCIAMB | v.55 | n.4 | dez 2020 | 536-551 - ISSN 2176-9478 Figura 2 – Curva de neutralização com utilização de solução de Ca(OH) 2 (11,5%). Figura 3 – Efluente bruto após o ensaio de neutralização e floculação. Tratamento de efluentes ácidos para a remoção do manganês pelos processos de floculação e flotação por ar dissolvido 545 RBCIAMB | v.55 | n.4 | dez 2020 | 536-551 - ISSN 2176-9478 Resultados integrados das análises físico-químicas após neutralização, floculação e sedimentação De acordo com os resultados apresentados na Tabe- la 3, foi possível avaliar a eficiência da remoção dos principais metais dissolvidos. Embora não tenham sido os objetos principais desta investigação, para efeito de análise da eficiência do processo de tratamento da DAM, além do manganês, foram analisadas as concen- trações inicial e final e a eficiência na remoção dos ele- mentos ferro, alumínio e zinco. A eficiência de remoção do ferro foi de 99,79%, sendo este o maior percentual de remoção entres os metais pre- sentes no efluente ácido submetido ao tratamento utili- zado. A eficiência na remoção do manganês correspon- deu a 99,58%. Dessa forma, as análises dos resultados dos ensaios de forma integrada demonstram as baixas con- centrações finais obtidas para esses metais, resultando na sua adequação aos limites de lançamento estabelecidos pela legislação ambiental vigente (BRASIL, 2011). Ensaio de tratamento via flotação por ar dissolvido A seguir são discutidos os resultados dos ensaios de tratamento pela técnica de FAD. Os ensaios foram realizados em triplicata conforme descrito na meto- dologia, com dosagens diferentes. Buscou-se realizar um estudo para avaliar a eficiência utilizando apenas o surfactante, o oleato de sódio, nos ensaios nº 1 e nº 3, e de forma combinada com o uso de um flocu- lante no ensaio nº 2. Para os dois tipos de ensaios, manteve‑se uma etapa comum de neutralização e correção do pH. Ensaio de flotação por ar dissolvido nº 1 O ensaio de FAD nº 1 constituiu‑se de neutralização e cor- reção do pH da amostra, seguidas de adição do surfactan- te oleato de sódio (75 mL), com taxa de reciclo de 60%. Os resultados observados ao longo do processo de neu- tralização, tanto em termos de volume utilizado quanto de variação do pH, são apresentados na Tabela 4. Segundo os estudos de Campaner e Silva (2009, p. 146), “a eficiência da neutralização por reagentes carbonáticos é fortemente influenciada por elevadas concentrações de ferro em solução”. O revestimento das partículas dos reagentes por precipitados de hidró- xidos de Fe pode afetar a taxa de reações químicas que consomem H+ da solução. Nesse sentido, os resultados deste estudo corroboraram esses autores. A Figura 4 apresenta a projeção de uma curva de neutralização conforme os resultados encontrados. Tabela 3 – Caracterização físico-química do efluente bruto e clarificado. Parâmetros Unidade Resolução CONAMA nº 430/2011 Lei nº 14.675/2009 Efluente bruto Efluente clarificado Eficiência de remoção (%) Alumínio total mg.L-1 # ## 118,700 0,170 99,86 Ferro solúvel mg.L-1 15,0 ## 52,650 0,113 99,79 Ferro total mg.L-1 # ## 239,100 0,202 99,92 Manganês solúvel mg.L-1 1,0 1,0 9,307 0,039 99,58 Zinco total mg.L-1 5,0 1,0 1,468 0,010 99,32 pH 5,0 a 9,0 6,0 a 9,0 7,25 9,95 ## CONAMA: Conselho Nacional do Meio Ambiente; #valor máximo permitido (VMP) segundo o Código Estadual do Meio Ambiente de Santa Catarina — Lei nº 14.675, de 13 de abril de 2009 (Padrões Ambientais dos Recursos Hídricos); ##Resolução nº 357, de 17 de março de 2005 do CONAMA (Classe 2 – Águas Doces). Volpato, S.B. et al. 546 RBCIAMB | v.55 | n.4 | dez 2020 | 536-551 - ISSN 2176-9478 Tabela 4 – Etapa de neutralização do ensaio de flotação por ar dissolvido (FAD) nº 1. pH Ca(OH) 2 (mL) inicial 2,73 - 3,35 1 4,5 2 6,25 3 9,14 4 9,83 5 Figura 4 – Curva de neutralização do ensaio de flotação por ar dissolvido (FAD) nº 1. A Tabela 5 apresenta os resultados para o ensaio de FAD nº 1. Nela está ilustrada a caracterização físico‑química dos efluentes bruto e clarificado. Além disso, apresen- ta‑se a eficiência de remoção do manganês e dos de- mais metais pesados dissolvidos. Os resultados da análise do efluente clarificado do en- saio FAD nº 1 demonstraram eficiência satisfatória na remoção dos metais pesados analisados, com foco no manganês, objeto central deste estudo, que demons- trou eficiência de remoção de 97,84%. Ensaio de flotação por ar dissolvido nº 2 O ensaio de FAD nº 2 constitui‑se de neutralização e correção do pH da amostra, seguidas de adição do sur- factante oleato de sódio (75 mL) e da adição floculante aniônico (2 mL), com a taxa de reciclo de 60%. Os re- sultados obtidos na correção de pH são apresentados abaixo, na Tabela 6. A precipitação do manganês não é somente alcançada por meio do aumento de pH, mas sofre influência também de outras variáveis, como temperatura e potencial de oxirre- dução (SHRIVER; ATKINS; LANGFORD, 1998). Esses parâme- tros não fizeram parte do escopo da presente pesquisa, mas poderão ser recomendados como objetos de estudo em futuros trabalhos. A Figura 5 apresenta a projeção de uma curva de neutralização conforme os resultados obtidos. A Tabela 7 apresenta os resultados para o ensaio de FAD nº 2. Nela estão ilustrados os resultados da carac- Tratamento de efluentes ácidos para a remoção do manganês pelos processos de floculação e flotação por ar dissolvido 547 RBCIAMB | v.55 | n.4 | dez 2020 | 536-551 - ISSN 2176-9478 Tabela 6 – Etapa de neutralização do ensaio de flotação por ar dissolvido (FAD) nº 2. pH Ca(OH) 2 (mL) inicial 2,82 - 3,32 1 3,62 2 5,03 3 7,74 4 9,73 5 Parâmetros Unidade Resolução CONAMA nº 430/2011 Lei nº 14.675/2009 Efluente bruto Efluente clarificado Eficiência de remoção (%) Alumínio total mg.L-1 # ## 16,240 0,625 96,15 Ferro solúvel mg.L-1 15,0 ## 17,240 0,718 95,84 Ferro total mg.L-1 # ## 145,000 0,782 99,46 Manganês solúvel mg.L-1 1,0 1,0 16,620 0,359 97,84 Zinco total mg.L-1 5,0 1,0 0,950 0,010 97,79 pH 5,0 a 9,0 6,0 a 9,0 2,73 9,83 ## Tabela 5 – Caracterização físico-química do efluente clarificado: flotação por ar dissolvido (FAD) nº1. CONAMA: Conselho Nacional do Meio Ambiente; #valor máximo permitido (VMP) segundo o Código Estadual do Meio Ambiente de Santa Catarina — Lei nº 14.675, de 13 de abril de 2009 (Padrões Ambientais dos Recursos Hídricos); ##Resolução nº 357, de 17 de março de 2005 do CONAMA (Classe 2 — Águas Doces). Figura 5 – Curva de neutralização do ensaio de flotação por ar dissolvido (FAD) nº 2. Volpato, S.B. et al. 548 RBCIAMB | v.55 | n.4 | dez 2020 | 536-551 - ISSN 2176-9478 Parâmetros Unidade Resolução CONAMA nº 430/2011 Lei nº 14.675/2009 Efluente bruto Efluente clarificado Eficiência de remoção (%) Alumínio total mg. L-1 # ## 16,240 0,591 96,36 Ferro solúvel mg. L-1 15,0 ## 17,240 0,139 99,19 Ferro total mg. L-1 # ## 145,000 0,157 99,89 Manganês solúvel mg. L-1 1,0 1,0 16,620 0,675 95,94 Zinco total mg. L-1 5,0 1,0 0,950 0,039 95,89 pH 5,0 a 9,0 6,0 a 9,0 2,73 9,73 ## Tabela 7 – Caracterização físico-química do efluente clarificado (FAD nº 2). CONAMA: Conselho Nacional do Meio Ambiente; #valor máximo permitido (VMP) segundo o Código Estadual do Meio Ambiente de Santa Catarina — Lei nº 14.675, de 13 de abril de 2009 (Padrões Ambientais dos Recursos Hídricos); ##Resolução nº 357, de 17 de março de 2005 do CONAMA (Classe 2 — Águas Doces). Tabela 8 – Etapa de neutralização do ensaio de flotação por ar dissolvido (FAD) nº 3. pH Ca(OH) 2 (mL) inicial 2,98 - 3,37 1 4,7 2 6,4 3 9,4 4 terização química e físico‑química do efluente bruto e clarificado. Além disso, apresenta‑se a eficiência de remoção do manganês e dos demais metais presentes. Os resultados da análise do efluente clarificado do en- saio FAD nº 2 demonstraram eficiência na remoção do todos os metais analisados, com enfoque ao manga- nês, com remoção de 95,94%. Essa eficiência apresen- tou‑se satisfatória, além de adequar a concentração desse metal, o manganês, aos limites de legislação am- biental vigente (BRASIL, 2011). Ensaio de FAD nº 3 Por último, o ensaio denominado de FAD nº 3 consti- tuiu‑se das etapas de neutralização e correção do pH da amostra, seguidas de adição do surfactante oleato de sódio (50 mL), com taxa de reciclo de 60%. Os re- sultados observados na correção de pH são descritos na Tabela 8. A curva de neutralização, elaborada conforme se apre- sente abaixo na Figura 6, ilustra a variação do pH com relação à adição de Ca(OH) 2 . A Tabela 9 apresenta os resultados para o ensaio de FAD nº 3. Nela estão demonstrados os resultados da caracterização química e físico‑química dos efluentes bruto e clarificado. Os resultados da análise do efluente clarificado do en- saio FAD nº 3 mostraram‑se eficientes na remoção dos metais alumínio, ferro, manganês e zinco, com desta- que ao manganês, para o qual a eficiência de remoção correspondeu a 97,59%. Diante disso, pode‑se concluir também para esse ensaio que a eficiência na remoção de manganês se apresentou satisfatória, além de en- quadrar esse elemento nos limites de concentração para o lançamento de efluentes preconizados pela le- gislação ambiental em vigor (BRASIL, 2011). Tratamento de efluentes ácidos para a remoção do manganês pelos processos de floculação e flotação por ar dissolvido 549 RBCIAMB | v.55 | n.4 | dez 2020 | 536-551 - ISSN 2176-9478 Figura 6 – Curva de neutralização do ensaio de flotação por ar dissolvido (FAD) nº 3. Tabela 9 – Caracterização físico-química do efluente clarificado: flotação por ar dissolvido (FAD) nº 3. Parâmetros Unidade Resolução CONAMA nº 430/2011 Lei nº 14.675/2009 Efluente bruto Efluente clarificado Eficiência de remoção (%) Alumínio total mg. L-1 # # 16,24 0,569 96,50 Ferro solúvel mg. L-1 15,0 # 17,24 0,559 96,76 Ferro total mg. L-1 # # 145 0,615 99,58 Manganês solúvel mg. L-1 1,0 1,0 16,62 0,401 97,59 Zinco total mg. L-1 5,0 1,0 0,95 0,025 97,37 pH 5,0 a 9,0 6,0 a 9,0 2,98 9,83 CONAMA: Conselho Nacional do Meio Ambiente; #valor máximo permitido (VMP) segundo o Código Estadual do Meio Ambiente de Santa Catarina — Lei nº 14.675, de 13 de abril de 2009 (Padrões Ambientais dos Recursos Hídricos); ##Resolução nº 357, de 17 de março de 2005 do CONAMA (Classe 2 — Águas Doces). CONCLUSÃO Com base nos resultados experimentais obtidos no âmbito deste trabalho foi possível concluir que tanto a DAM quanto a água de processo, denominada local- mente na indústria carbonífera de água preta e oriun- da da etapa de beneficiamento, apresentam diferen- ças significativas em termos de valores de pH e altas concentrações de metais pesados, muitas delas acima dos limites permitidos pela legislação ambiental vigen- te, tais como as de ferro, zinco e manganês. Enquanto a DAM apresenta valores de pH compreendidos entre 2,7 e 3, a água proveniente do processo de beneficia- mento apresenta valores de pH entre 6 e 7,5. O ensaio por meio das etapas de NFS apresentou efi- ciência de 99,6% na remoção do manganês dissolvido nas amostras de efluente bruto e 99,8% na remoção do ferro, entretanto a obtenção dessa eficiência associada ao tratamento físico‑químico somente foi possível com a elevação de pH para acima de 9. Assim, esse parâme- tro deverá ser objeto de pesquisas futuras, visando à sua adequação de forma integral à legislação ambien- tal. Resta a necessidade da adequação do manganês a valores de pH abaixo de 9. No entanto, com relação aos demais parâmetros, os ensaios de NFS corroboraram os dados obtidos por Volpato, Menezes e Silva (2017), Volpato, S.B. et al. 550 RBCIAMB | v.55 | n.4 | dez 2020 | 536-551 - ISSN 2176-9478 com semelhante eficiência na remoção dos íons metais ferro e manganês. Para os ensaios em triplicata por meio da FAD, a efi- ciência de remoção de manganês apresentou algumas variações. Para o ensaio nº 1, a eficiência de remoção foi de 97,84%, com o pH compreendido na faixa de 9,83. No ensaio de nº 2, obteve‑se menor eficiência na remoção de manganês, na faixa de 95,94%, mesmo associado com o floculante. Para o ensaio de nº 3, a eficiência na remoção do manganês correspondeu ao valor médio de 97,59%. Nesse ensaio o pH foi elevado até 9,4 e foram usados 50 mL de oleato de sódio. Para tais ensaios fixou‑se a taxa de reciclo de 60%. Apesar de algumas variações na remoção de manganês nas amostras de efluentes, todos os ensaios se enqua- draram nos limites estabelecidos pela legislação am- biental. Isso comprova que o processo de tratamento de efluente comumente utilizado na carbonífera em estudo apresenta eficiência para a remoção dos metais pesados analisados, sobretudo ferro, zinco e manganês. Sobre a aplicação do processo de FAD, pode‑se concluir que ele se apresenta como alternativa concreta, corro- borando trabalhos anteriores (MENEZES et al., 2004). Embora pouco utilizado nas carboníferas da região atualmente, apresenta eficiência tanto técnica como ambiental, e todos os parâmetros analisados foram contemplados pela legislação vigente, o que justifica uma possível reintrodução futura nos sistemas de tra- tamento da DAM na região. Ressalta‑se que essa técnica se mostrou promissora e é possível que seja uma boa alternativa à recirculação de água no próprio sistema e ao lançamento em curso de água, entretanto estudos mais aprofundados devem ser conduzidos, principalmente no que diz respeito à segurança sanitária da água. Com os resultados alcançados, vale salientar que tra- tamentos da DAM apenas com aplicação da etapa de neutralização não são suficientes para a remoção total dos metais tóxicos presentes nesse tipo de efluente, por duas razões principais: uma, a ampla faixa de varia- ção de solubilidade e precipitação dos metais, por cau- sa da formação de óxidos e hidróxidos metálicos sob forma de partículas e agregados coloidais, que consti- tuem um lodo de difícil remoção. Além desse aspecto, os custos de separação do lodo gerado pelos óxidos e hidróxidos metálicos, via de regra, são muito elevados nos processos convencionais de separação solido‑líqui- do, tais como filtros‑prensas, necessitando de trata- mentos posteriores químicos e/ou físico‑químicos para uma eficiência maior da sua remoção do meio aquoso. Como sugestão para trabalhos futuros em continuida- de a este, sugere‑se, para o tratamento de efluentes ácidos de mina, a inclusão de ensaios ecotoxicológicos, visando à segurança sanitária da água. Recomendam- ‑se, ainda, estudos visando à remoção de partículas finas e ultrafinas presentes nos efluentes oriundos do beneficiamento de carvão mineral. AGRADECIMENTO Apresentamos os agradecimentos à empresa carbonífe- ra e aos profissionais envolvidos no desenvolvimento da pesquisa, bem como à UNESC, onde foram desenvolvi- dos os ensaios de tratamento em escala de laboratório, e ao Programa de Suporte à Pós‑Graduação de Institui- ções Comunitárias de Ensino Superior da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (PRO- SUC/CAPES), a bolsa de uma das autoras REFERÊNCIAS ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 9898: Preservação e técnicas de amostragem de afluente líquidos e corpos receptores – Procedimento. Rio de Janeiro: ABNT, 1987. CAMPANER, V.P.; SILVA, W.L. 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