RBCIAMB | n.45 | set 2017 | 48-60 48 Ressiliane Ribeiro Prata-Alonso Doutora em Ciências Biológicas (Botânica) pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). Professora e Coordenadora do Curso de Graduação em Engenharia Agronômica da Faculdade Araguaia. Vice-Coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Educação Rural no Brasil (NEPERBR/UEG) – Morrinhos (GO), Brasil. Flávio Reis dos Santos Doutor em Educação pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Professor do Programa de Pós-Graduação em Ambiente e Sociedade da Universidade Estadual de Goiás (UEG). Pesquisador do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Educação do Campo (GEPEC/HISTEBR/UFSCar). Coordenador do NEPERBR/UEG – Morrinhos (GO), Brasil. Endereço para correspondência: Ressiliane Ribeiro Prata-Alonso – Avenida T-10, 1047, Setor Bueno – 74223-060 – Goiânia (GO), Brasil – E-mail: ressiliane@yahoo.com.br Recebido: 15/06/2016 Aceito: 06/07/2017 RESUMO Os objetivos deste trabalho foram identificar o perfil do produtor rural do Assentamento Tijuqueiro (AT) e caracterizar suas concepções sobre o que o Cerrado “era” e as transformações ocorridas de flora e fauna até os dias atuais em Morrinhos, Goiás. Entrevistas não diretivas com moradores do referido assentamento, a partir da delimitação da amostra intencional não probabilística realizadas com dez famílias, mostraram que as atividades agropecuárias empreendidas há décadas em Morrinhos contribuem para a diminuição da biodiversidade, com relatos de espécies de plantas e animais não mais visualizadas em decorrência do desmatamento do Cerrado local. Os moradores do AT expressam grande preocupação com a preservação do pouco que restou da vegetação original em Morrinhos e reiteram que é preciso empreender ações imediatas para reverter a deplorável situação desse bioma na região e evitar a expansão da destruição da biodiversidade com a destinação de áreas de reserva florestal em suas propriedades. Palavras-chave: produtor rural; conservação; agronegócio; ambiente. ABSTRACT The objectives of this study were to identify the profile of the rural producers of the Tijuqueiro Settlement (TS) and to characterize their conceptions of what the Cerrado “was” and the changes of flora and fauna to the present day in Morrinhos, Goiás, Brazil. Non-directive interviews with residents of the settlement, from the delimitation of the non-probabilistic intentional sample carried out with ten families, showed that the agricultural activities undertaken for decades in Morrinhos contribute to the reduction of biodiversity, with reports of plants and animals species no longer visualized as a result of deforestation of the local Cerrado. The residents of the ST express great concern about the preservation of the little that remains of the original vegetation in Morrinhos and reiterate that immediate actions must be taken to reverse the deplorable situation of this biome in the region and to avoid the expansion of the destruction of biodiversity with the destination of areas of forest reserves on their properties. Keywords: rural producers; conservation; agribusiness; environment. DOI: 10.5327/Z2176-947820170162 AS TRANSFORMAÇÕES DO CERRADO EM MORRINHOS (GO): UMA HISTÓRIA NARRADA PELO ASSENTAMENTO TIJUQUEIRO THE TRANSFORMATIONS OF CERRADO IN MORRINHOS (GO): A STORY NARRATED BY THE TIJUQUEIRO SETTLEMENT mailto:ressiliane@yahoo.com.br As transformações do Cerrado em Morrinhos (GO) RBCIAMB | n.45 | set 2017 | 48-60 49 INTRODUÇÃO O município de Morrinhos, localizado na região sul do estado de Goiás, destaca-se por impulsionar a economia da região ao concentrar a maior parte de suas atividades produtivas em áreas rurais. Possui uma população estimada de 44.607 habitantes, dis- tribuída em uma área territorial de 2.846,199 km2, conforme informações do Instituto Brasileiro de Geo- grafia e Estatística (IBGE, 2015). Mais da metade da produção do município (53%) advém do setor agro- pecuário, no qual se verifica a predominância de as- sociações no uso da terra, destaque para a cultura de soja, milho, arroz, feijão, tomate, mandioca etc. A pe- cuária apresenta um rebanho de bovinos em torno 250 mil cabeças, tanto destinadas ao corte (carne), quanto à produção leiteira, que ultrapassa a barreira de 60 milhões de litros por ano. Morrinhos é um dos maiores responsáveis pelo abas- tecimento de produtos lácteos no estado de Goiás, por meio das atividades produtivas realizadas pela Coopera- tiva Mista dos Produtores de Leite de Morrinhos (COM- PLEM) e de produtos agrícolas cultivados pela Coope- rativa dos Agricultores Familiares do Assentamento Tijuqueiro (COOPERFAT), havendo o predomínio das cul- turas irrigadas de soja, feijão, tomate industrial e milho em áreas que, em passado recente, caracterizavam-se pelo predomínio pleno de vegetação do Cerrado. A substituição da vegetação natural tem provocado, ob- viamente, a diminuição da biodiversidade e dos recur- sos hídricos no município. A situação de devastação do Cerrado causa grande preocupação, e apontamentos efetuados por Carlos Klink e Ricardo Machado (2005) demonstraram que existe correlação entre a perda da diversidade e o endemismo, associados à intensifica- ção dos impactos antrópicos desde a segunda metade do século XX, sobretudo, devido à expansão das ativi- dades agrícolas e pecuárias, que causaram a drástica redução da cobertura vegetal original do Cerrado. O nível de antropização e degradação da riqueza de espécies e endemismos da região foi o critério prin- cipal para inclusão do Cerrado como um dos hotspots mundiais para a conservação da biodiversidade global (MYERS et al., 2000; MITTERMEIER et al., 2004). Deve- se, ainda, considerar que o mesmo é a segunda maior província fitogeográfica do Brasil (RIBEIRO & WALTER, 1998), abrangendo as nascentes de importantes rios brasileiros das três maiores bacias hidrográficas da América do Sul: Tocantins-Araguaia, Paraná-Prata e São Francisco (FELFILI & SILVA JUNIOR, 2005). O impacto na diminuição da cobertura vegetal e a de- gradação de recursos hídricos nas fronteiras agrícolas brasileiras são alvos de discussões na sociedade, que geralmente culminam com consequentes efeitos nega- tivos da apropriação do espaço físico — antes ocupado por recursos nativos — e da intensificação do uso do solo, caracterizados pela emissão de poluentes na at- mosfera, assoreamento dos rios, aparecimento de ero- sões, extinção de algumas espécies da fauna e da flora e destruição de ecossistemas frágeis (ROCHA, 2011). A ocupação da agropecuária iniciou-se de forma inten- siva no sul e no sudeste do Brasil. Entretanto, com o esgotamento de terras disponíveis nessas regiões, o direcionamento da produção para áreas de Cerrado no centro-oeste brasileiro tornou-se estratégico pela sua posição geográfica e por suas características físi- co-ambientais, que propiciavam a expansão da produ- ção agropecuária nos padrões da agricultura moderna, baseada no padrão tecnológico da “Revolução Verde”, que incorporou a mecanização, o melhoramento gené- tico de sementes e a aplicação de agrotóxicos e fertili- zantes químicos (PIRES, 2000; SILVA, 2000; OLIVEIRA & DUARTE, 2004; BRANDÃO et al., 2006; DELLA GIUSTINA & FRANCO, 2014). A cidade de Morrinhos se projetou em um cenário dinâmico do agronegócio no território goiano, des- tacando-se no segmento nacional e internacional da agricultura (SANTOS, 2015). Considerando que o pro- dutor rural nesse município vivencia, experimenta e está exposto às transformações do processo de desen- volvimento capitalista e agrário, chegamos ao seguinte questionamento: qual a percepção que os produtores rurais do Assentamento Tijuqueiro (AT), no municí- pio de Morrinhos, têm sobre a expansão da produção agropecuária e, consequentemente, sobre a diminui- ção da cobertura vegetal em áreas de Cerrado no sul do estado de Goiás? Sobre essa indagação, os objetivos deste trabalho foram identificar o perfil do produtor rural morador do AT em Morrinhos, Goiás, e caracte- rizar as suas concepções sobre o que o Cerrado “era” e as transformações ocorridas de flora e fauna até os dias atuais no município. Prata-Alonso, R.R.; Santos, F.R. RBCIAMB | n.45 | set 2017 | 48-60 50 MATERIAL E MÉTODOS A presente pesquisa foi empreendida a partir da de- limitação da amostra não probabilística intencional (RICHARDSON, 2008). A escolha/definição dos sujeitos participantes do estudo obedeceu aos seguintes crité- rios/parâmetros: • ser um produtor rural proprietário de terras e/ou residente no AT, no município de Morrinhos; • ter idade igual ou superior a 40 anos. Esclarecemos que o estabelecimento de tais critérios se deveu à necessidade de selecionar sujeito(s) com vivên- cia suficiente para ter podido observar as modificações que vêm ocorrendo no Cerrado há pelo menos 20 anos. As primeiras informações sobre os possíveis participan- tes da pesquisa foram obtidas na Empresa de Assistên- cia Técnica e Extensão Rural do Estado de Goiás (EMA- TER/GO), que apontou a presidência do AT como fonte inicial de informações (dados) para que pudéssemos empreender a pesquisa. Presidência, aliás, que pronta- mente contribuiu para o nosso propósito primeiro, na medida em que especificou os sujeitos que se encaixa- vam no perfil por nós definido. A presidência do AT realizou os primeiros contatos, apresentou os nossos propósitos, agendou as primeiras entrevistas e nos apresentou, pessoalmente, aos par- ticipantes do estudo. Tal mediação foi de extrema im- portância para a efetiva realização da pesquisa, pois a apresentação formalizada pela presidência do assenta- mento junto aos assentados/proprietários estabeleceu uma relação de transparência e de confiança entre es- ses produtores rurais e os pesquisadores, expressa pela intensidade das informações fornecidas (colhidas). A maior parte das entrevistas foi realizada nas residên- cias dos sujeitos participantes do estudo. Seguindo as especificações de Roberto Richardson (2008), as coletas de dados foram efetuadas por meio de entrevistas não diretivas, que permitiram aos entrevistados expressar as suas opiniões e informações da maneira que melhor lhes conviesse; e o entrevistador, por sua vez, desempe- nhou apenas funções de orientação e estimulação. Para empreender a análise quantitativa, coletamos in- formações pessoais dos entrevistados, como ano de nascimento, tempo de residência no AT, que atividades agropecuárias desempenham e demais informações que pudessem ser manifestamente importantes para a execução da pesquisa. Durante os encontros — realização das entrevistas — fizemos uso de gravador de voz e de máquina fotográ- fica, de acordo com prévia autorização do informante, expressa por meio de assinatura do termo de consen- timento livre e esclarecido (TCLE). As informações ob- tidas foram analisadas quantitativamente, mediante a consideração de frequência absoluta e relativa, produ- zidas no programa Microsoft Office Excel® 2013. RESULTADOS E DISCUSSÃO O Assentamento Tijuqueiro Atualmente existem três assentamentos rurais no muni- cípio de Morrinhos: Assentamento Tijuqueiro I (ATI), As- sentamento Tijuqueiro II (ATII) e Assentamento São Do- mingos dos Olhos D’Água (ASD). As áreas de instalação dos dois primeiros assentamentos eram de propriedade do Governo Federal, mais especificamente, do Ministé- rio da Agricultura (1974-1978). A primeira ocupação das referidas áreas ocorreu em 1986, dando origem ao atual ATI, e constitui, de fato, a primeira etapa de formação do AT, com 20 famílias. Propriedade do Governo Federal, a área ocupada somente poderia ser retomada por meio da ação da Polícia Federal, o que não aconteceu à época. Mais tarde, o Governo Federal, por meio do Ministério da Agricultura, firmou contrato de cessão de parte da área com o Governo do Estado de Goiás, por um período de dez anos, mais especificamente, à Empresa Goiana de Pesquisa Agropecuária (EMGOPA). A empresa desen- volvia atividades de seleção de sementes e possuía di- versos pivôs centrais na produção de arroz, soja e milho. Entretanto, a EMGOPA acabou por encerrar suas ativi- dades em 1998, sendo absorvida pela Empresa de Assis- tência Técnica e Extensão Rural de Goiás (EMATER/GO). Vários funcionários, contratados desde a época das pesquisas iniciais empreendidas pela EMGOPA na re- As transformações do Cerrado em Morrinhos (GO) RBCIAMB | n.45 | set 2017 | 48-60 51 gião, foram demitidos de seus cargos, sem observância e respeito pleno aos direitos trabalhistas. Alguns traba- lhadores buscaram a garantia dos seus direitos na jus- tiça. Outro pequeno grupo, formado por apenas cinco ex-funcionários da EMGOPA, completamente insatis- feitos com a situação em que se encontravam, reuniu- se, somou forças e decidiu “invadir” a área: Aí foi ondi mandaram todo mundo embora e não queriam acertar e foi onde eu e minha mãe entrô no consenso de reuni o pessoal. [...] já que eles num qué acertar então vamu pegá a terra. Já abriu falência a empresa não dá conta de tocá, nóis fica com a terra. (J., 38 anos) Para que possamos entender com maior facilidade por que trabalhadores decidem fazer parte de ocupações de terra, precisamos considerar que todos estão em busca de assegurar os seus direitos constitucionais e, nesse caso, também trabalhistas, na perspectiva de um futuro melhor, que pode concretizar-se a partir da de- flagração de um processo de ocupação da terra (OLI- VEIRA, 2007). A ocupação durou cerca de oito meses, período no qual várias pessoas permaneceram na área da EMGO- PA, levantaram acampamento, alojaram-se em tendas e barracas, pressionando o poder público a encami- nhar uma solução para os seus problemas. Em meio ao processo de ocupação, o período de cessão das terras ao Governo do Estado de Goiás havia chegado a termo e a área retornou às mãos do Ministério da Agricultu- ra, sendo em seguida transferida ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) — autarquia subordinada ao atual Ministério do Desenvolvimento Agrário —, que realizou o processo de reforma agrária, dando vida ao AT e estendendo o benefício da proprie- dade da terra (lote) a outros trabalhadores que não so- mente os ex-funcionários da EMGOPA. Eu já tinha uns tantos anos eu já nasci aqui dento e o INCRA falou, não, cê tem direito a uma chácara tamém, nóis era em 6 pessoas que tinha direito de pegá o chão. (J. G., 55 anos) O início da ocupação aconteceu em 1998, mas a libe- ração legal das terras para os futuros moradores tran- sitou pela burocracia administrativa do aparelho do Estado por dois anos e, finalmente, em 2000, os no- vos proprietários iniciaram as construções de suas ca- sas de alvenaria na área e pagaram para que as terras fossem dividas por igual. A divisão da área beneficiou 15 famílias, que receberam lotes de terras com áreas de 3,5 alqueires e outros de 3,75 alqueires. O aumento na metragem se deveu à ausência de água (rios, ribei- rões, lagos, lagoas etc.) em alguns lotes, ou seja, uma pequena compensação em relação àqueles que conta- vam com tal recurso natural à sua disposição. Essa se- gunda etapa deu origem ao ATII. O terceiro assentamento, denominado São Domin- gos dos Olhos d’Água, está localizado na zona rural de Morrinhos, ocupa a sua porção sudoeste e faz fron- teira com o município de Goiatuba. O ASD remete as suas origens à montagem e fixação de um acampa- mento, que contou com a participação de 85 famílias de trabalhadores rurais no processo de ocupação da antiga Fazenda São Domingos dos Olhos D’Água. Esses trabalhadores empreenderam luta pela posse da ter- ra por sete longos anos, e finalmente a conquistaram em reforma agrária pelo Decreto da Presidência da República do Brasil, publicado aos nove dias do mês de outubro de 1997, legalizando a propriedade dos 85 lotes constituintes do assentamento (SILVA & SAN- TOS, 2015). Esclarecemos que a nossa preocupação em apontar a existência do ASD é relevante pois, além de estar contido em território morrinhense, é um dos maiores assentamentos da região. Porém, não compõe o nos- so objeto de estudo; as nossas investigações foram concentradas no AT. Aliás, os contatos, as conversas informais e as entrevistas formais em si apontam a edi- ficação de relações orientadas por conceitos de organi- zação, participação e cooperação entre os assentados, que se expressam por meio da associação dos proprie- tários (moradores) do AT. Caracterização dos entrevistados No processo de desenvolvimento da pesquisa, rea- lizamos entrevistas com dez famílias, sendo que quatro entrevistas contaram com a participação do homem e da mulher (casal) proprietários do lote. Destacamos aqui o papel desempenhado pela mu- lher no AT, pois, além de suas responsabilidades do- mésticas (cuidados com os filhos, com a casa) e com as atividades de produção no campo, ela também se encarrega da comunicação, articulação e liderança no interior da família. Prata-Alonso, R.R.; Santos, F.R. RBCIAMB | n.45 | set 2017 | 48-60 52 O trabalho da mulher no assentamento não se restrin- ge aos afazeres do lar. Tal percepção se evidencia nas relações entre marido e mulher, pois sempre que as conversas eram iniciadas, o homem da casa se dirigia à esposa expressando o seu respeito, especialmente quando o assunto se concentrava na organização e no direcionamento das atividades laborais da família. Ao abordar as questões do Cerrado, por exemplo, a mulher deixava o espaço para que o companheiro efe- tuasse os seus apontamentos e concepções, visto que entendia ser o homem — por seu maior contato e trato direto com a terra — o maior conhecedor do ambiente natural da região. No desenvolvimento das entrevistas com as outras seis famílias, observamos em algumas ocasiões a presen- ça de um parente e/ou pessoa mais “chegada” (íntima da família), mas em momento algum houve qualquer interferência no desenrolar da conversa. Enfim, entre- vistamos 12 moradores do AT, sendo 4 mulheres (34%) e 8 homens (66%). A idade variou bastante, entre 38 e 68 anos para as mulheres e entre 39 e 74 anos para os homens — 33,3% dos sujeitos participantes do sexo masculino possuem idades que variam entre 51 e 70 anos (Tabela 1). Do número total de entrevistados, a metade (50%) é natural de Morrinhos. Dentre os sujeitos envolvidos diretamente na pesquisa, 41% nasceram em cidades goianas como Buriti Alegre, Uruanã, Fazenda do Nor- te e Aloândia. Apenas 1 assentado (0,9% dos entrevis- tados) não é natural do estado de Goiás, e nasceu no município de Picos, no estado do Piauí. De acordo com as informações prestadas pelos entrevistados, em mé- dia eles vivem há 22,3 anos no AT. Salientamos que so- mente 3 assentados residem há menos de 20 anos na região, sendo moradores da segunda etapa do AT, que foi mais recente (1998 — ATII). A principal atividade produtiva do AT está concentrada na pecuária, mais especificamente na produção lei- teira, sendo vinculada à Cooperativa dos Agricultores Familiares do Assentamento Tijuqueiro (COOPERFAT) e à empresa Goiasminas Indústria de Laticínios Ltda. (ITALAC®). Os assentados entrevistados produzem e repassam à ITALAC®, diariamente, entre 150 e 300 li- tros de leite. Alguns, entretanto, chegam a produzir 500 litros/dia. Os trabalhadores rurais do AT também dedicam parte de suas atividades à agricultura, pro- duzindo culturas como milho para silagem, mandioca, abóbora e verduras. Em pesquisa realizada na bacia do Tijuqueiro, publica- da em 2011, Aderbal Rocha apontou que a produção de mais de 70 milhões de litros de leite por ano (na- quele momento) colocou o município de Morrinhos na posição de segundo maior produtor leiteiro do estado. O pesquisador destaca, ainda, a importância do reba- nho bovino destinado ao corte e à seleção de reprodu- tores para a economia do município. As modificações no Cerrado A primeira grande evidência observada se remete à ho- mogeneidade na linguagem expressa pelos assentados entrevistados, sendo marcante a forma como expõem os seus conhecimentos sobre as plantas e os animais característicos do Cerrado; há significativa concordân- cia das informações fornecidas que o Cerrado na região foi modificado pela diminuição da biodiversidade local. O argumento principal, como resposta às modificações Tabela 1 – Faixa etária e gênero dos sujeitos participantes da pesquisa. Faixa etária Feminino Masculino Frequência absoluta Frequência relativa (%) 30 – 40 1 1 2 16,6 41 – 50 0 1 1 8,4 51 – 60 2 2 4 33,3 61 – 70 1 3 4 33,3 71 – 80 0 1 1 8,4 Total 4 8 12 100 As transformações do Cerrado em Morrinhos (GO) RBCIAMB | n.45 | set 2017 | 48-60 53 ocorridas, é de que o desmatamento, a devastação do Cerrado, vem ocorrendo há mais de 30 anos, ou seja, quando chegaram à região, a destruição da vegetação natural era realizada em marcha plena. As experiências e atividades produtivas agrícolas em- preendidas pela EMGOPA e, mesmo anteriormente, pelo Ministério da Agricultura, já tinham devastado o que havia de Cerrado na área, sobretudo pela utiliza- ção de pivôs centrais. Outros apontam, ainda, que a construção de uma rodovia estadual também contri- buiu para a destruição da vegetação natural na região. Estima-se que o desmatamento para a realização das obras da rodovia tenha atingido entre dois e três hec- tares de mata nativa. Outras ocorrências se impõem ao Cerrado de um modo geral, como as grandes transformações provocas por queimadas, seca e intervenções antrópicas como pas- tagem, agricultura, remoção de árvores para carvão etc. (REZENDE et al., 2005). As nossas preocupações concentram-se nas nefastas consequências produzi- das por tais ocorrências, pois impactam diretamente o dinamismo do Cerrado. Ao que a experiência indica, parece não haver possibilidades concretas para a sus- tentabilidade dessas áreas manejadas, que fragilizam intensivamente o bioma Cerrado e reduzem significati- vamente a sua biodiversidade. Diante das informações coletadas, podemos inferir que a maior parte das áreas desmatadas, talvez a sua totalidade, abrigava espécies de plantas e animais não conhecidas pela maioria da população local e, portanto, não foram identificadas (catalogadas) cien- tificamente. Nesse contexto, são inegáveis as conse- quências danosas que o desmatamento causa: dano biológico irreversível, irreparável, na medida em que possíveis espécies promissoras para o tratamento e/ou cura de doenças que acometem o homem po- deriam ter sido identificadas e aplicadas para tal fim, por exemplo. Alguns entrevistados, moradores de uma região de baixada do AT, relataram que o acesso a algumas áreas remanescentes de matas nativas era bastante difícil no passado. Argumentaram ainda que, desde a ocupação da área do AT até os dias atuais, a devastação foi mí- nima se comparada à situação em que a região se en- contrava à época que era explorada pela EMGOPA; o estrago já havia sido feito. Embora haja um discurso similar entre os sujeitos par- ticipantes da pesquisa sobre o desmatamento anterior à ocupação, todos demonstraram grande preocupação com a necessidade de preservação do Cerrado. Cons- tatamos em momentos diversos a preocupação dos assentados com a importância de se destinar uma área de cada propriedade à reserva florestal; o que expres- sa, por si só, a consciência ambiental desses trabalha- dores rurais. Portanto, torna-se evidente a existência de uma con- cepção que considera a correlação entre a necessida- de e a importância da existência de reserva em cada propriedade e transforma em tarefa cotidiana os cuida- dos com os remanescentes florestais. De acordo com David Pimentel et al. (1992), os fragmentos florestais remanescentes em áreas alteradas podem servir como áreas tampões diante da variação microclimática (visto que ajudam a reduzir a perda de água e a ocorrência de erosões) e aumentar a biodiversidade nas áreas de plantações e/ou pastagens. O entrevistado X. (68 anos) relata que há 40 anos toda a área correspondente ao AT era mata e, à medida que a produção agrícola se expandiu, provocou consequen- temente o aumento do desmatamento. Prossegue o nosso entrevistado X. com os seus apontamentos, afir- mando que na época da formação do ATII (1998-2000), a área ocupada era parte constituinte da reserva do Ministério da Agricultura. Os espaços no interior dos assentamentos que pos- suíam áreas verdes, na realidade, constituíam as áreas de cultivo agrícola desenvolvidas pelos assen- tados, com vistas, inclusive, a garantir sombra para o gado leiteiro e, também, como reserva legal. Após a ocupação, formação e legalização dos assentamen- tos ATI e ATII, da área total de 70 alqueires, resta- ram apenas 9 ou 10 alqueires de vegetação nativa do Cerrado. Aproximadamente 86% da área original foi transfor- mada em pastagens, ou destinada à produção agrícola, acirrando a discussão sobre a destruição do Cerrado. Vejamos os seguintes fragmentos: Diminuiu bastante, e vem diminuindo, a flora vem di- minuindo cada dia, né? Cada dia o homem é o animal mais terrível que tem, né? Vai diminuindo mesmo. O que Deus gasta 30 anos o homem dirruba em 2, 3 dias. (A. L., 39 anos) Prata-Alonso, R.R.; Santos, F.R. RBCIAMB | n.45 | set 2017 | 48-60 54 Obrigação de cada posseiro é plantá 100 árvore todo ano e aí 15 a 20 ano teria uma reserva, não a que tinha antes, 12 alqueires. Uns 10 a 15 ano. (J. G., 55 anos) Outro problema apontado se remete ao pisoteio do gado em áreas com nascentes d’água, o que provoca o soterramento e desaparecimento das mesmas, re- duzindo a disponibilidade de recurso tão importante (fundamental) nas terras do assentamento. A preocu- pação com a preservação do meio ambiente é perma- nente e reflete tanto a sabedoria da relação causa e efeito na natureza, como promove o debate entre os assentados, pois mantém o sinal de alerta acesso em relação à destruição dos recursos naturais e, portanto, do meio ambiente. A assistência tecnológica no campo é entendida por muitos trabalhadores rurais como um avanço da agro- pecuária na região. Exemplo do emprego de recursos tecnológicos nas atividades laborais do assentamento é verificado na produção leiteira: há 4 anos eram pro- duzidos 130 litros de leite por dia; atualmente, com a utilização da ordenha mecânica, a produção por dia gira em torno de 350 a 400 litros, um aumento médio de 300% na produção diária. Contudo, outra parcela de assentados responsabiliza o desenvolvimento tecnológico e o emprego de má- quinas no processo produtivo como um dos grandes responsáveis pela expansão indiscriminada do desma- tamento. Em passado recente, o que demandava ex- clusivamente a força de trabalho do homem, agora se realiza facilmente com a utilização de tratores de últi- ma geração no trabalho rural. Diante da submissão do Cerrado à ação da motosser- ra, do fogo, da destoca com lâmina e da gradagem, a sustentabilidade das formações vegetais desse bioma precisa ser assegurada, é preciso promover o estabe- lecimento da regeneração natural de espécies após a ocorrência de tantos distúrbios. Alba Rezende et al. (2005) afirmam que esse bioma vem conseguindo recuperar a sua riqueza florística, o que pode caracterizá-lo como um sistema resiliente que, ao ser modificado por distúrbios externos, re- torna à sua condição de equilíbrio original de forma gradativa. Manoel Guariguata e Juan Dupuy (1979) ar- gumentam que a compactação do solo decorrente da utilização frequente de máquinas e/ou sistemas me- canizados dificulta o desenvolvimento da flora e causa atraso no processo regenerativo. As nossas inquietações a respeito da regeneração do Cerrado suscitam o seguinte questionamento: mesmo que o bioma Cerrado apresente resiliência em sua re- cuperação natural, será mesmo que os produtores ru- rais respeitarão a relação espaço-tempo para que tal processo regenerativo se concretize? Outro aspecto abordado pelos assentados e encarado como positivo diz respeito à adubação artificial com a utilização de fertilizantes químicos, pois se tornou possível cultivar determinados tipos de grãos nunca praticados na produção agrícola do Cerrado, conforme argumenta D. G. (63 anos): E daí foi isso, chegou fazendo as lavoura e umas pessoas até chamam que o arroz passou a ser o des- bravador do cerrado. É isso, a transformação veio o desmatamento, vem a tecnologia, vem plantio, vem muito produto, adubo, lembro da primeira lavoura de adubo que eu vi de arroz, começou a plantá ar- roz no cerrado mesmo, terra vermelha não se plan- tava arroz, ai nos plantamo, primeiro arroz que eu vi plantá cuidá e colhe o arroz, mas muito fraco, dava pouco, o rendimento pequeno. Daí uns tempos um parente meu plantou, mas eu não sabia, passei no meio daquela lavoura depois de colhido e assustei com aquela lavoura, o tanto que ela tinha sido boa um arroz, bom demais e perguntei alguém o que o Manoel fez com aquele arroz que ele ficou bom demais, me falaram que é porque ele tinha usado adubo, mas eu não sabia o que era adubo, e per- guntei o que era isso porque não conhecia, ai me falaram que é um produto que tinha colocado no pé do arroz que ele cresce demais e desenvolve de- mais. Ai foi crescendo adubo para fazer correção de solo, e tudo isso foi acontecendo e o desbravamen- to do cerrado se deu ai, mas foi muito maquinário, muito maquinário, ai desmatou mesmo [...]. (D. G., 63 anos) Esse relato, em si, expressa o papel desempenha- do pela modernização e expansão da agricultura no processo de destruição do Cerrado; não apenas expressa a ocorrência do desmatamento, mas tam- bém o abandono e a consequente desintegração da produção agrícola tradicional, reforçada pelo cres- cimento do êxodo rural. De acordo com os sujei- tos participantes desta pesquisa, muitos trabalha- dores rurais perderam seus empregos em virtude da introdução das máquinas no processo produtivo agropecuário. As transformações do Cerrado em Morrinhos (GO) RBCIAMB | n.45 | set 2017 | 48-60 55 As grandes fazendas possuíam os denominados agre- gados ou meeiros, encarregados do trabalho geral nessas terras, que recebiam uma parte da terra para trabalhar e a outra parte para produzir para os grandes fazendeiros. Quando as máquinas chegaram ao campo, os fazendeiros simplesmente dispensaram essa mão de obra. Os agregados e meeiros foram obrigados a deixar as terras que tinham cultivado e perderam tudo que produziram com o seu trabalho. A maior incidência de êxodo rural no município de Morrinhos foi verificada na década de 1960, momento em que muitos agricul- tores deixaram o campo em busca de novas oportuni- dades na cidade. Na esteira das transformações ocorridas em Morrinhos, Rildo Costa e Flávia Santos (2010) apontam as mu- danças implementadas no processo produtivo da soja no estado de Goiás, que passou a ser realizado, sobretudo, em médias e grandes propriedades ru- rais com a intensa utilização de máquinas e insumos químicos em substituição à mão de obra do traba- lhador rural. Eliminação de mão de obra que incidiu na desintegração da agricultura familiar, na medida em que os pequenos produtores, sem condições de subsistir, buscaram a vida na cidade. Um verdadei- ro holocausto para a sustentabilidade. Atualmente observamos um movimento na direção contrária: a busca pelo desenvolvimento sustentável, ainda que tímida em nosso país. A manutenção da agricultu- ra familiar tem ganhado espaço, como perspectiva de um continuum para a preservação dos recur- sos naturais. O processo de mapeamento dos solos com o auxí- lio do sensoriamento remoto para o monitoramento e manejo das propriedades rurais também contribui substancialmente para a devastação do Cerrado e tem sido apontado como responsável pela fragmentação da vegetação nativa, devido às grandes extensões utiliza- das nas atividades produtivas agropecuárias na atua- lidade, à insuficiência e/ou ausência de planejamento preventivo de impactos negativos que o acompanha; bem como aos efeitos diretos e indiretos gerados por tal processo, como a poluição das águas, da atmosfe- ra, a compactação dos solos e a erosão, dentre outros (FARIA & CASTRO, 2007). Outro grande problema constatado no desenvolvimento da pesquisa, para além das áreas já desmatadas, é o cres- cimento do corte de madeira nativa para a construção ci- vil, para a edificação de cercas (mourão) e para a quei- ma (lenha/carvão). A solução se encaminhou — por boa parte dos produtores rurais — para a plantação de eucalipto, tendo em vista evitar a retirada de madeira da mata. Observamos uma interessante distinção das áreas de Cerrado na concepção dos assentados: a primeira diz respeito aos campos limpos e de baixa fertilidade, que ocorrem em áreas acidentadas como vales e bai- xadas; a segunda concepção se remete às terras ricas e férteis, denominadas de “mato”, ou de “cultura”, onde são encontradas as madeiras de lei — jatobá e aroeira. “Cerrado é diferente de mato. Cerrado é um mato baixo de madeira ruim. E o mato é de madeira boa” (J. B., 54 anos). Ocupamo-nos, ainda, em listar todas as espécies ve- getais e animais citadas pelos sujeitos participantes da pesquisa. As espécies estão dispostas por seus nomes populares nas Tabelas 2 e 3, contudo, não houve ob- servação in loco dos exemplares, pois as citações fo- ram baseadas nas histórias de vida, nas lembranças pessoais dos entrevistados de um passado em que o Cerrado era formado por diversificados componentes da flora e da fauna. Os nomes científicos listados foram pesquisados na literatura básica de plantas e animais nativos do Cerrado brasileiro. Somente duas espécies vegetais, o sorgo e o cipó-quadrado, não apresentam nome científico, visto que o único sorgo listado na litera- tura é cultivado, porém, na entrevista, a planta foi citada como a árvore de sorgo; e o cipó-quadrado não foi encontrado na literatura. Em excursão pela mata, todos os entrevistados demonstraram amplo conhecimento sobre as plantas que existiam em abundância na região. As plantas mais citadas como extintas na região de Morrinhos foram: jatobá, angico, aroeira e arati- cum. Algumas espécies como angico e pau-d’óleo foram apontadas como plantas medicinais, outrora utilizadas como remédio. As plantas frutíferas vi- nham às lembranças dos entrevistados como algo único e especial e faziam reluzir os olhos ao mesmo tempo em que expressavam no olhar o prazer de co- lher uma fruta no pé, como a gabiroba, a mangaba e o araticum. Prata-Alonso, R.R.; Santos, F.R. RBCIAMB | n.45 | set 2017 | 48-60 56 Os assentados, além de apontarem a ocorrência de uma grande diversidade de animais no Cerrado, ainda especificaram alguns traços fundamentais do comportamento de parte deles, como veado (catin- gueiro), guariba, tamanduá-mirim (meleta), beija- flor, gavião-carcará, quati, paca, cotia, onça-verme- lha, onça-preta, caititu e lobo-guará, animais que não são mais vistos na região. Outros, como inhambu, tu- cano, macaco, capivara, tamanduá-bandeira e jacaré, que eram sempre vistos, hoje são raros, praticamen- te desapareceram. O tamanduá-bandeira, o macaco-prego e o lobo-guará estão presentes nas listas das espécies da fauna brasi- leira ameaçadas de extinção (BRASIL, 2014). A vulnera- bilidade desses animais na natureza depende do grau de desmatamento do Cerrado nos próximos anos. As espécies hoje presentes no Cerrado e a categoria vul- nerável para elas apresentada, demostram que, se o avanço da agropecuária e o desmatamento persistirem nos próximos anos, certamente esses animais serão le- vados à extinção. Das poucas espécies de aves avistadas no desenvol- vimento da pesquisa, apontamos as araras como re- presentativas remanescentes de um grupo que luta insistentemente por sua sobrevivência no Cerrado de Morrinhos, devastado pela intensiva produção agropecuária. Lamentavelmente, os apontamentos, os relatos, os argumentos expressos pelos sujeitos participantes Tabela 2 – Espécies vegetais citadas pelos entrevistados. Nome comum Nome científico 1 Jatobá Hymenaea sp. 2 Angico Piptadenia sp. 3 Aroeira Schinus sp. 4 Pequi Caryocar sp. 5 Carvoeiro Sclerolobium sp. 6 Capitão Terminalia sp. 7 Sucupira Bowdichia sp. 8 Amarelinho Plathymenia sp. 9 Sorgo Espécie desconhecida 10 Araticum Annona sp. 11 Paineira * 12 Cipó-quadrado * 13 Guapeba Chrysophyllum sp. 14 Jacarandá Jacaranda sp. 15 Gabiroba Campomanesia sp. 16 Mangaba Hancornia sp. 17 Baru Dypterix sp. 18 Pau-d’óleo Copaifera sp. 19 Maria-preta Solanum sp. 20 Cafezinho Cordia sp. 21 Angá, Ingá Inga sp. 22 Ipê Tabebuia sp. *como são diversificadas/desconhecidas as espécies dessas plantas no Cerrado não foi especificado o nome científico. As transformações do Cerrado em Morrinhos (GO) RBCIAMB | n.45 | set 2017 | 48-60 57 Tabela 3 – Espécies animais citadas pelos entrevistados. Nome comum Nome científico 1 Seriema Cariama cristata 2 Catingueiro Mazama gouazoubira 3 Arara * 4 Jaó Crypturellus undulatus 5 Inhambu Crypturellus sp. 6 Juriti Leptotila sp. 7 Tatu Tolypeutes tricinctus 8 Macaco-guariba Alouatta fusca 9 Tamanduá-mirim (meleta) Tamandua tetradactyla 10 Tucano Ramphastos sp. 11 Beija-flor * 12 Pica-pau Celeus sp. 13 Gavião-carcará Polyborus plancus 14 Macaco-prego Sapajus sp. 15 Quati Nasua nasua 16 Paca Cunicullus paca 17 Cotia Dasyprocta azarae 18 Capivara Hydrochaeris hydrochaeris 19 Onça-vermelha * 20 Caititu Pecari tajacu 21 Tamanduá-bandeira Myrmecophaga tridactyla 22 Lobo-guará Chrysocyon brachyurus 23 Cascavel Crotalus sp. 24 Jacaré * 25 Coelho-do-mato * 26 Jaguatirica Leopardus pardalis 27 Onça-preta * 28 Cachorro-do-mato Dusicyon thous 29 Gato-do-mato * 30 Ema Rhea americana *como são diversificadas as espécies dessas plantas no Cerrado não foi especificado o nome científico. do estudo refletem os prazeres vividos de um Cer- rado em tempo ido. De um Cerrado em que era pos- sível e perfeitamente natural apanhar um fruto no interior da “mata”, amplamente povoada por uma diversidade animal riquíssima, praticamente dizima- da pela ação destrutiva das atividades produtivas do capital. Entretanto, são tais lembranças que persis- tem e insistem em manter viva a preocupação com a preservação dos remanescentes florestais na região de Morrinhos, na perspectiva de conservar o que restou do patrimônio natural denominado Cerrado do Brasil. Prata-Alonso, R.R.; Santos, F.R. RBCIAMB | n.45 | set 2017 | 48-60 58 CONCLUSÕES O perfil dos entrevistados nesta pesquisa nos faz crer na importância do papel da mulher moradora do AT; por mais que haja uma separação espacial de trabalho e de gênero no conhecimento das áreas em que vivem esses produtores, na estrutura social as mulheres de- monstraram dominância na organização de suas pro- priedades rurais. No histórico narrado da construção do AT no municí- pio de Morrinhos, observamos uma unanimidade dos relatos que apontam uma devastação já existente na região antes da tomada de terra pelos assentados. Conclui-se, então, que as experiências e atividades pro- dutivas agropecuárias realizadas no município de Mor- rinhos há muito têm contribuído para dizimar a vegeta- ção natural do Cerrado desde a década de 1960 com a ampliação da utilização de pivôs centrais na produção agrícola, mais especificamente. Assim como a ocor- rência de queimadas, tanto os períodos estendidos de seca (decorrentes de fenômenos climáticos) quanto as intervenções antrópicas, que aumentam as áreas de pastagem e de produção agrícola mediante a remoção de árvores, também têm contribuído substancialmente para a devastação do Cerrado. Na leitura da história de vida dos assentados, a exis- tência ou ausência de uma planta ou animal do Cer- rado nos permite afirmar seguramente que inúmeras espécies deixaram de ser conhecidas em decorrência do processo de desmatamento e destruição da ve- getação natural do Cerrado. Consequências extre- mamente maléficas para o meio ambiente e para a humanidade, pois o atendimento permanente às de- mandas impostas pela economia capitalista tem cau- sado danos irreversíveis, irreparáveis, irremediáveis ao meio natural. Inferimos ainda que os trabalhadores rurais do AT expressam a sua mais objetiva consciência da atual condição do Cerrado. Suas afirmações e argumentos convergem e expressam a grande preocupação com a urgente necessidade de se preservar o pouco que res- tou da vegetação natural original na região de Morri- nhos. Os assentados do Tijuqueiro reiteram que é pre- ciso empreender ações imediatas, como a destinação de áreas em suas propriedades à criação de reservas florestais — se não para reverter a deplorável situação do Cerrado, pelo menos para que essas ações sirvam para evitar a expansão da destruição. REFERÊNCIAS BRANDÃO, A. S. P.; REZENDE, G. C. de; MARQUES, R. W. da C. Crescimento agrícola no período 1999/2004: a explosão da soja e da pecuária bovina e seu impacto sobre o meio ambiente. Economia Aplicada, São Paulo, v. 10, n. 2, p. 249- 266, abr./jun. 2006. Disponível em: . Acesso em: 26 jun. 2017. BRASIL. Portaria MMA n.º 443, de 17 de dezembro de 2014. 2014. Disponível em: . Acesso em: 10 nov. 2015. COSTA, R. A.; SANTOS, F. de O. Expansão agrícola e vulnerabilidade natural do meio físico no sul goiano. Geografia em Atos, Presidente Prudente, v. 2, n. 10, jul./dez. 2010. Disponível em: . Acesso em: 23 set. 2015. DELLA GIUSTINA, C. C.; FRANCO, J. L. de A. 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